Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

«A lua está maior» é erro?

Hoje descobri alguém que chama «burros» todos os que usam a expressão «a lua está maior». Porque o correcto é «a lua está mais próxima».

Só me apetece bater com a mão na testa!

Vale a pena dizer que o tamanho do disco da lua aos nossos olhos não tem só a ver com a proximidade? Tem também a ver com estranhos fenómenos no nosso cérebro?

E que, de facto, às vezes, a lua está maior aos nossos olhos? E que a Lua está também mais próxima? (Uma coisa não exclui — nem implica — a outra.)

Esta sanha de encontrar erros e achar que os outros são todos burros é alimentada por muita ignorância no que toca ao funcionamento da língua. É curioso, não acham?

Cinco surpresas de Nova Iorque

Prometi aventuras — ataques no Central Park, russos de ar perigoso… — e terei de cumprir. Nem sabem o que vos espera, digo-vos já. E, sim, isto é uma ameaça.

Mas ainda não será desta. Hoje, neste segundo episódio das minhas viagens à terra dos outros, quero alimentar um pouco a mania das listas que anda por aí. Somos uma espécie muito estranha. Até neste humilde blogue escondido num recanto da internet portuguesa, é certo e sabido: se o título do artigo tiver um número («Sete palavras disto ou daquilo…») tenho partilhas e gostos em barda.

Tento não abusar. Mas um blogue faz-se para se ler. Se os leitores gostam de listas, de vez em quando dou-lhes listas.

Pois bem, antes das grandes revelações sobre o mundo e o universo que descobri nas ruas de Nova Iorque, deixo-vos aqui cinco surpresas que a Zélia e eu tivemos ao chegar à cidade.

Antes da primeira surpresa, um pequeno relato: estávamos nós na fila para passar pelos serviços de estrangeiros lá do sítio, para mostrarmos o passaporte e sentirmos aquele pequeno formigueiro do estilo «será que me vai sair dali um polícia daqueles gigantescos e mandar-nos ao chão porque o passaporte tem um problema?», quando percebemos que à nossa frente estava uma pessoa vagamente conhecida. Aliás, muito conhecida em Portugal e desconhecida no resto do mundo (o que, em média, justifica o «vagamente»).

Mal sabia o polícia que tinha perante si aquele que viria a ser um dos homens mais importantes do planeta e, quem sabe, de Nova Iorque!

Avancemos. Saímos do aeroporto, pusemo-nos num comboio e toca de aviar surpresas:

1. O tamanho de Manhattan

Estávamos a aproximarmo-nos de comboio e a Zélia agarrou-me no braço: olha, olha!

A segunda fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

E lá ao fundo apareceram os prédios da ilha. Aquela paisagem que todos conhecemos — com aquela famosa falha que ainda não tinha sido consertada com a nova torre.

A verdade é que o raio da ilha impressiona — e impressiona mesmo quem já vai preparado. Vemos filmes, fotos, livros… E mesmo assim o gigantismo daquilo é inacreditável, quando aparece no horizonte a quem vem de comboio do aeroporto de Newark, entre armazéns e ruas sujas.

Perante aquilo, todos somos provincianos. E todos nós reconhecemo-nos um pouco naquela paisagem — mesmo o mais empedernido dos anti-americanos. Aquilo não é uma cidade estrangeira: é outra coisa, uma paisagem que vem do fundo da nossa infância, dos filmes, das bandas desenhadas — e é também a cidade por excelência, no seu excesso e na sua concentração e na aflição por chegar às nuvens.

Sim, aquilo é Manhattan, Nova Iorque, mas também Gotham — e é ainda a cidade de todos nós.

Lá fomos. Chegámos a uma estação subterrânea, andámos às voltas, encontrámos a saída e vimo-nos no meio da mais famosa ilha do mundo…

2. As ruas estão sempre à sombra

Os prédios altos, cá pela Europa, são uma espécie de amostra mal semeada de arranha-céus. Já foram a La Defense, em Paris? E Canary Wharf, em Londres? Não deixam de ser uma coisa mais ou menos interessante, mas não são essenciais àquelas cidades. São, como diriam os ingleses ou os americanos, um afterthought. Por cá, gostamos de cidades na horizontal — e um café a seguir. Estou a generalizar, eu sei.

Pois, em Manhattan, os prédios são gigantescos. São desmesurados. São para lá de altos. Tentam mesmo arranhar o céu. São monstros de vidro ou pedra ou o que for. Estão aflitos por olhar por cima do prédio da frente.

Bem, acho que me estou a repetir. Avancemos para a segunda surpresa: durante muitas horas do dia, na rua, andamos na sombra. Não há luz directa, ou há apenas em certos sítios, onde o alinhamento dos prédios dá uma folga ao sol.

Mas não pensem que isto torna a cidade pesada. As avenidas são largas. Os parques são muitos. E andando um pouco chegamos ao rio, que envolve Manhattan. Depois, o sol a bater nos vidros os prédios não é coisa para deitar fora…

3. O cheiro a comida

Há restaurantes, carrinhos de comida, pequenas lojas com manjares de todo o mundo… Os cheiros ficam ali presos entre os prédios, enrolam-se uns nos outros e de repente temos uma cidade que nos deixa com água na boca em todas as esquinas. Ou seja, Nova Iorque é apetitosa de forma muito concreta.

Restaurantes chineses, gregos, portugueses, turquemenistanos. O mundo inteiro ali, sem dúvida. Misturado, como os fumos das cozinhas no ar apertado entre os prédios. Parece enjoativo, assim à distância? Admito que sim. Mas na vida real, no frio de Setembro, apetecia-nos viver aquela cidade por uns dias. Foi isso que fizemos, continuando a andar sem medo até ao hotel. Éramos turistas, sim, essa condição tão rasteira… Mas também éramos um casal contente por visitar uma das cidades das nossas vidas.

4. Os sapatos nas mãos

Ora, quem diria? Andamos pelas ruas tão cheias de gente como vemos nos filmes e vemos pessoas de sapatos na mão.

Porquê?

Porque têm de andar muito para chegar ao trabalho e preferem, assim, ir de ténis. Chegam ao escritório e toca de trocar para sapatos mais adequados aos trabalhos importantes das gentes de Manhattan.

Porque Nova Iorque é enorme e convém mesmo ir com calçado confortável — o que vale tanto para turistas como para nova-iorquinos de gema.

Nós percebemos bem isso logo nessa lenta caminhada até ao hotel. No mapa, parecia que estávamos a poucas ruas do hotel. Pensámos: bem, podemos ir a pé. E lá fomos. Andámos. Andámos. E andámos mais. Malas atrás, suor a escorrer. Gente a olhar para nós com pena.

Mas não desistimos e chegámos. Tínhamos percorrido umas míseras duas ruas e andado mais quilómetros do que aconselha a fraqueza humana. Ao nosso lado, táxis até mais não e gente a passar por nós de sapatos na mão. E nós espatifados logo no primeiro dia.

Porque, em Nova Iorque, todos andam a pé — e andam que se fartam.

5. Um hotel no centro do mundo

E pronto, cansados mas a sorrir, chegámos ao hotel, na 42nd Street virada a este. Estávamos, de repente, no centro do mundo. Porquê? Porque tínhamos calhado mesmo na semana da Assembleia Geral das Nações Unidas. E o edifício da ONU era mesmo ali ao lado.

Passavam por nós carros da segurança, havia ruas interrompidas, polícias enervados e calmos diplomatas de todo o mundo. Na entrada do hotel, ouvíamos línguas disparatadas. O mundo estava todo ali.

Quando nos pusemos na fila do check-in ficámos de boca aberta: ali mesmo à nossa frente estava a mesma pessoa que tínhamos encontrado na fila da fronteira no aeroporto, como se toda aquela viagem por Nova Iorque, entre fumos de comida e gente de sapatos na mão, não tivesse acontecido e, no fundo, tivéssemos andado uns míseros metros no aeroporto.

E quem era ele? Ora, não é difícil: que português tem de ir, de há anos para cá, a todas as assembleias gerais da ONU? Aquele que hoje se prepara para ser o Secretário-Geral da dita organização… Na altura, poucos nova-iorquinos saberiam quem era ele. Pois bem, a partir de de Janeiro, será o mais importante dos residentes da cidade. Isto porque em Nova Iorque nem sequer vive o Governador: a capital do Estado de Nova Iorque é Albany. Nova Iorque não é a capital de nada — só do mundo. E ali estava ele, o futuro Secretário-Geral, a fazer check-in no nosso hotel. Ao lado, uns japoneses enervavam-se com uns polícias gigantescos. Ah, Nova Iorque…


Vista do quarto. Esta é, provavelmente, a fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

Fomos para o quarto. Ligámos a televisão — estava a dar publicidade. Abrimos a janela. Estava a dar o Empire State Building. Mas tudo isso fica para outro dia. Como também ficará para outro dia dizer-vos os estranhos segredos que se descobrem num quarto nova-iorquino…

(Já agora, para vos deixar água na boca: no dia seguinte, fomos ao Central Park — e fomos barbaramente atacados! Mas já não vimos o Guterres.)

<< EPISÓDIO ANTERIOR | PRÓXIMO EPISÓDIO (em breve)

«Mal e porcamente» é erro?

Mais uma entrada no Dicionário de Erros Falsos:

«Mal e porcamente.» Ainda hoje (9 de Dezembro de 2016) andou pela RTP não sei quem a espalhar que a expressão correcta é apenas e só «mal e parcamente». Porquê? Porque é essa a suposta origem da expressão «mal e porcamente». Vai daí, temos de manter a pureza dessa donzela. Logo, «mal e porcamente» é erro. Como soube disto? Porque vi, no Facebook, loas a quem assim nos ensinava bom português. Ah, o que dizer? Talvez isto: como em todas as áreas, o desconhecimento deixa-nos indefesos perante ideias erradas. Mais: queremos à força respeitar a língua e sentimo-nos bem quando alguém nos parece ensinar alguma coisa. Tanto que nos deixamos levar por quem inventa erros, sem ter o trabalho de ler e ouvir com respeito os escritores e bons conversadores da nossa língua — que dizem «mal e porcamente» desde há muito. Aliás, é difícil encontrar alguma obra ou página ou pessoa que diga «mal e pArcamente», excepto em obras, páginas ou pessoas que insistem em mudar a língua à força. Isto sabem o que é? Falta de respeito pela boa língua portuguesa, uma língua que tem essa excelente expressão: «mal e pOrcamente».

O que não quero dizer ao meu filho

bonding-1868513_1280

Que o Pai Natal não existe acho que ele já desconfia… Até porque uns vêm dizer-lhe que é o Menino Jesus, outros falam-lhe só do tal Pai Natal e ele fica baralhado. Lá na cabeça dele já deve ter pensado: «se calhar quem compra os presentes são os pais e os avós — mas mais vale ir na brincadeira, que eles parece que gostam».

Portanto: não é isso que não quero dizer ao meu filho. Também não tenho medo de falar de temas mais pesados, como a morte, que ele já percebeu que existe, até porque a Disney faz o favor de matar não sei quantas personagens nos seus filmes, deixando o miúdo num pranto e nós sem saber o que dizer. É preciso matar tanto pai e tanta mãe das simpáticas criaturas daqueles filmes? São sádicos, os senhores da Disney?

Ora, também não será novidade para ele que neste mundo há gente cruel. Ou melhor, que toda a gente, de vez em quando, sabe ser má. Ele anda na escola: já encontrou a crueldade. E se calhar até já encontrou a crueldade mais difícil de todas: a dele próprio.

Agora, para lá dessas ilusões de Pais Natais e outros que tais, ele está convencido disto: que nós, os pais dele, até sabemos mais ou menos o que andamos a fazer e percebemos muito bem o mundo. Que sabemos protegê-lo de tudo e ajudá-lo a ultrapassar as dificuldades. E, é verdade, nós tentamos fazer isso mesmo — mas a verdade crua é esta: temos muito menos certezas e sabemos muito menos sobre o mundo do que ele pensa. Quando pegamos na mão dele para atravessar a estrada ou quando apontamos e explicamos o mundo sentimo-nos quase tão desorientados como ele.

Mais tarde ou mais cedo, ele vai descobrir isso mesmo. Espero que seja daqui a muito tempo, quando ele já conseguir orientar-se tão bem ou tão mal como qualquer um de nós. E estou convencido que ele ainda há-de descobrir isto: também os pais chegam a uma altura em que precisam que os filhos lhes peguem na mão e os orientam. Mas depois também eles descobrem que os filhos, tão espertos nestas coisas novas do mundo, na verdade também estão desorientados e lá porque sabem mandar um e-mail não quer dizer que saibam o que dizer a um pai ou a uma mãe quando a vida muda como uma casa num furacão.

Pois é: todos descobrimos que nesta vida amalucada não há ninguém que saiba exactamente o que fazer — mas não quero dizer isso já ao meu filho, porque o que nos vale ainda são esses primeiros anos em que os pais fingem estar a mostrar, sábios e antigos, o mundo aos filhos e os filhos brincam no mundo cheio de felicidade, numa viagem qualquer, a rir e a cantar, para ir descobrir a neve pela primeira vez.

O Zé não gosta do português dos outros

child-1099770_1280O Zé quer ter muitas partilhas no Facebook. Descobre então uma fórmula infalível: falar mal da maneira de escrever dos outros.

Como? É fácil: basta encontrar um erro qualquer e escrever um post bem sarcástico e bem exagerado. Que isto está cada vez pior! Que antigamente é que se escrevia bem! Que esta gente é estúpida! Que os portugueses do século XIX eram todos uns génios da língua e agora é o que se vê!

O Zé não encontrou nenhum erro naquele dia? Ah, não faz mal: basta inventar. Há sempre esta ou aquela expressão de que o Zé não gosta. Do «não gosto» é fácil passar ao «está errado». Porque sim. O Zé raramente tem dúvidas e nunca se engana, claro. Não investiga. Não dá o benefício da dúvida. Acusa, de forma prazenteira e muito sarcástica. Vê então os gostos e as partilhas e os comentários de concordância. «Ah, ninguém sabe escrever.» «Ah, antigamente é que era bom.» «Ah, os jovens — é só grunhidos!»

O Zé entusiasma-se. Cria então listas de palavras e expressões «erradas». Mistura erros a sério com invenções da sua lavra. Apresenta certezas e poucas dúvidas. O Zé fica contente: o Zé torna-se viral (embora provavelmente haja outro Zé qualquer que ache esta palavra um grande erro).

Ah, o Zé está satisfeito! Sente a doce solidariedade de todos os que estão convencidos que todos os outros são estúpidos (nós é que não).

Dúvidas? Para quê? O Zé entusiasma-se: está viciado nos erros dos outros. Sente-se bem, acha que está a proteger a língua. Se alguém se atreve a dizer que as coisas não são bem como ele diz, desata a disparatar: que são facilitistas, que aceitam tudo, que não respeitam a língua. E, assim, embalado, lá vai caindo numa visão fácil, que aceita qualquer ideia pouco pensada, que não respeita a língua… E no entretanto vamos ficando com menos paciência para conversar, com menos atenção ao que os outros dizem, obcecados que estamos com as manias do Zé, não vá o Zé irritar-se e apontar o dedo a uma qualquer inocente palavra da nossa língua.

10 números deste blogue

banner-1183443_1280

Este é um blogue sobre palavras. Mas não fica mal, de vez em quando, falar um pouco dos números:

  • 468 artigos (este é o 469.º);
  • 912 rascunhos (99% nunca verão a luz do dia e muitos não passam de duas ou três palavras);
  • 2 anos (e meio) de actividade contínua;
  • 268 115 palavras escritas;
  • 573 palavras por artigo, em média;
  • 286 938 leituras em 2016;
  • 851 leituras por dia, em média, em 2016;
  • 3500 assinantes por e-mail;
  • 9100 seguidores no Facebook;
  • livro (por enquanto).

Porque choramos uma equipa de futebol que não conhecíamos?


Encontrei por aí quem tivesse ficado muito irritado com a importância que os jornais e televisões deram à queda dum avião na Colômbia com uma equipa de futebol brasileira a bordo. Não morre tanta gente em acidentes sem este escabeche jornalístico?

Por acaso, é raro haver acidentes de avião sem que os jornais falem do assunto. Mas, pronto, eu percebo as críticas: morre tanta gente, em acidentes, guerras e derivados, para não falar dos hospitais e da violência, que esta importância dada à morte duma equipa parece desproporcionada. É fácil pegar nisto e tirar as conclusões do costume: que ligamos demasiado ao futebol, que estamos à mercê das notícias escolhidas ao calhas em redações apressadas, que as redes sociais empolam os sentimentos com consequências imprevisíveis…

E, sim: ficamos em polvorosa com este acidente e deixamos passar outros mortos por razões que nem sempre sabemos explicar — ou às vezes não queremos explicar.

Admito: neste mundo em que ouvimos falar de tanta coisa que às vezes parece que não ouvimos falar de nada, comovemo-nos com este ou aquele desastre de forma que parece cruelmente aleatória… E, sim, eu sei que estas excitações das redes sociais irritam. Sei que todos os dias temos o fim do mundo e o seu contrário e as desgraças todas comentadas com muita indignação de crocodilo.

Mas, vá lá, também podemos ser um pouco mais compreensivos para com estes símios baralhados que somos todos nós. Neste caso, impressiona ver os vídeos daqueles jovens entusiasmados com uma final que nunca viriam a jogar — e de repente sabermos que agora não passam de corpos no meio de metal dobrado no meio duma selva escura, onde os bombeiros chegam com dificuldade.

Sim, não andamos por aí a chorar por todos os que merecem o nosso choro. Mas às vezes vemos uma fotografia dum miúdo morto numa praia e ficamos em pânico como se fôssemos pais dele; às vezes explode uma bomba em Paris e gritamos como se fosse aqui; às vezes cai um avião e vemos lá os nossos amigos e os nossos amores mesmo que nunca tivéssemos ouvido falar daquela equipa — e esta é a nossa maneira imperfeita de lidar com este mundo que nos manda à cara a cada minuto as desgraças que acontecem a oito mil milhões de pessoas — e logo a nós, pobres coitados, que nascemos preparados para viver numa pequena tribo de algumas dezenas de pessoas, onde todos se conhecem e todos choram quando algum de nós morre, mas não estamos preparados para lidar com tudo o que acontece a toda a gente em todo o mundo.

Por isso, sim, acontece de tudo e não choramos por tudo — mas quando ficamos embargados perante a morte duma equipa que não conhecemos, no fundo estamos comovidos com o que acontece a todos nós, meio perdidos neste mundo complicado, em que nunca sabemos quando explode a bomba, onde cai o avião, quando seremos nós a ficar perdidos numa selva qualquer.

Ponham isto na cabeça: todos nós damos erros de português!

img_0878A Rádio Comercial, no seu Facebook, publicou esta imagem com uma gralha de todo o tamanho.

É isto um erro? Sim, claro.

Será que a pessoa que escreveu isto não sabe como se escreve «oficialmente»? Pelo amor da santinha: claro que sabe!

Este erro é, de forma bastante óbvia, uma gralha. Não se trata de ignorância: trata-se de distracção pura e simples.

Quer isto dizer que não é grave? É grave, sim: a Rádio Comercial chega a milhões de pessoas. Esta gralha transmite uma imagem de descuido. Há que olhar para as imagens que publicamos.

Mas mais grave do que a distracção são as ideias falsas que andam por aí e mostraram o rabo nos comentários a esta imagem que encontrei no Facebook:

  1. «Talvez um curso de português?»
  2. «As pessoas importantes não erram… Criam figuras de estilo.»

Aqui temos dois comentários que mostram algumas ideias feitas sobre a língua. Em relação ao primeiro, a verdade é que não há curso de português que resolva o problema, porque a pessoa que escreveu aquilo sabe escrever bem a palavra. O problema foi a distracção dessa pessoa e de quem olhou (ou não olhou…) para o texto antes de publicar. A ideia feita errada é esta: se sabemos escrever bem uma palavra, vamos escrever essa palavra sempre bem. Não, não… Todos damos erros mesmo em palavras que sabemos escrever bem. O segredo está em arranjar maneiras de os apanhar a tempo…

Em relação ao segundo comentário, temos aquela ideia peregrina que escritores como José Saramago ou outros usam convenções da língua um pouco diferentes do habitual porque não sabem escrever. Como já disse há muito tempo, estes escritores sabem usar a pontuação tão bem ou melhor do que qualquer um de nós. Mas, como qualquer artista, quando estão a trabalhar na sua arte, quebram as regras — tal como os pintores também não seguem as regras camarárias quando pintam um quadro.

Agora, o preocupante é isto: o que é que isso tem a ver com a gralha da Rádio Comercial? Nada. E, infelizmente, nas discussões da língua, é habitual vermos esta mistura de alhos e bugalhos.

Mas, pronto, é verdade: convém a quem publica numa página como a da Rádio Comercial ter muito cuidado com os textos. Mas há outra coisa que também é verdade: a página de Facebook da Rádio Comercial publica imensas* imagens e textos por dia! Para percebermos se há aqui um problema real, há que fazer o trabalho de casa: ver quantos textos são publicados e quantos têm gralhas deste tipo. Não há uma pessoa que não deixe passar uma gralha de vez em quando. E também não há nenhum sistema de revisão que evite todas as gralhas. Por mais atenção que se tenha a tudo o que se publique, uma gralha como esta é praticamente inevitável — basta esperar tempo suficiente.

Pensar o contrário é uma ilusão — e é por isso que acho os comentários mais preocupantes do que o erro na imagem. Ao ler estes comentários, parece que há por aí muita gente convencida que não dá erros ou que é fácil evitar gralhas. E essa é a receita ideal para dar muitos erros e deixar passar muitas gralhas…

* Com esta do «imensas», sou bem capaz de ter por aí algumas pessoas a acusar-me de errar. Ora, também dou erros, é claro. Mas este não é um deles. Vá, contem até dez e vão dar uma volta à praia.

1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

new-york-city-336475_1280

Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

johnny-automatic-tu-104-airplane-300px

Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

johnny-automatic-airplane-paasenger-bridge-300px
Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

franticman-300px

Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

running-icon-300px

Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

shokunin-statue-of-liberty-ny

Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

A língua na vida real (e um restaurante numa cidade vandalizada)

dictionary-698538_640Sim, há por aí muito medo da ambiguidade. Às vezes, é justificação para atacar uma boa regra da língua portuguesa. Outras vezes, serve para atacar uma frase real porque podia ser ambígua num universo alternativo.

Vou explicar-me com um exemplo concreto: encontrei há pouco, no Facebook, quem criticasse o título «Restaurante de José Avillez no Porto vandalizado» (no Observador).

Não é o título mais elegante — atrevo-me até a chamá-lo de infeliz, coitadinho. Mas, mas… Será ambíguo? Foi esse um dos argumentos de quem criticou a frase: estava errada porque podíamos interpretá-la de duas formas distintas.

Quais? Numa primeira interpretação, foi o restaurante que foi vandalizado. Numa segunda interpretação, foi o Porto que foi vandalizado.

Só que não. Não estamos num mundo em que um jornal abra uma notícia a falar dum restaurante que por acaso existe numa cidade vandalizada.

Ou seja, a ambiguidade é formal, inventada à pressão para justificar a impressão de que o título está errado.

Ora, meus caros: não, não. Tal como dizer «a gente vai almoçar» não é ambíguo no mundo real, também aquele título não é ambíguo. Mesmo exemplos muito verdadeiros de ambiguidades reais — «O João falou com a Maria sobre o seu carro.» — dificilmente são ambíguos na vida real, vida essa em que sabemos, quase sempre, se o carro é do João ou da Maria… Aliás, tanto é assim que aquele «seu» nem lá estará, na vida real da língua. Dizemos que o João falou com a Maria sobre o carro — e ninguém fica a pensar sobre o assunto mais do que dois segundos.

Por isso, não, aquele título não é ambíguo: é só esquisito. Ah, se escrever bem fosse só caçar ambiguidades…

Page 1 of 48

Powered by WordPress & Theme by Anders Norén