Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Mês: Dezembro 2015 (Página 1 de 4)

As dez línguas de Portugal

É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»

Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.

A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.

Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

Ah, a beleza do mundo visto à bruta…

A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»

Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

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Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

grammarOlhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente. A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense. Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar). O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

Onde criar um blogue em português?

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Uma amiga minha perguntou-me que sítio recomendo para criar um blogue.

Ora, que melhor sítio para responder a esta pergunta do que um blogue?

Assim, aqui ficam as minhas quatro sugestões de plataformas para quem quer começar a escrever até que os dedos lhe doam:

  • Blogger.com é a plataforma clássica e muitos dos grandes blogues portugueses começaram por aqui — e continuam, alguns deles (basta pensar na famosa Pipoca). É simples, intuitivo, e tudo o mais. Quem tem conta no Gmail, no fundo, já tem conta no Blogger.
  • WordPress.com. Esta plataforma permite criar um blogue rápido e com tudo o que é preciso: sistema de assinaturas, estatísticas, botões de partilha e por aí fora. Vai ter publicidade (podemos pagar para eliminá-la), mas não faz mal.
  • O WordPress.org é, provavelmente, o sistema de blogues mais usado do mundo. No entanto, ao contrário do WordPress.com e dos restantes, é preciso instalar o blogue num qualquer servidor (real ou virtual) e tratar de todas as questões técnicas. Se isto parece muito complicado, é melhor esquecer a opção.
  • Medium.com. Esta é uma plataforma para escrever artigos um pouco maiores. É a forma mais rápida de começar um blogue e os artigos ficam com um aspecto fenomenal. É muito pouco flexível, mas para quem está a começar é uma boa opção. Tem uma desvantagem: ainda há poucos portugueses por lá.
  • Notas do Facebook. Exacto: as notas do Facebook estão a melhorar e, vai na volta, tornam-se numa boa plataforma para blogues. Mas, para já, ainda não sabem a blogue. São, no fundo, um post do Facebook, mas com negritos e títulos.
  • SAPO Blogs. Esta é a mais conhecida plataforma de blogues portuguesa. Não só tem as vantagens do Blogger, como tem também uma comunidade muito interessante. Ou seja, há bloggers interessados em ler os outros, há quem comente, há ainda uma equipa de apoio que ajuda em muita coisa — até, se pedirmos com jeitinho, nas questões técnicas. Assim de repente, é a plataforma que recomendo para quem está a começar e quer partilhar, acima de tudo, histórias e experiências pessoais.

Tudo somado, o SAPO Blogs é a minha opção para quem está a começar (mesmo que este mesmo blogue de línguas não esteja por lá — se calhar devia).

Se vier a ter tempo, hei-de escrever uma explicação sobre como criar um blogue em cada um destes sistemas. Mas, não se enganem: é fácil (excepto no WordPress.org). Tentem: todos estes sites têm páginas de ajuda muito completas.


O que todos os blogues devem ter

Já que estamos a falar do assunto, aqui fica uma lista de tudo aquilo que todos os blogues devem ter (pelo menos, se o autor do blogue quiser ter leitores):

  • Um formulário de assinatura. Ou seja, deve ser fácil aos leitores inscreverem-se para receber os artigos do blogue no e-mail. Porquê? Porque leitores são difíceis de arranjar e o e-mail ainda é a melhor forma de chegar a quem nos quer ler. O Facebook é interessante, mas cada post no Facebook só aparece a algumas pessoas. Os e-mails são entregues a todos. Vão por mim: se querem leitores a longo prazo, arranjem um sistema de assinatura para o vosso blogue.
  • Botões de partilha no Facebook, no Twitter, etc. Disse o que disse acima, mas todos sabemos que usamos as redes sociais para encontrar coisas novas. Assim, quantas mais pessoas partilharem os nossos posts, mais leitores teremos. O ideal é pôr aqueles botões de partilha por baixo dos posts (vejam o caso deste post, com quatro botões logo a seguir ao texto) — e convém ainda dizer o número de partilhas que já tivemos, porque todos tendemos a partilhar o que já foi partilhado por muitos. Cada sistema tem a sua forma particular de inserir os botões. Quem tiver dúvidas, comente este post, terei todo o gosto em ajudar.
  • Um sistema de comentários moderados — ou seja, cada comentário deve ser lido e aprovado pelo autor do blogue antes da publicação. Há quem prefira não ter comentários. Outros deixam passar tudo e mais alguma coisa. Pessoalmente, já passei por várias fases. Agora, gosto de ter comentários, mesmo que um ou outro sejam desagradáveis (por acaso, tenho muito poucos desses por aqui; sorte nos leitores, é o que é).
  • Uma forma de saber quantos leitores aparecem pelo blogue. Quase todos os sistemas referidos acima incluem um sistema de estatística, mas o ideal é mesmo investir algum tempo a aprender como configurar as Analytics do Google, que são gratuitas e poderosíssimas. Permitem saber muito mais sobre o tipo de leitor que o blogue atrai e o que funciona melhor e pior. Ideal para quem quer escrever um blogue que seja cada vez mais interessante para quem o lê.

Se um dia destes tiver tempo, hei-de criar um guia detalhado para cada um destes pontos.

Para já, fiquem com mais algumas listas úteis.


O que um autor de blogues deve ter

  1. Uma paixão que chame os leitores. Criar um blogue do estilo «As minhas opiniões» só tem interesse se a pessoa já for um chamariz por si própria (vulgo: famosa). Tirando isso, será difícil. (Já Sterne gozava com esse tipo de blogues, e eles ainda nem existiam…) Agora, claro, a paixão pode ser algo tão comum como os filhos, o cão, o companheiro, a corrida, o ensino, o que se quiser — por aqui, como sabem, o meu interesse são as línguas. É uma mania como outra qualquer…
  2. Paciência. Que isto demora. Não basta escrever e pronto. É preciso divulgar, responder a comentários (quando há tempo), pensar naquilo que interessa e não interessa, reler o que se escreve, perceber um pouco do sistema que usamos para escrever, e por aí fora. Paciência, claro — mas se o blogger tiver a paixão de que falo acima, aguenta tudo. Depois, se as coisas correrem bem, é preciso ter paciência para os trolls, que sempre aparecem, mais tarde ou mais cedo.
  3. Gosto pela escrita (e algum tempo). Como é óbvio. Este gosto pela escrita não é só «gosto de dizer umas coisas». Tem de ser também: gosto de olhar para as frases e ver se soam bem. Gosto de reler e rever e reescrever. Gosto de escrever e depois não publicar (tenho mais posts não publicados do que publicados).

Voltando atrás: sim, um blogue deve ter um tema, para que não se perca no mar indistinto dos blogues que falam de tudo e de nada. De preferência, deve ser útil — e interessante e tudo o mais. Mas é difícil dizer muito mais do que isto. Afinal, é da quantidade de blogues que sai a qualidade dos poucos de que gostamos. E tudo terá muito a ver também com a sorte — e com aquilo que não se define.

Bloguemos, então. Sem medo.


Antes de começar…

… convém pensar no tipo de letra, nas cores, e por aí fora. Quem não percebe nada disso, pode escolher um bom tema ou modelo («template»). O Sapo tem alguns modelos muito bons, mas o WordPress é o mais flexível. O que vale é que, nisto, estamos sempre a tempo de melhorar mais tarde…


Antes de publicar um artigo, o que devo fazer?

  1. Rever o texto. Por exemplo, ler o post em voz alta. Passar o corrector ortográfico. Reescrever, se for preciso. Claro que há quem goste de escrever, escrever, escrever e publicar sem pensar mais no caso. Mas não costuma ser uma boa técnica. (Já agora: «Três passos para escrever melhor em português»)
  2. Escolher uma boa imagem para ilustrar o texto. Se não sabem onde encontrar imagens gratuitas, comecem por pixabay.com. Não falhem este ponto: a imagem vai ajudar muito a chamar a atenção nas redes sociais e a dar um toque ao post que ajuda o leitor a chegar ao fim.
  3. Espaçar os parágrafos: ninguém gosta de ler um bloco imenso de texto sem espaço para os olhos descansarem. Uma linha entre cada parágrafo ajuda. Parágrafos pequenos ainda mais. E um ou outro subtítulo para ajudar o leitor a navegar o texto.
  4. Pensar um pouco no que se escreveu e ver se não nos estamos a precipitar. Às vezes, escrever no calor do momento pode ser má ideia. Ou não. Depende. Bem, escrevam e depois se vê…
  5. Ter cuidado com os excessos ortográficos. Os leitores de blogues gostam do estilo informal, de sentir que estão a participar numa conversa. Mas, ao mesmo tempo, no meio de tanto blogue, todos os pormenores contam: um blogue com muitas abreviaturas, smileys, pontos de exclamação e letras em maiúsculas costuma afastar os leitores. Um blogue divertido, bem escrito, com um ou outro smiley, com um ou outro ponto de exclamação e um ou outro grito — por aí já estamos no bom caminho.

Como arranjar leitores?

Em Portugal, dificilmente alguém vive dos blogues — há excepções, claro, mas são isso mesmo: excepções. No entanto, por uma ou outra razão, quase toda a gente que escreve gosta de ser lida.

O que será um número razoável de leitores para um blogue?

Depende, claro está.

Presumo que os blogues mais famosos (o Cocó na Fralda ou a Pipoca ou alguns desses) tenham larguíssimos milhares de leitores por dia.

Mas esses são blogues raros. Convém ter expectativas mais realistas.

Se quiserem um exemplo de blogue que não é famoso, podem pensar neste mesmo, onde estão a ler este texto.

Ao final de um ano e tal de escrita, tenho uns 20 mil leitores por mês (os blogues mais famosos têm isto e muito mais por dia). No melhor dia (em Novembro, quando escrevi um post que, ironicamente, nada tinha a ver com línguas), tive uns 5000 leitores. De todos estes números, o que acho mais importante é mesmo o número de pessoas que recebem os artigos por e-mail: neste momento, são uns 1050.

Aí têm um objectivo, que vos dou de bom grado: façam melhor em menos de um ano. Aqui estarei para ler, com muita «Gönnen» (se não sabem o que é, leiam isto).

Alguns conselhos para arranjar leitores:

  1. Partilhem o que se escrevem pelos amigos. Arranjem uma boa imagem a acompanhar.
  2. Escrevam a pensar nos interesses dos leitores (e um pouco menos na nossa vontade de desabafar).
  3. Tenham um leitor em mente. Ou seja, escrevam para um tipo de pessoas em particular: por exemplo, professores; ou pais; ou adolescentes; ou trintões; ou artistas; ou pessoal que está a preparar um casamento… Quanto mais definido o leitor, mais o blogue chama a atenção.
  4. Escrevam com regularidade; respondam aos comentários; tentem escrever como quem vai contando uma história dia após dia.
  5. Tentem várias estratégias; não desistam à primeira.

Isto são conselhos avulsos, de que me vou lembrando. Se me lembrar de mais, digo-vos. Se quiserem partilhar os vossos, têm a caixa de comentários ali em baixo.


writing-828911_1920 Isto dos blogues pode dar algum trabalho, mas acreditem que é muito bom: aprende-se muito e não deixa de ser muito, mas mesmo muito divertido.

Se avançarem com um blogue, digam-me, pode ser?

(Já agora, se for difícil desemperrar os dedos, leiam este post: «Cinco truques para desemperrar a escrita».)

Entretanto, podem fazer perguntas nos comentários a este post. Terei todo o gosto em responder, logo que possa.

Bom 2016, com muitos blogues e muita leitura!

História Secreta da Língua Portuguesa

Capítulo 2. A missão secreta de Tiago na capital dos Visigodos

Ainda não chegámos ao tempo de Camões — estamos longe, mas ainda o havemos de encontrar aos murros pelas ruas de Lisboa — nem sequer ao tempo de Afonso Henriques (no próximo episódio, saberemos que língua falava o nosso primeiro rei). Mas continuamos, muito tempo antes, a tentar perceber donde apareceu a língua deles — deles e nossa, claro está.

Ainda temos muitos séculos de caminho.

Se bem se lembram, no primeiro episódio olhámos para esses tempos em que os celtas começavam a aprender latim. Aproveitámos para conhecer os Contreiras.

Uns seiscentos anos depois, temos ainda gente dessa família a viver mais ou menos nos mesmos sítios.

MADRID SAN LORENZO DEL ESCORIAL MONASTERIO-BIBLIOTECA-COLECCION DET-CODICE ALBENDENSE MOZARABE-CONCILIO DE BRAGA EN EL 561-F 209 V- OBISPO HIDACIO ESCRIBE CRONICA

Teodomiro, rei suevo da Galiza, no século VI.

Estamos no século VII. O Império já caiu, os bárbaros já chegaram.

Entretanto, foi criado o Reino dos Suevos, também chamado Reino da Galiza, com capital em Braga.

Também esse reino desapareceu, integrado no Reino dos Visigodos, que veio a ter a capital em Toledo.

Estamos no coração da Idade das Trevas — mas esse nome fomos nós, gente do futuro, que lhe demos.

Para as gentes dessa altura, estes eram dias tão coloridos como os de hoje, com gente a tentar viver o melhor  possível, com a história a passar nas estradas e nas crises e nas dificuldades de cada pessoa e de cada família…

LEIA O RESTO DA HISTÓRIA NO LIVRO
A INCRÍVEL HISTÓRIA SECRETA DA LÍNGUA PORTUGUESA.

O problema dos piropos (ou como ler no Facebook)

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Temos discutido neste blogue muitos temas sobre o uso da língua portuguesa: como escrever melhor, como corrigir os outros e mesmo como não partilhar tanta parvoíce por esse Facebook fora (o que tem mais a ver com o uso da língua do que parece) — mas, se não estou em erro, nunca falámos sobre como ler melhor.

Ora, hoje vejamos como ler melhor aquilo que nos aparece no mural do Facebook.

Será isto importante? Estou em crer que sim e já veremos o caso concreto do tal piropo que parece ser crime — segundo dizem por aí.

Ora, o que me parece óbvio sobre a melhor forma de ler as letras gordas que nos passam no mural do Facebook é que não podemos ficar pela leitura dessas mesmas letras gordas. Temos de ler as letras pequenas também. E continuar a ler e hesitar um pouco antes de lançar ao mundo a nossa ponderada opinião. Temos de abrir os artigos que partilhamos, temos de procurar a informação e não lançar ao pobre mundo a primeira opinião que nos vem à cabeça.

Curiosamente, parece haver uma relação estranha entre o tempo que demoramos a chegar a conclusões e a certeza com que as expressamos: quanto menos tempo passamos a pensar no assunto, mais certeza temos da nossa sagrada opinião.

Eu sei, eu sei… É aborrecido. É mais giro participar na conversa lançando ideias fortes e danadas, não querendo saber de mais nada. Para quê pensar, se temos ali uma piada tão boa à mão de semear. Para quê pensar, se a primeira opinião dá para umas postas de pescada muito boas? Pois, mas podemos fazer a piada e pensar também — e mandar depois as postas de pescada um pouco mais bem passadas.


Pois, ontem, o que se passou foi isto: saíram notícias a dizer que — pasmem-se! — agora o piropo é crime! Ou seja, é já amanhã que veremos os trolhas deste país na cadeia — e por três anos!

Assim, à partida, se me dizem que o piropo foi criminalizado, também fico chateado.

Ora bolas! Logo o piropo, que até pode ser simpático.

Parece ser uma medida a raiar os excessos do politicamente correcto, excessos esses que levam as universidades dos E.U.A. a situações absurdas de ataque à livre expressão e ataque também, para dizer a verdade, ao mero bom senso (vejam só este artigo, em que Jerry Coyne descreve como a gastronomia pode ser considerada ofensiva por terras do Tio Sam).

Pois, de facto, se lêssemos apenas as gordas dos jornais e as piadas do Facebook, ficaríamos convencidos que a lei aprovada diz algo assim: «Quem disser um piropo a uma mulher, por mais inocente que seja, vai preso — e mandem a chave ao mar.»

Mas depois deu-me para ir ler o que foi, de facto, aprovado.

E o que foi aprovado foi uma pequena alteração legislativa que deixa o artigo 170 do Código Penal com esta redacção:

«Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.»

Assim, de repente, a coisa já não parece tão absurda. (Já agora: os tais três anos de que todos falam só se aplicam se a proposta inoportuna for feita a menores de 14 anos.)

Sei que há muita gente que fica em pânico: «Então, mas agora não posso fazer propostas de teor sexual? Então, mas… Se assim for, o sexo acaba! A Humanidade acaba!»

Percebo a preocupação, mas não se esqueçam que isto é um artigo do Código Penal, que tem certas regras de interpretação e de aplicação. Para que alguém venha a ser condenado ao abrigo deste artigo, tem de ter a intenção de importunar com as tais propostas (não sou jurista; se estiver enganado, digam-me).

O que leva a esta conclusão: podemos todos continuar sossegados nos jogos de sedução que são parte da vida — e ainda bem. O que não podemos é gritar impropérios a raparigas, com palavras violentas de cariz sexual, só porque sim.

«Há coisas mais importantes!»

Admito que sim. Mas será que o bullying sexual é assim tão pouco importante?

Imagine cada pessoa que me lê — homem ou mulher — que passa pela rua do trabalho, todos os dias, e ouve um daqueles «piropos» violentos. Todos os dias.

Sim, se o leitor for homem, será um pouco mais difícil imaginar (porque será?). Mas, mesmo assim, faça o esforço e imagine ser vítima de piropos homossexuais a dar para o violento.

Se mesmo assim a coisa ainda não fizer sentido, e para ajudar a perceber a situação um pouco melhor — imaginem que, em vez do «teor sexual», tínhamos outra coisa: «Dava-te mas é um enxerto de porrada!» «Matava-te toda!» «O que eu gostava de te esmurrar esse corpinho todo.»

É diferente? É. Mas para os ouvidos de uma rapariga adolescente — ou de qualquer pessoa, para dizer a verdade — há palavras de «teor sexual» que podem ser tão ou mais violentas do que essas.

Agora, aparece-me aqui a grande dúvida que tenho em relação a tudo isto: o ataque violento a outra pessoa usando palavras já é considerado crime, se não estou em erro. Assim sendo, não será esta alteração legislativa um pouco redundante? Não deixa de ser verdade que o Parlamento tem uma certa tendência para legislar a torto e a direito…

Enfim, como vêem, não deixo de ter dúvidas, mas não me parece que a coisa seja tão ridícula como parece à primeira vista, ou seja, à vista das letras gordas das notícias escritas a correr. Mais vale discutir a coisa a sério, que isto da violência sexual (com palavras ou sem elas) não é assunto assim tão leve.

E, agora, claro, o argumento da moda:

«Então, mas deixam o gajo do BES em casa e prendem os trolhas?»

Esta é daquelas comparações feitas a quente e que mostram como não devemos ler as notícias: de forma apressada e sempre à procura de argumentos para mandar mais uma chicotada no nosso ódio de estimação.

É receita infalível para atirarmos areia aos nossos próprios olhos.

Se quem faz esta comparação conseguir baixar o dedo em riste e respirar mais devagar, podemos talvez pensar um pouco na questão. Se virem bem, estão a comparar coisas diferentes: uma coisa é a medida de coacção em certo momento de um processo em particular, que pode vir a acabar em condenação por muitos anos (ou não…). Outra coisa é a pena máxima para um crime, aplicável só depois de condenação (e ainda por cima com uma alternativa em forma de multa).

Ou seja, se quisermos mesmo comparar os casos, temos de esperar uns anos e contabilizar as condenações por crime de importúnio sexual e as condenações por corrupção ou fraude. Só então podemos vir a saber se andamos a condenar mais gente por importúnio sexual ou por fraude.


Mas que estou eu para aqui a fazer? Estou mesmo a tentar domar o Facebook e as suas piadas e bocas? Parece que sim — e por isso mais vale gastar tempo noutra coisa qualquer.

Fiquemo-nos por isto: para ler bem e pensar melhor no que lemos, não basta ler as letras gordas. Convém pensar mais, tentar ver o outro lado, não ficarmos logo inchados de indignação. Podemos até ter razão, mas não é assim que descobrimos.

Um pouco de dúvida nunca fez mal a ninguém.

Cinco palavras que fazem falta à língua portuguesa

Ando a ler o livro Lingo, de Gaston Dorren. É um livro ideal para quem gosta de línguas — e também para quem gosta de viajar e quer ver a Europa com outros olhos.

No final de cada capítulo, o autor escolhe uma ou duas palavras que faltam na língua inglesa. Vai buscá-las à língua descrita nesse capítulo.

Não são palavras intraduzíveis — porque palavras impossível de traduzir, quanto a mim, não existem. (Não me venham com o exemplo batido da «saudade»!) Todas estas palavras podem ser traduzidas — só que temos de usar mais palavras.

Mas, sim, há línguas que conseguem explicar um determinado conceito só com uma palavra e outras que gastam linhas e linhas para dizer a mesma coisa. Porquê? Boa pergunta.

Pois, hoje, quero mostrar-vos algumas dessas palavras, recolhidas por Gaston Dorren no livro de que vos falei.

Escolhi cinco palavras que nos podem ajudar a ter um 2016 melhor do que 2015.

Aqui ficam cinco palavras que fazem falta ao português:

  1. Gönnen. Uma palavra alemã que é o antónimo de «inveja». A sensação agradável que sentimos quando acontece alguma coisa de bom a outra pessoa. (Em português, talvez a melhor tradução seja «ficar feliz por».)
  2. Tafalle. Uma palavra em frísio (uma língua falada no norte da Holanda) que significa «acabar melhor do que o esperado».
  3. Talaka. Uma palavra bielorrussa que significa «trabalho voluntário em prol do bairro».
  4. Merak. Uma palavra sérvia e croata que significa «o prazer que sentimos quando realizamos actividades simples, como, por exemplo, estar com os amigos».
  5. Sitooterie. Uma palavra em scots, uma língua escocesa, que significa um sítio construído para um casal se sentar sozinho, em saborosa intimidade — por exemplo, num jardim ou ao pé da praia. Pode ainda ser uma sala com um sofá e uma boa paisagem ou um canto um pouco escondido, numa festa. Não é delicioso?

Ora, aqui está. Desejo-vos um 2016 cheio desse prazer das coisas simples, que acabe melhor do que o esperado e que tenha um ou outro momento em que possam estar, com a vossa cara-metade, numa bonita sitooterie.

28/12/2015

(Nota: uma versão anterior deste artigo incluía a palavra omenie: uma palavra romena que significa «a qualidade de ser completamente humano, ou seja, decente, respeitoso, honesto, bem-educado, etc.». Ora, se virmos bem — e alguns leitores atentos perceberam logo isto mesmo — essa palavra pode muito bem ser traduzida por «humanidade», como na frase «É um juiz de grande humanidade». Lá tive de ir à Bielorrússia socorrer-me de outra palavra, para substituir a tão simpática «omenie».)

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

Será que temos um vocabulário mais pobre do que antigamente?

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Muitos dizem que sim. E, de tão repetida, esta ideia tornou-se tão óbvia que poucos a questionam.

Afinal, se o comum dos mortais de hoje em dia usa menos palavras do que Eça ou Camilo ou ainda Shakespeare, isso só pode querer dizer que usamos muito menos palavras do que antigamente. Não é assim?

Ora, pensemos um pouco. Será que os londrinos da época isabelina usavam as palavras todas que Shakespeare usou? Será que os portugueses de oitocentos, quase todos iletrados, usavam todas as palavras de Camilo, de Eça, de Garrett?

Não será errado usar os génios como padrão para avaliar o uso da língua pela população em geral? Lembremo-nos de que os génios da língua são precisamente aqueles que usam as palavras como mais ninguém consegue usar.

Sim, devemos usar esses génios para ler e para aprender, mas parece-me um pouco exagerado concluir que hoje usamos menos palavras porque não usamos tantas como os melhores escritores do passado.

Esta ideia pode ser, se virmos bem, sintoma duma certa preguiça mental: tenho aqui à mão uma ideia feita que me faz passar por lúcido — ou até me dá ares de crítico implacável destes tempos degenerados? Ah, sendo assim, escuso de pensar muito. Basta usar a tal ideia — e quem me criticar é porque faz parte desse mundo estúpido.

O curioso é que, quando alguém lamenta tal decadência do vocabulário, com toda a certeza do mundo, costuma atirar números ao ar sem preocupação em confirmá-los. São os adolescentes que só usam 800 palavras; são os portugueses que já só conhecem 150 palavras; são os jovens de hoje em dia que só percebem 1500 palavras. Donde vêm estes números sempre tão diferentes uns dos outros? Não faço ideia, mas alguém disse a outro alguém e apareceu escrito não sei onde e isso basta a quem já tem a certeza.

David Crystal, um ensaísta que escreve sobre língua inglesa (estes disparates não conhecem fronteiras) pegou nestas ideias e desmontou-as com algum humor neste post — quem se der ao trabalho de ler, irá perceber que o número de palavras que conhecemos e usamos é muito superior ao que pensamos…

Outra das provas muito usadas de que o vocabulário está em declínio é o facto de haver palavras nos bons livros de antigamente que hoje já ninguém usa.

Mais uma vez, parem três segundos e pensem: não acontecerá o mesmo ao contrário? Não haverá palavras de hoje em dia que antigamente ninguém conhecia — porque nem sequer existiam?

Antes de continuarmos, um aviso: é óbvio que um vocabulário extenso é bom e necessário — e ajuda em quase tudo. Mas será assim tão óbvio que os jovens de hoje conhecem menos palavras do que os jovens de há 100 anos, pouquíssimos dos quais iam à escola? 

Sim, quem quiser defender a ideia da decadência do vocabulário pode usar a estratégia de comparar todos os jovens de hoje, de todas as origens sociais e situações familiares, com os jovens seleccionados de antigamente (os pouquíssimos que iam à escola). Mas isso é um erro quase tão grande como comparar-nos a todos com Eça e Camilo. 

Comparem os escritores com os escritores e a população toda com a população toda (se conseguirem) e digam-nos então se estamos a piorar ou não — até lá, deixem de nos insultar o vocabulário, se faz favor.

Agora, se alguém ainda me quiser acompanhar depois destas blasfémias, reparemos em dois fenómenos curiosos.

1. Hoje escrevemos e falamos muito mais do que antigamente

Hoje temos de escrever e falar muito mais do que os nossos antepassados — as nossas profissões dependem das palavras muito mais do que as profissões da grande maioria da população desses belos tempos, em que quase todos passavam os dias curvados, ao sol, na terra. Sim: as gentes das cidades eram uma minoria. Hoje somos a grande maioria.

Parece-me, à partida, difícil de acreditar que, ao usar mais palavras, usemos uma menor variedade de palavras. É possível, mas pouco provável — se alguém quiser provar tal coisa, convém apresentar números sólidos e não se deixar ficar pelas impressões, sempre tão enganadoras.

Certamente que haverá quem use mais palavras e quem use menos palavras — quem tenha um maior vocabulário (porque lê muito e conversa muito) e quem tenha um vocabulário mais pobre.

Há ainda quem use muitas palavras diferentes em situações que as pedem e, quando é preciso, se restrinja às boas e curtas palavras que todos percebem.

Vou-me repetir, mas não faz mal. Pensem lá: a população portuguesa já foi, na sua maioria, analfabeta. Será que os portugueses de então falavam todos como Camilo e, agora que já vão à escola, que vêem televisão e ouvem rádio, que lêem jornais e livros (menos do que queríamos, mas mais do que antigamente) — acham mesmo que, agora, o vocabulário é menos variado do que nos tempos em quase ninguém sabia ler? Se acham que tal fenómeno inacreditável é um facto real, para lá das impressões mal pensadas, têm forma de o demonstrar?

(O curioso é que muitos do que se queixam de falta de vocabulário estão, no dia seguinte, a queixar-se das novas palavras que se ouvem por aí. É divertido ver tais cambalhotas entre quem não aceita a mera hipótese de não estarmos a destruir a língua.)

2. Nem sempre precisamos de palavras diferentes

Agora, o choque: querer variar o vocabulário à força serve apenas para fugir às críticas mal pensadas dos profissionais do pânico.

Olhem só para este exemplo: uma professora americana, com o intuito de obrigar os alunos a variar o vocabulário, proibiu o uso de palavras pequenas e comuns, como «fun», «good», «bad», «see».

Como diz o colunista Johnson, a intenção pode ser boa, mas o resultado é péssimo. Em muitas frases, são as palavras comuns que nos servem melhor. Andar a limitar assim o que podemos escrever não pode ser boa ideia. É o mesmo que proibir os atletas de andar para que eles aprendam a correr melhor.

Trouxe este exemplo à baila só para verem como estes pânicos pouco fundamentados podem conduzir ao disparate.

Se um professor português fosse pelo mesmo caminho, acham que seria bom proibir palavras como «ver» para obrigar ao uso de outras palavras? Que frase será melhor num diálogo realista?

  1. «Acabei de ver um acidente!»
  2. «Acabei de observar um acidente!»

Quase todos preferimos a primeira, mas as regras da tal professora obrigam os alunos a escolher a segunda.

O que importa é que a grande maioria das pessoas usa as duas palavras. Vemos certas coisas, mas observamos com atenção outras coisas. Podemos ter um arsenal de palavras muito rico, mas não andar sempre a gastar munições. Os falantes de português são mais inteligentes do que os pintam.

Como dizia George Orwell, que em certos dias até dizia umas coisas acertadas no que toca ao uso da língua, as palavras curtas e simples são, muitas vezes, preferíveis às palavras longas e raras.

O segredo está em usar a palavra certa no momento certo — não está em variar o vocabulário à força, só para fugir às críticas de quem desespera por não viver rodeado de Shakespeares.

Para concluir…

Sim: um escritor pode usar toda a paleta de palavras que a língua lhe oferece. Mas, por outro lado, um formulário do Estado ganha muito em ser simples e fácil de compreender por todos.

Sim: um adolescente parece debitar apenas e só monossílabos quando fala com alguns adultos — mas ponham-se à escuta quando o mesmo adolescente conversa com os amigos e vão ficar com os ouvidos a arder de tanta palavra nova e desconhecida.

O nosso vocabulário está cada vez mais pobre? Tenho dúvidas, tenho mesmo muitas dúvidas…

(Já sei que algumas pessoas vão achar que este texto defende um vocabulário limitado. Não! Leiam de novo. Defendo que o nosso vocabulário é menos limitado do que parece — e ainda bem. Já agora, aproveitem para ler este post sobre a necessidade que as crianças têm de palavras — muitas palavras.)

Livros em papel ou livros electrónicos?

 Talvez seja da inspiração dos islandeses ou da época natalícia — o Natal, a mim, cheira-me a livros, para lá de doces e do calor do jantar em família — o certo é que me anda a apetecer escrever sobre livros por aqui.

Falemos então da questão que mais enerva os bibliófilos de todo o mundo de há uns anos para cá: é melhor ler em papel ou num ecrã?

Como em tudo, a questão rapidamente descambou em partidos radicalíssimos: há quem adore o cheiro dos ecrãs — e todos aqueles (muitos mais) que recusam ler livros que não sejam de papel.

Ora, nesta questão dos livros de papel contra os livros electrónicos, a vantagem retórica vai para o Partido do Papel, que se faz valer das recordações de infância, do cheiro do papel, da tradição, das bibliotecas já existentes, das frases bonitas que se tiram da internet e por aí fora — é quase uma Irmandade do Livro, toda esta gente que jura a pés juntos que odeia livros que não sejam em papel.

Pronto, talvez não odeie, mas não gosta lá muito desses espertalhaços armados em tecnológicos que não sabem o que é bom.

O Partido do Livro Electrónico também tem as suas vantagens estratégicas: por exemplo, o silêncio — enquanto os outros estrebucham. No entretanto, são capazes de transportar milhares de livros no bolso, prontos a abrir a qualquer momento (pelo menos, quando têm bateria).

Dum lado, o doce sabor das memórias dos livros que folheámos. Do outro, o sabor a novidade e a utopia da biblioteca infinita (mas ainda assim bastante cara).

Antes de mais, não faço parte de nenhum destes partidos. Tenho livros daqueles pesados até dizer chega, mas também confesso ter já experimentado as delícias da tinta digital — e leio nos dois formatos.

Ora, agora que já passaram alguns anos desde a explosão dos livros electrónicos, talvez possamos pensar um pouco mais a frio neta guerra.

Vejamos então, com imparcialidade, as vantagens dos livros electrónicos — para logo depois avançarmos para as vantagens dos livros em papel.

Só para não deixar este artigo crescer para lá do que é confortável para os leitores deste blogue, limitar-me-ei a cinco vantagens para cada lado. Em relação às desvantagens, ficam para o ano, pode ser?

Cinco vantagens dos livros electrónicos

  1. Não precisamos de andar com muitos calhamaços atrás e mesmo assim podemos estar a ler cinco livros ao mesmo tempo. O que é bom.
  2. Podemos ler o primeiro capítulo de algum livro que nos desperta a curiosidade para ver se apetece ou não — e nem precisamos de ir à livraria.
  3. Podemos ler à noite, sem ter a luz ligada, o que pode irritar quem se deita ao nosso lado.
  4. Não precisamos de comprar novos equipamentos: basta instalar aplicações como o Kindle no telemóvel.
  5. Podemos fingir que estamos a ser zombies sempre de olhos nos ecrãs, irritando aqueles que gostam de se queimar de tudo — e afinal estarmos a ler o mais interessante livro do mundo. Ou seja, podemos estar a sentir um enorme prazer e a ficar bem mais ricos (por dentro) sem que ninguém perceba. Um segredo só nosso.

Cinco vantagens dos livros em papel

  1. Podemos oferecê-los à vontade: a verdade é que oferecer livros electrónicos é difícil e um pouco ridículo. «Olha, aqui tens um embrulho. Lá dentro está um papel com o título do livro que te comprei para o telemóvel.» Mas há pior: já tentei oferecer um livro electrónico ao meu irmão e, dois anos depois, o livro ainda está a caminha. Nem os correios se atrasam tanto…
  2. A sensação de que um livro em papel funciona em qualquer lado é magnífica. Para quem anda sempre aflito com a bateria do telemóvel, ter um livro pronto a ler ali ao lado é um alívio, sem pensar em mais carregadores e tomadas que nunca chegam.
  3. Podemos coleccioná-los: sim, podemos ter 1000 livros no telemóvel, mas os livros também são objectos, com cor e peso e textura — e isso é bom. (Assim se explica que tanta gente tenha tantos livros que ainda não leu — algumas almas ficam intrigadas com este fenómeno, mas os livros que não lemos também fazem parte da vida de quem é viciado.)
  4. É mais fácil dar uma olhadela e ter noção do livro antes de começar — e também voltar ao livro depois de o ler e recuperar as sensações apenas com o folhear das páginas. Parece-me a mim — mas posso estar enganado — que é mais fácil aprender em papel. Procurar uma passagem (por mais estranho que pareça) também é mais fácil. E, ao folhear ao calhas, encontramos sempre alguma coisa boa. Nos livros electrónicos, não é tão fácil andar a ler o livro ao sabor da sorte e do azar.
  5. E depois, claro: o cheiro, as recordações, até — perdoem-me — os cortes de papel nas mãos. Tudo isso faz parte e é saboroso. E ainda a possibilidade de escrevinhar, de sublinhar ou simplesmente de pôr o nosso nome e a data na primeira página.

Parece-me que os livros em papel ganham nos argumentos retóricos. E, de facto, se puder escolher, escolho — para mal das minhas estantes — um livro em papel.

Agora, quero dizer-vos isto: os livros ensinaram-me a desconfiar de mim mesmo, a desconfiar das minhas próprias preferências e — mais importante — a desconfiar dos erros de pensamento em que todos caímos mais tarde ou mais cedo.

Ora, um dos erros de pensamento que por aí anda são as falsas dicotomias. E está é uma delas! Parece que temos de escolher. Parece que só podemos ler ou livros em papel ou livros em ecrã.

Na verdade, não temos de escolher. Podemos ter livros em papel e livros em píxeis. Os ditos não são ciumentos. Vou a uma livraria, compro em papel. Quero experimentar um capítulo de um livro, descarrego-o da Amazon. Preciso de lê-lo já, compro para o telemóvel. Não temos de dizer «nunca» a nenhum deles…

Muitos livros para 2016 — é o que vos desejo.

A deliciosa tradição islandesa de dar livros no Natal


Há poucos dias, descobri a mais deliciosa tradição de Natal, um hábito magnífico desse pequeno país perdido nas águas frias do norte do Atlântico, que faz as delícias de qualquer viciado em livros.

Na Islândia, a prenda que todos oferecem no Natal são livros e, pelos vistos, a consoada pode ser passada a ler os livros que recebemos.

Mais: publicam-se tantos livros antes do Natal que a língua islandesa tem uma palavra só para esse fenómeno: Jólabókaflóð — literalmente, inundação de livros do Natal.

Para um marado dos livros como eu, isto é o suficiente para querer visitar a ilha — apesar dos vulcões e do frio. Imagino que os livros sejam quase todos em islandês, mas não faz mal.

Já agora, que estamos com a mão na massa, que é como quem diz, na palavra Jólabókaflóð, reparem nessa deliciosa letra «ð», que, em conjunto com o «þ», dá um sabor muito característico a esta língua quando a vemos escrita — são símbolos que nos põem a imaginação a sonhar com sagas e deuses nórdicos e têm o seu quê de alfabeto secreto. (A mim lembra-me também o Beowulf, em inglês antigo, que conheci fugazmente nas aulas de literatura inglesa, há tantos anos…)

Reparem ainda que conseguimos distinguir na palavra islandesa qualquer coisa que não deixa de ser familiar para quem sabe alguma língua germânica (o inglês, por exemplo): temos bóka, que lembra o book mais nosso conhecido, e o flóð, que lembra flood — a palavra quer dizer «Christmas book flood».

E que deliciosa inundação!

Depois de ler sobre esta tradição num artigo encontrado no Facebook, encontrei uma referência à palavra no livro Lingo, de que já vos falei e que tenho andado a ler. Para quem nunca tinha ouvido falar desta tradição, não deixa de ser uma coincidência agradável encontrar referências em dois sítios diferentes em menos de dois dias.

Em Lingo, o autor diz que Jólabókaflóð é uma palavra que bem podia ser importada para o inglês, pois faz alguma falta.

Pois eu digo mais: podia ser também importada para o português, e a tal bela tradição podia vir a reboque, se faz favor.

Uma noite quente, em casa, com pessoas de quem gostamos e o frio a bater lá fora — haverá melhor desculpa para passar umas boas horas a ler, depois de um jantar em família em que se trocaram livros? Se houver lareira, ainda melhor.

Nesta manhã de Natal, deixem-me desejar-vos um 2016 inundado de livros. Há coisas piores.

Uma História de Natal: quando a coragem derrota o terrorismo

Não sei se já leram esta notícia: «Muçulmanos protegem cristãos em ataque islamista no Quénia». Diz o Público:

Um grupo de muçulmanos recusou separar-se de cristãos durante um ataque a um autocarro no Quénia na segunda-feira. “Matem-nos a todos ou deixem-nos ir”, terão ouvido os cerca de dez membros do grupo radical islâmico Al-Shabaab quando tentavam identificar cristãos entre os passageiros, para os executar.

(Quando oiço estas histórias de terroristas que querem executar gente por causa da religião, apetece-me pedir a Deus para nos salvar daqueles que levam Deus demasiado a sério.)

The bus Al-Shabaab militants attacked in Mandera on December 21, 2015 killing one person and injuring three others. PHOTO | MANASE OTSIALO | NATION MEDIA GROUP

PHOTO | MANASE OTSIALO | NATION MEDIA GROUP

Felizmente, para lá do tribalismo de que tenho falado por aqui e que, às vezes, dá origem a estes terrores, há a coragem inacreditável de gente comum, como aquelas pessoas num autocarro do Quénia.

Esta história pareceu-me a mais bela história deste Natal.


Um Feliz Natal a todos os leitores deste blogue!

DEZEMBRO DE 2015

Em que países se fala melhor inglês? Em que lugar está Portugal?

Já sabemos que gostamos muitos de fazer comparações: somos os mais disto e os mais daquilo — e então se houver espanhóis na disputa, ainda gostamos mais.

Pois, um dos pontos em que nos julgamos bem melhores do que os nossos vizinhos é a falar inglês.

Quantas histórias não ouvimos já de espanhóis a tentar dizer palavras em inglês e a terminar numa sopa de sons que ninguém entende?

Nós fazemos tanta questão de gozar o pagode nesta questão que até nos convencemos que os espanhóis traduzem tudo só para não ouvir inglês: anda por aí a correr o mito de que eles traduzem os nomes dos grupos musicais, por exemplo. Que os Rolling Stones são Las Piedras Rolantes. É uma história gira, mas falsa.

Enfim, tudo isto é engraçado, mas será que é verdade que falamos inglês melhor que os nossos vizinhos?

Encontrei hoje um artigo no jornal La Vanguardia, em que fala do English Proficiency Index (EPI), um estudo internacional sobre a proficiência em inglês dos vários povos do mundo que não têm o inglês como língua nativa.

Aqui vai o mapa que aparece no jornal:

COMPETENCIAINGLES

Portugal está ali num verde escuro, em 13.º lugar e tem vindo a subir. Espanha está em 23.º…

Parece que, neste ponto, estamos mesmo em vantagem. Quem diria! (Bem, diriam quase todos os portugueses…)

LISTA DE PAISESOra, antes de terminarmos, um aviso: estamos a falar de um só estudo. Estudos há para muitos gostos. Se tivesse um pouco mais tempo, iria tentar perceber como foi feita esta lista, e por aí fora. Mesmo com números à frente, continua a ser boa ideia desconfiar das nossas ideias-feitas. Afinal, parece que Portugal andou a subir lugares nos últimos três anos como se não houvesse amanhã. Ora, não tendo havido grandes mudanças nos conhecimentos de inglês da população em tão pouco tempo, mais vale olhar para tudo isto com o nariz um pouco torcido.

(A lista dos primeiros 23 lugares está aqui ao lado.)

 

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