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10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)

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Sim, Espanha é um país complicado no que toca a línguas.

Aliás, Espanha é um país complicado, ponto final. (E bem interessante, por estranho que isso possa parecer a alguns ouvidos portugueses.)

Ora, nesse país complicado, os nomes das línguas parecem multiplicar-se, ainda mais do que as próprias línguas.

Antes, um aviso: a lista abaixo é de nomes de línguas — e não, necessariamente, de línguas separadas. Assim, o “catalão” e o “valenciano” são nomes da mesma língua (há quem discorde), tal como os nomes “espanhol” e “castelhano” se referem ao mesmo idioma (e, neste caso, ninguém discorda).

Vejamos, então, 10 nomes de línguas de Espanha (entre outros):

Espanhol. Este é o nome da língua que o mundo conhece como língua de Espanha. Há quem ande por aí convencido que tudo acaba aqui: em Espanha, fala-se espanhol, ponto final. Mas, não…

Castelhano. Um outro nome dado ao espanhol, muito usado em Espanha para distingui-lo das outras línguas espanholas. Em Portugal, há quem use “castelhano” convencido que é muito mais correcto do que o corriqueiro “espanhol”. Noutro local deste blogue, tenta-se explicar a confusão. No fundo, são sinónimos.

Catalão. Este é o nome oficial da língua própria da Catalunha (e de mais uns quantos sítios). Sim, os catalães faltam também espanhol, mas uma grande parte da população tem como língua materna o catalão, falado em várias regiões de Espanha, em Andorra e ainda numa cidade italiana chamada, em italiano, “Alghero” e, em catalão, “L’Alguer”.

Valenciano. Mais a sul, na Comunidade Valenciana, o catalão muda de nome, mas sem deixar de ser a mesma língua. Claro que há uma ou outra pessoa que insiste que é uma língua diferente, porque dá jeito. E não é assim tão difícil criar uma língua própria: um nome, umas regras ligeiramente diferentes, um dicionário, uma academia, uma gramática e temos feito o idioma. Tudo para garantir que não se fala a língua do vizinho de cima.

Lapao. Sigla de “Lengua aragonesa propia del área oriental“. Desde 2013, é este o termo usado pelo Governo de Aragão para designar o catalão falado no seu território (encostado à Catalunha). Porquê? Porque tudo é válido para evitar dizer o nome “catalão”, que é um bicho papão. Sim, há regiões de Espanha com medo do “imperialismo linguístico” das outras regiões. Quem tem menos medo do catalão goza com este termo usando a risível abreviatura “lapao”. Parece que para o Governo de Aragão, mais vale falar lapao que catalão.

Aranês. Esta é uma das línguas da Catalunha. No fundo, é outro nome para a língua occitana, falada no sul de França. Lá chegaremos, em boa hora, no futuro deste blogue (espero).

Basco. Esta é a língua misteriosa que ali se esconde em redor dos Pirenéus e que não se sabe muito bem donde vem. Não é, sequer, uma língua indo-europeia e, assim, está na companhia do húngaro e do finlandês como elementos estranhos na paisagem linguística europeia.

Euskera. O nome da língua basca em basco é “euskera” e esse nome é usado muitas vezes mesmo em textos escritos noutras línguas de Espanha.

Galego. A língua nossa vizinha, a mais próxima do português — ou mesmo, segundo muitos, um outro nome para a nossa língua.

Português. Haverá poucos que queiram chamar directamente “português” à língua que os galegos falam (até porque argumentam, e bem, que a língua nasceu dos dois lados do Rio Minho e nunca saiu de Portugal em direcção a norte). Mas já serão muitos aqueles que se atrevem a dizer algo que para os portugueses mais distraídos será uma grande surpresa: o galego e o português serão dois nomes para a mesma língua, com diferenças marcadas, é certo, mas sem que tal implique uma separação insanável. Há mesmo quem diga que o português do Brasil está mais distante do português europeu do que o galego. Não vamos entrar, para já, por aí. Fica para mais tarde. Mas podemos afirmar que, para lá dos nomes e das divisões, o português e o galego estão bem mais próximos do que a fronteira faz crer e, por isso, há também uma língua de Espanha que é um pouco nossa. E daí não vem mal ao mundo.

Para lá destes 10 nomes, há mais: “maiorquino”, “bable”, “aragonês”, “leonês” e há até alguns atrevidos que falam da língua andaluza.

Ora, que lições podemos tirar desta profusão de nomes de línguas?

Antes de mais, é fácil perceber que as línguas são fáceis de criar, pelo menos se acharmos que criar uma língua é dar-lhe um nome. As nossas ideias sobre o que é uma língua ou não é acabam por ser muito mais fluidas do que pensamos — principalmente no território das línguas latinas, muito onde todos os falares fazem parte dum só mundo linguístico. Assim, surgem nomes que para alguns serão nomes da mesma língua, para outros significam algo mais: significam a existência duma identidade separada e, nalguns casos, duma língua separada.

Depois, uma lição sobre a humanidade: a necessidade de marcar a diferença é algo muito humano. Assim, num espaço nacional muito fracturado e onde populam identidades locais, regionais e nacionais para lá da identidade nacional espanhola, é normalíssimo vermos surgir nomes de línguas como cogumelos.

Tudo isto também se aplica a nós, à nossa maneira.

Por exemplo, terá muito a ver com esta necessidade de ver na língua o reflexo simples da nossa identidade que leva a que muitos portugueses não consigam ver o galego como língua irmã do português. Afinal, são os galegos são espanhóis…

Mesmo no que toca ao Brasil, os portugueses, em geral, não estão muito interessados em sublinhar a proximidade. Que os brasileiros chamem à sua língua “português” parece um pouco estranho, mas ainda se aceita. Agora que haja por aí tentativas de pôr tudo no mesmo saco e unificar a língua já parece demais.

Também por aí se explica a facilidade com que tantos portugueses dizem “brasileiro” para designar a língua dos brasileiros, que estes últimos chamam “português” sem mais.

Tudo isto porque a língua serve para comunicar, mas serve também (e muito) para marcar a nossa identidade. Goste-se ou não, convém não esquecer esta característica do ser humano.

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27 Comentários

  1. Alexandre

    Muito bom artigo, como sempre. Porém, acho a faltar uma menção mais extensa ao asturo-leonês, já que o seu domínio linguístico chega até Portugal, em Miranda do Douro. Já não digo nada do redemoinho de nomes que recebe esta língua dependendo do lugar (mirandês, asturiano, bable, leonês, estremenho, castuo, cântabro e montanhês).

    • Marco Neves

      Obrigado! Hei-de me debruçar sobre o arturo-leonês um destes dias.

  2. Luis Alberto Pinto

    Sempre estive em desacordo com o “português que se fala no Brasil”. É tempo do Brasil assumir o seu próprio idioma, o brasileiro.
    E não entendo também a razão porque cedemos nos chamados “acordos luso-brasileiros”.
    Temos o nosso próprio idioma. É nosso, não deles.

    • Um apontamento sobre o nome para o galego, português, galego-português, etc. : se bem é certo que a língua nasceu a ambos lados da fronteira atual, na altura Portugal não existia, mas tudo era Galécia/Galiza. Logo a denominação na altura seria logicamente “galeciano” ou galego.

      E contudo, acho que a denominação “nacional” (ou nacionalizada) da língua é secundária, toda vez que reconheçamos que é a mesma língua.

      Porque senão continuemos por aí até chegarmos ao indivíduo passando polo “carioca”, “paulistano”, pernambuquês”, “lisboeta”, “corunhês”, “picheleiro”, … e por aí adiante: cada falante de galego-português, um idioma!

  3. Gabriel

    Sou do Brasil, e discordo totalmente de alguns comentários aqui colocados. A Língua Portuguesa no Brasil é totalmente difundida, sendo que cada região que constituem o país (Norte, Sul, Nordeste, Sudeste e Centro-oeste) possuem suas especificidades na oralidade. O que é normal em qualquer país em qualquer língua! Dizer que o Português falado no Brasil e em Portugal não são a mesma língua é bobagem. É claro que são a mesma língua. O que evidenciam as diferenças são justamente a questão geo-político-culturais. O brasileiro não fala Brasileiro. O brasileiro fala a língua Portuguesa. Esse seria o momento ideal para união dos países que falam a língua para difusão da mesma em escala global. Querer separar as línguas e dizer que o que se fala no Brasil é ‘Brasileiro’ e não Língua Portuguesa é enfraquecer a língua no cenário mundial. Não sejamos bobos.

  4. Claudio Caldas

    Tenho pena deste senhor Luís Alberto Pinto. Ele tem um recalque que não é típico em Portugal. Querer separar idiomas é de uma idiotice crassa. Nós brasileiros temos orgulho em contribuir com 204 milhões de falantes da língua portuguesa no mundo. Aliás motivo de muito orgulho que uma nação continental como o Brasil fale uma única língua. O português com óbvio vários sotaques. Na Europa, principalmente na Espanha não existe essa unificação da língua o que causa revoluções separatistas, a língua aglutina, aproxima o bom relacionamento de um povo. Nós brasileiros há 515 anos atrás éramos uma nação indígena. Os portugueses aqui se instalaram disseminaram seu idioma tal com na África em alguns países. Deixaram essa herança que muito nos orgulha assim como nosso hino e nossa bandeira. Pobre Sr. Pinto, seu cérebro iguala-se ao de um Pinto.

  5. Sérgio Estreitinho

    Olá, sou um curioso e estudei sobre o que é uma língua, tal como seguramento o autor deste blog. Eu acho que uma língua é de todos os falantes e de ninguém em particular. A língua pode identificar a origem de um indivíduo, mas ela não lhe pertence, até porque a língua é um é “ser” vivo, mutável e não se deixa prender e fechar num frasco.

    A língua que os portugueses falam veio dos antepassados (que a herdaram também) e tranmitiram-na pelo cantos do mundo. A distância faz com que evolua (extamente pela separação) em sentidos diferentes. O acordo ortográfico tenta juntar aquilo que se vai separando naturalmente. Concordo com o acordo ortográfico no sentido em que permite a que os diferentes povos conservem uma mesma língua, tanto quanto isso seja possível. No entanto, a língua não pertence a ninguém, por muito que o ser humano tente aprisioná-la, ela é livre e mutável, transforma-se como gelatina e não se deix encarcerar.

    Não tenho medo que um País como o Brasil me tire algo que nunca foi meu e que apenas uso por empréstimo….

  6. Pedro G.

    Vivo nas Canarias e por aqui dizem que se fala o Canario, na verdade fala-se um Castelhano com sotaque diferente mas com muitas palavras absulutamente diferentes como por ex Papas que quer dizer Batatas mas com muitas outas de origem Portuguesa, como Borboleta em vez de Mariposa e muitas mais. Um tema sem duvida interesante devido à historia das Canarias e à presença Portuguesa desconhecida por muitos.

  7. luis afonso

    Faltou o asturiano.
    E mesmo o andaluz.

    • Marco Neves

      Não pretendia ser uma lista exaustiva. Há muitos mais nomes de línguas em Espanha… 🙂

    • O andaluz é um dialeto do castelão. Isso seria como dizer que o brasileiro ou o angolano som línguas independentes.

  8. Francisco Ferro Pessoa

    Não falamos o português por copia mas porque em nossas veias corre o sangue de Portugal aqui derramado por 500 anos. O Brasil não era uma nação, ela foi criada por Portugal daí que somos dois países mas uma só raça. Neste imenso território habitavam inúmeras nações que se comiam umas outras como hoje se come um churrasco. Por isso acho que devemos nos dar as mãos e trabalhar em prol de nossa língua mãe.

  9. António de Sampaio Pinho

    Sou português, nascido em Angola e tenho muito orgulho em falar oito línguas distintas (português, francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, latim e umbundo).
    O aparelho fonético dos falantes da língua portuguesa é uma máquina preciosa!
    Sabem porquê? Nós emitimos sons com a garganta e com o nariz e…quase com a boca fechada!…Por isso emitamos sem dificuldade os sons de inúmeras línguas.
    Li algures que na Península ibérica há só duas línguas: o galaico-português e o
    impenetrável basco. O autor desta teoria sugeria: percorram Espanha de norte a sul e de leste a oeste; constatarão que entendem tudo o que “eles” disserem, porem, a resposta será invariavelmente:” no entendo usted”.

    • Edinaldo Ramos

      Sou do Brasil e percebi isso quando passei por Uruguai e Argentina.

  10. Olá, agradeço saber onde foi parar o comentário que inseri, aqui. – SUMIU?

    • Marco Neves

      Não havia aqui nenhum comentário: fê-lo noutros artigos deste blogue. Se quiser repeti-lo aqui, poderei publicá-lo.

  11. – Já agora, cá está o link para saber algo mais sobre a língua dita “portuguesa” – https://geolingua.wordpress.com

  12. Ulo aragonês (tamém chamado “a fabla”)?

  13. E o asturo-leonês (ou asturiano, bable, leonês, ásture-leonês)?
    E o êuscaro?
    E o occitano (o aranês é uã variante do occitano)?

  14. Marinho

    Texto a meu ver, um tanto quanto preconceituoso sobre a parte referente ao Brasil.
    No Brasil a escrita é em que língua? Alemão?Francês? Italiano? É meu caro, nós não pedimos para ser explorados por Portugal, tão pouco optamos por falar essa língua pouco apreciada pelo mundo, ela nos veio goela a baixo, se pudéssemos optar com toda certeza optaríamos por uma língua mais respeitada e reconhecida mundialmente.

    • Marco Neves

      Não percebi onde está a falta de respeito para com o Brasil. Se tivesse o cuidado de ter lido mais alguns textos deste blogue (procure «Brasil»), veria quão injusto foi o seu comentário. Se há coisa que não tenho é falta de respeito para com o Brasil. Já quanto ao final do seu comentário, parece-me que padece de alguma falta de amor pela sua própria língua, o que é pena. Mas, enfim, leia mais deste blogue, é o que lhe peço… 🙂

      • Para com? Isso é ũa falta de respeito para por desde cara trás entre com os falantes da língua. Vamos ponher-nos a falar tam mal coma os políticos? Será “com” e ponto. Será “falta de respeito com o Brasil”.

        • Marco Neves

          Caro Anónimo, é assim que escrevo e falo. Não vou deixar de dizer “para com”. Por que razão o faria? Quanto ao comentário em si, tem alguma coisa a dizer? Também acha que o texto é falta de respeito?

    • Marco Neves

      Depois de ler o texto, percebi a razão do seu comentário: acha que estou a concordar com a situação que descrevo no final, sobre aquilo que os portugueses sentem em relação ao Brasil. Se ler com atenção, perceberá que a minha intenção é mudar esse estado de coisas.

  15. Paulo Sérgio Bonini

    Portugal invadiu o território onde hoje é o Brasil , explorou, levando para Portugal nossas riquezas, impôs seu idioma e por foi expulso daqui deixando nosso território arrasado; Graças aos esforços do nosso povo trabalhador transformamos o Brasil numa grande nação que possui uma extensão continental e uma extraordinária unidade nacional a começar pelo idioma português falado em cem por cento do território nacional, idioma esse enriquecido com centenas de palavras de outras línguas . Hoje mundo afora quando um indivíduo usa o português para se comunicar a pergunta que ele ouve é sempre essa : Você é brasileiro ? E nunca ” você é português ? ” ou seja;
    Portugal perdeu sua identidade linguística !
    Está falando em português então é brasileiro ! Talvez seja esse o motivo do recalque dos portugueses . E viva o Brasil !

    • Marco Neves

      Já andei em muitos sítios do mundo e ninguém ignorava que em Portugal se fala português… 🙂 É a língua do Brasil, mas também de Portugal, como todos sabemos. Mas pergunto: o que tem isso a ver com o texto que está a comentar? O texto não é sobre o Brasil. Se quiser, procure outros textos neste blogue sobre o Brasil — estou certo de que irá gostar.

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