Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens.

O último dia de Agosto e a felicidade (com livros)

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Este último dia de Agosto tem sempre um sabor um pouco amargo. É como as tardes de domingo: ainda não é segunda-feira, mas o peso da dita já se sente nos ombros. Pois é: ainda não é Setembro, mas as férias acabam, as praias esvaziam-se, a rotina volta. Pois hoje, para comemorar o fim do mês, deu-me para falar de felicidade. Coisa aborrecida, não?

Li há uns tempos no El País que a felicidade são quatro coisas: conversas, música, actividade física — e sexo. Nada contra, mas faltava o óbvio quinto elemento: livros. Enfim, a felicidade é que uma pessoa quiser — mas lá que esses cinco elementos têm a sua importância, têm sim senhor (alguns deles até se podem misturar com muito proveito: a música, então, vai bem com tudo).

Bem, concorde ou não com o psicólogo citado pelo El País, a verdade é que as férias sabem tão bem porque podemos fazer tudo aquilo de que gostamos sem grandes interrupções (sim, eu sei bem, quem tem filhos deixa de poder fazer tudo o que quer a todo o momento — mas os filhos trazem um outro tipo de felicidade que não é chamada para este post).

Durante as férias, podemos aproveitar os dias à procura dessa felicidade concreta — nadar, correr, conversar, ouvir, amar. E ler, ler mesmo muito, sem intervalos. Pronto: convém comer. E dormir. Mas o tempo é imenso e as páginas dos livros passam quase sem darmos por elas, enquanto o nosso filho descobre como é bom nadar e estar ao sol.

Custa quando chega ao fim? Claro que sim. Mas reparem numa coisa: tudo o que disse acima não precisa de acabar no dia 31 de Agosto. Sim, teremos menos tempo. Mas a felicidade do quotidiano também implica arranjar tempo para ouvir música, beijar, correr ao fim da tarde, conversar com aqueles de quem gostamos. E ler.

Nesta guerra, o tempo será sempre uma espécie de inimigo — e é desesperante quando temos dias em que quase não conseguimos respirar, quanto mais ler & amar & conversar & correr. Mas desistir não vale a pena: com alguma sorte e muita arte, lá encontramos pequenas ilhas nos nossos dias para estas felicidades bem concretas.

É isso que vos desejo no regresso ao dia-a-dia. E, confessem lá, Setembro também tem os seus encantos. Lembro-me bem, quando era mais novo, de sentir o cheiro dos livros novos da escola e sorrir (os meus pais, a olhar para a conta, é que sorriam menos). Em Setembro, era o tempo de me reencontrar com os amigos. E continua a ser bom voltar com força e recomeçar. Pois, assim seja: um bom regresso a casa, ao trabalho e, se for o caso, às aulas — com boas conversas, uma corrida à beira-rio, algum amor, muita música e muitos livros.

Amanhã vou-vos contar um segredo das minhas férias: confundi a Grécia com Portugal! Amanhã, quer dizer: se tiver tempo. Bom fim de Agosto!

Curso de Gestão de Projectos de Tradução na FCSH

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Durante a próxima semana, irei dar um curso presencial de 25 horas sobre gestão de projectos de tradução integrado na Escola de Verão da FCSH/NOVA.

O curso está pensado para tradutores que queiram melhorar os seus procedimentos de trabalho ou iniciar uma carreira na gestão de projectos.

As inscrições fazem-se no formulário online da Escola de Verão.

Aqui ficam mais informações sobre o curso:

CURSO DE GESTÃO DE PROJECTOS DE TRADUÇÃO

Datas: 5 a 10 de setembro | segunda a sexta das 18h00 às 22h00 e sábado das 10h00 às 14h00 | Avaliação (opcional) das 15h00 às 16h00 de sábado

Docente: Marco Neves

Áreas: Línguas, Literaturas e Culturas

Creditação para professores dos 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário

A gestão de projectos é uma peça fundamental no mundo da tradução actual. Mesmo um tradutor individual deve conhecer técnicas e ferramentas de gestão de projectos que permitam organizar os seus projetos de forma a não falhar prazos, a garantir qualidade e a tirar partido dos recursos à sua disposição.

No âmbito de uma empresa de tradução, o gestor de projectos é a face da empresa perante o cliente e é ainda quem garante que os projectos são feitos com a qualidade e a rapidez exigidas. Deve gerir os recursos à disposição da empresa de forma rápida, eficaz e de acordo com aquilo que o cliente pretende, sem nunca perder de vista as exigências de qualidade linguística e de tradução. Assim, as empresas de tradução dão muita importância à formação ou experiência em gestão de projectos ao formar as suas equipas.

Programa

  1. O que faz um gestor de projectos?
  2. O que é necessário saber para gerir projectos?
  3. O que é um projecto de tradução
  4. Como gerir o tempo
  5. Como gerir a informação
  6. Como gerir clientes
  7. Como gerir as equipas de tradução
  8. Gestão de qualidade
  9. Gestão financeira dos projectos de tradução
  10. Os perigos da gestão de projectos
  11. Como gerir o gestor de projectos
  12. Ferramentas e recursos para gestores de projectos

As quatro línguas de Espanha

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Ah, os tovallons…

Sim, sim, eu sei. É mania. Mas gosto de reparar nestas coisas.

É raro, mas em terras bem castelhanas, há um ou outro sítio onde encontramos as quatro línguas (principais) de Espanha.

Neste caso, foi num sítio estranho. Mais propriamente, num pacote de guardanapos encontrado em terras murcianas:

TOVALLONS

Isto enviado numa máquina do tempo até aos Anos 50 era coisa para provocar muitos ataques cardíacos. O próprio do Franco teria morrido mais cedo se soubesse que este era o futuro.

Bem, nem é preciso viajar no tempo: ainda hoje há quem fique horrorizado com esta (relativa) visibilidade das outras línguas de Espanha. São almas mergulhadas num monolinguismo que só lhes limita o mundo…

Mas vão por mim: é o futuro, se o país vizinho quiser continuar inteiro.

Se a Espanha souber dar às suas línguas a mesma dignidade institucional, um dia, à porta dos edifícios oficiais, lá teremos:

REINO DE ESPAÑA (castelhano)
REGNE D’ESPANYA (catalão)
ESPAINIAKO ERRESUMA (basco)
REINO DE ESPAÑA (galego)

Claro que há muitas complicações nisto: muitos valencianos insistiriam numa quinta linha… O nosso querido galego teria ou não o «nh»?… E o aragonês, o asturiano, o aranês, etc.?… E será que esta Espanha assumidamente multilingue seria realmente confortável para todas as narrativas nacionais que vivem no nosso país vizinho?

Não sei. Tenho muitas dúvidas. Mais ainda mais dúvidas tenho sobre o futuro dum Estado que insiste numa espécie de ideal monolingue, dizendo a milhões e milhões de pessoas que as suas línguas não servem para grande coisa.

Sim, parece-me que o caminho deve mesmo ser a igualdade institucional daquelas que são as quatro línguas principais de Espanha. E mais: se ninguém vai querer perder a vantagem de aprender castelhano (e todos o aprendem!), não seria engraçado que as outras línguas fossem também ensinadas nas escolas do resto de Espanha? É isto inconcebível?

Dir-me-ão alguns: mas qual a utilidade de pôr um madrileno a aprender catalão? Bem, talvez servisse para salvar a Espanha inteira que esse madrileno defende. Perante isto, um madrileno menos dado à defesa da diversidade linguística dir-me-á (imbuído duma honestidade muito rara): «Ah, mas o que defendo é uma Espanha que fale apenas e só a bela língua espanhola!» Ora, amigo, aí digo-lhe eu: essa Espanha não existe.

O mundo das línguas das estradas de Espanha

ABC DE AGOSTO: Alicante / Alacant

Alicante ou Alacant?

Não, este Agosto não fui a Alicante nem comprei torrões. Mas passei por placas com o nome dessa cidade. Aliás, com os nomes dessa cidade: Alicante e Alacant.

Fico sempre deliciado com aquilo que se esconde nas placas das estradas espanholas. Ora, claro, a maior parte das pessoas passa por elas como…

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Playa, platja ou algo assim.

Ora, como o quê? Enfim, fiquemo-nos pela verdade: como turistas a caminho da praia.

Mas eu tenho esta inclinação estranha e reparo. Reparo que há regiões onde os nomes das terras são em duplicado.

Não é o caso da Catalunha, por exemplo, onde os nomes das terras já só aparecem em catalão nas placas da estrada. Na Galiza, também os nomes galegos dominam (e bem). Em Madrid e nos imensos arredores castelhanos, tudo em glorioso castelhano, por suposto.

Mas há sítios onde se duplicam, sim — por exemplo, no País Basco ou em Valência, onde muitas terras têm dois nomes. Para complicar, isto não acontece em todas as partes dessas comunidades autónomas. Em Valência, por exemplo, há zonas que usam as duas línguas, outras que apenas usam o castelhano. Alicante tem mesmo dois nomes. Em castelhano é Alicante, em valenciano é Alacant — e assim vemos em muitas placas: «Alicante / Alacant». A vida é complicada — e a Espanha ainda é mais.

Pois aqui fica um pequeno guia para quem quer ver um pouco do mundo das línguas nas estradas de Espanha.

Guia rápido das línguas nas estradas de Espanha

  • Catalunha. Os nomes das terras são exclusivamente em catalão. Assim, nada de «Lérida» — o nome oficial é o catalão «Lleida». Isto em toda a Catalunha. Já as indicações nas placas tendem a ser bilingues: «port» e «puerto», por exemplo — ou «sortida» e «salida». Por vezes, aparecem numa placa em espanhol e na seguinte em catalão — há meses, ao passar numa auto-estrada catalã, lembro-me de ter visto uma placa a anunciar a próxima «sortida» e logo a seguir outra a anunciar a próxima «salida». Haverá ainda diferenças entre as estradas do Estado espanhol e as estradas mantidas pela governo da Catalunha. (Já agora, que falamos no assunto, reparem no tipo de letra das placas: tende a ser ligeiramente diferente do usado no resto de Espanha. São as marcas de identidade nos pormenores…)
  • Galiza. A toponímia é já exclusivamente galega e por isso o nome daquilo que os portugueses, teimosamente, chamam «La Coruña» é mesmo, oficialmente, «A Coruña». Notem aqueles que por lá se atreverem as placas que anunciam a «Red de Carreteras del Estado» e, logo por baixo, «Rede de Estradas do Estado». Sim, assim mesmo, em port… galego!
  • PASSEIG MARÍTIMBaleares. Nunca lá fui (mas gostava). Andei agora uns dois minutos (não tenho tempo para mais) a visitá-las através do Street View para ver placas da estrada (sim, há cada maluco neste mundo…). Tentei, mas não encontrei nenhuma em espanhol. Só setas a indicar o «port» para ali, «Eivissa» para acolá. Ibiza?
    Isso nas estradas não existe. (E ainda há quem passe por lá e nem repare. IBIZAMas por lá tem explicação: são bebedeiras, senhor!)
  • Valência. Ah, a complexidade tremenda da situação linguística de Valência! É capaz de deixar um linguista acordado toda a noite. Por lá, falam-se várias formas daquilo que nós por cá chamamos catalão. Mas na região a língua chama-se «valenciano», que é a forma tradicional e histórica — e a única oficial. Os catalães aceitam bem esse facto, mas já não aceitam assim tão bem que alguns valencianos insistam que valenciano e catalão são duas línguas separadas. Enfim, já li textos tanto em valenciano e em catalão e parecem-me a mesma língua, mas quem sou eu? Não deixa de haver diferenças: a «sortida» catalã em terras do sul é «eixida» em Valência (é um exemplo). ELXELCHEA própria conjugação verbal tem as suas particularidades — mas isso acontece em tantas outras línguas, não é verdade?. Enfim, aceitar ou não a unidade da língua catalã/valenciana é uma questão política (e não serão todas estas questões essencialmente políticas?). Nas estradas (que é o que me interessa hoje) vemos algumas terras exclusivamente em castelhano (Torrevieja, por exemplo), outras exclusivamente em valenciano e ainda terras com dupla personalidade, bem espelhada nas placas. E repare ainda quem estiver com paciência para isso: em certos sítios (que não nas auto-estradas, claro) as placas em espanhol estão corrigidas à mão. Por exemplo, cheguei a ver a placa a dizer «Crevillente» com o último «e» riscado. Para mudar a língua ao nome, entenda-se. (Esse fenómeno de correcção de placas vê-se em muitos outros sítios.)
  • DONOSTIAPaís Basco. Ah, este tema merecia um artigo inteiro, não é? As localidades bascas podem ter um nome único ou então um nome duplo. O mais conhecido será Donostia / San Sebastián. Até há pouco tempo, o nome oficial era Donostia-San Sebastián — assim, com hífen. O nome oficial era sempre assim, em qualquer uma das línguas. Em 2012, o nome mudou para a versão com barra, indicando que podemos usar uma versão ou outra dependendo da língua do texto. «Donostia», diga-se, é São Sebastião em basco. PONTENas placas da estrada ainda aparece o hífen. Estas complicações multiplicam-se pelas terras bascas.
  • Navarra. Em Navarra, temos algo parecido com Valência: zonas bilingues e outras monolingues. Uma complicação… Mas terá mesmo que ficar para outro dia, que a água chama por mim!

PLATJAE como chama por mim, para terminar, aqui fica como se diz «praia» em catalão. Ou, aliás, em valenciano…

 

Dez dicas para usar bem a pontuação no Facebook

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Hoje, todos temos conversas privadas por escrito. Ora, isso é coisa que há umas décadas era raríssimo. Entre amigos, ou bem que conversávamos em alta voz — ou usávamos cartas e postais, que tinham os seus rituais e formalidades. Aliás, hoje escrevemos mais nos chats e messengers da nossa vida num só mês do que numa vida inteira das cartas de antigamente. (Bem, havia quem escrevesse imenso nas suas cartas — mas eram excepções numa imensidade de gente que simplesmente não escrevia.)

O português destas novas conversas informais por escrito está cheio de abreviaturas, emoticons, hesitações, repetições, distracções e até palavrões — alguns, mais atinados e sempre de fato inteiro, acham tudo isso um sinal da decadência da língua. Mas, vá, admitam lá: as conversas privadas sempre foram muito pouco formais e muito expressivas — lá por agora conversarmos por escrito, não vamos passar a falar com os nossos amigos como se estivéssemos a discursar, certo?

Agora, essa informalidade pode trazer-nos um problema. Poucos se lembrarão de escrever um relatório em linguagem de chat. Mas quando publicamos qualquer coisa no Facebook, sem restringir a privacidade aos nossos amigos, estamos a escrever em público — mas usando a mesma ferramenta com que conversamos em privado. Escrevo no chat e, centímetros acima, um post público. É compreensível que a fronteira mental entre os dois mundos se esbata. Tudo isto leva a que a escrita pública no Facebook seja mais informal do que noutros meios — e quanto a isso nada tenho a apontar. Terei até muito a louvar, digo-vos. Mas o certo é que também será essa uma das razões por que encontramos no Facebook muitos textos públicos escritos com o mesmo descuido com que conversamos, por escrito, com os amigos.

Já sabem (pelo menos quem lê este blogue há algum tempo) que não ando por aí preocupadinho com a língua, como se vivêssemos nos tempos do fim da língua — e, aliás, tento combater essa atitude alarmista de quem anda a ler à caça dos erros dos outros. Dito isto, preocupo-me com cada falante da língua em particular, a começar por mim. Por isso, parece-me importante guardar aqui, neste artigo de blogue, algumas sugestões sobre como melhorar a escrita em público.

Há muita coisa a dizer sobre a escrita, mas para começar por algum lado, apetece-me falar de pontuação — ou pelo menos sobre alguns aspectos em que muitos erram quando escrevem no Facebook. Porquê a pontuação? Porque será dos aspectos em que podemos melhorar rapidamente.

Mas antes das tais dicas, convém esclarecer que estes descuidos não são mesmo sinal de decadência — o que se passa é só isto: há umas décadas, muito poucos tinham de se preocupar em preparar textos para publicação. Hoje em dia, todos nós escrevemos em público — e, por isso, todos nós ganhamos se usarmos bem os sinais gráficos da escrita.

É isto importante? Não é, certamente, o mais importante. Podemos seguir todas estas dicas e mais algumas (há tantas outras!) e esquecer aquilo que vale bem mais: pensar bem, discutir de forma correcta, estruturar bem as ideias no texto, conseguir cativar quem nos lê. Mas a pontuação têm alguma importância, pois um texto bem escrito com pontuação anárquica afasta os leitores e deixa quem escreve mais longe de conseguir fazer o que quer com a língua portuguesa — a minha definição pessoal de «escrever bem».

Pois bem, depois desta introdução a dar para o gigante, aqui ficam algumas dicas sobre pontuação. Não é um guia exaustivo, apenas ideias avulsas para quem escreve no Facebook.

  1. Os pontos e as vírgulas levam um espaço a seguir, mas nenhum espaço antes. Isto também vale para os pontos de exclamação e de interrogação. «Concordo contigo!» — e não: «Concordo contigo !»
  2. A abreviatura de «número» é «n.º» (com ponto) e não «nº» (sem ponto).
  3. O travessão (—) é diferente do hífen (-). O travessão usa-se para introduzir diálogos e para dividir as frases. O hífen usa-se dentro das palavras, por exemplo em «diz-se» ou «fim-de-semana». Os dois sinais são diferentes e convém distingui-los em qualquer texto publicado (em papel ou na Internet). [Para usar o travessão no Mac, basta carregar ao mesmo tempo na tecla de opção (alt) e no hífen; no Windows, carregamos ao mesmo tempo nas teclas ctrl, alt e hífen numérico.]
  4. Entre as aspas iniciais e a palavra imediatamente seguinte não deve existir nenhum espaço. Da mesma forma, não devemos usar nenhum espaço entre as aspas finais e a palavra imediatamente anterior. Assim: «Estas aspas estão bem.» | « Estas aspas estão mal. »
  5. O uso da vírgula merece um artigo só para ele: lá chegaremos. Mas adianto-me já: grande parte dos erros que vejo parecem-me ser por excesso de vírgulas. Seja como for, devemos usar um espaço depois da vírgula — mas nunca antes!
  6. Se uma sigla termina em ponto, não é preciso repetir o ponto no final da frase. Assim, a frase «Já fui aos E.U.A.» não precisa dum segundo ponto no fim.
  7. Na escrita pública, parece-me um erro usar pontos de exclamação em duplicado ou triplicado. O exagero no uso da pontuação dá um aspecto infantil aos textos, sem que fiquem mais fortes ou persuasivos. Será um pouco como usar gestos teatrais ao falar em público. Além disso, usar !!!!! a seguir a uma frase dá um aspecto de descontrolo emocional — o que pode não ser o caso, claro está (estamos a falar de impressões). Diria mais: o próprio uso de um só ponto de exclamação deve ser moderado, para que esse sinal de pontuação não perca a força. Uma vez por outra, deixar esta dica de lado faz muito sentido, se aquilo que dissermos for extraordinariamente importante — se formos poupadinhos nas exclamações, todos vão ler com mais atenção o que escrevemos no dia em que, por fim, lá pomos dois pontos de exclamação no fim duma frase!!
  8. Talvez não seja boa ideia exagerar nos emoticons. Nada contra o uso desses desenhos, que até dão muito jeito nas comunicações privadas para adocicar a mensagem e não deixar a frieza do ecrã infectar as nossas conversas. Mas nos textos públicos devem ser usados com conta, peso e medida — até para não perderem valor (tal e qual os pontos de exclamação).
  9. Fugindo um pouco à questão da pontuação… No Facebook não temos a possibilidade de usar o negrito, mas podemos usar as maiúsculas nos títulos — e até para substituir itálicos. Não é o ideal, mas temos de adaptar as convenções às limitações do meio onde estamos.
  10. Da mesma forma, em vez do avanço inicial de cada parágrafo, julgo que é mais fácil para os olhos que lêem num ecrã ter uma linha entre parágrafos (como neste blogue).

Esta lista é para ir sendo completada ao longo do tempo… Se alguém quiser sugerir alguma outra ideia, ficarei muito agradecido.

Agora, o aviso do costume: quem quer escrever melhor, mais do que seguir esta ou outra lista de sugestões, o melhor é pôr-se a trabalhar — ou seja, a ler. E muito! Porque quem lê muito começa a perceber as regras da escrita de forma intuitiva — começa a ser nativo de português escrito, se quiserem pensar assim.

E, por fim, diga-se que, no Facebook, o importante é viver bem — dizer qualquer coisa de importante, deixar um sorriso nos lábios dos outros, partilhar ideias, notícias — viver um pouco mais perto dos outros através da nossa língua portuguesa… 😉

As dez línguas de Portugal (e outros artigos)

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Ora, o meio do ano já lá vai, mas Agosto tem sempre este sabor de fronteira. Seja pelas férias — ou talvez porque todos nos lembramos da escola, com as Férias Grandes.

Pois, assim, aqui ficam, como registo de meio do ano, os cinco artigos deste blogue mais lidos em 2016 — pelo menos, até agora…

As dez línguas de Portugal

«Obrigada» e «copo de água»: erros de português?

Sete dicas para evitar erros ortográficos

Pequeno Dicionário de Erros Falsos de Português 

Cinco curiosidades sobre a língua portuguesa

 

Os segredos da língua no céu e na imprensa

Antes de mais, um desafio: há umas semanas, para comemorar o Verão, propus aos leitores dos Doze Segredos da Língua Portuguesa que fotografassem o livro num lugar bonito.

Já recebi participações magníficas — mas penso que ninguém se importa se der destaque a esta foto nas alturas…

PENICHE

Se já vi o livro em sítios onde nunca fui (na Índia e em Timor Leste, por exemplo), esta é uma foto bem caseira: as mãos que seguram o livro são do meu avô Manuel e as mãos que seguram o avião são do meu tio Nuno. E reparem na península de Peniche, onde nasci, ali atrás… Aliás, se olharem com muita atenção conseguem ver a minha avó Leonor a dizer adeus à porta da mercearia. (Ah, e a casa dos meus pais está na foto, mas por baixo do avião.)

Quem quiser participar, não se esqueça de partilhar a foto na página dedicada ao livro, no Facebook. Porquê? Porque em Setembro, depois das férias, tenho uma surpresa para os autores de duas das fotos (escolhidas à sorte, claro está).


Espero que os leitores deste blogue não se importem que lhes dê notícia das palavras simpáticas que leio sobre o livro — afinal, quem escreve um livro gosta que saber que há quem o leia e goste… Pois a semana passada os segredos não só andaram nas alturas, como também foram muito bem tratado em dois artigos de imprensa.

Na Time Out Lisboa, Helena Soares dá-lhe quatro estrelas e escreve, entre outras palavras muito simpáticas:

«Este livro podia chamar-se “Manifesto contra a Arrogância Linguística”, porque é isso que ele de facto é, mas felizmente Marco Neves não parece estar aqui para despiques. O que quer é que os portugueses estejam em paz com a sua própria língua, que a usem sem medo e sobretudo sem medo de erros que nem sequer existem; e ainda nos dá recomendações de óptimas leituras de referência no fim de cada tópico e um capítulo final com boas ideias para treinar a escrita.»


Já no Público, na edição de 12 de Agosto, Nuno Pacheco também escreve sobre o livro, ao fazer uma viagem pelos livros sobre a língua dos últimos meses:

«Este ano, foi preciso chegar a Abril para encontrar novo título: Doze Segredos da Língua Portuguesa, de Marco Neves (Guerra & Paz, Abril de 2016). Não é um dicionário e será também para ler de uma ponta à outra, como um romance. Fala de erros, sim, mas também diz que alguns não são erros. De certo modo, insistindo no bem falar e bem escrever, é como um oásis no martírio dos que, lendo os anteriores, começam a julgar-se analfabetos. […] É a partir de alguns aparentes contra-sensos e alguns lugares-comuns que o autor vai desfazendo mitos sem perder de vista o essencial: a defesa da língua. O que implica ler muito. Ler mais. Errar e corrigir. Conversar. Brincar com as palavras. Falar com os filhos. Aprender outras línguas.»


Bem, se por esta altura ainda houver algum leitor deste blogue que não tem os Doze Segredos da Língua Portuguesa em casa, nunca é tarde de mais. Aqui está a ligação para uma página onde pode encomendá-lo.

Palavras escondidas com o rabo de fora

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[Aviso: este artigo contém símbolos estranhos. Espero que os computadores dos caríssimos leitores se aguentem à bronca.]

Como se diz a palavra «giz»?

Ia eu a caminho da festa de que vos falei há uns dias, quando passei numa curiosa terra chamada GIZ. Sim, Portugal tem terras com nomes muito estranhos.

Ora, a minha cabeça é ainda mais estranha. Aquilo em que pensei quando passei na simpática aldeia foi isto: a palavra «giz» tem duas consoantes que leio praticamente da mesma maneira.

A coisa é subtil: a transcrição fonética da palavra costuma aparecer com o «z» lido como «ch»: [ʒˈiʃ]. Mas, para vos dizer a verdade, ouvindo com atenção, parece-me que lemos a palavra com um «j» final: [ʒˈiʒ]. Leio «giz» como «jij».

Seja como for, em Portugal, ninguém lê este «z» como «z»: seria algo como [ʒˈiz], o que não se diz em lado nenhum (repito que estou a falar da leitura da palavra isolada).

No Brasil, a coisa varia entre a leitura carioca muito parecida com a nossa e a leitura paulista, em que o «z» se lê como um «s»: [ʒˈis].

Algumas pessoas menos dadas a estes temas linguísticos estarão agora a perguntar que raio de símbolos são estes. São símbolos do Alfabeto Fonético Internacional (a sigla comum é a inglesa: IPA), o alfabeto que os linguistas usam para transcrever os sons das várias línguas o mais objectivamente possível — o que não é nada fácil.

Quando olhamos para a nossa língua transcrita com este alfabeto ficamos surpreendidos. A palavra «português», por exemplo, é assim: [puɾtugˈeʃ]. Já a palavra «carro» transcreve-se como [kˈaʀu]. Isto, claro, se estivermos a falar da pronúncia lisboeta, porque a transcrição fonética consegue apanhar as diferenças de pronúncia da língua.

Por outro lado, e levantando só um pouquinho o véu desta área imensa da linguística, a fonologia estuda a forma como esses sons se organizam para distinguir significados: assim, podemos dizer «giz» de várias maneiras, mas o significado será sempre o mesmo; já se mudarmos o último som para «gil» o sentido que obtemos já é outro.

O estranho caso da blogger que queria dividir as palavras

Ah, mas a língua é malandra até dizer chega. Quando temos uma vogal à frente da palavra (por exemplo «giz amarelo»), aí sim lemos o «z» como «z» — «gizamarelo» ou, em IPA: [ʒˈizɐ.mɐ.ɾˈɛ.lu]. «Lemos», como quem diz. Depende da zona do país. Há quem mantenha a pronúncia das duas palavras como quando aparecem isoladas. Temos, assim, leituras como «gijamarelo» ou «estájaver?» em vez do mais sulista «estázaver?».

Estas formas de ligar as palavras umas às outras variam de língua para língua (claro) e, dentro de cada língua, são uma das características que distinguem os vários sotaques. Ora, claro, estas diferenças vêm trazer à baila os fantasmas tribais de que temos falado por aqui tantas vezes. Tu falas de maneira diferente? Não és cá dos meus…

Um pequeno exemplo: há uns anos, lembro-me de ler num dos blogue da moda (não me lembro qual) um texto em que a blogger gozava com alguém que apareceu na televisão e disse «estájaver?» em vez de se conformar à pura pronúncia lisboeta.

Atirou a blogger (disto já me lembro): «Mas a criatura ainda não percebeu que “estás a ver” são três palavras separadas?»

Fartei-me de rir. Porquê? Porque todos nós dizemos as frases sem pausas. Ninguém, no seu perfeito juízo ou fora de situações muito particulares, diz as várias palavras de forma separada. Estão [pausa] a [pausa] perceber [pausa] o [pausa] que [pausa] estou [pausa] a [pausa] dizer?

Mas ri-me também por isto: na verdade, é precisamente a pronúncia lisboeta da blogger que junta as palavras e lhes muda o som por serem ditas sem qualquer separação. A pronúncia de Lisboa implica dizer «estázaver». Já o falante mais a norte lê «estás» como se fosse uma palavra isolada, com o seu «∫/ʒ» final: «estáj a ver». Ironias da blogaria pseudolinguística nacional.

O amor entre os linguistas

As palavras, na nossa boca, juntam-se, mudam, misturam-se. Juntamo-las umas às outras e temos dificuldade em separá-las na corrente ininterrupta de sons que nos sai dos lábios. Tanto é assim que o tal Alfabeto Fonético Internacional, quando é usado para transcrever frases, não costuma vir com espaços. A frase «amo-te muito» é transcrita como «ˈɐmutɨmˈũjtu». Parece pouco romântico? Mas é assim que dizemos a frase… Não pomos lá espaços no meio. (Será que algum casal de geeks linguísticos escreve bilhetes de amor usando o alfabeto fonético?)

Há quem julgue que juntar as palavras é descuido, tentando contrapor uma pronúncia artificial, em que cada palavra soa de forma isolada. Felizmente, são poucos os doid—— as pessoas que caem nesse erro.

Agora, claro, tenho de fazer o aviso do costume: isto não quer dizer que uma boa dicção da nossa língua não seja importante quando falamos em público — mas uma boa dicção também implica juntar as palavras umas às outras de forma natural e de acordo com as regras da língua…

Uma palavra que desapareceu mas deixou rasto

As regras de ligação entre palavras na oralidade são complexas, quase todas inconscientes — e muito interessantes. Escondem até alguns achados de arqueologia linguística.

Querem ver?

Há uns dias, descobri num interessantíssimo comentário de Fernando Venâncio que a nossa comum pronúncia da expressão «como o Tiago» é uma relíquia duma palavra que já não usamos.

Se ouvirem com atenção, percebem que, muitas vezes, no dia-a-dia dizemos «como o Tiago» desta maneira: «comòtiago» (isto não é Alfabeto Fonético Internacional, note-se).

Ora, usar um O aberto numa junção de palavras é comum quando unimos o A ao O («tira o chapéu» é dito em conversa rápida como «tiròchapéu»). Já a junção de dois U costuma sair U. Então, donde vem o [o] aberto de [comòtiago]? Virá da antiquíssima palavra «coma» (sinónimo de «como»). Há muitos séculos, dizíamos «coma mim» («como eu») e «coma ti» («como tu»). A palavra desapareceu, mas deixou uma marca na maneira como ligamos a palavra «como» ao artigo «o»…

Como esta, haverá outras. Aliás, já vos tinha falado de concordâncias verbais com palavras-fantasma. As palavras desaparecem, mas deixam pistas. E alguns linguistas lá se armam em detectives à procura das palavras escondidas…

A nossa língua é isto tudo e muito mais. Tem regras muito complexas que usamos sem notar, guarda segredos de chorar por mais — e consegue surpreender durante uma vida inteira todos aqueles que para ela olham com curiosidade.

Querem mais um segredo? O português, nisto da malandrice, não é um caso isolado. Estes fenómenos acontecem em todas as línguas, desde a língua falada por algumas dezenas de pessoas na Amazónia até às línguas como o chinês ou o inglês. A linguagem humana é qualquer coisa de nos deixar pasmados.

Sete dicas pessoais para escrever melhor

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Às vezes, deixo por aqui algumas ideias para escrever melhor. Não sei se te ajudam, mas tenho esperança que sim. Algumas dessas ideias são as do costume: ler muito, rever o texto no fim, etc., etc. São ideias banais? Não: são ideias que funcionam!

Agora, uma confissão: tenho outros truques, menos habituais. O problema é que não me parece que sirvam para toda a gente. São muito meus. Cada pessoa tem as suas manias e o seu feitio — e cada pessoa terá as suas técnicas para começar a teclar.

Pois, mas não interessa: serão truques meus, mas hoje apetece-me partilhá-los. Aqui ficam, para usares como quiseres.

1. Folhear livros e revistas

Sim, a sério! O próprio acto de folhear livros e revistas ajuda-me a escrever.

Serei normal? Provavelmente não.

Mas a minha mulher já sabe que quando estou a folhear uma revista e a olhar para o computador é porque estou a tentar escrever qualquer coisa.

Admito que esta dica é capaz de só dar jeito a mim próprio. Mas enfim, aqui fica.

2. Ouvir boa música

O que tem a música a ver com a escrita? Não sei. Mas imagino: deixa-nos mais descontraídos, com o cérebro mais atento… Há coisas que não sei explicar bem e esta é uma delas. Mas é verdade: a música ajuda-me mesmo a escrever melhor.

Agora, imagino que esta dica funcione com certas músicas e não com outras. Mesmo músicas de que gostemos muito podem deixar-nos alterados — e não da maneira ideal para escrever melhor.

Experimenta. É uma questão de encontrares as músicas que te ajudem a escrever.

3. Escrever no telemóvel

Sim, é verdade. Às vezes, estou no computador a tentar escrever alguma coisa e não me sai nada de jeito. Depois, vou para o telemóvel e, com o ecrã pequeno e a velocidade de escrita reduzida a um fio ridículo de palavras digitadas em modo tartaruga, começam-me a sair frases inteiras sem (tanta) dificuldade.

Mais: às vezes até faço o sacrilégio de começar a escrever em papel. Esta técnica tem uma desvantagem: nem sempre percebo o que acabei de escrever. Mas isso já daria para outro texto.

4. Começar a escrever noutra língua

Esta é uma ideia especialmente estapafúrdia. Mas já me aconteceu várias vezes: por qualquer motivo, ponho-me a escrever um ou dois parágrafos em inglês, para explicar qualquer coisa. Pois se por acaso experimento, logo a seguir, escrever o mesmo em português, o texto sai-me num instantinho e sem rodeios.

Porquê? Não sei. Talvez porque escrever numa língua estrangeira seja um esforço que nos põe o cérebro a trabalhar melhor — ou talvez o efeito seja apenas uma ilusão: depois de experimentar outra língua, a nossa é um alívio e parece que sai tudo melhor.

5. Usar dois ou três textos como talismã 

Todos nós temos livros de que gostamos muito. Ora, o que me dizes a usá-los como uma espécie de talismã? Guarda-os num sítio bem à mão e, quando estiveres com pouca inspiração, lê um pouco desses livros. Vais ver que ajuda.

Aqui por casa, vou variando os talismãs. Quais são os que uso? Fica para outro dia. Não posso revelar os segredos todos duma vez…

6. Ler um ou dois textos próprios

Agora, vou contar-te um pequeno episódio: um dia, li uma entrevista a um escritor famoso (famosíssimo, aliás) cujo nome não vou revelar — porque nunca o li e não quero acusá-lo injustamente de ser mau escritor.

Mas a verdade é que, nessa entrevista, encontrei uma das poucas coisas que me convencem que um escritor é mau escritor sem o ter lido: nas estantes tinha apenas livros dele próprio (e respectivas traduções).

Um escritor com uma estante destas até pode ser um bom escritor — mas eu também posso ganhar a lotaria esta semana e não me parece que isso vá acontecer.

Escrever bem implica ler muito — e quando digo ler muito, estou a falar do que os outros escrevem. A boa escrita dá-se pouco com leituras umbiguistas. E, no entanto, ler os nossos textos também pode ajudar, num ou outro dia de inspiração mais cinzenta.

Como?

Ora, a escrita tem muito a ver com confiança. Quem tem mão insegura raramente escreve bem. Não que não seja preciso duvidar, reler, rasgar, voltar a escrever — mas, se estivermos sempre com a ideia de que não sabemos escrever bem, então claro que não sai nada de jeito.

Ora, de certeza que já escreveste um ou dois textos de que gostas. Pega neles e lê um pouco: talvez te ajude a ganhar confiança para o novo texto que tens entre mãos.

7. Dar uma volta a pé 

gleise-1555348_640Há meios de transporte pouco dados à escrita. Por mais que tente escrever num avião, não consigo. Mas isso são questões psicológicas que não são para aqui chamadas. Num comboio, talvez seja mais fácil, se não pensarmos na Linha de Sintra na hora de ponta. Já no Expresso do Oriente, acredito que saem policiais até das mãos de quem nunca escreveu coisa que se veja…

Bem, a verdade é esta: se for dar uma volta a pé, começo a escrever melhor.

Mas escrevo enquanto ando? Não é costume — embora, usando a dica n.º 2, já me tenha dado para isso, para horror de alguns transeuntes (a mais bela palavra da língua, esta, não acham?).

Escrever, não escrevo — mas as ideias fluem, a estrutura do texto começa a aparecer na cabeça, até algumas frases ou palavras… Depois, quando chego a casa, começo a teclar furiosamente. Então se tiver música nos ouvidos e uma revista nas mãos para folhear sem olhar — estou no ponto.

O mesmo se passa quando conduzo — ou quando tomo banho. Parece que quando não podemos escrever, as ideias e a vontade de escrever aparecem com mais vontade.

Ironias da vida.


E pronto, são estas as sete dicas que hoje tinha para ti. Talvez te ajudem, num daqueles dias em que tens de escrever qualquer coisa e não tens ideia nenhuma de como começar.

Se continuas sem ideias, olha: lê. Mal não faz. E depois vai dar um mergulho à praia, já agora…

Cinco frases que os novos pais não gostam de ouvir

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Este é um blogue sobre línguas, mas já percebeste que também gosto de falar doutras coisas. Ora, hoje estivemos na festa de anos do Quico e havia crianças por todo o lado. Dos recém-nascidos aos maiorzinhos, lá estava a colecção de pequenos seres humanos a brincar, a zangar-se, a rir, a resmungar, a comer, a nadar… E é giro — tal como também é giro conversar com os pais e ver que os problemas são mais ou menos os mesmos, apesar de todas as divertidas diferenças.

Ora, na festa, enquanto estava sentado no meio da criançada, pus-me a pensar nas frases irritantes que todos os pais ouvem, mais cedo ou mais tarde. Nem sempre confessamos, porque temos mais que fazer do que andar a aborrecer os que nos tentam ajudar. Não dizemos, mas mordemos os lábios — e às vezes até mordemos a língua, porque percebemos que nós próprios já dissemos algumas destas frases a outros pais, antes de sabermos o que era doce.

Pois, aqui ficam algumas frases que irritam muitos pais (digo eu) — e ainda o que gostaríamos de responder mas não podemos.

1. «Ah, no meu tempo era mais difícil!»

Eh, pá! Se calhar tens razão e tiveste uma vida mais difícil do que a minha, mas comparar épocas assim sem mais nem menos não será precipitado? Se ainda por cima as coisas mudam de família para família, de terra para terra, de filho para filho… Pedia-te assim para parares com isso — principalmente se atirares a frase como crítica velada aos desabafos de circunstância: «Isto agora não custa nada e estás a exagerar!»

A verdade, meu caro, é que a vida dos outros é sempre mais fácil do que a nossa — porque a nossa temo-la de viver nós próprios e a dos outros é lá com eles. Não sei se me estou a explicar bem… Cada pai e cada mãe tem tudo para aprender e é sempre difícil. Se não for da cabeça é das pernas, mas dói sempre. Curiosamente, todos costumam dizer que é muito bom — e isso não muda com o tempo. É o que vale.

2. «Ah, no meu tempo não havia cá esses cuidados todos…» 

Para lá da ironia de ver esta frase a sair da boca de quem também diz a frase anterior, a verdade é que no teu tempo (importas-te que te trate por tu?) nem todos os riscos estavam identificados e, sim, as crianças viviam de forma mais descuidada, mas também havia mais mortalidade infantil. E não estou a falar de pequenas diferenças estatísticas. Havia mesmo muito mais mortes de crianças, por vários motivos.

Por isso, sim, é importante não cair em exageros e aceitar que o risco faz mesmo parte da vida, mas certas protecções, certas ideias que muitos acham desnecessárias salvam vidas todos os dias. Basta pensar nas cadeirinhas dos carros ou nas protecções das escadas… O problema é que o efeito (muito) positivo dessas regras só se vê quando olhamos para os números — é difícil saber quais as vidas que foram salvas.

Admito que no tal mítico «antigamente» as crianças brincavam e eram felizes, sim! Ora, hoje também brincam e muitas também são felizes — e no entretanto temos cada vez menos mortalidade infantil.

Agora, aquilo que não muda é isto: a geração do meu filho, quando for velhinha, há-de virar-se para os netos e dizer «no meu tempo é que era bom!»

3. «Então e o segundo filho?»

O segundo vem depois do primeiro. Menos quando são gémeos: aí é tudo ao mesmo tempo e imagino que seja o caos. Há ainda quem só tenha um filho. Outros têm três — ou mais. Ou nenhum. O mundo é assim.

Agora, aquilo de que tenho a certeza praticamente absoluta — e olha que tenho muito poucas certezas — é isto: nunca até hoje um casal teve um segundo filho porque alguém lhes sugeriu isso mesmo numa conversa qualquer. Imagina como seria:

— Ah, então o Joaquim hoje perguntou-me se não estamos a pensar no segundo filho…

— Pois foi, a mim também me veio com essa conversa!

— Bem, sendo assim, se calhar mais vale fazer a vontade ao homem! Não quero que ele se aborreça.

— Vamos a isto, então?

— Vamos, pois!

E pronto. Lá vem o segundo filho por culpa do Sr. Joaquim. (Talvez fosse boa ideia o homem ajudar nas despesas.)

4. «Ah, eu lá em casa nunca lhe dou o telefone para as mãos…»

Sim, eu sei. Lá em tua casa é tudo às direitas e o teu filho vai sair um primor. O meu, enfim, é o que se arranja. (Bem, pelo menos vai saber mexer em telemóveis.)

Agora a sério: há pessoas que vêem os filhos dos outros com um telefone nas mãos e acham logo que estão sempre com um telefone nas mãos. 

Bolas, o meu filho joga no telemóvel, mas é só às vezes. A maior parte do tempo corre e pula e gosta de fingir que é pirata e conversa e grita e às vezes tem uma energia que nos cansa a nós. E, sim, não me importo de lhe emprestar o telemóvel, até porque às vezes é bom vê-lo sossegar. Serei criminoso?

Também confesso o crime de achar isto engraçado: ele já sabe mexer no YouTube, escolhe os vídeos, diverte-se e pede-me para ver com ele os vídeos preferidos. Também já percebeu que pode instalar uns quantos jogos gratuitos.

Já sei, não devia. A vida é para ser toda passada a tocar guitarra ao ar livre num belo kumbaya! Mas, bolas, deixa lá o puto ver um vídeo.

5. «Porque é que não fazes [assim] ou [assado]?»

Aqui, tenho de confessar: quase todos os culpados desta frase irritante dizem-na com a melhor das intenções. O problema é nosso, dos pais recentes. Quem teve um filho há pouco tempo está sempre extraordinariamente impaciente — impaciente com o mundo, porque o mundo lá fora importa um pouco menos. Durante esses meses iniciais, estamos concentrados no mundo mais pequeno que existe em nossa casa. O resto não importa.

As pessoas tentam ajudar e nós, pais ingratos, nem ouvimos nem queremos saber. E assim, como na história do Pedro e do Lobo, uma vez por outra, lá aparece uma ideia verdadeiramente útil — e nós, afogados em tantos conselhos vindos de tantos lados e tão contraditórios, nem damos conta…

Por tudo isto, peço-te paciência para com os pais recentes: a paciência deles está toda concentrada no bebé. Mas não deixes de os ajudar, porque por mais voltas que o mundo dê, é mesmo preciso uma aldeia para que uma criança cresça bem e feliz. E a aldeia dos nossos filhos, aqui no meio das nossas cidades, são os amigos e a família — por mais frases irritantes que digam…

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