Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Mês: Novembro 2015 (Página 1 de 3)

«Ora, “o comer” está errado porque… [introduzir regra inventada à pressão]»

comer na mesa

O artigo “O comer está na mesa”, que publiquei há um ano, acabou por ser muito partilhado pelo Facebook fora. Fico muito contente, até porque algumas das reacções foram de concordância, mesmo da parte de quem antes achava que dizer «o comer» era um erro linguístico e ficou a perceber que, na realidade, é uma questão social.

Gostava apenas de olhar com mais atenção para algumas reacções negativas, porque são interessantes para percebermos algumas ideias habituais nestas questões da língua. Podemos encontrar quase todas estas ideias aplicadas a outros «erros falsos», como o «espaço de tempo», o «fazer a barba», etc.

1. «Dou o braço a torcer. Mas não gosto.»

DOU O BRAÇO

A reacção «dou o braço a torcer, mas continuo a não gostar» é absolutamente legítima. Afinal, uma pessoa não é obrigada a gostar de determinada expressão — o que não tem nada a ver com a correcção gramatical dessa mesma expressão. Já comparar este caso com «trouxestes» é um erro. «Trouxestes» é uma forma incorrecta no âmbito do português padrão, o que não acontece com «o comer». Já a reacção do terceiro comentador acima é típica e é descrita no artigo original. É uma espécie de irracionalidade linguística.

2. «É muito bimbo.»

Esta é uma reacção de quem não leu o artigo e mostra bem a questão social que está por trás do mito da incorrecção linguística de «o comer»:

anti-bimbos

Ou seja, da boca da mulher-a-dias, tudo bem, da boca doutra pessoa será sempre sinal de que essa pessoa é bimba. Ora, nem a mulher-a-dias nem a «bimba» estão erradas, em termos linguísticos (embora, como se vê, possam incorrer na fúria social de algumas pessoas).

3. «Acho foleiro.»

foleiro

Exacto. Não esperava que aqueles que odeiam a expressão passassem a adorá-la. Queria apenas que percebessem este simples facto: a aceitação de determinada expressão em determinados círculos pode dizer mais sobre esses círculos do que sobre a correcção gramatical da expressão. Podemos não gostar de determinada expressão, mas isso não é desculpa para usar regras inexistentes só para justificar os nossos preconceitos sociais (preconceitos esses que são legítimos).

4. «Isto deve ter alguma coisa a ver com o Acordo Ortográfico!»

ACORDO

É uma espécie de reflexo condicionado de muitas pessoas: «Tem a ver com a língua e eu não concordo? Só pode ter a ver com o Acordo…»

5. «Ora, está errado porque [introduzir regra inventada à pressão]»

A reacção mais absurda será daqueles que, perante os argumentos linguísticos que apresentei, inventam regras à pressão só para justificar a sua preferência.

Aqui está um exemplo:

meus amigos

Ou seja, segundo este comentário, a transformação de verbos em substantivos só se justificaria se o substantivo se referisse a uma acção e não a um objecto. É uma «regra» inventada à pressão apenas para justificar uma preferência com base numa suposta incorrecção. Os próprios exemplos são distorcidos para caber na nova regra, já que «saber» não é um acto que ocupa lugar. É sinónimo de «sabedoria». Da mesma forma, o «olhar» pode ser uma referência aos olhos.

Este é o problema de muitos comentários linguísticos: quem critica está, muitas vezes, a fazê-lo por ignorância da forma como as línguas funcionam e não por verdadeira exigência em relação ao uso da nossa língua. Para evitar estas situações, o melhor é sermos cada vez mais exigentes connosco próprios e um pouco mais tolerantes para com os usos linguísticos dos outros, principalmente se esses usos não forem um erro óbvio.

E quando o tradutor automático é malcriado?

Tenho um aluno que está a fazer um trabalho sobre reconhecimento de voz em tradução — ou seja, sobre o uso de tecnologia para usar a voz para traduzir, o que parece aumentar a produtividade da tradução de forma inacreditável. Um dia ainda falarei aqui deste assunto (que descobri através de David Hardisty e Kevin Lossner).

O trabalho é sobre o reconhecimento de voz simples: o tradutor lê a sua tradução e o computador escreve — nada de tradução automática.

Mas o aluno decidiu pesquisar vários sistemas diferentes, incluindo alguns sites que fazem reconhecimento de voz, tradução automática e leitura dessa tradução em voz alta. Ou seja, eu digo qualquer coisa em inglês e o computador diz-me, alto e bom som, a tradução em português. Um intérprete automático, portanto.

Isto, claro, tirando as vezes em que o sistema falha — e a verdade é que pode descarrilar em alta velocidade.

Foi a um desses descarrilamentos que assisti ao experimentar esse sistema encontrado pelo meu aluno.

Digo «Hello!» e o computador devolve-me «Olá!».

Digo «Let’s translate something.», o computador pensa uns segundos e…

Peço que pousem as chávenas de café e se sentem.

O computador gritou-me, com óptima dicção:

«Gostosa do c*r***o.»

Sem os asteriscos, obviamente.

Depois de momentos de silêncio, o meu aluno e eu não conseguimos parar de rir durante uns bons minutos.

Ainda estou para saber como é que aquilo aconteceu. Talvez no mundo dos tradutores virtuais tenha passado uma tradutora automática que despertou o lado menos civilizado do algoritmo.

Presumo que aquele sistema ainda não venha a ser usado na interpretação de conferências internacionais durante alguns anos. O que, se calhar, é pena.

O português do Brasil é falso?

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No Facebook, numa partilha deste artigo em que critico a aversão aberta ao português do Brasil, alguém opta por chamar abertamente «xenofobia» a essa aversão.

Um outro comentador discorda, dizendo (negrito meu):

Talvez a pessoa que utilizou essa palavra nao a tenha aplicado com o sentido de xenofobia… talvez esteja revoltada pelo facto do português brazil estar a tomar conta do verdadeiro português… talvez porque hoje em dia vem tudo PTbr e não em PTpt….talvez a parte do acordo ortográfico que aproxima mais o português do português br…. enfim… coisas que nao deviam ser assim pois o português é de Portugal….

Parece-me ser este um caso do «erro de confirmação». A pessoa acha que hoje em dia vem tudo em português do Brasil. Ora, os programas de televisão infantis são praticamente todos dobrados em português de Portugal. Já é raro vermos produtos em português do Brasil. Nem as telenovelas são hoje brasileiras (pelo menos, na sua maioria). Quanto à língua em si, estamos cada vez mais afastados uns dos outros no que importa (com ou sem acordos). Ou seja, não estamos a ser invadidos.

Mas, claro, quem acredita nisso vai olhar apenas para o que confirma a sua crença: se encontrar um produto que seja com embalagem em «brasileiro», pronto, está o caldo entornado.

Adiante. O mais curioso do comentário é essa ideia do «verdadeiro português»… Parece ser natural aos portugueses achar que o português verdadeiro é nosso e os brasileiros falam uma língua menor, um português falso.

Por exemplo, ainda há uns dias, na TVI, ouvi dizer que Carlos do Carmo pôs uma plateia do Rio de Janeiro a cantar em português. Foi preciso um fadista para pôr os cariocas a cantar na sua própria língua? É isso? Segundos depois, a jornalista diz alto e bom som que «Carlos do Carmo ensina a cantar em bom português.» Percebi, então. Os brasileiros falam português, mas falam mal.

As coisas são um pouco menos fáceis do que pensamos. Nem os portugueses inventaram, um lindo dia, a língua portuguesa, nem os brasileiros passaram a falar uma língua estrangeira no dia em que declararam a independência.

Primeiro, a língua que Estado português adoptou já existia, embora sem nome nem identidade própria (como aprendi na aula de Fernando Venâncio de que vos falei há tempos). Da mesma forma, a língua que o Estado brasileiro adoptou já existia. Neste caso, a língua já tinha nome — nome que o Brasil decidiu manter, sem que daí viesse mal ao mundo.

Como em tudo na vida, as coisas são como são e o português de lá e o português de cá foram mudando. Nenhum deles se deturpou e nenhum deles se manteve puro e imaculado. Mudámos todos. Uma coisa parece-me certa — dificilmente as várias variantes do português se aproximarão de novo, naquilo que de facto importa: o vocabulário, as expressões, a sensação de comunidade linguística.

Dito isto, faz-me imensa confusão essa recusa mental de muitos portugueses em ler e ouvir português do Brasil. Continuamos a poder ler qualquer texto brasileiro sem grandes dificuldades, o que me parece de aproveitar — tal como também é de aproveitar a invisível proximidade com o galego. Não nos limitemos tanto. Convém ter força e ser um pouco menos tribal, mesmo que o tribalismo linguístico seja algo tão natural como a guerra.

Agora, a pergunta final: será que o português do Brasil já se distanciou tanto dos primos ibéricos (galego e português de Portugal) que merece um novo nome? É uma bela discussão e não sei o que acontecerá nas próximas décadas. Mas, para já, os brasileiros chamam à sua língua «português» e nós não nos devíamos incomodar tanto com isso. 

Sim, a língua em que a plateia de Carlos do Carmo cantou foi português: a sua própria língua, vejam lá.

O meu sobrinho Martim e as palavras difíceis

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O meu sobrinho Martim é um rapaz cheio de genica e pouco interessado em discussões filosóficas. Quer é brincar, o que se aconselha aos sete anos.

Pois, hoje, quando o fui buscar à escola, decidiu presentear-me com as seguintes perguntas:

«Tio, “incisivo” tem três “ii”?»

A minha resposta, depois de rever mentalmente a palavra: «sim».

Fiquei com a pulga atrás da orelha. Donde viria a pergunta?

Segunda pergunta:

«Tio, “otorrinolaringologista” tem três “ii”?»

Aqui, ia-me engasgando. Primeiro, porque ele disse a palavra sem pestanejar nem hesitar. Depois, porque na idade dele eu ainda nem sabia dizer bem os «rr», quanto mais «otorrinolaringologista». Por fim, engasguei-me porque precisei de algum tempo para contar os «ii» à palavra.

Fiz-lhe uma pergunta:

«Como é que sabes dizer isso tão bem?»

«Ora, tio, é tão fácil como dizer “pipapapígrafo”.»

Ah, bom. Sendo assim, está bem.

Continuo com a pulga atrás da orelha, porque entretanto ele foi para o futebol e não me explicou donde vem esta repentina obsessão com o número de «ii» das palavras difíceis.

O erro de Canavilhas e o cérebro humano

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É um erro muito estranho para uma ex-ministra, de facto.

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No entanto, a forma como o Twitter caiu em cima de Gabriela Canavilhas por causa deste erro revela uma ideia errada que anda a pairar por aí sobre a língua.

Que ideia é? A ideia de que, se soubermos alguma regra, vamos usá-la sempre bem. Ou seja, se a ministra usa um «há» onde devia estar «à», é porque não sabe distinguir os dois. Tem de ter lições de português!

Ora, meus caros defensores da exigência intransigente, sejam um pouco mais exigentes convosco próprios. Aprendam mais sobre o cérebro humano. Numa situação de escrita rápida, em que tentamos reproduzir com letras a velocidade das conversas, é bem provável que todos nós deixemos passar erros que, mais tarde, detectamos sem qualquer hesitação. O cérebro não é perfeito e mesmo o mais hábil escritor se engana, por vezes (não era só o Horácio).

O que fazer? Avisem a vítima de tal erro, como aconselho neste outro artigo. No caso da ex-ministra, depois de ler o que escreve noutros locais, não me parece que tenha problemas com o português. O cérebro dela teve ali uma paragem momentânea. E o cérebro dos tuiteiros não perdeu oportunidade de gozar o pagode com uma ex-ministra (!) da Cultura (!!) que não sabe distinguir «à» de «há» (um erro de aluno da Primária, não é?).

Convençam-se: pode mesmo acontecer a todos! A mim, já me aconteceu dar erros parecidos. Se acham que é tão fácil acertar sempre, temo pelo vosso português. Porquê? Porque, de tão certos que estão de acertarem sempre, hão-de estar muito pouco atentos aos erros próprios — que são tão inevitáveis como os impostos e a morte.

As séries das nossas vidas

O que é a arte e para que serve é discussão para durar aqui uns bons minutos. Horas, vá.

Mas para lá dessas discussões, a verdade é que a arte serve também para nos lembrar da nossa própria vida.

O que quero dizer com isto?

Ora, quando releio um livro qualquer, costumo lembrar-me do exacto sítio onde estava quando o li pela primeira vez.

Há músicas que me transportam para certas alturas da vida. E nem precisam de ser músicas de que gostamos muito. Quase sem querer, as canções da rádio vão inundando certas imagens e certas memórias — e até podem ser da Britney Spears, para mal dos nossos pecados. E mais ainda as canções que ouvimos no repeat dias sem fim.

Até as séries de televisão, que alguns hesitariam em chamar de arte, são formas de viver de novo o que já passou. Lembro-me de ver o Seinfeld no meu antigo quarto da casa dos meus pais, lembro-me de ver a Ally McBeal quando entrei para a faculdade, lembro-me de ver o CSI quando comecei a namorar com a minha mulher e a Anatomia de Grey por alturas do casamento — e daqui a muitos anos vou lembrar-me do How I Met Your Mother e da Big Bang Theory por alturas do nascimento do meu primeiro filho. Lembro-me ainda de ver os primeiros episódios do House of Cards quando fui conhecer a minha sobrinha a Inglaterra. E isto são só exemplos…

Sim, falei mais das séries do que dos livros de propósito: a arte é mais do que pensamos e esconde-se até em séries comerciais norte-americanas. Serve para quê? Não vos sei dizer. Mas sei que vivemos mais: recordamos mais, aproveitamos mais a vida e, às vezes, somos até um pouco mais felizes.

A literatura, o haxixe, as virgens, a Seita dos Assassinos, os terroristas e mais umas quantas coisas

Ainda há quem diga que a literatura não serve para nada. Gostava de vos recomendar um livro que mostra como a literatura pode servir até para percebermos a embrulhada terrorista em que estamos metidos.

Agora, peço-vos alguma paciência: vou ter de passar por guerreiros que fumam haxixe, campos de treino de virgens do Paraíso, jogos de computador que me trazem velhas recordações e mais umas quantas coisas.

Comecemos pelo livro. Uma obra da mais pujante literatura europeia: a literatura eslovena! Não entendam nesta ironia qualquer tipo de desprezo pelas obras em esloveno. Afinal, em todas as línguas podem surgir obras-primas e cá estamos nós, tradutores, para as tornar acessíveis ao mundo inteiro.

ALAMUT GRANDEPois bem, a obra de que falo é Alamut, de Vladimir Bartol, publicada em 1938. Reparem, por favor, no ano. Lembrem-se das aulas de História. Pensem nessa década e em tudo o que estava a fervilhar por essa Europa fora. É importante perceber isto para perceber o livro, apesar de o livro nada parecer ter a ver com a Europa e seus desaguisados.

A história de Alamut é intrigante: Hassan-i Sabbah, um líder ismaelita, cria uma seita de combatentes temíveis, concentrados em Alamut, uma fortaleza persa na mítica Rota da Seda.

Os guerreiros dessa seita são crentes fervorosos, a arder por dentro na certeza de lutarem por Deus e na esperança duma vida eterna com as famosas virgens do Paraíso.

Para espicaçar o fervor e eliminar qualquer resquício de dúvida, Hassan-i Sabbah cria um harém verdadeiro, com raparigas treinadas para a satisfação absoluta dos guerreiros.

A certa altura, o líder finge que transporta os guerreiros ao Paraíso, onde estes se deleitam com as virgens, provando assim, em vida, os deleites da Eternidade a que acederão se forem valentes na guerra.

Imagem medieval da legendária fortaleza de Alamut.

E o haxixe? — pergunta o leitor mais impaciente. Ora, porque a força da certeza absoluta nem sempre é suficiente, os guerreiros fumavam haxixe, que os deixava mais maleáveis e felizes, enquanto matavam os inimigos e sonhavam com os corpos perfeitos daquelas mulheres eternamente jovens e disponíveis. As virgens reais e bem treinadas são, assim, garantia de que os guerreiros morrem felizes, convencidos que irão estar nos braços das suas amadas em poucos segundos, tudo bem cozinhado no cheiro intenso do haxixe.

Qual era o nome desta seita? Seita dos Hashashins (fumadores de haxixe), ou seja, a Seita dos Assassinos.

Exacto: a palavra «assassino» tem origem no nome dessa seita e deriva de haxixe. Esta seita, por sua vez, inspirou Bartol na escrita da sua obra-prima, que por sua vez foi traduzida para o francês e do francês para o português, até me chegar às mãos numa edição de tabacaria há vários anos, publicada em conjunto com o Público.

Escusado será dizer que o autor pretendia dar-nos uma aventura poderosa, com fortalezas perdidas na Rota da Seda, rica de combates e amores — mas também estava a criticar a mentalidade totalitária que, nesses anos 30, assombrava a Europa. A literatura é assim: deixa-nos o sangue aos saltos e ainda consegue ajudar-nos a ver o mundo doutra maneira.

Ora, curiosamente, este livro deu origem a uma série de jogos de computador: Assassin’s Creed.

Ainda vos hei-de contar as complicadas discussões que às vezes tenho com o meu irmão Diogo sobre a relação entre a literatura e os jogos. A arte e a vida são tramadas, nada dadas a fronteiras fáceis.

Bem, se nunca joguei Assassin’s Creed, joguei um outro jogo, que me traz belas recordações de infância e que também se passa na Pérsia. Falo do Prince of Persia. Lembram-se?

PRINCE


Mas vem isto tudo a propósito de quê? Podia vir a propósito de nada. Escrever sobre livros e jogos e tudo o resto devia bastar-se.

Mas Alamut vai mais longe: ajuda-nos a destrinçar a história bem enovelada das várias correntes do ismaelismo, que é parte do xiismo, que é parte do Islão. Compreender é algo que podemos sempre tentar, por mais complicado que nos pareça o mundo.

Deixem-me dizer-vos ainda que este livro nos ajuda a perceber uma coisa que nos pode, hoje em dia, ser muito útil: como funciona a cabeça do mais temível dos terroristas, aquele que não tem medo da morte.

O terrorista é alguém de espantosa e inabalável fé. Está convencido que Deus odeia os infiéis — e os fiéis são poucos: apenas os mais puros.

O terrorista está convencido que a empatia que, ainda assim, sente pelos infiéis é sinal de fraqueza, que tem de combater. O bom terrorista mata 200 crianças. O mau terrorista hesita. O terrorista que se preza mata em si a fraqueza de sentir os outros como humanos, parecidos consigo. O que interessa é Deus e a pureza da fé.

O terrorista sabe também que é forte nessa sua pureza. E que o seu desejo, as suas fraquezas carnais não são nada perante a força de quem mata. Assim, pode violar e usar sem problemas as mulheres e raparigas infiéis. Na Eternidade, terá as virgens ao seu serviço; aqui, neste mundo, tem os corpos sem valor das infiéis.

O terrorista é feliz. Tem a vida eterna à sua frente. Tem o amor de quem lhe interessa: de Deus, da família, dos amigos. É puro e fiel. Nada mais interessa (e a opinião do mundo dos infiéis não interessa mesmo nada). A tribo, o sangue, o sexo — tudo isto ajuda o terrorista a matar.

Como combater isto? Não sei!

Agora, reparem: um escritor esloveno usa uma seita xiita para explicar o nazismo e o estalinismo; hoje em dia, podemos usar esses totalitarismos europeus para explicar o wahhbismo, como fiz há dias.

No fundo, andamos todos à volta deste problema, há séculos e séculos: o radicalismo cego, cheio de fúria e ardor, de que nos temos libertado com dificuldade e com muitas recaídas. Pessoalmente, acho que a melhor palavra para o descrever é mesmo totalitarismo, que pode ser religioso, político, nacionalista e não é exclusivo de nenhuma região do mundo.

Agora, se quiserem, o dirty secret do terrorismo, tão bem descrito em Alamut. Um dirty secret que o Estado Islâmico conhece como poucos: o terrorismo é sexy. Aliás, o totalitarismo é sexy. O nazismo era sexy (perguntem à Riefenstahl). O totalitarismo é sexy, claro, para os que estão na sua esfera de influência: os alemães comuns dos anos 30, que queriam certezas e um bode espiatório no corpo dos judeus; sexy para alguns muçulmanos, que querem um mundo medieval com Alá no céu, o imã na Terra e as virgens prometidas no fim da explosão; sexy, há alguns séculos, para os cruzados, que eram os nossos terroristas muito cá de casa; sexy para os anarquistas do final do século XIX. O totalitarismo/terrorismo é sexy porque é simples, é imediato, ferve-nos o sangue e traz-nos o olhar apaixonado de algumas pessoas (que bastam). O terrorismo é sexy como o rufar dos tambores para a guerra. Não é nada sexy para as suas vítimas, mas essas nada valem aos olhos destes crentes.

Espero que compreendam o que quero dizer: estou longíssimo de estar a fazer qualquer tipo de apologia do terrorismo ou do totalitarismo. Antes pelo contrário. Quero apenas encarar o bicho de frente.

Não vale a pena negar: o Estado Islâmico é atraente para muitos jovens, fartos de ambiguidades e complicações. Querem o rufar dos tambores, a certeza da vida eterna e um pouco de excitação (e escravas sexuais) no entretanto.

Tudo isto está ali, nessa obra estupenda. Alamut. Aventuras, enredos magníficos e tudo aquilo que nos arrepia e assusta. No fim, compreendemos melhor o mundo e aquilo que nos espera nas próximas décadas.

E ainda há quem diga que a literatura não serve para nada.

Primos à distância

 

É a sina de viver num país donde sai muita gente: há famílias que convivem à distância de milhares de quilómetros.

Digo bem: «convivem». Os skypes, facetimes e hangouts desta vida lá nos deixam falar sem parar e ver os primeiros passos de uma sobrinha que vive bem lá no norte da Europa. A tão odiada tecnologia, por vezes, é uma coisa muito boa.

Claro que não é a mesma coisa. Mas há destas ironias: o meu filho e a prima estão a crescer a mais de 2000 km de distância, mas acabaram por aprender a andar na mesma casa — o Simão (já agora, ficam a saber o nome dele) deu os primeiros passos na casa do meu irmão, que tem uma muito confortável alcatifa que ajuda à confiança dos petizes. Esta semana, foi a vez da Lilah, a prima, nessa mesma casa inglesa, que eu gostava muito de visitar mais vezes.

Outra ironia: mesmo a esta distância toda, o meu irmão Diogo é dos familiares com quem mais falo. A razão é simples: estamos ambos infectados pelo vírus da geekice, embora de estirpes diferentes: ele mais tecnológico, eu um pouco mais literário. Não importa: nenhum de nós gosta dessas fronteiras artificiais entre mundos. A Zélia e a Sofia já sabem que, quando nos juntamos, têm de aturar conversas sem fim pela noite fora. Quando não estamos juntos, conversamos por escrito pela semana fora.

Há ainda os outros primos: os filhos dos nossos amigos, que uma deliciosa convenção nos leva a chamar tios dos nossos filhos. 

Quase todos os dias, o Simão vê o Quico, filho da Ana, nossa amiga que anda a ensinar nos Emirados. Talvez, daqui a uns anos, sejam amigos porque se habituaram a ver-se à distância, no Skype ou nos pequenos vídeos que enviamos uns aos outros.

Não é a mesma coisa, claro. Mas assim aliviamos a distância.

«Porque» ou «por que»? Uma história com muitos «ques»

Antes de avançarmos sem medo para a Grande Questão do «Porque», deixem-me falar-vos do «de que».

Conta Fernando Venâncio que uma amiga sua achava ser um grande erro a construção «informar de que». O professor, com infinita paciência, lá explanou as razões por que a construção é correctíssima.

Atrevi-me a comentar que, talvez, o horror ao «de que» viesse do velho boneco da Contra-Informação que punha o mais famoso presidente de clube de futebol do país a repetir vezes sem conta a construção errada «penso eu de que». Inconscientemente, muitas pessoas podem ter começado a associar «de que» a um erro. Só que o «de que» (ai, tanto «que»!), se não deve ser usado depois de «pensar», não está errado em verbos como «informar» (leiam a explicação de Fernando Venâncio, que vos dá ainda uns cheirinhos de boa literatura que não são de deitar fora).

«porque»ou «por que»-Ora, mas o que nos trouxe aqui não foi o «de que», mas o «porque». Contei-vos a história acima para vos dizer isto: parece-me a mim que o velhinho e inocente «porque» sofreu um ataque impiedoso dos irritados da língua muito parecido ao ataque contra o «de que».

Não posso confirmar (não passa duma suposição), mas parece-me que a necessidade de corrigir construções como «porque razão» (que deve ser escrita «por que razão») levou muitas pessoas a achar que o «porque» deve ser escrito sempre em duas palavras: «por que». Ou seja, criou-se ali uma irritação inconsciente, qualquer coisa que parecia mal e servia perfeitamente para atacar o português dos outros, desporto em que muitos se esforçam todos os dias.

Resultado? Como sabemos, os paniqueiros da língua inventam sempre uma lógica qualquer muito limpinha (e, quase sempre, errada) para justificarem a irritação e a proibição que começam por aí a espalhar.

Assim, começou a ouvir-se que o advérbio interrogativo «porque», no fundo, tinha sempre implícita a palavra «razão» ou «motivo» e, por isso, não era um advérbio interrogativo, mas antes parte decepada duma expressão maior. Conclusão: o «porque» no início duma frase teria sempre de levar um espaço no meio.

Acabámos por ter de aturar insultos a quem escreve frases como «Porque existe a guerra?» ou «Porque fizeste isto?». E, quando digo insultos, não estou a exagerar.

Também neste blogue já tive quem me acusasse, num comentário a um artigo, desse terrível erro: o uso do «porque» sem espaço no meio das sílabas. Não chegou ao insulto, mas tive direito a três pontos de interrogação, para perceber bem quão ignorante sou.

Não é que as regras sobre esta questão não sejam complexas. O curioso é que os irritadíssimos acusadores dos «porques» alheios querem impor uma regra muito simplificada e errada, enquanto acusam os demais de escreverem mau português. Se for preciso, ainda acabam o discurso com uma crítica à «decadência do português» e ao «facilitismo do ensino». Ironias.

Se quiserem perceber um pouco melhor toda esta questão do «porque» ou «por que», aconselho-vos a começar pelo Ciberdúvidas: sempre está à distância dum clique. Mas, se não tiverem tempo, fiquem pelo menos com esta na cabeça: todos nós podemos usar «porque» no início duma pergunta. Não só não vem mal ao mundo, como está correctíssimo.

Como não espalhar mentiras no Facebook (em três passos)


Vou contar-vos uma história (peço aos envolvidos que não se zanguem por estar a  usá-los para um artigo destes): uma amiga minha partilhou uma notícia que afirmava o seguinte: «Benjamin Netanyahu acusa os palestinos de serem culpados pela extinção dos dinossauros.»

Era uma notícia falsa que gozava com uma notícia verdadeira, que — diga-se de passagem — ficava pouco atrás da notícia falsa em inverosimilhança: o primeiro-ministro israelita afirmou há tempos que o culpado pelo Holocausto fora um muçulmano (!).

A minha amiga partilhava a notícia dos dinossauros como se fosse verdade. Um outro amigo meu lá disse nos comentários que a notícia estava num site que era uma espécie de Inimigo Público ou The Onion. Uma sátira, portanto.

Ela riu-se, com desportivismo, mas não deixou de reclamar: «Mas agora temos de verificar os factos como se estivéssemos na faculdade?»

Resposta: parece que sim. Ou, pelo menos, podemos tentar. É importante termos cuidado com o que partilhamos. Vamos errar muitas vezes, mas não custa tentar errar menos. Porque estes erros, acumulados, dão origem a muitas falsidades, alimentam calúnias, distorcem a nossa imagem do mundo e são extraordinariamente difíceis de agarrar uma vez lançados nas águas turbulentas das redes sociais. São mais graves do que erros ortográficos, que rapidamente se descobrem e corrigem (agora é que me esfolam vivo…).

Mesmo que pareça positivo alimentar uma má imagem daquela pessoa em particular (não tenho nenhuma simpatia pelo Sr. Benjamim), esta credulidade selectiva acaba por prejudicar as nossas próprias ideias: ficamos mais facilmente  desarmados quando usamos falsidades como armas, mesmo quando a nossa causa (seja ela qual for) for legítima e importante.

Esta credulidade selectiva funciona de forma previsível. Vemos uma notícia que alimenta uma ideia mais geral que temos («Benjamin Netanyahu diz disparates e não é de confiar») e acreditamos sem pestanejar nessa notícia particular.

Mais: não só acreditamos, como suspeitamos que qualquer pessoa que venha repor a verdade está do lado do malfeitor (ou então é um chato, o que às vezes ainda é pior).

Ora, o mundo é mais complicado do que isso: o facto de Benjamin Netanyahu dizer disparates não quer dizer que diga todos os disparates do mundo.

Por estas e por outras é que foi tão fácil a um conjunto relativamente grande de ingleses acreditar piamente, há uns tempos, que Portugal estava a viver um golpe de Estado sem que a BBC quisesse dar a notícia. Tudo porque, para esses ingleses (não vale a pena agora esmiuçar como), essa ideia peregrina do golpe de Estado português ajudava à sua particular narrativa anti-União Europeia — narrativa muito legítima, mas que não obrigava a que Portugal estivesse a viver um golpe de Estado.

Bem, chega de todo este arrazoado. Fiquem com três passos simples que, não sendo o suficiente para detectar todas as ideias falsas, já ajudam a despistar uma ou outra falsidade.

1. Ler o artigo que queremos partilhar

Quem nunca partilhou um artigo com um título agradável sem o ler? Ora, se estamos a espalhar uma informação qualquer, talvez seja boa ideia saber aquilo que estamos por aí a partilhar.

Depois, uma vez aberto o artigo, pensemos: qual é o site que está a partilhar a notícia? Será fidedigno? Será que não está ao serviço duma qualquer teoria da conspiração?

2. Procurar outras fontes minimamente isentas

Consigo encontrar a mesma informação noutros sites? Não estarão todos alinhados pela mesma teoria da conspiração? Será que os jornais nacionais não dariam destaque ao primeiro-ministro de Israel a dizer que os palestinos são matadores de dinossauros? Se fosse verdade, teria de aparecer noutros sites, certo? (Já sei que para as almas mais dadas a conspiração, a falta de notícias é prova da verdade dos factos, mas a esses este artigo não pode chegar. Entretenham-se a encontrar chemtrails.)

3. Procurar desmentidos da notícia

Se quiserem ser mais rigorosos ainda, tentem agir como se quisessem provar que a notícia está errada. Façam o que for preciso: procurem desmentidos, investiguem um pouco, ponham em causa sem dó nem piedade aquilo que vão partilhar.

Se a notícia se aguentar à bronca depois de a terem tentado desmascarar, quer dizer que a probabilidade de ser verdadeira é elevada.

No fundo, estamos a aplicar um método científico simplificado e portátil à simples partilha no Facebook.

Isto tudo dá trabalho? Algum. Mas é mais importante do que parece.

Dito tudo isto, sei que é mais simples e divertido partilhar tudo aquilo que parece confirmar aquilo em que acreditamos: eu, pecador, também confesso alguns deslizes.

Por isso, desconfio que vamos todos continuar a espalhar muitas notícias falsas e vamos todos ficar muito irritados com os chatos que vão verificar o que lêem.

Os seres humanos são um bicho complicado…

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