Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Janeiro 2015 (Página 1 de 3)

Um livro passeando pelas minhas memórias

Sempre achei os livros mais do que textos: são objectos, coisas que ocupam espaço e têm peso — e ainda bem.

Um aspecto curioso destes objectos, e também das palavras neles impressas, é a forma como são uma espécie de âncoras de certas memórias, sinais dos dias em que os lemos.

Explico-me: acontece-me, por vezes, reler certo livro (ou mesmo abri-lo ao acaso) e recordar então o lugar onde o li e o que sentia na altura.

Estranhamente, não é preciso ter lido o livro para que este fenómeno aconteça: às vezes pego num livro por ler e lá me vem à cabeça o momento onde o comprei, onde o folheei pela primeira vez, com vontade de lê-lo até ao fim, vontade que lá ficou guardada por muitos e bons anos entre as duas capas.

Assim, cada livro é também uma pequena história dentro da minha vida. Vêm-me estas considerações à cabeça por causa do livro que comecei a ler hoje: Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho.

Li a primeira vez o livro por volta dos meus catorze anos, depois de o comprar numa feira do livro na minha escola primária, onde voltara para visitar a minha mãe, que era lá professora nessa altura.

imageEssa primeira edição era dum encarnado romano — ou duma cor que Mário de Carvalho descreveria com a palavra exacta, como é seu hábito. Afinal, consegue ser um escritor de vocabulário imenso e simultânea clareza cristalina.

Comprei o livro porque uma das leituras que me tinha aberto a porta aos prazeres da literatura fora a «Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho», que tinha lido, na íntegra, no meu manual de Português do oitavo ano. Foi aquele momento em que deixei de lado recomendações do professor e perguntas a responder e li com um prazer de que nunca me esqueci.

Bem, cheguei a casa e depressa estava embrenhado no romance, e pensar nos acontecimentos de Tarcisis é uma das formas que tenho de recordar a casa onde então vivia com os meus pais, naquela terra que era, na altura dos romanos, uma ilha.

O sabor do romance era bem diferente da gulodice da Inaudita Guerra. Lembro-me de ter ficado algo desorientado com aquele discurso romano, aquele ambiente sereno, onde irrompiam bárbaros — e cristãos. Lembro-me de pensar que o livro tinha um sabor metálico. Não sei o que isso quer dizer, mas foi o que senti.

Poucos anos depois, na minha fúria de arrebanhador de livros, fui comprando semanalmente uma colecção da Planeta DeAgostini de romances portugueses. Há quem torça o nariz a estas colecções de papelaria, mas não sofro desse mal. Para mim um livro é um livro é um livro. Comprei a colecção na papelaria dos meus avós maternos, donde guardo imensas recordações muito boas e uma recordação dolorosíssima que um dia conto (ou não).

Adiante: o certo é que nessa colecção lá vinha o Deus que passeia e acabei com dois livros iguais, mas de capas diferentes, nas estantes.

Pois foi nesse segundo exemplar, desta vez amarelo, que peguei ontem, quando precisava de escolher um livro para trazer para Ponte de Sor, onde vim passar o fim-de-semana na casa dos meus sogros. De certa forma, quis deixar no outro, intactas, as memórias de há muitos anos.

Estou a ler e está-me a saber melhor do que da primeira vez — não será uma questão de ser uma edição diferente, mas sim dos anos de leituras que entretanto passaram.

Este foi um livro que comprei a visitar a escola primária, armado em quase adulto a voltar ao local de infância; recordo-me agora aos 34, a sorrir perante esse jovenzito a ler romances feito gente grande. Talvez daqui a muitos anos leia este mesmo livro uma terceira vez, a recordar-me desses tempos em que o meu filho era criança.

Os livros são o que têm dentro e são também a vida que guardamos neles, quase sem querer.

O meu filho a falar

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Ao ver o meu filho a aprender a falar como uma esponja absorve água, só posso concluir que, de facto, o nosso cérebro está muito bem preparado para aprender a linguagem humana. Sim, temos um instinto para aprender a língua que nos rodeia (ou as línguas…).

Já a escrita é algo diferente, que aprendemos com esforço e que faz parte do nosso equipamento biológica: não houve evolução, mas antes invenção e, depois, transmissão. Quase que devíamos ter dois verbos diferentes: a fala apanha-se, a escrita aprende-se.

Mas, enfim, estas são reflexões que não interessam. O que me interessa é este espanto do meu filho a repetir palavras, a tentar explicar-se ainda de forma difícil, com os sons a aparecer no meio da algaraviada infantil como quem garimpa e vai descobrindo as palavras e fica espantado e feliz quando conseguimos compreendê-lo.

E há coisa mais espantosa do que começar a conversar com este miúdo que ainda há pouco tempo mal conseguia abrir os olhos e que vimos a nascer, a chorar pela primeira vez e a desenvolver-se mês a mês?

Atacar Maomé é o mesmo que atacar os nossos filhos?

  1. Depois da condenação aos ataques ao Charles Hebdo, começou a discussão sobre os limites à liberdade de expressão. Nada contra debater tão importante assunto, mas, neste contexto, faz tanto sentido como debater a presença de mulheres num beco escuro à noite depois de notícias de violações. Sim, há comportamentos de risco das vítimas, mas será que esse é o assunto mais importante? Não será mais importante debater a culpa dos violadores e dos terroristas?
  2. Mas, lá está, se temos liberdade de expressão, temos de aceitar debater essa mesma liberdade de expressão, mesmo quando parece fazer pouco sentido. Ora, parte do debate de ideias deve fazer-se na nossa própria cabeça. Ao contrário do que julgam algumas pessoas, o espírito crítico não é gostar de criticar os outros. É saber analisar as nossas próprias ideias, atacando-as para ver como se aguentar à bronca. Assim, é importante pensarmos nas ideias com as quais não concordamos.
  3. Neste sentido, tenho lido alguns argumentos contra a liberdade de expressão. Há uns dias, li uma ideia contra a liberdade de publicar cartoons de Maomé que me deixou intrigado. É uma boa ideia com a qual não concordo e gostava de explicar porquê. Um leitor do site de Jerry Coyne diz que devemos respeitar a sensibilidade muçulmana neste ponto, apresentando a seguinte comparação: para um muçulmano, ver estes cartoons sobre Maomé é o mesmo que, para qualquer um de nós, ver um cartoon de um filho nosso espalhado pelo mundo inteiro (e, para explicar melhor o sentimento de pudor por parte dos muçulmanos, o leitor diz que devemos imaginar um cartoon dum filho nosso todo nu).
  4. Ora, antes de pensarmos se a comparação é válida, temos de perceber por que razão defendemos a liberdade de expressão mesmo no que toca às ideias religiosas. Defendo que ninguém tem o direito de impedir que ideias ou religiões sejam alvo de crítica ou mesmo de sátira, por mais maldosa que seja. Se há algo a dizer, responde-se com argumentos, ideias, indignação escrita — mas nunca com ataques directos às próprias pessoas. Para quem acha que há ideias que são sagradas, lembremo-nos que a liberdade de expressão tem sempre dois sentidos: os críticos podem ser, por sua vez, criticados e quem satiriza pode ser satirizado.
  5. Mas porquê? Não seria razoável defender certas ideias da crítica? Tendo em conta a forma como muitas pessoas sentem qualquer crítica à sua religião como um ataque pessoal, não devíamos evitar este tipo de brincadeira ou este tipo de ataque à religião? A resposta só pode ser negativa enquanto estivermos a falar de ataques às religiões enquanto sistemas de ideias. Atacar os muçulmanos enquanto grupo de pessoas é preconceito; atacar os judeus enquanto pessoas também é preconceito; o mesmo se aplica aos cristãos e a qualquer grupo. Agora, o direito de analisar, criticar e mesmo satirizar qualquer ideia é essencial para a saúde das nossas sociedades.
  6. Pensem nisto: a religião cristã já foi violentíssima. Foi sujeita a um processo de crítica (muitas vezes em sociedades onde essa crítica era proibida) e, assim, humanizou-se. A crítica foi externa e interna: também dentro da Igreja houve evolução no bom sentido. Ora, quanto mais impedirmos a crítica livre às ideias, mais estas se podem transformar em monstros incontroláveis. Quase diria que devemos proteger a livre expressão especialmente no que toca a estes pontos sensíveis da nossa humanidade: religião, política, nacionalismo, economia… Da mesma forma, o Islão já foi mais violento (mas também mais pacífico) e há várias correntes e interpretações: limitar a liberdade de crítica e análise é dar um balão de oxigénio aos mais fortes, ou seja, aos terroristas.
  7. As ideias religiosas devem estar sujeitas a debate: devemos defendê-las ou atacá-las de acordo com o que pensamos e devemos ter o direito de mudar de ideias, pensar melhor no assunto, ouvir os argumentos de todos os lados sem ter medo de levar porrada ou um tiro na cabeça (ou um processo em tribunal).
  8. Da mesma forma, se impedirmos a discussão de certos assuntos ou proibirmos a expressão de certas ideias, é certo que esses assuntos e essas ideias irão ganhar força. O ideal é mesmo discutir tudo abertamente. Assim, mesmo ideias francamente feias como o racismo, o fascismo e outros que tais devem ser livremente discutidas, para que não fiquem a fermentar, escondidas por aí. Mesmo o preconceito deve ser livre, tal como livre deve ser o nosso direito de denunciar e atacar o preconceito.
  9. Voltando à comparação entre um cartoon de Maomé e um cartoon duma criança. A comparação parece inteligente e talvez transmita, de facto, o que sentem alguns muçulmanos ao ver tais cartoons. Mas daí até advogarmos a proibição ou contenção da sátira e do humor para não ofender alguém vai um passo que não devemos dar, porque essa liberdade é essencial (como vimos acima).
  10. Então quer dizer que devemos permitir cartoons dos nossos filhos todos nus? Obviamente que não! A segurança das pessoas que estão vivas — e em especial das crianças — está à frente da liberdade de expressão. Ninguém tem o direito de pôr em causa a segurança do meu filho: mas todos têm o direito de atacar as minhas ideias religiosas (ou outras), e eu o direito de as defender (ou até de mudar de ideias).
  11. Em suma: só devemos colocar limites à liberdade de expressão se essa liberdade puser em causa a integridade física de alguma pessoa ou atacar alguém que não se pode defender. Dir-me-ão alguns: Maomé é uma pessoa. Maomé foi, de facto, uma pessoa há muitas centenas de anos, mas hoje a sua imagem representa uma série de ideias que pode ser criticada ou defendida, satirizada ou idolatrada. Da mesma forma, um cartoon do Menino Jesus (ou do papa com um preservativo no nariz, pois o papa enquanto tal representa ideias e instituições) tem de ser permitido e protegido, mesmo que nos ofendesse pessoalmente. Já um cartoon dum menino que nasceu ontem está absolutamente fora de questão.
  12. Em resumo: as pessoas são mais importantes do que as ideias: não podemos pôr em causa a segurança de crianças e outras pessoas. Mas o direito de criticar as ideias dos outros deve ser protegido, porque nos ajuda a encontrar as melhores ideias e isso, a longo prazo, é uma forma de nos defender a todos, enquanto pessoas.

12 palavras que os espanhóis roubaram aos portugueses

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Na sequência do artigo de há uns dias sobre as palavras inglesas de origem portuguesa, fui tentar encontrar palavras espanholas que tivessem sido roubadas à nossa língua. São raras, mas existem: são os chamados lusismos do espanhol.

Depois de escavar um pouco, encontrei este artigo de Fernando Venâncio sobre o assunto.

Curiosamente, o artigo explica que é muito difícil saber quais são as palavras que têm origem no português e quais têm origem no galego. Afinal, nem sempre é fácil perceber onde acaba a nossa língua e começa a língua dos vizinhos de cima (ou se não serão ambas a mesma língua, no fim de contas).

Portanto, estes são 12 exemplos de palavras espanholas de origem portuguesa (começamos com algo muito doce, passamos por várias palavras aquáticas — afinal, somos gente da água — e acabamos com muito prazer):

  1. caramelo
  2. alecrín
  3. jangada
  4. lancha
  5. ostra
  6. perca
  7. mandarín
  8. barroco
  9. chato
  10. mimoso
  11. enfadar
  12. placentero

E lá vão as línguas emprestando e roubando alegremente.

O que só lhes fica bem.

Qual é o nome da nossa língua? Será galego?

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Há línguas com problemas de identidade: por exemplo, o catalão é chamado de valenciano na Comunidade Valenciana — alguns valencianos consideram este outro nome como uma outra forma de nomear aquela que é a mesma língua, enquanto outros consideram o valenciano e o catalão como duas línguas separadas. O governo catalão insiste na tese da unidade, o governo valenciano vai vacilando, ao sabor do vento político. Pelas Ilhas Baleares, onde as variantes da língua são bem mais distintas do que em Valência, a questão é pacífica: a língua é o catalão e o mallorquí (falado em Maiorca), eivissenc (falado em Ibiza), etc. são os nomes dos dialectos locais.

Sem sair de Espanha, temos ainda o problema do nome da língua oficial de todo o Reino: espanhol ou castelhano? (Já falámos disso neste site.) Há que dizer que este fenómeno da multiplicação dos nomes não é um problema exclusivamente ibérico: os coreanos têm dois nomes para a sua língua, por exemplo.

Adiante. O que nunca passaria pela cabeça a um português é ver esta questão colocada em relação à sua própria língua. Gostamos, às vezes, de chamar “brasileiro” ao português além-Atlântico, mas ninguém duvida que a língua que se fala em Portugal tem um só nome e é português. Perguntar qual é o nome da nossa língua parece um disparate dos antigos.

Ora, na verdade, há quem dê outro nome à nossa língua: os reintegracionistas galegos defendem que o galego e o português são uma só língua, com dois nomes diferentes nos dois lados da fronteira. Ou seja, falamos todos galego-português, dando-lhe um nome diferente conforme o sítio onde estamos.

Para os reintegracionistas, esta união do galego e do português serve dois propósitos: não só marca a independência do galego em relação ao espanhol, como integra a sua língua num conjunto internacional que liberta o galego da apertada identidade de língua regional. (Não nos podemos esquecer que também nós sentimos esta necessidade de distinção marcada em relação aos vizinhos e, simultaneamente, de expansão da nossa identidade imaginada.)

Alguns diriam ainda que olhar para o galego e para o português como uma só língua é uma visão mais fiel à verdadeira história do nosso idioma, nascido em redor do rio Minho, sem olhar para a fronteira que divide galegos e portugueses.

E a verdade é que a língua que os reintegracionistas escrevem é indubitavelmente a nossa (usam uma ortografia do galego que se aproxima conscientemente da nossa ortografia). Se têm dúvidas, visitem a página da Associaçom Galega da Língua. As marcas que distinguem a ortografia galega da portuguesa são poucas, mas incluem este curioso “çom” que nos faz recordar a pronúncia do nosso Norte.

Alguns reintegracionistas vão mais longe: querem chamar português ao galego, sem mais. Defendem a criação da Academia Galega da Língua Portuguesa. A ortografia, neste caso, é igual à portuguesa.

Do lado oposto, o governo da Galiza defende a separação entre as duas línguas, promovendo (e ensinando) uma ortografia bem diferente, que afasta o galego do português (como podemos ver no site oficial da Xunta de Galicia). Também aqui há uma narrativa identitária a proteger: o galego é uma língua própria da Galiza, onde é co-oficial com o castelhano. Não há qualquer interesse em promover a ligação da língua galega a uma língua estrangeira como o português. Não se quer perigosas associações a identidades pouco espanholas. Temos, assim, uma língua própria, mas muitos “eñes”.

O galego vê-se assim na situação curiosa de ter um espectro de ortografias que percorre as ideias políticas de cada um… Para cada posição política, uma ortografia.

Pessoalmente, sempre tive um fraquinho pela diversidade linguística de Espanha, embora mais virado para o lado catalão da península. Nos últimos tempos, no entanto, tenho sentido um interesse crescente pelo galego e pelas implicações políticas da ortografia e do nome que se dá à (nossa?) língua na região vizinha.

Também acho muito curioso como uma questão sobre a nossa língua passe ao lado da quase totalidade dos portugueses. Para nós, a Galiza não é personagem nas narrativas que contamos sobre Portugal e o mundo. E se calhar é pena…

(Repare-se que falei apenas de ortografia — num próximo artigo, falarei do galego falado e da forma como é encarado pelos portugueses.)

A Europa não é a nossa tribo

No Medium.com, escrevi um artigo em que pergunto:

“Para a minha geração, a Europa é um conjunto de coisas simples: percorrer a Europa de InterRail sem passaporte; poder trabalhar noutro país sem pedir autorização; poder votar em eleições continentais (e não o fazer…); fazer compras pela Internet sem pagar alfândegas; passear por uma qualquer cidade europeia e senti-la um pouco nossa. […] Seremos capazes de proteger um espaço que não nos põe o coração a bater, que não é uma nação, e nos dá apenas algo tão banal — e tão importante—como o conforto de não ter de lutar pela nossa tribo?”

Os segredos da tribo dos livros

O gosto por acumular livros apanha-se uma vez e dele dificilmente nos curamos. Normalmente, começa cedo e durante alguns anos os sintomas não são muito visíveis: afinal, é preciso algum tempo para acumular um número de livros suspeito.

Mas aí por volta dos vinte e muitos já ninguém tem dúvidas: quem chega a nossa casa sabe que vai encontrar livros onde nenhum decorador se lembraria de os colocar e sabe que vamos ter livros a sair do bolso dos casacos, livros em cima dos bancos dos carros, livros dentro das malas, livros debaixo do braço, livros na mesa do jantar…

Ora, esta minha tribo dos acumuladores de livros tem alguns segredos. Aqui estão alguns deles.

1. Compramos mais livros do que conseguimos ler

Sim, amigos, a resposta à eterna pergunta “mas já leste estes livros todos” é um rotundo “não”. Se alguma vez os lerei a todos? Talvez, mas para isso tenho de parar de comprar novos livros, o que é pouco provável.

Agora, certamente que já li partes de todos estes livros, que já li a totalidade de alguns, já reli alguns outros, já fiz e desfiz pilhas de livros por ler, já os juntei, separei e voltei a juntar, já li cinco ao mesmo tempo, fui deixando para trás alguns deles, voltei a pegar noutros anos depois — e outras combinações: li um livro inteiro entre o capítulo 2 e 3 de outro, deixei alguns no penúltimo capítulo e por aí fora.

Conheço algumas pessoas que afirmam ter lido todos os livros que têm em casa. Somos uma tribo diversa e (quero acreditar) tolerante. Mas quem diz isto ou tem muito poucos livros (o que poderá ser uma necessidade) ou passa demasiado tempo a ler coisas de que não gosta. Ou então engana-se a si próprio: porque outro dos segredos bem guardados é este — podemos não ler os livros todos que compramos, mas quando compramos um livro, a nossa intenção é lê-lo.

2. Se não souberem onde estamos, procurem numa livraria

De cabeça para o lado e para o outro ao sabor da direcção das lombadas — assim gostamos de estar muito mais tempo do que aguenta a paciência de quem nos acompanha. Lá pegamos neste ou naquele livro, deixamos de lado, espreitamos lá para trás, farejamos os nossos autores favoritos, passamos a conhecer as prateleiras das nossas livrarias de tal maneira que percebemos quando alguém andou ali a mexer ou a desarrumar.

Quando penso em cidades onde gostaria de viver, a primeira imagem que me vem à cabeça são as livrarias. Não me consigo imaginar a viver no sítio onde não possa procurar livros que ainda não conheço.

Mesmo nas férias, não desdenho de estar alguns dias numa qualquer praia ou à beira duma piscina a descansar ao sol (com um livro na mão), mas para mim o prazer absoluto em viagem é um sítio com muitas livrarias. Sou um bicho de cidade, muito por causa de pertencer a esta tribo.

3. Damos demasiada importância ao aspecto dos livros

Parece um sacrilégio, mas por vezes julgamos um livro pela capa. E pelo papel. E pelo tipo de letra. E pelo cheiro. E pelo peso. E pela textura. E por tudo o mais que está para lá do texto. Os livros são objectos e temos um verdadeiro desejo quase doentio por afagar-lhes a capa. Internem-me, se quiserem.

É por causa desta relação física com os livros que tantos de nós têm dificuldade em aceitar os livros electrónicos. Para mim, são um outro tipo de livros, talvez um pouco menos apetitosos. Mas compreendo que, para algumas pessoas, sejam uma cedência a qualquer coisa de artificial, muito longe desse objecto com cheiro e textura de que gostamos tanto.

Mas não fiquem com tanto medo: neste mundo há de tudo, desde os livros criados em máquinas a cheirar a óleo e tinta até textos impressos em tinta electrónica nos Kindle deste mundo. Há lugar para todos.

4. Um dos nossos maiores pesadelos é estar numa fila interminável e não ter um livro para ler…

Os livros são uma forma de aproveitar a vida. Exacto: quem lê gosta muito de viver, ao contrário do que dizem as más línguas, que julgam ver nestes calhamaços uma fuga à vida bem vivida. Antes pelo contrário: quem lê consegue viver até numa fila da segurança social.

É verdade, por vezes hesitamos entre ler e sair à noite (o que não quer dizer grande coisa): os prazeres duma boa noite com um livro na mão são muitos. Agora, o que preferimos sem qualquer hesitação é ter um livro na mão quando temos de estar parados nalgum sítio. Para quê perder tempo a olhar para uma parede, quando podemos estar a ler?

5. Temos medo de andar de avião porque não queremos perder a mala dos livros

Para começar, levamos sempre livros a mais. Nunca se sabe o que pode acontecer, e as nossas vontades de leitores são, por vezes, imprevisíveis. Sim, estamos no início deste calhamaço de 500 páginas, mas quem sabe se não o terminamos amanhã de manhã? Ou quem sabe se não nos apetece mudar de livro a meio da noite?

Ora, os livros lá vão enterrados numa das malas de porão. Mas há sempre um, ou dois, ou três livros que seguem bem perto de nós, apesar de todos os limites das companhias aéreas. Imaginam o que é aterrar num qualquer país paradisíaco e perceber que não há livrarias ou só podemos comprar livros numa língua que não compreendemos?

Bem, para dizer a verdade, até um livro numa língua desconhecida guarda prazeres secretos para a nossa tribo. Já me aconteceu passar longos minutos a folhear um livro em sueco, à procura de certas palavras que me abrissem uma pequena janela para o que estava escrito ali — e só o passar os dedos pelas páginas já era razão suficiente para estar ali, assim, a olhar para as letras numa língua desconhecida.

Somos uma tribo muito estranha…

O sol de Inverno

IMG_1332O meu filho tem dois anos e alguns meses e já começa a sentir a necessidade muito portuguesa de sair de casa logo que vê o sol a entrar pela janela.

Pois este domingo, logo que acordou e viu o brilho do sol lá fora, desatou a pedir para ir para a praia naquela língua dele que ainda é difícil de traduzir.

Fizemos-lhe a vontade e fomos dar uma volta a Carcavelos.

Ao voltarmos para Lisboa, pela Marginal, só tinha vontade de fotografar aquilo tudo.

Sim, já sabemos que há dias difíceis, mas também sabemos que há dias assim, em que o sol compensa, principalmente com o nosso filho ao lado, a rir.

Uma biblioteca com mais de 1500 anos

Não, os livros não são para sempre: dificilmente sobreviverão mais do que algumas centenas de anos — principalmente os livros pejados de químicos que temos nas nossas casas (é só ver a cor dos exemplares de há alguns anos).

As obras da Antiguidade chegaram até nós através do trabalho moroso dos copistas medievais, que foram passando os textos de papiro em papiro até chegar ao porto seguro da imprensa (e, agora, do texto digital). Livros romanos há pouquíssimos: a palavra voa, mesmo quando escrita. (Curiosamente, o trabalho dos tradutores lá vai dando um certo balão de oxigénio às obras literárias; mas isso fica para outro dia.)

Há, no entanto, uma biblioteca romana que chegou até nós: a Vila dos Papiros, na cidade romana de Herculano, destruída pelo Vesúvio no ano de 79.

Os livros estão carbonizados, mas ali estão, como uma lembrança duma civilização imensa que desapareceu, os seus livros queimados pela lava e pelo tempo. Alguns deles só agora começam a ser decifrados, apesar de terem sido descobertos no século XVIII.

Podem saber um pouco mais neste artigo.

Leio esta história e imagino: será que os livros que um qualquer de nós tem em casa serão, fruto do acaso e das catástrofes vindoras, os únicos livros da nossa civilização que restarão por volta do ano 4000?

Imaginem: o gosto particular de um de nós poderá vir a representar todo o conhecimento da nossa civilização…

Sete palavras inglesas de origem portuguesa

Há quem se queixe muito dos anglicismos e outras invasões da língua portuguesa, mas o certo é que as línguas nunca foram e nunca serão compartimentos estanques. Andam sempre a entornar palavras umas nas outras.

O inglês, por exemplo, veio cá buscar umas quantas palavras. Podem ler uma extensa lista aqui, mas fiquem com estes sete exemplos:

  1. Zebra. A nossa amiga zebra é portuguesa, com certeza. Quer dizer, não será portuguesa, que por cá não há muitas, mas o nome que os ingleses lhe dão veio da nossa língua, que andou por aí  a explorar o mundo e a descobrir animais. Não só a zebra, mas também o…
  2. Mosquito. No fundo, é uma pequena mosca, um mosquito, e assim ficou em português, em inglês — e em espanhol… Há que dizer que há muitas palavras cuja origem ibérica se torna difusa: tanto podem ser de origem portuguesa como espanhola. Sei que isto pode doer a algumas pessoas mais dadas a separações muito marcadas, mas não partilhamos uma península só porque sim.
  3. Albatross. Voltando aos animais, temos este belo pássaro cujo nome é português, mesmo quando falamos inglês.
  4. Fetish. Quem diria?… O fetiche inglês veio do fétiche francês, que por sua vez veio do feitiço português. Curiosamente, o fétiche francês também foi devolvido ao português, com outro significado.
  5. Auto-da-fé. Esta é uma palavra inglesa de origem portuguesa que nos pode embaraçar, o que nos leva a outra das palavras inglesas de origem ibérica…
  6. Embarrass. Já sabemos que embaraçar pode ser um falso amigo espanhol. Os ingleses, por seu turno, vieram cá roubar e não lhe mudaram o significado.
  7. Verandah. Já neste caso, a língua inglesa copiou a nossa palavra, mas deu-lhe um twist: a verandah inglesa é o nosso alpendre.

Há outras? Claro que sim: mas estas sete são muito curiosas…

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