Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Porque há tanta porcaria na Internet?

Há quem fique desesperado: abre o Facebook e vê posts cheios de erros, imagens com citações mal atribuídas, notícias falsas, opiniões que não lembram ao diabo.

O problema não é só da Internet: olhamos para as prateleiras das livrarias e encontramos maus livros. Na televisão, muito do que se vê não presta. Na rádio, só ouvimos música má. Está bem que poucos concordam com aquilo que é bom e aquilo que é mau — mas quase todos se declaram francamente desesperados…

A lei da porcaria universal

Ora, deixem-me apresentar a Lei de Sturgeon: 90% de tudo o que se faz é lixo. Isto vale para textos, livros, músicas, etc. Encontrei esta lei, pela primeira vez, num livro de Daniel Dennett chamado, no original inglês, Intuition Pumps And Other Tools for Thinking (um livro que ajuda a pensar melhor e vale muito a pena ler).

Foi nesse livro que encontrei a tal lei, mas esta foi inventada por Theodore Sturgeon, um escritor de ficção científica que defendia com este conceito o seu género de eleição: é verdade que 90% dos livros de ficção científica não prestam. Mas há sempre uns 10% que são muito bons — e, para dizer a verdade, também nos outros géneros 90% do que se vende é lixo. Os defensores da «boa literatura» (que torciam o nariz à ficção científica) limitavam-se a cair num erro clássico: comparavam os 10% de boa literatura doutros géneros com alguns maus exemplos de ficção científica. Assim, é fácil deitar abaixo um género inteiro.

A percentagem em si será exagerada? Se o leitor quiser ser mais optimista, esteja à vontade. O certo é que a realidade pende para o lado do mau… Usemos a percentagem que quisermos, esta lei ajuda-nos a pôr as ideias no lugar.

Repare o leitor: a Lei de Sturgeon aplica-se a tudo, mesmo àquilo que nós próprios fazemos. Ou seja, quem escreve ou quem faz música fará muito mais coisas más do que coisas boas.

O problema é que não podemos decidir «hoje vou fazer coisas boas». A coisa não funciona assim. Só depois de fazer muita porcaria, conseguimos tirar a ferros de dentro do nosso talento (seja ele muito ou pouco) alguma coisita relativamente boa. Os 10% aparecem lá para o fim — ou, talvez, espalhados em tudo o que fazemos de maneira mais ou menos aleatória.

Da mesma forma, dentro duma qualquer arte ou actividade, 90% do que se faz é mau. Sim, podemos ler muitos artigos de Sociologia e encontrar pouca coisa boa; o mesmo acontece na Física, na Literatura, etc. e tal. Dos livros publicados, só uns poucos valem a pena — mas eles existem; o difícil é encontrá-los.

O passado é doce, o presente dói

A Lei de Sturgeon tem uma consequência surpreendente: só com a quantidade chegamos à qualidade. Não conseguimos evitar os 90% de porcaria. Os 10% só aparecem no meio do oceano de tentativas frustradas…

Oiço, por vezes, quem afirme que «hoje em dia» (expressão perigosa…) todos apostam na quantidade, esquecendo a qualidade.

Ora, é fácil olhar para o passado e ver um tempo cheio de coisas boas, bem longe da enxurrada de coisas más de hoje em dia. É um engano. Do passado, lembramo-nos do que é bom. É normal: as más músicas e os maus livros não deixam marcas. Além disso, o tempo é um filtro, como sabemos. Assim, o próprio filtro encarrega-se de nos esconder tudo o que de mau se fazia.

No fundo, quem idealiza o passado faz o mesmo que os críticos da ficção científica que Sturgeon atacava: pegam no que era bom do passado e comparam com o que é mau hoje em dia.

Admito que muita da porcaria que se escrevia ou compunha ficava na gaveta. Hoje, é mais fácil que saia à luz do dia. Mas no meio da enxurrada, há muita coisa boa. Só temos de a procurar.

Vemos isto em tantos sítios: nas escolas (sim, os bons alunos continuam a existir, só que há muito mais alunos e muito mais variedade do que «antigamente»; e, diga-se, até os maus alunos merecem ir à escola e aprender, por mais desesperados que fiquem aqueles que preferiam ver as escolas como depósitos de pequenos génios); nos jornais (há tanta coisa má, claro, mas os textos bons não desapareceram); nas cidades (quantas ruas cinzentas e tristes têm de existir para encontramos uma vista que nos anime?); nas amizades (quantos falsos amigos temos de ter para encontrar aquele que fica ao nosso lado aconteça o que acontecer?); nas ideias (quantas tentativas frustradas não são necessárias até encontrarmos aquela boa ideia que nos resolve o problema?); na evolução (quantos organismos morrem para que uns poucos se reproduzam?); num pequeno texto como este (quantas frases enormes tem o leitor de aturar para chegar à pequena pérola que vale a pena — se é que a pérola está lá?).

Todos podemos ser bons (mas só às vezes)

Claro que há quem escreva muito melhor do que os outros; há quem cante bem e quem cante mal; há quem seja um realizador de génio e quem não passe dum aprendiz. Mas, se tentar muitas vezes, até um mau escritor conseguirá arrancar das suas mãos umas quantas coisas boas, de vez em quando. Quase tudo é mau, mas a tal Lei de Sturgeon até é bastante optimista, se virmos bem.

A lição é clara: vale a pena procurar o que é bom. O mundo sempre teve muito mais coisas más do que boas, mas esse facto da vida é inevitável. O esforço da procura vale a pena pelos momentos de prazer que os bons livros, a boa música, os bons filmes e, em geral, a boa arte nos oferecem, de vez em quando.

(Publicado no Sapo 24 no dia 7 de Janeiro de 2018.)

A Cidade das 1001 Línguas

Nova Iorque não é a capital de nada: nem do país (embora seja a maior cidade dos Estados Unidos) nem sequer do próprio Estado de Nova Iorque. É certo que é por lá que reside o Guterres — e isto talvez chegue nalgumas cabeças para chamar à cidade a Capital do Mundo.

Não sei se será do mundo, mas — desviando a atenção para o tema preferido por estas paragens — Nova Iorque é a capital da língua inglesa. Digo isto com algum medo de levar porrada dum londrino, mas o critério que usei é só este: é a maior cidade do maior país de língua inglesa — e é a maior cidade de língua inglesa tout court (lamento a intromissão francesa).

E, no entanto, o mundo tem destas coisas: a cidade que está no centro da grande língua que parece engolir o mundo e é hoje a língua de comunicação internacional é também a cidade onde se falam mais línguas em todo o mundo.

Serão umas oitocentas as línguas faladas pelos nova-iorquinos — a BBC, neste artigo, chama mesmo à cidade «o cemitério das línguas», pois há línguas em perigo de extinção que ainda se ouvem naquelas ruas. Nova Iorque é a capital do mundo, do império, do que se quiser, e como todas as capitais há por lá habitantes de todas as províncias, que trazem as suas línguas e falares… Parece que metade (!) dos nova-iorquinos fala uma língua diferente do inglês em casa. 

O leitor não acredita nesta diversidade absurda? Não sei se gostava da série Seinfeld — havia por lá um episódio em que o George tentava converter-se em orgulhoso membro da Igreja Ortodoxa da Letónia. Podia ter calhado qualquer outra religião, cultura, língua… Como há por lá letões, também há arménios, mongóis, turcos, albaneses, tailandeses, suíços, cazaques, portugueses, paraguaios e tudo o mais. Pensar em 800 línguas diferentes não é assim tão descabido.

Há também esses bichos que são os turistas — eu sei que na cabeça de alguns já são uma espécie de praga sub-humana, mas são gente, ora bolas! Eu, pelo menos, que já fui turista várias vezes, continuo a achar que tenho direito à vida… E se tenho direito à vida, também tenho direito de falar a minha própria língua com a Zélia, que ia ao meu lado na viagem de que já falei ao meu caro leitor

Assim, para lá dos nova-iorquinos dos quatro cantos do mundo, há os turistas das sete partidas do mesmo mundo. Pelas ruas da cidade ouvem-se 800 línguas nativas (se são faladas por nativos da cidade, são nativas) e mais umas quantas de nativos doutros sítios… Logo, não estarei muito longe da verdade se chamar a Nova Iorque a Cidade das 1001 Línguas.

Quem quer conhecer o Jimmy Fallon?

Pois bem: conto agora como tive experiência directa desta diversidade imensa. Num dos dias da tal viagem, enquanto nos divertíamos pelas ruas, como se estivéssemos num cenário de todos os filmes e todas as músicas — o tal império está bem entranhado na nossa cabeça — fomos dar com o nariz nos estúdios da NBC, no edifício 30 Rockefeller Plaza. O edifício é nova-iorquino até à sua medula de aço…

A cidade é o que é e entrámos não nos estúdios (não tínhamos nenhuma entrevista marcada), mas na loja da NBC. Sim, a NBC tem uma loja gigantesca onde podemos comprar merchandising da cadeia: e garanto-vos que ficamos de boca aberta a olhar para tudo o que se pode vender numa televisão…

Andávamos por lá quando um rapaz muito simpático se aproxima e pergunta se queremos fazer parte do público do programa Late Night with Jimmy Fallon — ficámos pasmados: íamos mesmo participar num programa de televisão americano? O Jimmy Fallon não era ainda muito conhecido — ou pelo menos, nós não o conhecíamos muito bem. Mas o entusiasmo tornou-nos, naquele momento, fãs incondicionais e eternas do homem.

O rapaz lá explicou que, enfim, não era bem assistir ao programa, mas a um dos ensaios, em que o Jimmy Fallon iria experimentar as piadas do monólogo inicial para ver quais resultam e quais não resultam — para depois as repetir à noite. Não interessa: o nosso sonho sempre fora assistir a um ensaio do programa do Jimmy Fallon!

Dissemos logo que sim e lá pegámos nos dois bilhetes, que iríamos usar dali a umas duas horas. No entretanto, teríamos de nos entreter pelos arredores da Rockefeller Plaza, o que — Nova Iorque é Nova Iorque — não era muito difícil.

É ali, naquele sítio, que fica instalada a famosa árvore de Natal onde o miúdo do Sozinho em Casa 2, depois de se encontrar com o futuro presidente dos E.U.A., vê por fim a sua distraída e triste mãe.

Os edifícios são de ficar de boca aberta. Ali mesmo ao lado temos a Catedral de São Patrício — e, claro, não podemos andar muito sem encontrar uma livraria, o que me dá para gastar duas horas e muito mais. Foi por isso que, naquele dia, houve quem tivesse visto o ensaio do programa com um saco cheio de livros aos pés.

O americano que sabia onde era Portugal

À hora marcada, estávamos à porta do edifício da NBC. A bicha era enorme, todos de bilhetes na mão. Pusemo-nos atrás dos outros convidados para o grande ensaio…

Entretanto, um rapaz bem louro e bem americano ia recolhendo os nomes e os países das pessoas. Quando chegou a nossa vez, lá dissemos os nomes e o país: Portugal.

Ora, na cabeça de muitos portugueses, um americano perante o nome do nosso país ou coça a cabeça ou diz algo como «Ah, em Espanha, não é?»

Pois, eu tenho uma teoria: a ideia de que somos uma província de Espanha é uma ideia muito… portuguesa. Ou melhor: não é que nós concordemos com tal afirmação, mas sempre que a ouvi não foi da boca de nenhum estrangeiro, mas antes da boca de algum português a reclamar contra os tais estrangeiros que dizem o tal disparate.

Ora, a verdade é que há um ou outro estrangeiro distraído a quem já ouvi dizer, a seguir ao nome de «Portugal» algo como «Ah, sim, fica ali perto de Espanha, não é?» — o que, diga-se, não prova distracção alguma, pois é a mais pura das verdades: estamos ao pé de Espanha. Ao lado e por baixo, para dizer a verdade.

Eu sei que o nosso orgulho de nação valente e antiga nos leva a preferir os estrangeiros que dizem o contrário: «Ah, Espanha, ali ao pé de Portugal, não é?» Pois, o problema é que há poucos desses.

Sejamos generosos: é normal que as pessoas se orientem desta maneira… Nós também dizemos que a Irlanda é ao pé do Reino Unido; que a Bélgica fica ali mesmo por cima de França; que a Holanda é ao lado da Alemanha; que a República Checa é assim como que a antiga Checoslováquia menos um pedaço; que a Lituânia fica lá para os lados da Rússia… Pronto, é bem verdade que a Lituânia nunca descobriu o Brasil nem chegou por mar à Índia — mas teve uma grande história que fazemos mal em ignorar.

Tudo isto para dizer que fiquei à espera do esgar de incompreensão perante a nossa simples declaração: viemos de Portugal! Note-se que isto foi muito antes de ser um português o político mais importante de Nova Iorque. Foi ainda antes de a nossa Selecção ganhar o Euro — e ainda faltavam muitos anos para a estrondosa vitória na Eurovisão… Depois destes feitos históricos, é habitual que os americanos saibam onde é Portugal! Aliás, muitos têm posters do Éder e do Salvador no quarto, segundo dizem.

Mas, nesses velhos tempos, julgávamos nós que os americanos sabiam tanto sobre Portugal como nós sobre o Butão. O problema, claro, é que confundimos sempre os americanos com o Americano que está na nossa cabeça. Este último é um bicho inculto e, vá, inexistente, fruto da nossa imaginação dada a caricaturas. Os primeiros são para cima de 300 milhões.

Pois, desses 300 milhões, calhou-nos precisamente aquele que, perante o belo nome de Portugal, sorri com todos os dentes.

Portugal? I love it!

Era simpatia falsa de quem nos estava a apaparicar com vista a obter um público bem domado? Nem por isso: o homem desatou a falar dos encantos de Coimbra, de como o Porto não ficava atrás e não deixou de elogiar Lisboa — «But Coimbra, oh, Coimbra!…»

Ficámos de boca aberta, a dizer que sim com a cabeça, contentes por irmos ver o Jimmy Fallon e por sabermos que um dos seus produtores era um apaixonado por Coimbra. Lá nos deixou, depois de uns bons minutos a falar de Portugal, passando a conversar com os senhores de trás. A conversa foi muito menos entusiasmada. O problema é que não eram portugueses e ele não conhecia tão bem a Coreia do Sul… 

Tantas línguas numa sala

A bicha de turistas entrou então, ordenadamente, numa pequena sala, onde ficámos de pé. Deixem-me reformular: entrámos todos numa pequeníssima sala, onde só podíamos estar de pé, já que não havia espaço para mais nada. Ali estavam umas boas dezenas de habitantes sortidos deste belo planeta empacotados numa minúscula divisão dum enorme arranha-céus.

Estávamos à espera do quê? De quem? Para quê? Passaram alguns minutos e começámos a ficar impacientes. Ouvimos conversas e telefonemas em várias línguas. Alguns pareciam já um pouco zangados, mas talvez fosse da língua e não da zanga — há idiomas que nos soam mais agressivos do que outros, mesmo quando aquilo que ouvimos é um melífluo poema de amor.

Tanta diversidade ali espelhada na pequena sala à entrada do estúdio dum programa visto em todo o mundo… Aproveito, enquanto estou com o leitor nesta sala carregada de turistas à espera não sabemos bem do quê, para perguntar: será que a diversidade linguística do mundo está a diminuir ou está a aumentar? Por um lado, o inglês avança pelo mundo fora; por outro, nunca tínhamos ouvido falar de tantas línguas diferentes — mesmo aqui ao lado, em Espanha, agora parece que há mais línguas quando, há umas décadas, os portugueses só ouviam falar do espanhol e pronto. Em Portugal, vejam lá, ouvimos mais variação: antigamente, parece que não havia tantos sotaques…

Na verdade, há muitas línguas a morrer e a diversidade dentro de cada língua parece estar a diminuir. Por outro lado, a diversidade que ainda existe é mais visível do que alguma vez foi — há quem proteja com unhas, dentes e língua as maneiras diferentes de falar.

Mas por que razão digo que a diversidade está a diminuir? Por causa do inglês? Também, mas não só (ou nem sequer principalmente por causa do inglês): na verdade, as línguas oficiais de cada Estado estão mais fortes do que nunca e, dentro de cada língua oficial, as formas de prestígio espalham-se com uma força inaudita por causa da escolaridade, televisão, rádio, etc.

Parece estranho dizer isto, mas aquilo que tem acontecido, ao longo das décadas, é um fortalecimento das normas de cada língua. Muitas pessoas deixam para trás, de forma gradual, os falares mais distantes da maneira como se fala nas capitais. Da mesma maneira, em países com muitas línguas, a tendência tem sido para que muitas delas percam falantes.

A diversidade diminui. Mas, depois, as misturas são mais que muitas. Há umas décadas, haveria menos gente a viajar, a sair da sua terra, a ouvir outras maneiras de falar — e muito menos outras línguas. É cada vez mais difícil ser um perfeito monolingue.

Isto também tem a ver com Portugal: há umas boas décadas, a diversidade linguística era maior (vemos esse movimento centrípeto na maior diversidade linguística nos falares das gerações mais velhas em comparação com os falares das gerações mais novas). Hoje, há uma maior aproximação às formas de prestígio (e, diga-se, neste jogo nem sempre as coisas correm bem, pois os contactos entre gente de regiões e classes sociais levam a alguns atritos linguísticos que pedem uma atitude um pouco mais saudável para com a diversidade).

Resumindo isto dentro da nossa história bem real sobre como vimos ao vivo o Jimmy Fallon: aquela gente toda ali na salinha dos estúdios da NBC falaria menos línguas diferentes do que os seus bisavós. Talvez algum chinês estivesse a usar já o mandarim, quando o seu bisavô não falaria mais que a língua da sua província. Ou então o galego ali ao nosso lado estaria a falar castelhano, quando os avós falariam galego. Talvez o francês de Marselha à nossa frente falasse francês sem dúvida e sem perdão, quando os seus trisavós eram ainda adeptos de discutir tudo no velhinho occitano — e nós falávamos com um sotaque parecido com o lisboeta, bem diferente dos sotaques dos nosso avós…

Mas, na verdade, o bisavô galego, o trisavô occitano, o pai chinês, os avós alentejanos — dificilmente se encontrariam todos na mesma sala por mais voltas que o mundo desse.

Por isso, volto a dizer: a diversidade está a diminuir, mas a sua visibilidade está a aumentar — e, no que toca a este segundo ponto, ainda bem.

Saber rir na altura certa

Abre-se então a porta e aparecem uns três homens de ar divertido. Apresentaram-se: eram os guionistas responsáveis por escrever as piadas do nosso Jimmy Fallon. Explicaram o que iria acontecer: o tal Jimmy aparecia como sempre, no início do programa, e iria contar piadas — nós devíamos ouvir e rir sempre que nos apetecesse. O objectivo era testar as piadas. Ver o que resulta. Saber se aquilo que parece genial não passa duma piada seca.

Foi então que nos fizeram a todos um pedido:

— Se alguém aqui não percebe assim muito bem inglês, diga-nos, por favor! É que precisamos de gente que perceba as piadas… — e riram-se durante dois segundos, calando-se de seguida, muito sérios, à espera que os pecadores se denunciassem.

O problema — pensei eu — é que se, de facto, alguém não percebia inglês, é bem possível que também não percebesse a pergunta.

Lá entrámos todos no estúdio, debaixo das luzes, com a secretária do apresentador e o sofá dos convidados ali mesmo à nossa frente, a cortina por onde iria entrar o nosso amigo Jimmy à direita e a inevitável banda já a ensaiar.

Sentámo-nos, começou a música, apareceu o Jimmy Fallon, contou boas piadas e todos nos rimos. Se ali alguém não sabia inglês, sabia pelo menos rir na altura certa. O estúdio, esse, parecia muito mais pequeno do que na televisão — mas isso é o que todos dizem.

De todas as piadas — que eram boas — só me lembro de uma: parece que nesse dia o Facebook tinha ido abaixo durante uma hora. «Foram avistadas pessoas com ar ressacado, na Quinta Avenida, a apontar para vários objectos e a gritar “Like”, “Like”, “Like”.» Enfim, perdoem-me a tentativa… Não tenho tanto jeito para contar piadas como o homem… O que nos rimos nós das piadas dele (ou melhor, das piadas dos três senhores que conhecêramos na salinha) — por mais línguas que haja, há coisas que são mesmo universais. A capacidade de aprender uma língua, por exemplo — e a capacidade de rir. E se é verdade que o humor é das coisas mais difíceis de traduzir, também é verdade que não há língua sem piadas.

Quando o ensaio terminou, saímos para a rua. Ainda era de dia e ficámos atrapalhados com o sol nos olhos. Afinal, estivéramos num estúdio que fingia uma eterna noite nova-iorquina. Continuávamos o passeio? Ora, tinha um saco de livros na mão.

Fomos até ao hotel, com um sorriso nos lábios e a ouvir à nossa volta as línguas todas daquela cidade que não se cala.

Os nossos objectos (ou como tranquei a minha família em casa)

Há umas semanas, estive quase para não escrever esta crónica porque deixei cair os óculos no mar. Pois, esta semana aconteceu algo pior: deixei o computador em casa.

Pânico: só volto a casa no domingo à noite. Como escrever o texto?

Enfim, a solução está no bolso: o telemóvel. O problema é que escrever mais do que dez palavras no telemóvel irrita-me os dedos. Lá dei umas voltas à cabeça e depois de algumas aventuras que ficarão para outro dia, já tenho um teclado de jeito à minha frente. A crónica há-de sair.

Este meu lapso de bagagem levou-me a pensar nos objectos que nos afligem quando estão longe. Sim, nós somos dependentes de muitos objectos. Imagino que já todos estão a pensar nos telemóveis, mas o que dizer das ferramentas de cozinha, da roupa, dos óculos? Ou do papel higiénico?

Onde estão os óculos escuros?

Depois da tal aventura em que perdi os óculos, acabei por conseguir uma daquelas promoções em que paguei um e levei dois. Foi assim que, pela primeira vez na vida, arranjei óculos escuros graduados.

Agora é ver-me pelas estradas da vida a acelerar sem semicerrar os olhos — e a travar logo a seguir porque cheguei ao sinal vermelho.

Ora, estranhamente, se por acaso me esqueço dos óculos escuros, fico irritado e com dores nos olhos por causa da luz — tanta luz! O que é estranho, pois nunca me tinha sentido especialmente incomodado por conduzir ao sol antes de ter óculos escuros…

O terror na casa de banho

Sei que isto não é assunto digno, mas faz parte da vida e, como tal, faz parte da crónica. Pois quem de entre nós nunca se esqueceu de verificar se há papel higiénico e, chegando ao final do processo que o trouxe àquela importante divisão da casa, ficou em pânico quando percebeu que nada tinha para resolver o problema?

O que vale é que todos nós temos o mítico telemóvel no bolso das calças caídas no chão e, se é verdade que muitos o vilipendiam, o tal objecto já me safou de apertos deste género, permitindo-me pedir ajuda a quem me podia trazer o confortável papel.

Mau, mau foi o dia em que me esqueci do papel higiénico e do telemóvel. O horror, o horror!

Mas nisto dos esquecimentos, há pior…

As chaves esquecidas (e a família presa em casa)

Claro que já me esqueci das chaves e tive de fazer viagens nocturnas por causa dessa distracção — julgo que poucos serão os portugueses a quem tal nunca aconteceu.

Mas há pior: lá por casa, depois de nascer o meu filho, ganhámos o hábito de fechar o corredor dos quartos à chave para que o nosso gato não vá onde não é chamado. Sim, o bichano consegue abrir portas — só ainda não aprendeu a rodar a chave. Pois um dia, saio do quarto para ir ao supermercado. Chego à entrada, tranco o corredor como de costume. Saio de casa — e reparo que não tinha trazido a chave.

Foi então que senti um piano a cair-me em cima com estrondo: a minha mulher estava no quarto, com o meu filho — e a chave de casa estava na sala. Nem ela podia abrir a porta, nem eu podia entrar em casa. Acabara de trancar a minha família no quarto!

A minha cunhada tinha uma cópia da chave, que estava em casa dela. E a chave da casa dela? Estava na mala pendurada na sala de professores duma escola do outro lado da cidade. Durante duas horas, percorri a cidade com vários molhos de chave no bolso, impaciente para reencontrar mulher e filho presos no quarto. Imaginem o esforço que fiz para parar nos semáforos e nas passadeiras. Com alguma dificuldade, não atropelei ninguém e não passei por cima de nenhum carro.

Duas horas depois, libertei a minha família — e nunca mais me esqueci da chave.

Os objectos moldam-nos o corpo

Se algum extraterrestre aterrasse na Terra, veria o nosso mundo dominado pelas bactérias. Mas, para lá desses bichos — que são muito mais numerosos do que nós e hão-de nos sobreviver a todos —, os extraterrestres notariam a nossa presença.

No entanto, imagino que, mais do que os nossos frágeis corpos de símio pouco peludo, o que impressionaria os visitantes celestes seria a panóplia de objectos com que andamos a forrar a Terra.

Estradas, muralhas, cidades, campos de cultivo, roupa, lixo, papéis onde os tais mamíferos escrevinham uns símbolos estranhamente relacionados com os sons que lhes saem da boca… Há ainda ecrãs, transmissões variadas, antenas e colunas de som.

Nós criamos objectos e estes acabam por nos transformar mais do que pensamos. Até a forma das nossas cabeças, bem diferente dos restantes símios, parece adaptada aos alimentos cozinhados — e este é apenas um exemplo da maneira como os objectos são uma continuação dos nossos corpos.

Também por isso, creio que poucos de nós sobreviríamos na floresta. Exagero? Talvez. O ser humano adapta-se a tudo. Mas estou certo que o papel higiénico nos faria muita falta — para não falar do telemóvel, para pesquisar no Google como caçar um bisonte. Por outro lado, não consta que, na floresta, alguém consiga deixar a família trancada em casa, o que me parece uma vantagem a ter em conta.

Publicado no Sapo 24 no dia 12 de Novembro de 2017.

Somos todos descendentes de Afonso Henriques?

Os livros servem para muita coisa — para passarmos bons momentos na praia e até para perceber melhor o mundo. Aqui ficam quatro exemplos.

1. O estranho caso dos aviões sem balas no motor

Há uns tempos, li num excelente livro sobre matemática (já vos digo qual) uma história muito curiosa que mostra bem como nos podemos enganar com facilidade.

Alguns especialistas americanos, durante a II Guerra Mundial, começaram a analisar os aviões que chegavam da guerra para ver que partes da fuselagem tinham mais buracos de balas — e assim reconfigurar os aviões para proteger os pontos mais frágeis.

Os especialistas chegaram então à conclusão que a zona do motor era aquela onde havia menos buracos de balas inimigas. Logo, era ali que podiam poupar na protecção. Pelos vistos, os inimigos acertavam menos no motor do que nos outros locais do avião.

Pois foi um matemático de nome Abraham Wald que impediu tal disparate: na verdade, havia menos buracos de balas na zona do motor porque, quando a bala acertava no motor, o avião tinha tendência para cair.

Ou seja, os aviões que chegavam aos EUA para serem analisados eram aqueles aviões que, por acaso, não tinham levado um tiro no motor. Os que tinham mais buracos na zona do motor estavam no fundo do mar e não no laboratório daqueles especialistas.

Claro que os aviões tinham menos balas no motor — aqueles eram precisamente os aviões que não tinham levado tiros em zonas críticas…

Quando lemos esta história, faz-se um clique na cabeça e vemos como é tão fácil enganarmo-nos mesmo quando olhamos de frente para a realidade. O erro descrito nesta história é muito comum e apanha-nos quase todos os dias.

O livro onde encontrei esta história é Como Não Errar, de Jordan Ellenberg. A Penguin publicou o capítulo em questão nesta página (em inglês). O livro, diga-se, ajuda-nos a perceber como esta história se repete todos os dias…

2. Todos temos avós famosos

Bem, aqui fica mais um caso de enganos resolvidos com matemática. Na Inglaterra, está agora na moda encontrar ascendentes históricos de gente famosa — e as pessoas assim premiadas com um avoengo espampanante ficam muito orgulhosas. Ah, afinal são gente não só famosa, mas também de pergaminhos antigos.

Ainda em 2015 alguém descobriu que Benedict Cumberbatch era descendente de Ricardo III, o rei que o actor iria representar numa série de televisão. Não sei o que Cumberbatch pensou do caso, mas muita gente ficou pasmada com a coincidência.

Só que não era coincidência: na verdade, o mais provável é eu próprio, aqui neste canto da Europa, ser também descendente de Ricardo III. Eu — e o meu caro leitor. Somos todos!

E também somos todos descendentes de Afonso Henriques (sim!). E de Maomé (ah, pois é!). E só não seremos descendentes de Jesus porque dizem que não teve descendentes.

Como é isto possível? Bem, pensemos ao contrário: tenho dois pais, quatro avós, oito bisavós… Se continuarmos por mais umas quantas gerações em direcção ao passado, chegaremos rapidamente a números impossíveis — o que significa que somos todos primos uns dos outros, de forma bem mais imbricada do que imaginam os defensores de certas ideias de pureza dinástica.

As contas são um pouco mais difíceis do que possa parecer ao lermos o parágrafo anterior. O leitor pode ver a explicação mais desenvolvida neste pequeno artigo — mas se quer que lhe diga, bem mais interessante será ler o pequeno livro chamado O Mistério do Bilhete de Identidade, de Jorge Buesco. Perceberá que é descendente até dos faraós — e aproveita para ficar a conhecer um livro muito simpático.

3. Dois livros para nos tirar as palas dos olhos

As palavras são perigosas — podem enganar-nos e bem. Basta pensar no uso matreiro de termos como «energia», «magnetismo», «quântico», etc. Podemos ainda imaginar o estrago criado por certos mitos relacionados com a natureza, com a ciência, com aquilo que está ou não provado. Afinal, há quem ande por aí a dizer que a teoria da Evolução não está provada porque é só uma teoria — mostrando de uma assentada que não sabe bem o que quer dizer «prova» nem o que quer dizer «teoria» no campo da ciência.

Como os dois casos de que falei acima mostram, por vezes, temos de olhar para os números para nos curarmos da embriaguez das palavras bonitas. Ou, pelo menos, temos de ser críticos com as nossas próprias ideias e estar sempre à coca para encontrar os erros sedutores que nos esperam à esquina.

Pois acabou de sair um livro que nos ajuda a fazer isso mesmo: Não Se Deixe Enganar, escrito por membros da Comcept. Vale bem a pena!

Sim, esta semana apeteceu-me falar de livros. E fica a faltar a última sugestão: não, não tem nada a ver com matemática ou ciência e não acabou de sair. É um livro antigo — o que se passa é só isto: acabei de o ler esta semana.

Se não nos ajuda a não sermos enganados por aviões que fogem das balas nazis ou a percebermos que, no fundo, somos mesmo todos primos, este livro tira-nos a ilusão de que as vidas dos outros são tão banais como parecem e ajuda-nos a perceber como a mais triste das existências pode conter em si uma beleza que os bons escritores conseguem revelar na sua esplendorosa tristeza. Não sei dizer muito mais. O livro é Stoner, de John Williams. Foi publicado em 1965, perdeu-se no tempo e foi recuperado há alguns anos. Aconselho vivamente quem me lê nestes dias de Verão a ir correr à livraria e a comprá-lo. É um livro triste, mas também de tristeza se faz a beleza da vida — talvez seja um choque lê-lo ao sol, numa praia. Mas será um choque que vale a pena.

O que têm estes quatro livros a ver uns com os outros? Entre matemática e literatura, são livros que nos tiram as palas dos olhos e mostram o mundo um pouco mais perto do osso.

Que este ano vos traga muitos e bons livros — é o que vos desejo.

Este artigo foi publicado no Sapo 24 no dia 9 de Julho de 2017.

Palavrões portugueses nas bocas galegas

Aviso: esta crónica contém palavrões e transcrições fonéticas [e foi publicada no Sapo 24 no dia 5 de Novembro].

Um palavrão galego na Volta a Portugal

Sabe o leitor quem é David Blanco?

Ora, meu caro leitor, ponha lá na cabeça a musiquinha da Volta a Portugal — aviso já que é melodia para ficar a martelar o cérebro o dia todo. Toca a pedalar!

David Blanco é o galego que venceu cinco edições da Volta a Portugal em Bicicleta.

Houve pela RTP muita entrevista em que os jornalistas se afadigavam a entrevistar o David em portunhol — e o galego fazia-lhes a desfeita de responder em galego.

Confesso agora: tinha pensado encontrar um vídeo de uma dessas entrevistas em que o jornalista tenta falar espanhol com um galego que responde em galego. Só que me saiu o tiro pela culatra. O único vídeo que encontrei foi um vídeo que não posso passar aqui — mas garanto que o jornalista não se confundiu: aquilo que David disse não era castelhano…

Hesito. Se calhar até passo o vídeo…

Enfim, peço ao leitor mais cioso da pureza dos seus ouvidos que salte à frente. Ou então mude de crónica — há aqui umas notícias e uns textos ao lado bem interessantes.

Ficou? Foi avisado! Não se queixe, por favor.

Cá vai, então. Oiça esta entrevista de David Blanco:

Os portugueses entrevistam-no — vá lá que não tentam afogar-se no espanhol — e ele responde sem papas na língua.

Repare no fim da entrevista:

— E amanhã como vai ser?

— Como vai ser? Apertar um [CENSURADO] contra o outro e dar-lhe duro…

O riso do jornalista não teve língua.

Note-se que ele não disse as palavras exactamente como nós diríamos em Portugal. Disse «apretar», por exemplo. A própria expressão «dar-lhe duro» tem o seu quê de estranho.

Ah, mas o palavrão… O palavrão é bem nosso!

Aliás, ouvi várias vezes (as coisas que um cronista faz…) e, aos meus ouvidos, Blanco diz a palavra precisamente como nós.

Como transcrever um palavrão?

Eis agora uma estreia no Sapo 24! Uma análise fonética… dum palavrão! É verdade que o Alfabeto Fonético Internacional não costuma aparecer em crónicas deste tipo, mas também é verdade que esta análise em particular dificilmente vai parar às páginas dum livro de linguística…

Aqui fica a transcrição daquela palavra na boca do David e ainda no português de Lisboa e do Rio de Janeiro, para comparação (as duas últimas fui buscá-las ao Portal da Língua Portuguesa):

Bem, à parte a fonética, pergunto ao leitor: um ciclista português diria isto na televisão ou na rádio? Provavelmente, não. O Cristiano Ronaldo disse «Se perdermos, que saf*da!», mas não sabia que estava a ser gravado.

Ora, os galegos… Como hei-de dizer isto?

Palavrões a norte do Norte

Explico na prática. Imagine-se o leitor numa aula na FCSH, ali à Avenida de Berna. O convidado é galego — José Ramom Pichel, um engenheiro informático que foi falar com os meus alunos sobre línguas ibéricas e software de tradução.

O José é um pouco como eu: tem cara de puto (embora seja mais velho do que eu) e não parece ser daquelas pessoas que dizem palavrões por dá cá aquela palha. Imagino que, se fosse cá do Sul, não diria palavrões numa aula.

Pois, a meio da conferência, o José disse, bem a propósito, a palavra «merda».

Ora, este é daqueles palavrões que já está a deslizar por aí abaixo em direcção ao clube dos palavrõezinhos: «chiça», «caraças», «fogo»… Tanto é assim que já nem preciso de disfarçá-lo como fiz ao «saf*da» do Cristiano. Mas, enfim, por enquanto, ainda é palavrão — pelo menos a julgar pelos olhos dos meus alunos e pelas bocas abertas de surpresa.

Vamos lá ver: os meus alunos não são santinhos — só não estão habituados a ouvir alguém a dizer palavrões numa aula.

Perante o espanto dos alunos, tentei explicar: «Têm de perceber: o José está a norte do Norte!»

Pois é: sabemos — ou julgamos saber — que os nortenhos dizem muitas asneiras. Ora, parece que o problema é de latitude, pois os galegos dizem ainda mais — e dizem as mesmas asneiras!

É claro que a ortografia em que os galegos escrevem estas palavrinhas será diferente da nossa (depende do galego). Mas os palavrões são os mesmos.

Será que os portugueses já se deram conta que «merda» é igual a sul e a norte da fronteira?

Os palavrões de Afonso Henriques

Os palavrões são umas palavras muito curiosas. Deixam-nos o coração aos saltos, continuam a ser proibidos em muitas situações e, no entanto, existem em todas as épocas e são raríssimas as pessoas que não os dizem — só que as situações em que os dizemos mudam de pessoa para pessoa e de região para região.

São palavras importantes, mas é difícil estudar o seu percurso histórico. As pessoas não tinham tendência para escrever palavrões fora das peças de teatro — bendito Gil Vicente e o seu magnífico hábito de usar a língua toda!

No entanto, os palavrões que existem dizem-nos pelo menos isto: o português e o galego, separados politicamente há tantos séculos, partilham ainda estas «palavras feias». São palavras antigas, fortes e imediatas. Palavras que nos mostram como a nossa língua é uma espécie de irmã gémea da língua dos galegos — ou então, como dizem muitos galegos, a mesma língua com outro nome, outro sotaque e umas quantas palavras diferentes para apimentar os dias.

Sim, os palavrões vêm do tempo em que portugueses e galegos ainda viviam no mesmo território e compreendiam perfeitamente as palavras uns dos outros — nem que fosse para ouvir um certo conde com ganas de ser rei a mandar a mãe à merda por andar metida com um galego.

Três mitos sobre o catalão

Este é um artigo por antecipação. Como daqui a oito dias* é Natal, queria falar já do grande assunto da semana que agora começa: as eleições na Catalunha. Tenho, no entanto, um problema: não faço ideia se vão ganhar os independentistas ou os unionistas. Assim, o melhor é falar daquilo que não vai mudar e que, para dizer a verdade, é o que mais me interessa nesta história toda: o catalão, uma das duas línguas lá da zona.

Ora, o desconhecimento é o melhor adubo dos mitos. Nos últimos meses, tenho ouvido muitos sobre esta língua. Ficam aqui três…

1. «O catalão não era usado até há pouco tempo.»

Esta é uma impressão que alguns portugueses têm, provavelmente porque só agora repararam na língua… No entanto, a realidade está muito longe dessas distraídas impressões portuguesas.

Não podendo resumir a história duma língua numa crónica, ficam alguns traços largos e necessariamente imprecisos. O catalão foi usado na literatura durante a Idade Média e há alguns grandes vultos da cultura europeia dessa época que escreveram em catalão. Por exemplo, Raimundo Lúlio (em catalão, Ramon Llull) ou Joanot Martorell, autor de Tirant lo Blanc. O certo é que, depois da junção das coroas de Aragão e Castela, o catalão perdeu prestígio e o castelhano foi, durante séculos, a língua usada pelo Estado, pelos escritores e pelas elites quando estavam foram de casa.

O castelhano era a língua visível e a língua da escrita — mas não era a língua materna da grande maioria dos catalães. A língua que se falava dentro da casa dos catalães continuou a ser o catalão (com este ou outro nome).

Pois bem, a partir do século XIX, houve um movimento de afirmação do catalão enquanto língua de prestígio. Recuperou-se o uso literário da língua, enquanto, nas aldeias e nas ruas das cidades, o catalão nunca deixou de ser a língua materna da população — até que a televisão e o ensino massificado durante o século XX espalharam o castelhano.

Hoje, os catalães usam as duas línguas e o catalão é, certamente, mais visível do que na época em que não se usava na escrita; no entanto, sendo hoje uma das línguas oficiais da Catalunha, é menos falado do que há 100 anos, por exemplo. No fundo, o catalão, nos últimos cem anos, aumentou o seu prestígio, mas diminuiu o seu uso.

2. «O catalão deriva do espanhol.»

O catalão sofre há séculos influência do castelhano — mas não deriva deste último. Dizem os historiadores da língua que o catalão é a evolução particular do latim popular da Marca Hispânica, a zona de fronteira entre o reino dos Francos e o território muçulmano da Península.

O catalão tem, assim, uma origem claramente distinta do castelhano — aliás, algumas palavras denunciam uma fronteira que separa o catalão de todas as outras línguas ibéricas, incluindo o português. Vemos isto, por exemplo, na palavra «medo» (português); «miedo» (espanhol); «por» (catalão); «peur» (francês); «paura» (italiano) — ou então, no verbo «falar» (português); «hablar» (espanhol); «parlar» (catalão); «parler» (francês); «parlare» (italiano).

Não, o catalão não é uma «língua de trapos» e muito menos uma forma errada de falar espanhol — é uma das línguas latinas, oficial em Andorra e em três regiões de Espanha.

3. «O catalão não serve para nada.»

Algumas pessoas encolhem os ombros ou ficam incomodadas com a insistência dos catalães em falar esta língua. Se o espanhol serve tão bem, para quê esta trabalheira?

Ora, o catalão é a língua que grande parte dos catalães ouviram da boca da mãe. É a língua deles, como o português é a nossa. É a língua em que se sentem confortáveis. É ainda uma língua com tradição literária e língua de cultura — ainda por cima, os catalães não perdem o acesso à cultura em língua castelhana, pois escrevem e falam as duas línguas.

Ou seja, só pode ficar incomodado com o facto simples de haver milhões de catalães que querem falar catalão e ensiná-lo aos filhos quem estiver convencido que o castelhano deve ser a única língua de todos os espanhóis.

Depois, há outra ideia errada que alguns portugueses também defendem. Dizem eles que o catalão só é falado por mania dos independentistas. Pois bem: estes últimos parecem representar, pelos resultados eleitorais dos últimos anos, aproximadamente dois milhões e meio de catalães. Ora, o catalão é língua materna de uns cinco milhões de pessoas (não só na Catalunha, diga-se) e é usado como segunda língua por mais uns quantos milhões. É uma língua falada por mais europeus do que o norueguês, por exemplo. Será o norueguês inútil ou mania dos noruegueses? De certa forma, todas as línguas são uma mania de quem as fala. Nós, portugueses, vejam lá bem, temos a mania de falar português… Os catalães têm a mania de falar catalão — e ainda se atrevem a saber castelhano…

Sim, a língua é uma das bandeiras dos independentistas, mas está longe de se limitar aos círculos que defendem a separação de Espanha. Aliás, julgo que há um consenso muito alargado na sociedade catalã sobre a preservação da língua — um consenso que está longíssimo de existir no que toca à independência…

Mas então, não há problemas com a língua?

Claro que há, mas esses problemas estão, muitas vezes, na cabeça de quem não vive na Catalunha.

Em muitas regiões do nosso reino vizinho, há tendência para desprezar as outras línguas de Espanha. Muitos toleram a sua existência, mas pouquíssimos se interessam por elas. Muitos acham que aprender catalão é inútil e, para dizer a verdade, um pouco suspeito. Esquecem-se que, se a Catalunha é de facto parte de Espanha, isso só pode querer dizer que o catalão é uma língua de milhões de espanhóis e que merece respeito e (será pedir muito?) algum interesse. 

Depois, ouve-se muito por Madrid que os catalães não querem aprender castelhano e que o castelhano está em perigo na Catalunha — ora, isto parece-me injusto. Para que o leitor compreenda a injustiça, imagine um madrileno a acusar irritado um catalão de não querer falar castelhano — quando o catalão, na verdade, fala e escreve castelhano fluentemente, enquanto ao madrileno nunca lhe passaria pela cabeça aprender catalão… Temos gente monolingue a acusar gente bilingue de querer ser monolingue.

Sim, eu sei que aquilo que irrita muitos madrilenos é o facto de as crianças que falam castelhano em casa terem de aprender catalão na escola. Mas, bolas, essas crianças ficam a saber falar duas línguas — e assim evita-se a situação que ocorria há 50 anos, em que a sociedade catalã se dividia entre aqueles que falavam castelhano e catalão e aqueles que só falavam castelhano. O objectivo é que todos falem as duas línguas, independentemente da língua de casa e da origem dos pais.

Enfim, uma Espanha em paz consigo própria vai ter de aprender a viver com as línguas faladas por milhões de espanhóis — mais do que tolerá-las, deve assumi-las como suas para que aqueles que falam outras línguas se sintam confortáveis em Espanha. Será possível? Não sei. Mas diria que, se o país vizinho conseguir reinventar-se enquanto Estado plurilingue, o catalão, longe de não servir para nada, terá servido para salvar Espanha…

Dito tudo isto, deixem-me terminar com um desabafo: ainda bem que nós, portugueses, não temos de pedir licença para aprender, ensinar e viver à vontade na nossa língua. É por estas e por outras que não compreendo como uns quantos portugueses dizem, meio a brincar meio a sério, que mais valia sermos espanhóis. Tenham juízo.

(Já agora, se não se importarem, deixo-vos a ligação para um artigo sobre cinco palavras catalãs que me fazem cócegas.)

(*Este artigo foi publicado no Sapo 24 no passado domingo.)

A nossa língua no mapa de Espanha?

A Espanha é, para muitos portugueses (não direi a maioria, porque não sei quantos são), um território imenso que devemos passar por cima, de avião — ou então de carro, bem depressa, quase sem parar, até chegar a França e então respirar.

Uma Espanha escrita em português?

Para esses portugueses distraídos — os mesmos que descobriram «o problema catalão» há duas semanas e julgam que tudo começou no mês passado — há muitas surpresas escondidas para lá da fronteira.

Por exemplo: há um mistério escondido no mapa de Espanha. Aliás, nem será tanto no mapa, mas antes na lista completa de aldeias, vilas e cidades espanholas. Se abrirmos essa lista, vemos que mais de metade dos nomes não estão em espanhol, mas antes numa estranha língua muito parecida com o português. Alguns exemplos: «O Barco», «A Guarda», «Gondomar», «O Porto de Corme», «A Lagoa», «Cabana Moura», «O Reino», «Os Milagres do Medo»… Lembro que isto são nomes que aparecem exactamente assim nos mapas de Espanha…

Também aparecem muitos nomes que soam um pouco portugueses, mas têm o famoso «ñ» ou um excesso de «x» ou «-ción»: «A Toxa», «O Carballiño», «A Estación», «Os Baños» e a famosíssima «A Coruña»…

Mais de metade, dizia eu… E isto porque mais de metade das terras de Espanha estão na Galiza, que se divide em tantas aldeias, vilas e cidades que acaba por monopolizar a toponímia dos nossos vizinhos.

Todos dizemos palavrões galegos

Ora, a Galiza é qualquer coisa que nós sabemos que está ali, mesmo em cima de nós, mas a que ligamos pouco. É normal: nós somos distraídos no que toca à Espanha. Afinal, os tais portugueses de que falava há pouco sofrem de uma estranha cegueira gustativa que os leva a dizer coisas como «em Espanha come-se mal», o que deixa qualquer pessoa com duas papilas na boca a coçar a cabeça sem perceber onde foram buscar tal ideia. É o que dá provar a gastronomia do reino vizinho na perspectiva das estações de serviço a caminho da França… Basta ir à Galiza para desfazer essa ilusão…

Mas as surpresas vão muito para lá da gastronomia. Temos também um território e um clima muito semelhantes ao território e ao clima do Norte do nosso país — não é por acaso que os fogos da semana passada afligiram o Norte e a Galiza (embora o estrago tenha sido bem maior aqui a sul do Minho).

Depois, temos a língua… Nas últimas décadas, o uso do galego tem diminuído, mas ainda é a língua materna de milhões de galegos. Ora, os falantes de galego, separados dos portugueses por uma fronteira com 800 anos, ainda falam qualquer coisa de muito próximo da nossa própria língua — muitos afirmam mesmo que o português e o galego são dois nomes para a mesma língua e, nessa afirmação surpreendente, são secundados por muitos linguistas.

Na escrita, é fácil perceber essa proximidade. É verdade que os galegos têm uma relação um pouco difícil com a versão escrita da sua língua — afinal, existem duas ortografias. A ortografia oficial tem o «ñ» e o «ll» que associamos ao espanhol, enquanto uma minoria significativa de galegos usa a ortografia chamada «reintegracionista», muito mais próxima do português. Nós, portugueses, não temos de entrar nessas guerras. Basta-nos saber que o galego escrito, mesmo na ortografia oficial, está tão próximo do português que arrepia.

Já na fala, é mais complicado. Nós confundimos facilmente o galego com o espanhol — isto porque estamos pouco habituados a ouvir o sotaque galego, que usa uns quantos sons que associamos ao espanhol. Assim, os nossos ouvidos pouco treinados enfiam o que ouvem no saco do castelhano.

Se prestarmos atenção, no entanto, lá encontramos na boca dos galegos os nossos verbos, os nossos artigos — e os nossos palavrões.

Sim, peçam a um galego para dizer palavrões e vão ouvir palavras à antiga portuguesa! Não posso reproduzi-las agora porque o Sapo 24 é para toda a família.

A saudade também é galega?

Mais surpresas: os galegos também usam a palavra «saudade» — e também por lá têm pessoas que se entretêm a pensar se não será essa palavra especialmente importante para descrever a alma galega. Sim: esses mitos crescem em todo o lado.

E a História… Todos os povos esquecem-se de muita coisa. Nós, portugueses, esquecemo-nos da Galiza. Houve episódios de que raramente ouvimos falar, como o ano em que os galegos aclamaram El-Rei D. Fernando de Portugal como rei — e ele aceitou, entrando na Galiza numa invasão que foi muito bem-vinda. Partilhámos o rei durante dois anos, mas entretanto as guerras da época lá deram mais uma guinada e D. Fernando desistiu de ser rei a norte do Minho. Já bastavam as confusões a sul…

Perder o medo de falar português

Quando converso com galegos, muitos contam estranhas histórias em que falam em galego com portugueses e estes respondem em espanhol, julgando estar a fazer um favor ao turista. Na verdade, com os galegos, nós podemos mesmo falar português: eles percebem e agradecem.

Sim, existem milhões de cidadãos espanhóis que querem que falemos português com eles e que vivem em terras com nomes tão nossos como «Os Milagres do Medo» (na Província de Ourense).

Falemos com os galegos sem medo. Depois do choque inicial, é como chegar ao pé dum vizinho com quem nunca falámos e começar a conversar — na nossa língua, pois então.

(Se alguém quiser ler mais sobre a Galiza, pode começar por Outra idea de Galicia, de Miguel Anxo Murado, que está escrito em galego e pode ser lido sem dificuldades por qualquer português. Um livro mais do que recomendável.)

(Artigo publicado no Sapo 24 no dia 22 de Outubro de 2017.)

Como se diz o nome daquela loja de móveis?

Já tinha eu o artigo alinhavado, faltava apenas a conclusão — e era um artigo tremendo, capaz de mudar umas quantas mentalidades, como se diz por aí. É então que a Zélia me diz: temos de ir ao IKEA.

Quantos nomes tem a loja?

E eu fiquei a olhar para ela, a pedir só mais uns minutos. Não podia ser: já se fazia tarde e tínhamos ainda muito que comprar. Porquê? Vem aí um novo rebento.

Pois deixei o artigo de lado, à espera de o terminar quando voltasse. Só que, no caminho de casa até a esse pequeno território de sabor sueco (embora governado por uma empresa, hum, holandesa), pus-me a pensar: afinal, como se diz o nome da tal loja?

Parece que ninguém sabe. É uma daquelas eternas questões que acabam em tremendas discussões de café: há quem diga «IKÊIA», enquanto outros se inscrevem no clube do «I-KÊ-Á». Não sei porquê, tornei-me adepto deste último clube.

Há argumentos para todos os gostos: ah, em sueco é assim; ah, o meu primo diz que ele é que sabe; ah, assim é que me soa bem. Ou seja, os argumentos do costume nisto da língua. Por outro lado, talvez os funcionários do IKEA acertem no nome da loja onde trabalham. Decidi-me a ouvir com atenção a maneira como dizem o nome.

Quanto à maneira como os suecos pronunciam o nome, pode ajudar, mas não é o critério absoluto. Poucos dizem «Maicrosoft» em vez de «Microsoft». Mais: os portugueses parecem apostados em inventar uma «Aipal», enquanto os americanos dizem «Apple» — e por aí fora. Confesso que digo «Microsoft» à portuguesa e «Apple» à inglesa. Porquê? Porque «Aipal» só é inglês na cabeça dos portugueses. Mais vale dizer à portuguesa e acertamos mais: «Áple».

Almôndegas e labirintos

Bem, chega de irritações. Chegamos ao dito cujo. Saímos do carro, depois de umas quantas voltas à procura de espaço, e subimos até ao restaurante, onde passamos pelo famoso ritual da ingestão de almôndegas suecas e café barato.

Findo o manjar nas famosas florestas escandinavas de Loures, avançámos para o Labirinto. É um estranho labirinto, este, pois tem setas em todo o lado e ninguém se pode perder. Aliás, o problema deste labirinto é outro: e se não seguirmos as setas? Se atravessarmos uma daquelas reentrâncias meio escondidas que nos levam para uma secção usando um atalho não autorizado? O alarme toca? O universo acaba?

Aliás, olhar para uma planta deste labirinto assusta-me: quando chegamos ao fim, estamos ao lado da cozinha por onde entrámos e, no entanto, parece que andámos até aos confins do mundo. Aquilo é um mundo enrolado em si próprio, dividido por cruéis paredes que nos obrigam a cirandar entre casas tão arrumadas e bem combinadas que ficamos com vergonha dos livros mal-arrumados lá na nossa sala. E apetece dizer: derrubem as paredes! Não queremos barreiras entre as cozinhas e a secção de plantas!

E as outras vidas todas?

Ah, o meu filho, quando chegou à primeira cozinha, disse: «É linda!» Ele lá sabe. O certo é que parece não ter grande critério: continuou a elogiar todas aquelas habitações em ponto pequeno, imaginando como seria viver ali. Aquela loja é também uma espécie de multiverso: imaginamos não sei quantas vidas (olha eu a viver em Estocolmo; olha eu a viver no meio duma floresta; olha eu a viver numa sala preta e amarela; olha eu a viver num escritório com cem livros iguais e em sueco) e de repente a vida desdobra-se na imensidão de escolhas e ficamos pequeninos a olhar para aquilo que nos calhou. O que nos calhou pode até ser bom, mas a imaginação acelera por esse mundo fora. Ficamos também a perceber que nestes mundos alternativos, somos todos diferentes, mas todos sabemos ler policiais em sueco.

(Diga-se que estou sob medicação contra as alergias; efeitos secundários: encontro profundidades em todo o lado.)

O atalho do fim do mundo

Chegamos ao fim do labirinto sãos e salvos e descemos à cave, aquela onde está o armazém self-service, e enfrentamos mais um labirinto, mais uma voltinha, mais umas quantas setas a percorrer diligentemente durante uma boa meia-hora.

É então que o meu pai (sim, os avós do rebento também foram para ajudar a acartar madeira sueca) repara numa abertura: um pouco a medo, como se estivéssemos a entrar em território proibido, atravessamos a abertura e estamos nas caixas! Poupámos todo um labirinto e ficámos sem a oportunidade de comprar novos talheres!

Por momentos, é como se tivéssemos descoberto um dos segredos do mundo. Entre coros celestiais (era tarde, estávamos cansados), fomos buscar as caixas castanhas num dos corredores (sou só eu ou aquilo parece aquela cena do Indiana Jones onde a Arca da Aliança se perde num armazém interminável?) e avançámos resolutos para pagar a lenha cortada.

Esperámos pacientemente a vez. O Simão sentou-se em cima das caixas e deitou-se. O empregado perguntou então se tínhamos cartão I-KÊ-Á. Eu sorri: olha, parece que digo bem. Vai o empregado ao lado e pergunta à pessoa que está a atender: «Tem cartão IKÊIA?» O mundo partiu-se em dois.

Raios. O universo faz pouco sentido nesta loja de móveis. Mas com um filho a nascer, pouco importa. O sentido está todo naquela barriga e no miúdo a dormir em cima das caixas onde estão os futuros móveis do irmão.

(Publicado no Sapo 24 no dia 26 de Novembro.)

«Já agora» é erro de português?

Não, não é. É uma expressão portuguesa daquelas boas e saborosas (digo eu). E mesmo que não fosse saborosa, continuava a ser uma expressão portuguesa que não merece ser riscada dos nossos textos só porque há quem não compreenda o seu sentido.

Vem este desabafo a propósito de ter encontrado numa página qualquer (recuso-me a fazer ligação) mais uma daquelas cansativas listas de erros comuns, esta com uns 30 ou mais «erros». Alguns eram erros ortográficos (nada a dizer, embora para evitar os ditos o corrector ortográfico seja mais útil do que listas avulsas); outros, eram variações de pronúncia que se afastam da norma (é sempre bom saber); mas muitos deles eram, pura e simplesmente, expressões que só são erro na cabeça de quem quer mesmo muito encontrar erros onde eles não existem.

Lá pelo meio, vinha o nosso «já agora». A justificação para declarar a expressão um terrível pecado linguístico? «Já» e «agora» querem dizer a mesma coisa — e, logo, a expressão é redundante.

Pois bem: «já» e «agora» querem, de facto, dizer a mesma coisa. Quer isto dizer que «já agora» é uma redundância? Não, mas antes de avançar, convém recordar este facto da língua: a redundância faz parte da gramática! Todas as línguas têm redundâncias espalhadas pelo corpo. Basta pensar que, na expressão «todas as línguas», temos o feminino marcado três (!) vezes. A lógica estrita do «abaixo a redundância», aplicada sem freio, levar-nos-ia a estropiar o português. Uma língua sem redundâncias seria não só muito pouco humana (nós somos seres muito redundantes, temos muita coisa em duplicado), como útil apenas para falantes com audição perfeita, sossego absoluto e tempo de sobra para andar a repetir frases (ou melhor, nem isso seria possível pois uma frase repetida seria… redundante).

Bem, dito isto, convém apontar para algo que me parece claro: a expressão «já agora» não é redundante. Não sei como o compilador da tal lista não reparou, mas a expressão não quer dizer nem «já» nem «agora». Quer dizer algo como «ora bem, como estamos aqui os dois, podemos aproveitar para…». As subtilezas serão outras dependendo dos falantes e do contexto; agora, o que ninguém faz é usar «já agora» como sinónimo de «já» e «agora». Seria algo como «Vamos lá agora ou amanhã?» Resposta: «Já agora!» Não é assim que usamos a expressão…

«Já agora» é uma expressão fixa, criada da maneira como todas as expressões deste tipo são criadas (um pouco ao calhar da sorte), uma daquelas expressões que abundam em todas as línguas, incluindo a nossa bela língua portuguesa, e que só ganham o sentido que lhes damos quando as palavras aparecem assim, em conjunto — sentido esse que é diferente da soma das partes. Por outras palavras, «já agora» é uma expressão idiomática e não há expressão idiomática que sobreviva às análises literalistas que estão na base de tantas destas listas de erros. O que estas listas fazem, muitas vezes, é tentar corrigir a língua, transformando-a noutra coisa qualquer, talvez mais simples, mas certamente mais pobre.

Enfim, quando o leitor sentir a tentação de fazer uma lista de erros, fica a ideia: tenha o cuidado de não incluir expressões idiomáticas. Sim, eu sei que a lista fica muito mais difícil de compor, mas é a vida…

O galego e o português são a mesma língua?

Esta é uma pergunta muito curiosa, porque raramente se faz em Portugal. Podemos viver, neste país, uma vida inteira descansados e felizes (tanto quanto o pequeno rectângulo nos permite) sem que nos entre pelos ouvidos um eco que seja desta batalha linguística.

E, no entanto, ali acima do Minho, há uma discussão acérrima sobre a nossa própria língua!

Então, mas o que se passa? Para um português, a questão da divisão das línguas é bastante clara: nós falamos português. Os espanhóis falam espanhol. Os franceses falam francês. Podemos acenar com a miríade de confusões que desmancham a limpeza do nosso mapa linguístico. Não importa: a questão é fácil, pelo menos no que toca à nossa língua: português é português. Qual é a dúvida?

Então e o galego? Dirão muitos: «Chama-se galego, não se chama? Então não é português. Ainda por cima soa a espanhol…»

O problema é que, no caso de línguas muito próximas, os nomes que lhes damos não são um bom critério para avaliar a diversidade ou a unidade das ditas. Vejamos dois casos…

Rumamos a Valência

Comecemos pela situação linguística na Comunidade Valenciana.

Em Valência, para lá do espanhol, há outra língua oficial, denominada no Estatuto de Autonomia como «valenciano».

Ora, a grande discussão lá por terras de Valência é esta: será o valenciano um outro nome para o catalão? Ou será uma língua própria? Note-se que os valencianos — aqueles que falam a língua — não mudam de maneira de falar de acordo com aquilo que pensam sobre a questão. Por outro lado, a compreensão mútua entre valencianos e catalães está assegurada.

Então, que consequências tem esta discussão? Tem algumas. Por exemplo, os defensores duma língua valenciana separada não aceitam que se apresentem aos alunos livros da literatura catalã nas aulas de valenciano; afinal, é uma língua separada. Já os valencianos que defendem o valenciano como outro nome para o catalão acham muito bem que se estudem obras catalãs nas salas de aula de Valência. Depois, temos a norma: os que defendem a separação entre as línguas defendem uma ortografia e um léxico que se afastam propositadamente da ortografia oficial catalã e do léxico usado na Catalunha.

Já os catalães, diga-se, consideram o valenciano como outra forma da sua própria língua e, nas escolas, as obras valencianas são dadas nas aulas de literatura catalã. Basta pensar em Tirant lo Blanc, uma das obras mais famosas da literatura nesta língua, escrita pelo valenciano Joanot Martorell.

Quem estiver interessado em saber mais sobre as tensões que se escondem por trás do nome que se dá a uma língua, comece por ler o livro Quem fala a minha língua? (Através, 2013), uma colecção de ensaios de vários autores sobre este assunto.

Não é difícil criar uma língua

Olhando para a nossa língua, antes de nos abalançarmos para a discussão que está no título deste pequeno texto, rumemos ao Brasil.

Teria sido possível, no momento da independência, criar uma língua nova. Bastava integrar na norma algumas formas populares do português brasileiro (falo do vocabulário e estruturas gramaticais), estabelecer uma nova ortografia e criar o nome de «língua brasileira». Pronto: estava feito. 

Note-se: num mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado uma língua brasileira, ninguém teria mudado a maneira de falar no momento da decisão. Os brasileiros continuariam a mesma língua, mas dar-lhe-iam outro nome. Claro que aquilo que falavam seria facilmente distinguível do português de Portugal, mas isso também acontece na nossa versão do mundo, em que o nome da língua é o mesmo. Independentemente do nome da língua, portugueses e brasileiros foram falando, escrevendo e desenvolvendo a língua à distância de um oceano e com influências diversas.

Este afastamento não é suficiente para que deixemos de nos compreender — e também não seria no mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado a tal língua brasileira. O nome que se dá à língua e a criação de uma norma autónoma não cortam, de imediato, a possibilidade de comunicar. Nem de imediato, nem durante muito tempo… Mas criam, claro está, uma barreira mental e política que alimenta o distanciamento linguístico.

Em relação ao Brasil, temos a distância e a indiferença, mas a língua é ainda vista como comum por grande parte de portugueses e brasileiros (quando pensam nisso) e as duas normas ainda estão muito próximas. Assim, há leitura de alguns livros brasileiros nas escolas portuguesas, ouvimos os brasileiros na televisão sem precisar de legendas, não traduzimos livros de literatura brasileira (embora, em certo tipo de livros, se note algum tipo de adaptação) e conversamos bem uns com os outros, para lá das picardias típicas de povos próximos e de algum medo do Brasil que uns quantos portugueses apresentam como sintoma de alguma insegurança (digo eu). A língua continua a divergir, mas continuamos a aproveitar as proximidades — o que se faz de forma muito mais saudável quando não há imposições de unidades artificiais.

Portanto: o nome da língua pode sublinhar diferenças ou manter uma unidade decidida para lá do uso real da língua. Com diferenças comparáveis às diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil (provavelmente, as diferenças até serão menores), alguns valencianos pretendem criar uma língua separada. Mas claro que a questão não é estritamente política: é política e é também emocional…

E enquanto discutimos os nomes e as divisões, as línguas, na boca dos falantes, vão mudando ao seu ritmo próprio.

Como muda uma língua?

As línguas avançam pelo tempo de forma espantosa: conversamos com os nossos filhos e eles criam a complexa maquinaria mental necessária para produzir, continua e maravilhosamente, a mesma língua dos pais, com todo o intrincado e caótico sistema de hábitos e regras mais ou menos lógicas a que chamamos «português».

Na escola, tomamos consciência de algumas dessas regras, aprendemos a ler e a escrever — o que é outra maquinaria um pouco mais artificial, mas também mais difícil de aprender — e aprendemos a organizar o discurso, a seguir algumas regras de etiqueta linguísticas e, quando a coisa corre bem, a debater uns com os outros com civismo e proveito — tudo importantíssimo, mas bem menos espantoso que a aprendizagem inicial da língua toda. Pelo caminho, também aprendemos a aproximar a nossa máquina linguística daquilo que é mais normal na sociedade em que vivemos — aproximamo-nos da norma, pois então.

A máquina que temos na cabeça nunca é igual à dos nossos pais: afinal, nós ouvimos a língua dos pais, dos amigos, dos familiares, dos professores, das pessoas na televisão, das pessoas na rua… É desse magma linguístico que extraímos a informação para criar a nossa máquina linguística. E funciona! A maneira como o cérebro humano consegue este feito ainda não está compreendida por completo, mas lá que é espantosa, sem dúvida que é.

A interacção entre o que aprendemos dos pais e aquilo que ouvimos na escola, os textos a que somos expostos, a nossa própria vida… — tudo isto leva a que a língua esteja sempre a mudar. Vemos isto na pronúncia, no vocabulário, nas conotações e nas definições das palavras. Há um livro sobre os mecanismos que estão por trás da mudança linguística que recomenda aos interessados: Words on the Move, de John McWhorter. Embora o livro seja sobre o inglês, aquilo que aprendemos vale para todas as línguas: todas mudam, excepto as línguas mortas. 

A língua muda, pois então — mas muda devagar. As crianças aprendem a recriar a máquina linguística dos pais de maneira bastante mais correcta do que imaginamos — o que se passa é que é muito mais fácil notar as pequenas diferenças, que irritam muita gente, do que sublinhar a incrível continuidade da língua ao longo dos séculos.

O galego e o português

E chegamos ao galego — isto porque o galego é uma prova de que a língua muda, mas muito devagar. Quando Portugal se tornou independente, já se falava em toda a Galiza de então algo que reconheceríamos como a nossa língua. No momento da independência, criou-se uma barreira política entre Portugal e aquilo que restou da Galiza. É claro que esta barreira era muito mais porosa do que pensamos hoje em dia — afinal, não houve guardas civis a vigiar a fronteira durante séculos e séculos —, mas ninguém desmente que os portugueses começaram a viver como comunidade separada dos territórios vizinhos.

Pois bem: apesar desta barreira com mais de 800 anos, aconteceu uma coisa espantosa. Se, no século XIX, ouvíssemos os galegos a falar, aquilo que sairia da boca deles ainda era algo muito parecido com o português sem que ninguém tivesse criado escolas, dicionários ou gramáticas para manter a proximidade da língua dum lado e doutro da fronteira. A língua que os contemporâneos de Afonso Henriques falava mudou, mas mudou tão lentamente que, muitos séculos depois, as populações dum lado e doutro daquela que é uma das fronteiras mais antigas da Europa ainda conversavam sem esforço.

Peço que o leitor repare naquilo que acabei de dizer: uma das fronteiras mais antigas da Europa divide populações que, após 800 anos de separação, ainda conseguem conversar sem grande esforço.

Quem não conhece, na prática, esta proximidade, tem uma boa forma de começar a explorá-la: olhe para os verbos galegos e portugueses, como fez Fernando Venâncio no artigo «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português».

Ora, foi também no século XIX que surgiram os movimentos de reivindicação literária das línguas de Espanha, faladas na rua, mas esquecidas na escrita, num movimento que tem paralelo nos muitos movimentos de cariz nacionalista desse século. (Para evitar confusões, convém dizer que o nacionalismo oitocentista não é uma mania dos bascos, catalães e galegos — inclui também os nacionalismos com Estado, como o espanhol, o italiano, o alemão, o português… Foi nesse século que muitos dos mitos nacionais foram criados e foi só então que a Nação, assim com letra grande, começou a suplantar o soberano como sustentação do Estado.)

Na Galiza, o movimento teve como nome Rexurdimento e teve como figura maior Rosalía de Castro. A história é longa e não cabe aqui, mas note-se: os galegos, no século XIX — e estamos a falar de praticamente todos os galegos — sabiam falar galego e este galego era mesmo muito parecido com o português falado do outro lado da fronteira, embora houvesse pouco reconhecimento mútuo dessa proximidade.

Os galegos sabiam falar galego, mas não sabiam escrever a língua. Aqueles que sabiam escrever, escreviam em castelhano. Quando começaram a surgir as obras em galego — a língua dos avós, que há séculos não era escrita a norte da fronteira —, os galegos usaram uma ortografia com forte influência castelhana.

Pois, ao longo do século XX, aconteceram algumas coisas curiosas: o galego continuou a ser falado, mas o castelhano foi ganhando força (os motivos são muitos: basta pensar na escolaridade da população, na televisão em espanhol…). Já em Portugal, a língua começou a uniformizar-se. Criámos uma ortografia nacional em 1911 (sim, só então tivemos uma ortografia estável), as escolas e os meios de comunicação social espalharam o português-padrão por todo o país e a língua começou a mudar de forma rápida entre as gerações tomando como norma um português baseado no que se fala em Lisboa, bastante longe da fronteira com a Galiza. Ainda hoje conseguimos ver como a língua é diferente entre os avós e netos minhotos: os avós estão mais próximos dum português com uma sonoridade que os galegos reconhecem como próxima da sua, enquanto os netos têm a língua a deslizar em direcção a um lisboeta com sabor nortenho.

Na Galiza, depois do final do franquismo, o galego tornou-se oficial. Foi então que surgiu a opção: ou bem que o galego oficial usava a ortografia com características espanholas («ñ», «ll», «z») ou assumia a proximidade com a língua a sul do Minho e escolhia uma ortografia com «nh», «lh», «ç», etc.

Esta última ortografia chama-se «reintegracionista», pois tenta reintegrar o galego no espaço dos povos de língua galega ou portuguesa. Esta ortografia próxima é quase indistinguível do português escrito, não fosse e uma ou outra opção que reflecte as diferenças fonéticas entre galego e português (por exemplo, «associaçom» em vez de «associação»).

Note-se que os textos reintegracionistas, para lá da ortografia, também costumam escolher um vocabulário mais próximo do português. (Já agora, fica aqui anotado que muitas palavras perfeitamente correntes e formais em galego são palavras portuguesas, mas do registo popular. É assim que temos um Sindicato Labrego Galego—Comissões Labregas que nunca falha: deixa sempre os portugueses a rir.)

Nesta luta entre ortografias (que decorreu durante os anos 80), ganharam os defensores da ortografia com «ñ» e o galego ensinado na escola é o galego com uma ortografia bastante diferente da ortografia portuguesa. Temos «A Coruña» em vez de «A Corunha», «camiño» em vez de «caminho», etc. No entanto, o reintegracionismo manteve-se como alternativa usada por muitos galegos. Para quem não conhece, pode encontrar textos em galego reintegracionista no Portal Galego da Língua.

Esta descrição não transmite, claro está, nem a complexidade da questão (cada uma das opções inclui várias tendências) nem a força das emoções que esta guerra levanta na Galiza. Não será inútil recordar que a discussão faz-se num contexto em que a língua se vê a perder falantes a cada dia que passa.

Simplificando bastante, podemos encontrar duas atitudes perante a língua, alinhadas com a divisão que descrevi acima:

  • Muitos galegos defendem o galego enquanto língua autónoma, não querendo confundi-la com o português. A separação política é velha de muitos séculos e a língua seguiu caminhos diferentes dos dois lados. Mesmo assim, alguns destes galegos não deixam de ter perfeita noção da proximidade entre o português e o galego e aproveitam essa proximidade para ler em português e conversar com portugueses.
  • Os reintegracionistas defendem que uma ligação mais estreita ao português tem fundamentos históricos e permite combater o verdadeiro perigo para o galego: a sua substituição pelo espanhol, que não só lhe tira espaço de uso social como vai também desfigurando a língua, na pronúncia e no vocabulário, até torná-la numa mistura de galego e espanhol.

Tudo isto é ignorado cá por Portugal, tirando um ou outro caso. Como disse noutro artigo, nós olhamos para os galegos como os brasileiros olham para nós: sabemos que existem, têm alguma importância na nossa história, mas podem ser ignorados sem perigo.

Mas são a mesma língua ou não?

Antes de tentar responder, podemos olhar para aquilo que é factual. Primeiro: esta pergunta só se faz naqueles casos em que as línguas estão tão próximas que podem funcionar como língua única (se houver vontade).

Segundo: existem galegos, hoje em dia, que olham para o português e o galego e optam por vê-los como a mesma língua. Vêem televisão portuguesa, lêem livros portugueses, etc. Aqui fica uma sugestão de um livro que mostra esta perspectiva: O galego é uma oportunidade, de José Ramom Pichel e Valentim Fagim, um livro que tenta mostrar aos galegos como a sua língua lhes abre os horizontes para um espaço de 200 milhões de falantes. 

Terceiro: se consideramos o português e o galego como línguas separadas, serão certamente das línguas mais próximas que encontraremos em todo o mundo.

Ainda uma curiosidade: há milhares de galegos que se inscrevem para aprender português nas escolas de idiomas da Galiza. Porquê? Tentei responder neste artigo. Note-se que este interesse pela língua portuguesa vai muito para lá das divisões entre as duas normas da língua galega.

E nós, em Portugal? Podíamos considerar o galego como outra variedade da nossa língua, com outro sotaque, algum vocabulário diferente e outro nome? Podíamos, mas não vai acontecer: não há nem conhecimento suficiente entre os portugueses nem interesse da nossa parte. Para nós, os galegos são espanhóis e isso, para a nossa consciência histórica, é algo que nos impede de imaginar qualquer tipo de comunidade, mesmo que meramente linguística. 

Da minha parte, não tenho qualquer interesse em alimentar uma relação de cariz político entre Portugal e a Galiza — e também não quero andar a dar conselhos sobre a ortografia e o vocabulário que os galegos devem usar. Andar a propalar a unidade do galego e do português em Portugal quando, a esse propósito, nem os galegos se entendem parece-me não só inútil como contraproducente.

Mas o belo da questão, do lado português, é que não temos de nos meter na discussão galega nem proclamar a tal unidade: cada um de nós pode aproveitar-se impunemente da proximidade entre o galego e o português. Sem grande dificuldade, podemos aceder a outra literatura e conversar, sem mudar a maneira de falar, com milhões de vizinhos — ficamos mais próximos de boa gente, boa literatura, boa conversa e boas oportunidades.

Pessoalmente, ando a aproveitar esta proximidade. Tenho lido em galego, tenho conversado muito com galegos, tenho até viajado pela Galiza. Todo este texto serve como convite para que mais portugueses aproveitem esta ponte linguística.

O primeiro artigo deste blogue foi sobre Manuel Rivas, um escritor galego, e foi esse escritor que escreveu as primeiras palavras que li em galego, num livro chamado Ela, maldita alma, que um dia comprei num supermercado de Vigo só porque sim:

«Aquela primavera chegara axiña e en demasía. 

Á hora do café, pola fiestra que daba á horta, Chemín mirou a festa de páxaros na vella maceira florida.»

Note-se que esta é a ortografia do galego mais distante da nossa. As opções vocabulares soam-nos estranhas — mas deliciosas. Não precisei de aulas para ler o livro, apesar das saborosas diferenças, tal como não precisei de aulas para ler o livro Outra idea de Galicia, de Miguel-Anxo Murado. Foi a minha leitura de há umas semanas e recomendo-a vivamente. É um livro interessantíssimo para quem gosta de boa escrita, queira ou não saber mais sobre a Galiza.

Para terminar, uma confissão: não consigo aprender galego. Ou seja, por mais que leia galego e converse com galegos, as palavras que me saem são sempre as minhas… E chegam! Talvez esta confissão seja a minha resposta — pessoalíssima — à pergunta do título.

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