Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Delícias da língua: «a pulga atrás da orelha»

O que faz a pobre pulga ali atrás da nossa orelha? Faz comichão, pois então.

Nem sempre percebemos bem o que nos põe ali o bicharoco. Por vezes, é uma entoação falsa, um olhar que não bate certo, qualquer coisa que no enredo dos dias não cose com as outras linhas.

Pense lá o leitor na pequenita pulga: ali, sem saber falar, aflita e aos saltos, a avisar com picadelas o excelentíssimo humano que a transporta que alguma coisa não está bem. E o pobre nem sempre liga e às vezes até coça e manda a pobre pulga às malvas.

Diga-se que, por vezes, a pulga está errada: pica, mas não devia. Outras vezes, é um bom aviso para ficarmos alerta para outros animais mais pesados que se atravessam à nossa frente.

Eu, por mim, tenho um fraquinho pelos animais da nossa língua — e a pulga, tão atenta e espertalhona, é um deles. Não é para todos conseguir um lugar na língua de todos; um lugar-comum, é certo, mas um lugar — e bem simpático.

Apetece-me até imaginar uma história com esta pulga — mas fica para outro dia… Talvez o leitor fique com a dita atrás da orelha, mas não porque desconfia: apenas porque quer saber que história será essa. É uma daquelas boas pulgas que se escondem nas nossas cabeças.

Portugueses no jacuzzi

Uma viagem oferecida

Viajar é bom, mas já sabemos que não pode ser de qualquer maneira. Uma coisa é percorrer a Europa de comboio, de preferência com um detective belga a bordo. Outra, bem diferente, é entrar num navio de cruzeiro. Nesse caso, sofremos o desprezo dos que se reputam verdadeiros viajantes, que nos atiram o pior insulto destes tempos: «Olha um turista!» Na escala do prestígio viajante, o passageiro destes hotéis insuflados está pouco acima do excursionista que vai comprar colchões a Badajoz.

E, no entanto, eu não podia recusar: ofereceram-me uma viagem até Itália! Queria lá saber se era de barco ou de Piaggio. Eu queria era ir a Barcelona, a Nice, a Pisa, a Roma… Ainda por cima, estava nos primeiros tempos de namoro e a viagem era para dois!

As circunstâncias em que fui contemplado com tal viagem ficarão para outro dia. Para já, revelo isto: nesse Verão de 2007, a Zélia e eu esperávamos o embarque na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos — e ao nosso lado esperavam também muitos outros portugueses. Sim, era uma espécie de excursão. Portugal estava ali em miniatura — e em força.

Portugal em miniatura

Devia ter recusado? Claro que não. Tínhamos 27 anos, éramos namorados, queríamos viajar e a viagem dada… Seria uma viagem pouco própria para jovens? Sim, mas pensámos: bastava ignorar o país em miniatura que ia connosco e seria como se fôssemos num iate por esse Mediterrâneo fora.

E, vá, nós também somos parte do país: representávamos ali os casais jovens nesse pequeno Portugal que embarcava em direcção a Itália, com as suas bagagens e impaciências à espera de entrar no navio. Era um Portugal que ia viajar de graça — o que é um Portugal diferente daquele que viaja a pagar. Nos dias seguintes, tivemos um motim português a bordo, uma portuguesa invadiu um palácio no Mónaco e ainda nos perdemos todos pelas estradas de Roma — tudo terminou numa viagem de avião de que não me quero lembrar.

Onde estavam os texanos?

Bem, uma coisa de cada vez. Entrámos no navio, fomos até à cabine que nos foi atribuída e deixámos lá as bagagens. Saímos para o corredor, já zonzos do balançar. À nossa volta, não vimos ninguém, o que era estranho. Segundo o que nos disseram, o navio já navegava há oito dias. Devia estar carregadinho de americanos. Mas, não: estava vazio, não fosse um ou outro português à procura da cabine certa.

Fomos até ao último andar. Lisboa vista dali estava linda, como de costume. Sorri: provavelmente, aquela seria uma das mais belas paisagens de toda a viagem e ainda nem saíra do porto.

Ainda inchado com um certo orgulho patriótico, olhei para trás e vi uma estranha concentração de barrigas portuguesas.

Onde? No jacuzzi, pois então. Parece que os homens portugueses decidiram ocupar os dois jacuzzis que por ali havia antes que os americanos aparecessem. E, a julgar pelas bagagens espalhadas ali ao lado, parece que a primeira coisa que um português faz num navio é mesmo saltar para o jacuzzi em grande estilo e barriga alçada. Foi assim, aliás, que descobrimos o Brasil.

Um aviso no jacuzzi

Ao lado do jacuzzi, estava um aviso que não consegui ler. Ainda tentei aproximar-me para lê-lo, mas a Zélia chamou-me: precisávamos de ir ver como podíamos aceder à Internet. Fomos até ao balcão das informações. Soubemos, para nosso horror, que Internet só havia nos computadores ali ao lado do balcão. Eram tempos obscuros, em que o acesso à internet ainda não era tão importante como a água na torneira da cabine.

Logo a seguir, soaram os avisos: devíamos fazer o exercício de coletes ao pescoço. Fomos à cabine buscá-los, dirigimo-nos ao local designado e assim nos divertimos durante quase uma hora, entre piadas que incluíam quase sempre alguma referência ao Titanic.

Ouvimos mais sinais sonoros: a partida estava para breve. Ah!… Como seria partir de Lisboa a navegar, em direcção ao mar oceano e às aventuras sem fim duma semana para recordar?

Partida de Lisboa

Era assim: à nossa frente, Lisboa. Atrás de nós, portugueses a marinar no jacuzzi. Sim, os mesmos homens continuavam a sentir a água a borbulhar pelo corpo. Em redor, outros portugueses em cuecas tentavam convencê-los, com a força do olhar, a desamparar aquela loja.

Aproximei-me então do tal aviso que me intrigara horas antes: qual poderia ser o perigo dum jacuzzi? Perigos não havia, apenas isto: «Não permanecer no jacuzzi mais do que 15 minutos.»

Entretanto, lá em baixo, os americanos já embarcavam à pressa, de compras na mão e susto nos olhos: não queriam ficar em terra! E não ficaram. Pouco depois, vimos abrir-se uma fenda entre o navio e o cais e lá navegámos dali para fora. O navio saía de Portugal, mas Portugal não saía do navio.

Notei então alguns tripulantes a coçar a cabeça: como dizer aos portugueses de molho que deviam sair dali?

Não precisaram de pensar muito: quando correu a notícia que estava na hora de ir comer, os portugueses engelhados saltaram da pobre piscina borbulhante e quase atropelavam, aos pingos, um grupo de texanos. Um dos americanos ainda perguntou ao amigo que língua bárbara era aquela.

O sol já se punha. A bombordo, as míticas terras da Costa da Caparica. Mal sabia eu o que nos esperava naquela louca semana.

Que castelo é aquele no horizonte de Lisboa?

Na viagem de hoje, vou de Chelas até Cambridge, passando por um certo castelo que paira no horizonte de Lisboa.


Todos os dias lá tenho o calvário conhecido de tanta gente: meter-me no trânsito para ir pôr o filho à escola. Ao final da tarde, a mesma coisa. Lá pelo meio tenho a famosíssima e pesadíssima Rotunda do Relógio.

Pois, agora, descobri um truque: o Google Maps sabe o trânsito que está a cada momento e adapta-me o percurso para não ferver a paciência no meio dos carros. Resulta? Quase nunca: mas pelo menos tenho descoberto ruas e vistas de Lisboa que não conhecia.

Por exemplo, no outro dia, quando já tinha deixado o Simão na escola, o Google Maps, em vez de me enfiar na tal magnífica rotunda, levou-me para Chelas. Pois a certa altura, ali pelos altos do Parque da Bela Vista, deparo-me, lá bem ao fundo, com um castelo a pairar nas nuvens.

Abri a boca e olhei com mais atenção: aquilo era mesmo um castelo! Mas qual castelo, perguntava-me eu. Em casa, olhei para o mapa e alinhei aquela rua com a Península de Setúbal. Com o dedo fiz uma recta e fui para a Palmela. Era isso: aquele só podia ser o Castelo de Palmela.

Talvez seja um caso raro, mas na verdade nunca tinha visto o Castelo de Palmela a partir de Lisboa — até ao dia em que o Google Maps me levou pelos misteriosos caminhos de Chelas.

Bem, tudo isto para dizer que, ao final da tarde, quando fui buscar o Simão, perguntei-lhe se não queria ver um castelo.

«Quer dizer que vamos por um caminho diferente?»

«Sim!»

«Então quero!» (O ódio à Rotunda do Relógio é um hábito que se adquire desde muito novo.)

E lá fomos — só que já era de noite e a única coisa que conseguimos ver foi umas pobres luzes a pairar ao fundo. Podia ser o famosíssimo Castelo de Palmela — ou uns prédios no Montijo.

«Onde está o castelo, pai?»

«Está ali!»

«Não vejo nada» — e fez cara de quem começa a duvidar da sanidade do pai.

Mudei de assunto enquanto passávamos por baixo duns prédios enormes que estão à volta dum supermercado cujo nome agora não posso revelar:

«Sabes como se chama este bairro?»

«Não…»

«Chelas!»

Ele riu-se. Parece que o nome é divertido para quem nunca o ouviu. E assim começámos a falar de bairros de Lisboa e de nomes de terras. O Simão anda a aprender a distinguir cidades de países. Ainda há poucos dias, em Ponte de Sor, despediu-se do avô dizendo que ia para Portugal — lá lhe dissemos que o Alto Alentejo continua firme no meio do nosso país e que, na verdade, íamos era para Lisboa…

Pois, naquele dia do castelo, enquanto explorávamos a fronteira entre Marvila e os Olivais, eu explicava-lhe:

«Ponte de Sor, Peniche e Lisboa são no mesmo país: Portugal. Mas tu conheces outros países… Por exemplo, a tua prima Lilah vive em Cambridge, uma cidade num país chamado Inglaterra.»

Ele disparou logo:

«O Dinis também!»

Fiquei assustado: que confusão era aquela? O Dinis é o primo mais velho, que, longe de viver em Inglaterra, vive no outro lado da nossa rua lisboeta.

«Sim, ele aprende inglês em Cambridge!» (Não consigo reproduzir a maneira como ele diz este nome…)

Percebi, então: o primo tem aulas de inglês na Cambridge School (acho que é assim)… Agora, tinha de explicar por que razão há escolas com nomes de cidades, ainda por cima inglesas.

Depois da explicação, parados no trânsito (o Google Maps não faz mesmo milagres), disse-lhe a sorrir:

«Daqui a uns anos, vais tu para Cambridge passar uns dias com a prima e também aprendes inglês.» Ele não disse nada, mas sorria, já contente por imaginar a aventura. Continuei: «Se passares lá uns 30 dias chegas cá a saber inglês melhor do que eu…»

Ele arregala os olhos:

«Trinta dias? Ó pai, não vamos exagerar!» 

Fiquei a rir-me com aquela saída. Parece banal, assim por escrito, não parece? E, no entanto, era uma frase de adulto saída da boca ainda incerta duma criança, com os «rr» ainda por dizer, mas com a entoação exacta para dar aquele exacto ar de impaciência com as parvoíces do pai. As consoantes ainda não saem todas bem, mas as entoações e o tom já começam a ir ao sítio.

O semáforo passou a verde, o trânsito entornou-se por mais uma rua e lá avançámos nós em direcção a casa. Cá por dentro, prometi a mim mesmo: ainda lhe hei-de mostrar o tal castelo que paira no céu de certas ruas de Lisboa — e continuámos a conversar, pelas avenidas fora.

Cinco ideias para não ser enganado pelos números

Há pouco, li o título dum jornal a passar por mim, a grande velocidade, pelo Facebook: «Turistas apresentam quatro queixas por mês contra taxistas». Quando dei por mim, já tinha perdido a notícia e não consigo saber em que jornal apareceu. (Sim, eu sei que há o Google, mas hoje não me apetece.)

O título chamou-me a atenção. Porquê? Porque fico sem saber se aquilo são muitas queixas, poucas queixas, queixas assim-assim.

Estou certo que o jornalista dá mais informações no corpo da notícia desaparecida. Mas essa minha confusão inicial lembrou-me deste facto interessante: os números podem enganar e muito. Não julguem, no entanto, que podemos ignorá-los: na verdade, se os números enganam muito, as palavras enganam ainda mais — e essas palavrinhas especiais que são os números dão muito jeito para pensarmos melhor.

Portanto, perante o título «Turistas apresentam quatro queixas por mês contra taxistas», a nossa tentação é usar este número para as nossas narrativas particulares.

  • Ah, esses taxistas, malandros, vejam lá que se portam tão mal que recebem quatro queixas por mês (tantas!).
  • Ah, esses turistas, malandros, que andam sempre a importunar os nossos taxistas.
  • Ah, quatro queixas? Só? Tão poucas! Os turistas não têm é coragem de se impor perante os abusos dos taxistas.
  • Ah, quatro? Só? Os nossos taxistas são uma maravilha!

E por aí fora…

Ou seja: aquele número, assim muito frio, pode servir para mil e uma histórias diferentes ou mesmo opostas. O mesmo número serve para elogiar ou para insultar os taxistas.

Como resolver isto? Aqui ficam cinco ideias, tomando como exemplo este caso:

1. Fazer comparações

Por exemplo, qual será o número de queixas noutras cidades? E, já agora, qual será o número de queixas por 100 000 habitantes em cada cidade (para compararmos as coisas de forma mais correcta).

Ou, melhor ainda: qual será o número de queixas por 1000 viagens de táxi em cada cidade?

Talvez assim comecemos a perceber se quatro queixas por mês é muito ou pouco. E há ainda outras formas de escavar para lá dos primeiros números.

2. Olhar para a evolução ao longo do tempo

O número de queixas está a aumentar ou a diminuir? Estabilizou? Deu um salto neste mês? Aumentou durante uns anos e agora tem diminuído?

Há que ter cuidado, no entanto: com números baixos, o acaso tem um papel muito importante no número de queixas por mês. O melhor será olhar para tendências de longo prazo…

3. Tentar saber qual era a expectativa inicial

Será que os taxistas têm objectivos de qualidade no que toca ao número de queixas? Esses objectivos foram ou não cumpridos?

(Como vemos, o truque está em fazer perguntas aos números. Claro que nem sempre temos maneira de chegar às respostas — ou tempo, para dizer a verdade. Mas, pelo menos, se fizermos as perguntas, começamos a perceber aquilo que os números não dizem.)

4. Abrir o número e olhar para o que está lá dentro

Será que as queixas estão concentradas em poucos taxistas? Ou nem por isso? As queixas são apresentadas a qualquer hora, ou concentram-se em determinadas alturas do dia? E será que os mesmos taxistas recebem queixas todos os meses, ou, em geral, um taxista que recebe uma queixa num mês não recebe mais durante o ano?

5. Não cair na tentação de procurar números interessantes

Há que evitar o risco de encontrarmos nos números uma qualquer história mais interessante do que verdadeira. Os números nem sempre são interessantes — e ainda bem.

Imaginemos que um comportamento frequente de muita gente aumenta o risco disto ou daquilo. Vou inventar um cenário fictício. Por exemplo: um grupo de cientistas descobre que ler aumenta em 100% (!) a probabilidade de sofrer uma estranha doença nos olhos — chamemos-lhe leiturite. Ou seja, quem lê tem o dobro da probabilidade de ter a tal doença. Assusta, não é? Certamente, se esta história fosse verdadeira, teríamos os jornais a declarar que a leitura, afinal, é perigosa.

Isto, claro, até um leitor muito pouco dado a aceitar assim insultos à sua actividade preferida se dar ao trabalho de olhar para os números com mais atenção.

Percebemos então que o risco na população em geral será de 1 doente em cada 10 000 000 de pessoas. Entre os portugueses, o mais provável será termos 1 sofredor da tal leiturite.

Ora, se a probabilidade aumenta para o dobro, quer isso dizer que seria necessário que todos os portugueses passassem a ler para passarmos a ter 2 sofredores de tal mal.

De repente, um aumento da probabilidade em 100% já não parece razão para grandes sustos, não é?

Diga-se, já agora, que a doença é mesmo inventada. Riscos a sério corre aquele que não lê, como sabemos.

Voltemos aos nossos amigos taxistas. Esta vontade de pôr os números a gritar manchetes pode levar-nos a dizer: aumento de 100% das queixas contra taxistas! Porquê? Porque em Julho houve quatro queixas, quando em Junho tinha havido duas. A única diferença foi ter havido um taxista que teve o azar de dar com um casal que gosta muito de reclamar — e, pronto, lá temos manchete. Com a verdade me enganas, não é assim? (Aviso aos desprevenidos: os números neste parágrafo são fictícios. Não quero cá insultos a classes profissionais por dá cá aquela palha.)

A síndrome da velha que bebia gin

Para terminar, deixem-me lá falar desta síndrome antiga. Alguém diz que o álcool faz mal e logo aparece alguém a dizer: ora, ora, conheço uma senhora que bebia todos os dias e viveu até aos 100 anos!

Ó meus amigos: também conheço fumadores que viveram até aos 100 anos. Quer isto dizer que fumar não faz mal? Claro que não…

A verdade é que olhamos para os números como nos dão jeito. Queremos fumar? Então reparamos na velha que fumava até aos 100 e ignoramos todos os que morreram aos 50. Queremos justificar a nossa falta de leitura? Olhamos para o risco mínimo (quase inexistente) duma doença que nem sequer é assim tão grave.

Gostamos de apontar uma pistola à cabeça dos números até eles confessarem aquilo que nós queremos que confessem. Ora, se resistirmos à tentação e baixarmos a pistola, os números dizem-nos, em voz baixinha e sem ameaças, algumas coisas interessantes. Só temos de ter calma e ouvi-los com atenção.

(Publicado no Sapo 24 no dia 20 de Agosto.)

O trocadilho de Sócrates e o fogo no Facebook

Artigo publicado no Sapo 24 no dia 15 de Outubro.

Ora, andava eu descansado na minha vida quando abro o Facebook. Começo a ler várias pessoas a reclamar contra um trocadilho: «Parem com essa história do 31!» «Chega do trocadilho do 31!» «Não têm nada mais original para dizer?»

Fiquei muito admirado: aquelas pessoas estavam a falar do quê? Eu tinha ficado umas boas duas horas longe do Facebook… O mundo tinha mudado. Havia, pelos vistos, um excesso de trocadilhos com o número 31!

O que se passava, por amor de Deus?

O número do crime

Devagar, puxando o mural do Facebook um pouco mais para baixo — e, confesso, acedendo ao Sapo para ver as notícias do dia — lá percebi: José Sócrates tinha sido acusado de 31 crimes. Vai daí, várias dezenas de pessoas (ou terão sido centenas?) começaram a fazer trocadilhos do género «está metido num 31». E uns 31 segundos depois — ou talvez menos — havia já dezenas ou centenas de pessoas aborrecidas por terem visto aquele trocadilho mais vezes do que a conta.

Ou seja, eu comecei pelo fim de toda esta sequência de notícias, comentários jocosos, comentários irritados, discussões mais ou menos acesas sobre os comentários jocosos e os comentários irritados. E só estive duas horas sem rede!

Como pegar fogo a um homem numa estação de serviço

Uma pessoa fica zonza a olhar para estas sequências. É tudo rapidíssimo. Uma polémica na imprensa de há umas décadas demorava semanas. Agora, arde tudo num fósforo. Não acho mal, à partida — mas há perigos nisto tudo que vão muito para lá da minha atrapalhação ao ver irritações sem perceber a causa.

Vou pedir ao leitor que imagine um cenário: um homem dos seus quarenta anos vem a descer a A1 num dia qualquer de Julho deste ano. Chamemos-lhe Paulo.

O Paulo decide parar numa estação de serviço. Para o caso, serve a estação de Aveiras. Entra no restaurante self-service e põe-se na fila. Enquanto espera, entretém-se no Facebook. Entretanto, chega um grupo de três bombeiras e dois bombeiros com ar cansado, sujos do combate aos incêndios deste Verão terrível. O grupo põe-se também na bicha, atrás do homem.

Uma rapariga — chamemos-lhe Rita — está sentada à mesa e repara na cena: o Paulo olha para o telemóvel, enquanto, atrás, bombeiros esperam sem que o malandro se lembre de lhes dar o lugar, o que será o mínimo, tendo em conta o sacrifício que aqueles jovens bombeiros faziam pelo país.

A Rita publica de imediato a fotografia dum homem entretido no telemóvel e cinco bombeiros sujos e cansados. Por baixo, um comentário a condizer: «A falta de civismo dos dias de hoje! Enquanto uns se arriscam para salvar as vidas dos outros, outros nem levantam a cabeça do telemóvel!»

Enfim, os pontos de exclamação seriam certamente muitos mais e imagino um festival de maiúsculas em cada frase.

Não será muito relevante, mas o Paulo imaginário acaba por levantar os olhos do telemóvel e convida então os bombeiros a passar à frente. Parecem, de facto, muito cansados.

Quando a vida muda na fila do self-service

A imagem que a Rita partilhou torna-se viral em poucos minutos. É daquelas fotografias irresistíveis por aqueles dias: junta a indignação aparentemente justa à homenagem a quem a merece. Tudo isto é bem condimentado com o horror que os incêndios provocaram e ainda a confirmação daquilo que parece óbvio: o mundo está obcecado com os telemóveis e as pessoas de hoje em dia já nem sabem ceder um simples lugar numa fila aos heróicos bombeiros. Vivemos num mundo de gente má, não é verdade?

São centenas de partilhas, milhares de comentários, insultos em barda. O Paulo, minutos depois, descansado a comer, começa a receber mensagens dos amigos e insultos de desconhecidos — e descobre que é o vilão do dia nas redes sociais. Nas redes sociais e não só: há jornais que publicam a fotografia e há um programa de humor na televisão que se aproveita do instante para fazer uma piada certeira (isto, claro, três dias depois).

Se quisermos ser um pouco mais dramáticos, podemos até imaginar discussões domésticas, a perda do emprego, a vergonha durante meses e meses, muito depois de o caso desaparecer da mente das gentes.

Estou a exagerar? Julgo que já por aqui recomendei o livro So You’ve Been Publicy Shamed de Jon Ronson. O livro mostra como o cenário que criei acima só peca por ser muito meiguinho para com as personagens. Optei por inventar a história porque falar das histórias reais pode ser mais um prego na pele das vítimas destes fogos virtuais.

Somos todos carrascos

Pergunto ao leitor: se visse a fotografia que imaginei acima, será que a partilhava? Será que comentava? Será que pensava duas vezes e chegava à conclusão que um instante apanhado num telemóvel não significa nada sobre a falta de civismo dos portugueses e muito menos sobre aquela pessoa em particular? Uma partilha não faz mal a ninguém, pois não? Em caso de dúvida, mais vale partilhar…

O problema não é cada partilha ou cada insulto: o problema é a quantidade e a velocidade a que tudo decorre. Em poucas horas, a pessoa envolvida sente-se humilhada e diminuída perante o peso da censura social. O mesmo grau de atenção e a mesma luz dos holofotes que antes eram reservados aos famosos (que terão os seus mecanismos de defesa e algumas vantagens para compensar) podem agora incidir num qualquer anónimo apanhado num instante comprometedor ou ambíguo. E é tudo tão aleatório: não há um pingo de justiça nisto, apenas a força do acaso, como um piano que cai em cima dum pobre transeunte (a olhar para o telemóvel, pois então).

A nossa força colectiva nas redes sociais é imensa — e, se às vezes gastamos essa força em discussões interessantes ou a avaliar a qualidade dos trocadilhos dos outros, há dias em que atropelamos gente inocente. É o equivalente virtual daqueles casos em que pessoas morrem debaixo dos pés duma multidão em fúria: há mesmo quem fique ferido debaixo dos nossos cliques.

(A sério: leiam o livro de Jon Ronson. Por incrível que pareça, é divertido — e muito importante.)

Três perigos de ver o telejornal

Desta vez, apeteceu-me apresentar as razões por que ver o telejornal é uma actividade de alto risco.

1) O mundo está cheio de cães que mordem o homem — só que não aparecem nas notícias

Se o homem que morde o cão é notícia e o cão que morde o homem nem por isso, isto quer dizer que as notícias mostram o que é extraordinário e não o que é normal no mundo.

Ora, isto tem uma implicação profunda: quem basear a sua visão no mundo apenas nas notícias fica a conhecer o que não é normal. Ou seja: vai ficar convencido que o mundo está cheio de homens que mordem cães.

As notícias transmitem uma visão do mundo que tende para o extraordinário. Por exemplo: ficamos todos horrorizados com as notícias de pais ou mães que matam os filhos. Ora, se alguém baseasse a sua opinião sobre o que é normal numa relação entre pais e filhos apenas nas notícias, ficaria convencido que a maioria dos pais maltrata os filhos ou os quer matar.

Felizmente, no caso dos pais que matam os filhos, todos temos experiências pessoais que contrabalançam o que vemos nas notícias — e assim percebemos intuitivamente que aquilo são excepções. Mas já não será tão óbvio perceber se esses casos estão a aumentar ou a diminuir. Muitos julgam saber, sem margem para dúvidas, que estão a aumentar — afinal, lembram-se muito bem dos casos que ouviram nos últimos tempos. Na verdade, só olhando para os números (o que não é fácil) podemos saber com mais rigor o que se passa no mundo.

Agora, aqui fica uma provocação: quanto mais violência há no mundo, menos extraordinária será — e vice-versa. Daí, não é difícil concluir algo estranho: quanto mais violência aparece nas notícias, mas extraordinária é essa violência e mais pacífica será a sociedade.

É um exagero, uma conclusão apressada, um absurdo — concordo. Foi apenas uma provocação. Mas não deixa de corresponder ao que as estatísticas nos dizem. O caro leitor faça alguma pesquisa sobre o número de homicídios nas últimas décadas, apenas como exemplo; veja também o número de mortos em guerras — e por aí fora. (Mas, já agora, fique até ao fim, pois tenho uma surpresa guardada no final do texto sobre este mesmo assunto.)

Sim, o mundo parece louco depois de vermos o telejornal — afinal, a função dos jornalistas é andar à procura da loucura do mundo.

2) Há mesmo estudos científicos para todos os gostos

Sim, é verdade: parece haver estudos para todos os gostos. Há quem diga que o leite faz mal e tem um estudo na mão e há outras pessoas que tem a certeza que o leite só faz bem e também vem armadas com uns quantos estudos nas duas mãos.

O problema, na verdade, não é dos cientistas: é mais da nossa incapacidade de perceber como funciona a ciência e os estudos científicos.

É quase inevitável que, se fizermos 20 estudos sobre um medicamento (ou sobre o leite), vamos ter dois estudos com resultados contraditórios — o segredo está em olhar para os resultados que perduram no tempo e não para um ou outro caso particular.

Mas, claro, é muito mais fácil pegar naquele estudo que por acaso parece provar o que queremos, ignorando todos os outros. Basta pensar no famoso estudo que parecia mostrar uma relação entre vacinas e autismo e que se baseou em pouquíssimas crianças. Um estudo malfeito, isolado, com um resultado que é fruto do acaso — desde que confirme as teorias que algumas pessoas têm na cabeça vale mais do que todos os outros estudos realizados ao longo dos anos. Repare o leitor: se a relação entre vacinas e autismo fosse real, esse efeito tenderia a aparecer na maioria dos estudos realizados.

A ciência é, no fundo, um conjunto de técnicas para filtrar aquilo em que somos tendenciosos. Não é fácil — e há muito caminho a percorrer mesmo dentro da ciência.

Agora voltemos às notícias: se os estudos científicos estão aí à mão de semear para provar tudo e o seu contrário, imagine-se o que não acontece com as outras notícias. Então se falarmos de questões políticas ou económicas, temos o caldo muito entornado. Duas pessoas de partidos diferentes a ver o telejornal conseguem ver coisas completamente diferentes: o apoiante do partido ABC sabe que as notícias confirmam como seu partido é o melhor — e quando não confirmam, a razão é simples: a comunicação social está toda do lado do partido XYZ. Já o apoiante do partido XYZ está convencidíssimo que as notícias demonstram a razão do seu partido — e só não são mais entusiásticas porque todos sabem como os jornalistas tendem todos a ser do partido ABC.

3) O raio do mundo é sempre mais complicado do que parece

Sim, é uma surpresa para muitos, mas o número de homicídios e mortes em guerras tem diminuído nas últimas décadas em muitos países — nos E.U.A., por exemplo. Em Portugal também tem havido menos homicídios — já no que toca à guerra, enfim, nós não somos muito dados a esse desporto, o que só nos fica bem.

O cirurgião Atul Gawande, num livrinho que estou a ler (Better), mostra que os homicídios, nos Estados Unidos, têm de facto diminuído a olhos vistos — mas as tentativas de homicídio nem por isso. O que se passa é que a medicina tem conseguido salvar muito mais vítimas de ataques com armas de fogo do que há umas décadas — e tem também conseguido salvar mais soldados feridos, diminuindo a mortalidade em situações de guerra. Ou seja, se olharmos só para os números, não percebemos o que aconteceu.

Esta nossa corrida para perceber o mundo não tem fim, para dizer a verdade. As estatísticas tiram-nos as palas das notícias vistas a correr, mas podem esconder outros segredos. Agora, o pior de tudo será tentar perceber o nundo olhando apenas para as letras gordas dos jornais, para os títulos dos artigos publicados no Facebook ou ouvido os primeiros três minutos do telejornal — e, admitamo-lo, muitos de nós fazemos precisamente isso.

A solução? Não é fácil. Temos de ler mais, compreender alguma coisa de estatística, desconfiar das nossas ideias… É muito mais fácil escolher umas quantas certezas à bruta e não querer saber de mais nada. As opiniões ditas com ar de certeza são mais interessantes — e arranjamos sempre uma ou outra notícia, um ou outro estudo, uma ou outra história para confirmar tudo o que quisermos. Hesitar, duvidar, fazer o esforço de raspar a superfície do mundo para lá das palavras fortes… Ah, isso cansa muito.

(Publicado no Sapo 24 no dia 11 de Junho de 2017.)

Viajar no tempo em Lisboa

No sábado passado, fui com o meu filho, os meus sobrinhos e as suas mães até à Cordoaria Nacional. Para quê? Para ver dinossauros, que é vício tradicional das crianças depois dum filme de Spielberg cujo nome não me apetece recordar.

Ora, terminada a visita à exposição, saímos para a rua nessa quente tarde de Outono em que os gelados se misturavam com as castanhas. Demos a volta à Cordoaria, em direcção ao carro, a deliciar-nos com a paisagem lisboeta.

Nesses poucos minutos de passeio a pé pela Rua da Junqueira, acabei a viajar no tempo e, pouco depois, já no carro, ali para os lados dos Jerónimos, dei um salto imaginário até Barcelona — para logo voltar até Lisboa e pensar na grande surpresa que se esconde nos Jerónimos.

Eu conto tudo…

Cavaleiros medievais numa rua de Lisboa

Enquanto caminhávamos pela Rua da Junqueira, notei uma bandeira vermelha enrolada no mastro e uma indicação de embaixada por baixo.

Não consegui reconhecer o país assim à primeira (a bandeira estava enrolada) e atravessei a rua para ver que embaixada seria aquela.

Era a Embaixada da Ordem Soberana e Militar de Malta.

Não, não era a Embaixada de Malta. Esse país lá terá algum casebre escondido num recanto de Lisboa a servir de legação. A Ordem Soberana e Militar de Malta é uma organização católica cujo nome completo é Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta — e que também pode ser chamada de Ordem dos Cavaleiros Hospitalários. Por incrível que possa parecer (e parece!), esta organização é um resquício das Cruzadas.

É a única organização sem território cuja soberania é reconhecida por vários países — o que significa que emite passaportes e tem embaixadas. A Igreja Católica em si também tem embaixadas (as embaixadas da Santa Sé), mas o caso não será tão estranho como o desta Ordem Militar, pois a Santa Sé é soberana no pequeno território do Vaticano.

Aqui temos uma espécie de relíquia dum passado de cavaleiros andantes e de cruzadas… Em conjunto com os países minúsculos da Europa (San Marino, Mónaco, etc.), são recordações dum tempo em que a Europa era um mosaico de condados, ducados, principados, reinos e impérios cujas fronteiras se sobrepunham e se misturavam sem grande respeito pelos criadores de mapas. Estávamos longe do mosaico aparentemente sólido de Estados-Nação a fingirem-se muito estáveis e antigos.

Um palácio em ruínas

Bem, uns metros depois, aparece-me uma nova visão do passado: um palácio em ruínas. É o Palácio das Águias, cuja história pode ser encontrada nesta página da Câmara. Mas, vá, antes de sair daqui em direcção a essa página, continue a ler, que isto ainda mal começou…

Só trouxe à baila este palácio porque nos lembra deste facto: a cidade vai-se transformando, renovando — e pelo caminho ficam alguns espaços, como relíquias, que nos põem a imaginação a dar piruetas: uma embaixada de cavaleiros medievais mesmo ao lado dum velho palácio em ruínas. E nem sequer vou falar do Chafariz da Junqueira (que não tenho tempo). Diga-se ainda (como veremos) que estas ruínas são bem menos enganadoras que os monumentos renovados e bonitinhos. Não que prefira tê-los em ruínas… Não é isso. O problema é outro: o passado… O passado é demasiado sedutor para o nosso próprio bem!

A glória nos Jerónimos

Foi neste estado de espírito que peguei no carro e avancei pela Rua da Junqueira até chegar perto dos Jerónimos.

Ah, os Jerónimos… Um exemplo perfeito da glória do passado ali preservada sem mácula! O exemplo acabado do estilo manuelino! O passado ali presente com a sua solidez de séculos!

O problema é que os Jerónimos que vemos ali já não são o monumento do século XVI. Entre acrescentos, reconstruções, obras variadas, acabámos com um monumento muito diferente do original.

Embora este aspecto enganador dos monumentos já não fosse uma novidade, foi um livro recomendado por Fernando Venâncio no Facebook (ainda dizem que a dita rede não serve para nada) que me mostrou até que ponto a História, mais do que reinventada, foi inventada há muito pouco tempo: La invención del passado, de Miguel Anxo Murado.

O livro vai muito para lá dos monumentos — mostra como muitas batalhas, acontecimentos e outras narrativas em que se baseiam as Histórias nacionais que temos na cabeça são dúbias ou, mesmo, improváveis. Isto, diga-se, vale para todos os países e para todos os nacionalismos.

Bem, já voltamos aos Jerónimos. Antes, para mostrar onde quero chegar, uso um dos muitos exemplos de Murado: os monumentos de Barcelona.

Barcelona antiga e moderna?

Em Barcelona, temos dois grandes monumentos religiosos: a Catedral de Barcelona, um monumento gótico e medieval, e a moderníssima (e modernista) Basílica da Sagrada Família.

Aqui está a catedral:

Esta catedral começou a ser construída em 1298. Se olharmos com atenção, começamos a imaginar os artífices medievais a criar o fino rendilhado gótico da fachada…

Já no meio do Eixample, temos aquela louca basílica que algumas pessoas o exemplo acabado duma modernice amalucada. É, certamente, um edifício de espantar, igual a nenhum outro. Falo da famosíssima basílica de Gaudí, que parece feita com os dedos ou então nascida do solo como uma planta de pedra e onde o difícil é encontrar uma linha recta:

A catedral representa, na nossa cabeça, a Idade Média — a outra é já uma invenção dos séculos mais recentes…

Só que (sente-se, por favor) a fachada da Catedral de Barcelona tem mais ou menos a mesma idade que as primeiras obras da Sagrada Família e o zimbório (a torre central) é de 1913. Aqui está a fachada da Catedral em 1880:

Por volta do ano em que o zimbório foi inaugurado, a Sagrada Família já existia:

Já o zimbório da Sagrada Família está à distância de décadas — mas no futuro. Será este, dizem, o aspecto final. No entanto, se o passado é difícil de conhecer, o que diríamos do futuro?

Fonte: sagradafamilia.cat

Voltemos à catedral gótica. A fachada foi construída por ocasião da Exposição Universal de 1888 por iniciativa duma família rica de Barcelona — um pouco como se os Champalimaud tivessem pago a reconstrução da Sé de Lisboa com uma fachada gótica por ocasião da Expo ’98 e, a partir daí, todos acreditássemos que aquilo era um bom exemplo do gótico medieval. (Em abono da verdade, devo avisar que a fachada da Catedral de Barcelona inspirou-se nos planos iniciais. Uma fachada gótica na Sé de Lisboa seria só um disparate.)

Sim, em grande medida, os nossos monumentos antigos são invenções mais recentes do que pensamos. Atenção: nada disto é segredo! Está em qualquer descrição histórica dos próprios monumentos — mas a história simplificada que temos na cabeça não regista essas notas de rodapé e convencemo-nos sem pensar duas vezes que, ao olhar para a Catedral de Barcelona, estamos a olhar para a Idade Média…

E o Castelo de São Jorge?

Sim, o Castelo de São Jorge tal como o conhecemos não é tão antigo como pensamos. Aqui está o aspecto da colina em 1877:

Olhem com atenção… Onde está o castelo? Está ali uma muralha, é verdade, mas nada parecido com isto:

A perspectiva também não será a mesma, mas dá para perceber que o Castelo monumental que temos agora não existia em 1877. De facto, como podemos ler em qualquer história do Castelo (basta ir à página do próprio monumento), aquilo que existe hoje é uma reconstrução feita durante as obras de 1938-40.

A página do Castelo diz-nos que há uma recuperação da antiga imponência: «Com as grandes obras de restauro de 1938-40, redescobre-se o castelo e os vestígios do antigo paço real. No meio das demolições então levadas a cabo, as antigas construções são resgatadas. O castelo readquire a sua imponência de outrora e é devolvido ao usufruto dos cidadãos.»

O problema é que era muito difícil saber o aspecto original — e, quando não sabemos, temos de inventar. É natural e acontece com quase todos os monumentos recuperados por essa Europa fora.

Podíamos estar horas neste exercício… As ameias, por exemplo, tão certinhas, que encimam tantos castelos nacionais são, muitas vezes, acrescentos modernos.

E os Jerónimos?

Voltemos aos Jerónimos. Aqui está uma foto do século XIX:

E hoje? Reparem no aparecimento da torre, que está bem longe de ser do século XVI…

Há ainda esta fotografia oitocentista que assusta qualquer pessoa…

A praça que rodeia o mosteiro (a Praça do Império) foi criada para a Exposição do Mundo Português, nos anos 40:

Quando o Centro Cultural de Belém apareceu ali como um lego cor-de-rosa, na verdade, era apenas mais um passo na contínua reformulação do espaço, que nunca terminou — e, certamente, daqui a 50 anos o aspecto já será outro.


Reparem bem: o Castelo de São Jorge que nós vemos é mais recente do que certas partes da Sagrada Família de Barcelona. É, aliás, mais recente do que a Avenida da Liberdade…

Isto não é novidade: no entanto, na nossa cabeça, temos um passado idealizado, onde estes monumentos já existiam tal e qual os vemos hoje. Isto é apenas um aspecto desta idealização do passado. A História foi recriada nos últimos dois séculos — tanto nas pedras das cidades, como na nossa cabeça. Em grande medida, as várias histórias nacionais são simplificações criadas durante os últimos 200 anos e espalhadas pelas populações através das escolas, da televisão, dos livros de divulgação.

Não se pense que antes era melhor: a grandíssima maioria da população não ligava nada à História e pouco sabia dos relatos nacionais. Se encontrássemos um qualquer português do século XVII, por exemplo, ficaríamos admirados com tudo o que ele não saberia sobre a nossa História — primeiro, porque a aprendizagem da História não era vista como importante para a população em geral; segundo, porque a forma como contamos a História é bem mais recente do que pensamos.

A História é muito importante — e, mais do que importante, é muito interessante. Mas se julgarmos que vemos o Passado e a Verdade — assim, em maiúscula —quando repetimos as histórias que nos contaram e vemos os monumentos das nossas cidades, estamos a enganar-nos a nós próprios. Aconselho, mais uma vez, a leitura do livro La invención del pasado. É um livro que cura certas obsessões nacionalistas que existem em todos os países — Portugal está longe de ser excepção.

E tudo para quê? Para termos uma relação mais realista da nossa capacidade de conhecer o passado…

Não fiquemos tristes: os historiadores descobrem muita coisa interessante e há tanto por saber escondido em artigos e livros de História — dá algum trabalho, mas vale a pena. Depois, para viajar até ao passado, há a imaginação: temos cavaleiros em ruas de Lisboa, palácios em ruínas, livros para ler e muita coisa para aprender e imaginar. Dificilmente não cairemos em anacronismos, mas temos de viver com essa nossa incapacidade de conhecer o passado como se fosse o presente. O passado é mesmo um país estrangeiro — e as fronteiras estão fechadas…

No fundo, a única forma de olhar para o passado sem errar é virar os olhos para as estrelas: a luz demora a cá chegar e, por isso, quando à noite olhamos para o céu, estamos a ver estrelas tal como existiam quando, aqui na Terra, ainda existiam os dinossauros que o meu filho e os meus sobrinhos viram em forma de bonecos lá para os lados da Cordoaria — dinossauros esses que, pelo que se tem descoberto nos últimos anos, afinal tinham penas (nem esse passado nos deixam sossegado).

Três armadilhas do Facebook

Sim, o Facebook é perigoso. E não há dia em que não tropecemos numa das suas armadilhas.

1. O Facebook atira-nos açúcar para os olhos

O que quero dizer com esta frase? Isto: no Facebook, estamos expostos a notícias (verdadeiras, falsas, assim-assim) — e algumas notícias falsas são irresistíveis… Ainda esta semana ouvi, ao meu lado — sim, às vezes oiço conversas de quem se senta ao meu lado ao almoço — um casal muito sério, muito ponderado, a discutir afincadamente a notícia de que Trump quer ficar com a Ilha Terceira por usucapião. Onde tinham lido a notícia? No Facebook, claro.

Não me interpretem mal: já devo ter acreditado em notícias tão ou mais parvas. Mas a minha boca abriu-se, o garfo caiu e olhei arregalado para o casal, que me ignorou por estar embrenhado em bizantinas discussões sobre essa agressão de Trump ao nosso país.

Como era possível acreditarem em tal disparate?

Parece que engolimos tudo o que tenha a ver com a nossa tribo e meta figuras que, por uma razão ou outra, desprezamos. Quando alguém encontra uma notícia sobre Portugal e que meta algum suposto inimigo, é ver o espírito crítico a ir pelo ralo.

E acontece o mesmo com os clubes, com os partidos… As notícias são lidas pelo lado da tribo e da necessidade de atacar os inimigos — e é difícil escapar disto. As redes sociais não criam estas tribos, mas atiram-nos açúcar em forma de notícias apetitosas, que alimentam esse mesmo tribalismo. Há por lá açúcar com as cores de todas as tribos e notícias à medida de todas as obsessões.

2. Levamos tudo a mal (e não gostamos das ideias dos outros)

As notícias absurdas do tipo «Trump vem aí conquistar-nos as ilhas» também se espalham porque é difícil dizer «olha, isto é falso» sem parecer que nos estamos a armar em espertos. No dia-a-dia, em privado, gozamos uns com os outros, brincamos com os nossos erros, rapidamente percebemos quando pisamos o risco. No Facebook, estamos a apontar o erro em público e não podemos sorrir, encolher os ombros, dizer «deixa para lá»…

Mais: nessa rede social cujo nome não vou repetir, não temos maneira de acabar a discussão com um aperto de mão, um sorriso ou uma outra conversa sobre assuntos menos complicados. Enredamo-nos em comentários atrás de comentários, como se fosse um jogo. E, claro, ninguém quer perder.

Parece que vivemos e discutimos com holofotes apontados à cabeça. Sentimo-nos num palco, com todos os amigos a ouvir, na plateia, enquanto gritamos com o nosso oponente de ocasião (embora, na maior parte das vezes, não esteja ninguém a ver).

Tudo isto é a receita para discussões intermináveis, em que ninguém dá o dedo mindinho a torcer.

Depois, claro, todos nós carregamos as nossas ideias e inclinações particulares enquanto andamos na rua — e poucas vezes as atiramos à cara dos outros. Já no Facebook (lá tive de repetir o nome), as ideias dos outros estão ali e temos de viver com este facto: às vezes, não concordamos com aquilo que os nossos bons amigos dizem. Mais: há pessoas com ideias muito diferentes das nossas. E ainda mais: há quem acredite em ideias absurdas. (Há dias em que somos nós.)

E temos o problema das certezas indignadas: quando acontece qualquer coisa que nos deixa com o coração aos saltos, como os incêndios da semana passada, apanhamos com todas as certezas do mundo e com aquela indignação tão comum «mas porque é que ninguém faz o que eu digo»?

Cansa. A sério que cansa. E todos nos cansamos uns aos outros.

3. Desistimos ainda de chegarmos ao que é bom

É precisamente por ser cansativo que muitos acabam por cair numa outra armadilha: desistir. Quantos não andam por aí que julgam ser o Facebook e tudo o que o rodeia um mundo infecto, que não vale a pena visitar?

Mas, na verdade, com um pouco de esforço, a tal rede (tal como muitas outras destas invenções que alguns desprezam e quase todos usam) dá-nos muita coisa boa.

Quando os excitados já passaram ao próximo assunto, quando os memes e as imagens e as frases compungidas já desapareceram sob o peso do novo caso do dia, é então que aparecem discussões interessantes, comentários um pouco mais bem pensados, gente que até explica as coisas, ensina, aprende, discute. Esperar por esses momentos é mais cansativo do que andar sempre na crista da onda. Essas conversas estão menos visíveis, são menos tribais, dão origem — em certos dias — a esse crime imperdoável que é haver gente que muda de opinião (mesmo que ligeiramente) perante bons argumentos e novos factos. Sim, isto existe. Só temos de estar atentos.

Nessas conversas escondidas, li e aprendi alguma coisa sobre a floresta portuguesa nesta semana terrível. Não chega para ter uma opinião que valha a pena divulgar, mas deu para ler artigos e ouvir falar de livros sobre o assunto. Chegou para desbravar algum caminho — e para ter menos certezas e menos ideias simplistas.

Então se daí partirmos para boas conversas, para leituras mais profundas e, depois, para a acção — talvez esse mundo difícil e armadilhado das redes sociais até valha a pena. E, depois, já há quem tenha aprendido as regras de etiqueta para dizer «não, o Trump não quer a Terceira». Já não é tão difícil resistir à tentação de comentar tudo. Já não é tão surpreendente ver as ideias diferentes dos outros… Devagar, aprendemos a viver com mais esta maneira de conversar, de viver, de estarmos com os outros, mesmo à distância. Embora, claro, nada substitua uma boa conversa mesmo ali em frente ao nosso amigo — e no fim um abraço.

(Publicado no Sapo 24 no dia 25 de Junho de 2017.)

Três truques da língua portuguesa

Já escrevi sobre a maneira como as imagens nos enganam. E as palavras? As palavras, às vezes, enganam muito mais. Aqui ficam três truques para chamar a atenção dos outros usando a nossa língua — para o bem e para o mal.

1. Fazer listas de mão no ar

Vamos começar pelo mais simples: há pequenos truques de escrita e certas inclinações quase invisíveis que nos ajudam a chamar a atenção quando discursamos ou escrevemos.

Por exemplo, fazer uma lista (como este texto) ajuda a chegar aos leitores. Por essa razão, é tão habitual vermos listas nas partilhas do Facebook…

O truque não é recente. Basta pensar num político qualquer, de voz retumbante, que põe os dedos no ar e começa a enumerar todas as razões por que temos de ter mão nisto! Os olhos ficam suspensos nos dedos do orador e os ouvidos querem saber qual é a próxima razão — ou, no caso deste texto, em que temos apenas um cronista a falar da língua, o que queremos saber é qual será o próximo truque…

2. Usar palavras sedutoras

Em certas situações, usar palavras pouco claras ou vagas pode ser a melhor forma de conseguir a simpatia de quem nos ouve, para lá de qualquer razão.

Por exemplo, há discursos que se baseiam no regresso ao natural para vender charlatanices.

Outros assumem como valor a pureza — escondendo intuitos um pouco mais cruéis do que essa pequena palavra faz crer.

Há ainda aqueles que apostam no «isto é assim e mais nada!» — palavras cheias de certeza e, por dentro, cheias de nada ou, quase sempre, de muita preguiça de pensar.

O vocabulário sedutor é variado: temos desde as palavras simples e directas que escondem mais do que mostram (há políticos que dizem «somos fortes!» para esconder fraquezas) até às palavras obscuras que são atiradas à nossa cara como areia, sem que, muitas vezes, nós, que estamos a ouvir, tenhamos a coragem de dizer «não estou a perceber».

Na verdade, muito deste vocabulário manipulador engana até quem o usa — e é tão difícil resistir à sedução de certas palavras, é tão difícil resistir à bebedeira de certos discursos…

Então se as palavras foram assumidas com bom ritmo, com confiança, com um sorriso e um corpo seguro — pouco podemos fazer para lhes resistir. (Mas podemos tentar.)

3. Falar da nossa tribo

O mais potente truque do discurso humano é mesmo o tribalismo.

Quando discursamos ou escrevemos um texto (que, no fundo, é uma forma de discursar), a melhor maneira de prender os corações de quem temos à frente é apelar ao clube, à tribo, à nação…

Pois imaginem um presidente dum clube, numa assembleia geral, a apontar, emocionado, para os valores do clube, para a história daquelas cores — e, claro, a lembrar também as malfeitorias dos outros clubes no domingo passado. E estamos a falar de desporto, de gente unida por um emblema pouco mais que aleatório. Imagine-se a força do mesmo tipo de discurso quando falamos da nação, da religião ou de outro dos muitos grupos em que nos dividimos sem sossego.

O ser humano é tribal por natureza. Ficamos com o coração aos saltos quando alguém apela à nossa tribo e divide claramente quem são os nossos e quem são os outros.

E, reparem, isto não acontece apenas nos discursos mais nacionalistas ou clubistas. Até eu, neste pequeno texto, fui subtilmente tribalista: enfiei no título a língua portuguesa. Ora, estes truques são próprios do discurso humano de todas as línguas, não só da nossa. No entanto, sei que todos nós, quando ouvimos falar da nossa língua e quando vemos o nome da nossa tribo no título — ah, ligamos muito mais. Foi um pequeno truque para chamar a atenção para estes truques…

Como se revela este tribalismo? De muitas maneiras. Desculpamos qualquer erro dos nossos; empolamos até ao enjoo qualquer erro ou frase mais ambígua do outro lado; não dialogamos — entramos em batalha cerrada em que tudo vale, até as distracções de português do outro lado…

E queremos ser os mais puros dos puros, não toleramos desvios, descaímos para os extremos e recusamos qualquer análise ou moderação. Quando entramos na lógica tribal, o que conta é a guerra e a língua é apenas um instrumento nessa guerra — ou forma de detectar traidores, de perceber quem não está aqui para ser o mais puro dos puros.

Diga-se que é mais fácil escrever bem — de forma interessante e entusiasmante — se estivermos imersos nessa lógica tribal. É mais fácil escrever ou falar para os nossos do que dizer «se calhar, temos razão, mas há aqui um pormenor em que podemos, talvez, estar enganados». Imaginem um discurso desse tipo durante uma campanha eleitoral: seria o fim do artista, que é como quem diz do candidato…

A língua portuguesa, nas mãos de quem sabe dividir o mundo sem tempo para dúvidas, é perigosíssima. E, sim, é verdade: este tribalismo aparece em todas as culturas e em todas as línguas. Mas convém perceber que não estamos imunes a este vírus, a estas seduções, a estes perigos que se escondem no rufar de tambores dum discurso empolado.

(Este artigo foi publicado no Sapo 24 a 13 de Agosto de 2017.)

Portugal ou Espanha: qual é a nação mais antiga?

Nos recentes debates sobre o referendo catalão, tem aparecido nas bocas de alguns defensores da unidade espanhola esta espantosa frase: «Espanha é a nação mais antiga da Europa!»

Normalmente, a frase é dita como ataque ao independentismo catalão, que — na óptica espanhola — está a tentar destruir o país mais antigo da Europa.

1. A história simplificada da nossa tribo

Ora, na verdade, dos três países independentes da nossa península (Andorra, Espanha e Portugal), o mais recente é, precisamente, Espanha… Andorra é um principado desde o século XIII, antes da união dinástica entre Castela e Aragão. E Portugal… Bem, todos sabemos que Portugal já existia por essa altura. Espanha, por mais voltas que se dê, não é a nação mais antiga da Europa. Nem sequer consegue ser a nação mais antiga da península… Bolas, nem a Andorra consegue ganhar.

Se assim é, donde vem aquela estranha frase? E como é que o próprio Mariano Rajoy consegue dizer isto sem que os seus ouvintes reclamem pelo erro crasso? Na verdade, poucos espanhóis parecem importar-se com tal dislate. Mas porquê?

Bem, primeiro, quando alguém diz qualquer coisa a favor da nossa tribo em particular (clube, partido, nação), o sentido crítico fica um pouco embotado. É muito humano.

Depois, enfim, a História que temos na cabeça é um pouco mais maleável do que pensamos e depende do nosso sentido de identidade. O passado — ou aquilo que lembramos e esquecemos desse mesmo passado — é um campo de batalha. E a forma espanhola de olhar para o passado encontra por lá uma nação anterior ao Estado.

2. A Catalunha já foi independente?

Quando falo em campo de batalha, não falo da história feita pelos historiadores (embora também aí haja muita batalha), mas das narrativas simplificadas com que contamos o percurso das nossas nações. Nós, por cá, gostamos de contar esta narrativa muito simplificada: tornámo-nos independentes em 1143 e, a partir daí, andámos a defendermo-nos das invasões espanholas e a descobrir o mundo — e lá conseguimos chegar até aos dias de hoje com a nossa independência intacta.

Pois, por estes dias, é interessante olhar para as histórias simplificadas que estão na cabeça de espanhóis e catalães. Já vimos que, para muitos espanhóis, a sua nação é mais antiga do que todas as outras — apesar de não ser. E os catalães, como contam o seu passado?

Contam desta maneira: a Catalunha foi o centro duma antiga coroa, com sede em Barcelona, que chegou a ter um império no Mediterrâneo e foi independente até 1714 — quando o pérfido rei de Castela invadiu aquele que era também um dos seus reinos e impôs as leis de Castela. Reparem que esta data (1714) é mais recente que a data da união de Inglaterra à Escócia. Para o sentimento nacional catalão, a perda da independência foi ontem! O que estão a fazer agora é a recuperar o que foi deles de direito, como antiga nação europeia.

Já os espanhóis mais centralistas contam outra história: a Catalunha é uma mera região duma antiga coroa medieval (a Coroa de Aragão) que, sem dramas e voluntariamente, se juntou a Castela no final do século XV, fazendo renascer a nação espanhola que, lá no fundo, tem origem na antiga Hispânia romana e no reino dos Visigodos. Virá daí — digo eu — essa estranha afirmação, desmentida por tantos factos, de que Espanha é a mais antiga nação da Europa.

Os dramas, na cabeça dos espanhóis, foram criados pelos separatistas — que terão aparecido, por magia, nas últimas décadas.

3. Confronto de Histórias

Portanto, na cabeça dum nacionalista catalão, a Catalunha é uma nação antiga, com uma História, uma língua e um território — e só em 1714 perdeu a independência.

Na cabeça dum nacionalista espanhol, a Catalunha nunca foi independente e é uma região duma nação antiquíssima, reconstituída no século XV e que, no fundo, já vinha da antiga nação visigoda.

Todas estas formas de contar a História são maneiras de olhar para os mesmos acontecimentos. Mas, atenção: não caio na tentação de achar que todas estas leituras são igualmente válidas. Há narrativas históricas mais simplistas do que outras. Dizer que Espanha é a nação mais antiga da Europa parece-me ser uma forma especialmente errada de olhar para a História.

Depois, se virmos bem, todas estas histórias são um pouco anacrónicas. As guerras e as dinastias eram assuntos de gente nobre e os povos tinham pouca noção de pertencerem a esta ou àquela nação ou a este ou àquele Estado — ao contrário do que acontece hoje em dia, em que todos nós sabemos de que país somos. Antes do século XIX, cada pessoa era da sua terra, tinha a sua maneira de falar própria da região, orava a um deus — e nessas roupagens encontrava a sua tribo…

No século XIX, os vários nacionalismos reinventaram a história, cada um à sua maneira. Essas histórias reinventadas foram transmitidas às populações através da escolarização, da literatura e por todos os mecanismos que hoje são naturais. A tribo de cada um começou a ser a tal nação, que ora é defendida pelo Estado, ora por elites sempre à espreita de criar o seu próprio Estado. Este processo pode parecer especialmente simples num país como Portugal — mas é complicadíssimo noutras paragens — basta olhar para as notícias que vêm de Barcelona.

Não há volta a dar: vivemos com essas histórias nacionais na cabeça. São mitos que fazem parte do que somos. O grande problema é quando essas histórias entram em confronto, como acontece aqui mesmo ao lado. A solução? Não a tenho. Mas talvez o pior que possamos fazer seja acreditar piamente nestas histórias e não hesitar um pouco antes de atirar as nossas declarações superlativas à cara dos outros. Por isso, faça o que fizer com a vontade catalã de votar, talvez fosse aconselhável a Mariano Rajoy não andar a espalhar por aí uma Espanha que, de tão antiga, mais parece um fantasma.

(Este artigo foi publicado no dia 17 de Setembro no Sapo 24. Os comentários estão abertos na página do blogue no Facebook.)

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