Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Junho 2015

Não escrever para não errar?

Fernando Venâncio, que tem um perfil de Facebook interessantíssimo e que deixa a milhas o que por aí se diz sobre língua portuguesa em blogues e artigos de jornal, lembra-se, uma vez por outra, de partilhar connosco exemplos do inventor de regras de português. O último exemplo foi Manuel Monteiro (revisor), autor do Dicionário de Erros Frequentes da Língua, que desata a condenar expressões da língua portuguesa como “pelos vistos” e “tenho saudades tuas” sem que tais expressões lhe tenham feito algum mal.

Os puristas deste calibre estão muito longe da velhinha dicotomia entre prescrever e descrever: eles não prescrevem, não descrevem, não fazem nada — dão umas opiniões sem fundamento sobre a forma como devemos falar e escrever, indo beber a algum vago fantasma de professora de primária, que provavelmente era bem mais sábia que estes inventores de regras absolutas.

Estes puristas pressentem (como médiuns) alguma lógica interna que todos os outros não comprendem (só eles, iluminados) e começam a exigir-nos que agora passemos a dizer “pelo visto” e não “pelos vistos” — porque, pelos vistos, “pelos vistos” está errado. Porquê? Porque sim, pode ser?

Lembro-me, há anos, de ter lido numa coluna de jornal que os portugueses estavam cada vez mais ignorantes porque agora se dizia por aí “terramoto”, quando o correcto é, sempre foi e sempre será, até ao final dos tempos, “terremoto” — que os outros milhões de portugueses digam “terramoto” é apenas prova que os portugueses não percebem nada de português. Na mesma coluna, o autor dizia que Fernando Pessoa era mau poeta porque inventava palavras… Ainda hoje sinto calafrios ao lembrar-me de tal leitura.

O triste é que estas pessoas acabam por prejudicar a própria língua de que se julgam defensores. Nada há pior para quem escreve ou para quem está a começar a escrever do que imaginar gente de lápis vermelho na mão, a inventar regras à pressão só para poder criticar os usos e costumes da língua, acusando-nos de insanável ignorância apenas porque estamos a usar a nossa língua — isto enquanto ignoram olimpicamente o que quer que seja que estejamos a tentar dizer.

Para esta gente, mais vale estar calado do que cair num destes “erros” que nos tentam impingir. A língua, para eles, é um daqueles copos de cristal que mantemos guardados num qualquer armário e nunca usamos para não estragar — ou só usamos debaixo de forte supervisão superior, não vá dar-se o caso de usarmos os gestos errados.

A língua não é sagrada: é bem humana, impura e ilógica — e ainda bem.


Foi corrigida a referência ao purista em questão após simpática correcção de Fernando Venâncio, que muito me honra com as suas visitas a este blogue.

Cinco ideias falsas sobre tradução

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1. “A tradução é impossível.”

Sim, anda por aí uma ideia muito engraçada e que repetimos à exaustão sem pensar muito nela (por exemplo, quando falamos da supostamente intraduzível “saudade“): a tradução, segundo essa ideia, é impossível. Há quem ache que nunca podemos transmitir o que é importante entre as várias línguas — e, no entanto, todos os dias há quem faça traduções e todos nós usamos traduções sem nos apercebermos. É uma actividade “impossível” que afinal é bem possível. A tradução pode ser difícil (claro que é), mas não é impossível: os tradutores lá conseguem desenvencilhar-se melhor do que por aí se julga. E, se pensarem bem, a comunicação é bem mais difícil entre pessoas que falam a mesma língua, mas pensam de formas muito diferentes do que entre pessoas que falam línguas diferentes, mas têm ideias semelhantes.

2. “A tradução é demasiado fácil.”

Se alguns acusam a tradução de ser impossível, muitos dizem que é tão fácil que até o primo de 9 anos sabe traduzir. Não há muito a dizer perante isto: é claro que, às vezes, é fácil traduzir — enquanto outras vezes é trabalho a raiar (lá está) o impossível. Tal e qual como escrever: todos nós sabemos fazer listas de supermercado, mas há muito poucos verdadeiros escritores — e também muito poucos que saibam redigir um manual técnico de uma qualquer área. A linguagem é imensa: para usá-la como deve ser pode ser preciso criatividade, ou conhecimentos técnicos avançados, ou paciência, ou muito trabalho — tudo isso também acontece com a tradução, em que para além de trabalhar com a nossa própria língua, temos de lidar com outra língua, com as suas manias e absurdos (que todas têm) — isto para não falar da língua própria de cada área técnica, por exemplo, e com todas as ferramentas necessárias para fazer um bom trabalho.

3. “A tradução não serve para nada.”

Por estes dias em que — supostamente — todos falam inglês, muitos sentem, intimamente, que a tradução tem os dias contados. E, no entanto, ela existe e cresce. A verdade é esta: podemos falar inglês e usá-lo para longas conversas com amigos doutras línguas e para negociar sem grandes dificuldades, mas quando queremos ler alguma coisa, seja literatura da boa ou um banal catálogo, continuamos a preferir a nossa própria língua. Não há maior tiro no pé do que uma empresa que quer vender, por exemplo, em França e publica os seus catálogos e a sua publicidade em inglês (além de ser, em muitos casos, proibido).

4. “A tradução é pouco criativa.”

A tradução exige grande criatividade. É uma criatividade um pouco diferente da criatividade da escrita (embora também tenha muito desta). É uma criatividade relacionada com a resolução de problemas, com a procura de soluções. Se quiserem, podemos dizer que é uma criatividade que tem de incluir muito da criatividade da escrita, conciliando-a com a fidelidade ao nosso texto de partida: é a criatividade necessária para reproduzir a originalidade e surpresa de um outro texto no nosso próprio texto, que tem de ser original e surpreendente sem deixar de ser fiel. É difícil e cansativo — mas também um desafio magnífico para quem gosta de trabalhar com palavras e de defender a comunicação e a arte.

5. “A tradução é rápida.”

Quase nunca é rápida. Por vezes, demora mais tempo a traduzir um texto do que a escrevê-lo (quem escreve pode optar por ir por outro caminho se determinada palavra for um escolho; quem traduz tem de resolver todos os problemas que lhe aparecem pela frente). Infelizmente, esta ideia falsa leva a pedidos de tradução com prazos absurdos, em que depois de um mês a escrever um catálogo, alguém pede a um tradutor para o traduzir em dois dias. Traduzir é um pormenor, não é? Para outro exemplo, agora da área da legendagem, leiam este artigo da Luísa Ferreira sobre como traduzir um filme demora muito mais do que a duração do próprio filme — para quem traduz, isto é óbvio; mas para muitas pessoas, traduzir é tão fácil como falar. E está tão longe disso que até dói — dói, literalmente, depois de dias de trabalho intenso.

A irresponsabilidade mortal dos anti-vacinistas

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Esta notícia é extraordinariamente triste. Triste, porque morreu uma criança e essa notícia é sempre das mais dolorosas. Triste, porque também os pais foram vítimas: vítimas duma infecção mental em que uma mistura estranha e perversa de teorias de conspiração, desconfiança da ciência e ignorância pura e dura leva à morte absolutamente desnecessária de um pequeno rapaz, que não terá oportunidade de aprender como muitas doenças foram deixando de matar ao longo do tempo tudo por causa daquela que será, certamente, uma das maiores invenções da Humanidade: as vacinas.

Sim, as vacinas salvam milhões de crianças de morrer de doenças como a que matou este menino.

Quem é contra as vacinas porque tem medo do que não percebe, informe-se, sem complexos e sem medos. Aqueles que vos dizem que as vacinas matam estão mal informados. Por vezes, há boas pessoas que têm ideias erradas. Acontece. Get over it.

Quem é contra as vacinas porque são pouco naturais, lembre-se que as doenças são naturais e matam. “Natural” é uma palavra bonita, mas não vale a pena arriscar a vida das nossas crianças por causa de palavras bonitas.

O mundo é mais complexo do que as ideias simplistas dos anti-vacinistas e tem agora menos uma criança porque os seus pais foram vítimas duma infecção ideológica.

É extraordinariamente triste.

Ciência e Literatura na Escola de Verão da FCSH

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No último dia de Agosto, começo a dar um novo curso, desta vez na área da Literatura: “A Ciência na Literatura — Uma Visão Contemporânea através de Ian McEwan”.

O curso (com 25 horas lectivas) faz parte da Escola de Verão da FCSH e está creditado para professores do Ensino Básico e Secundário.

“Este curso procura oferecer uma visão actual da relação entre a Literatura e a Ciência tendo como base a leitura de três romances de Ian McEwan: Enduring Love, Saturday e Solar.

A análise dos três romances vai permitir compreender a forma como a ciência pode ser usada como provocação no âmbito da literatura.

Iremos ainda reflectir sobre a imagem da ciência e dos cientistas no mundo da literatura e sobre a relevância deste estudo para o estudo da literatura.”

(Sim, porque às vezes comunicar entre Ciência e Literatura é ainda mais difícil do que traduzir.)

Porque nos custa tanto ver Palmira destruída

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Os actos de barbárie cultural do ISIS conseguem fazer-nos tremer ainda mais do que os actos de barbárie contabilizada em números de mortos e feridos — sim, eu sei que não é bonito admitir isto, mas é o que acontece por esse mundo fora.

Porquê?

Porque a destruição de Palmira fere toda a humanidade ao mesmo tempo, incluindo os seres humanos do futuro — que perdem uma cidade que já está connosco há milénios.

A destruição de museus e ruínas é um reflexo do profundo anti-humanismo destes combatentes: para eles o que importa é sempre Deus (criado, na cabeça deles, à imagem e semelhança dos seus desejos mais profundos) — e nunca os seres humanos, esses animais desprezíveis, com a sua cultura e paciente construção de alguma coisa vagamente melhor.

É esse desprezo pelo humano que nos faz cair, quase sempre, na crueldade. Ironicamente, os seres humanos sentem em si a tentação de desprezar a própria espécie e entregar a sua lealdade a um qualquer deus ou ideia abstracta — o anti-humanismo é muito humano, para dizer a verdade. Este desprezo pela nossa espécie está sempre ao virar da esquina.

Por essa razão, é importante fazer o esforço de não cair na tentação do desprezo — os seres humanos não são apenas os algozes de Palmira, mas também os nossos amigos, filhos e simpáticos adversários — e também aqueles que criaram as mesmas obras que agora são destruídas e todas as obras que ainda estão por vir.

Não nos esqueçamos: no dia em que desprezarmos os seres humanos como aqueles homens infectados de loucura divina, seremos iguais a eles, pois arranjaremos justificação para todas as loucuras e todas as crueldades.

Cinco dicas para acelerar o computador do tradutor

Chego à minha secretária, ligo o computador e passo 30 minutos a olhar para o Windows a actualizar-se sozinho. Pelo segundo dia consecutivo!

Confesso que isto enerva muito, principalmente quando temos traduções a fazer e mensagens a responder.

As mãos ficam nervosas, caio na tentação de responder a mensagens de email pelo telemóvel (nunca é boa ideia: a escrita inteligente faz-nos passar por burros muitas vezes) e, por fim, desisto, levanto-me um pouco, volto atrás, olho para o ecrã, desespero mais um pouco…

… até que, misteriosamente, a actualização passa dos 30% para os 100%, o computador desliga-se, liga-se de novo e fica pronto a trabalhar.

Quero gritar ao bicho: “agora, já não me apetece!”

Apetece-me antes ir passear — e mandar os engenheiros da Microsoft ir passear comigo.

Há maior perda de tempo do que esta?

Para dizer a verdade, há. Estes trinta minutos de impaciência são uma boa ideia. Porquê? Vejam a quarta sugestão abaixo.

Deixem-me explicar-vos por que razão vos contei este banal episódio informático. Na vida dum tradutor, os caprichos do seu computador têm um impacto grande na nossa capacidade de trabalhar, na nossa motivação e, no fim de contas, na qualidade do trabalho produzido.

Por isso, é muito importante ter um computador a trabalhar que nem um relógio — ou, pelo menos, um computador que não pareça arrastar-se como uma carroça arrastada por burros velhos.

Aqui ficam cinco dicas para manter o nosso computador a trabalhar de forma rápida e eficiente:

1. Não usar o computador de trabalho para mais nada

Obviamente, esta dica depende muito da saúde das nossas carteiras. Mas, a médio prazo, será um bom investimento separar o computador de trabalho do computador que usamos para tudo o resto (por exemplo, para emprestar aos filhos).

Aliás, não será uma péssima ideia trabalhar num computador de secretária que nos obrigue a trabalhar bem sentados, com boa luz e uma boa cadeira. Afinal, os computadores de secretária são mais baratos do que os portáteis.

Com o que poupamos ao não comprar um portátil, podemos comprar umtablet barato para navegar, jogar, instalar aplicações sem medo e emprestar aos filhos.

Claro que o tradutor fica sem maneira de traduzir na praia ou no café. Mas convém pesar as vantagens e desvantagens: pelo preço de um portátil, conseguimos um computador de secretária bem mais rápido…

Enfim, cada um terá de encontrar a melhor solução, mas fica a dica: tenham um computador só para o trabalho.

2. Nunca emprestar o computador do trabalho a filhos, sobrinhos e filhos de amigos

Porquê?

Porque as escolas são viveiros de todas as infecções informáticas que por aí andam.

Uma pen que venha duma escola é uma arma biológica atirada contra o nosso computador.

As crianças e adolescentes sabem usar muito bem os computadores, mas têm um pouco mais de dificuldade em distinguir entre sites seguros e sites que berram “estou a instalar vários vírus e outras doenças manhosas neste pobre computador”.

Ora, se não vem mal ao mundo termos um computador pessoal cheio de constipações, já o computador a partir do qual enviamos ficheiros aos nossos clientes deve ser guardado fora do alcance das crianças…

3. Não instalar nada que não seja absolutamente essencial no computador de trabalho

Quando instalamos alguns dos programas essenciais na nossa vida de tradutores (por exemplo, o Adobe Reader), aparecem umas opções discretas que, se não as desactivarmos, nos enchem o computador de tralha desnecessária.

É habitual encontrar browsers cheios de barras inúteis e computadores a aborrotar de pequenas aplicações sem sentido. Porquê? Apenas porque nos esquecemos de optar por não instalar tudo isso.

Por outro lado, quando temos de instalar um programa qualquer que nos vai servir para resolver um problema raríssimo, talvez seja boa ideia desinstalá-lo no final.

4. Activar as actualizações automáticas do Windows

Ora, cá está. Podemos reclamar, mas convém ter o computador actualizado. A Microsoft costuma lançar umas quantas actualizações por mês — o que nos leva, por vezes, a ter de esperar um pouco antes de começar a trabalhar.

Mas vale a pena: muitas dessas actualizações protegem-nos contra certo tipo de infecções de que nem sequer ouvimos falar.

As actualizações do computador são como as vacinas: um pouco aborrecidas, mas muito importantes.

Se não as fizermos, pode correr tudo bem — ou muito mal. Não arrisquem.

(Já agora, os 30 minutos de que vos falei acima talvez não tenham sido mesmo 30 minutos — terá sido um pouco menos. Mas a impaciência estica o tempo, como sabemos…)

5. Não tentar fazer tudo ao mesmo tempo

Os computadores são máquinas poderosas: muito caprichosas, é certo, mas conseguem fazer muita coisa ao mesmo tempo. Ou, pelo menos, parece.

Na verdade, nem sempre são as máquinas de última geração que gostávamos que fossem. Assim, a melhor forma de perder a paciência é abrir todos os programas e trabalhar em tudo ao mesmo tempo.

Se queremos mesmo rapidez, o melhor será fazer uma coisa de cada vez: não vamos abrir o Outlook, cinco janelas do Chrome (incluindo a nossa página de Facebook), o Trados, o memoQ, o Word, o Internet Explorer (só para aborrecer o Chrome), o OmniPage, a Dropbox e por aí fora.

Idealmente, devemos ainda desactivar os programas que se abrem sozinhos quando ligamos o computador. Mais vale ter aberto apenas o que precisamos a cada momento.

É difícil (eu, por exemplo, não estou a ligar nenhuma a esta dica neste preciso momento) — mas se temos um trabalho urgentíssimo para entregar daqui a umas horas, desligar tudo menos o essencial não só ajuda ao computador, como ajuda o cérebro do tradutor a concentrar-se no trabalho que tem entre mãos.

Para já, ficam estas cinco dicas. Outras virão no futuro, se a tanto ajudar o engenho e a arte (e o tempo, claro está).

Jorge Jesus e a natureza humana 

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Imaginem que uma grande empresa portuguesa trocava de CEO com outra grande empresa. Algum português deixaria de dormir por causa de tal desfeita? Não me parece.

Agora vemos um treinador que vai para o rival do outro lado da rua. O que acontece? Ódios e tremores de raiva — ou sorrisos de vitória.

Porquê? Porque os clubes não são empresas, por mais que tentem disfarçar-se de SAD e outras que tais. Aliás, quem dera às empresas despertar as mesmas paixões (e muitas tentam-no desesperadamente).

Os clubes são tribos. São formas de afirmar identidades criadas à pressão (“eu sou verde, tu és encarnado”), para nos podermos libertar esse demónio tribal, que gosta de divisões e de saber quem são os nossos e quem são os outros. É assim a natureza humana — e não vale a pena lamentar-nos, somos bichos estranhos. O que podemos fazer é respirar fundo e gerir essa mesma natureza humana…

Encontrar um escape desportivo para este tribalismo não é uma má ideia. Se virmos bem, seria bem pior que aqueles que ali estão aos gritos nas claques odiassem da mesma forma a nação vizinha ou aqueles que têm outra religião — sim, se juntarmos tribalismo e nação ou tribalismo e religião temos chatice à certa. Mais vale ficar a ver a bola e a dizer mal do Jorge Jesus (ou a dizer bem, dependendo do lado da Segunda Circular em que estamos).

Curso online de Gestão de Projectos de Tradução

No próximo dia 27 de Junho, irei começar um novo curso de Gestão de Projectos de Tradução, desta vez pela internet.

Será um curso de 10 semanas, com várias horas de vídeos e testes informais.

Como oferta de lançamento, podem usar um cupão de 30% de desconto, acedendo a esta página.

Fico à vossa espera — e espero que o curso vos seja útil!

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Quanto tempo é preciso para traduzir e legendar um filme?

Muitas pessoas não fazem ideia do tempo que é preciso para legendar um filme de 90 minutos. Descubra, neste artigo da Luísa Ferreira.

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Choque (literário) na auto-estrada

A literatura, às vezes, prega-nos partidas. Atira-nos umas páginas que nos deixam em choque.

Aconteceu-me isso, há uns anos, com um conto de Julio Cortázar. Posso tentar explicar-vos porquê, mas é difícil.

Os condutores vindos do sul, em França, no final das férias, ficam tanto tempo parados na fila que criam uma pequena comunidade: há amores, amizades, pequenos dramas, uma vida imensa. Isto, claro, até ao momento em que o trânsito se desata…

Estas pobres linhas nada dizem da força deste conto, da surpresa que foi descobrir Cortázar nessa auto-estrada vinda do sul. São assim os grandes escritores: até o trânsito pode ser material para criar qualquer coisa de inesperado e irrepetível.

Leiam on-line, mas aconselho seriamente a ler em papel: «La autopista del sur», no livro Todos los fuegos el fuego.

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