Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens.

A extraordinária diminuição da violência nos EUA nas últimas décadas

Andamos todos enervados com gralhas nos jornais quando os erros mais graves são outros. Há pouco, por exemplo, encontrei este título no DN online: «Desde 1971 que não havia tanto crime nos EUA».  Um título que, como poucos, engana o leitor… É falso. A própria notícia desmente o título!

Sabendo eu que as estatísticas do crime nos EUA não dizem nada disso, fui ler. E o que se passa é isto: há um aumento do crime e esse aumento é o maior desde 1971. Mas os números do crime não só não estão minimamente perto dos números de 1971 como são mais baixos do que, por exemplo, em 2008. Os EUA têm hoje níveis de violência historicamente baixos. Exactamente o contrário do que o título da notícia diz.

Aqui fica, por exemplo, a evolução dos homicídios nos EUA nas últimas décadas:

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Então donde vem essa ideia de aumento? Ora, do pequeno aumento registado na linha vermelha neste gráfico:

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Sim, o crime aumentou nos últimos dois anos, mas continua baixíssimo. E mais baixo do que durante as décadas que medeiam 1971 e a actualidade. Dizer que o crime está no nível mais elevado desde 1971 é um grande erro…

Olhem de novo para o último gráfico e percorram a linha com o dedo. A grande notícia — de que poucos falam — é esta diminuição estranhíssima do crime ao longo de décadas — e que levado a explicações muito originais por parte de quem estuda a questão (voltarei a isso um dia destes).

Mas, já sabemos, a narrativa habitual é a de que a violência está sempre a aumentar. É tão habitual que a pessoa que escreveu o título da notícia leu essa mesma notícia do DN de forma rápida e encaixou tudo aquilo na narrativa habitual (mas falsa) de que o crime está a aumentar. É um pouco estranho que quem escreveu o título não saiba destas estatísticas.

Quanto à pequena subida nos últimos dois anos, convém estar atento, claro. Crime é crime e deve ser combatido. Mas, nos EUA, o crime desceu tanto nas últimas décadas que é normal haver anos em que sobe de forma significativa — os números são baixos e qualquer flutuação é «um grande aumento». Haver uma notícia que fala desse aumento (real) transformando-o num mundo em que a violência nos EUA é hoje superior à dos anos 70 é um erro puro e duro — e um erro tão mais grave quanto alimenta certas narrativas bem perigosas. (Olhem de novo para o gráfico… Não é espantoso?)

Mesmo que tenha sido uma distracção de quem escreveu o título (estou certo que o foi), este tipo de erros pode deixar muitos leitores enganados durante muito tempo, porque muitos lêem apenas os títulos e ninguém vai ler a possível correcção… Ao pé disto, uma gralha não importa assim tanto.

Bem, acontece, não é? Não podemos evitar estes erros a 100%. O ideal mesmo é sermos todos leitores mais atentos, lermos as notícias na totalidade e ainda ter alguma curiosidade para olhar para os números e não embarcar em grandes certezas com base em ideias vagas. Ler mais, claro.

(Para quem estiver interessado, prometo isto: vou preparar uma lista de livros sobre esta diminuição do crime. É um assunto pouco conhecido, mas espantoso.)

[Antes de publicar este artigo, enviei mensagem ao jornal. Provavelmente, não terei sido o único. Felizmente, o DN corrigiu o título, o que muito agradeço. A notícia em si não sofreu qualquer correcção — porque sempre esteve correcta. Infelizmente, as partilhas de Facebook continuam com o título errado, mas quanto a isso há pouco a fazer.]

Cinco expressões deliciosas da língua portuguesa

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O meu irmão Diogo já me avisou que eu uso demasiado a palavra «delicioso». Quando ele me disse isso, não acreditei. Mas, depois, fiz uma procura no blogue e sairam-me três páginas de artigos onde uso a palavra. Raios.

Bem, hoje lembrei-me novamente da palavra «delicioso» ao ouvir uma alemã a falar português.

Deixem-me lá contar: hoje estive na conferência  «30 anos de Português na UE», no Museu do Oriente, organizada pelas instituições europeias.

Pois, a certa altura uma funcionária alemã (cujo nome não consegui registar a tempo) decidiu contar as suas aventuras na língua portuguesa, o que muito divertiu o público. Acabou por dizer várias expressões portuguesas que acha engraçadíssimas — e que nós quase nem notamos.

Aqui ficam cinco dessas expressões, que rabisquei furioso enquanto as ouvia (muitas passaram-me):

  1. «Pequenos nadas». Sim, à funcionária alemã esta expressão faz-lhe cócegas divertidas. Pensem bem como nem notamos que os «nadas» não podem ser nem pequenos nem grandes — são nadas. E a vida, claro, é feita desses pequenos nadas… Uma expressão ilógica? Ah, sim, mas deliciosa. No fundo, é um dos pequenos nadas de que se faz o irresistível charme da língua portuguesa.
  2.  «Barriga das pernas». Claro que a nós não parece, mas é de facto uma expressão curiosa. Imagino que um alemão, quando encontra esta expressão pela primeira vez, pense num umbigo no meio das pernas. Ou mesmo numa pequena criança a nascer na barriga da perna dum qualquer deus grego (que tinham tendência para essas maluqueiras).
  3. «Céu da boca». É tão normal, mas tão normal que não percebemos quão malandra pode ser esta expressão portuguesa: pois quem não encontrou já o céu num bom beijo? E andamos nós com esta poesia toda nos lábios sem lhe dar valor. Sim, quem fala português tem um céu dentro da boca. Uma alemã arregala os olhos, claro está. E aproveita os segredos desta língua, pois então.
  4. «Beijinhos grandes». A alemã arrancou gargalhadas de todos os que lá estavam ao perguntar se haverá coisa mais estrambólica do que beijinhos grandes… E, de facto, ou bem que os beijos são -inhos ou bem que são grandes. Mas que importa? São beijinhos, chiça. E grandes, ainda por cima. Quem não quiser que vire a cara.
  5. «Fuz». Disse-nos a alemã que se nós temos «faz», «fez», «fiz», «foz» — só temos de nos esforçar um pouco para ter um «fuz». E tem muita razão, sim senhora. Quem de entre nós se atreverá a dar um significado ao nosso «fuz»?

É no que dá pôr-me a ouvir a nossa língua pela mente duma alemã. Tudo se torna menos familiar, menos habitual e por fim — como acontece quando repetimos uma palavra comum muitas vezes — estranho e delicioso. Por momentos, ouvimos essa palavra como se fosse a primeira vez.

Será também aí que reside um dos grandes prazeres de aprender línguas: a estranheza da língua dos outros é sempre imensa — e há momentos em que até a nossa língua nos aparece como uma estranha invenção que não é de ninguém em particular, mas de todos nós — até duma alemã que a aprende em adulto — e que vamos desfiando pelos séculos, pela boca e pela escrita.

E, já agora, feliz Dia Europeu das Línguas!

Dizer «um sorriso nos lábios» será erro de português?

Bolas, que os inventores de erros não param! Ainda agora vi no Facebook uma imagem com uma lista de redundâncias erradas que uma empresa qualquer decidiu criar para me aborrecer o dia. Uma dessas redundâncias proibidas era «um sorriso nos lábios»… Porque, na lógica impecável e implacável de quem criou a imagem, um sorriso tem sempre de incluir os lábios — logo, a expressão está errada.

Ah, a redundância, esse papão dos alarmistas da língua. Não se pode ter redundâncias na língua: fazem mal!

E, no entanto, raramente fazem algum mal que se veja. Aliás, as línguas têm redundâncias que foram sendo criadas de forma natural para ajudar à comunicação e à expressividade — sem estas redundâncias, a comunicação só seria possível em situações em que não há ruído e todos nos entendemos perfeitamente — ou seja, situações muito raras e muito pouco humanas. De certa forma, uma língua sem redundâncias seria uma língua de robots.

Basta pensar que se eu digo «tu és linda» já estou a usar uma redundância porque, se a forma verbal é «és», o «tu» não está ali a fazer nada. Sim, a gramática do português até me permite omitir o «tu» — mas há casos em que a frase pede o pronome pessoal. Os anti-redundâncias acham que nunca devo usar o «tu» por ser redundante?

Ah, mas dizem-me agora: isso é um absurdo! Isso é ir contra o funcionamento da língua!

Exacto! A língua funciona com redundâncias: na gramática, no vocabulário e nas expressões que usamos todos os dias. A linguagem humana tem redundâncias a torto e a direito — como o nosso corpo e como, aliás, toda a natureza.

Querem mesmo evitar as tais redundâncias à força? Para quê? Não vamos ficar a falar de forma mais clara nem mais bonita. Antes pelo contrário.

Enfim, eu sei que não querem evitar todas as redundâncias. Só umas quantas, escolhidas assim à sorte. Mas para quê, pergunto eu? Só para terem o belo prazer de corrigir os outros?

Convençam-se: um português sem redundâncias é impossível — e muito feio. Aliás, se eu também odiasse as redundâncias, podia ter reduzido este texto a uma só frase: «As redundâncias não fazem mal.» Mas não era a mesma coisa, pois não?


Para verem onde quero chegar na prática, reparem que a tal lista de redundâncias que encontrei no Facebook incluía estas três expressões supostamente erradas (entre outras mais perigosas):

  • «sorriso nos lábios»
  • «elo de ligação»
  • «novo lançamento»

(Já agora, uma pergunta: se alguém fizer dois lançamentos dum livro em terras diferentes, o segundo lançamento não é novo?)

Enfim, se querem mesmo obrigar toda a gente a evitar «elo de ligação» e «novo lançamento», força nisso.

Agora, a redundância que gostava de continuar a usar, se me permitem, é essa do sorriso nos lábios.

smile-1275668_1280Reparem nisto:

«Ela vinha a descer a rua com um sorriso nos lábios.»

Sim, sim, aquele «nos lábios» pode ser retirado e o significado é o mesmo:

«Ela vinha a descer a rua com um sorriso.»

Sim, porra: o significado é o mesmo — o sorriso é que não. E a própria rua fica bem menos alegre.


E assim andam algumas pessoas com uma caneta na mão a riscar a vermelho as palavras dos outros, mesmo quando essas palavras não fazem mal nenhum e são apenas uma forma um pouco mais expressiva — mais visual, mais clara! — de usar a língua.

Tremo ao pensar no que esta gente faria perante um poema. A poesia! Que coisa tão cheia de redundâncias, não é?

Enfim, para estes correctores compulsivos, o que se pode dizer em duas palavras nunca se deve dizer em três ou quatro. Isto da língua é uma coisa muito séria e muito espartana: é para usar no osso, sempre no mínimo, sem brincadeiras e — acima de tudo — sem palavras a mais.

Ora bolas. Deixem lá isso e ponham mas é um sorriso nesses lábios tão sérios.

Sérgio Godinho em galego

Não, este blogue não faz política partidária, como é bem claro a quem por aqui passa. Mas ouve tudo e repara em pormenores curiosos no que toca à língua. Como este: uma das listas concorrentes às eleições galegas de domingo — En Marea — escolheu uma música de Sérgio Godinho para a campanha… Sim, numas eleições espanholas há uma lista que usa uma música bem portuguesa. Porquê? Porque podem. Porque o galego e o português estão tão próximos que dá para fazer isto (é uma espécie de descubra as diferenças):

Versão em português

Versão em galego

E pronto, aos meus amigos galegos: boas eleições, votem como votem.

Os segredos da língua no Canal Q

Falámos dos segredos da língua, de tradução, de teatro — e da Joana d’Arc reencarnada numa árvore. No fim, até a Gisele Bündchen apareceu. Foi o É a Vida Alvim de ontem.

Primeira parte

Segunda parte

Como usar a língua para pensar melhor

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Imaginem que eu me armava em inventor de erros e vos dizia que «copo de água» é um erro. Que a única forma correcta é «copo com água».

Espero que se chegarmos a esse dia me atirem com um bom copo de água pela cabeça abaixo a ver se acordo para a vida.

Ora, mas se de facto me transformasse num desses seres sisudos sempre de dedo em riste a apontar para a língua dos outros, quase de certeza que iria dar uso a uma das estratégias mais irritantes dos puristas: logo depois de vos azucrinar o juízo com o copo que tem de ser com água, iria compor o ar mais sério que encontrasse e diria que ou bem que usam a expressão que eu prefiro — ou não sabem pensar. Porque a língua é pensamento e por isso se usamos uma expressão errada estamos a pensar mal. Quem não sabe que «copo com água» é a única forma correcta pensa mal. Ponto final.

Portanto: invento um erro, declaro que a língua é pensamento e depressa estou a defender que o futuro de Portugal depende do uso do «com» em «copo com água».

Estarei a exagerar? Não me parece. Ainda há pouco tempo ouvi um professor de filosofia a defender que não devemos dizer «isso é verdade!» e que tal construção é sintoma de profundas deficiências de pensamento por parte dos portugueses, coitadinhos. A forma correcta? «Isso é verdadeiro!» Sim, os puristas odeiam as palavras que saltam de classe gramatical. Gostam de ter tudo no sítio certo. Querem palavras domadas. Uma língua sonsa, por assim dizer.

Tenho de vos confessar: custa-me ouvir pessoas que põem o dedo em riste a dizer que usar bem a língua é essencial para pensar melhor — enquanto pensam tão mal sobre essa mesma língua.

Se de facto querem pensar bem — e todos nós queremos! — convém testar as nossas ideias (uma boa definição de pensamento crítico). Uma determinada construção da língua parece prejudicar o pensamento? Será mesmo assim? Em que casos concretos? Como é que, na prática, dizer «isso é verdade» nos impede de pensar melhor do que dizer «isso é verdadeiro»? E mesmo que encontrem um caso específico num texto, não haverá forma de corrigir o problema nesse texto em vez de exigir a toda uma comunidade linguística que mude um hábito tão inócuo como usar um substantivo com valor de adjectivo (coisa que os ingleses também fazem e não consta que tenham problemas filosóficos por aí além)?

Isto é um exemplo. Esta estratégia também se usa para justificar aquilo a que podemos chamar de «catastrofismo ingénuo»: ainda há poucos dias ouvi que os portugueses agora usam menos 20% de palavras (mas onde é que esta gente desencanta estes números, por amor da santinha?) e que isso é terrível porque — tchanam! — «língua é pensamento». Ora, nem os portugueses andam a usar menos palavras (que se saiba), nem o tamanho do vocabulário ajuda necessariamente a pensar melhor (ajuda ter muitas palavras, sim, mas saber usar aquelas palavras simples de todos os dias para explicar ideias difíceis também é um bom exercício de pensamento).

Temos de pensar bem e temos de falar bem — mas a ligação entre língua e pensamento não é simples. Posso ter um português impecável e pensar mal. Mais: a mudança na língua não implica necessariamente mudanças no pensamento. Os significados e as próprias palavras mudam muito mais do que querem os puristas e muito mais do que podemos controlar mesmo que quiséssemos. Nisto da língua, temos de aceitar esse facto imutável: as línguas mudam e são complexas. Às vezes até parecem ilógicas. O que há a fazer é estar atentos e tentar cavalgar esse animal selvagem que é a linguagem. Domá-la? Impossível. Para lá de que, domada, deixaria de servir para muito daquilo que nos sabe tão bem: a literatura, o amor, o humor…

Ideias práticas para pensar melhor

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A pensar na vida

Dito isto tudo, admito agora: a linguagem está mesmo ligada ao pensamento e escrever bem ajuda a pensar bem — tudo isto é verdade (ou verdadeiro, se preferirem). Mas escrever bem não é seguir esta ou aquela lista de manias linguísticas e pensar bem ainda menos.

(Já agora, fiquem com uma sugestão de leitura sobre a ligação entre língua e pensamento: The Language Hoax, the John McWhorther. De nada.)

Bem, não quero passar o artigo inteiro a reclamar. Aqui ficam algumas sugestões práticas sobre como usar a língua para pensar melhor:

  • Se tivermos uma ideia complexa na cabeça, tentar explicá-la a outra pessoa ajuda-nos a melhorá-la, a testá-la. Aliás, é nesse momento que surgem outras ideias e começamos a perceber o alcance do que pensamos. Por outro lado, às vezes estamos bêbados com aquilo que pensamos, completamente convencidos da nossa razão — e é no momento em que pomos a ideia em palavras que vemos como não tem pés para andar.
  • Escrever o que pensamos e tentar reescrever, explicar melhor, estruturar   o texto — isto ajuda-nos a pensar melhor. Reparem: não é esta ou aquela construção, esta ou aquela palavra: é o texto em si, a construção das frases, a ligação entre elas, a forma como dividimos os parágrafos. Ter o trabalho de resolver tudo isso limpa o pensamento — ou então mostra-nos que estamos com as ideias muito turvas e temos de parar para pensar melhor.
  • Pedir a alguém para ler para o que escrevemos: ou seja, pedir para que testem as nossas ideias. Muitas vezes, temos uma boa ideia na cabeça, mas não sabemos o que é óbvio ou o que não é, não percebemos se os outros percebem onde queremos chegar, não sabemos se essa ideia não será banal ou fora da realidade. E que serve uma boa ideia se não consegue sair do apertado espaço do nosso cérebro?
  • Já vos disse acima que me parece um pouco complicado pedir a todos os falantes que mudem esta ou aquela construção ou usem as palavras de forma bem comportada. Mas definir bem as palavras que usamos num ou outro texto é útil e aconselhável. Ajuda-nos a pensar melhor. Como? Dizer no início: «Neste texto, uso X com o significado Y.» Simples, não é?
  • Usar as palavras como alavanca. O que quero dizer com isto? As palavras são uma espécie de contentor onde podemos pôr ideias muito complexas, dando-lhes um nome, que podemos depois usar para pensar de forma ainda mais complexa. O nosso cérebro só consegue lidar com um número limitado de ideias de cada vez. Mas se conseguimos enfiar dentro duma só palavra um universo inteiro, podemos ter ideias cada vez mais complexas e subtis. O problema — e este é um problema bem real — é que às vezes usamos as palavras já sem perceber o que lá têm dentro. Mas fica para outro dia…
  • Ler muito. Claro. É uma espécie de mantra, mas vale a pena repeti-lo. No fundo, ler é usar as palavras dos outros para pensar melhor. E, depois, convém tentar usar as palavras contra nós próprios: fazer perguntas; fingir que não concordamos connosco e encontrar os melhores argumentos contrários; discutir dentro da nossa cabeça. Loucura? Não, não: o pensamento crítico não significa «atacar as ideias dos outros para proteger as nossas». Significa antes «desconfiar e atacar em primeiro lugar as ideias que nos são simpáticas». Temos de testar o que pensamos. É difícil, mas é importante.
  • E, por fim, se estamos sempre a repetir-nos, podemos tentar dizer a mesma coisa por outras palavras. É um bom exercício para perceber se estamos a cair num discurso que se basta a si próprio ou estamos mesmo a perceber as nossas próprias ideias. Porque importa dizer o melhor possível as ideias que temos, mas também é essencial ir melhorando essas ideias. A forma ajuda, mas o conteúdo é ainda mais importante. E por isso dizer o que queremos por outras palavras (ou até noutra língua) ajuda-nos a separar as ideias genuínas das palavras que dizemos só porque soam bem.

Escrever bem ajuda a pensar bem. Mas escrever bem não é seguir esta ou aquela regra de etiqueta linguística mais ou menos inventada. É muito mais complicado do que isso — e pensar bem é ainda mais complicado do que escrever bem.

(Bem, amanhã volto a falar das férias a ver se descontraio. Isto hoje foi pesado.)

Dias de praia com piratas (ou como a nossa memória nos engana)

ibiza-986551_640Já estou de volta das férias há umas boas duas semanas — e que semanas, meu Deus! — e mesmo assim ainda tenho histórias para vos contar. É assim uma espécie de truque para parecer que ainda estou de pés na água e cabeça na areia…

Pois bem — esta história tem que se lhe diga.

Então é assim: a certa altura, lá nas férias, fomos almoçar em Santiago de la Ribera, uma pequena terreola que foi uma estância balnear que deve ter estado na moda ali por volta de Agosto de 1984. Enfim, não faz mal: foi uma espécie de viagem no tempo.

A praia é virada para o Mar Menor, uma lagoa de água um pouco turva por causa da areia que é de origem vulcânica (dizia um dos cartazes de aviso que por lá vi). Pois a verdade é que a água é tão quente, mas tão quente que ficamos com a sensação que o vulcão está prestes a entrar em erupção…

mangaBem, a temperatura da água sentimo-la depois, quando fomos molhar os pés. Ao almoço, limitamo-nos a olhar para o mar, que ali estava, à nossa frente — e lá muito ao fundo, no horizonte, a chamada Manga del Mar Menor, uma pequena faixa de areia entre o Mar Menor e o Mediterrâneo que foi cilindrada sem piedade com prédios, prédios e mais prédios. No primeiro dia de férias tínhamos lá ido e fugido a sete pés… É daquelas paisagens que até são engraçadas vistas assim de muito longe. É como olhar para o mar e ver ao fundo um recorte citadino a surgir como uma miragem. Nada mal — mas à distância.

Pois bem, o certo é que descobrimos um barco ao pé do restaurante que fazia a ligação entre Santiago e uma zona da Manga que até tinha o seu quê: uma ponte levadiça, umas praias simpáticas — e acima de tudo uma festa com piratas no barco. Só que já estava mesmo em cima da hora, ainda não tínhamos almoçado e dissemos ao Simão que ficava para o dia seguinte.

Enquanto o barco se afastava, fiquei a olhar e a imaginar como seria essa singela viagem com crianças vestidas de piratas. Não demorei mais do que uns bons 10 segundos nesse sonho acordado: fiquei só a olhar, a ver o mar e, ao sol de Agosto, a imaginar-me no barco — porque não tinha mais nada em que pensar naquele momento e porque tinha acabado de dizer ao meu filho que no dia seguinte era isso mesmo que faríamos. O barco passa ao pé de ilhas, havia aviões a fazer acrobacias ali mesmo ao pé, o sol apetecia e sentia o sal na boca. Ah, as férias…

Pois, no dia seguinte não fomos. Ali perto havia praias menos turvas, areias mais douradas, sítios por descobrir. Ele não se importou, até porque acabámos por descobrir um barco bem maior, com piratas a sério e tudo (mas isso fica para outro dia).

Agora, o curioso é isto — e esta lengalenga toda serviu para chegar a esta conclusão: no fim das férias, comecei a pensar nos dias todos que ali passáramos e a memória misturou-se de forma perigosa: lembrava-me dos sítios onde realmente tinha ido — e da viagem de barco que nunca fiz! (Para não falar dos livros que li e dos filmes que vi — mas essas misturas já são bem menos estranhas e muito saborosas.)

Sim, é verdade. A memória é mesmo muito manhosa. Neste caso, não fez mal: eu sabia, conscientemente, que nunca tinha andado naquele barco e mesmo que de repente me convencesse que tinha mesmo viajado de barco naqueles dias não vinha mal ao mundo. Mas não deixa de ser perturbador: lembro-me de estar a afastar-me da costa com o meu filho vestido de pirata ao lado e a minha mulher a olhar para o horizonte. A sério que me lembro! Ora, mas não sou o único. Admitam lá: quantas vezes não confundimos tudo e inventamos memórias — e algumas delas bem mais consequentes que uma viagem numa tarde de Verão que nunca existiu? Se alguém me disser que nunca lhe aconteceu tal coisa é que por anda muito enganado por este mundo…

É outro dos temas que começa a ser recorrente neste blogue (mas nada posso fazer, estas ideias vêm até mim e eu tenho de lhes pegar pelos cornos): todas as maneiras como nos enganamos a nós próprios. Lembramo-nos do que nunca fizemos, esquecemo-nos do que nos aconteceu, imaginamos salpicos na cara que nunca sentimos. O antídoto é só um: perceber que somos muito falíveis, que nos enganamos todos os dias — e desconfiar um pouco da nossa cabeça.

Bem, se a memória é perigosa e a imaginação delirante, a verdade é que também é por isso que criamos livros, filmes, quadros e canções: a nossa cabeça não se limita ao que nos acontece. Vai sempre mais à frente. Aí temos a origem da arte e de tanto do que torna a vida bem mais interessante do que seria se vivêssemos apenas com o que temos à nossa frente. Mas aí temos também a origem de muitos dos enganos com que nos matamos uns aos outros…

Ui, que frase tão séria para um post de piratas e tardes de Verão, não é? Admito que sim. Fiquem com esta outra música, capaz de vos acordar as memórias lá bem escondidas nas catacumbas da nossa mente — e também estávamos num verão azul no Sul de Espanha:

O que se esconde num artigo galego?

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Note-se que os galegos também têm a sua A Buraca

Noto que alguns portugueses lêem o artigo do nome da terra galega O Porriño (onde ocorreu o infeliz acidente ferroviário de há dias) não à portuguesa, como seria natural — «U Porrinho» —, mas como «Ô Porrinho». Pode até parecer uma forma bem correcta de ler, pois aproxima-se do que os próprios galegos dizem. Mas o nome em si («Porriño») costuma ser lido à portuguesa. Só o artigo é que não.

Não há nada de mal nisto: não sou dos que anda para aí a bradar aos céus porque os portugueses não sabem ler os nomes das terras dos outros países. É assim tão estranho que um português não saiba ler bem «Leicester» (que os ingleses lêem «Léster» e não «Laicéster»)? A pronúncia dos nomes ingleses é caótica e nós não aprendemos essa geografia na escola…

No entanto, neste caso, a leitura diferente de O Porriño é curiosa, porque não estamos perante uma palavra inglesa… Estamos a ler uma palavra que usamos todos os dias: o nosso belo e redondo artigo definido. Mas, lá está, perante um nome com um «ñ» e um artigo português, a nossa cabeça dá mais importância ao que é estranho. Muitos nem reparam que os artigos galegos são os nossos! Nada de «El Porriño»! Não interessa: é uma terra espanhola. Tem um «ñ» lá no meio. Aquele «O» só pode ser uma estranha palavra duma só letra. Não tem nada a ver connosco. Logo, lemos «Ô» e não «U».

Estarei a delirar? Talvez. Mas que a espantosa proximidade do galego é invisível para tantos portugueses, lá isso é…

Viver melhor com a língua portuguesa

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Depois das férias, o dilúvio — de trabalho e outros assuntos pendentes. Pois, hoje, aproveito para fazer alguma divulgação e, por isso, deixo-vos aqui um excerto da introdução do livro Doze Segredos da Língua Portuguesa. Nele, descrevo uma forma de olhar para a língua que pode ser resumida nestas palavras…

O que fazer com esta língua?

Na última parte [deste livro], pergunto o que fazer com a língua e dou algumas sugestões que espero serem úteis para quem gosta de escrever um pouco melhor todos os dias. No fundo, o que defendo é uma atitude que pode ser descrita por estas palavras:

Exigência

Digo isto porque há alguns simplistas de ocasião que acham que tudo o que vá para lá do mero coleccionismo de erros é facilitismo. Olhe que não! Fácil é inventar erros. Difícil é ir tentando melhorar todos os dias, pela escrita, pela leitura, pela humildade de aprender o que é a língua e o que é a linguagem humana. Não há soluções fáceis — mas não podemos desistir de aprender e ensinar a escrever e a falar, cada vez melhor, todos os dias.

Curiosidade

É isso que sinto pela língua, acima de tudo. Curiosidade sobre a forma como a língua é vista e vivida, curiosidade pelas várias formas da mesma (incluindo aquelas que não fazem parte da norma — benzam-se agora, ó Diáconos Remédios desta língua), curiosidade pelas outras línguas e ainda curiosidade pela linguagem humana como fenómeno cultural e, vejam lá bem, biológico.

Depois, sigo por aí fora: curiosidade pela língua na literatura (uma das minhas paixões), curiosidade pelas trocas entre línguas (de palavras e de textos — afinal, a minha profissão está ligada à tradução) e também uma curiosidade tremenda ao ver o meu filho a aprender a falar de forma tão fácil e surpreendente.

Civismo

Sim, isso mesmo: civismo. O pânico e o histerismo linguísticos são de tal ordem, que muitas discussões acabam em insultos, descomposturas que não lembram ao diabo, acusações de dedo em riste e, em geral, muito gozo e muita sobranceria ao discutir os erros dos outros em público.

Ai, os erros de português dos outros… São feios, mas reparem nisto: não será melhor apontá-los em privado (numa mensagem de Facebook, por exemplo)? E, para mais, não será mais útil concentrarmo-nos nos nossos próprios erros?

(Agora, uma confissão: uma vez por outra também caio na tentação de ser um pouco sarcástico, principalmente contra quem sente genuíno prazer em apontar os erros que vê. Deixei passar alguns acessos de rispidez neste livro, para os quais peço, antecipadamente, perdão.)

Serenidade

A língua não está a morrer e nem sequer está em perigo. O português-padrão não está a ser cada vez mais maltratado: está em expansão e lá terá as suas dores de crescimento, mas nada que mereça o discurso excessivo e radical que ouvimos por aí. Podemos respirar fundo e sentir algum prazer no uso da língua e ainda aceitar uma certa abertura às línguas que estão próximas — e até às formas regionais do português, se quisermos.

Abertura

Ao galego, ao português do Brasil. Temos de reconhecer a importância da língua para o nosso sentido de comunidade e de identidade (para o bem e para o mal), mas podemos tentar não ter tanto medo do que está próximo — ou seja, não ver o galego ou o «brasileiro» como ameaças, antes como idiomas próximos a que podemos aceder sem especial dificuldade. Não precisamos de acreditar em lusofonias políticas ou em estrambólicas uniões entre Portugal e Galiza para conhecermos essas outras formas de falar a nossa língua.

Prazer

Prazer em falar e em escrever em português. Prazer em trabalhar a língua, em rever, em melhorar todos os dias. Prazer em ler bons livros. Prazer em falar um pouco sobre o que se lê. Sim, prazer — temos mesmo de ser tão sérios que da língua só possamos falar do que está mal e nunca do que está bem ou sabe bem?

(EXCERTO DA INTRODUÇÃO DO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.)

LIVRO

As vacas que falam espanhol

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As férias são uma boa oportunidade para aprender umas palavras novas, não acham? A passar uns dias em Espanha, a Zélia e eu tentámos ensinar ao Simão umas quantas palavras castelhanas: «gracias» e outros que tais.

Ele dizia que não queria saber nada disso. Eles que falem português! Pois imaginem só que, como que a gozar com as ideias-feitas dos portugueses, o empregado de mesa espanhol que na altura nos estava a servir riu-se e disse: «Obrigado!» A Zélia e eu ficámos sem palavras…

Dias depois, à beira da piscina, o Simão lá deixou de insistir para que os espanhóis aprendessem todos a nossa língua e veio-nos perguntar como se diz «trocar» — porque queria trocar um brinquedo com um outro menino. Pouco depois, estava a brincar com mais não sei quantas crianças, a rirem-se todos numa guerra de pistolas de água, com as palavras todas misturadas. Ah, pois é: isto das línguas vai assim, com os contactos reais entre pessoas, não é verdade?

As férias passaram. Chegou o dia de voltar. No caminho para cá, dissemos-lhe que dali a um bocado entraríamos em Portugal e aí já as pessoas já falavam português.

Ele ficou entusiasmado e, qual burro do Shrek a perguntar se já chegámos ao Reino Bué Bué Longe, ia insistindo: aqui ainda falam espanhol? E aqui? E aqui? Nós íamos pacientemente a dizer que sim.

Depois, calou-se. Ficou a olhar para a paisagem andaluza. Até que vê uns simpáticos bovinos e dispara, sem aviso: «E aquelas vacas, falam espanhol?»

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