Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Ensinar Português na República Popular da China (por Cristina Bluemel)

A certa altura, comecei a ver surgir nas estatísticas do blogue algumas visitas de locais tão distantes como a China. Qual seria o interesse desses leitores por este blogue sobre a nossa língua? Vim a saber através dum comentário que algumas dessas visitas chinesas eram duma professora de Português na China: Cristina Bluemel. Atrevi-me a pedir-lhe um pequeno texto sobre como é ensinar Português por aquelas paragens. Aqui está o resultado.


Na República Popular da China as crianças normalmente ficam aos cuidados da mãe ou dos avós até aos três anos de idade. A partir dessa idade terá início o longo ciclo nas escolas, onde passam o dia inteiro. Todas as atividades, programas, funcionamento, normas, regulamentos académicos são estritamente ditados pelo governo e o seu cumprimento é controlado, em cada instituição de ensino, por representantes do Partido único, entre presidentes, diretores, professores, funcionários e também alunos. As avaliações fazem parte de um processo de seleção que se estende até à entrada no ensino superior, fazendo também parte do ensino a formação militar quer nas escolas quer nos quartéis.

No que concerne ao método de ensino, ele é essencialmente baseado na memorização de conteúdos e estruturas: o aluno deve ouvir e depois memorizar, através da leitura e repetição, todos os conteúdos que posteriormente deverão ser reproduzidos na respetiva avaliação; e existem métodos e técnicas para tal, tal como encontrar palavras e expressões-chave nas questões das provas que levam a descobrir qual a resposta certa.

Quanto ao ensino superior, está estruturado em três níveis, havendo instituições de ensino superior públicas e privadas, todas elas pagas: as universidades de primeiro nível, de referência nacional, as universidades de segundo nível, em número bastante mais elevado, e as faculdades vocacionais, ou de ensino profissionalizante; estas faculdades oferecem bacharelatos de três anos, enquanto as licenciaturas são de quatro anos.

Existem limites máximos de idade, para os alunos nacionais, de acesso ao ensino superior, mestrado e mesmo doutoramento, e os professores estrangeiros não são considerados professores, mas monitores (instrutores). Embora as duas denominações sejam traduzidas uniformemente para «teacher» e seja afirmado que significam a mesma coisa, para evitar constrangimentos, na verdade na língua chinesa é estabelecida essa distinção.

Comecei a lecionar Português aqui, numa faculdade de línguas estrangeiras, exatamente há dois anos — e logo à chegada a minha grande surpresa foi encontrar um curso de Português com cerca de 500 alunos distribuídos pelos 3 anos do curso: porque é que tantos jovens chineses escolheriam estudar português? A resposta chegou rapidamente: nesta região estão localizadas grandes empresas e indústrias que mantêm relações comerciais e operam nos países lusófonos de África e também Brasil.

No entanto (ainda não averiguei o porquê), o número de alunos que opta por português tem diminuído progressivamente, ao contrário do número de alunos que escolhe francês, que tem aumentado bastante e faz essa opção por motivos idênticos: o comércio e negócios com países francófonos, especialmente aqueles também localizados em África.

As unidades curriculares de gramática, leitura, escrita e fonética (pronúncia) são lecionadas por professores chineses, em chinês, sendo entregues aos professores estrangeiros as UC de compreensão oral (audição) e conversação (lecionadas separadamente) — e também aulas de vocabulário e diálogos relativos a negócios, comércio, turismo e redação de documentos.

Os métodos utilizados para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras são essencialmente baseados em meios e materiais de repetição e memorização de palavras e estruturas de frases que depois são adaptadas a cada circunstância e, no caso do português, é também transmitida a ideia de que a língua portuguesa é muito semelhante à língua inglesa, razão pela qual o inglês é usado frequentemente como língua terceira («de passagem») entre o chinês e o português. É muito comum, por exemplo, mesmo que fazendo isto apenas mentalmente, primeiro ser efetuada a tradução do chinês para o inglês, e depois do inglês para o português, com todos os inconvenientes que isso acarreta, tal como nos casos em que é usada a palavra “festival” ao invés de “festa”, e em vez de “feriado” a palavra “férias”, entre várias outras situações erróneas.

Geralmente as aulas são compostas por dois períodos de quarenta e cinco minutos cada, separados por um intervalo de dez minutos, e as turmas são constituídas por mais de quarenta alunos, exceto quando não há alunos suficientes para tal. Quanto aos materiais e recursos a serem utilizados em sala, existem vários tipos de restrições, não se podendo recorrer a livros ou filmes estrangeiros, porque teriam de passar previamente pelos órgãos de censura, e sendo apenas permitida a exibição de vídeos com uma duração máxima de cinco minutos, ficando todo o material exibido gravado nos computadores das salas de aula.

Mas, do meu ponto de vista, o maior desafio para que os alunos consigam atingir um bom nível no estudo e recurso ao português é conseguir levá-los a processar a informação e conhecimentos transmitidos, ao invés de apenas registar de memória — e fazê-los perceber que o chinês não é a língua mais difícil do Mundo e que todas as outras são fáceis, bastando por isso recorrer aos tradutores automáticos para fazer uma boa tradução.

A boa loucura linguística da Suíça

Fui à Suíça uma vez só, de passagem, num autocarro cheio de algarvios. Agora não tenho tempo para explicar como me meti em tais sarilhos. Digo apenas que foi há 20 anos e ainda hoje me lembro dessa viagem com saudade.

Chegámos a Genebra depois de jantar. Passeámos pela cidade durante toda a noite. Fomos a uma discoteca. Saímos muito tarde. O sol nasceu. Havia um repuxo gigante. Aprendi palavras algarvias. Depois, adormeci no autocarro durante o resto da manhã e abri os olhos vagamente, depois de bater com a cabeça no banco numa curva mais apertada — foi então que vi uma gloriosa paisagem alpina onde havia vacas a pastar. Ou então estou a misturar tudo com um anúncio da Milka.

Pois bem, passei a correr por essa Suíça rodeada de França. Por baixo dos meus pés (não sabia na altura) estava o CERN e o seu acelerador de partículas — e, à minha volta, estava a língua francesa na boca dos suíços.

Ora, a Suíça é um país linguisticamente curioso: tem várias línguas — e não tem grandes problemas com isso, pelo que me é dado a saber.

O país — que é uma confederação de cantões com uma autonomia que fica a dever pouco à independência — tem quatro línguas nacionais: o alemão, o francês, o italiano e o romanche.

As quatro línguas convivem no mesmo Estado. O Governo central usa as quatro (embora o romanche não seja tão comum a esse nível). Não há obrigação de todos os cidadãos conhecerem uma das línguas, apesar de o alemão ser claramente maioritário. Cada cantão tem a sua política linguística e um deles chega a ser trilingue.

Tantas línguas prejudicam a Suíça? Não me parece. O país funciona mal? Não consta. Funcionaria melhor se usasse uma só língua? Ninguém sabe, mas sabemos isto: a Suíça, se tem algum problema, é funcionar bem demais. Atrevo-me a fazer esta previsão: quisesse a Suíça começar a dar uma dignidade oficial muito superior a uma destas línguas e a paz começava logo a estalar.

A outra língua da Suíça

Por outro lado, no que toca ao alemão, há uma forma particular suíça — o suíço-alemão. Este nome abrange vários falares germânicos que podiam, facilmente, ser usados para criar uma nova língua suíça. O Luxemburgo fez isso mesmo há poucos anos.

Os suíços de língua alemã vivem numa situação que os linguistas chamam diglóssica: no fundo, sabem duas línguas, pois os dois sistemas são suficientemente autónomos para serem aprendidos como línguas separadas — e usam as duas línguas em situações sociais diferentes, como se fossem registos. Ou seja, tal como nós usamos um português formal numa aula e um português informal no café, os suíços de língua alemã usam uma língua durante a aula e outra no café.

Isto pode levar a que um professor universitário responda em alemão durante a aula e em suíço-alemão no corredor da faculdade — e nem precisa de mudar de aluno.

Imagino eu, que não sei alemão, que esta situação implica toda uma série de gradações, usos misturados e algumas confusões. Também me parece pouco crível que tudo se faça sem tensões e alguns preconceitos — mas, enfim, estamos a falar dos suíços. Se calhar, são mesmo os únicos que conseguem navegar estas águas sem desatar às traulitadas.

Mais a sério: naquele país, há uma história de compromissos que desembocou na actual situação complexa, mas pacífica. As situações complicadas resolvem-se assim.

O português que não gosta da maneira como os suíços falam

A nós, país onde se fala uma língua que é oficial em todo o território, tudo isto pode fazer confusão. Ainda há uns dias encontrei um texto rabugento no Facebook, em que um emigrante português na Suíça ralhava com os outros portugueses emigrados na Suíça. O pecado deles? Andavam a aprender palavras em suíço-alemão. O texto era bem irado: usava palavrões e tudo. Dizia ele que português que é português, na Suíça, devia aprender alemão e nunca um dialecto de m*rda.

Pareceu-me que aquele homem também estava um pouco irritado com os próprios suíços. Por que carga de água não hão-de falar sempre em alemão a sério? Que mania!

Bem, já sei: no Facebook, há indignações para todos os gostos. Mas esta atitude mostra bem uma certa maneira de olhar para as línguas que faz estrago em muitos países. Essa atitude compõe-se de uma crença absoluta no valor intrínseco e óbvio da língua-padrão e um desprezo em relação a todos os falares que não sejam a língua oficial. Não é preciso pensar muito para vermos o que acontece quando muitas pessoas acreditam que o valor da sua língua é bem superior à língua de outros cidadãos do seu próprio país — quer por causa do número de falantes quer por causa das fantasmagóricas qualidades dessa língua.

O problema da linguagem humana não é a sua imensa variedade — é, isso sim, a nossa falta de paciência para aceitar as línguas dos outros.

E que tal uma Espanha mais parecida com a Suíça?

Os suíços dão valor oficial a uma língua (o romanche) falada por pouco mais do que a população duma freguesia lisboeta. As crianças dessa zona, na escola, aprendem a escrever nessa língua falada por muito poucos. Depois, aprendem mais línguas do seu país e ninguém se importa com isso…

Mas nem é preciso chegarmos ao romanche: temos o francês, o italiano e o alemão. É verdade que são língua protegidas pelos países vizinhos. Mas, no total, são quatro línguas e a Suíça teve de aprender a viver com esta variedade toda. A solução foi dar uma dignidade oficial a todas elas.

Tem custos? Sim, claro. No Parlamento federal, por exemplo, é preciso haver intérpretes — é um pequeno preço a pagar pela paz linguística e pelo respeito igual devido a todos os idiomas do país. Sim, acredito que esta atitude é um bom exemplo para outros países com várias línguas. E, sim, estou a pensar em Espanha.

Qual é a língua de Andorra?

Se os jogadores da Selecção tiverem tempo para passear um pouco pelas ruas de Andorra la Vella, ouvirão certamente muito espanhol, algum francês e muito português também. No entanto, nenhuma dessas línguas é a língua oficial do país. A língua de Andorra é o catalão.

É assim há séculos e, por essa razão, o catalão nunca foi apenas uma língua regional. É, para todos os efeitos, a língua dum país soberano.

Já agora, a história daquele pequeno território tem muito que contar: Andorra é independente desde o século XIII e foi criada por desavenças entre condes e bispos. Chegou a ter um russo a arvorar-se como rei ali por volta dos anos 30 do século passado (Boris I de Andorra) e desde 1993 que é uma democracia parlamentar. Tem como príncipe duas pessoas: o Bispo de Urgell e o Presidente da França. Os dois co-príncipes fazem tanto como a rainha Isabel II no Canadá: praticamente nada. Mas são os monarcas de Andorra.

Voltando à língua do país, nos últimos dias, por causa da questão catalã, ouvi aquilo que pensava já não ser possível: pelos vistos, ainda há muitos portugueses que, noutras matérias, estão bem informados, mas no que toca às línguas ibéricas ainda imaginam que o catalão é um dialecto — é o que ouvi chamar ainda há pouco à língua falada por milhões de pessoas do outro lado da península (e, pasme-se, numa pequena cidade italiana).

Ora, a diferença entre língua e dialecto não é simples. Podemos dizer — é uma maneira de ver a coisa — que, num espaço onde convivem dialectos próximos, serão línguas aqueles dialectos que ganharam prestígio para serem usado na escrita, ensinados nas escolas, imaginados enquanto idiomas duma comunidade — isto, claro, quando estamos a tentar discernir as divisões entre formas de falar próximas, como são todas as línguas latinas (o basco, por exemplo, não está sujeito a estas questões: é claramente uma língua, tão diferente do espanhol como o japonês).

Não é simples, pois. Mas neste caso, não há grande lugar para dúvidas. O catalão está separado do castelhano por divisões semânticas e morfológicas bem marcadas no universo das línguas latinas. Há semelhanças, claro, quer devido à comum origem latina quer devido a trocas de palavras e estruturas gramaticais, mas são línguas claramente distintas. O catalão é, no fundo, a evolução do latim popular na zona da Marca Hispânica. A sua origem é distinta da do castelhano.

Não é fácil mostrar uma língua em pouco espaço, mas aqui fica o artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos nas duas línguas:

  • Castelhano: «Todos los seres humanos nacen libres e iguales en dignidad y derechos y, dotados como están de razón y conciencia, deben comportarse fraternalmente los unos con los otros.»
  • Catalão: «Tots els éssers humans neixen lliures i iguals en dignitat i en drets. Són dotats de raó i de consciència, i han de comportar-se fraternalment els uns amb els altres.»

E uma frase que mostra algumas diferenças óbvias:

  • Castelhano: «Quiero hablar con mi primo.»
  • Catalão: «Vull parlar amb el meu cosí.»

Já que falamos da língua, aqui ficam algumas indicações sobre como pronunciar as palavras:

  1. O «e» em sílabas átonas lê-se de forma muito parecida ao nosso «a» fechado. Assim, o «els» catalão soa-nos «âls». Já «clássiques» lê-se precisamente como «clássicas» à portuguesa. O próprio nome de Barcelona lê-se «Barçalona»…
  2. Em geral, o catalão tem vogais mais parecidas com as portuguesas do que com as espanholas. Assim, «Catalunya» lê-se como «Câtâlunha» em português e não como a «Cátáluña», com «aa» abertos, do espanhol.
  3. A combinação de letras «ig» lê-se como «tch» ou «dj». Já o «t» no final duma palavra não se lê. Assim, o nome do agora famoso presidente (Puigdemont) lê-se «Pudjdamon». A terra Puigcerdà lê-se «Putchsardá»
  4. O «j» lê-se à portuguesa.
  5. Já o «ny» é como o «nh» português.
  6. O «ll» é como o «lh» português.
  7. Já o «l·l» (um símbolo muito catalão) lê-se como dois «l» separados, como em «síl·labes».
  8. Note-se ainda o «ç», que não existe em espanhol, mas está em tantas palavras catalãs (a começar por «Barça»). Lê-se à portuguesa, pois então.

Enfim, não é preciso ser a favor da independência da Catalunha para reconhecer algo que é bastante claro: o catalão é uma língua — e uma língua com milhões de falantes (mais do que o dinamarquês, por exemplo) e uma grande tradição cultural e literária.

Para terminar, aqui fica o hino de Andorra, que os jogadores portugueses vão ouvir amanhã. No fim, claro, ganha Portugal.

El Gran Carlemany

El gran Carlemany, mon pare,
dels alarbs em deslliurà,
i del cel vida em donà,
de Meritxell la gran Mare.
Princesa nasquí i pubilla
entre dues nacions, neutral;
sols resto l’única filla,
de l’imperi Carlemany.
Creient i lliure onze segles,
creient i lliure vull ser
siguin els furs mos tutors
i mos Prínceps defensors,
i mos Prínceps defensors!

A terra espanhola que a França engoliu

Há muitos anos, fui com os meus pais e uns amigos até Andorra. É história com peripécias curiosas — mas o relato fica para outro dia. Hoje quero apenas chamar a atenção do leitor para um segredo escondido no mapa.

Quando terminaram os dias de férias em Andorra, convenci os meus pais a passar por França antes de voltar a Espanha. Não foi muito difícil: quem se mete numa carrinha para atravessar a Península não se importa de fazer mais uns quilómetros só para dizer que foi a França.

Era um desvio pequeno… Subimos até Pas de la Casa — e passámos a fronteira. Fiquei feliz. Aqueles pouquíssimos quilómetros a atravessar um canto esquecido de França eram o suficiente para dizer que já tinha ido a cinco países.

Dizer a quem? Ao mundo! Aos meus botões! Tinha 13 anos, diga-se. Há entusiasmos muito adolescentes — embora a excitação de passar uma fronteira nunca tenha desaparecido.

Bem, não interessa: estávamos em França. Desse percurso francês, lembro-me de duas coisas.

Primeira recordação: olho pela janela da L300 e vejo um castelo com a bandeira francesa no topo. Se fosse hoje, teria tirado uma fotografia. Como estávamos em 1994, não tirei, porque já tinha gasto a minha dose de 24 fotos.

Segunda recordação: eu ia com o mapa na mão, nesses tempos sem telemóveis. E comecei a ficar entusiasmado quando percebi que, mais à frente, entraríamos numa espécie de vórtice geográfico. Iríamos passar perto duma terra engolida por França.

E, de facto, quando chegámos a Bourg-Madame (há lá terra com nome mais francês?), vimos duas placas: para a esquerda, «ESPAGNE». Para a direita, «ESPAGNE».

Mas, então? Como era possível?

Basta olhar para o mapa:

Este foi o percurso que fizemos em França, entre a fronteira de Andorra e a fronteira de Espanha — se o leitor olhar com atenção, vê ali no canto inferior direito um pequeno território em forma de croissant. Trata-se do município catalão de Llívia. É território espanhol completamente rodeado por França!

Como é que isto aconteceu?

A história conta-se assim — espero não simplificar demasiado. Em 1640, os catalães revoltaram-se contra a coroa espanhola, que andava a tornar-se demasiado castelhana para o gosto daquelas paragens (dizem por aí que não foram os únicos a aborrecerem-se nesse preciso ano).

A revolta é apoiada por França (nós, por cá, gostávamos mais de pedir ajuda aos ingleses). A Catalunha e a França entram então em guerra com Espanha, guerra essa que só termina em 1659, quando as duas coroas assinam o Tratado dos Pirenéus.

Ora, como em todos os tratados de paz, há concessões a fazer. Uma das concessões de Espanha à França foi a passagem para mãos francesas do Norte da Catalunha:

Divisão da Catalunha. Fonte: Wikipédia

O tratado estipulava que todas as aldeias da comarca catalã da Cerdanha que estivessem na vertente norte dos Pirenéus passariam para a coroa francesa. Ora, Llívia tinha o estatuto de vila e não de simples aldeia — logo, ficou fora do tratado e manteve-se em mãos espanholas, apesar de estar rodeada por território que era agora francês.

Quadro de Laumosnier que representa a assinatura do Tratado dos Pirenéus entre Luís XIV e Filipe IV.

Diga-se que os catalães não gostaram muito dessa divisão e os franceses demoraram ainda várias décadas a conseguir controlar, de facto, a zona.

Hoje em dia, a Catalunha Norte está no departamento francês dos Pirenéus Orientais. Por lá, ainda nem todos esqueceram o catalão e há algumas organizações apostadas em renovar as relações com a Catalunha a sul da fronteira. No entanto, o francês é a língua dominante e o catalão sobrevive mais por causa da força que tem hoje a sul da fronteira. (E em Llívia? O catalão é a língua da terra, claro. É oficial, em conjunto com o castelhano.)

Voltando à minha viagem: a tal terra de nome muito francês por onde passámos (Bourg-Madame) foi, portanto, catalã durante séculos e séculos. E tinha um nome bem catalão: la Guingueta d’Ix.

O nome ainda sobrevive — para lá dos livros de História — na designação francesa para os seus habitantes: são chamados de Guinguettois.

Bem, nesse dia de Agosto de 1994, não pude visitar Llívia. Lá entrámos na Espanha da direita, em direcção a Barcelona. Mal sabia eu o que nos iria acontecer por lá — mas essa outra história terá mesmo de ficar para outro dia.

Os catalães não aprendem espanhol?

Isto não tem a ver com a agora famosa independência da Catalunha. Ou melhor, lido de certa maneira, aquilo que vou dizer a seguir pode servir de argumento contra a independência.

Ora bem, roda por alguns mentideros de Madrid esta ideia: os catalães não querem ensinar espanhol aos filhos. Contam-se histórias horrorosas de crianças a aprender a ler e a escrever em catalão (que horror!).

Essas ideias servem depois para acusar os ditos catalães de serem especialmente fechados e terem uma atitude retrógrada em relação às línguas. (Muitas vezes isto é dito por quem sabe apenas uma língua…)

Bem, agora olhemos para a realidade: sim, o sistema de ensino catalão (a autonomia catalã abrange o ensino) usa a língua catalã como língua de ensino de muitas disciplinas: os catalães aprendem matemática e física em catalão (olhem lá o desplante!).

Não me parece nada de extraordinário: há línguas faladas por menos pessoas que também são línguas de ensino: o dinamarquês, o norueguês… Na Suíça, onde a maioria dos habitantes falam alemão, as zonas de língua francesa ou italiana também usam o francês ou o italiano como línguas de ensino.

Quando este sistema foi criado, a ideia era que todas as crianças aprendessem as duas línguas: afinal, o castelhano era falado por todos (como primeira ou segunda língua) e o catalão só por metade da população, apesar de ser uma língua com longa tradição e considerada materna por milhões de catalães.

E o espanhol (ou castelhano)? Ao contrário do que dizem as tais más línguas, é de aprendizagem obrigatória em todo o sistema de ensino. Os alunos da primária aprendem a ler e a escrever em catalão — e em espanhol. Durante os anos seguintes, têm sempre espanhol como disciplina obrigatória.

Resultado: os alunos catalães sabem todos falar espanhol como falantes nativos — e também catalão. Acabam bilingues, o que parece fazer muita confusão a espanhóis de outras zonas. Os resultados dos alunos catalães nos exames de espanhol não são piores que os de outras zonas. São mesmo jovens bilingues (o que não me parece mau).

Ou seja, qual a diferença entre um jovem catalão e um jovem madrileno no que toca às línguas? O catalão fala catalão e espanhol — e aprende inglês. O madrileno aprende espanhol — e inglês. O catalão leva uma língua de vantagem. Sabe ler Cervantes, mas também Mercè Rodoreda, Joan Maragall e todos os outros escritores de língua catalã.

Agora, talvez não fosse má ideia — se de facto querem uma Espanha unida — que todos os espanhóis assumissem as várias línguas espanholas como suas. Assim, as outras línguas não castelhanas deviam ser consideradas línguas de Espanha mesmo a sério, deviam adornar os edifícios do governo central e deviam ser aprendidas, como opção (não queiramos exigir aos espanhóis de outras zonas o que se exige aos catalães…).

Assim, uma criança madrilena podia aprender um pouco de catalão. Porquê? Para conhecer outra das línguas, das literaturas e das culturas do seu país. Não é preciso ser obrigatório: apenas uma opção. Também podia ter como opção o galego e o basco. A Espanha podia começar a ver-se como país de muitas línguas, em que todos os espanhóis, qualquer que seja a língua materna, se sentem em casa. Ninguém deixaria de aprender castelhano na escola. Ninguém ficaria prejudicado. Haveria um custo, claro: professores, manuais, horários… Mas será um custo assim tão grande? Será assim tão caro ou inconcebível querer aprender a língua daqueles que consideramos nossos concidadãos?

Se disserem isto a um madrileno, provavelmente irão ouvir um riso de surpresa, como se fosse a ideia mais absurda do mundo. E é pena! Porque se o madrileno for — legitimamente — contra a ideia de partir Espanha e deixar sair a Catalunha, então deveria considerar o catalão e a cultura catalãs como um pouco suas. Ou não?

Há 800 anos, a Catalunha era parte de Espanha?

Tenho ouvido dizer por aí que a Catalunha já é espanhola há 800 anos. Ora, temos um problema: nessa época, não havia Espanha…

Depois deste mapa, os reinos começaram a unir-se uns aos outros — muitos dos reis ibéricos queriam ser chefes disto tudo e usaram as técnicas habituais: guerras e casamentos.

Que nós, no fim, tenhamos sido os únicos a conseguir escapar a essa lógica centralista foi fruto do sangue e suor de muitos — e de alguma sorte, como em tudo.

Pelo caminho, houve tentativas de união de vários lados — e até nós chegámos a invadir os vizinhos para ver se uníamos Portugal a Castela, vejam lá bem.

Por fim, à força da Guerra da Restauração, conseguimos deixar de lado a ideia de juntar Portugal ao projecto — e mais tarde convencemo-nos a nós próprios que nunca tínhamos participado nestas andanças.

Hoje, quando nos distraímos, acabamos por acreditar que esta península dividida em dois estados sempre existiu…

Os outros povos da península, na verdade, só se uniram num Estado realmente unificado (e muito castelhano) lá para o século XVIII — e muitos nunca se sentiram confortáveis nesse projecto duma Espanha castelhana. Não é de agora — e também não vale a pena fingir que nunca tivemos nada a ver com isto.

Enfim. É certo que podemos contar esta História de muitas maneiras. Mas uma coisa parece clara: há 800 anos, os catalães não eram espanhóis (pelo menos no sentido que damos hoje à palavra).

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Feliz Dia do Tradutor

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Cinco belas palavras da língua basca

Hoje levo os leitores deste blogue a uma viagem por cinco palavras da mais estranha língua dos nossos arredores. Sim, o basco. Há uma surpresa lá pelo meio: pois quem diria que, a partir do basco, iríamos acabar por falar de índios e cowboys?


Ao contrário do que se possa pensar, o basco é hoje uma língua em crescimento — mas sobre esse fenómeno falaremos noutro dia. Para já, queria mostrar este mapa, talvez pouco conhecido em Portugal. São as sete províncias que os nacionalistas bascos consideram parte da sua pátria.

Neste mapa, quanto mais verde estiver uma área, maior a percentagem de falantes do basco. Nas áreas mais escuras, a percentagem é superior a 80%.

As três províncias à esquerda (uma delas tem um buraco no meio, o que é curioso e talvez mereça um artigo um dia destes) constituem o País Basco que todos conhecemos, que é uma comunidade autónoma de Espanha. A província maior, ao meio, é Navarra, uma outra comunidade espanhola, separada do País Basco. As três províncias no canto superior direito são parte de França.

Se o leitor olhar com atenção, verá que há uma província (a que tem o buraco no meio, ou seja, Álava) onde o basco quase desapareceu. O peso da língua está em Guipúscoa (capital: Donostia / San Sebastián), no norte de Navarra e em França… Diz-me quem já lá foi que há aldeias de Guipúscoa onde é difícil encontrar alguém a falar espanhol na rua. Por outro lado, se formos passear para Bilbau, será difícil ouvir alguém a falar em basco, a não ser que entremos numa escola.

Aqui ficam os nomes bascos das sete províncias:

  • Bizkaia
  • Araba
  • Gipuzkoa
  • Nafarroa Garaia
  • Lapurdi
  • Nafarroa Beherea
  • Zuberoa

Bem, chega de mapas. Vamos às palavras:

1. Itsaso (mar)

Esta bela palavra engana bem, pois estamos habituados a olhar para o mar e ver por ali a ondear uma só sílaba. Em basco, o mar tem esse som mais picado — e, se há povo marítimo, são os bascos — que chegaram longe nos seus barcos de pesca.

2. Itsasgizonak (marinheiros)

Os marinheiros bascos chamam-se «itsasgizonak»que significa, literalmente, «homens do mar». Temos «itsaso» (mar), «gizon» (homem) e o «ak» que marca o plural.

Pensará agora o leitor: para um povo de marinheiros, será estranho que nenhum deles seja conhecido. Ora, talvez se lembre dos livros de História que o nosso Fernão de Magalhães tentou dar a volta ao mundo, só que morreu a meio. Quem terminou a viagem foi um tal de Elcano, que também pode ser chamado de Elkano — e era basco… E não foi o único marinheiro basco que andou pelo mundo!

2. Arrantzaleek (pescadores)

Os pescadores bascos aventuraram-se desde muito cedo pelas águas do Atlântico Norte e chegaram bem longe. É possível que tenham arribado às costas americanas ainda antes de Colombo.

Mesmo que não tenham sido os primeiros europeus a pisar aquelas terras, a verdade é que se tornaram presença assídua por aquelas paragens — e surgiu até uma espécie de lingua franca (o pidgin referido neste artigo) que misturava basco com línguas dos nativos americanos. Os nativos americanos usaram, durante muitas gerações, várias palavras bascas.

Estas voltas do mundo são curiosas, não são? Aqueles índios que imaginamos imponentes, em cima do cavalo, à espera dos cowboys, podiam muito bem usar entre eles algumas palavras bascas, aprendidas décadas antes da boca dum pescador na foz do rio São Lourenço. Os Pirenéus em contacto com o Velho Oeste…

Nesta página, encontramos um artigo da Smithsonian Magazine sobre a presença basca na América do Norte.

4. Ur (água)

Fonte: UK Data Explorer.

Se o nome do mar parece, em basco, ter sílabas a mais, a água parece ficar reduzida ao murmúrio duma fonte. Mas isto são impressões dum português a tentar orientar-se no meio de palavras tão estranhas — na verdade, este «ur» é interessante mais por ser tão diferente de todas as águas em seu redor do que por nos soar, por acaso, a murmúrio.

5. Bost (cinco)

No quinto lugar, deixo o próprio número 5.

Se alguém ficou com curiosidade, aqui ficam os dez primeiros números em basco:

  1. bat
  2. bi
  3. hiru
  4. lau
  5. bost
  6. sei
  7. zazpi
  8. zortzi
  9. bederatzi
  10. hamar

St Jean Pied de Port, no País Basco francês. Em basco, a terra chama-se Donibane Garazi.

Podia ter optado por outras palavras mais conhecidas — por exemplo, «kale borroka» (luta de rua) ou mesmo a palavra usada para descrever alguns partidos bascos: «abertzale» (uma palavra inventada pelo pai do nacionalismo basco, Sabino Arana, e que significa «patriota»).

Há ainda o próprio nome do País Basco, «Euskal Herria», que se aplica não à comunidade autónoma espanhola (que se chama, em basco, «Euskadi»), mas sim toda a nação basca como entendida pelos nacionalistas, o que inclui as sete províncias que vimos no início.

Podia ainda referir a expressão «ongi etorri» (bem-vindo), que já vi em placas na estrada e dá sempre jeito, ou aquela expressão que tantos aprendem a dizer em muitas línguas: «maite zaitut» (amo-te).

Mas fiquemo-nos, por hoje, por mais esta palavra:

«Agur!» — ou seja, adeus!

Nomeação para o Prémio Blogs do Ano 2017

Como dizem os nossos amigos brasileiros, fico sem jeito ao dar esta notícia. Afinal, nunca pensei ver um blogue sobre línguas misturado com os blogues de moda, de família e todos os outros que nós conhecemos bem. Mas a verdade é que o blogue Certas Palavras é um dos nomeados dos Prémios Blog do Ano.

A categoria é Educação e, se quiser votar, pode fazê-lo nesta página — e, já agora, se gosta do blogue, partilhe a notícia pelas famosas redes sociais…

Muito obrigado!

A Catalunha e a banda desenha húngara

Todos nós temos aquele amigo que gosta de qualquer coisa muito estranha a que mais ninguém liga. Nuns casos, será a banda desenhada húngara; noutros será o cinema do Cazaquistão; imagino ainda quem tenha um gosto muito particular por literatura do Tajiquistão ou pelas as revoltas internas na província de Sichuan na China.

Pois, para os meus colegas da faculdade, eu era esse amigo esquisito com uma mania absurda. Todos eles sabiam de cor: eu tinha uma peculiar e inexplicável inclinação por tudo o que tivesse alguma coisa a ver com a Catalunha.

Sim, sabia mais do que é saudável sobre a sua história, lia literatura catalã (!) — e quando jogávamos ao jogo do STOP e calhava letra C, eu punha de propósito «Catalunha» na coluna dos países. Os meus colegas, entre dentes, rosnavam que isso não é um país, já a saber o que vinha aí. Eu sorria e dizia que, tudo bem, aceito o critério de que um país tem de ser independente para entrar na ONU e no jogo do STOP, mas sendo assim que ninguém se atrevesse a escrever «Escócia» quando calhasse a letra E. Algum colega mais distraído ainda dizia, por vezes, «isso é diferente» — mas os outros faziam-lhe olhos de terror, como quem diz «não digas nada, que este é maluco».

Depois, cheguei a escrever artigos para revistas da faculdade, cartas do leitor em jornais, e sempre que podia entregava trabalhos sobre tão simpática nação (espero que nenhum madrileno me bata por ter usado esta palavra). Entretanto, arranjei um carro. O Luís (sei que foste tu!) escreveu com o dedo no vidro sujo: «Lava-me, porco catalão!»

Enfim, isto tudo para dizer que agora me sinto como o tal geek da banda desenhada húngara que já estava resignado a viver num país onde ninguém liga nenhuma à banda desenhada húngara. Um dia, acorda e fica de olhos arregalados quando percebe que, em todos os telejornais, em todos os títulos, em todas as conversas de Facebook — toda a gente desatou a falar da banda desenhada húngara. E, espantosamente, todos sabem tudo sobre banda desenhada húngara!

Sinto-me como esse pobre maluco da BD magiar, que não sabe se há-de estar contente com o interesse repentino do país inteiro pela sua pancada (a banda desenhada húngara é cool!) ou furioso porque todos falam sobre o assunto com a mania que sabem e não passaram os anos todos que ele passou a ler e a estudar a excelente banda desenhada húngara! Ah, o prazer que se esconde nos quadradinhos de Pál Korcsmáros!

A certas horas, já apetece gritar: porra, já se calavam com a banda desenhada húngara! Quero voltar a ser eu o esquisito!

Mas depois lá deixo subir aos lábios um sorriso matreiro: estão a ver como o assunto é interessante e cheio de perspectivas diferentes, histórias que ninguém conhecia e muita emoção à flor da pele? Ah, pois é! Agora vamos lá ver é se nos quadradinhos desta BD não desata tudo ao estalo.

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