Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Agosto 2014 (Página 1 de 3)

Para quem acha que os SMS estragam a ortografia

Vejam o xkcd de hoje (via Language Log):

I'd like to find a corpus of writing writing from children in a non-self-selected sample (e.g. handwritten letters to the president from everyone in the same teacher's 7th grade class every year)–and score the kids today versus the kids 20 years ago on various objective measures of writing quality. I've heard the idea that exposure to all this amateur peer practice is hurting us, but I'd bet on the generation that conducts the bulk of their social lives via the written word over the generation that occasionally wrote book reports and letters to grandma once a year, any day.

http://xkcd.com/1414/

Edimburgo dos Sete Mares

Há cidades que valem só pelo nome. Edimburgo dos Sete Mares é, sem dúvida, uma delas. O aspecto é banal, como podem ver:

Tristan_da_Cunha4

“Tristan da Cunha4” by Chris and Steve at flickr – flickr. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons.

No entanto, só pelo nome, apetece-nos zarpar e descobrir que terra será esta.

Até porque é a capital da ilha mais isolada do mundo, perdida no meio do Atlântico. A ilha de Tristão da Cunha:

tristan-imagem

“Tristan da Cunha, British overseas territory-20March2012” by Brian Gratwicke from DC, USA – Tristan da Cunha – a perfect volcanic coneUploaded by snowmanradio. Licensed under CC BY 2.0 via Wikimedia Commons.

tristan

Já que estamos num site de línguas, fiquem a saber que a língua oficial é o inglês (a ilha pertence ao Reino Unido), mas o nome da ilha tem uma óbvia origem portuguesa (em inglês: Tristan da Cunha), pois era português o descobridor desta pérola do Atlântico: Tristão da Cunha.

Já agora, vista de longe, Edimburgo dos Sete Mares já parece mais interessante:

TRISTAO 3

“Edinburgh-Tristan” by michael clarke stuff – Edinburgh of the 7 seas 07. Licensed under CC BY-SA 2.0 via Wikimedia Commons.

Um teclado chinês tem milhares de teclas?

Uma amiga minha que está a viver nos Emirados Árabes Unidos enviou-me uma curiosa fotografia dum teclado local:

TECLADO ÁRABE

Para quem gosta de línguas, é engraçado pensar como será escrever neste outro alfabeto. Não só as letras são muito diferentes, como temos de escrever da direita para a esquerda. Se quiserem experimentar, alterem a configuração do vosso teclado para árabe e tentem escrever no Word.

A direcção de escrita é diferente. O cursor aparece à direita e, ao escrevermos, as letras vão mudando de aspecto, porque as letras árabes são diferentes se estiverem no início (direita), no meio ou final (esquerda) das palavras.

árabe

Quem souber árabe, perceberá rapidamente que este texto não quer dizer nada…

Bem, se o árabe será estranho aos nossos olhos, o que dizer do chinês? Os chineses usam milhares de caracteres! Será que um teclado tem de ter milhares de teclas? 

Obviamente que não. Existem várias formas de inserção dos caracteres chineses. Uma das formas implica o uso de combinações de letras latinas com números, indicando ao computador qual o carácter a escrever. Existem ainda formas que implicam o uso de uma caneta digital, para que a pessoa escreva, de facto, os vários caracteres. Os sistemas variam entre a República Popular da China e a República da China (Taiwan). Hong Kong e Macau também têm sistemas próprios.

Aqui fica uma imagem dum teclado chinês:

CHINES

E para gosta de passear por outras paragens, aqui fica também a imagem dum teclado indiano:

indian

Já alguma vez ouviu alguém a falar basco?

Todos nós já ouvimos falar dessa estranha língua falada nessa região encavalitada nos Pirenéus, mas quantos já ouviram alguém a falar a língua? Vejam este vídeo (confesso que não percebo nada):

Quem quiser aprender algumas frases, aqui tem outro vídeo (está pensado para falantes de inglês, mas vai ter de servir):

O basco é uma língua de origem desconhecida, que já era falada naquela zona muito antes da chegada do latim. É hoje co-oficial na comunidade autónoma do País Basco, em Espanha, e em certas zonas de Navarra, outra comunidade autónoma. Em França, a língua não tem estatuto oficial, mas é possível encontrar placas da estrada em basco.

Fiquem a saber como se diz “bem-vindos”:

English: Entrance to Okondo (Araba, Basque Cou...

English: Entrance to Okondo (Araba, Basque Country, Spain) Euskara: Okondoko sarrera (Araba) (Photo credit: Wikipedia)

Houses in Ziaurritz, Odieta, Navarre, Basque C...

Houses in Ziaurritz, Odieta, Navarre, Basque Country. (Photo credit: Wikipedia)

“O comer está na mesa!”

comer na mesa

Há muitas pessoas que não gostam de ouvir a expressão “o comer“.

Estão, obviamente, no seu direito. Aliás, convém perceber que a expressão não é nada bem-vista em certos círculos sociais e incentivar o seu uso pode levar a situações embaraçosas. É uma questão de etiqueta — e todos sabemos como, muitas vezes, a etiqueta é irracional e importante.

A questão é outra: quem não gosta da expressão acusa quem a usa de estar a cometer um erro de português. Ora, na realidade, o prevaricador estará, no máximo, a cometer um erro social, mas não um erro linguístico.

“Então mas ‘comer’ é um verbo: não podemos usar como substantivo!”

Não só nada impede as palavras de saltarem classes gramaticais, como esse fenómeno é muito comum, sem levantar qualquer questão. Reparem nas frases:

– “O saber não ocupa lugar.”

– “O teu olhar é lindo.”

“Saber” e “olhar” são verbos transformados em substantivos — tal como “comer” na expressão “o comer está na mesa”.

“Tudo bem, mas se temos a expressão ‘a comida’, é um erro inventar outra expressão para dizer a mesma coisa.”

A língua tem muitos casos de sinónimos ou palavras de significado parecido. “Saber” também tem significado semelhante a “sabedoria” e ninguém se importa. Por que razão havemos de impedir o uso de palavras só porque existem outras palavras com significado parecido? Teríamos de apagar dos dicionários imensas palavras (quase todas).

“Está errado e pronto! E cada vez oiço mais, infelizmente!”

O que acontece não é que cada vez se oiça mais esta expressão: há é cada vez mais contacto entre vários grupos sociais e, assim, todos estamos mais expostos à variação linguística — que, na realidade, tem vindo a diminuir ao longo das últimas décadas, devido à maior escolarização e a esses maiores contactos sociais.

Quanto a dizer que está errado e pronto, é uma estratégia habitual no comentário aos usos linguísticos dos outros. Mas é uma estratégia, esta sim, errada. Uma coisa é o gosto pessoal de cada um e ninguém é obrigado a gostar desta ou daquela expressão (ou desta ou daquela pessoa) — outra coisa é apontar o dedo a um suposto erro de português só porque sim.

“Só mostra o facilitismo que grassa por aí!”

A acusação de facilitismo nos debates linguísticos é muito… facilitista. Neste caso, não há qualquer facilidade em usar “o comer” em vez de “a comida”. Há até um aumento das opções em termos de vocabulário, com uma maior dificuldade na escolha…

“Então porque tanta gente diz que está errado?”

Não sei explicar, mas tenho uma teoria: há expressões que ferem os ouvidos de algumas pessoas, como “funeral”, “vermelho” e outras que tais, por serem, supostamente, sinais de uma certa origem social. Ora, no caso de “o comer”, quem tem esta sensibilidade demasiado apurada encontrou alguns pseudo-argumentos linguísticos contra o uso da expressão. Esses argumentos e ideias espalharam-se através de conversas, comentários, etc. — e acabámos por ter de lidar com o mito de que “o comer” é um erro linguístico. Não é um erro linguístico: é, como disse acima, um possível erro social, se a expressão for usada em meios sociais que a abominam.

Por isso, vamos todos respirar fundo. “O comer” não faz mal a ninguém. Pode ser, apenas, um pouco desagradável, por falta de hábito de quem ouve. Pode também ser um erro social. Não não é um erro de português.

Tratem da fama e do comer,

Que amanhã é dos loucos de hoje!

— Álvaro de Campos, “Gazetilha”

“timida fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado”

“visinhança”, “theoria”, “Janellas Verdes”, “á beira”, “Collegio”, “emfim”

Erros de ortografia? Nem por isso: apenas a forma como escrevia Eça de Queirós. [Aviso: não faça isto em casa: hoje em dia estas palavras são, de facto, erros ortográficos…]

Quem tiver curiosidade de ver como era a primeira edição d’Os Maias, pode encontrá-la aqui.

Para já, fiquem com o início e o fim da obra que atormenta os alunos portugueses há tantos anos — é pena tantos caírem na esparrela de pensar que um livro é mau só por ser obrigatório, grande e não começar da forma mais excitante possível. Na realidade, é divertidíssimo…

 

 

Porque existem tantas línguas?

Esta pergunta merece muito mais do que um pequeno artigo, mas uma forma rápida de perceber a resposta é imaginar um mundo onde a humanidade falasse uma só língua.

Nesse mundo monolingue, imaginem o dia em que alguém descobre um animal novo. O nosso descobridor dá um nome ao animal: elom. Caça o pobre animal e leva-o até à sua tribo, onde todos ficam contentíssimos. O elom é delicioso bem assado no fogo (que a tribo tinha descoberto há umas semanas).

Dias depois, esta tribo encontra uma outra tribo. Contam, entusiasmados, a descoberta do elom. A outra tribo diz-lhes: “mas nós chamamos a este animal ganim! Já há muito tempo que andamos a comer ganim assado!”

Raios. E agora? Elom ou ganim? Como manter a unidade da língua mundial?

Não há resposta. Seria impossível. Cada tribo vai continuar a chamar ao animal o nome que inventou: elom ou ganim. Mesmo que aquelas duas tribos chegassem a acordo (e não chegariam), uma terceira tribo poderia nem vir a saber que o animal que anda a comer tem outro nome na tribo da floresta ao lado.

Multipliquem isto pelas descobertas e invenções de cada tribo e aí têm: várias línguas. Multipliquem ainda pelo número de tribos do mundo e percebem por que razão se multiplicam as línguas.

Se quiserem pensar um pouco melhor na questão, imaginem que a tribo original se divide em três. Anos depois, uns dirão elom, outros dirão alom, outros dirão alomi, e por aí fora: em breve teremos três línguas. Portanto, mesmo quando começamos com uma só língua, rapidamente encontramos divergência linguística se houver algum tipo de separação entre os falantes.

Como a humanidade nunca viveu como uma só tribo (pelo menos, nos últimos largos milhares de anos), nunca poderia ter uma só língua, a não ser que essa língua fosse muito limitada e inflexível. Ora, a linguagem humana é flexível: é isso que a distingue das formas de comunicação animal (que nós também temos: basta pensar nos gritos). Para ser flexível, tinha de estar sujeita a mudança e permitir a dispersão, porque é impossível uma reunião de toda a humanidade para discutir que palavra usar para cada situação nova que encontramos.

É por isso que a nossa língua (e todas as outras) está sempre a mudar. Inventamos palavras e expressões todos os dias: alcunhas, novas palavras, palavras antigas que ganham um significado ligeiramente diferente e por aí fora.

Há quem fique horrorizado com esta mudança, encarando-a sempre como decadência. Mas a mudança incessante de todas as línguas (e a consequente diversidade linguística) é o preço a pagar pela flexibilidade da nossa linguagem, que se adapta constantemente ao mundo (isto quando não muda só por mudar, o que acontece imensas vezes; a língua é um bicho que não controlamos…).

Em resumo, podemos resumir a resposta numa espécie de fórmula: flexibilidade linguística + mudança linguísticaseparação física = línguas diferentes.

(E, para dizer a verdade, a diversidade das línguas é maior do que parece. As línguas nacionais são uma espécie de ficção que quase sempre esconde uma situação ainda mais caótica do que pensamos. Fica para depois.)

Línguas e Tradução pelo mundo

Pelos vistos, um site sobre línguas em português já foi lido em países como o Vietname e a Malásia. É estranho, mas… Obrigado a todos!

Este é o mapa do alcance geográfico deste site:

mapa

Os portugueses gostam que os brasileiros falem português?

Escrevi este artigo há alguns meses, depois de perceber que uma frase tão simples como “‘saudade’ é uma palavra genuinamente brasileira” causa indignação entre os portugueses. (Acima, podem ver uma foto do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.)

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Babel: Steiner e a Mentira

por NUNO LOPES

Em 1975, George Steiner, autor francês e figura incontornável da crítica literária, da linguística e da filosofia da segunda metade do século XX, publicava After Babel: Aspects of Language and Translation, com revisões em edições posteriores (1992 e 1998). Esta autêntica “pedra no charco” (ou no deserto) da teoria da tradução e da linguagem é ainda hoje uma das obras de leitura essencial para qualquer tradutor e para quem tem interesse ou curiosidade por línguas, linguística ou pelos subdomínios linguísticos da filosofia.

O ensaio de Steiner tem um fio condutor relativamente simples: o entendimento da tradução como qualquer acto de comunicação significante entre emissor e receptor. Por outras palavras, segundo Steiner, há tradução sempre que há comunicação efectiva e não apenas quando há transposição de texto de uma língua para outra. A ideia é desenvolvida e proposta como basilar para que se possa considerar estabelecer uma teoria da tradução.

Um dos aspectos abordados por Steiner – na minha opinião um dos mais interessantes e centrais – foi a importância da “mentira” para a linguagem humana. A palavra mentira tem uma carga imediatamente negativa, mas aqui deve ser entendida no sentido mais lato: ilusão ou invenção. O autor dá-lhe um nome específico: “alternity”. Trata-se do poder da invenção, a capacidade para criar conceitos alternativos à realidade ou, numa perspectiva evolutiva, a “camuflagem pela linguagem”. Na opinião do autor, esta é uma das funções vitais da mente humana. A infra-estrutura do raciocínio é de Nietzsche e é exposta sobretudo em der Wille zur Macht: a verdade é limitadora para o ser humano na medida em que apenas o faz agir normalmente, ou seja, conforme previsível; já a mentira, a fantasia produto da imaginação, arma o ser humano com o potencial de se tornar – e de fazer do mundo – aquilo que idealiza na sua mente. Em última análise, é por isto que somos mais do que meros animais presos na engrenagem fria da sobrevivência. Steiner pega nesta ideia para examinar o poder inventivo da linguagem, poder esse que presenteia a espécie humana com aquilo a que o autor designa por “ilusão da liberdade”:

Language is the main instrument of man’s refusal to accept the world as it is. (…) We speak, we dream ourselves free from the organic trap.

Em termos filosóficos, esta questão é tremendamente importante para o estudo da linguagem e da tradução e, creio que não será excessivo dizê-lo, o mesmo é verdade para várias disciplinas das humanidades e das ciências. O motor criativo primordial chamado linguagem permitiu-nos, como espécie, conceber existências nas quais não somos meros figurantes numa história pré-determinada, mas sim actores que improvisam constantemente, abençoados com o livre-arbítrio e com o engenho e curiosidade naturais.

O problema de Babel – a disseminação das línguas diferentes e mutuamente incompreensíveis – é apontado por Steiner como um dos maiores catalisadores de evolução sociocultural, material e civilizacional. Babel não foi um castigo para o Homem como se pretendia na resposta bíblica à questão das línguas. Foi antes uma bênção determinante para a evolução da espécie humana: se a linguagem é um universo de concepção e criação, então cada língua, com o seu molde metafísico e as suas idiossincrasias, é uma galáxia de possibilidades.

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