Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Agosto 2015

A tradução afasta-nos do original?

Dizem as más línguas que a tradução afasta o leitor do original: não é, afinal, o tradutor alguém que se intromete entre o escritor e o leitor?

Não vão em cantigas: na realidade, a maior parte das vezes, o tradutor aproxima-nos do original.

Porquê? Porque o tradutor teve todo o trabalho de investigar e pensar para nos dar o texto original com o sabor e intensidade da nossa própria língua.

A não ser que sejamos bilingues (uma situação bastante rara), dificilmente lemos tão bem na outra língua como na nossa — e mesmo quando isso acontece com uma ou duas outras línguas, temos as outras 5998 línguas do mundo a considerar…

Por isso, sim, os tradutores aproximam-nos do original.

Querem uma espécie de prova?

Reparem nesta notícia do The Guardian sobre a “tradução” do Dom Quixote para espanhol moderno (uma tradução que deixará de sorriso nos lábios os leitores de Jorge Luis Borges).

Como diz o autor (tradutor?) do novo Quixote, Andrés Trapiello, ler o Quixote é hoje mais fácil para um inglês ou para um português do que para um espanhol.

Porquê?

Porque as traduções aproximam o texto cervantino da nossa língua, ficando os espanhóis com um texto do qual se sentem cada vez mais distantes.

Por isso achou por bem Trapiello criar uma tradução espanhola de um texto em espanhol.

Não faço ideia se o projecto de Trapiello faz bem ou mal à literatura espanhola. Mas sei que as traduções, em geral, fazem muito bem à literatura — e ainda mais aos leitores, que não precisam de ficar fechados nas apertadas fronteiras de cada língua e de cada época.

Os jovens estão a destruir a língua?

Há muito pânico linguístico por aí. Basta ver os absurdos comentários deste artigo do Observador, em que a linguagem dos jovens é apelidada de “triunfo da mediocridade” ou se diz algo tão errado como “só os socialmente ineptos e minorias estrangeiras (…) é que recorrem a esse palavreado”. (Estamos a falar do “bué” e cenas dessas, entenda-se.)

Usar a língua de forma criativa em situações diferentes é tudo menos mediocridade: conheço tanta, mas tanta gente que diz “bué” ao pé dos amigos e fala de forma impecável em público ou em situações profissionais.

Quem é terminantemente contra a inovação linguística é que, de facto, defende uma língua amputada, em que só podemos usar um registo e falar de forma sempre igual, em todas as situações. É um pouco como defender o uso de fraque quando estamos de férias.

E, veja-se lá bem o desplante, este tipo de inovações linguísticas dos jovens não são de agora: muitas palavras usadas pelos grandes escritores quando eram jovens seriam, certamente, consideradas pelos seus pais como erradas e prova de degeneração.

Os paniqueiros da língua acabam por ser aqueles que mostram uma certa falta de conhecimento do que é a linguagem humana. É a vida. Sempre bué de irónica.

Sete palavras que me lembram o Algarve

Portuguese_beach_Algarve

1. Algaraviada

Entre tantas línguas, claro que o termo para designar a confusão linguística tinha de ter a ver com o Algarve. Para uns, é uma ameaça: a impureza das línguas estrangeiras a estragar a paisagem tão pura do Portugal de antanho. Para mim, quando era muito novo, era uma delícia ouvir outras línguas, mesmo que nem tivesse passado a fronteira. Comprei por lá os primeiros livros em inglês. Sim, o mundo também começa aqui, nesta mistura estranha de línguas a cheirar a protector solar.

2. Água

Do mar, a reflectir o sol como confetti de prata. A água a rodear-nos enquanto nadamos ou em gotas por cima da pele a brilhar ao sol. Água, muita água. Apetece, não é?

3. Albufeira

Para muitos, será a parte mais feia do Algarve. É bem possível. Mas, enfim, foi ali que passei muitas férias de infância e adolescência. O nome continua a fazer lembrar dias de felicidade com muita luz.

4. Açoteias (Aldeia das)

Tinha eu três anos e fui de férias com os meus avós maternos e os meus pais para esse empreendimento. Só por causa disso, passei a gostar muito do som da palavra “açoteias”. Tem qualquer coisa de açucar e de chaminé a fumegar numa casa confortável. Ou de um recanto com plantas e mar ao fundo, onde se fica a olhar a paisagem. Lembro-me de ir a Espanha pela primeira vez e comprar uma grua de brincar (e voltar de barco de Ayamonte). No filme muito pessoal que levo na cabeça, foi antes do princípio do mundo.

5. Auto-estrada

Tantos anos a ouvir falar da falta que fazia a auto-estrada para o Algarve. Era um suplício, claro, mas no fim chegar era um prazer. Era, não… É um prazer. Isto das nostalgias tem muito que se lhe diga.

6. Amigos

Há muitos anos, aí pelos dezassete mais coisa menos coisa, fiz uma viagem de autocarro com muitos algarvios. Uma viagem de muitos dias, vejam só. Pois foi o primeiro grupo de amigos fora da minha terra (que não deixa de ser uma espécie de Algarve mais a norte, mas isso fica para outros textos). Ainda hoje sorrio ao pensar nesses dias em que descobri novos amigos com a sensação, aos 17 anos, de que a vida estava a começar.

7. Azul

Talvez a outros seja mais o branco das casas e das chaminés, mas para mim, mero turista acidental, a cor do Algarve é o azul: o azul do mar, do céu e dos reflexos da piscina nas paredes dos apartamentos brancos. Banal? Talvez. Mas muito bom. Dá para viver um pouco mais nesses dias um pouco mais livres, como se estivéssemos num outro mundo. (E nem sequer saímos do país.)

(E estas são só as palavras começadas por A… O Algarve é imenso.)

Os preguiçosos mentais

Reparem nesta notícia: um americano decidiu criticar uma mãe em público porque estava a falar com a filha em espanhol.

Esta pessoa pode ser acusada de muita coisa, mas na realidade não sabemos se é inteligente ou não. Mas podemos afirmar com muita segurança que é um preguiçoso mental.

Ou seja, não quer saber de subtilezas, pega nas ideias como lhe aparecem, não as analisa, mistura tudo e acusa os outros de não caberem na sua visão muito estreita do mundo.

Neste caso, a preguiça dá nisto: “Na América, falamos inglês. As pessoas que falam espanhol vêm de Espanha. Estás na América? Fala inglês! Se não falares, és uma espécie de russo ou nazi, que como todos sabem, é a mesma coisa.”

Anda por aí muita preguiça mental, claro. Não digo que haja mais do que antigamente — essa maneira de pensar em que o passado é sempre melhor do que o presente também é muito preguiçosa… Mas, lá está, o que muitos acham ser falta de inteligência é apenas e só preguiça. Às vezes, é preciso pensar, é preciso não aceitar à primeira as ideias que nos aparecem à frente, por mais agradáveis e verossímeis que nos pareçam.

Para dizer a verdade, todos nós somos preguiçosos mentais em certos dias e certas horas. Sei que custa admitir, mas é verdade.

Querem mais um exemplo de preguiça mental? Muitos europeus ouvem esta história e disparam logo: “ah, estes americanos…” No fundo, também estão a ser preguiçosos mentais, é o que é.

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