Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Julho 2015 (Página 1 de 2)

O prazer de inventar erros

Parece que o livro de que aqui falei está a ter muito sucesso por aí (incluindo, para mal dos meus pecados, entre os tradutores).

Confesso: não consigo partilhar deste gosto em coligir listas de asneiras inventadas, que não ajudam ninguém e, no fundo, servem só para nos deixar aquele sabor mesquinho de ver os outros cair nesses “erros”.

Pelo caminho, com tanta lista e tanto pânico, os puristas lá nos vão atando as mãos, deixando-nos mais longe de escrever verdadeiramente bem — e todos sabemos que escrever bem é muito diferente de evitar construções aleatoriamente condenadas por este ou outro autor.

O amor pela língua, às vezes, leva a estes excessos de zelo que fazem bem pior a essa mesma língua que todos os erros que por aí andam.

Os tradutores não gostam de asneiras?

A resposta a esta pergunta está neste texto da Luísa Ferreira:

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Em Lisboa chove mais do que em Londres

Uma amiga minha está a viver em Inglaterra e publicou no Facebook imagens de praia, ao sol, no Reino Unido.

Algumas pessoas recusaram-se a acreditar, dizendo, meio a brincar, que aquela imagem era doutro sítio qualquer.

Afinal, ver pessoas a tomar banho no Reino Unido parece um absurdo difícil de engolir.

A verdade é esta: vemos os outros países de forma extraordinariamente simplificada. Inglaterra, na cabeça de muitos portugueses, são fábricas à chuva. Ponto final.

Mas também há por lá praia e sol e, às vezes, um tempo agradável.

Mas todo o nosso cérebro está construído para ignorar o que contraria as nossas ideias prévias e para olhar com mais atenção para o que confirma o que julgamos saber.

É assim a vida.

Talvez não fosse má ideia ter um pouco menos de confiança nas nossas certezas.

Afinal, a verdade é que até chove mais em Lisboa do que em Londres.

O mundo é um lugar estranho…

Estamos a perder leitores?

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Há dias apareceu por aí a notícia que 1 em cada 10 adolescentes nunca tinha lido um livro.

A notícia era apresentada como um drama nacional, com algumas implicações um pouco abusivas: que cada vez se lê menos, que os jovens estão perdidos, e por aí fora. É o típico pessimismo fácil de muitas peças de jornal.

Ora, vejam lá bem isto: 9 em cada 10 adolescentes já leu um livro. Para dizer a verdade, acho isto excessivamente optimista. Mas a quem acha que isto é muito mau sinal, pergunto: será que 9 em cada 10 adultos leu um livro nos últimos 15 anos? Talvez não. Vai na volta, os nossos jovens até andam a ler mais que os pais e avós deles…

Aliás, reparem nisto: as mesmas notícias dizem que, se 10% dos alunos nunca leram um livro, 14% das famílias não têm livros em casa. Este dado parece-me revelador: assim, numa primeira leitura destes números, parece haver vários alunos que não têm livros em casa e já leram pelo menos um livro. É um dado que nos deve inspirar a conseguir que ainda mais desses alunos sem livros leiam pelo menos um livro… Ninguém pode dizer que é impossível!

Muito mais preocupante seria se a percentagem de alunos que nunca leram um livro fosse maior do que a percentagem de famílias sem livro. Isso quereria dizer que estamos a perder leitores. Ora, não parece ser o caso. (Claro que os números são complicados e a percentagem de famílias não pode ser comparada directamente com a percentagem de alunos, mas estamos longe da catástrofe literária…)

Adoro ler e gostava que se lesse cada vez mais, mas ninguém ganha nada com o catastrofismo daqueles que não se interrogam dois segundos que seja se realmente se lê cada vez menos. Muito menos se ganha alguma coisa em andar aos gritos sempre que alguém diz que há uma parte da população que não lê (ó crime hediondo).

Já agora, eu, leitor assumido, quero confessar-me: dou-me com pessoas que não lêem e não tenho vergonha disso. Devia ir preso?

(Entretanto, leiam, falem de livros e talvez venha daí mais bem ao mundo do que com as declarações bombásticas de quem acha que estamos no fim dos tempos.)

Aprender mais sobre tradução durante o Verão

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Há um mês, comecei um novo projecto: criar cursos online pensados para tradutores. Foi assim que surgiu uma escola a que chamei Escola de Letras.

Pode ser mais difícil trocar ideias e continuo a preferir estar com os alunos, mas temos esta vantagem: podemos aprender mesmo na praia ou à beira da piscina. E a verdade é que a experiência tem sido muito boa, com mais de uma centena de alunos e uma boa troca de ideias, em que também aprendo muito.

Terminei ontem de lançar os cursos desta primeira fase. Alguns já começaram, outros vão começar durante as próximas semanas.

A oferta de cursos inclui um curso gratuito sobre o corrector ortográfico do Word.

Depois de ter lançado um curso para quem quer começar como tradutor freelancer, ontem lancei uma série de pequenos cursos úteis para tradutores que já estão no activo. Toda a série faz parte do Curso de Gestão para Tradutores, que inclui cursos de gestão pessoal, marketing digital, gestão de clientes, gestão de qualidade, gestão financeira e gestão de projectos. Toda esta série pode ser comprada de uma só vez, com um desconto de 60%, mas só até amanhã, dia 17 de Julho.

Espero sinceramente que todos estes cursos sejam úteis para todos os profissionais da tradução (e não só). Se alguém estiver com algum tempo, gostaria de receber os vossos comentários e sugestões sobre este projecto (podem usar o email marconeves@escoladeletras.com).

Muito obrigado!

Começar como Tradutor Freelancer

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Lancei um novo curso na Escola de Letras: Começar como Tradutor Freelancer (inclui um desconto de 30% para leitores deste blogue).

Este é um curso pensado para ajudar os tradutores a começar um negócio de tradução com o pé direito.

É especialmente adequado para novos tradutores e a tradutores que estão a pensar montar um negócio próprio pela primeira vez.

O curso será publicado em Agosto de 2015, durante as duas primeiras semanas, e consistirá numa colecção de vídeos e exercícios, bem como na troca de ideias por chat ou email com o formador.

São estas as questões abordadas durante o curso, entre outras:

  • O que é preciso para começar?
  • Quais são os erros habituais dos novos tradutores?
  • Quem são os clientes de tradução?
  • Como posso começar a trabalhar para empresas de tradução?
  • Como chegar aos clientes directos?
  • Como definir preços, prazos e condições?
  • Como organizar o meu trabalho?
  • Os perigos do negócio de tradução

O curso incluirá respostas a perguntas feitas pelos alunos.

Espero que gostem!

(As inscrições estão abertas nesta página.)

Más traduções

É estranho ler o que escrevemos há quase 10 anos. É quase como ler outra pessoa… Foi o que me aconteceu quando reencontrei este texto sobre más traduções:

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O que faz um gestor de projectos de tradução?

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Enquanto ando a preparar aulas sobre a gestão de projectos de tradução, sento-me um pouco a pensar em como explicar esta profissão a quem nunca ouviu falar dela.

Afinal, conheço algumas pessoas a quem faz confusão a simples ideia de viver da tradução. Imagino que seja uma consequência da famosa invisibilidade do tradutor. Sim, todos usamos traduções todos os dias (talvez mesmo todas as horas) — e, no entanto, é fácil ignorar este trabalho ou julgá-lo tão fácil que basta estalar os dedos para encontrar pessoas preparadas para o fazer.

Ora, se isto é assim com a própria actividade de traduzir, o que dizer do gestor de projectos de tradução? Se há quem não acredite que os tradutores podem viver da sua actividade, o que dizer de quem gere tradutores? Para quê, dirão alguns? Não podem os tradutores gerir-se a si próprios?

Curiosamente, é fácil encontrar pessoas na própria área da tradução que não vêem grande utilidade nesta outra profissão bem próxima.

E, no entanto, os gestores de projectos andam por aí…


O que faz, então, um gestor de projectos?

Para compreender, é preciso ter noção, por um lado, da extrema complexidade dos projectos de tradução e, por outro, da necessidade de concentração do tradutor naquilo que faz bem: traduzir. É natural que tenda a haver uma separação entre a actividade de traduzir e a actividade de gerir a complexidade inerente a tudo o que rodeia a tradução e que não é a tradução em si.

Ou seja, enquanto o tradutor tem textos e problemas a resolver relacionados com a dificuldade de ligar duas línguas, o gestor de projectos tem clientes, ficheiros, software, recursos (tradutores e não só), controlo de qualidade, entregas e muitas outras coisas.

(Sim, eu sei: os tradutores freelancer também têm muito disto — mas isso é porque são, eles próprios, gestores dos seus próprios projectos, principalmente quando trabalham para clientes finais. E o certo é que, no final, tem de sobrar cabeça para traduzir, dê por onde der.)


Um exemplo de projecto

Uma fábrica de componentes automóveis alemã precisa de traduzir o seu manual para cinco línguas: inglês, francês, italiano, espanhol e português.

O que faz?

Começa por contactar a sua empresa de tradução favorita (também pode ter tradutores internos ou gestores de projecto internos — acontece muito mais do que pensamos).

O gestor de projectos dessa empresa olha para o manual, que está em PDF. Pede a versão original ao cliente. O cliente lá encontra o ficheiro Word a partir do qual criou a versão.

Maravilhoso!

O gestor de projectos faz o orçamento e enviar para o cliente, ficando à espera da aprovação, que chega pouco depois, mas com um aviso: a tradução tem de ser entregue dois dias antes do prazo proposto.

O gestor faz umas contas, fica um pouco assustado, mas chega à conclusão que é possível.

Tudo confirmado, o gestor de projectos  —  chamemos-lhe João  —  abre o projecto na base de dados de projectos da sua empresa (a empresa usa uma base de dados criada internamente, enquanto outras usam programas como o Plunet, o XTRF, o OTM, etc.). O cliente já é cliente habitual, tudo é feito em poucos segundos.

O João começa a preparar a tradução em si. Importa os ficheiros para uma ferramenta de tradução (por exemplo, o memoQ). Abre o ficheiro no ambiente de tradução, corrige a segmentação, escolhe as bases terminológicas correctas, vai procurar a memória de tradução do cliente. Faz contagens, vê o aproveitamento que tem, faz mais contas.

Prepara as instruções adequadas e começa a procurar os tradutores para cada uma das línguas. Usa a base de dados de tradutores e envia emails aos tradutores com quem quer trabalhar. No caso de três das línguas, recebe respostas positivas em poucos minutos. As outras duas línguas demoram um pouco mais.

No final do dia, já está tudo atribuído. O projecto demora alguns dias. Vai recebendo algumas dúvidas, vai respondendo. A certa altura, tem de enviar uma lista de dúvidas ao cliente, já trabalhadas por si, para não enviar nada em duplicado. Reencaminha as respostas para os vários tradutores. Tenta perceber se todos as receberam e implementaram.

À medida que os tradutores terminam as traduções, vai recebendo notificações do programa de tradução. Vai procurando os revisores adequados. Repete-se todo o processo de atribuição.

No final, faz uma série de verificações (terminologia, ortografia, etc.), exporta os ficheiros, abre para ver se está tudo bem  —  e cria um ficheiro .zip bem organizado, que envia para o cliente.

Falta receber as facturas dos tradutores e revisores (excepto no caso da tradução feita internamente, que neste caso foi a tradução para inglês  —  ele tem a sorte de ter uma tradutora interna de língua inglesa)  —  e falta ainda emitir a factura para enviar ao cliente.

Se tudo tiver corrido bem, o projecto terminou. Há que arquivar ficheiros, memórias, glossários… E esperar para ver se o cliente também acha que correu tudo bem.


Isto que vos descrevi é um projecto que corre bem. Ora, há imensa coisa que pode correr mal.

Reparem: só neste caso, tivemos cinco tradutores e cinco revisores. Tivemos um só ficheiro (o que é raro)  —  mas também o glossário e a memória de tradução. Todos estes pontos  —  e ainda o software, as bases de dados  —  representam riscos de alguma coisa correr mal.

O cliente pode não ter a versão original (e lá temos de converter o PDF em Word), pode ser difícil encontrar tradutores, o revisor pode recusar a tradução acusando-a de falta de qualidade insanável, as instruções podem ficar esquecidas ou não ser enviadas, as dúvidas dos tradutores podem nunca ser respondidas, as memórias podem conter erros, os termos podem já não estar actualizados, os computadores podem falhar, o cliente pode enviar uma nova versão a meio do projecto, o nosso filho pode ficar doente, o tradutor interno pode começar numa sessão de pânico tradutório, quem fez o orçamento (às vezes não é o gestor de projecto) pode ter-se enganado nas contas  —  e toda a infinidade de problemas que ninguém pode prever. Esta é uma profissão de gestão de risco e de resolução de problemas.

Ora, claro está, é muito bom separar este caos de quem está a traduzir. É mesmo muito difícil traduzir e estar a pensar nos dez projectos que temos entre mãos e que podem falhar a qualquer momento. O gestor de projectos é aquela pessoa que tem entre mãos tudo o que difícil há neste sector  —  excepto a tradução em si.

O gestor de projectos, no fundo, resolve problemas: resolve os problemas do cliente e tenta resolver os problemas dos tradutores. Está, se repararem bem, no meio ou entre mundos  —  o que não deixa de ser uma posição bem típica da nossa área…

Os cinco artigos mais lidos durante este ano

Estamos a meio do ano e, por isso, julgo que não se importarão se fizer um pequeno balanço do blogue. É simples: quais foram os cinco artigos mais lidos?

Aqui estão:

Sete palavras inglesas de origem portuguesa 10.695
O que ouvem os portugueses quando ouvem galego? 7.225
Cinco palavras francesas de origem portuguesa 4.734
Sete palavras japonesas de origem portuguesa 4.226
Cinco palavras portuguesas que estão a morrer 3.741

Num blogue de palavras, parece haver uma grande incluinação dos leitores por artigos que começam por números. Só os meus amigos galegos conseguem entrar no top sem precisar de andar a contar…

Mistérios da blogaria!

A Europa tão longe de 1915

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Fonte: http://www.infogrecia.net/2015/07/leia-aqui-o-discurso-de-alexis-tsipras-no-parlamento-europeu/

Sim, é difícil ter essa perspectiva nos dias quentes que correm, mas lembremo-nos que a Europa, há exactamente 100 anos, andava a resolver conflitos ao tiro, com uma geração enfiada em trincheiras e a morrer numa orgia de violência inimaginável.

Hoje, estamos a resolver (ou a fingir que resolvemos) problemas em parlamentos, com eleições e referendos mais ou menos simples, e com os vários povos europeus reunidos um Parlamento Europeu, câmara onde ontem se discutiu acaloradamente a questão grega. Quem assistiu à discussão ficou com a estranha sensação de ouvir falar do nosso futuro comum de europeus.

Porque sublinho isto? Porque podemos, sem nos dar conta e em poucos dias, voltar atrás. E por isso é tão importante perceber como estamos muito longe e muito melhor do que essa Europa de há 100 anos.

Que se resolva tudo melhor ou pior e que sejamos portugueses, gregos, alemães e também europeus: e que saibamos manter o aborrecimento banal das democracias, esquecendo para sempre a excitação da guerra e do tribalismo.

(O problema, claro, é que gostamos tanto de ser tribais…)

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