Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Mês: Outubro 2015 (Página 1 de 3)

Os rabugentos do Halloween

  

Uma das principais tradições portuguesas deste dia é ter muita gente a gritar por aí que esta é uma «tradição importada». Não é portuguesa. Logo, vestir os miúdos de monstros e bruxas é coisa de quem não pensa no que faz. De quem se vendeu irremediavelmente ao imperialismo norte-americano. Que susto!

Acalmem lá os vossos corações indignados. Afinal, importar tradições alheias é uma bela tradição portuguesa…

Presumo que esta nossa nova tradição tenha começado quando os professores de inglês, sem pensarem duas vezes, começaram a organizar festas de Halloween para mostrar aos miúdos a cultura por trás da língua que ensinam, o que é um objectivo muito louvável.

Ora, acontece que os miúdos, sempre virados para a brincadeira, começaram a gostar dessas festas e, sem pensar duas vezes, importaram a tradição. Porquê? Porque é gira!

Reparem que não estiveram cá marines norte-americanos com armas apontadas a gritar: «COMEÇA JÁ A CELEBRAR O HALLOWEEN, DUDE!» Não, foi tudo muito voluntário. Tudo inocente.

Nós também já exportámos algumas tradições e ninguém se importa. Ficamos até comovidos por ver outros povos com palavras nossas na boca ou a seguir esta ou aquela tradição lusitana. Gostamos de ver calçada portuguesa nas ruas de Macau, por exemplo. Ou de encontrar vestígios da História Portuguesa por esse mundo fora.

Por isso, descontraiam-se. As tradições emprestam-se e devolvem-se e trocam-se e misturam-se e daí não vem mal ao mundo.

Aliás, prefiro importá-las ou inventá-las a respeitá-las de forma cega, como acontece com tanto defensor de touradas e outras manias do género. Para cada tradição, pergunte-se: qual é o mal? No caso das touradas (essa bela tradição portuguesa), o mal é fácil de identificar: estamos a torturar animais.

No caso do Halloween, o mal é este: os miúdos divertem-se. Haverá melhor desculpa para importar tradições?

Os livros e a sorte (e ainda poetas que traduzem ciência)

Há quem se considere um leitor sistemático, daqueles que têm listas de livros por ler e seguem religiosamente os seus planos quinquenais de leitura.

Admito que há vantagens nessa técnica — mas, no meu caso, os grandes prazeres da leitura são, quase sempre, fruto do maldito jogo de sorte e azar que é, quase todos os dias, a nossa complicada vida.

Ainda ontem li uma pequena crítica sobre um livro italiano traduzido para inglês: Seven Brief Lessons on Physics, de Carlo Rovelli.

A crítica chamou-me a atenção porque é um livro italiano traduzido para inglês por um poeta e uma tradutora (Simon Carnell e Erica Segre), combinação já por si curiosa, mas ainda mais intrigante por ser este um livro sobre Ciência (mais propriamente, sobre Física).

Sou um mero trabalhador das Letras e, por isso, nem me devia interessar pela Ciência (dizem as más línguas) — mas a verdade é que não consigo afastar-me desse meu outro amor. Ter um par tradutor-poeta a traduzir um cientista parece-me uma provocação que, só por si, me põe com água na boca para comprar o livro (mais ainda porque a crítica era extraordinariamente positiva).

Ora, a verdade é que fiquei com vontade de o ler, mas vontades há muitas e livros ainda mais. Fiquei com o nome a pairar nos meus olhos, mas não andei à procura do livro e a água na boca não foi de tal ordem que me levasse a abrir o site da Amazon para mandar vir a tal preciosidade.

Pois, não é que hoje, enquanto dava uma olhadela pelas estantes de literatura inglesa da Fnac do Colombo, encontro o tal livro, como cientista perdido no meio de escritores, ali a chamar a atenção com a sua humilde lombada?

Vejam se o encontram:

image.jpeg

Quem pode resistir a tal coincidência? Um livro que fugiu da sua estante para me chamar atenção a mim… Não consegui evitar pegar nele. Agora, aqui está, ao lado do meu computador, à espera que acabe o dia de trabalho para o atacar sem dó nem piedade.

O tradutor ou o leitor generoso

don-quixote-statue-677914_1280

Sim, o que tenho para vos dizer hoje é algo estranho: era bom que lêssemos todos como lêem os tradutores.

O que quero dizer com isto?

Simples: o tradutor lê, em primeiro lugar, para perceber as ideias de quem escreve. Suspende por momentos a irreprimível tendência para criticar e impor as suas próprias ideias e preconceitos no texto que está à frente.

Não é possível fazer isto a 100%, como sabemos. A objectividade pura é coisa que não existe. Mas isso não é desculpa para desistir — e o tradutor, diga-se o que se disser, tenta. Pelo menos, direi eu, os bons tradutores tentam.

Ora, podem responder-me os leitores menos generosos, não seria melhor afinarmos o espírito crítico e atacar de imediato as ideias que nos põem à frente?

Talvez. Peço-vos, no entanto, que considerem o seguinte: o espírito crítico é essencial, mas primeiro temos de saber ouvir as ideias dos outros de forma o mais generosa possível. Só se tentarmos ouvir, podemos depois criticar. A nossa tendência é criticar primeiro e ler depois.

Por tudo isso, digo-vos que o tradutor representa o tal leitor generoso, aquele que lê o que tem à frente da melhor forma possível, que não está logo com sete pedras na mão para atacar as ideias dos outros.

Mais: o espírito crítico tem de se aplicar em primeiro lugar às nossas próprias ideias — e não tanto às ideias dos outros. Ou melhor, tem de se aplicar a todas as ideias, mas como temos tendência para confiar em demasia nas nossas ideias e desconfiar à partida das ideias dos outros, mais vale compensar essa tendência e desconfiar mais das nossas ideias e dar uma oportunidade às ideias dos outros. (Note-se que convém incluir no conjunto das «nossas ideias» as ideias daqueles em quem confiamos e as ideias típicas dos nossos grupos — família, partido, clube, religião, etc. Todas estas ideias que são nossas merecem que estejamos especialmente atentos, porque confiamos demasiado nelas. Não quero dizer que estejam necessariamente erradas: quero dizer apenas que temos tendência para baixarmos as guardas perante as ideias dos nossos.)

Em suma: o tradutor lê e tenta ser fiel ao que diz o outro. Para isso, tem de compreendê-lo, tem de ser generoso. Pode, depois, perceber que não concorda e atacar implacavelmente aquilo que lê. Mas esse primeiro gesto de leitura generosa é muito importante — e tão, mas tão difícil…

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

Sete dicas para rever as nossas próprias traduções

interview-851440_1920

Antes de mais, um conselho. Ou melhor, um pedido muito insistente. É o que lhe quiserem chamar: importante mesmo é ler as nossas traduções no fim.

Ora, não é fácil. No fim da tradução, estamos cansados. Provavelmente, o prazo está a chegar ao fim. Estamos enjoados do texto. Já não conseguimos ver aquilo à frente. Ainda vamos ter de ler tudo outra vez?

Parece que sim.

Mas as más notícias não acabam: não só é difícil aceitar esta tarefa final, como ainda por cima é muito provável que deixemos escapar muitos erros, porque — lá está — estamos cansados, enjoados e já não conseguimos ver aquilo à frente.

Pois, aqui ficam sete dicas para nos ajudar a todos nesta fase importantíssima de qualquer projecto de tradução.

Não digo que as apliquemos todas. Não digo também que sejam as dicas de revisão mais importantes. São apenas algumas ideias, que podem, de vez em quando, ajudar alguém que está a terminar uma tradução e quer fazer um trabalho como deve ser.

(Estas ideias vão surgindo ao longo dos anos de tradução que vou deixando para trás. Umas serão óbvias para todos. Outras foram-me ditas por colegas e alunos. Porque não inventei nada, convém dizer um obrigado a todos eles.)

Aqui estão, então, as sete dicas:

1. Deixar passar algum tempo.

Esta é a dica mais conhecida e também a mais vilipendiada. Pois não é óbvio que os tradutores não podem deixar passar algum tempo? Os prazos são o que são e tempo é coisa que não nos assiste. Desta forma, nem vale a pena pensar muito nesta dica, certo?

Errado. Vale sempre a pena.

Imaginem um texto de 100 palavras com um prazo de 24 horas. Podemos traduzi-lo de manhã e relê-lo à noite. Ainda por cima é um texto pequeno, nem sequer enjoa…

2. Tirar o texto do programa de tradução.

Esta dica é válida para todos os que usam Trados, memoQ e outros que tais. Estamos a traduzir com o texto partido em pedaços (também conhecidos por «segmentos»). Será muito bom, para garantir a qualidade final do texto, que o possamos ler em Word, seguidinho, para afinarmos as ligações entre as frases, a coerência de todo o conjunto e o português em geral.

Será também útil fazermos a correcção ortográfica no Word: sempre conseguimos detectar umas quantas gralhas que, dentro do programa de tradução, passariam despercebidas (basta pensar no corrector gramatical que, imperfeito como é, lá vai ajudando a evitar umas falhas de concordância verbal aqui e ali).

Aviso: convém inserir as alterações também no programa de tradução, para que as memórias fiquem limpas de erros e imperfeições (dentro do possível, porque — já sabemos — perfeição é coisa que não existe).

3. Ler em voz alta.

Esta, confesso já, é dica que não sigo. Não dá para estar a ler em voz alta textos de largos milhares de palavras, ainda por cima num escritório com colegas ao lado que não estão muito virados para ouvir descrever, alto e bom som, como funciona o último modelo da máquina de produzir parafusos que acabei de traduzir.

Mas, enfim, o que vale para a escrita de textos originais também valerá para as traduções que se querem bem escritas: ler os nossos textos em voz alta ajuda a garantir que não temos frases atrapalhadas e a detectar erros com mais facilidade.

(Há quem diga até que pôr o Windows a ler com voz de robot os nossos textos nos ajuda a ver onde estão as gralhas ou as faltas de acentos, porque não há mente mais impiedosa — e quadrada — do que a de um computador: se tivermos escrito “publico” em vez de “público”, o computador lerá o verbo e não o substantivo, estando a lixar-se para o contexto. E ainda bem, porque os nossos ouvidos são mais atentos que os nossos pobres olhos de tradutor.)

4. Mudar o tipo de letra.

Nunca se sabe. Às vezes, mudar temporariamente o tipo de letra pode ajudar a descansar os olhos ou até a sublinhar as letras em falta ou os acentos de que nos esquecemos. Mas convém deixar tudo como estava no fim. Não vá o cliente receber um documento em Comic quando nos enviou o original no sisudo Times New Roman. Com estas coisas não se brinca!

5. Imprimir a nossa tradução.

Eu sei, eu sei… Não devia estar a incentivar ao abate de árvores. Mas lá haverá um ou outro documento em que a leitura em papel pode ser necessária para não deixarmos passar erros. Quem já passou pela experiência, sabe que não há nada como ler um texto nosso em papel para encontrarmos todo um mundo de erros que não víamos no computador. É um mistério ao nível do desaparecimento das meias nas máquinas de lavar roupa.

6. Criar um PDF.

Para quem não quiser cair na tentação de seguir a dica anterior, esta será outra solução. Parece estranho, mas o PDF dá ao texto outro contexto, ajuda-nos a olhar para aquilo com olhos de ver, porque já não estamos em fase de rascunho e o documento já tem ares de terminado. No fundo, o PDF é uma imitação barata do papel…

Enfim: não sei que mecanismo cerebral será este, mas a verdade é que encontro mais erros nos textos em PDF do que nos textos em Word ou dentro dos programas de tradução.

(Ainda uma outra dica: ler no telemóvel; ou no tablet. Sempre se poupam umas preciosas árvores.)

7. Não olhar para o texto de partida.

Sim, devemos olhar para o texto de partida para conseguirmos perceber se nos enganámos na interpretação do texto e se não deixámos escapar uma qualquer expressão. Mas também há vantagens em esquecê-lo. Uma leitura final da nossa tradução como se fosse um texto original ajuda-nos a encontrar frases estranhas, encadeamentos que não fazem sentido (e são, provavelmente, erros de tradução) e ainda a melhorar todo o texto.

Digamos que esta será a última demão da nossa pintura: depois da tradução em si, limpamos o texto final para que apareça aos olhos dos leitores sem a poeira que fica depois de todas as obras.

Haja tempo para isto, não é?

«Tenho aversão a ler em brasileiro.»

sugar-loaf-pao-de-acucar-498931_1920

Li esta frase num comentário no Facebook. No contexto, percebia-se que o autor tinha orgulho no que estava a dizer. De alguma maneira, ter aversão a ler em português do Brasil é, na cabeça daquela pessoa, uma maneira de defender a nossa língua ou de demonstrar o amor pela mesma.

Não sei bem o que dizer perante isto.

Racionalmente, convém pensar no porquê destas constantes declarações de aversão ao português do outro lado do oceano. Será medo de uma qualquer infecção da nossa língua, pura e donzela? Será xenofobia mal disfarçada? Será apenas uma reacção emocional muito mal pensada?

Não sei. Mas sei que esta é uma limitação que muitas pessoas impõem a si próprias e que não faz sentido. Mesmo que tenhamos uma reacção quase alérgica às outras maneiras de falar e escrever português, podemos pelo menos lutar contra essa reacção. Imaginem que alguém vinha declarar, orgulhosamente, aversão a ler em inglês, em espanhol, em francês… Todos acharíamos estranho. Então, por que razão será menos estranho declarar aversão a ler em português (embora tropical)?

Gosto mais de tentar abrir os nossos olhos às línguas que nos rodeiam. Àquelas línguas que estão aqui mesmo ao nosso lado, linguisticamente falando. Mesmo se acharmos que o «brasileiro» já é outra língua (não concordo, mas admito que a discussão é interessante e a resposta está longe de ser óbvia), não deixa de ser uma língua próxima, que nos interessa, em que podemos ler e alargar as vistas sem passar por todo o processo de aprender uma nova língua. O mesmo se passa com o galego e, em menor grau, com o espanhol, com o catalão e, no fundo, com todas as línguas latinas (até o romeno, embora esse já exija um esforço bem mais pesado).

Em vez de nos orgulharmos das nossas limitações, que tal tentarmos ultrapassá-las?


Só para dar um pequeno empurrão a quem tem esta aversão, proponho que leiam só o início de Dom Casmurro, de Machado de Assis:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

— Continue, disse eu acordando.

— Já acabei, murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você”.— “Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo”.— “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça”.

Aversão a isto? Porquê?

Os tradutores e as formas de tratamento

couple-731890_1920

«Já te posso tratar por “tu”?»

No artigo anterior, falei das formas de tratamento em Portugal. Ora, que profissional sofrerá mais com a complexidade dessas tais formas do que os tradutores?

Vejam só:

  • Comecemos pela tradução de documentos de marketing de empresas espanholas. Só aqui já temos uma carga de trabalhos. Algumas empresas espanholas têm o hábito de tratar os clientes por «tu». Coisa que, em Portugal, é ainda apanágio de certas marcas muito, mas mesmo muito juvenis (Yorn e outras que tais). Imaginem o que seria a TAP a anunciar: «Temos os melhores voos para ti!» Quase que apetece continuar: «Não te preocupes, que isto não cai.» Assim, os tradutores têm de se adaptar aos hábitos portugueses. Ora, como hábitos são coisas que mudam imenso, ficamos às vezes baralhados, a navegar num mar revolto de constante mudança. Não admira que tantos tradutores sejam avessos às mudanças linguísticas: são uma carga de trabalhos, que só atrapalham.
  • Imaginem agora um filme em inglês. Um homem e uma mulher conhecem-se em contexto profissional e tratam-se por «you». Começam a sair à noite e continuam a tratar-se por «you». Discutem, sempre em «you». Vão para a cama e continuam com «you». Separam-se e não deixam de usar «you». Tornam-se inimigos e mantêm o «you». Fazem as pazes e, claro, voltam ao «you», novamente na cama. E na tradução portuguesa? O «you» em cada um destes casos pode ser diferente. Quando mudar de forma de tratamento? Quando saem à noite? Na porta do quarto? E quando se zangam? E não dependerá da região e da classe social?
  • O mesmo se aplica aos livros. As personagens passam por imensas transformações, entre vago conhecimento e forte intimidade, voltando atrás e adiantando-se depois num beijo repentino — e o tradutor lá tem de acompanhar, correndo atrás delas com o pronome correcto.
  • Depois, não podemos usar a palavra «você» — excepto no «você está aqui» dos mapas ou no caso de personagens de certas classes ou em certos contextos. E o «tu», a própria palavra «tu», é quase proibida, mesmo quando nos tratamos com a segunda pessoa: mesmo entre marido e mulher, poucos casos haverá em que dizemos «ó tu!». Para já não falar dos «O senhor arquitecto deseja um chazinho?» ou «A Carla hoje parece-me muito tensa… Quer uma massagem no pescoço?» Ai, o português, o português…

Para terminar, e só para perceberem o pântano que são as formas de tratamento, onde se juntam as águas turvas do que sabemos, do que espera o cliente e dos hábitos da nossa sociedade de senhores doutores, deixem-me contar-vos uma história.

Há uns anos, na empresa onde trabalho, traduzimos para português um documento em inglês que referia várias personalidades portuguesas. Ora, o cliente acabou por nos enviar uma irada reclamação por não termos inserido os títulos correctos atrás do nome do nosso chefe de Estado. Onde estava, no original, «President Cavaco Silva», tinha de ficar, na tradução, «Sua Excelência, o Presidente da República, Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva». Deixámos escapar a «Sua Excelência». E também (horror!) o «Prof. Doutor». Nem sequer nos dignámos a pôr «Aníbal».

Nunca mais recuperámos o cliente.

Tantos «doutores», não é?

  
Anda por aí a circular um artigo indignadíssimo com o tratamento por «doutor» de que tantos licenciados gozam por esse país fora.

Confesso que esse hábito de usar o título «doutor» (convencionalmente abreviado para «dr.») também me intriga e irrita.

Mas convém olhar para a situação sem tanta vontade de desancar nos conterrâneos: o hábito está a cair em desuso com o passar das gerações. Tenho 30 e alguns anos e não tenho um único amigo licenciado que insista em ser tratado por «doutor». Aliás, ficamos todos incomodados com a insistência de bancos e afins em usar o tal dê-erre-ponto nos cartões.

Ou seja: se os portugueses são parolos por terem este hábito, estão a ficar cada vez menos parolos… Faltou dizer isso no artigo.

O autor continua a desancar nos portugueses, desta vez nos professores universitários, por insistirem em ser tratados por «professores doutores». Ora, não conheço nenhum professor que insista em tal tratamento na oralidade — quanto à escrita, títulos académicos há em todos os países… Parolo é usar esses títulos fora do contexto, como certos vendedores de banha da cobra norte-americanos, que usam o título «PhD» nos nomes com que assinam os seus livros ou e-mails pessoais.

Na realidade, no dia-a-dia e na oralidade, os professores universitários são tratados, pelos alunos, por «professor», independentemente do grau académico que tenham. Sendo a forma comum de tratamento dos docentes desde a primária até à universidade, não me parece que venha mal ao mundo por isso.

(Na escrita, já levei raspanete por me ter esquecido do «Prof. Doutor» num certo e-mail, raspanete esse que me deixou divertidíssimo. Mas o problema teve mais a ver com o choque cultural entre gerações de hábitos muito diferentes do que com características dos portugueses em geral.)

O autor desanca ainda nos estudantes de doutoramento com bolsa da FCT, o que já me parece estar a bater em quem não merece minimamente a pancada.

Em suma: o artigo goza com um hábito estranho dos portugueses, mas já está a bater num moribundo. E mesmo que sobreviva muitos anos, já não se sente nas gerações abaixo dos 40 (?) aquele festival de doutor para aqui e doutor para aí que todos conhecemos.

Há aspectos mais interessantes na forma como os portugueses se dirigem uns aos outros: o tratamento oblíquo («o senhor doutor quer um cafezinho?», «a Marta sente-se bem?», «o avô já viu isto?»), a proibição de usar o «você» em certos contextos (mas não noutros) — e muito mais. Isto dava um livro (que provavelmente já foi escrito por algum infeliz bolseiro da FCT).

Vogais há muitas (e não se fala cada vez pior)

  
Este artigo do Observador é bem-humorado, mas acaba por cair nalguns erros: sim, a pronúncia portuguesa é muito diferente do aspecto gráfico das palavras, mas isso sempre foi assim (em maior ou menor grau) e muitos destes fenómenos não são recentes. A diferença abismal entre escrita e fala (a tal que nos leva a ler a conjunção «e» como «i» ou «pás» como «paj») é naturalíssima: a oralidade vai sempre muitos séculos à frente da escrita.

Depois, é verdade que esta tendência para perder vogais nos torna incompreensíveis para muitos outros povos — mas nunca acontecerá tornarmo-nos incompreensíveis a nós mesmos, pois a língua tem mecanismos que impedem tal tragédia. Pensem: em qualquer conversa repetimo-nos se não formos compreendidos. Mais uma pista sobre estes mecanismos: nenhum povo deixou de se compreender a si próprio… Estas mudanças não representam desleixo. Representam alterações profundas do sistema vocálico da nossa língua, que não podemos fazer muito para travar (será tão difícil como travar a deriva dos continentes).

O que pode acontecer é chegarmos a um ponto em que se tornará impossível manter a ideia de que o português de Portugal e o português do Brasil são a mesma língua. Mas isso é outra história. Tal como é outra história ser cada vez mais difícil a um espanhol compreender-nos. É um óptimo aspecto do artigo do Observador: lembra os portugueses que os espanhóis não se recusam a compreender a nossa língua — simplesmente não conseguem compreendê-la sem muito esforço (mas na escrita não têm grande dificuldade).

Avançando: de todo o artigo, o maior erro é mesmo a ideia de que a pronúncia de «envèlhecimento» com «e» aberto está errada — ou devia estar errada. Porquê? Sim: o português tende a fechar as vogais átonas. Mas nem sempre. É tão simples quanto isso. Lembrem-se de «padeiro», «actor», etc. 

Neste caso, estamos a criticar os portugueses por falarem… português. A regra genérica que implica o fecho das vogais átonas tem imensas excepções e outras subregras — querer que uma regra da língua não tenha excepções é não perceber o que é uma regra da língua (é um fenómeno cerebral inconsciente que é estudado pela linguística — não é uma lei imposta de fora passível de simplificação ou reformulação consciente).

Para lá do artigo, encontrei também comentários de Facebook que mostram um fenómeno curioso: os portugueses sabem falar português, mas acham quase sempre que todos os outros falam mal português. Há pessoas que criticaram o artigo por insinuar que os portugueses lêem os «ss» como «ch» ou «j» no final de sílaba (o que é verdade). Dizem que isso é um erro imperdoável. Não é um erro: é assim que se fala em Portugal. E não é de agora.

Voltando às mudanças das vogais portuguesas. Não são erros — são fenómenos complexos, inconscientes e imparáveis. O inglês passou por um desses fenómenos (Great Vowel Shift) ali nos séculos antes de Shakespeare — as vogais mudaram todas e afastaram o inglês das outras línguas germânicas. O português europeu está num desses processos, com toda a probabilidade. Irá redundar num afastamento do português europeu do português brasileiro. Num tempo em que se tenta impor uma superficial uniformidade ortográfica, não deixa de ser irónico. 

Bem, por fim, um desabafo. Parece que toda a gente gosta do discurso catastrófico no que toca à língua. Ora, esse discurso que olha para todas as mudanças linguísticas como erros é preguiçoso e simplista. Os portugueses dizem «paj» em vez de «pás»? E depois? Os portugueses dizem «pàdeiro» e «envèlhecimento»? E depois? Qual é a desvantagem de termos um sistema vocálico ainda mais complexo do que parece? Querem mesmo simplificar à força a língua? Boa sorte com isso.

Tenho pena porque este simplismo mata a curiosidade em relação à língua, de tal forma que anda por aí muita gente que se queixa do estado da língua e nem repara que, em português, lemos o «s» como «ch»/«j» em final de sílaba e nem se interessa por saber mais sobre a língua real dos portugueses.

Olhemos com atenção para o português, sem medos nem complexos. A nossa é uma língua riquíssima, com mais ou menos vogais.

Porque vemos tantos erros de português no Facebook?

196H (2)

Como sabem, há grupos no Facebook dedicados a recolher as asneiras que por aí se escrevem.

Nada contra: é um jogo, por vezes, divertido. Fui inscrito à força num desses grupos e deixei-me ficar, para ver o que por lá aparece.

(Um aparte: intriga-me que estes grupos sejam tão propensos a fazer passar por asneiras montagens de asneiras inventadas. Mas adiante…)

Nesse grupo onde entrei desprevenido,  encontrei esta imagem, cravejada de erros básicos:

comentario

Obviamente, por baixo, era ver um festival de comentários de gente que não conseguia parar de rir. Estavam a rebolar pelo chão virtual do Facebook.

Ora, por que razão vemos tanto deste português escavacado pelo Facebook fora?

Será que deixámos de saber escrever, como se diz por aí?

Ora, claro que não. O que acontece é algo parecido com isto:

  • Imensos portugueses que nunca precisaram de escrever têm agora contas de Facebook e comentam o que vêem, escrevendo mais do que três linhas pela primeira vez na vida. Várias pessoas de gerações em que o normal era chegar à quarta classe (e em que o analfabetismo ainda atingia percentagens bem significativas da população) comentam e escrevem ao lado dos filhos e netos que já tiveram acesso a muito mais escolaridade. Estas pessoas que escrevem assim não são — obviamente — analfabetos, mas são vítimas da iliteracia funcional que é endémica na nossa sociedade, principalmente entre as gerações mais velhas (quem não acredita olhe para os números com mais atenção). Muitos portugueses aprenderam a escrever, mas nunca mais usaram tal competência — até aparecer o Facebook e a nossa vida social passar a ter de incluir muita escrita…
  • Por outro lado, há muita gente que encara o Facebook como espaço informal e preocupa-se muito menos com aquilo que escreve por ali do que noutros contextos. Aqui podemos discutir se fazem bem ou mal em usar o português de forma tão despreocupada num espaço que é, para todos os efeitos, público.

É isto sinal dos tempos? Sim: é sinal de que há muito mais gente a escrever e que há muito mais gente a trocar ideias. É bom? Enfim, custa ouvir e ler tanto disparate, mas quem escreve bem também está por lá: procuremo-los. Depois, o caminho para escrever melhor passa sempre por escrever mais. Tenhamos um pouco de esperança, se faz favor.

Voltando ao grupo que gosta de coleccionar asneiras. Para mim, ver gente a rir desalmadamente por baixo do pobre português de mensagens como a que vos mostrei acima é pouco diferente de ver um grupo de ricalhaços a rir na cara de um qualquer velhinho analfabeto a tentar explicar o que pensa o melhor que sabe.


Agora, deixem-me que vos diga: gosto pouco de criticar o português dos outros, mas já me importo menos de criticar quem gosta muito de criticar os outros. Assim, sorrio quando vejo, nos comentários por baixo da imagem acima, pessoas que dizem isto:

«É uma mistura de A. Lobo Antunes com J. Saramago… também se precisa de muuuuuita psicanálise e pachorra para ler isto tudo sem ir parar à Ásia :P»

E ainda isto:

«escreve como o Saramago. mas teve um like»

Não é espantoso? Pessoas que passam muito tempo a comentar os erros dos outros têm tal confusão nas suas cabeças que julgam encontrar nos livros de Saramago e Lobo Antunes erros comparáveis aos erros da imagem acima. E lá ficam, a rir-se das asneiras dos outros, debitando pelo caminho asneiras sobre o que é a literatura e a linguagem humana.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

A mãe da nossa língua (ou os prazeres de ouvir Fernando Venâncio)

IMG_0459

Ontem assisti à extraordinária aula que Fernando Venâncio deu na FCSH sobre o português, o galego e o latim — ou como o primeiro não surgiu directamente deste último, mas teve essa outra mãe de que poucos falam. Em resumo: o português não é filho do latim, mas antes neto. (E, lembrei-me agora, já temos entre nós bisnetos da língua do Lácio — basta ir a Cabo Verde ou mesmo ouvir o português brasileiro mais popular.)

Foi um prazer conhecer o Professor, depois de nos termos cruzado virtualmente por estas bandas blogueiras e pelos caminhos do Facebook (quem disse que as novas tecnologias afastam as pessoas?).

Percebi — não na aula, mas em comentários no Facebook — que está para breve um livro sobre estas questões. Fiquei com uma vontade irreprimível de ir a correr reservá-lo.

Quem lá esteve ouviu falar de forma bem concreta sobre essa língua que se forjou ao longo de séculos, muito antes dos nossos primeiros documentos escritos, e que era (na acertadíssima fórmula do professor) a «língua disponível» no momento da criação do Estado português: a língua do Noroeste peninsular, que podemos chamar galego, galego-português ou português, conforme as preferências e sensibilidades. Depois, houve séculos de separação e de «desgaleguização» do português, até ao ponto em que os portugueses não concebem ver no galego a origem da sua própria língua. A história é mais complexa e a ela voltarei, claro, agora muito picado por tudo o que hoje ouvi.

Não pensem que vos estou a fazer um resumo: a aula foi muito além de tudo isto — e a discussão final foi também interessantíssima. Dali ninguém saiu a dizer que não aprendeu nada: e é isso que se quer duma aula…

Queria agora confessar-vos um segredo: um dos prazeres que tive nesta aula foi estar perto de Mário de Carvalho, um dos «alunos». A minha timidez não me permitiu o atrevimento de uma apresentação (e que lhe diria eu?) — mas senti aquele deslumbramento de quem vê de perto um dos heróis da sua adolescência.

Foi com Mário de Carvalho que, no meu 8.º ano, passei da literatura infantil para outros prazeres — aproveitando a deliciosa «A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho». Ainda me lembro do livro de Português onde esse conto estava impresso na íntegra. Foi ainda com Mário de Carvalho que me perdi na Lusitânia, com aquele Deus que passeava pela brisa da tarde, um dos primeiros livros de gente grande que li. Foi com ele que troquei ideias sobre o tal assunto. Que ouvi dois coronéis a disparatar à beira duma piscina. Foi com ele que aprendi (entre muitos outros mestres, claro está) a ler em bom português.

Ou, diria agora algum provocador: em bom galego.

Chamemos-lhe o nome que quisermos. A nossa é a língua dos nossos grandes escritores — e entre os nossos grandes escritores está o meu colega de turma por duas horas.

Há dias piores.

Página 1 de 3

Powered by WordPress & Autor do grafismo: Anders Norén

By continuing to use the site, you agree to the use of cookies. more information

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close