Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Julho 2014

Espanha e Catalunha: os dados estão lançados

Mariano Rajoy (presidente do Governo de Espanha) e Artur Mas (presidente da Catalunha) encontraram-se hoje em clima de tensão. Artur Mas quer realizar uma consulta independentista no dia 9 de Novembro. Rajoy diz que essa consulta é ilegal e inconstitucional e não irá realizar-se. Nós, portugueses, podemos dar-nos ao luxo de olhar de fora, apesar de estarmos aqui tão perto. O que pode acontecer?

  1. O governo catalão desiste da ideia em troca de algumas concessões.
  2. O governo catalão tenta avançar, mas o governo espanhol impede a consulta, podendo chegar ao ponto de suspender a autonomia catalã.
  3. O governo catalão avança e Espanha é incapaz de impedir a consulta. 
    1. A independência ganha.
    2. A independência perde.
A hipótese 1. iria acalmar as hostes por uns tempos, mas depressa tudo voltaria ao mesmo. A hipótese 2. seria muito perigosa, no curto prazo, com a política espanhola de pantanas. A hipótese 3.1. seria extremamente perigosa, com toda a probabilidade de intervenção do exército. A hipótese 3.2. seria a mais estável, com o assunto arrumado por vários anos.
Na minha opinião, a hipótese 2. é a mais provável. Veremos o que acontece.
Nota:
Tudo isto está a milhas do pacífico processo escocês, onde as duas partes acordaram um referendo, realizado de forma legal e constitucional (o que, no Reino Unido, é mais fácil, pois não há constituição escrita a exigir reformas difíceis). Espanha podia ter ido pelo mesmo caminho, mas não nos podemos esquecer que, para um inglês, o Reino Unido é uma identidade complexa, que permite a cada um imaginar-se britânico ou inglês (ou escocês, etc.). Já em Espanha, temos duas ideias de Nação opostas: um catalão vê a Catalunha como nação; um espanhol doutra zona vê Espanha como uma nação una e indivisível; neste contexto, o processo catalão é um ataque terrível à identidade nacional de cada espanhol. Já o processo escocês é quase uma mera questão de economia e organização interna (não é assim tão simples, mas a diferença é notória).
“Mas é que nem penses!”

“Não hajas como uma galdéria”: erro ou gralha?

Encontrei hoje, no grupo Tradutores Com Vida, uma imagem dum erro crasso mesmo ali no meio duma legenda. A frase era “Não hajas como uma galdéria.”

Obviamente, a legenda foi objecto de críticas assassinas. Um tradutor não pode dar-se ao luxo de ser ignorante da língua, que é o seu material de trabalho.

Claro que não pode. Este é, objectivamente, um erro grosseiro. Merece, certamente, que a estação seja avisada (ou o próprio tradutor), para a correcção em futuras emissões do episódio.

No entanto, nos comentários, surgiu a dúvida: será isto uma gralha (erro por distracção) ou um erro (erro por ignorância)? Muitos comentadores inclinaram-se para a segunda hipótese, pois não parece possível que alguém coloque ali um “h” por mera distracção. Todos se lembrarão, certamente, da confusão entre “há” e “à”, o mais famoso erro por ignorância da nossa língua. Isto só pode ser prova de imperdoável ignorância.

A minha pergunta é: estará o tradutor convencido que a forma “hajas”, naquele contexto, é correcta? Ou seja, estará convencido que o verbo em questão se escreve “hagir”? Não me parece. O que se passa é uma confusão momentânea entre “hajas” do ver “haver” (“espero que não hajas feito nenhum disparate” — é uma construção rara, mas legítima) e “ajas” do verbo “agir”.

É um erro semelhante à confusão entre “houve” e “ouve”. Quem tem um mínimo conhecimento da língua sabe distinguir perfeitamente as duas formas. Mas, no momento da escrita, é perfeitamente possível haver uma confusão momentânea e lá aparece um “h” onde não devia. Basta reler e o erro desaparece, claro. Mas um erro destes não prova acima de qualquer dúvida que a pessoa não saiba escrever. O uso do “h” é propenso a distracções e a gralhas. Por isso é tão importante a revisão no final — e ainda uma revisão por outra pessoa.

Poderá o tradutor desta legenda estar realmente convencido que é assim que se escreve? Estaremos perante um caso de ignorância gritante da ortografia da nossa língua? Não é de excluir a hipótese, mas, se for esse o caso, o episódio deverá apresentar outros erros. Aliás, se o tradutor está mesmo convencido que o verbo “agir” se escreve “hagir”, o episódio deve estar pejado de erros gritantes. É uma questão de verificar. Tomar este erro como prova irrefutável de desconhecimento da língua pode ser precipitação.

Alguns dirão: “Não podemos desculpar o tradutor. Isso seria um imperdoável facilitismo.” Ora, não se trata de desculpar ou deixar de desculpar. Considerar este erro como uma gralha só nos pode levar a ser mais exigentes connosco próprios: qualquer um de nós pode cair num erro destes. Podemos ter a ortografia na ponta da língua e escrever, num dia aziago, “não hajas como uma galdéria”. Por isso, para sermos exigentes connosco próprios, devemos pressupor que qualquer um de nós pode cair neste tipo de erro — nada de baixar a guarda só porque temos confiança naquilo que sabemos.

Não nos podemos esquecer que, para o espectador, seja erro ou gralha, vai dar ao mesmo: o que tem à sua frente é um erro tremendo. Por isso, custe o que custar, devemos evitar estas situações. Devemos ser muito pouco tolerantes connosco próprios. Pensar que só acontece aos outros é meio caminho andado para termos um erro destes escarrapachado no ecrã de televisão.

Isto será certamente um bom motivo para discutir a forma como os erros nas legendas são muito visíveis e têm consequências muito claras na imagem pública da profissão do tradutor. Tanto assim é que estou convencido que as legendas deviam ser sujeitas a revisões e controlos de qualidade muito mais apertados do que outro tipo de traduções — mas acontece exactamente o contrário.

Fica para outro dia.

Um espectador perante um erro numa legenda.

Adenda
O meu colega +Nuno fez-me ver uma coisa interessante: todos olhamos para o erro ortográfico gritante, mas esquecemo-nos doutro problema naquela frase: a expressão “não ajas como uma galdéria” é muito pouco natural. Fica para outro post a discussão sobre as condicionantes da legendagem que levam a estas frases tão estranhas…

As notas do tradutor são uma desistência?

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Será a nota do tradutor uma espécie de desistência? Será uma declaração da intraduzibilidade daquele ponto do texto? Não me parece. Comparem com o caso dos textos originais: quando um escritor deixa uma nota do autor, não dizemos que há qualquer coisa que ele não sabe escrever. A nota do autor é parte do texto literário. Da mesma forma, uma nota do tradutor não significa que o tradutor não saiba traduzir aquele ponto particular do texto; antes pelo contrário, está a traduzi-lo de forma bem visível (podemos, talvez, não concordar com a técnica usada). A nota do tradutor é parte da tradução. Uma nota do tradutor que fosse sintoma de intraduzibilidade diria algo do género: “neste ponto, o autor usa uma palavra que não posso traduzir, porque representa um conceito incompreensível para os falantes da nossa língua; deixo, assim, este espaço em branco”. Nunca vi uma nota deste tipo — porque, na realidade, não encontrei até hoje uma frase intraduzível (nem que fosse através duma nota do tradutor).

Notas do Tradutor

Reparem nas notas do tradutor. Abram um livro traduzido e, em muitos casos (mas não em todos), se folhearem com atenção, encontrarão uma dessas notas (marcada N. do T. ou N. da T.).

Estarão lá para explicar ao leitor qualquer coisa que ele não sabe e é essencial para compreender aquele ponto do texto.

Este será o princípio, mas é fácil encontrar casos em que as notas parecem um pouco excessivas: certamente o tradutor não julgará que o leitor não sabe aquilo…

Pois, assim será, mas dêem o benefício da dúvida ao tradutor, que não só encontra nessas pequenas notas uma das formas de escapar à famosa invisibilidade que assola a nossa profissão, como pensou bem no caso — além disso, será assim tão óbvio o que sabe ou não o leitor?

Perguntemo-nos, antes, se os leitores das traduções não têm, neste caso, alguma sorte em comparação com os leitores das obras originais: têm alguém a explicar aquilo que muitos nem sequer sabem que não sabem.

Enfim, só essas pequenas notas do tradutor têm muito que se lhes diga, como já viram. E há muito mais a dizer sobre a tradução e tudo o que a rodeia.

É isso que encontrarão por aqui — mas não prometo que não fuja para outros assuntos, quando assim me aprouver.

Livros na Praia das Maçãs

Será que os livros e a praia combinam? Nem por isso, se pensarmos bem. Temos, por um lado, a areia a enfiar-se pelas páginas ao mínimo levantar do vento ou às passadas indiscretas de alguém. Depois, convenhamos que é difícil encontrar uma posição confortável. Há os gritos e o sol a queimar a nuca — e as inevitáveis distracções.

Enfim, lá se consegue, às vezes, um ou outro momento em que a leitura rola com facilidade e então é um prazer. O som das ondas ao fundo, as crianças a brincar e nós, naquele momento, perdidos na leitura com um calor bom em redor de nós (e uma sombra agradável, presume-se).

Sim, eu sei, há outras coisas para se fazer na praia, mas quem tem este vício não consegue evitar levar sempre um ou mais livros ao lado do farnel…

Digo-vos isto tudo porque há uns dias fui com a minha mulher e filho até à Praia das Maçãs — e, claro, tive de levar dois livros, não fosse o diabo tecê-las e terminar um deles no meio da areia.

Vou ter de confessar esta vergonha: aos trinta e poucos anos, ainda nunca tinha posto os pés nessa praia. O ambiente é um pouco diferente doutras praias. Primeiro, toda aquela zona (Sintra, Colares…) é de ficar apaixonado, como devem saber. Aquela estância balnear, com o terminal do pequeno comboio e o casario a olhar para a praia tem o mesmo sabor da própria palavra “estância” — um Verão de há muitas décadas, no final duma estrada que vem de Sintra, entre famílias que não imaginavam que veriam os netos a ir de fim-de-semana para a Costa da Caparica (isso é onde?), depois para o Algarve e, mais tarde ainda, para as praias doutros mundos, do outro lado do oceano ou mesmo do outro lado do mundo.

Imagino que algumas famílias se tenham mantido fiéis a estas praias da costa de Cascais e Sintra, a olhar o oceano no ponto mais ocidental do continente, num ambiente muito distante das Albufeiras da vida.

Pois, lá fomos até à praia, eu de livro na mão e outro na sacola. O livro que estou a ler é um livro de ciência de Richard Dawkins. Nada tem a ver com praias, como devem imaginar. Mas agora, quando pego nele para continuar a leitura, sabe-me a sal e areia e a dias de Verão (que os que temos agora são de Inverno, como sabem).

É esse um dos poderes secretos dos livros: transportam-nos para os lugares onde os lemos. Mas isso, claro, só sabe quem gosta mesmo de ler.

Malhoa_-_Praia_das_MacasJosé Malhoa, Praia das Maçãs, 1918.

 

A língua portuguesa fez 800 anos? Mais vale estar calado…

Leio este Manifesto sobre os 800 anos da nossa língua (aliás, os 800 anos do primeiro documento oficial) e acho que não deixa de ser uma forma inteligente de falar da língua sem cair no já cansativo tema do “acordo ou não acordo”.

Sim, é bom falar da nossa língua sem polémicas e sem medos.

Será? Ora, já devia saber que as pessoas interessadas nestes assuntos estão especialmente susceptíveis ao vírus do purismo inflamado.

Por baixo do artigo, lá encontro um link para um blogue brasileiro que refere o manifesto publicado pelo Público.

Vou ler o post desse blogue. O blogger faz link ao Manifesto, mas parece ficar ligeiramente enojado com o português do Manifesto: «Eu até ia postar o texto inteiro — apócrifo — sobre os 800 anos da língua portuguesa, mas comemorar uma data tão importante com um “a nível de”, eu me recuso!»

A ideia geral é esta: ah, e tal, eles até celebram a língua, mas estão a maltratá-la.

Porquê? Porque no Manifesto, a certa altura, encontramos a expressão “a nível de”.

Pois, exacto.

O que interessa estarmos a falar da nossa língua, quando o texto que a celebra usa tão pérfida expressão?

Bolas, tenho de perguntar: o que está errado com esse uso de “a nível de”?

Será uma expressão pouco clara?

Será uma expressão demasiado “popular”?

Será pouco formal?

É evitada por pessoas de elevado nível académico?

Ou tudo isto é apenas uma irritação pessoal do autor, umas das manias linguísticas que algumas pessoas não conseguem distinguir dos erros verdadeiros?

Neste caso, para além do purismo inflamado, presumo que haja alguma confusão do blogger, que não estará habituado à variante lusitana do português, na qual “a nível de” é perfeitamente aceitável (talvez um pouco afectada).

Pelos vistos, no Brasil, é considerada um “erro comum” (vejam o número seis desta lista).

É, provavelmente, daquelas expressões que muitos usam e alguns acham que ninguém deve usar, porque é feio e hoje não me apetece.

Mesmo que seja um erro no Brasil (não me parece, mas não vou comentar), não é um erro na variante em que o texto está escrito.

Temos aqui um exemplo claro da crítica “disparar primeiro e perguntar depois”. A expressão parece errada? Vamos acusar os autores do texto de maltratarem a língua! Nem vale a pena dar o benefício da dúvida.

O crítico fica sempre protegido no seu escudo de Protector da Língua. Os outros que se cuidem…

Mesmo que a expressão não fosse a mais feliz; mesmo que pudéssemos rescrever o texto para a evitar; mesmo que fosse um erro… Será o suficiente para mandar para as urtigas todo o texto?

A nossa tolerância linguística só pode ser zero? Não podemos celebrar a língua e falar da língua sem medo de irritar os polícias da língua?

E o que importa aqui é o que o texto diz (até porque está muito bem escrito…).

A língua que se celebra não é só a língua ideal que está na cabeça de cada um. É a língua toda, do Acre a Timor… Temos um texto que chama a atenção para essa data que ninguém conhecia: o aniversário do primeiro documento oficial em português (e, em Portugal, o Manifesto teve impacto mediático, raro nestas questões da língua).

Mas que vale isso perante uma expressão que nos irrita?

Como traduzir palavras intraduzíveis

Ora, há que começar por dizer que é raro uma palavra poder ser traduzida por uma só palavra noutra língua. Muitas vezes, a uma palavra corresponde uma expressão (e vice-versa). É possível imaginar casos em que o tradutor tem de escrever um parágrafo inteiro para traduzir uma só palavra. Outras vezes, uma frase inteira pode ser traduzida por uma só palavra. Dito isto, desafio quem julgar ter encontrado a mítica Palavra Intraduzível a pensar no seguinte: consegue explicar o significado dessa palavra? É provável que consiga. Descreva o significado o melhor possível, usando todas as palavras que quiser. Pois bem, agora traduza essa descrição para a língua que desejar. Pronto: a palavra intraduzível está traduzida! E, provavelmente, um tradutor experiente conseguiria traduzir usando muito menos palavras — e, seja como for, a tal Palavra (aparentemente) Intraduzível, se estiver integrada numa frase, irá ter um significado mais preciso e mais facilmente traduzível. Sim, é verdade: traduzir é muito difícil. Mas, até prova em contrário, nunca é impossível.

English: Translation barnstar
English: Translation barnstar (Photo credit: Wikipedia)

Em busca de palavras intraduzíveis (e unicórnios voadores)

Não acredito em palavras intraduzíveis. Não posso provar que não existam (ninguém pode provar que X não exista nalgum ponto do universo), mas considero-as tão improváveis como um unicórnio voador. E julgo não errar muito se disser que não há ninguém no mundo que tenha encontrado um desses unicórnios ou uma dessas palavras. Como podemos definir uma palavra intraduzível? Ora, tendo em conta que uma palavra só ganha verdadeiro sentido quando integrada num texto ou, pelo menos, numa frase (com o contexto incluído, se faz favor), definiria uma frase intraduzível como: uma frase em determinada língua que explica um aspecto da realidade que está para sempre fora do alcance da compreensão dos falantes de outra língua [1]. O que veríamos se encontrássemos duas pessoas a usar a tal frase intraduzível? Veríamos algo assim: um dos falantes diz a mítica frase; o outro abre os olhos e vemos surgir na sua face a expressão inconfundível da súbita compreensão de qualquer coisa que não se percebia antes. Perguntamos aos dois falantes o que estão a discutir. Olham para nós, esforçam-se um bocado, e acabam por encolher os ombros. Conseguem explicar na sua língua, mas não conseguem traduzir para nenhuma outra língua. A tradução das palavras intraduzíveis é apenas e só o silêncio. Como vêem, não podemos dizer com certeza absoluta que tal coisa seja impossível, mas é tão improvável como um unicórnio voador.

[1] Os aspectos da realidade de que falo aqui podem incluir a realidade cultural de qualquer povo. Longe de ser intraduzível, podemos sempre explicar essa realidade cultural a outros povos.

English: A unicorn.
English: A unicorn. (Photo credit: Wikipedia)



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