Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Setembro 2015 (Página 1 de 3)

Bizantinices do sistema fiscal português

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Como exemplo deste tipo de problemas, gostaria de vos apresentar a questão da dupla tributação: o facto (muitas vezes desconhecido) de que um tradutor que trabalhe para uma empresa estrangeira fica também sujeito aos impostos sobre o rendimento do país do seu cliente.

No caso de Portugal, a situação é especialmente complicada pela existência do RFI-21 e do Modelo 22, invenções da legislação portuguesa que complicam — e muito — a vida às empresas de tradução portuguesas e aos tradutores que connosco trabalham.

É apenas um caso, entre muitos outros, de complicações fiscais e legais relacionadas com a actividade da tradução.

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Feliz Dia do Tradutor

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Uma ideia para Espanha: verdadeiro multilinguismo

Sei que custa a muitos espanhóis, mas dar a mesma dignidade institucional às várias línguas de Espanha seria um passo importante para que todos os povos de Espanha se sentissem mais confortáveis no nosso reino vizinho.

No que toca à Catalunha, o governo central de Espanha podia permitir o uso do catalão no Parlamento espanhol, incentivar a aprendizagem do catalão no resto de Espanha, não olhar para essa língua (nem para as outras línguas de Espanha) como menos correctas, menos importantes, menos dignas.

Estou em crer que não vai acontecer nada disso. Nos meios madrilenos corre a narrativa de que isto (o aumento do independentismo) deve-se a os sucessivos governos espanhóis terem dado rédea solta aos sentimentos dos catalães. Não será agora que vão olhar para a segunda língua de Espanha com bons olhos.

Mas é pena. Mais do que grandes declarações sobre a unidade da nação, haver mais espanhóis com um livro como este na mão faria muito pela convivência em Espanha:


Curiosamente, a revista The Economist disse o mesmo há já um ano (negritos meus):

As Johnson wrote in the context of Ukraine, national multilingualism is expensive, in budgetary terms and in the trade-off against other priorities—but it is cheaper than the breakup of a country. And the cheapest solution is merely an attitudinal one: all Spaniards should treat Galician, Basque and Catalan not as regional languages. They are languages of Spain, full stop. Treating them as such, and not as a bother, would go a long way.

Imagine-se só. Até o El País acha o mesmo (negritos meus):

Desde estas páginas hemos defendido una reforma constitucional en sentido federal, en la que se delimiten las competencias de cada nivel de gobernanza, se reconozcan los hechos singulares y se denomine a cada territorio según su peso y preferencias, manteniendo siempre la igualdad básica de derechos sociales para todos los ciudadanos; una reforma en la que se articulen sistemas de coordinación federales (Senado); en la que las altas instancias del Estado demuestren la riqueza del plurilingüismo incorporando progresivamente su práctica normal; y en la que se repartan elementos de capitalidad según el modelo alemán, más en sintonía con nuestro país que el francés.

 

O português, o galego e o japonês

JAPONESES

Uma das partilhas do artigo sobre «10 nomes de línguas de Espanha», onde também falo um pouco do português, mereceu este comentário da leitora Manuela Amaral, no Facebook:

O português como língua independente fez recentemente 800 anos. Galego é galego, português é Português! Quase me apetece dizer que, então, o japonês é português dado as inúmeras palavras portuguesas que os japonês tem. Este artigo é tendencioso e falacioso.

Curiosamente, no tal artigo «tendencioso e falacioso», nunca digo que o galego e o português são a mesma língua. Tentei ser muito cuidadoso. Escrevi apenas que «há quem diga» isso. Ora, é um facto que «há quem diga isso» — concorde-se ou não com essa opinião.

Aliás, basta abrir aquela que é, provavelmente, a mais conhecida gramática da nossa língua (Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra) para vermos mapas onde a área de língua portuguesa inclui a Galiza…

Mapa incluído na Nova Gramática do Português Contemporâneo.

Mapa incluído na Nova Gramática do Português Contemporâneo.

No meu artigo, digo ainda que o galego e o português são duas línguas mais próximas do que muitos portugueses pensam. Será isso tendencioso? Não me parece — mas admito que para quem não conhece bem a relação próxima entre o galego e o português, aludir a essa proximidade possa parecer estranho.

Bem mais tendencioso é dar a entender que a relação entre o português e o galego é comparável à relação entre o português e o japonês só porque o japonês tem alguns vocábulos de origem portuguesa.

Olhemos para as línguas em concreto para vermos como o português e o galego estão, de facto, muito próximos. (Vamos olhar para a ortografia; no que toca à sonoridade das línguas, já aqui falei sobre como soa o galego aos ouvidos portugueses.)

O galego é escrito, actualmente, com várias ortografias. Uma delas, a oficial, está mais próxima do castelhano, mas mesmo neste caso torna-se bastante óbvia a proximidade com o português.

Este pequeno parágrafo (da Wikipédia galega) está escrito na ortografia oficial:

Os nomes “Galiza” e “Galicia” derivan da palabra latina Gallaecia (ou Callaecia), que significaba literalmente “terra dos galaicos”. Callaecia “A terra dos Callaeci”, de *kallā- “madeira” co sufixo complexo local -āik-. Máis tarde tornouse Gallicia, actual Galicia ou Galiza. Os galaicos (en latín: Gallaeci, en grego: Καλλαϊκοί) foron o pobo máis numeroso do noroeste da Península Ibérica xa antes da súa integración ao Imperio Romano no século I a.C, aínda que algúns autores consideran que en orixe o termo “galaico” era empregado para denominar unha pequena tribo ao norte do río Douro; sexa como for, este nome acabou por denominar todo un grupo étnico de lingua celta e culturalmente homoxéneo, situado entre omar Cantábrico e o río Douro.

Ora, é possível usar uma ortografia bem mais próxima do português — a ortografia reintegracionista. Esta é usada por vários autores e websites galegos. Veja-se este parágrafo, retirado de uma entrevista a Valentim Fagim:

A Internet é o grande germe normalizador do século XXI, bem como as redes sociais. Em 2015, os 99% dos contactos com o galego internacional são fruto de um clique. Quantas pessoas galegas nas redes sociais não têm um «amigo» ou seguem ou são seguidos por uma pessoa lusógrafa?

Achará mesmo a leitora que ficou incomodada com a minha referência à proximidade das línguas que, mudando um pouco a ortografia do japonês, este fica quase igual ao português?

Não vou usar o truque baixo de citar aqui um texto em japonês… Todos percebemos que estamos a falar de realidades e de distâncias completamente diferentes.

Enfim, sendo assim, porque terá tido a leitora necessidade de criticar a simples alusão ao facto de haver pessoas que afirmam ser o galego e o português a mesma língua com nomes diferentes? Atrevo-me a sugerir que o mundo das línguas latinas está cheio deste medo de sermos confundidos com os outros precisamente porque são todas línguas com um elevado grau de proximidade. O tal medo é tão forte que — pelos vistos — chega a haver portugueses com receio que o galego represente uma ameaça à nossa identidade.

Dizer que o galego e o português estão muito próximos não é um ataque nem à nossa identidade nem à história da nossa língua. Bem pelo contrário: compreender a relação muito próxima entre o português e o idioma da Galiza dá-nos uma visão bem mais completa e rica do percurso e da força da nossa língua.

Conhecem o norlandês e o sudolês?

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Vamos imaginar um país que não existe. Chamemos-lhe Lândia. No norte de Lândia, fala-se norlandês. No sul, fala-se sudolês. Ora, os sudoleses falam todos, entre si, sudolês. Ensinam aos filhos sudolês. Lêem sudolês. Sentem-se sudoleses, mas estão num país chamado Lândia, onde a língua oficial é o norlandês (que os norlandeses também chamam, simplesmente, “landês”, porque consideram-na a língua principal do país).

No Parlamento regional do norte, fala-se norlandês e é proibido falar sudolês. No Parlamento regional do sul, fala-se sudolês, mas também se pode falar norlandês.

Todos os sudoleses aprendem norlandês na escola e sabem usá-lo para falar com os norlandeses, alguns dos quais até vivem no sul sem precisar de aprender a língua do sul. Um sudolês que vai para o norte tem de usar sempre norlandês. É impossível a um sudolês que viva no norte pôr os filhos numa escola onde se ensine sudolês. Já no sul, todas as escolas ensinam as duas línguas.

Um filho dum sudolês, a certa altura, pergunta: por que razão eu tenho de aprender a língua do norte, mas eles não querem saber da nossa? Será que a nossa língua é menos importante?

Ora, argumentam os do norte: sim, é menos importante. É muito menos falada. No norte, vivem 40 milhões de pessoas, no sul vivem 7. Mas, para lá dos números, o pai sudolês fica um pouco incomodado por ter de dizer ao filho que a sua língua, no norte, é pouco menos que proibida e nunca pode ser usada pelos políticos que os representam na capital (que fica no norte, claro está).

O pai sudolês também não gosta de ir com o filho de viagem e ouvir sempre: ah, então se são da Lândia, falam norlandês. Explica sempre, com calma, que eles sabem falar norlandês, mas a sua língua própria é o sudolês. Quando dizem isto, ouvem muitas vezes: «isso é um dialecto». Ou então chamam-nos de «nacionalistas» com ar de insulto.

Os sudoleses começam a querer mudar isto. Sentem-se mal. Sentem-se inferiores. Alguns políticos sudoleses começam a aproveitar a onda e a espicaçá-la. Os nordoleses não querem saber: a língua da grande Nação da Lândia é o norlandês. Tudo o resto são restos regionais.

A situação acaba por descambar no crescimento dos partidos independentistas do sul. Os sudoleses querem a independência. Querem um país onde possam falar a sua língua à vontade, sem injustiças.

Haverá forma de resolver isto sem destruir a bela Lândia?

O Governo da Lândia pode usar o modelo canadiano: as duas línguas passam a oficiais em todo o território, mas cada região usa uma delas como principal. Todos aprendem as duas.

A ideia parece boa, mas os norlandeses não querem: nunca por nunca vão obrigar os 40 milhões de norlandeses a aprender uma língua «que não serve para nada».

Os sudoleses encolhem os ombros: «Estão a ver? Eles acham que a nossa língua não serve para nada! Queremos a independência!»

No entanto, para lá de obrigar milhões a aprender uma língua, há sempre a hipótese de a respeitar um pouco mais: de tê-la como opção; de permitir o seu uso no Parlamento; de usá-la nas cerimónias; de considerá-la tão digna como qualquer outra, menos que minoritária.

Afinal, a língua, neste país chamado Lândia, é um dos grandes factores de identidade. A forma como o governo central trata a língua é vista como sintoma da forma como olha para a identidade que está ligada a essa língua. Os sudoleses sabem bem que a sua identidade não é tão bem vista pelo governo central como é a identidade norlandesa.

Por haver esta ligação íntima entre língua e identidade, com alguma sorte, oferecer alguma igualdade simbólica às línguas resolverá a situação, ou talvez apague um pouco o fogo.

Depois, os landeses (todos: do sul e do norte) podem pensar em criar uma federação: o governo federal usará as várias línguas e cada estado escolherá a sua língua própria. No final, todos ensinam a língua do outro e nunca haverá problemas de comunicação.

Enfim: tudo isto para dizer que, nestas situações, o nacionalismo não está só dum lado. Há também desconsiderações às vezes involuntárias, algum sentimento de injustiça, muitas narrativas históricas empoladas, um pouco de vitimização e, sempre, esse sentimento de tribalismo muito humano, que tem de ser gerido e nunca ignorado.


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Claro que este artigo, que já vai longo, tem a ver com a Catalunha e com o seu difícil encaixe numa Espanha onde ainda muita gente quer ver uma Nação única e de fala castelhana. Substituam “Lândia” por “Espanha”, “norlandês” por “castelhano”; “landês” por “espanhol”; “sudolês” por “catalão” e tudo fará mais sentido.

Sim, a situação espanhola não é tão simples como a descrita acima: há mais do que duas línguas e muitos outros factores. Mas pensemos, então, na Suíça. Talvez Espanha possa sobreviver se quiser ser um pouco mais como a Conferação Helvética: há uma língua preponderante (o alemão, no caso da Suíça, o espanhol, no caso de Espanha), mas a nível federal as quatro línguas do país são consideradas igualmente legítimas e nacionais. E uma delas (o romanche) é falada apenas numas quantas aldeias num canto remoto do país…

O futuro de Espanha talvez passe por aí: dar dignidade a todas as suas línguas e reinventar-se como uma nova Suíça. Há modelos bem piores…

«Sempre a olhar para o telemóvel!»

Ontem, de manhã, enquanto ia pôr o meu filho à creche, vi, parados no passeio, à espera de passar a passadeira, duas pessoas distraídas.

Um homem estava a ler um jornal.

Uma rapariga estava a ler qualquer coisa no telemóvel.

Agora podia aproveitar a embalagem dos discursos habituais e começar a reclamar por causa destes distraídos jovens, sempre a olhar para o ecrã.

E, reparem, quase sempre estes discursos partem dum exemplo destes: alguém vê um jovem ao telemóvel e desata a perorar sobre o mal dessa tecnologia e os defeitos dessa geração.

Até pode ser que os telemóveis nos estejam a dar cabo da vista e da mente e do crescimento capilar. Até pode ser que haja por aí muito mal educado que não sabe levantar a cabeça quando deve.

Mas reconheçam que este discurso também é moda. A poucos passaria pela cabeça reclamar pela leitura do jornal, mas é possível que a rapariga estivesse a ler a mesmíssima notícia que o homem do lado, de jornal na mão.

Os telemóveis são ferramentas de comunicação e leitura. Há exageros na sua utilização? Claro, como pode haver em tudo. Mas faça-se o esforço de, nem que seja só às vezes, questionar os discursos habituais antes de começarmos a debitar pânicos preguiçosos.

E, já agora, acham mais perigoso para a saúde mental estar duas horas a ler e a escrever no telemóvel ou a ver televisão? É uma pergunta inocente…

(Aviso: este texto foi escrito num telemóvel.)

10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)

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Sim, Espanha é um país complicado no que toca a línguas.

Aliás, Espanha é um país complicado, ponto final. (E bem interessante, por estranho que isso possa parecer a alguns ouvidos portugueses.)

Ora, nesse país complicado, os nomes das línguas parecem multiplicar-se, ainda mais do que as próprias línguas.

Antes, um aviso: a lista abaixo é de nomes de línguas — e não, necessariamente, de línguas separadas. Assim, o “catalão” e o “valenciano” são nomes da mesma língua (há quem discorde), tal como os nomes “espanhol” e “castelhano” se referem ao mesmo idioma (e, neste caso, ninguém discorda).

Vejamos, então, 10 nomes de línguas de Espanha (entre outros):

Espanhol. Este é o nome da língua que o mundo conhece como língua de Espanha. Há quem ande por aí convencido que tudo acaba aqui: em Espanha, fala-se espanhol, ponto final. Mas, não…

Castelhano. Um outro nome dado ao espanhol, muito usado em Espanha para distingui-lo das outras línguas espanholas. Em Portugal, há quem use “castelhano” convencido que é muito mais correcto do que o corriqueiro “espanhol”. Noutro local deste blogue, tenta-se explicar a confusão. No fundo, são sinónimos.

Catalão. Este é o nome oficial da língua própria da Catalunha (e de mais uns quantos sítios). Sim, os catalães faltam também espanhol, mas uma grande parte da população tem como língua materna o catalão, falado em várias regiões de Espanha, em Andorra e ainda numa cidade italiana chamada, em italiano, “Alghero” e, em catalão, “L’Alguer”.

Valenciano. Mais a sul, na Comunidade Valenciana, o catalão muda de nome, mas sem deixar de ser a mesma língua. Claro que há uma ou outra pessoa que insiste que é uma língua diferente, porque dá jeito. E não é assim tão difícil criar uma língua própria: um nome, umas regras ligeiramente diferentes, um dicionário, uma academia, uma gramática e temos feito o idioma. Tudo para garantir que não se fala a língua do vizinho de cima.

Lapao. Sigla de “Lengua aragonesa propia del área oriental“. Desde 2013, é este o termo usado pelo Governo de Aragão para designar o catalão falado no seu território (encostado à Catalunha). Porquê? Porque tudo é válido para evitar dizer o nome “catalão”, que é um bicho papão. Sim, há regiões de Espanha com medo do “imperialismo linguístico” das outras regiões. Quem tem menos medo do catalão goza com este termo usando a risível abreviatura “lapao”. Parece que para o Governo de Aragão, mais vale falar lapao que catalão.

Aranês. Esta é uma das línguas da Catalunha. No fundo, é outro nome para a língua occitana, falada no sul de França. Lá chegaremos, em boa hora, no futuro deste blogue (espero).

Basco. Esta é a língua misteriosa que ali se esconde em redor dos Pirenéus e que não se sabe muito bem donde vem. Não é, sequer, uma língua indo-europeia e, assim, está na companhia do húngaro e do finlandês como elementos estranhos na paisagem linguística europeia.

Euskera. O nome da língua basca em basco é “euskera” e esse nome é usado muitas vezes mesmo em textos escritos noutras línguas de Espanha.

Galego. A língua nossa vizinha, a mais próxima do português — ou mesmo, segundo muitos, um outro nome para a nossa língua.

Português. Haverá poucos que queiram chamar directamente “português” à língua que os galegos falam (até porque argumentam, e bem, que a língua nasceu dos dois lados do Rio Minho e nunca saiu de Portugal em direcção a norte). Mas já serão muitos aqueles que se atrevem a dizer algo que para os portugueses mais distraídos será uma grande surpresa: o galego e o português serão dois nomes para a mesma língua, com diferenças marcadas, é certo, mas sem que tal implique uma separação insanável. Há mesmo quem diga que o português do Brasil está mais distante do português europeu do que o galego. Não vamos entrar, para já, por aí. Fica para mais tarde. Mas podemos afirmar que, para lá dos nomes e das divisões, o português e o galego estão bem mais próximos do que a fronteira faz crer e, por isso, há também uma língua de Espanha que é um pouco nossa. E daí não vem mal ao mundo.

Para lá destes 10 nomes, há mais: “maiorquino”, “bable”, “aragonês”, “leonês” e há até alguns atrevidos que falam da língua andaluza.

Ora, que lições podemos tirar desta profusão de nomes de línguas?

Antes de mais, é fácil perceber que as línguas são fáceis de criar, pelo menos se acharmos que criar uma língua é dar-lhe um nome. As nossas ideias sobre o que é uma língua ou não é acabam por ser muito mais fluidas do que pensamos — principalmente no território das línguas latinas, muito onde todos os falares fazem parte dum só mundo linguístico. Assim, surgem nomes que para alguns serão nomes da mesma língua, para outros significam algo mais: significam a existência duma identidade separada e, nalguns casos, duma língua separada.

Depois, uma lição sobre a humanidade: a necessidade de marcar a diferença é algo muito humano. Assim, num espaço nacional muito fracturado e onde populam identidades locais, regionais e nacionais para lá da identidade nacional espanhola, é normalíssimo vermos surgir nomes de línguas como cogumelos.

Tudo isto também se aplica a nós, à nossa maneira.

Por exemplo, terá muito a ver com esta necessidade de ver na língua o reflexo simples da nossa identidade que leva a que muitos portugueses não consigam ver o galego como língua irmã do português. Afinal, são os galegos são espanhóis…

Mesmo no que toca ao Brasil, os portugueses, em geral, não estão muito interessados em sublinhar a proximidade. Que os brasileiros chamem à sua língua “português” parece um pouco estranho, mas ainda se aceita. Agora que haja por aí tentativas de pôr tudo no mesmo saco e unificar a língua já parece demais.

Também por aí se explica a facilidade com que tantos portugueses dizem “brasileiro” para designar a língua dos brasileiros, que estes últimos chamam “português” sem mais.

Tudo isto porque a língua serve para comunicar, mas serve também (e muito) para marcar a nossa identidade. Goste-se ou não, convém não esquecer esta característica do ser humano.

O fim de Espanha? Isso agora não interessa nada…

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“É que nem pensar!”

Gosto de futebol e não costumo entrar nos discursos simplistas, mas disfarçados de lucidez, em que muitos acusam o futebol de alienar as massas.

Mas, vamos lá ver uma coisa: quando o país com o qual fazemos fronteira se prepara para embater contra uma parede com estrondo e não sabemos se vai resistir inteiro (estou a falar das eleições «plebiscitárias» na Catalunha) — o que fazem os jornais portugueses?

Nas edições de hoje, pelo menos, preocupam-se acima de tudo com o pobre futuro do FC Barcelona, que pode ficar sem poder jogar na Liga Espanhola…

Sendo assim, para quando um artigo a mostrar que a integração de Portugal em Espanha resolveria os problemas de tesouraria do Benfica?

A cadeira do tradutor e a qualidade da tradução

Ah, pois é: mais do que comprar o melhor computador possível, o tradutor deve investir numa boa cadeira.

E, depois, convém usá-la bem: a parte superior do ecrã ao nível dos olhos, os pés bem assentes no chão (ou no apoio para os pés, se for preciso) e o teclado tão próximo da extremidade da secretária que os cotovelos fiquem junto ao corpo. (Para não esquecer uma boa iluminação, mas que não cegue os nossos pobres olhos.)

Talvez assim tenhamos umas boas dores de cabeça e de costas a menos, o que tem tudo a ver com a qualidade da tradução. Há lá coisa pior para um tradutor do que ter dores de cabeça e de costas? Lá se vai toda a paciência necessária para fazer um bom trabalho…

Escrever é falar às cegas

LIVRO NO FRIO

Quando escrevemos, estamos cegos. E nem sequer podemos apalpar o terreno, porque temos as mãos atadas.

O que quero dizer com isto?

Olhem para alguém a conversar: quem fala vê a reacção às suas palavras em tempo real, adapta o tom a essa reacção, volta atrás, pára, consegue perceber se o outro está a compreender ou não. Quando chega a sua altura de ouvir, sorri ou franze o sobrolho — ou usa um dos muitos gestos da cara ou do corpo que tornam as conversas muito vivas e interessantes.

Ora, quando estamos a escrever, é como se estivéssemos a falar com uma venda nos olhos: não vemos quem nos ouve, às vezes nem sabemos quem são ou quantos são…

Temos uma venda nos olhos e, ainda por cima, parece que temos as mãos atadas atrás das costas… Se repararem bem, quando conversamos, as nossas mãos mexem-se quase tanto como a língua. Quando escrevemos, as nossas mãos desaparecem e temos palavras apenas, sem tom, sem gesto, sem cheiro.

O alívio que é estar fente a frente, tocar ao de leve no braço da outra pessoa para dizer “vá, estou só a brincar”. Ou então fazer uma cara séria ou ironizar com o tom da voz.

A nossa linguagem e o nosso corpo ligam-se de forma íntima. Quando escrevemos, deixamos as nossas palavras sozinhas, perante o leitor, sem a protecção do nosso corpo e dos nossos gestos.

É por isso que a palavra escrita é tão perigosa. Está sujeita a muitos enganos e não podemos corrigir facilmente um qualquer descuido ou falha de interpretação. Ora, sendo perigosa, é, ainda por cima, mais permanente: a palavra dita da boca para fora pode até ofender, mas se tudo correr bem em breve está esquecida. A palavra escrita fica. E mói. E às vezes engana durante séculos e séculos.

Tudo isto para vos dizer que é por isso mesmo que os bons escritores são génios e o seu trabalho muito mais difícil do que se diz por aí.

Os bons escritores conseguem usar a seu favor as limitações da palavra escrita, criando ambiguidades e pequenas ironias que são a base de muito do prazer da literatura.

Outras vezes, ultrapassam todos esses limites: rasgam a venda e desatam as mãos e fazem-nos crer só com as palavras que estamos mesmo lá, a ouvir aquilo que nos dizem e a ver aquilo que nos contam.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

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