Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Como se diz o nome daquela loja de móveis?

Já tinha eu o artigo alinhavado, faltava apenas a conclusão — e era um artigo tremendo, capaz de mudar umas quantas mentalidades, como se diz por aí. É então que a Zélia me diz: temos de ir ao IKEA.

Quantos nomes tem a loja?

E eu fiquei a olhar para ela, a pedir só mais uns minutos. Não podia ser: já se fazia tarde e tínhamos ainda muito que comprar. Porquê? Vem aí um novo rebento.

Pois deixei o artigo de lado, à espera de o terminar quando voltasse. Só que, no caminho de casa até a esse pequeno território de sabor sueco (embora governado por uma empresa, hum, holandesa), pus-me a pensar: afinal, como se diz o nome da tal loja?

Parece que ninguém sabe. É uma daquelas eternas questões que acabam em tremendas discussões de café: há quem diga «IKÊIA», enquanto outros se inscrevem no clube do «I-KÊ-Á». Não sei porquê, tornei-me adepto deste último clube.

Há argumentos para todos os gostos: ah, em sueco é assim; ah, o meu primo diz que ele é que sabe; ah, assim é que me soa bem. Ou seja, os argumentos do costume nisto da língua. Por outro lado, talvez os funcionários do IKEA acertem no nome da loja onde trabalham. Decidi-me a ouvir com atenção a maneira como dizem o nome.

Quanto à maneira como os suecos pronunciam o nome, pode ajudar, mas não é o critério absoluto. Poucos dizem «Maicrosoft» em vez de «Microsoft». Mais: os portugueses parecem apostados em inventar uma «Aipal», enquanto os americanos dizem «Apple» — e por aí fora. Confesso que digo «Microsoft» à portuguesa e «Apple» à inglesa. Porquê? Porque «Aipal» só é inglês na cabeça dos portugueses. Mais vale dizer à portuguesa e acertamos mais: «Áple».

Almôndegas e labirintos

Bem, chega de irritações. Chegamos ao dito cujo. Saímos do carro, depois de umas quantas voltas à procura de espaço, e subimos até ao restaurante, onde passamos pelo famoso ritual da ingestão de almôndegas suecas e café barato.

Findo o manjar nas famosas florestas escandinavas de Loures, avançámos para o Labirinto. É um estranho labirinto, este, pois tem setas em todo o lado e ninguém se pode perder. Aliás, o problema deste labirinto é outro: e se não seguirmos as setas? Se atravessarmos uma daquelas reentrâncias meio escondidas que nos levam para uma secção usando um atalho não autorizado? O alarme toca? O universo acaba?

Aliás, olhar para uma planta deste labirinto assusta-me: quando chegamos ao fim, estamos ao lado da cozinha por onde entrámos e, no entanto, parece que andámos até aos confins do mundo. Aquilo é um mundo enrolado em si próprio, dividido por cruéis paredes que nos obrigam a cirandar entre casas tão arrumadas e bem combinadas que ficamos com vergonha dos livros mal-arrumados lá na nossa sala. E apetece dizer: derrubem as paredes! Não queremos barreiras entre as cozinhas e a secção de plantas!

E as outras vidas todas?

Ah, o meu filho, quando chegou à primeira cozinha, disse: «É linda!» Ele lá sabe. O certo é que parece não ter grande critério: continuou a elogiar todas aquelas habitações em ponto pequeno, imaginando como seria viver ali. Aquela loja é também uma espécie de multiverso: imaginamos não sei quantas vidas (olha eu a viver em Estocolmo; olha eu a viver no meio duma floresta; olha eu a viver numa sala preta e amarela; olha eu a viver num escritório com cem livros iguais e em sueco) e de repente a vida desdobra-se na imensidão de escolhas e ficamos pequeninos a olhar para aquilo que nos calhou. O que nos calhou pode até ser bom, mas a imaginação acelera por esse mundo fora. Ficamos também a perceber que nestes mundos alternativos, somos todos diferentes, mas todos sabemos ler policiais em sueco.

(Diga-se que estou sob medicação contra as alergias; efeitos secundários: encontro profundidades em todo o lado.)

O atalho do fim do mundo

Chegamos ao fim do labirinto sãos e salvos e descemos à cave, aquela onde está o armazém self-service, e enfrentamos mais um labirinto, mais uma voltinha, mais umas quantas setas a percorrer diligentemente durante uma boa meia-hora.

É então que o meu pai (sim, os avós do rebento também foram para ajudar a acartar madeira sueca) repara numa abertura: um pouco a medo, como se estivéssemos a entrar em território proibido, atravessamos a abertura e estamos nas caixas! Poupámos todo um labirinto e ficámos sem a oportunidade de comprar novos talheres!

Por momentos, é como se tivéssemos descoberto um dos segredos do mundo. Entre coros celestiais (era tarde, estávamos cansados), fomos buscar as caixas castanhas num dos corredores (sou só eu ou aquilo parece aquela cena do Indiana Jones onde a Arca da Aliança se perde num armazém interminável?) e avançámos resolutos para pagar a lenha cortada.

Esperámos pacientemente a vez. O Simão sentou-se em cima das caixas e deitou-se. O empregado perguntou então se tínhamos cartão I-KÊ-Á. Eu sorri: olha, parece que digo bem. Vai o empregado ao lado e pergunta à pessoa que está a atender: «Tem cartão IKÊIA?» O mundo partiu-se em dois.

Raios. O universo faz pouco sentido nesta loja de móveis. Mas com um filho a nascer, pouco importa. O sentido está todo naquela barriga e no miúdo a dormir em cima das caixas onde estão os futuros móveis do irmão.

(Publicado no Sapo 24 no dia 26 de Novembro.)

«Já agora» é erro de português?

Não, não é. É uma expressão portuguesa daquelas boas e saborosas (digo eu). E mesmo que não fosse saborosa, continuava a ser uma expressão portuguesa que não merece ser riscada dos nossos textos só porque há quem não compreenda o seu sentido.

Vem este desabafo a propósito de ter encontrado numa página qualquer (recuso-me a fazer ligação) mais uma daquelas cansativas listas de erros comuns, esta com uns 30 ou mais «erros». Alguns eram erros ortográficos (nada a dizer, embora para evitar os ditos o corrector ortográfico seja mais útil do que listas avulsas); outros, eram variações de pronúncia que se afastam da norma (é sempre bom saber); mas muitos deles eram, pura e simplesmente, expressões que só são erro na cabeça de quem quer mesmo muito encontrar erros onde eles não existem.

Lá pelo meio, vinha o nosso «já agora». A justificação para declarar a expressão um terrível pecado linguístico? «Já» e «agora» querem dizer a mesma coisa — e, logo, a expressão é redundante.

Pois bem: «já» e «agora» querem, de facto, dizer a mesma coisa. Quer isto dizer que «já agora» é uma redundância? Não, mas antes de avançar, convém recordar este facto da língua: a redundância faz parte da gramática! Todas as línguas têm redundâncias espalhadas pelo corpo. Basta pensar que, na expressão «todas as línguas», temos o feminino marcado três (!) vezes. A lógica estrita do «abaixo a redundância», aplicada sem freio, levar-nos-ia a estropiar o português. Uma língua sem redundâncias seria não só muito pouco humana (nós somos seres muito redundantes, temos muita coisa em duplicado), como útil apenas para falantes com audição perfeita, sossego absoluto e tempo de sobra para andar a repetir frases (ou melhor, nem isso seria possível pois uma frase repetida seria… redundante).

Bem, dito isto, convém apontar para algo que me parece claro: a expressão «já agora» não é redundante. Não sei como o compilador da tal lista não reparou, mas a expressão não quer dizer nem «já» nem «agora». Quer dizer algo como «ora bem, como estamos aqui os dois, podemos aproveitar para…». As subtilezas serão outras dependendo dos falantes e do contexto; agora, o que ninguém faz é usar «já agora» como sinónimo de «já» e «agora». Seria algo como «Vamos lá agora ou amanhã?» Resposta: «Já agora!» Não é assim que usamos a expressão…

«Já agora» é uma expressão fixa, criada da maneira como todas as expressões deste tipo são criadas (um pouco ao calhar da sorte), uma daquelas expressões que abundam em todas as línguas, incluindo a nossa bela língua portuguesa, e que só ganham o sentido que lhes damos quando as palavras aparecem assim, em conjunto — sentido esse que é diferente da soma das partes. Por outras palavras, «já agora» é uma expressão idiomática e não há expressão idiomática que sobreviva às análises literalistas que estão na base de tantas destas listas de erros. O que estas listas fazem, muitas vezes, é tentar corrigir a língua, transformando-a noutra coisa qualquer, talvez mais simples, mas certamente mais pobre.

Enfim, quando o leitor sentir a tentação de fazer uma lista de erros, fica a ideia: tenha o cuidado de não incluir expressões idiomáticas. Sim, eu sei que a lista fica muito mais difícil de compor, mas é a vida…

O galego e o português são a mesma língua?

Esta é uma pergunta muito curiosa, porque raramente se faz em Portugal. Podemos viver, neste país, uma vida inteira descansados e felizes (tanto quanto o pequeno rectângulo nos permite) sem que nos entre pelos ouvidos um eco que seja desta batalha linguística.

E, no entanto, ali acima do Minho, há uma discussão acérrima sobre a nossa própria língua!

Então, mas o que se passa? Para um português, a questão da divisão das línguas é bastante clara: nós falamos português. Os espanhóis falam espanhol. Os franceses falam francês. Podemos acenar com a miríade de confusões que desmancham a limpeza do nosso mapa linguístico. Não importa: a questão é fácil, pelo menos no que toca à nossa língua: português é português. Qual é a dúvida?

Então e o galego? Dirão muitos: «Chama-se galego, não se chama? Então não é português. Ainda por cima soa a espanhol…»

O problema é que, no caso de línguas muito próximas, os nomes que lhes damos não são um bom critério para avaliar a diversidade ou a unidade das ditas. Vejamos dois casos…

Rumamos a Valência

Comecemos pela situação linguística na Comunidade Valenciana.

Em Valência, para lá do espanhol, há outra língua oficial, denominada no Estatuto de Autonomia como «valenciano».

Ora, a grande discussão lá por terras de Valência é esta: será o valenciano um outro nome para o catalão? Ou será uma língua própria? Note-se que os valencianos — aqueles que falam a língua — não mudam de maneira de falar de acordo com aquilo que pensam sobre a questão. Por outro lado, a compreensão mútua entre valencianos e catalães está assegurada.

Então, que consequências tem esta discussão? Tem algumas. Por exemplo, os defensores duma língua valenciana separada não aceitam que se apresentem aos alunos livros da literatura catalã nas aulas de valenciano; afinal, é uma língua separada. Já os valencianos que defendem o valenciano como outro nome para o catalão acham muito bem que se estudem obras catalãs nas salas de aula de Valência. Depois, temos a norma: os que defendem a separação entre as línguas defendem uma ortografia e um léxico que se afastam propositadamente da ortografia oficial catalã e do léxico usado na Catalunha.

Já os catalães, diga-se, consideram o valenciano como outra forma da sua própria língua e, nas escolas, as obras valencianas são dadas nas aulas de literatura catalã. Basta pensar em Tirant lo Blanc, uma das obras mais famosas da literatura nesta língua, escrita pelo valenciano Joanot Martorell.

Quem estiver interessado em saber mais sobre as tensões que se escondem por trás do nome que se dá a uma língua, comece por ler o livro Quem fala a minha língua? (Através, 2013), uma colecção de ensaios de vários autores sobre este assunto.

Não é difícil criar uma língua

Olhando para a nossa língua, antes de nos abalançarmos para a discussão que está no título deste pequeno texto, rumemos ao Brasil.

Teria sido possível, no momento da independência, criar uma língua nova. Bastava integrar na norma algumas formas populares do português brasileiro (falo do vocabulário e estruturas gramaticais), estabelecer uma nova ortografia e criar o nome de «língua brasileira». Pronto: estava feito. 

Note-se: num mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado uma língua brasileira, ninguém teria mudado a maneira de falar no momento da decisão. Os brasileiros continuariam a mesma língua, mas dar-lhe-iam outro nome. Claro que aquilo que falavam seria facilmente distinguível do português de Portugal, mas isso também acontece na nossa versão do mundo, em que o nome da língua é o mesmo. Independentemente do nome da língua, portugueses e brasileiros foram falando, escrevendo e desenvolvendo a língua à distância de um oceano e com influências diversas.

Este afastamento não é suficiente para que deixemos de nos compreender — e também não seria no mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado a tal língua brasileira. O nome que se dá à língua e a criação de uma norma autónoma não cortam, de imediato, a possibilidade de comunicar. Nem de imediato, nem durante muito tempo… Mas criam, claro está, uma barreira mental e política que alimenta o distanciamento linguístico.

Em relação ao Brasil, temos a distância e a indiferença, mas a língua é ainda vista como comum por grande parte de portugueses e brasileiros (quando pensam nisso) e as duas normas ainda estão muito próximas. Assim, há leitura de alguns livros brasileiros nas escolas portuguesas, ouvimos os brasileiros na televisão sem precisar de legendas, não traduzimos livros de literatura brasileira (embora, em certo tipo de livros, se note algum tipo de adaptação) e conversamos bem uns com os outros, para lá das picardias típicas de povos próximos e de algum medo do Brasil que uns quantos portugueses apresentam como sintoma de alguma insegurança (digo eu). A língua continua a divergir, mas continuamos a aproveitar as proximidades — o que se faz de forma muito mais saudável quando não há imposições de unidades artificiais.

Portanto: o nome da língua pode sublinhar diferenças ou manter uma unidade decidida para lá do uso real da língua. Com diferenças comparáveis às diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil (provavelmente, as diferenças até serão menores), alguns valencianos pretendem criar uma língua separada. Mas claro que a questão não é estritamente política: é política e é também emocional…

E enquanto discutimos os nomes e as divisões, as línguas, na boca dos falantes, vão mudando ao seu ritmo próprio.

Como muda uma língua?

As línguas avançam pelo tempo de forma espantosa: conversamos com os nossos filhos e eles criam a complexa maquinaria mental necessária para produzir, continua e maravilhosamente, a mesma língua dos pais, com todo o intrincado e caótico sistema de hábitos e regras mais ou menos lógicas a que chamamos «português».

Na escola, tomamos consciência de algumas dessas regras, aprendemos a ler e a escrever — o que é outra maquinaria um pouco mais artificial, mas também mais difícil de aprender — e aprendemos a organizar o discurso, a seguir algumas regras de etiqueta linguísticas e, quando a coisa corre bem, a debater uns com os outros com civismo e proveito — tudo importantíssimo, mas bem menos espantoso que a aprendizagem inicial da língua toda. Pelo caminho, também aprendemos a aproximar a nossa máquina linguística daquilo que é mais normal na sociedade em que vivemos — aproximamo-nos da norma, pois então.

A máquina que temos na cabeça nunca é igual à dos nossos pais: afinal, nós ouvimos a língua dos pais, dos amigos, dos familiares, dos professores, das pessoas na televisão, das pessoas na rua… É desse magma linguístico que extraímos a informação para criar a nossa máquina linguística. E funciona! A maneira como o cérebro humano consegue este feito ainda não está compreendida por completo, mas lá que é espantosa, sem dúvida que é.

A interacção entre o que aprendemos dos pais e aquilo que ouvimos na escola, os textos a que somos expostos, a nossa própria vida… — tudo isto leva a que a língua esteja sempre a mudar. Vemos isto na pronúncia, no vocabulário, nas conotações e nas definições das palavras. Há um livro sobre os mecanismos que estão por trás da mudança linguística que recomenda aos interessados: Words on the Move, de John McWhorter. Embora o livro seja sobre o inglês, aquilo que aprendemos vale para todas as línguas: todas mudam, excepto as línguas mortas. 

A língua muda, pois então — mas muda devagar. As crianças aprendem a recriar a máquina linguística dos pais de maneira bastante mais correcta do que imaginamos — o que se passa é que é muito mais fácil notar as pequenas diferenças, que irritam muita gente, do que sublinhar a incrível continuidade da língua ao longo dos séculos.

O galego e o português

E chegamos ao galego — isto porque o galego é uma prova de que a língua muda, mas muito devagar. Quando Portugal se tornou independente, já se falava em toda a Galiza de então algo que reconheceríamos como a nossa língua. No momento da independência, criou-se uma barreira política entre Portugal e aquilo que restou da Galiza. É claro que esta barreira era muito mais porosa do que pensamos hoje em dia — afinal, não houve guardas civis a vigiar a fronteira durante séculos e séculos —, mas ninguém desmente que os portugueses começaram a viver como comunidade separada dos territórios vizinhos.

Pois bem: apesar desta barreira com mais de 800 anos, aconteceu uma coisa espantosa. Se, no século XIX, ouvíssemos os galegos a falar, aquilo que sairia da boca deles ainda era algo muito parecido com o português sem que ninguém tivesse criado escolas, dicionários ou gramáticas para manter a proximidade da língua dum lado e doutro da fronteira. A língua que os contemporâneos de Afonso Henriques falava mudou, mas mudou tão lentamente que, muitos séculos depois, as populações dum lado e doutro daquela que é uma das fronteiras mais antigas da Europa ainda conversavam sem esforço.

Peço que o leitor repare naquilo que acabei de dizer: uma das fronteiras mais antigas da Europa divide populações que, após 800 anos de separação, ainda conseguem conversar sem grande esforço.

Quem não conhece, na prática, esta proximidade, tem uma boa forma de começar a explorá-la: olhe para os verbos galegos e portugueses, como fez Fernando Venâncio no artigo «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português».

Ora, foi também no século XIX que surgiram os movimentos de reivindicação literária das línguas de Espanha, faladas na rua, mas esquecidas na escrita, num movimento que tem paralelo nos muitos movimentos de cariz nacionalista desse século. (Para evitar confusões, convém dizer que o nacionalismo oitocentista não é uma mania dos bascos, catalães e galegos — inclui também os nacionalismos com Estado, como o espanhol, o italiano, o alemão, o português… Foi nesse século que muitos dos mitos nacionais foram criados e foi só então que a Nação, assim com letra grande, começou a suplantar o soberano como sustentação do Estado.)

Na Galiza, o movimento teve como nome Rexurdimento e teve como figura maior Rosalía de Castro. A história é longa e não cabe aqui, mas note-se: os galegos, no século XIX — e estamos a falar de praticamente todos os galegos — sabiam falar galego e este galego era mesmo muito parecido com o português falado do outro lado da fronteira, embora houvesse pouco reconhecimento mútuo dessa proximidade.

Os galegos sabiam falar galego, mas não sabiam escrever a língua. Aqueles que sabiam escrever, escreviam em castelhano. Quando começaram a surgir as obras em galego — a língua dos avós, que há séculos não era escrita a norte da fronteira —, os galegos usaram uma ortografia com forte influência castelhana.

Pois, ao longo do século XX, aconteceram algumas coisas curiosas: o galego continuou a ser falado, mas o castelhano foi ganhando força (os motivos são muitos: basta pensar na escolaridade da população, na televisão em espanhol…). Já em Portugal, a língua começou a uniformizar-se. Criámos uma ortografia nacional em 1911 (sim, só então tivemos uma ortografia estável), as escolas e os meios de comunicação social espalharam o português-padrão por todo o país e a língua começou a mudar de forma rápida entre as gerações tomando como norma um português baseado no que se fala em Lisboa, bastante longe da fronteira com a Galiza. Ainda hoje conseguimos ver como a língua é diferente entre os avós e netos minhotos: os avós estão mais próximos dum português com uma sonoridade que os galegos reconhecem como próxima da sua, enquanto os netos têm a língua a deslizar em direcção a um lisboeta com sabor nortenho.

Na Galiza, depois do final do franquismo, o galego tornou-se oficial. Foi então que surgiu a opção: ou bem que o galego oficial usava a ortografia com características espanholas («ñ», «ll», «z») ou assumia a proximidade com a língua a sul do Minho e escolhia uma ortografia com «nh», «lh», «ç», etc.

Esta última ortografia chama-se «reintegracionista», pois tenta reintegrar o galego no espaço dos povos de língua galega ou portuguesa. Esta ortografia próxima é quase indistinguível do português escrito, não fosse e uma ou outra opção que reflecte as diferenças fonéticas entre galego e português (por exemplo, «associaçom» em vez de «associação»).

Note-se que os textos reintegracionistas, para lá da ortografia, também costumam escolher um vocabulário mais próximo do português. (Já agora, fica aqui anotado que muitas palavras perfeitamente correntes e formais em galego são palavras portuguesas, mas do registo popular. É assim que temos um Sindicato Labrego Galego—Comissões Labregas que nunca falha: deixa sempre os portugueses a rir.)

Nesta luta entre ortografias (que decorreu durante os anos 80), ganharam os defensores da ortografia com «ñ» e o galego ensinado na escola é o galego com uma ortografia bastante diferente da ortografia portuguesa. Temos «A Coruña» em vez de «A Corunha», «camiño» em vez de «caminho», etc. No entanto, o reintegracionismo manteve-se como alternativa usada por muitos galegos. Para quem não conhece, pode encontrar textos em galego reintegracionista no Portal Galego da Língua.

Esta descrição não transmite, claro está, nem a complexidade da questão (cada uma das opções inclui várias tendências) nem a força das emoções que esta guerra levanta na Galiza. Não será inútil recordar que a discussão faz-se num contexto em que a língua se vê a perder falantes a cada dia que passa.

Simplificando bastante, podemos encontrar duas atitudes perante a língua, alinhadas com a divisão que descrevi acima:

  • Muitos galegos defendem o galego enquanto língua autónoma, não querendo confundi-la com o português. A separação política é velha de muitos séculos e a língua seguiu caminhos diferentes dos dois lados. Mesmo assim, alguns destes galegos não deixam de ter perfeita noção da proximidade entre o português e o galego e aproveitam essa proximidade para ler em português e conversar com portugueses.
  • Os reintegracionistas defendem que uma ligação mais estreita ao português tem fundamentos históricos e permite combater o verdadeiro perigo para o galego: a sua substituição pelo espanhol, que não só lhe tira espaço de uso social como vai também desfigurando a língua, na pronúncia e no vocabulário, até torná-la numa mistura de galego e espanhol.

Tudo isto é ignorado cá por Portugal, tirando um ou outro caso. Como disse noutro artigo, nós olhamos para os galegos como os brasileiros olham para nós: sabemos que existem, têm alguma importância na nossa história, mas podem ser ignorados sem perigo.

Mas são a mesma língua ou não?

Antes de tentar responder, podemos olhar para aquilo que é factual. Primeiro: esta pergunta só se faz naqueles casos em que as línguas estão tão próximas que podem funcionar como língua única (se houver vontade).

Segundo: existem galegos, hoje em dia, que olham para o português e o galego e optam por vê-los como a mesma língua. Vêem televisão portuguesa, lêem livros portugueses, etc. Aqui fica uma sugestão de um livro que mostra esta perspectiva: O galego é uma oportunidade, de José Ramom Pichel e Valentim Fagim, um livro que tenta mostrar aos galegos como a sua língua lhes abre os horizontes para um espaço de 200 milhões de falantes. 

Terceiro: se consideramos o português e o galego como línguas separadas, serão certamente das línguas mais próximas que encontraremos em todo o mundo.

Ainda uma curiosidade: há milhares de galegos que se inscrevem para aprender português nas escolas de idiomas da Galiza. Porquê? Tentei responder neste artigo. Note-se que este interesse pela língua portuguesa vai muito para lá das divisões entre as duas normas da língua galega.

E nós, em Portugal? Podíamos considerar o galego como outra variedade da nossa língua, com outro sotaque, algum vocabulário diferente e outro nome? Podíamos, mas não vai acontecer: não há nem conhecimento suficiente entre os portugueses nem interesse da nossa parte. Para nós, os galegos são espanhóis e isso, para a nossa consciência histórica, é algo que nos impede de imaginar qualquer tipo de comunidade, mesmo que meramente linguística. 

Da minha parte, não tenho qualquer interesse em alimentar uma relação de cariz político entre Portugal e a Galiza — e também não quero andar a dar conselhos sobre a ortografia e o vocabulário que os galegos devem usar. Andar a propalar a unidade do galego e do português em Portugal quando, a esse propósito, nem os galegos se entendem parece-me não só inútil como contraproducente.

Mas o belo da questão, do lado português, é que não temos de nos meter na discussão galega nem proclamar a tal unidade: cada um de nós pode aproveitar-se impunemente da proximidade entre o galego e o português. Sem grande dificuldade, podemos aceder a outra literatura e conversar, sem mudar a maneira de falar, com milhões de vizinhos — ficamos mais próximos de boa gente, boa literatura, boa conversa e boas oportunidades.

Pessoalmente, ando a aproveitar esta proximidade. Tenho lido em galego, tenho conversado muito com galegos, tenho até viajado pela Galiza. Todo este texto serve como convite para que mais portugueses aproveitem esta ponte linguística.

O primeiro artigo deste blogue foi sobre Manuel Rivas, um escritor galego, e foi esse escritor que escreveu as primeiras palavras que li em galego, num livro chamado Ela, maldita alma, que um dia comprei num supermercado de Vigo só porque sim:

«Aquela primavera chegara axiña e en demasía. 

Á hora do café, pola fiestra que daba á horta, Chemín mirou a festa de páxaros na vella maceira florida.»

Note-se que esta é a ortografia do galego mais distante da nossa. As opções vocabulares soam-nos estranhas — mas deliciosas. Não precisei de aulas para ler o livro, apesar das saborosas diferenças, tal como não precisei de aulas para ler o livro Outra idea de Galicia, de Miguel-Anxo Murado. Foi a minha leitura de há umas semanas e recomendo-a vivamente. É um livro interessantíssimo para quem gosta de boa escrita, queira ou não saber mais sobre a Galiza.

Para terminar, uma confissão: não consigo aprender galego. Ou seja, por mais que leia galego e converse com galegos, as palavras que me saem são sempre as minhas… E chegam! Talvez esta confissão seja a minha resposta — pessoalíssima — à pergunta do título.

Quais são as expressões mais deliciosas da nossa língua?

Estou a planear escrever um pequeno texto com mais expressões deliciosas, para continuar aquele artigo em que descrevi as delícias que uma alemã encontrou na nossa língua.

Pois, desta vez, pergunto directamente aos meus leitores: que expressões da nossa língua consideram deliciosas?

Entre todas as respostas, irei escolher aquelas que me deixarem mais água na boca…

Podem usar os comentários para responder. Desde já, o meu muito obrigado!

Delícias da língua: «a pulga atrás da orelha»

O que faz a pobre pulga ali atrás da nossa orelha? Faz comichão, pois então.

Nem sempre percebemos bem o que nos põe ali o bicharoco. Por vezes, é uma entoação falsa, um olhar que não bate certo, qualquer coisa que no enredo dos dias não cose com as outras linhas.

Pense lá o leitor na pequenita pulga: ali, sem saber falar, aflita e aos saltos, a avisar com picadelas o excelentíssimo humano que a transporta que alguma coisa não está bem. E o pobre nem sempre liga e às vezes até coça e manda a pobre pulga às malvas.

Diga-se que, por vezes, a pulga está errada: pica, mas não devia. Outras vezes, é um bom aviso para ficarmos alerta para outros animais mais pesados que se atravessam à nossa frente.

Eu, por mim, tenho um fraquinho pelos animais da nossa língua — e a pulga, tão atenta e espertalhona, é um deles. Não é para todos conseguir um lugar na língua de todos; um lugar-comum, é certo, mas um lugar — e bem simpático.

Apetece-me até imaginar uma história com esta pulga — mas fica para outro dia… Talvez o leitor fique com a dita atrás da orelha, mas não porque desconfia: apenas porque quer saber que história será essa. É uma daquelas boas pulgas que se escondem nas nossas cabeças.

Portugueses no jacuzzi

Uma viagem oferecida

Viajar é bom, mas já sabemos que não pode ser de qualquer maneira. Uma coisa é percorrer a Europa de comboio, de preferência com um detective belga a bordo. Outra, bem diferente, é entrar num navio de cruzeiro. Nesse caso, sofremos o desprezo dos que se reputam verdadeiros viajantes, que nos atiram o pior insulto destes tempos: «Olha um turista!» Na escala do prestígio viajante, o passageiro destes hotéis insuflados está pouco acima do excursionista que vai comprar colchões a Badajoz.

E, no entanto, eu não podia recusar: ofereceram-me uma viagem até Itália! Queria lá saber se era de barco ou de Piaggio. Eu queria era ir a Barcelona, a Nice, a Pisa, a Roma… Ainda por cima, estava nos primeiros tempos de namoro e a viagem era para dois!

As circunstâncias em que fui contemplado com tal viagem ficarão para outro dia. Para já, revelo isto: nesse Verão de 2007, a Zélia e eu esperávamos o embarque na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos — e ao nosso lado esperavam também muitos outros portugueses. Sim, era uma espécie de excursão. Portugal estava ali em miniatura — e em força.

Portugal em miniatura

Devia ter recusado? Claro que não. Tínhamos 27 anos, éramos namorados, queríamos viajar e a viagem dada… Seria uma viagem pouco própria para jovens? Sim, mas pensámos: bastava ignorar o país em miniatura que ia connosco e seria como se fôssemos num iate por esse Mediterrâneo fora.

E, vá, nós também somos parte do país: representávamos ali os casais jovens nesse pequeno Portugal que embarcava em direcção a Itália, com as suas bagagens e impaciências à espera de entrar no navio. Era um Portugal que ia viajar de graça — o que é um Portugal diferente daquele que viaja a pagar. Nos dias seguintes, tivemos um motim português a bordo, uma portuguesa invadiu um palácio no Mónaco e ainda nos perdemos todos pelas estradas de Roma — tudo terminou numa viagem de avião de que não me quero lembrar.

Onde estavam os texanos?

Bem, uma coisa de cada vez. Entrámos no navio, fomos até à cabine que nos foi atribuída e deixámos lá as bagagens. Saímos para o corredor, já zonzos do balançar. À nossa volta, não vimos ninguém, o que era estranho. Segundo o que nos disseram, o navio já navegava há oito dias. Devia estar carregadinho de americanos. Mas, não: estava vazio, não fosse um ou outro português à procura da cabine certa.

Fomos até ao último andar. Lisboa vista dali estava linda, como de costume. Sorri: provavelmente, aquela seria uma das mais belas paisagens de toda a viagem e ainda nem saíra do porto.

Ainda inchado com um certo orgulho patriótico, olhei para trás e vi uma estranha concentração de barrigas portuguesas.

Onde? No jacuzzi, pois então. Parece que os homens portugueses decidiram ocupar os dois jacuzzis que por ali havia antes que os americanos aparecessem. E, a julgar pelas bagagens espalhadas ali ao lado, parece que a primeira coisa que um português faz num navio é mesmo saltar para o jacuzzi em grande estilo e barriga alçada. Foi assim, aliás, que descobrimos o Brasil.

Um aviso no jacuzzi

Ao lado do jacuzzi, estava um aviso que não consegui ler. Ainda tentei aproximar-me para lê-lo, mas a Zélia chamou-me: precisávamos de ir ver como podíamos aceder à Internet. Fomos até ao balcão das informações. Soubemos, para nosso horror, que Internet só havia nos computadores ali ao lado do balcão. Eram tempos obscuros, em que o acesso à internet ainda não era tão importante como a água na torneira da cabine.

Logo a seguir, soaram os avisos: devíamos fazer o exercício de coletes ao pescoço. Fomos à cabine buscá-los, dirigimo-nos ao local designado e assim nos divertimos durante quase uma hora, entre piadas que incluíam quase sempre alguma referência ao Titanic.

Ouvimos mais sinais sonoros: a partida estava para breve. Ah!… Como seria partir de Lisboa a navegar, em direcção ao mar oceano e às aventuras sem fim duma semana para recordar?

Partida de Lisboa

Era assim: à nossa frente, Lisboa. Atrás de nós, portugueses a marinar no jacuzzi. Sim, os mesmos homens continuavam a sentir a água a borbulhar pelo corpo. Em redor, outros portugueses em cuecas tentavam convencê-los, com a força do olhar, a desamparar aquela loja.

Aproximei-me então do tal aviso que me intrigara horas antes: qual poderia ser o perigo dum jacuzzi? Perigos não havia, apenas isto: «Não permanecer no jacuzzi mais do que 15 minutos.»

Entretanto, lá em baixo, os americanos já embarcavam à pressa, de compras na mão e susto nos olhos: não queriam ficar em terra! E não ficaram. Pouco depois, vimos abrir-se uma fenda entre o navio e o cais e lá navegámos dali para fora. O navio saía de Portugal, mas Portugal não saía do navio.

Notei então alguns tripulantes a coçar a cabeça: como dizer aos portugueses de molho que deviam sair dali?

Não precisaram de pensar muito: quando correu a notícia que estava na hora de ir comer, os portugueses engelhados saltaram da pobre piscina borbulhante e quase atropelavam, aos pingos, um grupo de texanos. Um dos americanos ainda perguntou ao amigo que língua bárbara era aquela.

O sol já se punha. A bombordo, as míticas terras da Costa da Caparica. Mal sabia eu o que nos esperava naquela louca semana.

Que castelo é aquele no horizonte de Lisboa?

Na viagem de hoje, vou de Chelas até Cambridge, passando por um certo castelo que paira no horizonte de Lisboa.


Todos os dias lá tenho o calvário conhecido de tanta gente: meter-me no trânsito para ir pôr o filho à escola. Ao final da tarde, a mesma coisa. Lá pelo meio tenho a famosíssima e pesadíssima Rotunda do Relógio.

Pois, agora, descobri um truque: o Google Maps sabe o trânsito que está a cada momento e adapta-me o percurso para não ferver a paciência no meio dos carros. Resulta? Quase nunca: mas pelo menos tenho descoberto ruas e vistas de Lisboa que não conhecia.

Por exemplo, no outro dia, quando já tinha deixado o Simão na escola, o Google Maps, em vez de me enfiar na tal magnífica rotunda, levou-me para Chelas. Pois a certa altura, ali pelos altos do Parque da Bela Vista, deparo-me, lá bem ao fundo, com um castelo a pairar nas nuvens.

Abri a boca e olhei com mais atenção: aquilo era mesmo um castelo! Mas qual castelo, perguntava-me eu. Em casa, olhei para o mapa e alinhei aquela rua com a Península de Setúbal. Com o dedo fiz uma recta e fui para a Palmela. Era isso: aquele só podia ser o Castelo de Palmela.

Talvez seja um caso raro, mas na verdade nunca tinha visto o Castelo de Palmela a partir de Lisboa — até ao dia em que o Google Maps me levou pelos misteriosos caminhos de Chelas.

Bem, tudo isto para dizer que, ao final da tarde, quando fui buscar o Simão, perguntei-lhe se não queria ver um castelo.

«Quer dizer que vamos por um caminho diferente?»

«Sim!»

«Então quero!» (O ódio à Rotunda do Relógio é um hábito que se adquire desde muito novo.)

E lá fomos — só que já era de noite e a única coisa que conseguimos ver foi umas pobres luzes a pairar ao fundo. Podia ser o famosíssimo Castelo de Palmela — ou uns prédios no Montijo.

«Onde está o castelo, pai?»

«Está ali!»

«Não vejo nada» — e fez cara de quem começa a duvidar da sanidade do pai.

Mudei de assunto enquanto passávamos por baixo duns prédios enormes que estão à volta dum supermercado cujo nome agora não posso revelar:

«Sabes como se chama este bairro?»

«Não…»

«Chelas!»

Ele riu-se. Parece que o nome é divertido para quem nunca o ouviu. E assim começámos a falar de bairros de Lisboa e de nomes de terras. O Simão anda a aprender a distinguir cidades de países. Ainda há poucos dias, em Ponte de Sor, despediu-se do avô dizendo que ia para Portugal — lá lhe dissemos que o Alto Alentejo continua firme no meio do nosso país e que, na verdade, íamos era para Lisboa…

Pois, naquele dia do castelo, enquanto explorávamos a fronteira entre Marvila e os Olivais, eu explicava-lhe:

«Ponte de Sor, Peniche e Lisboa são no mesmo país: Portugal. Mas tu conheces outros países… Por exemplo, a tua prima Lilah vive em Cambridge, uma cidade num país chamado Inglaterra.»

Ele disparou logo:

«O Dinis também!»

Fiquei assustado: que confusão era aquela? O Dinis é o primo mais velho, que, longe de viver em Inglaterra, vive no outro lado da nossa rua lisboeta.

«Sim, ele aprende inglês em Cambridge!» (Não consigo reproduzir a maneira como ele diz este nome…)

Percebi, então: o primo tem aulas de inglês na Cambridge School (acho que é assim)… Agora, tinha de explicar por que razão há escolas com nomes de cidades, ainda por cima inglesas.

Depois da explicação, parados no trânsito (o Google Maps não faz mesmo milagres), disse-lhe a sorrir:

«Daqui a uns anos, vais tu para Cambridge passar uns dias com a prima e também aprendes inglês.» Ele não disse nada, mas sorria, já contente por imaginar a aventura. Continuei: «Se passares lá uns 30 dias chegas cá a saber inglês melhor do que eu…»

Ele arregala os olhos:

«Trinta dias? Ó pai, não vamos exagerar!» 

Fiquei a rir-me com aquela saída. Parece banal, assim por escrito, não parece? E, no entanto, era uma frase de adulto saída da boca ainda incerta duma criança, com os «rr» ainda por dizer, mas com a entoação exacta para dar aquele exacto ar de impaciência com as parvoíces do pai. As consoantes ainda não saem todas bem, mas as entoações e o tom já começam a ir ao sítio.

O semáforo passou a verde, o trânsito entornou-se por mais uma rua e lá avançámos nós em direcção a casa. Cá por dentro, prometi a mim mesmo: ainda lhe hei-de mostrar o tal castelo que paira no céu de certas ruas de Lisboa — e continuámos a conversar, pelas avenidas fora.

Cinco ideias para não ser enganado pelos números

Há pouco, li o título dum jornal a passar por mim, a grande velocidade, pelo Facebook: «Turistas apresentam quatro queixas por mês contra taxistas». Quando dei por mim, já tinha perdido a notícia e não consigo saber em que jornal apareceu. (Sim, eu sei que há o Google, mas hoje não me apetece.)

O título chamou-me a atenção. Porquê? Porque fico sem saber se aquilo são muitas queixas, poucas queixas, queixas assim-assim.

Estou certo que o jornalista dá mais informações no corpo da notícia desaparecida. Mas essa minha confusão inicial lembrou-me deste facto interessante: os números podem enganar e muito. Não julguem, no entanto, que podemos ignorá-los: na verdade, se os números enganam muito, as palavras enganam ainda mais — e essas palavrinhas especiais que são os números dão muito jeito para pensarmos melhor.

Portanto, perante o título «Turistas apresentam quatro queixas por mês contra taxistas», a nossa tentação é usar este número para as nossas narrativas particulares.

  • Ah, esses taxistas, malandros, vejam lá que se portam tão mal que recebem quatro queixas por mês (tantas!).
  • Ah, esses turistas, malandros, que andam sempre a importunar os nossos taxistas.
  • Ah, quatro queixas? Só? Tão poucas! Os turistas não têm é coragem de se impor perante os abusos dos taxistas.
  • Ah, quatro? Só? Os nossos taxistas são uma maravilha!

E por aí fora…

Ou seja: aquele número, assim muito frio, pode servir para mil e uma histórias diferentes ou mesmo opostas. O mesmo número serve para elogiar ou para insultar os taxistas.

Como resolver isto? Aqui ficam cinco ideias, tomando como exemplo este caso:

1. Fazer comparações

Por exemplo, qual será o número de queixas noutras cidades? E, já agora, qual será o número de queixas por 100 000 habitantes em cada cidade (para compararmos as coisas de forma mais correcta).

Ou, melhor ainda: qual será o número de queixas por 1000 viagens de táxi em cada cidade?

Talvez assim comecemos a perceber se quatro queixas por mês é muito ou pouco. E há ainda outras formas de escavar para lá dos primeiros números.

2. Olhar para a evolução ao longo do tempo

O número de queixas está a aumentar ou a diminuir? Estabilizou? Deu um salto neste mês? Aumentou durante uns anos e agora tem diminuído?

Há que ter cuidado, no entanto: com números baixos, o acaso tem um papel muito importante no número de queixas por mês. O melhor será olhar para tendências de longo prazo…

3. Tentar saber qual era a expectativa inicial

Será que os taxistas têm objectivos de qualidade no que toca ao número de queixas? Esses objectivos foram ou não cumpridos?

(Como vemos, o truque está em fazer perguntas aos números. Claro que nem sempre temos maneira de chegar às respostas — ou tempo, para dizer a verdade. Mas, pelo menos, se fizermos as perguntas, começamos a perceber aquilo que os números não dizem.)

4. Abrir o número e olhar para o que está lá dentro

Será que as queixas estão concentradas em poucos taxistas? Ou nem por isso? As queixas são apresentadas a qualquer hora, ou concentram-se em determinadas alturas do dia? E será que os mesmos taxistas recebem queixas todos os meses, ou, em geral, um taxista que recebe uma queixa num mês não recebe mais durante o ano?

5. Não cair na tentação de procurar números interessantes

Há que evitar o risco de encontrarmos nos números uma qualquer história mais interessante do que verdadeira. Os números nem sempre são interessantes — e ainda bem.

Imaginemos que um comportamento frequente de muita gente aumenta o risco disto ou daquilo. Vou inventar um cenário fictício. Por exemplo: um grupo de cientistas descobre que ler aumenta em 100% (!) a probabilidade de sofrer uma estranha doença nos olhos — chamemos-lhe leiturite. Ou seja, quem lê tem o dobro da probabilidade de ter a tal doença. Assusta, não é? Certamente, se esta história fosse verdadeira, teríamos os jornais a declarar que a leitura, afinal, é perigosa.

Isto, claro, até um leitor muito pouco dado a aceitar assim insultos à sua actividade preferida se dar ao trabalho de olhar para os números com mais atenção.

Percebemos então que o risco na população em geral será de 1 doente em cada 10 000 000 de pessoas. Entre os portugueses, o mais provável será termos 1 sofredor da tal leiturite.

Ora, se a probabilidade aumenta para o dobro, quer isso dizer que seria necessário que todos os portugueses passassem a ler para passarmos a ter 2 sofredores de tal mal.

De repente, um aumento da probabilidade em 100% já não parece razão para grandes sustos, não é?

Diga-se, já agora, que a doença é mesmo inventada. Riscos a sério corre aquele que não lê, como sabemos.

Voltemos aos nossos amigos taxistas. Esta vontade de pôr os números a gritar manchetes pode levar-nos a dizer: aumento de 100% das queixas contra taxistas! Porquê? Porque em Julho houve quatro queixas, quando em Junho tinha havido duas. A única diferença foi ter havido um taxista que teve o azar de dar com um casal que gosta muito de reclamar — e, pronto, lá temos manchete. Com a verdade me enganas, não é assim? (Aviso aos desprevenidos: os números neste parágrafo são fictícios. Não quero cá insultos a classes profissionais por dá cá aquela palha.)

A síndrome da velha que bebia gin

Para terminar, deixem-me lá falar desta síndrome antiga. Alguém diz que o álcool faz mal e logo aparece alguém a dizer: ora, ora, conheço uma senhora que bebia todos os dias e viveu até aos 100 anos!

Ó meus amigos: também conheço fumadores que viveram até aos 100 anos. Quer isto dizer que fumar não faz mal? Claro que não…

A verdade é que olhamos para os números como nos dão jeito. Queremos fumar? Então reparamos na velha que fumava até aos 100 e ignoramos todos os que morreram aos 50. Queremos justificar a nossa falta de leitura? Olhamos para o risco mínimo (quase inexistente) duma doença que nem sequer é assim tão grave.

Gostamos de apontar uma pistola à cabeça dos números até eles confessarem aquilo que nós queremos que confessem. Ora, se resistirmos à tentação e baixarmos a pistola, os números dizem-nos, em voz baixinha e sem ameaças, algumas coisas interessantes. Só temos de ter calma e ouvi-los com atenção.

(Publicado no Sapo 24 no dia 20 de Agosto.)

O trocadilho de Sócrates e o fogo no Facebook

Artigo publicado no Sapo 24 no dia 15 de Outubro.

Ora, andava eu descansado na minha vida quando abro o Facebook. Começo a ler várias pessoas a reclamar contra um trocadilho: «Parem com essa história do 31!» «Chega do trocadilho do 31!» «Não têm nada mais original para dizer?»

Fiquei muito admirado: aquelas pessoas estavam a falar do quê? Eu tinha ficado umas boas duas horas longe do Facebook… O mundo tinha mudado. Havia, pelos vistos, um excesso de trocadilhos com o número 31!

O que se passava, por amor de Deus?

O número do crime

Devagar, puxando o mural do Facebook um pouco mais para baixo — e, confesso, acedendo ao Sapo para ver as notícias do dia — lá percebi: José Sócrates tinha sido acusado de 31 crimes. Vai daí, várias dezenas de pessoas (ou terão sido centenas?) começaram a fazer trocadilhos do género «está metido num 31». E uns 31 segundos depois — ou talvez menos — havia já dezenas ou centenas de pessoas aborrecidas por terem visto aquele trocadilho mais vezes do que a conta.

Ou seja, eu comecei pelo fim de toda esta sequência de notícias, comentários jocosos, comentários irritados, discussões mais ou menos acesas sobre os comentários jocosos e os comentários irritados. E só estive duas horas sem rede!

Como pegar fogo a um homem numa estação de serviço

Uma pessoa fica zonza a olhar para estas sequências. É tudo rapidíssimo. Uma polémica na imprensa de há umas décadas demorava semanas. Agora, arde tudo num fósforo. Não acho mal, à partida — mas há perigos nisto tudo que vão muito para lá da minha atrapalhação ao ver irritações sem perceber a causa.

Vou pedir ao leitor que imagine um cenário: um homem dos seus quarenta anos vem a descer a A1 num dia qualquer de Julho deste ano. Chamemos-lhe Paulo.

O Paulo decide parar numa estação de serviço. Para o caso, serve a estação de Aveiras. Entra no restaurante self-service e põe-se na fila. Enquanto espera, entretém-se no Facebook. Entretanto, chega um grupo de três bombeiras e dois bombeiros com ar cansado, sujos do combate aos incêndios deste Verão terrível. O grupo põe-se também na bicha, atrás do homem.

Uma rapariga — chamemos-lhe Rita — está sentada à mesa e repara na cena: o Paulo olha para o telemóvel, enquanto, atrás, bombeiros esperam sem que o malandro se lembre de lhes dar o lugar, o que será o mínimo, tendo em conta o sacrifício que aqueles jovens bombeiros faziam pelo país.

A Rita publica de imediato a fotografia dum homem entretido no telemóvel e cinco bombeiros sujos e cansados. Por baixo, um comentário a condizer: «A falta de civismo dos dias de hoje! Enquanto uns se arriscam para salvar as vidas dos outros, outros nem levantam a cabeça do telemóvel!»

Enfim, os pontos de exclamação seriam certamente muitos mais e imagino um festival de maiúsculas em cada frase.

Não será muito relevante, mas o Paulo imaginário acaba por levantar os olhos do telemóvel e convida então os bombeiros a passar à frente. Parecem, de facto, muito cansados.

Quando a vida muda na fila do self-service

A imagem que a Rita partilhou torna-se viral em poucos minutos. É daquelas fotografias irresistíveis por aqueles dias: junta a indignação aparentemente justa à homenagem a quem a merece. Tudo isto é bem condimentado com o horror que os incêndios provocaram e ainda a confirmação daquilo que parece óbvio: o mundo está obcecado com os telemóveis e as pessoas de hoje em dia já nem sabem ceder um simples lugar numa fila aos heróicos bombeiros. Vivemos num mundo de gente má, não é verdade?

São centenas de partilhas, milhares de comentários, insultos em barda. O Paulo, minutos depois, descansado a comer, começa a receber mensagens dos amigos e insultos de desconhecidos — e descobre que é o vilão do dia nas redes sociais. Nas redes sociais e não só: há jornais que publicam a fotografia e há um programa de humor na televisão que se aproveita do instante para fazer uma piada certeira (isto, claro, três dias depois).

Se quisermos ser um pouco mais dramáticos, podemos até imaginar discussões domésticas, a perda do emprego, a vergonha durante meses e meses, muito depois de o caso desaparecer da mente das gentes.

Estou a exagerar? Julgo que já por aqui recomendei o livro So You’ve Been Publicy Shamed de Jon Ronson. O livro mostra como o cenário que criei acima só peca por ser muito meiguinho para com as personagens. Optei por inventar a história porque falar das histórias reais pode ser mais um prego na pele das vítimas destes fogos virtuais.

Somos todos carrascos

Pergunto ao leitor: se visse a fotografia que imaginei acima, será que a partilhava? Será que comentava? Será que pensava duas vezes e chegava à conclusão que um instante apanhado num telemóvel não significa nada sobre a falta de civismo dos portugueses e muito menos sobre aquela pessoa em particular? Uma partilha não faz mal a ninguém, pois não? Em caso de dúvida, mais vale partilhar…

O problema não é cada partilha ou cada insulto: o problema é a quantidade e a velocidade a que tudo decorre. Em poucas horas, a pessoa envolvida sente-se humilhada e diminuída perante o peso da censura social. O mesmo grau de atenção e a mesma luz dos holofotes que antes eram reservados aos famosos (que terão os seus mecanismos de defesa e algumas vantagens para compensar) podem agora incidir num qualquer anónimo apanhado num instante comprometedor ou ambíguo. E é tudo tão aleatório: não há um pingo de justiça nisto, apenas a força do acaso, como um piano que cai em cima dum pobre transeunte (a olhar para o telemóvel, pois então).

A nossa força colectiva nas redes sociais é imensa — e, se às vezes gastamos essa força em discussões interessantes ou a avaliar a qualidade dos trocadilhos dos outros, há dias em que atropelamos gente inocente. É o equivalente virtual daqueles casos em que pessoas morrem debaixo dos pés duma multidão em fúria: há mesmo quem fique ferido debaixo dos nossos cliques.

(A sério: leiam o livro de Jon Ronson. Por incrível que pareça, é divertido — e muito importante.)

Três perigos de ver o telejornal

Desta vez, apeteceu-me apresentar as razões por que ver o telejornal é uma actividade de alto risco.

1) O mundo está cheio de cães que mordem o homem — só que não aparecem nas notícias

Se o homem que morde o cão é notícia e o cão que morde o homem nem por isso, isto quer dizer que as notícias mostram o que é extraordinário e não o que é normal no mundo.

Ora, isto tem uma implicação profunda: quem basear a sua visão no mundo apenas nas notícias fica a conhecer o que não é normal. Ou seja: vai ficar convencido que o mundo está cheio de homens que mordem cães.

As notícias transmitem uma visão do mundo que tende para o extraordinário. Por exemplo: ficamos todos horrorizados com as notícias de pais ou mães que matam os filhos. Ora, se alguém baseasse a sua opinião sobre o que é normal numa relação entre pais e filhos apenas nas notícias, ficaria convencido que a maioria dos pais maltrata os filhos ou os quer matar.

Felizmente, no caso dos pais que matam os filhos, todos temos experiências pessoais que contrabalançam o que vemos nas notícias — e assim percebemos intuitivamente que aquilo são excepções. Mas já não será tão óbvio perceber se esses casos estão a aumentar ou a diminuir. Muitos julgam saber, sem margem para dúvidas, que estão a aumentar — afinal, lembram-se muito bem dos casos que ouviram nos últimos tempos. Na verdade, só olhando para os números (o que não é fácil) podemos saber com mais rigor o que se passa no mundo.

Agora, aqui fica uma provocação: quanto mais violência há no mundo, menos extraordinária será — e vice-versa. Daí, não é difícil concluir algo estranho: quanto mais violência aparece nas notícias, mas extraordinária é essa violência e mais pacífica será a sociedade.

É um exagero, uma conclusão apressada, um absurdo — concordo. Foi apenas uma provocação. Mas não deixa de corresponder ao que as estatísticas nos dizem. O caro leitor faça alguma pesquisa sobre o número de homicídios nas últimas décadas, apenas como exemplo; veja também o número de mortos em guerras — e por aí fora. (Mas, já agora, fique até ao fim, pois tenho uma surpresa guardada no final do texto sobre este mesmo assunto.)

Sim, o mundo parece louco depois de vermos o telejornal — afinal, a função dos jornalistas é andar à procura da loucura do mundo.

2) Há mesmo estudos científicos para todos os gostos

Sim, é verdade: parece haver estudos para todos os gostos. Há quem diga que o leite faz mal e tem um estudo na mão e há outras pessoas que tem a certeza que o leite só faz bem e também vem armadas com uns quantos estudos nas duas mãos.

O problema, na verdade, não é dos cientistas: é mais da nossa incapacidade de perceber como funciona a ciência e os estudos científicos.

É quase inevitável que, se fizermos 20 estudos sobre um medicamento (ou sobre o leite), vamos ter dois estudos com resultados contraditórios — o segredo está em olhar para os resultados que perduram no tempo e não para um ou outro caso particular.

Mas, claro, é muito mais fácil pegar naquele estudo que por acaso parece provar o que queremos, ignorando todos os outros. Basta pensar no famoso estudo que parecia mostrar uma relação entre vacinas e autismo e que se baseou em pouquíssimas crianças. Um estudo malfeito, isolado, com um resultado que é fruto do acaso — desde que confirme as teorias que algumas pessoas têm na cabeça vale mais do que todos os outros estudos realizados ao longo dos anos. Repare o leitor: se a relação entre vacinas e autismo fosse real, esse efeito tenderia a aparecer na maioria dos estudos realizados.

A ciência é, no fundo, um conjunto de técnicas para filtrar aquilo em que somos tendenciosos. Não é fácil — e há muito caminho a percorrer mesmo dentro da ciência.

Agora voltemos às notícias: se os estudos científicos estão aí à mão de semear para provar tudo e o seu contrário, imagine-se o que não acontece com as outras notícias. Então se falarmos de questões políticas ou económicas, temos o caldo muito entornado. Duas pessoas de partidos diferentes a ver o telejornal conseguem ver coisas completamente diferentes: o apoiante do partido ABC sabe que as notícias confirmam como seu partido é o melhor — e quando não confirmam, a razão é simples: a comunicação social está toda do lado do partido XYZ. Já o apoiante do partido XYZ está convencidíssimo que as notícias demonstram a razão do seu partido — e só não são mais entusiásticas porque todos sabem como os jornalistas tendem todos a ser do partido ABC.

3) O raio do mundo é sempre mais complicado do que parece

Sim, é uma surpresa para muitos, mas o número de homicídios e mortes em guerras tem diminuído nas últimas décadas em muitos países — nos E.U.A., por exemplo. Em Portugal também tem havido menos homicídios — já no que toca à guerra, enfim, nós não somos muito dados a esse desporto, o que só nos fica bem.

O cirurgião Atul Gawande, num livrinho que estou a ler (Better), mostra que os homicídios, nos Estados Unidos, têm de facto diminuído a olhos vistos — mas as tentativas de homicídio nem por isso. O que se passa é que a medicina tem conseguido salvar muito mais vítimas de ataques com armas de fogo do que há umas décadas — e tem também conseguido salvar mais soldados feridos, diminuindo a mortalidade em situações de guerra. Ou seja, se olharmos só para os números, não percebemos o que aconteceu.

Esta nossa corrida para perceber o mundo não tem fim, para dizer a verdade. As estatísticas tiram-nos as palas das notícias vistas a correr, mas podem esconder outros segredos. Agora, o pior de tudo será tentar perceber o nundo olhando apenas para as letras gordas dos jornais, para os títulos dos artigos publicados no Facebook ou ouvido os primeiros três minutos do telejornal — e, admitamo-lo, muitos de nós fazemos precisamente isso.

A solução? Não é fácil. Temos de ler mais, compreender alguma coisa de estatística, desconfiar das nossas ideias… É muito mais fácil escolher umas quantas certezas à bruta e não querer saber de mais nada. As opiniões ditas com ar de certeza são mais interessantes — e arranjamos sempre uma ou outra notícia, um ou outro estudo, uma ou outra história para confirmar tudo o que quisermos. Hesitar, duvidar, fazer o esforço de raspar a superfície do mundo para lá das palavras fortes… Ah, isso cansa muito.

(Publicado no Sapo 24 no dia 11 de Junho de 2017.)

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