Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Abril 2015

A ansiedade na tradução

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As línguas são o menor dos nossos problemas de comunicação

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Sim, é exactamente isso: as línguas são um problema muito difícil, mas já temos soluções bem antigas…

  1. Aprender outras línguas (é sempre demorado, mas nunca é impossível);
  2. Pedir ajuda aos tradutores e intérpretes (e olhem que já cá estamos há muito tempo, apesar de sermos proverbialmente invisíveis).

Ora, há problemas de comunicação bem mais difíceis: as chatices do dia-a-dia; as diferenças culturais; as diferenças ideológicas; as diferenças de temperamento; a falta de paciência; as ideias erradas com que nos enganamos; a arrogância com que desprezamos os outros; o desejo de não perder a face numa discussão; e por aí fora…

E, depois, há ainda isto: nós, humanos, adoramos dividir-nos em grupos.

Fomos feitos assim pelos insondáveis cálculos da evolução por selecção natural, que nos deixou inscrito no cérebro um tribalismo tremendo, que nos faz matar pelo grupo e odiar quem é diferente — basta para isso estarmos convencidos que os outros nos odeiam ou, pelo menos, que estão contra os nossos interesses (e basta quase nada para nos convencer disso mesmo).

Sentimos o sangue a ferver pela tribo. Lutamos de lança na mão. Estamos obcecados pela identidade, pela nação, pelo clube. Não gostamos de ambiguidades no que toca à tribo. Estamos permanentemente alerta para detectarmos traidores à pátria — seja a pátria a nação propriamente dita, o partido, o clube, o grupo de amigos ou seja o que for.

Chamemos-lhe tribalismo ou, até, se quiserem, instinto de divisão.

Ora, quando falamos com alguém que julgamos fazer parte doutra tribo (ou em quem julgamos encontrar alguma ambiguidade em relação à nossa tribo), não há tradutor que nos valha: vamos sempre interpretar da pior forma possível, vamos sempre ouvir o outro como se estivesse a falar a mais obscura das línguas.

Como resolver isto? Enfim, não sei. É um problema que vai muito para lá da tradução (e a tradução já é um problema bem bicudo).

Mas, tal como no caso das línguas, este problema tem muito a ver com palavras. Os grupos em que nos dividimos usam palavras ligeiramente diferentes (discursos diferentes) — ou, às vezes, sentem de maneira diferente as mesmas palavras.

Basta lançar para cima da mesa uma palavra tão simples como “futebol” e há quem se lembre do jogo que adora; outros haverá que sentirão a pulsar dentro de si a indignação pela “alienação da população portuguesa”. (Outros, ainda, sentem uma certa ambivalência: “Ah, sim, aliena, mas é bom.”)

Ouvimos a palavra “literatura” e uns lembram-se da emoção tremenda de ler aquele livro ou do prazer que é estudar a fundo um determinado autor. Outros têm uma vaga memória de livros que os professores lhes tentaram impingir há muito tempo e de alguns discursos inflamados sobre o valor da literatura que lhes dizem muito pouco.

Sim, somos muito diferentes — mas também mais parecidos do que pensamos. Não é impossível, muito de vez em quando, derrubar uma das muitas barreiras que erguemos em nosso redor. Não é impossível aprendermos a viver com o nosso tribalismo instintivo e aproximarmo-nos um pouco mais uns dos outros.

Afinal, também havia quem dissesse que a tradução era impossível…

Como pensa um terrorista?

1.

O que passa pela cabeça de alguém enquanto mata estudantes numa universidade? O que passa pela cabeça de quem tenta saber a religião duma jovem universitária para decidir se a mata com um tiro na cabeça?

2.  

Ninguém pode saber. No entanto, ao contrário do que gostaríamos de pensar, estes terroristas não são assim tão diferentes de nós. Recue-se alguns séculos e na nossa bela Lisboa tínhamos famílias a assistir, entre risos e alegria comunitária, à execução de judeus porque eram judeus.

3.

Há qualquer coisa de muito antigo nesta barbárie. O que temos ali é tribalismo em estado puro, acicatado pela religião. Na cabeça daqueles assassinos estará, certamente, a certeza de que “estes não são como nós”; a certeza de que “estes merecem morrer”; a certeza de que Deus não os ama como nos ama a nós.

4.

Sim, a religião pode ser muitas coisas — e muitas coisas boas — mas também pode ser o fermento do ódio tribal. Se tivermos a certeza de que os outros não são filhos do mesmo Deus, será mais fácil matá-los. O que importa é Deus e os seus fiéis. Os infiéis, esses, estão perdidos para toda a eternidade; mais vale acabar com eles. Na cabeça dum terrorista religioso, o que interessa quando olhamos para outra pessoa é saber se acredita ou não no exacto Deus a que nos calhou em sorte submeter-nos.

5.

Mas não nos concentremos na religião. Afinal, há quem mate por nacionalismo — e mesmo quem mate por clubismo. Acima de tudo, o que me parece que podemos encontrar na cabeça dum terrorista é tribalismo.

O que quero dizer com tribalismo? Quero dizer isto: o sangue a ferver de ódio por quem não é do nosso grupo (seja lá que grupo for) e um desprezo profundo por essa ideia descabida de que todos os humanos são parecidos e que a nossa verdadeira tribo é a nossa espécie.

Esta ideia de que todos os humanos são parecidos é uma ideia revolucionária, muito recente, complicada, que vai contra a corrente do nosso sangue violento. E é por isso que estes terroristas são, acima de tudo, anti-humanistas: para eles, os seres humanos só valem enquanto membros dum qualquer grupo e não como parte da humanidade.

Contra isto, convém dizer sem rodeios que nós somos como aqueles jovens mortos numa universidade do Quénia. Depois, convém não esquecer outra coisa: mesmo que eles não o saibam ou nos odeiem por dizermos isto, somos também como aqueles que puxam o gatilho.

Sim, é verdade: temos em nós a capacidade para sermos tão tribais como qualquer terrorista. Mas também temos dentro de nós a capacidade para ultrapassar esse tribalismo cruel. Por isso, convém deixar claro: estaremos sempre do lado dos que morrem por carregar aos ombros uma qualquer identidade que provavelmente nem escolheram.

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