Pois que com este título as “línguas” que muitos imaginam serão outras — mas, não, este post tem mesmo a ver com línguas-idioma e não com línguas-órgão.

Na sexta-feira, fui assistir a uma conferência de Manuel Rivas, no Instituto Cervantes, por ocasião do Día das Letras Galegas. (Já agora, o “í” está correcto, porque este nome está em galego, por mais português que possa parecer aos desprevenidos.)

Fui com alguns alunos e, para alguns, uma das curiosidades da conferência foi ouvir alguém a falar em galego, aquele idioma rumorejante que para um português soa a português bem nortenho misturado com um não sei quê de Brasil e de floresta brumosa e de vogais bem mais cheias do que as nossas.

Pronto, temos de admitir: soa também muito a português falado por um espanhol, mas isso é porque temos os ouvidos pouco treinados. No final da conferência, um aluno mexicano disse-me que nunca tinha ouvido ninguém a falar galego e que, por momentos, pensou ser uma tentativa frustada de falar português. Mas, felizmente, alguém o desenganou rapidamente…

As histórias que Manuel Rivas contou ficarão para quem lá esteve. Fomos desde as agruras da Cultura desde o Iluminismo até às agruras dum vedor honesto à procura de água em volta da casa dos pais do escritor.

Mas vamos então à tal relação erótica entre línguas. Os alunos de uma das disciplinas que dou estão a fazer um trabalho de investigação sobre tradução. Uma das alunas (uma senhora cultíssima com quem aprendo muito mais do que ensino) está a estudar, para esse trabalho, a auto-tradução e, assim, perguntou a Manuel Rivas que sensações tinha ao traduzir os seus próprios textos para castelhano.

Manuel Rivas contou um episódio curioso relacionado com um dos livros que auto-traduziu, para explicar como tinha sido difícil traduzir um episódio concreto, que só lhe saía bem em galego, por ser a língua em que tinha as recordações em que se baseara para o escrever. Mas logo explicou que, depois de deixar o capítulo repousar um pouco, a tradução saiu-lhe naturalmente. Continuou a dizer que, para ele, a relação entre línguas “é uma relação erótica, não competitiva, uma relação sinestética e que alarga o olhar” (cito de cor).

Ora aqui está uma frase que não deixa de ser saborosa para um tradutor: trabalhamos no local onde as línguas têm relações eróticas e o que fazemos alarga o olhar (a “mirada”).

Ouvir Manuel Rivas também alarga a mente e o olhar — e alarga-nos o ouvir, com as cócegas que faz nos ouvidos uma língua tão próxima da nossa como o galego.

Manuel Rivas (fonte: Wikipédia).