Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Maio 2015

Formação em Tradução (e não só…)

Espero que não se importem com a publicidade descarada… Nas próximas semanas, vou ser formador/docente nos seguintes cursos:

Os cinco primeiros são sobre tradução. O último é sobre um outro tipo de problema, bem mais difícil do que a tradução entre línguas: a comunicação entre a Ciência e as Humanidades. Espero que gostem!

O que é que Budapeste tem?

Ora, perguntem lá a um português quais são as imagens que lhe vêm à cabeça quando ouve falar de Sevilha e depressa começam a ouvir castanholas e palmas à sevilhana. (Ui, e Sevilha é tão mais do que isso…)

Agora perguntem o que acham de Barcelona. Lá virão opiniões em catadupa, desde a mais disparatada (“ah, aquilo do Gaudí é uma brincadeira de mau-gosto”) até às mais sabidas (“se queres conhecer Barcelona tens mesmo é de ir à Gràcia depois das dez, ali como quem vira para…” e por aí fora).

Agora, perguntem lá a um português típico (esse ser difícil de encontrar) o que acha de Budapeste.

Silêncio.

Algum franzir de olhos.

Talvez, a medo, “isso é na Hungria, não é?”. Ou mesmo: “a capital da Roménia?” Ou então: “as cidades de Leste não me atraem”.

Tudo o que está para lá de Berlim é vago e distante — como se ainda tivéssemos a cortina de ferro nos olhos.

Pois bem, esta falta de estereótipos nem é muito má para quem viaja. Porquê? Porque não há nada pior para um viajante do que as expectativas. Ou são muito altas e a cidade desilude ou são muito baixas e a cidade desilude também (porque encontramos sempre maneira de ver as coisas da pior forma possível).

Assim, em branco, sem ideias, é que se quer um viajante daqueles que gosta mesmo de alargar as vistas (e não apenas de dizer que alarga as vistas).

E Budapeste é uma surpresa… (Pronto, lá fui estragar a inocência das expectativas de quem nunca cá veio.)

Não me vou pôr aqui a desfilar monumentos, avenidas, coisas a ver e a fazer. Não há grande interesse nisso — ou vêm cá ou não vos interessa por aí além.

Deixem-me só situar-vos um pouco esta cidade no imaginário de todos nós.

Sim, estamos aqui no meio da Europa Central. A Hungria é um país com um tamanho e população semelhantes a Portugal, mas com esta grandessíssima diferença: faz fronteira com 7-sete-7 países! Por isso, embora não tenha mar, acaba por sentir-se menos ilha do que nós, aqui perdidos entre o mar e Espanha, a Espanha e o mar — como o menino Jesus que ora está estendido ora está deitado do mítico sketch markliano feito pelo Herman há tanto tempo.

Budapeste era uma das capitais do Império Austro-Húngaro. É a cidade do Danúbio. Está a poucas horas de Viena, de Zagreb, de Liubliana. Faz fronteira com a Áustria e com a Ucrânia. É, de facto, um país da Europa Central.

A um português desprevenido, surpreende por ser tão grande. E surpreende por ser tão agradável, cheia de verde e rio e água e edifícios que deixariam muitas outras cidades um pouco mais arrogantes a roer-se de inveja não fosse dar-se o caso de as cidades estarem bem pegadas ao chão e, assim, não se conhecerem umas às outras.

Daqui sente-se a presença da Transilvânia, que os húngaros dizem ser um pouco sua, por lá também se falar esta estranhíssima língua. Resvalemos um pouco para o kitsch: andamos pelas ruas e muitos edifícios lembram castelos de condes misterioros, princesas a dançar valsas, vampiros à procura do sangue dessas mesmas princesas, torturas medievais, mistérios revolucionários, batalhas entre nazis e soviéticos, décadas para lá da cortina — e voltam os reis e as maldições, os jardins e as estátuas de heróis de aspecto algo exótico, trazendo em si um pouco das estepes da Ásia donde, dizem, veio esta estranha tribo de língua muito distante (tudo isto, claro está, é muito fantasioso, porque as tribos europeias, por esta altura do campeonato, estão tão misturadas que as nações são uma forma inventada de saciar a nossa sede de tribalismo).

Ora, para já fico por aqui. Mas deixem-me dizer-vos outra coisa: apesar de tudo, Budapeste, aqui na outra ponta da União Europeia, também nos deixa ver o que temos em comum com todos os europeus: são os cafés, os bancos do jardim, as avenidas afrancesadas do século XIX, os turistas em todo o lado — até certas ideias para inglês ver (como o carro em que os bebedores de cerveja pedalam pela noite fora ou o autocarro que se transforma em barco)…

Já agora, Budapeste e Lisboa têm esta coisa a que alguns chamariam charme: são cidades bem reais, onde quem as visita se sente transportado para histórias que julga já ter ouvido e que são saborosas e que têm esse encanto de sairmos muito facilmente das ruas de turistas e ficarmos ligeiramente perdidos.

Entramos num filme, sim, ou numa história com bruxas e ogres e vampiros. E no fim acordamos e estamos a tomar café num barco no Danúbio, com o castelo de Buda lá em cima e a cidade bem europeia a ferver de gente e autocarros à nossa volta.

Insultos bumerangue

Já todos sabemos como é o ambiente nas caixas de comentários por essa internet fora. Para lá entrar, é preciso fato protector.

Ora, há uns dias, numa rápida aventura por um esgoto desses, encontrei um curioso caso de insulto bumerangue.

Estava na caixa de comentários a uma entrevista a Noam Chomsky. O linguista norte-americano, como é seu hábito, falava de muita coisa para além da linguística.

Um comentador armado ao pingarelho, perante um americano a falar de política e não sei que mais, escreve algo deste género: “Cá está mais um americano ignorante que acha que sabe tudo”.

Fartei-me de rir.

Podemos acusar Chomsky de muita coisa: há quem não goste daquilo que fez na linguística e há quem não concorde com uma palavra do que ele diz sobre política externa norte-americana — afinal, Chomsky é um crítico implacável dessa política, de tal forma que por vezes raia o extremismo. (Há ainda quem tente dialogar com ele sem grande sucesso.)

Agora, aquilo de que ninguém pode acusar Chomsky é de ser ignorante.

Qualquer anti-americano europeu que se preze tem de conhecer Chomsky. Ele é uma das base intelectuais da crítica àquilo que os EUA fazem no mundo.

Ver alguém a usar Chomsky como exemplo da ignorância dos norte-americanos é das coisas mais retorcidas que já vi por essa internet. Será o mesmo que acusar os europeus de serem pseudo-intelectuais usando o Berlusconi como exemplo.

Aquele comentário anti-americano era uma demonstração profunda de ignorância: qualquer anti-americano que se preze conhece Chomsky.

Eis, assim, um óptimo exemplo de insulto bumerangue: alguém lança um insulto valente a outra pessoa, mas o insulto está construído de tal forma que dá meia-volta no ar e acerta em cheio na cara de quem insulta — sem ser preciso fazer mais nada. É só ficar a rir.

 

Tradução de Espanhol na Escola de Verão da FCSH

Em Julho, irei leccionar (em conjunto com a Prof.ª Isabel Araújo Branco) o curso de Tradução de Espanhol.

“Este curso destina-se a todos os interessados em desenvolver os seus conhecimentos de língua espanhola através da prática da tradução. Tem como objetivo dar uma formação básica inicial sobre a tradução de espanhol para português de textos em várias áreas: literários, técnico-científicos, de ciências sociais, de assuntos empresariais.

Está aberto a todas as pessoas com conhecimento de língua espanhola. O curso destina-se igualmente a tradutores no ativo que sintam necessidade de formação na tradução de espanhol para português.”

Mais informações nesta página.

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O Acordo e os tradutores

Sim, quase todos muitos de nós somos contra este Acordo.

Mas valerá a pena perder clientes porque estes nos pedem para usar o novo Acordo?

Não somos nós especialistas da língua, habituados a lidar com as complexidades culturais, políticas e linguísticas da nossa actividade?

Sim, podemos não gostar do Acordo, mas nada nos impede de ajudar os clientes a lidar com esta situação, aconselhando-os e, depois, aplicando a solução que escolherem.

(Depois, na nossa vida privada, podemos continuar a escrever com a ortografia que preferirmos. Nada nos impede e ninguém irá preso. E podemos até continuar a lutar pela revogação do Acordo, se for essa a nossa posição política sobre o mesmo.)

A palavra “saudade” tem tradução?

Claro que tem!

Para perceber isto, basta pensar que os tradutores não trabalham com palavras isoladas.

Traduzimos frases, parágrafos, textos…

Ora, tentem lá imaginar uma frase qualquer com a palavra “saudade” lá pelo meio que seja impossível de traduzir. Digamos que essas frases impossíveis estão ao nível dos unicórnios voadores…

Claro que “saudade” será traduzida de diferentes maneiras em diferentes frases. Pode até ser preciso escrever muitas palavras para traduzir aquilo que, em português, é dito apenas e só com “saudade”.

Mas é esse o trabalho dos tradutores, que são gente muito mais criativa do que se diz por aí — e muito habituados a resolver problemas, mesmo que o problema seja a palavra que todos dizem ser impossível de traduzir.

Estou certo que em nenhum livro traduzido do português apareceu um espaço em branco com a indicação: “aqui estava uma palavra que é impossível de traduzir”.


Um outro artigo sobre o mesmo assunto:

View story at Medium.com

Aula aberta sobre tradução certificada em notário na FCSH/NOVA

É já amanhã.

  

Devemos apontar publicamente os erros de português dos outros?

Imaginem que encontram um erro ortográfico num blogue ou no Facebook.

Aquilo dói-vos na alma de defensores da língua.

O que fazem?

Há quem tenha a tendência para apontar para o erro de forma muito pública, com toda a pontuação e palavras necessárias para mostrar que se está a rir a bom rir com a ignorância alheia.

Ora, talvez o mais correcto seja olhar para o texto e ver se o erro é uma distracção ou gralha ou se, pelo contrário, o autor tem problemas com a ortografia.

Neste último caso, uma humilhação pública só vai afastar a pessoa da melhor forma de aprender a escrever bem: ler e escrever muito. Mais vale ignorar, quanto a mim — mas compreendo que outros pensem doutra maneira.

Por outro lado, se o erro for uma distracção e se acharmos que vale a pena apontá-lo ao autor, qual a vantagem de fazê-lo em público? Podemos sempre enviar um e-mail ou mensagem privada.

Andar a envergonhar os outros publicamente só para mostrarmos quão espertos somos é um dos poucos verdadeiros “ataques à língua portuguesa”: retira confiança a quem escreve, faz-nos hesitar demasiado, leva a muitas desistências, deixa-nos a todos enervados e às vezes abre guerras sem grande necessidade.

Para dizer a verdade, defendemos mais a língua portuguesa quando a usamos sem medo — e é um prazer ler sem vestirmos a capa de caçadores de erros (quem trabalha em tradução tem de caçá-los por motivos profissionais…).

Abro uma excepção: quando os próprios atacantes gozam com erros alheios de forma pública e, vai-se a ver, os erros não são erros — nesse caso temos mesmo de os corrigir.

Ainda hoje fui acusado de inventar uma palavra. Qual palavra? A palavra “dum”.

Sim, eu sei que há quem odeie essa contracção, mas ela existe e é legítima. Não merece a forma empolgada como o comentário foi escrito.

(Isto foi escrito como comentário a uma partilha do artigo Quais as duas tarefas mais importantes dum tradutor?)

Ora, bastaria à comentadora ter-se lembrado d’A Queda dum Anjo. Para quem tem dúvidas, pode ir sempre ao Ciberdúvidas. Ou consultar uma gramática antes de acusar os outros…

Para lá das discussões de português, julgo que seria uma boa regra de etiqueta manifestar a nossa discordância em blogues e no Facebook como se estivéssemos cara-a-cara com a pessoa com quem não concordamos.

Mas aqui já estou a ser utópico, certo?

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