Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Maio 2014

O espantoso mundo das línguas

Quem nasce em Portugal acha que o mundo das línguas é simples: cada país tem a sua e as fronteiras entre elas são claras. Mas a realidade é muito diferente.

Há milhares de línguas no mundo e apenas duas centenas de países.

Há países onde podemos andar milhares de quilómetros e ver placas da estrada numa só língua (Brasil).

Noutros países, há línguas diferentes em cada aldeia (Índia).

Nalguns sítios, as línguas vão mudando gradualmente (Itália), noutros cada aldeia tem um idioma tão distinto como o português e o árabe (Papua-Nova Guiné).

Noutras paragens, é possível perceber as tendências políticas de cada um pela forma como escreve (Noruega).

Há ainda países onde se ensina uma línguas nas escolas e nas ruas ouve-se falar outra (Suíça alemã).

Noutros encontramos línguas diferentes na fala, mas o sistema de escrita é igual (China).

Também é possível encontrar regiões onde dois povos falam a mesma língua, mas escrevem-na usando alfabetos diferentes (Croácia e Sérvia).

Há línguas africanas de origem europeia (africânder).

Há línguas europeias de origem africana (maltês).

Há línguas quase mortas, mas que conseguem ganhar Prémios Nobel (provençal).

Há países que têm como língua nacional a língua duma região doutro país (Andorra).

Há países que pegam numa língua morta e a ressuscitam (Israel).

Há países que criaram a sua língua em 1984 (Luxemburgo).

Há sítios onde se quer falar uma língua própria à força (Comunidade Valenciana).

Há penínsulas onde as línguas convidam à invasão (Crimeia).

Há regiões que falam uma língua que, no fundo, é português com outro nome (Galiza).

Tudo isto e nem começámos a discutir o que é uma língua, não começámos a falar das diferenças sociais, das diferenças regionais, das diferenças de registo ou das diferenças entre os sexos.

As línguas são um fenómeno interessantíssimo. É de tudo isso que se fala por aqui.


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Quais são as línguas da União Europeia?

Hoje é o Dia da Europa. Talvez seja significativo que poucos europeus saibam disso… Mas não importa: hoje deixo-vos aqui uma pergunta sobre as línguas da União Europeia. É uma pergunta muito mais difícil de responder do que parece.

Se quisermos saber quais são as línguas oficiais da União Europeia, é relativamente fácil responder. São 24 e a lista está aqui:

  • Alemão
  • Búlgaro
  • Checo
  • Croata
  • Dinamarquês
  • Eslovaco
  • Esloveno
  • Espanhol (ou castelhano)
  • Estónio
  • Finlandês
  • Francês
  • Grego
  • Húngaro
  • Inglês
  • Irlandês
  • Italiano
  • Letão
  • Lituano
  • Maltês
  • Neerlandês (ou holandês; ou flamengo)
  • Polaco
  • Português
  • Romeno
  • Sueco

São 24 e já parecem muitas… Mas a questão é mais complexa. Afinal, há línguas oficiais em certas zonas da União Europeia que não aparecem aqui (o catalão, o luxemburguês, o galês…). Por outro lado, algumas das línguas que aqui aparecem são muito menos faladas do que algumas das que faltam (o maltês, o irlandês…).

Depois, temos aquelas línguas que não são oficiais, mas que existem e são faladas nativamente por alguns europeus (para não falar das línguas trazidas pelos imigrantes): o mirandês, o gaélico escocês, o lapão, etc.

A diversidade de línguas é enorme — mas curiosamente o continente europeu é dos menos diversos em termos linguísticos. Como é possível? A realidade é esta: embora o número de línguas oficiais seja muito elevado, o número de línguas realmente faladas é baixo. Se olharmos para as Américas, temos poucas línguas oficiais: o inglês, o espanhol, o francês, o português e o neerlandês (julgo que não me esqueci de nenhuma). Na Europa — e basta restringirmo-nos à União — o número é muito mais elevado. Mas se quisermos contar as línguas efectivamente faladas, as Américas têm todas as línguas nativas, que são centenas… Já na Ásia, só a Índia conta com centenas de línguas efectivamente faladas: muito mais do que em toda a Europa.

Voltando à nossa questão. A pergunta também pode ser entendida da seguinte forma: quais são as línguas realmente faladas nas instituições europeias? Sabemos que há um exército de tradutores a criar as várias versões dos documentos europeus. Mas nos corredores do Parlamento Europeu e da Comissão? Aposto que podemos ouvir quase todas as línguas, mas com uma certa preponderância para o inglês, o francês e o alemão — e talvez mais a primeira. Há quem diga, aliás, que já existem um inglês comunitário, uma espécie de inglês simplificado que todos os eurocratas usam — e que os ingleses têm alguma dificuldade em usar, ironicamente.

Bem, desejo-vos um bom Dia da Europa.

Fiquem com um mapa simplificado (!) das línguas do nosso velho continente:

400px-Languages_of_Europe

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADnguas_da_Uni%C3%A3o_Europeia#mediaviewer/Ficheiro:Languages_of_Europe.png

 

Afinal, diz-se “espanhol” ou “castelhano”?

Já me aconteceu usar o termo “espanhol” e ter alguém a corrigir-me, como se tivesse dito um grande disparate: afinal, devia saber que o nome correcto da língua oficial de Espanha é “castelhano”. Também já ouvi um espanhol a declarar alto e bom som que a sua língua é a espanhola e nunca por nunca diria que fala “castelhano” — esse espanhol parecia, aliás, bastante indignado com o uso da palavra “castelhano”.

A questão, na realidade, até é simples: a língua oficial em Espanha (e em vários outros países) tem dois nomes: “espanhol” e “castelhano”. Ambos se referem à mesma língua e são sinónimos. Ponto final.

Enfim, os pontos finais raramente são completamente finais… Os termos “espanhol” e “castelhano” são usados em situações diferentes, embora continuem sempre a referir-se à mesma língua. Espanha usa preferencialmente o termo “espanhol” nas suas relações com o exterior (por exemplo, através da acção do Instituto Cervantes). No território espanhol, o termo “castelhano” é usado, muitas vezes, como forma de contrapor o espanhol às outras línguas de Espanha. A própria Constituição Espanhola chama “castelhano” à língua oficial em toda a Espanha (co-oficial com outras línguas nalgumas regiões).

Nos outros países “hispanohablantes”, as várias constituições escolhem, de forma aparentemente aleatória, uma ou outra denominação da língua. O uso real do nome pela população varia de país para país:

 

[Fonte]

Como podemos ver no mapa acima, nas regiões espanholas onde também existe outra língua oficial, usa-se preferencialmente o termo “castelhano” — isto se exceptuarmos os independentistas, que dirão “espanhol” com prazer, pois é a língua de Espanha, que não é o país com o qual se identificam. Os outros habitantes das nacionalidades históricas preferem “castelhano” porque sabem que é apenas uma das várias línguas espanholas.

Já conheci catalães que nunca diriam “espanhol” para se referirem à língua de Espanha — mas também conheci uma mexicana que nem conhecia o termo “castelhano” para se referir à língua que falava. Também nos E.U.A., onde o espanhol é a segunda língua, com uma tradição de séculos, praticamente ninguém usa o termo “castelhano”.

Já a Real Academia Espanhola, assumindo que ambos os termos são correctos e sinónimos, recomenda o uso do termo “espanhol”.

Para resumir: em Portugal, podemos usar ambos os termos. Se querem um conselho, prefiram “espanhol”, que sempre é mais comum e mais claro… Mas nem por sombras se lembrem de corrigir alguém porque prefere dizer “castelhano”.

Instituto Cervantes

Mas afinal que língua se fala na Ucrânia?

Nós, portugueses, habituados a um Estado com uma só língua, ficamos muito baralhados com a situação linguística dos outros países. Por exemplo, a Ucrânia: o que raios se passa num país onde (dizem-nos os jornalistas) uma grande parte da população fala ucraniano, mas há também muita gente a falar russo? Afinal, que línguas se falam na Ucrânia — e porquê?

A situação é tão complexa que não chega um pequeno post para a destrinçar, mas algumas notas poderão ajudar a perceber a geografia linguística da Ucrânia:

  • As fronteiras europeias são muito mais movediças do que a situação particular portuguesa pode fazer crer. Há territórios que pertenceram a muitos países ao longo dos últimos três séculos (para não recuarmos mais). No caso da Ucrânia, há territórios que foram do Império Austro-Húngaro enquanto outros sempre estiveram sob o domínio (mais ou menos intenso) da Rússia — e já estamos a simplificar muito. Daqui resulta uma situação linguística complexa, em que partes do território sempre falaram ucraniano e outras sempre falaram russo (por “sempre” estou a querer dizer “nos últimos séculos”, claro).
  • Durante o século XX, a Ucrânia fez parte da URSS, como sabemos. A União Soviética teve, em termos linguísticos, várias fases: houve alturas de intensa “russificação”, ou seja, de política oficial de imposição duma língua única em toda a união (o russo) e outras de tolerância e até promoção das línguas “regionais” (como o ucraniano). Ou seja, alturas houve em que famílias que sempre tinham falado ucraniano começaram a incentivar os filhos a falar apenas a língua oficial da grande nação soviética, outras em que famílias que sempre tinham falado russo não se importaram que os filhos aprendessem ucraniano na escola. Estas vagas de imposição ou tolerância linguística criaram situações complexas — e por isso não convém pensar que há duas comunidades absolutamente separadas e opostas nesse que é o segundo maior país da Europa.
  • Já nos anos 90, a Ucrânia independente tentou impor o ucraniano como língua nacional e oficial — algo que pode parecer natural a qualquer português. No entanto, esta política de normalização linguística implica sempre uma certa imposição às minorias, principalmente à minoria que fala russo. Também neste caso a tolerância para com o russo — que tinha sido a língua do Estado até ao momento da independência, para se tornar em língua minoritária na nova Ucrânia independente — teve fluxos e refluxos. O certo é que a língua oficial é hoje, apenas e só, o ucraniano.

Estas são as três fases (em termos muito gerais) que levaram à complexa situação actual. No fundo, cada Estado — primeiro a União Soviética, depois a Ucrânia — sonha com uma situação em que tem nas suas fronteiras uma comunidade nacional e linguística homogénea. Ora tal situação é raríssima — Portugal é dos poucos países em que tal acontece de forma quase perfeita. Este “sonho” leva a acções de uniformização e imposição intermeada por períodos de tolerância oficial e a situação acaba por ser muito mais complexa do que pensamos — principalmente num território que passou por fases de uniformização com base em duas línguas diferentes, separadas por poucos anos.


Dito tudo isto, sabemos que a Ucrânia se divide em duas zonas de limites pouco claros, mas que podemos identificar no seguinte mapa:

http://edition.cnn.com/interactive/2014/02/world/ukraine-divided/ (mesma fonte abaixo)

Este mapa tem uma correspondência muito forte com o sentido de voto nas últimas eleições presidenciais:

Como sabe quem tem lido notícias sobre a situação nesse país, esta correspondência entre línguas e votos é já um cliché quando falamos da Ucrânia.

“Ou seja, quem fala russo na Ucrânia não são apenas imigrantes?”
Exacto. Os falantes de russo na Ucrânia não são estrangeiros. Haverá muitos que imigraram de outras zonas da antiga URSS — mas muitos outros (talvez a maioria) fazem parte da população nativa da Ucrânia.

“Os falantes de russo são todos contra o novo governo e a favor do anterior?”
Obviamente que não. A situação não é assim tão clara. Mas há uma tendência bastante acentuada para apoiar o anterior governo entre quem considera o russo a primeira língua, como podemos ver no mapa acima.

“Quem fala ucraniano compreende russo e vice-versa?”
A questão da inteligibilidade das duas línguas terá de ficar para outro post. Mas independentemente da compreensão mútua, é importante compreender que os ucranianos aprenderam russo na escola durante a União Soviética — e os falantes de russo residentes na Ucrânia têm aprendido ucraniano nas últimas décadas. Só por aí há um grau de compreensão mútua muito elevado. Mas, como veremos noutros posts, a simples facilidade de entendimento linguístico não significa que duas comunidades sintam alguma identificação entre si. Por vezes, a coisa passa-se ao contrário: a antipatia ou hostilidade leva a um maior afastamento linguístico. Fica para depois.

Porque é que os espanhóis falam tão depressa?

A minha resposta é: será que falam assim tão depressa?

Já sei que dizer que os espanhóis não falam depressa é um sacrilégio em Portugal, mas às vezes é preciso blasfemar um pouco para aprender alguma coisa.

Podemos pensar na questão doutra forma: se nós achamos que os espanhóis falam muito depressa, será que eles nos ouvem a falar muito devagar?

Antes de tentar responder, gostava de vos propor um exercício: coloquem-se discretamente numa mesa de café. Agora, oiçam algum grupo de portugueses a conversar animadamente sobre um assunto que os entusiasme. Abstraiam-se do sentido das palavras e tentem perceber se estão a falar depressa ou devagar. A não ser que tenham escolhido um grupo de filósofos a tentar imitar um diálogo socrático de forma teatral, provavelmente chegarão à conclusão que os portugueses também falam rápido pa caraças.

Pois bem, não fui perguntar, mas quase que aposto que os espanhóis, quando nos ligam alguma coisa, acham que falamos como foguetes — e ainda por cima enchemos o foguete de sibilantes e vogais esquisitas. Reparem: no tempo que um espanhol leva a dizer “vocales”, já o português disse três vezes “v’gais”.

Andei à procura de sites e posts espanhóis sobre a velocidade da fala dos portugueses. Conclusão? Os espanhóis não querem saber da velocidade a que os portugueses falam… Mas lá encontrei, num canto escondido da blogoesfera, um estudante de Erasmus que se queixa: “los portugueses hablan muy rápido”. Isto enquanto tece elogios rasgados a Lisboa e aos portugueses (ai, se falassem mais devagar…).

Enfim, proponho-vos uma outra explicação para o facto de ouvirmos os espanhóis a falar tão depressa: se calhar o problema é outro. Se calhar, os portugueses compreendem um pouco pior o espanhol do que o português (porque será?…) e interpretam inconscientemente essa dificuldade como velocidade da fala do vizinho. De certa forma, a proximidade entre as línguas só acentua o fenómeno. O cérebro do português suspira ao cérebro espanhol: “tenho a certeza que se falasses mais devagar conseguia compreender-te na perfeição…”

Como afirma Jeffrey Kluger, num artigo da Time de 2011:

É uma verdade quase universal que qualquer língua que não compreendemos soa como se estivesse a ser falada a 250 km/h — uma avalanche de sílabas estrangeiras quase impossível de separar. (1)

Por isso, é bem provável que os portugueses oiçam os espanhóis a falar depressa — e que por sua vez os espanhóis oiçam os portugueses a falar como quem está atrasado para apanhar o comboio. Esta é uma espécie de teoria da relatividade da velocidade da fala: achamos sempre que os outros povos falam mais depressa do que nós.

Há uma questão mais geral e talvez mais interessante: será que há línguas realmente mais rápidas do que outras? Fica para um próximo post (2).

Luis Vaz de Camões pictogram

Luis Vaz de Camões pictogram (Photo credit: pedrosimoes7)


(1) Original: “It’s an almost universal truth that any language you don’t understand sounds like it’s being spoken at 200 m.p.h. — a storm of alien syllables almost impossible to tease apart.”

(2) Mas entretanto podem espreitar o artigo da Time que acabei de citar…

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