Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Janeiro 2016 (Página 1 de 3)

Afinal, no Porto diz-se «cimbalino» ou não?

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Na terra onde nasci e na Lisboa onde acabei por ir parar, sempre ouvi muitas pessoas usarem a palavra «cimbalino» como exemplo de vocabulário do Porto.

Sim: «cimbalino» no Porto, «bica» em Lisboa. Tal como «fino»/«imperial» e outras saborosas diferenças.

Ora, as palavras às vezes surpreendem-nos.

Ali por volta de 2009, a empresa onde trabalho abriu um escritório no Porto e conheci a Ana Filipa, a cara do novo escritório.

Nas semanas que lá passei nessas alturas do arranque, aproveitei para lhe perguntar sobre o famoso «cimbalino».

A resposta surpreendeu-me:

«Cimbalino? Nunca ouvi tal coisa!»

«A sério? Mas olha que até já ouvi dizer que a palavra vem da marca das máquinas, ou lá o que era…»

«Pois, não sei, mas nunca ouvi ninguém usar…»

Perguntei a outro colega do Porto e ele também me disse que nunca tinha ouvido tal coisa.

Fiquei a coçar a cabeça: pergunte-se a um lisboeta o que é um «cimbalino» e responderá, sem hesitação, que é a bica do Porto. Pergunte-se a um portuense e a resposta será uma grande interrogação.

A verdade é que, na empresa, andamos todos entre os 30 e os 40. Talvez seja uma questão de gerações…

Pois, hoje, a passear no Facebook, encontro alguém que afirma sem hesitar que esta palavra deve ter morrido por volta dos anos 70.

Será isso, então? Uma palavra que já foi do Porto, mas que hoje sobrevive apenas na imagem que os lisboetas têm desse mesmo Porto?

 

Qual é o pior erro de português?

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Não é fácil responder a esta pergunta. Não há factos a que me possa agarrar para fundamentar uma qualquer escolha. Posso, apenas, dar-vos a minha opinião: o pior erro de português não é ortográfico, nem sintáctico, mas estilístico.

O pior erro de português é o abuso da hipérbole, uma simpática figura de estilo, que, em mãos competentes, é muitíssimo útil.

Já em mãos menos seguras, a hipérbole facilmente se transforma numa «hipérbole destravada», um vício pior do que a heroína (aqui têm um exemplo) — de tal maneira que muitos abusadores já nem conseguem distinguir onde acaba a realidade e começa a retórica.

Vou tentar ser um pouco mais concreto, com três exemplos (podiam ser outros):

  1. Política. Muitas pessoas usam e abusam da hipérbole destravada ao descrever os defeitos dos adversários. A certa altura, já estão tão enterrados na bola de neve argumentativa, que se esquecem de qualquer princípio democrático ou sentido da decência ao escrever. Ainda ontem li quem sentisse «nojo» por ter havido eleições com um resultado de que não gosta. Há quem diga que este é o pior país do mundo. Querem um exemplo real? Li isto ontem, sobre os resultados das eleições de domingo: «Este país fede! Fede a gente triste e miserável, pequena, vil e desprezível.» Isto para não falar dos insultos a candidatos e apoiantes, a mais óbvia das hipérboles destravadas. (Digo isto após estas eleições, mas o mesmo acontece, em todos os partidos, depois de qualquer eleição.)
  2. Língua. Nestas questões da língua, adoramos exagerar e carregar nos tons até ficarmos com a pintura toda borrada: é a língua que morre, são os jornalistas (ou a profissão que nos apetece atacar nesse dia) que já não sabem português, são os jovens que ninguém percebe, é o vocabulário que está reduzido a três ou quatro palavras, é isto e muito mais. Tudo hipérboles, mas que de tão repetidas são já consideradas verdades indesmentíveis. O pensamento baralha-se com tanta hipérbole a embater violentamente no nosso cérebro…
  3. Vida pessoal. Quando falamos entre amigos desta ou daquela pessoa, é habitual deixarmos cair a argumentação num qualquer extremo: o João ou é uma besta ou é bestial. O Pedro ou não sabe o que está a fazer com a vida, ou é um génio (a chamada hipérbole-oito-ou-oitenta). A vida é comentada e vivida em registo de hipérbole destravada, toldando-nos a capacidade de pensar. É difícil escapar a isto — e talvez por ser tão normal na vida pessoal, usamos o mesmo tipo de argumentação emocional e sem freio quando discutimos assuntos mais gerais.

A hipérbole destravada é uma espécie de mecanismo de defesa das ideias que temos: em vez de pensar um pouco e fundamentar as nossas opiniões, criamos um fogo-de-artifício retórico, que, ainda por cima, puxa a questão para o lado do tribalismo: ou nós, ou eles (que pensam sempre mal).

Repare o caríssimo leitor: este erro de português impede o diálogo e limita-nos o pensamento. Isto é bem mais grave do que qualquer erro ortográfico.

26 de Janeiro de 2016

Dez dicas para usar melhor a língua portuguesa

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1. Alimentar os filhos com muitas palavras

Esta dica vai logo à cabeça. É, provavelmente, a mais importante.

Muitos andam preocupados com a língua portuguesa e o estado em que ela se encontra. Por mim, digo-vos isto: pensem antes no futuro. Conversem com os vossos filhos sempre que puderem, contem histórias, expliquem o mundo, apontem para tudo o que é interessante — abram os olhos a essas crianças que hão-de ser os falantes de português das próximas décadas.

Falem, falem, sem parar.

Tudo indica que é uma das maiores prendas que podem dar aos filhos: uma língua desenvolta, um cérebro habituado a estas lides da linguagem, um vocabulário cheio e bem sonoro.

E, claro, para além disso, é muito saboroso conversar com quem gostamos, não é?

Em pouco tempo, os nossos filhos estarão a conversar com outras pessoas, a ler por si, a ir muito além do que lhes ensinam os pobres pais. Resultado: estas conversas passam a ser boas para os filhos, mas também para os pais.

Mas conversar sobre o quê? Sobre tudo! Falar de muita coisa, sem medo, nem travões. Tudo serve de desculpa, até o que dá na tal televisão, que muitos acusam de estar a dar cabo da cabeça das crianças.

Sim: conversar. Algo tão simples, mas que fará mais pela língua portuguesa do que todas as carpideiras da língua.

Mas, pronto, aceito que até nem concordem comigo. Podem continuar convencidos que andar à caça de erros por esse mundo fora — e pelo Facebook! — é mais importante do que conversar com as crianças. Talvez até, com algum jeitinho, me convençam que a língua nem ganha assim tanto com tanta conversa entre pais e filhos.

Mas ganham as crianças e ganhamos nós. E o que é a língua senão os seus falantes?

2. Ouvir os outros com atenção

SONY DSCHá muita gente que anda pelo mundo convencida que é a própria pérola que foi atirada aos porcos.

Desenganem-se: as probabilidades de cada um de nós ser um génio num mundo de estúpidos são diminutas.

Provavelmente, encontramos todos os dias imensa gente bem mais esperta e sábia do que nós, mesmo que não pareça e mesmo que essa gente não pense como nós (não é crime, por enquanto).

Há gente parva e que não interessa a ninguém? Sim, claro. Mas concentrem-se nesses por vossa conta e risco. E, reparem, quem estiver convencido que sabe distinguir bem entre gente interessante e gente desinteressante arrisca-se a perder muita conversa inteligente, só por causa da superfície pouco polida. Raspem um pouco mais…

Mais vale dar o benefício da dúvida e procurar o que é bom, em vez de pôr tudo no mesmo estafado saco.

3. Conversar com gosto e proveito

Mesmo que se dê o improvável caso de um de nós ser um génio daqueles a sério, esse tal génio improvável só tem a ganhar em ouvir os outros de mente aberta.

Não tem de concordar com tudo. Mas também não precisa de andar todo o dia com o desprezo esmurrado na cara.

E não é que até há imensa gente com quem podemos conversar, desde um velho pescador a um professor curioso?

Por isso, conversemos com gosto e menos juízos apressados.

4. Apreciar as palavras, as frases, os textos…

Rolar as frases pela boca, ler Os Lusíadas alto e bom som, rir-se com Os Maias, mas também com as conversas brejeiras de alguns talentosos amigos, com as piadas bem achadas de muita gente, com as discussões quase em modo de desgarrada que há por aí.

Tentar encontrar o verdadeiro amor pela linguagem, pela língua, tanto aquela de casa, onde muitos dizem «o comer» (ai, malandros!) e falam com sotaque carregado lá da terra, como numa sessão de declamação de boa poesia num palco de Lisboa, também em carregado sotaque (lisboeta).

A língua vai muito para lá dos limites do nosso próprio cérebro. Está em todo o país e em todos os falantes e não merece a desatenção que lhe damos, obcecados por um apertado dialecto (a que chamamos português-padrão).

Não me interpretem mal: essa norma-padrão é utilíssima e valiosa. É a base da escrita e serve de nossa língua comum quando estamos em situações formais — só que está longe de esgotar o nosso belo português.

Os mais corajosos até podem avançar confiantes para lá das fronteiras: leiam um pouco de galego, esse irmão esquecido, mergulhem no saboroso português brasileiro, cujas diferenças fazem saborosas cócegas, e esqueçam tribalismos. Em suma: descubram a nossa língua onde menos se espera.

5. Refrear o revisor que há em nós

writing-828911_1920Ora, sim, isso mesmo: muitas pessoas gostam de andar pelo mundo com uma caneta vermelha nos dedos.

É muito mau? Quanto a mim, é. Primeiro, porque fazem-no, quase sempre, mal informados, riscando tantas e antigas expressões portuguesas — e riscam-nas no papel e na boca dos outros, às vezes com laivos de má-educação. (Alguns até se orgulham de corrigir a gramática dos outros em silêncio, como se isso fosse coisa de que se possam orgulhar.)

Sim, claro, a tal caneta vermelha, usada com rigor e sem maldade, é bem útil quando estamos a ensinar, quando estamos a ajudar um filho a escrever um texto, quando trabalhamos como revisores — e quando revemos os nossos próprios textos, acima de tudo.

Mas, no dia-a-dia, andar com uma gramática na mão como o missionário anda com a Bíblia faz tanto sentido como criticar a técnica do amante enquanto fazemos amor. Até podemos ter razão, mas estraga o momento, digo-vos já. (E, sim, isto foi uma mistura de metáforas a dar para o blasfema, mas espero que não se importem; se se importarem, risquem à vontade.)

Talvez essa caneta esteja colada na mão de muitos exactamente porque se vêem como génios num mundo de estúpidos. Outros, estão genuinamente preocupados com a pobre língua.

Ora, nada posso fazer contra isso, mas não deixo de aconselhar: conversem sem pedras na mão; leiam sem alarmes na cabeça; falem sem medo e com gosto.

Vá, admito, uma vez por outra, sempre é giro mandar uma pedrinha ao lago — principalmente quando a pedrita é atirada, devagar para não aleijar, àqueles que gostam de as atirar com força.

Mas deixemo-nos de obsessões que só nos estragam os dias, pode ser?

6. Escrever sem parar — e acordar, então, o tal revisor

A tal caneta vermelha que pedi para guardarem no bolso ali mais acima, convém agora tirá-la e usar sem pejo. É preciso escrever, reler, reescrever. Riscar e atirar fora. Tentar de novo.

Só à força de muito treino se consegue escrever um pouco melhor.

Por isso, tudo o que nos leva a ficar mais inseguros na escrita e na fala deve ser ignorado. Para aprender a escrever, só há um caminho: ler muito, cada vez mais, e depois escrever e voltar a escrever. É difícil? Sim.

Já agora, que aqui estamos, aqui ficam algumas dicas para escrever melhor:

  • Reler e reescrever o que dizemos pensando numa qualquer pessoa que vá ler o nosso texto. Ou seja, não escrever para impressionar, mas para chegar a essa pessoa e mostrar-lhe o que queremos mostrar.
  • Pensar no prazer do leitor. Ler em voz alta, se preciso for. Perder tempo a pensar em como dar a volta ao texto, à frase, àquela expressão menos clara ou mais fechada.
  • Dar o nosso texto a outra pessoa para ler e ajuizar. É difícil perceber como as nossas palavras vão ser ouvidas ou lidas. Por isso, quanto mais conseguirmos sair de nós e ouvir o que dizemos como se fôssemos outra pessoa, melhor.

Já falámos de tudo isto neste blogue, no artigo «Três passos para escrever melhor».

7. Não falar da língua com a boca cheia de ideias-feitas

Só dois exemplos de ideias-feitas sobre a língua: há quem jure que os jovens não sabem falar (e já não sabem falar há séculos, coitados). Outros apostam que o nosso vocabulário está a desaparecer com água pelo ralo.

Ainda há tempos ouvi quem dissesse que já só usamos 800 palavras! Também há quem aposte nas 100 palavras! E sempre com ponto de exclamação.

Amigos: tenham tino, se faz favor.

É quase impossível saber quantas palavras usamos, de facto, no dia-a-dia.

Tentei encontrara algumas pistas. Virei-me para este blogue. Já usei 12 000 palavras diferentes — e estou muito longe de ser um génio ou andar sempre a consultar dicionários para escrever.

Também fiz outra contagem. Tirei 10 artigos de blogues ao calhas (nos blogues do Sapo) e contei as palavras diferentes. Só nesses 10 artigos, lá encontrei 1500 palavras diferentes. Se tivesse ido mais longe e tivesse tido tempo de retirar todos os posts de um só dia, teria encontrado bem mais do que as minhas 12 000.

É significativo? Não, claro. São exemplos. Mas, mesmo assim, já é alguma coisa — não me fiquei por ideias vagas sobre «empobrecimento da língua» sem qualquer tentativa de testar o que digo…

Reparem ainda: nós usamos mais palavras na oralidade do que na escrita, porque a escrita tenta seguir a norma-padrão, que é um pouco mais limitada do que todos os registos da fala. O que significa que, provavelmente, usamos bem mais do que as 12 000 palavras que encontrei neste pobre blogue.

Usamos mais umas palavras do que outras? Ora, claro. Mal seria se assim não fosse. As palavras simples e directas são simples e directas precisamente porque são mais frequentes (e úteis, digo eu)…

É verdade: não somos shakespeares ou camilos — mas usamos muitos e bons milhares de palavras.

Nisto do vocabulário, deixem-se de tremendismos. Ou, pelo menos, apresentem provas, com números, comparações e evoluções. As vagas impressões valem muito pouco.

img_19958. Pensar em não ler

Isto é um conselho tão batido, que tive de o virar ao contrário e dizê-lo na negativa, só para ver se chamo a atenção para a sua importância.

Sim, podem pensar em não ler, mas só se for para chegar à conclusão que dizer tal coisa é um profundo disparate.

Leiam e muito. Assim, conseguimos treinar a língua, toda ela, usada na escrita com a mestria que só os grandes conseguem. Podemos ler os velhos clássicos, que são bem mais saborosos do que nos diz a nossa própria memória. Voltem a A Cidade e as Serras. Leiam A Queda dum Anjo. Atrevam-se por entre os mais recentes O Delfim ou Balada da Praia dos Cães (que me atrevo a considerar clássicos) e estou só a ir buscar exemplos que tenho aqui ao lado.

Sim, depois sigam pela História, pela Filosofia, pela Ciência. Pelas revistas e jornais. Pelos blogues. E por aí fora…

Mas leiam!

9. Morder a língua

Ora, para quem acabou de afirmar que é preciso ler e escrever sem parar, vir agora dizer que também convém saber quando parar parece uma contradição daquelas bem feias.

Mas não é: falamos, escrevemos, lemos e ouvimos — e às vezes temos de hesitar; morder a língua; contar até 10; deixar o insulto no cérebro. Pensar mais um pouco. Tentar perceber se não estaremos errados (porque às vezes estamos mesmo errados).

É isto compatível com o escrever muito e falar ainda mais? Nem sempre, presumo. Mas temos de encontrar esse equilíbrio.

Não podemos pensar eternamente em tudo o que dizemos, sob pena de ficar calados. Mas também não temos de atirar ao mundo a primeira opinião que nos vem à cabeça, só porque é nossa e soa bem.

Em caso de dúvida, pense-se uma ou duas vezes. Três, vá. Depois, diga-se o que se tem a dizer. Oiça-se o mundo e, se preciso for, mudemos de ideias.

Agora, quando o insulto e o desaforo indignado vem à boca, aí sim está na hora de morder a língua. Até porque os insultos e as indignações são bem preciosas em certas ocasiões. Estar aí a gastá-los só porque sim é tirar-lhes o valor e o peso.

10. Aprender outras línguas

Pronto, este último conselho talvez não faça muito sentido: para quê aprender outras línguas quando queremos usar melhor o português?

Não sei. Mas sei que a linguagem humana é mais do que a nossa língua e saber falar outros dialectos humanos é mais do que útil: é um excelente treino para ginasticar o nosso cérebro — e sempre nos dá ainda mais oportunidades para falar, ouvir, escrever e ler.

E é isso que se quer, ou não?

Usar a língua (a nossa ou outra) entre gente real: falar com os filhos, conversar com os amigos, ler os grandes escritores…

Usar a língua cada vez mais e, assim, cada vez melhor.

Uma boa aposta, ou não será?

[Uma versão revista deste artigo foi publicada no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa, editado pela Guerra & Paz.]

Couto Misto: um pequeno país entre Portugal e a Galiza

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Conversas proibidas em dia de eleições

A conversa começou na viagem de Ponte de Sor para Lisboa, ali pelo início da tarde de domingo, com uma certa pressa para chegar a tempo de votar.

Era normal que o assunto fossem as eleições. Íamos a ouvir a rádio e as notícias sobre uma qualquer personagem política que teria dito isto ou aquilo que podia ser ou não interpretado como apelo ao voto. A CNE lá interveio, como tinha de ser — ou não.

Perguntávamo-nos, por essas estradas alentejanas fora, em direcção ao sul (sim, há uma grande parte do Alentejo que fica a norte de Lisboa!): por que razão é preciso impedir a campanha durante o dia das eleições? Sim, eu sei que é normalíssimo em Portugal e já nos parece para lá de discutível, mas pensem lá: qual é o problema de falar de política no dia das Eleições? Que vantagem nos traz?

A única razão que me ocorre é esta: é bom dar uma certa solenidade ao acto e, talvez, manter uma certa ilusão de imparcialidade entre todos os envolvidos nos actos eleitorais. Tirando isto, não sei o que vos diga. Porquê, Deus meu, havemos de estar calados sobre aquilo que estamos a fazer naquele preciso momento? Será que se eu for votar e disser: «VOU VOTAR EM X!» estou a interferir nos direitos dos meus concidadãos? Em que sentido? Se durante as duas semanas anteriores não se fez outra coisa, porque não podemos fazer isso mesmo nesse dia?

Dizem-me: é preciso reflectir. Que seja. Mas à força? Não podemos reflectir na cama? Com auscultadores? Ou até no meio da rua? Será que a coisa funciona assim: os portugueses recolhem todas as informações, fecham-se então em casa e comparam notas no dia anterior ao acto eleitoral. Será isso? Não, não é. Não sendo, para quê uma lei destas?

Como usar países minúsculos para contornar a lei

Ora, mas nada disto interessa agora. O que interessa é ver como as conversas são como as cerejas, lá diz o lugar-comum e eu confirmo. Pois estávamos a falar destas regras estranhas e lembrei-me que, em Espanha, reparei num jornal que contornou todas estas proibições de forma genial.

Como o El Periódico de Catalunya tem uma edição andorrana (El Periòdic d’Andorra), nesses dias de defeso eleitoral, as suas edições espanholas apresentam uma ligação em letras garrafais para a edição andorrana. Os leitores seguem a ligação e, na versão andorrana, têm acesso a todas as sondagens e informações sobre as eleições espanholas, sem qualquer limitação.

Porquê? Porque, claro, Andorra é um país independente, que não tem de seguir a lei espanhola. Grande finta a essas leis estranhas.

São as vantagens de ter um micro-país encostado à fronteira. França também usa de tais vantagens: não só consegue que o seu mui republicano presidente se inclua na lista dos monarcas do mundo (precisamente por causa de Andorra), como ainda usa o Mónaco para ter uma família real muito sua, mesmo sendo o mais republicano dos países. República, sim, revistas cor-de-rosa também!

(França tem historial nesta mistura estranha entre republicanismo radical e laivos de monarquia a assomar à superfície: afinal, o seu primeiro presidente da República (com esse título exacto) foi também o último monarca. Estranhamente, foi primeiro presidente e só depois imperador. Confusões.)

O pequeno país encavalitado entre Portugal e a Galiza

Pois bem, a conversa lá continuou, já estávamos lá para os lados de Coruche. E eu lembrei-me: bem, Portugal também teve um desses micro-países fronteiriços até 1868: o Couto Misto.

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Couto Misto. Fonte: Wikipédia.

Sim, é difícil definir tal território como «país», mas o certo é que se governava a si próprio e não fazia parte nem de Portugal nem de Espanha.

São curiosidades da história e dessa fronteira que é das mais antigas da Europa, mas não deixou de ter ali uma ou outra correcção nos últimos séculos…

Diga-se, de passagem, que este pequeno «país» desapareceu num século em que ainda era possível haver territórios onde o conceito de «país» não tinha assim tanta importância.

Logo a seguir, veio o século XX, com a sua fúria de fronteiras.

Mas que língua se falaria por lá?

A pergunta mais interessante de todas e que nunca me tinha ocorrido fez-me a minha mulher, nessa viagem até Lisboa: mas afinal que língua se falava nesse tal Couto Misto?

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Meaus, no antigo Couto Misto

Eu, sempre virado para essas coisas da língua, nunca tinha pensado nisso.

Mas é, claro, a primeira pergunta que qualquer português faria, perante esta informação desconcertante de que havia um pequeno país na nossa fronteira — um pequeno país entre Portugal e Espanha ou bem que fala português ou bem que fala espanhol, certo?

Na realidade, até ao século XIX, talvez não fosse difícil encontrar gente que falava apenas e só galego nas aldeias da zona. Nas aldeias portuguesas, seria quase impossível encontrar quem falasse português-padrão. Nesse tal Couto Misto todos falariam o falar da zona e tão estranho seria o cobrador de impostos que lá aparecesse a falar espanhol madrileno como aquele que aparecesse a falar português de Lisboa (ou mesmo do Porto). Provavelmente, não aparecia nem um nem outro, pois se há vantagem em não ser nem espanhol nem português, a principal será essa: não pagar impostos.

Voltando à língua. Aposto que, por esses recantos minhotos, dum lado e do outro da fronteira — e ainda mais nesse Couto Misto —, a população rural e pouco alfabetizada falaria mais ou menos a mesma coisa.

Dum lado, todos diriam falar português, do outro, diriam galego — mas a língua seria, mesmo bem entrado o século XIX, mais ou menos a mesma.

O que diriam no Couto Misto (que não era nem dum lado nem do outro), não sei: mas o que falavam seria esse galego-português, língua sem fronteira que se visse (ou melhor, que se ouvisse).

Também aposto que um português de hoje, transportado num qualquer DeLorean para essas aldeias oitocentistas, juraria a pés juntos que a língua que ouvia dos habitantes do tal «país» era galego — mas o mesmo diria de muitas aldeias portuguesas ali encostadas à fronteira.

No que toca à geografia social, estávamos longe do Porto, das escolas, das universidades, dos jornais… Ainda mais longe estávamos de Lisboa, claro está. No que toca ao tempo, estávamos ainda muito longe do país que vai quase todo à escola, que ouve rádio e vê televisão.

Falamos de aldeias perdidas em serranias distantes, encavalitadas em fronteiras a que se dava bem menos importância do que hoje. Estamos a falar doutro tempo — e por esses tempos ainda havia gente que podia falar uma língua sem saber bem se era galego ou português.

Incrível, não é?

«Espanhol» ou «castelhano»: certezas há muitas!

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Certezas há muitas, não é? E todos gostamos de as espaventar no Facebook, que nem sempre se presta à dúvida e à hesitação, grandes conselheiras em muitos assuntos.

Nestas coisas da língua, então, quantos não atiram com certezas e tapam os ouvidos a qualquer argumento um pouco mais pensado!

Por exemplo, escrevo (e partilho) um artigo a dar para o longo sobre o uso das palavras «castelhano» e «espanhol» para designar a língua mais falada no país vizinho.

Resposta dum comentador de ocasião? Aqui têm:

Se mais dúvidas houvesse, bastaria ler a Constituição espanhola para se ficar a saber que a Língua oficial de Espanha é o castelhano! Caso contrário, diríamos que na Europa se fala o europeu, tal como antigamente na URSS se falava o “soviético”… disparate!!!

Deixa-me um pouco triste ter feito o esforço de escrever um artigo o mais explicado e moderado possível sobre uma matéria com que trabalho todos os dias e ser despachado assim a toque de «disparate» e pontos de exclamação — e que não haja dúvidas!

Ainda por cima, os argumentos apresentados são discutidos no artigo partilhado — bastava ler com a mente um pouco mais aberta. Estivessem os argumentos errados, que se apresentassem os argumentos contrários, mais fortes, sem «disparates» e pontos de exclamação despropositados.

Em conversa com o comentador, percebi que a questão é esta: como o autor do comentário é contra uma visão monocromática da nacionalidade espanhola, acha que o termo «espanhol» está incorrecto. Se «espanhol» estivesse correcto, não podíamos aceitar o basco, o catalão e o galego como línguas de Espanha.

Ora, a verdade é que até concordo que o termo «castelhano» facilita a vida a quem quer encaixar as várias identidades espanholas numa Espanha de várias nações. Se eu fosse espanhol, iria por aí e não tanto por identidades monocromáticas e de uma só língua.

Mas isso sou eu. Nestas questões de correcção, as nossas opiniões políticas particulares têm pouca importância. É preciso ir mais fundo e estudar as línguas em si, a forma como são usadas e a forma como estão registadas nos dicionários e afins.

Quando alguém acha que todos os falantes duma língua estão errados, estamos perante a ideia de que a língua se confunde com os nossos desejos pessoais. Já temos falado por aqui de muitos casos desses.

De que vale a maioria dos espanhóis chamarem à sua língua de «espanhol» (e considerarem tal palavra como sinónimo de «castelhano»)?

De que vale os dicionários portugueses registarem os dois termos como sinónimos?

De que vale muitos países de língua espanhola usarem o termo «espanhol» nas constituições, enquanto outros usam «castelhano»?

Se eu tenho cá a minha lógica, só a minha opção está correcta!

E, no entanto, não é assim.

Uma coisa são as nossas opiniões e desejos, outra coisa são os factos das várias línguas. E, neste ponto, o facto é este: em espanhol (e em português), «castelhano» e «espanhol» são duas palavras sinónimas, que designam a mesma língua — e estão ambas correctas.

(Sobre esta questão interessante e complexa dos nomes das línguas em Espanha, também escrevi este artigo: «10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)».)

O dia em que fiquei preso no Colombo e Gulliver veio em meu socorro

Houve um dia, há muitos anos, quando ainda andava na faculdade e vivia aquela vida de estudante complicada em que durante muitas alturas do mês não tinha dinheiro na conta, em que decidi ir à Fnac. Enfim, é um prazer como outro qualquer, mas confesso que a coisa às vezes era doentia. Ficava horas a olhar para os livros, cabeça de esguelha, sem poder comprar todos os que queria. Folheava, lia, folheava outro, sentava-me, dava mais um volta, via uns CD (na altura em que ainda se comprava música física), voltava aos livros, enfim…

Pois bem, nesse dia tive um problemazito.

Fui para o Colombo, pus-me a ver livros, e perdi noção das horas. De repente, percebi que não tinha dinheiro para pagar o estacionamento! Ou melhor, eu tinha o suficiente na conta para pagar o estacionamento, que seria aí uns dois euros (julgo que já havia euros, mas não tenho a certeza). Só que não podia levantar dinheiro, porque não tinha o suficiente para uma nota que fosse (estes estudantes…). Tinha, se bem me lembro, uns três euros na conta…

Tinha um problema muito sério: como sairia dali? Não podia pagar o estacionamento com o Multibanco. Não podia levantar dinheiro. Não tinha dinheiro no bolso.

Já estava a imaginar o cenário: uma noite no Colombo… Telefonar a algum amigo para me ir salvar… Ou mesmo telefonar aos meus pais… Lavar pratos para pagar o estacionamento. Ficar eternamente a vaguear pelo Colombo, à espera dum realizador que quisesse fazer o filme da minha vida… Ou, simplesmente, ficar a dormir no carro… Uma série de acontecimentos estratosfericamente embaraçosos que me fariam vaguear como um farrapo inseguro, a tremer, pelo Colombo fora, sem dinheiro para comer, sem cama para dormir. Pânico!

Mas, fez-se luz…

Na altura, a Fnac oferecia estacionamento grátis a quem comprasse fosse o que fosse. Ora, havia uns livritos muito baratos, que custavam muito pouco… Aliás, havia, e há…

A colecção é esta:

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Pois, bastou pegar num destes livros, quase escolhido ao calhas, pagar com Multibanco, pegar no talão do estacionamento grátis e ir para casa.

Talvez tenha sido mesmo as Gulliver’s Travels… Mas não posso garantir. Enfim, se não foi o Gulliver, foi sem dúvida a Penguin que veio em meu socorro.

Fiz tudo com calma, mas estava nervoso: a solução era tão simples e calhava tão bem, que era difícil imaginar que não falhasse. Talvez já nem 3 euros tivesse na conta… Talvez os cartões com menos de 5 euros não funcionassem… Se calhar chegava ao carro e não tinha gasóleo para chegar a casa.

Mas resultou. Quando cheguei a casa, que afinal nem era assim tão longe, ri-me a bom rir.

E pronto, foi assim que Gulliver veio em meu socorro num dia em que ia ficando preso no Colombo.

(Só para descargo de consciência: já tinha publicado este texto noutro sítio, já vai para uns dois ou três anos. Lá fica — e aqui também.)

Parágrafos despenteados em bom português

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Os livros são como as pessoas: às vezes, despertam-nos uma simpatia imediata.

Pois, aconteceu-me isso com um livrinho que comprei ontem e que ando agora a ler, deixando os outros amigos de cabeceira um pouco de lado.

O livro é Despenteando Parágrafos, de Onésimo Teotónio Almeida (Quetzal, 2015).

Primeiro, a introdução tem à cabeça uma citação de José Cardoso Pires, escritor que é tão importante para mim que ainda nem consegui escrever grande coisa sobre ele neste blogue.

Descubro, assim, que o próprio título desta colecção de ensaios vai beber a Cardoso Pires. Isto é o suficiente para alegrar o meu coração de leitor.

Depois, descubro que Onésimo Teotónio Almeida fala de forma inteligente e prática sobre as questões da linguagem.

Para começar, não cai nos habituais catastrofismos. Só um exemplo:

[Tenho] a sensação de em Portugal ter diminuído sensivelmente a tendência para o texto excessivamente empolado, cultivando a obscuridade e procurando marcar pontos pela dose impressiva de vocabulário rebuscado e pretensamente científico. Em parte, creio, isso deve-se à nova geração educada noutro universo cultural, e à Internet, que nos e-mails e blogue agilizou grandemente e soltou a nossa prosa. (p. 16)

A Internet a fazer bem ao português! Onde é que já se viu tal desaforo? Imagino os profissionais do pânico já de mãos na cabeça e muito suspiro desalentado de todos aqueles que odeiam o tempo em que vivem…

Mas isto é um pormenor. Mais importante é o facto de o filósofo atacar de frente um dos verdadeiros problemas da nossa língua: a linguagem obscura sem razão, tão fácil de usar para disfarçar ideias mal pensadas — ou mesmo a falta de ideias.

O primeiro ensaio é uma recolha de textos risíveis de escritores e ensaístas portugueses, textos tão bem amanhados que, no fim, não fica nada: uma nuvem de palavras de aparência inteligente e que poucos se atrevem a atacar, com medo de dar parte de fraco.

Um exemplo? O ensaio inclui imensos, mas fiquemos só com uma frase (se querem mais delícias destas, comprem o livro, que vale bem a pena): «O Outro é sempre o Outro do Outro, definindo-se pelo espacejamento e pela alteridade ilimitada.»

Sim, eu sei, este exercício é fácil se tirarmos frases do contexto. Mas os extractos escolhidos e comentados por Onésimo Teotónio Almeida são bem mais extensos. Lemos aquilo e ficamos estarrecidos: pomos ao lume estes nacos de prosa e desaparecem num fio de fumo.

Isto, sim, é um problema da língua — muito mais do que as falsas catástrofes dos tais profissionais do pânico («ai, o vocabulário que se vai! ai, a sintaxe que se fica!»).

Por isso, este é um livro que defende o bom português, mesmo não sendo um livro sobre o português. E ainda por cima é divertido e com ideias a fervilhar. O que posso querer mais?

Bem, o dia tem poucas horas e o livro está ali a chamar por mim.

Até amanhã!

O choque de palavras nos primeiros anos de faculdade

FCSH - Torre B Exterior 5

Ah, os primeiros dias do primeiro ano dos nossos tempos de faculdade…

Em cada Setembro, de todo país, chegam jovens de 18 anos nervosos e livres, na expectativa deste mundo novo que aí vem. (Alguns até virão da rua ao lado, mas o mundo é outro, a vida é nova.)

Por esses dias, as histórias são imensas e, se para quem vê de fora parece tudo igual, quem está a viver esses dias sente-os como histórias mais interessantes do que todas as narrativas do mundo desde o início dos tempos. Ainda por cima está sol e estamos em Lisboa.

Um dos aspectos curiosos desse primeiro encontro entre pessoas de todo o país (muitos dos quais serão amigos para a vida) são as pequenas diferenças linguísticas. Notamos ou não notamos, gozamos ou não gozamos, mas há ali um primeiro impacto — que presumo até ser maior da parte dos lisboetas. Afinal, quem vem de fora já está mais habituado ao sotaque da capital, todos os dias a dar na televisão.

Bem, digo-vos tudo isto como desculpa para contar umas histórias sobre a língua, regatas com algumas recordações daquilo que se passou comigo e com os meus colegas.

O sotaque madeirense da Avenida de Berna

Ora, nesse ano em que entrei na faculdade, estávamos no final do século passado, lembro-me bem de um certo choque linguístico: ouvir as nossas colegas madeirenses.

As primeiras conversas foram difíceis. Houve até um caso duma colega que falava de tal maneira que nós, continentais, dizíamos que sim com a cabeça, para logo depois sussurrarmos:

«O que é que ela disse?»

«Não faço ideia!»

A dificuldade demorou um ou dois dias a desfazer-se. Seja porque nos aproximámos na nossa maneira de falar, seja porque os nossos ouvidos se habituaram (ou talvez uma mistura natural dos dois processos), em breve já ninguém notava e lá nos ouvíamos um pouco diferentes uns dos outros, sem grande drama e com alguma graça.

Você está aqui está a levar um estalo

Claro que estes choques de palavras tinham um lado mais sombrio.

Já aqui contei o que aconteceu a uma colega minha que decidiu tratar uma professora por «você», de forma inocente: levou uma descasca das antigas: «Vocês e tal (não se ofendam)».

Também havia um ou outro comentário mais maldoso quando alguém soltava uma construção menos normativa, por assim dizer — ou talvez menos habitual por terras de Lisboa. Basta pensar no caso de «o comer»…

Para algumas pessoas, ali a contactar com pessoas de origens diferentes pela primeira vez, havia uma certa estupefacção perante formas que as suas famílias lhes diziam ser erradas. Sim, mesmo alunos de Letras, com aulas de linguística, com todo o interesse em ser desempoeirados nesta como noutras matérias, resvalavam para o preconceito, tudo por causa desta ou daquela palavra. Isto também existe, não há que esconder.

Mas, enfim, tudo passava — e estas coisas não aconteciam só na língua: era na roupa, nos comportamentos, em tudo o mais. Somos um animal muito social e muito malandro. É interessante, também.

E, depois, não é que alguns lisboetas (ou pelo menos gente da região) não sejam também vítimas de gozo linguístico. Afinal, qual é o sociolecto mais gozado por todo o país? O das tias, claro está. Não serão lisboetas típicas, mas ainda assim…

Sou um homem do Norte, pois então. Pronto, vá, sou um homem a norte…

Entre amigos, o gozo é saudável. Se alguém se chatear, a coisa passa depressa.

Exemplos? Comecemos por mim próprio, para não pensarem que não me quero molhar quando ando à chuva.

Nunca consegui descrever muito bem a forma como falo. Parece-me difícil saber que venho de Peniche só pela maneira como falo; andarei ali a navegar pelos mares das pronúncias do sul.

Dito isto, acho que é fácil perceber que não sou do Norte (se fosse, teria muito gosto, mas, não: cresci mais para sul, ali à vista do mar do Oeste).

Ora, uma amiga minha disse-me um dia, não sei a que propósito, que eu tinha sotaque (ou seja, tinha um sotaque diferente do sotaque de Lisboa).

«Mas que sotaque?» — perguntei eu, genuinamente interessado.

«Não sei bem, mas dizes “còmigo” e não “comigo”. Deve ser por seres do Norte.»

Eu fiquei parado, a olhar para ela de boca aberta.

«Do Norte? Mas eu venho de Peniche!»

«Exacto, do Norte.»

Por momentos, vi barcos rabelos atracados na ribeira de Peniche e pipas de vinho do Porto no quintal dos meus pais e desatei-me a rir.

«Peniche é a norte de Lisboa, mas não é no Norte.»

«Bem, não interessa, nasceste a norte de Lisboa, é normal que tenhas sotaque.»

E passou a gozar comigo e com o meu «còmigo»…

Ah, mas a vingança chegou!

Anos depois, estava eu com essa minha amiga e alguém lhe diz que ouvia nas palavras dela o saboroso sotaque alentejano. A cara dela foi de tanta surpresa quanto a minha no dia em que ela colou a minha terra ali ao Porto de Leixões.

Agora, uma nota mais séria: talvez isto tudo seja sintoma do apagamento das várias pronúncias. Parece-me que, à força da escola, da universidade e dos meios de comunicação social, cada vez se fala mais um sotaque indistinto, tanto que começa a ser difícil localizar as pessoas pela forma como falam.

Isto não se aplica em todo o lado, nem a todas as pessoas. Mas julgo que, se os nossos bisavós se tivessem encontrado todos, um dia, em Lisboa, o choque teria sido muito maior e as diferenças bem mais marcadas.

Porquê? Arrisco a dizer que será porque a escola se alargou a todos, há mais trocas e baldrocas sociais e regionais, há mais gente nas universidades, há a televisão, há a rádio. Assim, os portugueses andam a falar de forma mais homogénea.

É bom, é mau? A escola, a universidade, até a televisão — é bom. Já quanto ao português homogéneo, digo o seguinte: é assim — e pronto.

O Porto ali no Cais do Sodré

Bem, avançando. A verdade é que a questão dos sotaques nunca foi muito importante para nenhum de nós. Era um pormenor, no meio de tanta história desses anos sempre agitados e muito vivos, muita dança, muita música, algum estudo e ainda mais conversa. O que nos interessava que alguém falasse assim ou assado desde que gostasse de Pearl Jam?

Curiosamente, tinha poucos colegas do Porto e, assim, não vos posso contar grande coisa sobre o contacto dos sulistas com os falares nortenhos.

Mas, anos depois, já a licenciatura acabada e o mestrado a começar, conheci uma rapariga que tinha vindo do Porto para estudar. Em conversa com ela e uma outra amiga de então, lisboeta de gema, a portuense afirma sem margem de dúvidas que a minha amiga lisboeta tinha um sotaque muito cerrado.

Para quem é de Lisboa, aquilo soava a disparate. Um sotaque de Lisboa? Ainda por cima cerrado?

Enfim, isto dos sotaques, como disse há uns tempos, está na boca de quem fala, mas também no ouvido de quem ouve…

«Não sejas lambão!»

Agora, uma história mais doméstica. Conheci a Zélia na faculdade — era da turma que entrou no ano a seguir ao meu. Ainda antes de começar a namorar com ela, já eu sabia de algumas palavras típicas de Ponte de Sor, como «lapeira», que pelos vistos quer dizer «estojo».

Isto, claro, não significa que tal palavra seja exclusiva de Ponte de Sor. Mas, para nós, amigos da faculdade, era uma das palavras da Zélia. Todos tínhamos as nossas, claro está… (Em Peniche, por exemplo, os jovens da minha altura — não sei se os de agora também — usavam muito o verbo «chincar», com o sentido de «tocar». Já agora, não faço ideia se se escreve com «ch» ou «x». Vai na volta, nunca ninguém tinha escrito tal palavra antes…)

Depois de começar a namorar com ela, lá comecei a saber mais algumas palavras dessa terra que também começou a ser um pouco minha.

Exemplos?

  • Aventar. Deitar fora.
  • Calhandrar. Bisbilhotar.
  • Estravaliar. Fazer disparates.

Aprendi estas novas palavras — e gostei de começar a falar um pouco de norte-alentejano.

Agora, a grande surpresa foi outra: estava eu um dia refastelado no sofá da casa dos pais da Zélia, a torrar ao calor imenso do Verão sempre muito quente de Ponte Sor, quando ela me diz algo do género:

«Não sejas lambão!»

Franzi o sobrolho: mas que raio? Ora, se eu nem estava a comer…

Acabei por saber que, por lá, «lambão» não quer dizer algo semelhante a «sôfrego», mas antes «preguiçoso».

Muito me ri eu com aquele «lambão».

Alguém sabe o que é «açúcar louro»?

Mas, mais uma vez, a vingança serve-se fria. E, assim, mais tarde, estávamos em Peniche, na casa dos meus pais, quando alguém perguntou onde estava o frasco do açúcar louro.

A Zélia começou a rir-se: «açúcar LOURO??».

Eu insisti que era assim que se dizia e ela lá me obrigou a ir à mercearia da minha avó ver o que estava escrito nos pacotes.

E, lá estava: «açúcar amarelo».

Raios.

A minha avó, sem perceber porque andávamos às turras por causa do açúcar, ia dizendo que era tudo a mesma coisa — mas não deixei de sofrer umas boas gargalhadas conjugais.

Os dias ditos assim

Alguns amigos meus dirão: «Mas de tudo o que aconteceu, é disto que ele se lembra?» Claro que não! Lembro-me de muito mais, mas isto é um blogue sobre línguas e coisas dessas, por isso as outras histórias ficarão para depois.

Sim, é verdade: esses anos foram muito, mas mesmo muito mais… Lembro-me sempre do que disse Carlos ao Ega: «É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!» No nosso caso, não foram só dois anos, mas estão a ver a ideia.

Admito que estas minhas voltas pelas palavras desses tempos são uma forma de recordar. Mais do que as palavras de cada região, todos tínhamos mesmo as nossas palavras. A Zélia chamava-me, ainda antes de começarmos a namorar, «Marco Bom Dia», porque eu dizia muitas vezes «bom dia» ao longo do dia. A Ana dizia «carafo» muitas vezes. O Luís inventava rimas por tudo e por nada com um talento invejável — chegou a escrever uma Demanda do Santo Graal com bolinha vermelha no canto e personagens um pouco diferentes do habitual — foi uma obra que se trocava clandestinamente na Avenida de Berna e em certas ruas de Teerão (conta a lenda). Ah, sim, além de tudo isso, entre os rapazes da minha turma havia uma «private joke» que consistia na simples menção da expressão «por acaso» dita com uma certa entoação. Estranhas palavras, as nossas.

Enfim, a nossa língua era mais do que a língua portuguesa: era aquela que inventávamos entre nós, no correr dos dias, ao sol da velha esplanada da FCSH, com os carros na avenida e os aviões a passar mesmo por cima das nossas cabeças.

Este texto foi incluído no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa.

A pronúncia do Porto está errada?

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Há uns dias, encontrei esta queixa furibunda num daqueles recantos do Facebook onde muitos se entretêm a gozar com o português dos outros (deixo a queixa tal e qual a encontrei):

CUMO??? Começo por afirmar que sou um admirador do prof.Júlio Machado Vaz , mas quando o ouvia hoje ocorreu -me está questão : Será que pessoas que estão frente a um microfone de uma rádio ou de um canal de televisão nacional , podem falar como se o estivessem a fazer à mesa de um café , maltratado a nossa língua , com expressões como CUMO (em vez de como), TIVEMOS (estivemos ) e outras do género ? Não me parece legítimo , com todo o respeito …

Será que é legítimo usar na televisão formas como «cumo» e, acrescento eu, «dezôito», formas essas que associamos à pronúncia do Norte?

Será isto maltratar a nossa língua?

Agora estão os meus leitores mais nortenhos a rir a bandeiras despregadas. «Era o que faltava!»

E eu também digo que sim, era só o que faltava.

Reparem: muitas pessoas do Norte, quando falam na televisão, usam uma pronúncia cuidada, com uma ou outra marca que nos permite identificar a região. Não deixam de usar a norma do português no que toca à sintaxe, ao vocabulário e até, se virmos bem, à pronúncia (a norma é um pouco mais flexível do que a pintam). E, acima de tudo, não deixam de conseguir falar de forma clara e cativante (bendito Júlio Machado Vaz, que sabe o que realmente importa nestas coisas).

O curioso é que isto não é muito diferente do que acontece em Lisboa. Um portuense, ao ouvir um intelectual lisboeta a falar na televisão, também consegue detectar algumas marcas regionais. Só não vai a correr queixar-se no Facebook…

Por mim, não vejo qual o mal de ouvirmos diferentes pronúncias na televisão. É possível falar bem com sotaque lisboeta ou portuense, e diria mais: alentejano, algarvio, transmontano ou uma das imensas variações que há por aí.

É verdade que nós, portugueses, admitimos pouca variação na televisão (veja-se o caso das telenovelas) e convém ter isso em conta. Mas, diga-se o que se disser, a forma desvairada como algumas pessoas reagem à variação regional é bem mais prejudicial à língua e ao entendimento entre todos do que qualquer «cumo» ou «dezôito»…

Vá, amigos, deixem-se de feios preconceitos e medos absurdos.

Por que razão o chinês é tão simples (e o inglês também)?

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Por esta altura, deve estar o incrédulo leitor deste blogue a pensar: o que terá ele fumado? O chinês, simples? Em que mundo?

Ora, já lá chegaremos: ainda hão-de perceber porque digo que o chinês é simples e iremos descer tão fundo pelo mundo das línguas que ainda vos terei de explicar por que razão, afinal, não é assim tão simples.

Isto das línguas é muito mais interessante do que se diz — e há tanta coisa que não se sabe por aí e é delicioso.

Leiam, leiam (se tiverem tempo, claro está).


A doce simplicidade dos verbos chineses

Ora bem, estava eu a conversar com o meu irmão Diogo, que vive em Inglaterra mas andou por cá a semana passada, quando ele me faz a tal pergunta: por que razão o chinês é tão simples?

Deixem-me explicar-vos donde veio esta pergunta estranha.

Ele é programador e uma daquelas mentes que não pára e está sempre a pensar no que há-de aprender a seguir.

Ora, uma das coisas que decidiu aprender foi o sempre tão fácil chinês.

E a verdade é que lá anda a aprender.

Ora, o que ele descobriu foi isso: o chinês não tem muitas das manias gramaticais de outras línguas — não há formas gramaticais espalhadas em tabelas de conjugação imensas, com muitas irregularidades e excepções, não há formas diferentes para o passado e para o futuro, e tudo isso.

O básico da língua chinesa é mais fácil de aprender do que muitas das outras línguas do mundo — só que, claro está, temos a distância e o sistema de escrita a desajudar…

Foi daí que veio a pergunta. Ele percebe de imensa coisa e eu lá lhe faço muitas perguntas. Como, entre os dois, sou eu o mais inclinado para a linguística (não sei se se nota muito), ele decidiu perguntar-me e tentar perceber donde vem tal simplicidade.

Falei-lhe dum livro que responde à pergunta (já vos digo qual é) e expliquei-lhe, em traços largos, por que razão algumas línguas muito importantes parecem mais simples do que outras. E, claro, dei-lhe o exemplo do inglês.

O estranho caso dos verbos com mais de um milhão de formas

Das nossas línguas mais próximas, há uma outra que se destaca por uma relativa simplicidade gramatical — o inglês. Convém sublinhar a vermelho o relativa.  Não, o inglês não é simples. É extraordinariamente complexo, como todas as línguas dos homens. Mas, como qualquer um de nós reparou na escola, faltam-lhe alguns penduricalhos gramaticais de outras línguas: nada de casos (como o alemão ou o latim), poucos traços de género gramatical (como a nossa distinção entre um «arbusto» no masculino e uma «árvore» no feminino) e os verbos têm só umas quatro ou cinco formas (comparemos com as nossas dezenas…).

A maior parte das línguas tendem a ser muito mais complexas. Temos as nossas línguas latinas com géneros e formas verbais sem fim. Temos, depois, muitos casos ainda mais extremos: o navajo, que só tem verbos irregulares, e o archi, falado no Cáucaso russo, que consegue ter 1 502 829 formas para cada verbo.

Sim: mais de um milhão e meio de formas por verbo.

E as coitadas das crianças aprendem aquilo tudo, sem pestanejar.

Mas, perguntar-me-á o intrigado leitor, como é que eu sei isto?

Não, não andei a perder tempo a aprender línguas de Cáucaso. Mas andei a ler bons livros de linguística, que são muito mais interessantes do que se pensa.

MCWHORTERJohn McWhorter é um interessantíssimo linguista, que escreveu livros como Our Magnificent Bastard Tongue: The Untold History of English (ainda não li) e o excelente What Language Is (and What It Isn’t and What It Could be).

Este último livro, então, devia ser obrigatório para todos os inventores de erros e especialistas instantâneos no que toca às línguas. Explica muito bem as ideias erradas que temos sobre as nossas línguas — e dá-nos uma visão tremendamente mais interessante do que é a linguagem humana do que todos os mitos que circulam por aí.

Fiquei, assim, a saber que algumas línguas passam por períodos de simplificação abrupta.

Quando é que isso acontece?

Neste caso: um grande número de adultos tem de aprender a língua em questão, muitas vezes porque a sua terra foi invadida pelos falantes dessa língua — ou quando um grande número de invasores decide aprender a língua dos invadidos. Também é preciso que não existam muitas escolas a enfiar regras em catadupa pela goela dos invadidos (ou dos invasores) abaixo.

Ou seja, as línguas simplificam-se quando são aprendidas por muitos adultos. Isto porque o nosso cérebro apresenta uma maravilhosa capacidade para aprender qualquer língua, por mais complexa que seja, mas essa capacidade atrofia aí por volta dos 15 anos (depende da pessoa, claro está).

Comecemos pelo inglês: os imensos invasores nórdicos (vulgo, víquingues) que chegaram à Grã-Bretanha nos finais do primeiro milénio encontraram uma língua anglo-saxónica muito complexa. Sabendo que a escrita não reflecte o que se diz, podemos entrever alguma dessa complexidade no início dum velho e conhecido poema:

Hwæt! wē Gār-Dena      in geār-dagum
þēod-cyninga      þrym gefrūnon,
hū þā æðelingas      ellen fremedon.
Oft Scyld Scēfing      sceaðena þrēatum
monegum mǣgðum      meodo-setla oftēah.

 

(Quem aprendeu literatura inglesa deve saber de que obra vêm estes versos… Quem não aprendeu, pode começar por aqui.)

Ora, os víquingues vieram para ficar e decidiram aprender inglês. Afinal, também era uma língua germânica e sempre dava jeito saber falar o que as populações daquela ilha falavam. Deram ao inglês umas quantas palavras importantes («they», por exemplo) e arrumaram a língua à força de o aprender fora das escolas que não existiam.

Como entretanto chegaram os normandos e impuseram o seu francês como língua oficial, o inglês viu-se livre para absorver todas as mudanças sem imposição de qualquer norma — e, assim, mais tarde, quando ressurgiu como língua do Estado, já era uma língua muito diferente, mas mesmo muito diferente. E, diga-se, limpa de géneros, casos e outras manias.

McWhorter dá outros exemplos, entre eles o persa. O persa e o afegão são línguas com uma origem comum: o persa antigo. No entanto, o persa, como foi língua de um império e foi aprendida à força por imensa gente, apresenta uma regularidade gramatical invejável, ao contrário do complicado afegão (e de outras línguas do grupo iraniano: o curdo, por exemplo).

Vemos, ao comparar o persa com o afegão, e quase como que numa experiência laboratorial, este efeito de simplificação através da aprendizagem por parte de adultos. É uma espécie de martelada persa.

Mas há vantagens em falar uma língua complexa?

Bem, diga-se que as línguas não se dividem entre simples e complexas — há um espectro que vai de línguas tão complexas como o archi até línguas tão simples como o indonésio coloquial, que parece ser a língua mais simples que McWhorter encontrou — pelos vistos, já sofreu duas «marteladas persas» durante a sua história. Ali mais encostado ao indonésio do que ao archi, encontramos o inglês e o chinês. O português e as outras línguas latinas faladas na Europa andam a pender para o lado do complicado, já que a última «martelada persa» foi há uns 1500 anos.

Agora, um aviso: todas estas línguas servem para exprimir toda a experiência humana e todas podem importar qualquer palavra e podem ser aprendidas por qualquer criança — o archi não é melhor do que o inglês e o inglês não é melhor do que indonésio. A simplicidade também não é intrinsecamente melhor do que a complexidade imensa — embora traga vantagens: é mais fácil para um adulto aprender indonésio do que archi, claro está.

O que despenteia as nossas línguas? Os séculos…

Diga-se ainda isto: as línguas, como explica McWhorter de forma muito agradável, complicam-se naturalmente. As estranhesas e irregularidades vão-se colando à língua em cada geração, que aprende os hábitos dos pais tal como os encontra — ou seja, as línguas vão ficando despenteadas ou amarrotadas, como quiserem.

Podemos fazer alguma coisa perante isto?

Nem por isso.

A única maneira de simplificar uma língua à força é ensiná-la a muitos adultos ao mesmo tempo sem lhes ensinar regras. Se uma língua for transmitida a crianças (como são todas as línguas vivas), as crianças vão aprender as complexidades dessa língua, por mais absurdas e intrincadas que sejam.

Reparem: o inglês simplificou os casos do anglo-saxão, mas, mais tarde, veio a arranjar não sei quantas vogais que a velha língua não tinha — para já não falar da ortografia, que se tornou um caos, cheia de restos de velhas regras e algumas inovações. Nada que nos impeça de a aprender e usar.

O chinês também parece ter passado por alguma fase de simplificação, mas já se anda a complicar há muito tempo: não têm género, mas têm classes de substantivos — só conta objectos usando umas partículas estranhas que se relacionam com alguma característica desses objectos.

Sem aprofundar muito a questão, posso dizer-vos que, tal como nós dizemos «três peças de frutas», os chineses têm de dizer algo como «três planos de mesa» para «três mesas»; «quatro objectos compridos de lápis» para «três lápis» e por aí fora — isto para todos os objectos.

Atirei com esta característica do chinês ao meu irmão. Ele lá me disse que, sim, isso é complicado, mas um estrangeiro pode usar uma palavra genérica para tudo isto — no entanto, vai sempre soar estranho aos ouvidos chineses.

É um pouco como o inglês que aprende português e diz «dois árvores» ou «uma banco» — nós percebemos, mas não consideramos correcto. Para quem está a começar, pode preocupar-se um pouco menos com estas questões; mas qualquer criança aprende sem dificuldades tudo o que uma língua tem.

É por isso que mesmo línguas que se simplificaram, como o inglês ou o chinês, se tornam muito complexas com o passar dos séculos. Uma gramática descritiva de qualquer língua tem sempre centenas e centenas de páginas — e, mesmo assim, deixam sempre escapar muitas coisas.

Então e o português?

Curiosamente, o espanhol e o português também terão passado por estes mecanismos de simplificação ao serem aprendidos por muitos adultos na altura da expansão pelas Américas. Não estou a falar dos colonos que vieram da Europa, mas dos nativos americanos e dos escravos que fomos buscar a outros continentes. Todos estes aprenderam o português e o espanhol à força, sem aulas, e arrumaram-lhes os recantos e cavernas.

No entanto, essa simplicidade estará escondida, ainda hoje, debaixo de toda a tralha antiga, que ainda faz parte das normas de cada uma destas línguas, tal como ensinadas na escola. Por isso mesmo, existe hoje uma muito maior diferença entre o português-padrão do Brasil e a língua tal como é falada por muitos brasileiros — língua da rua essa que nos surpreende quase sempre e, nalguns casos, até é capaz de nos tirar o tapete debaixo dos pés, tão diferente é ela do pai português.

Podemos ver o mesmo no crioulo cabo-verdiano. Há uma simplificação e arrumação das regras da língua, tudo à força da martelada que é a aprendizagem de uma língua por muitos adultos.

Deixem-me agora provocar um pouco: se alguém quer um português lógico, enxuto, com menos irregularidades, pode procurá-lo em Cabo Verde. A novíssima língua que por lá se fala terá muitas regras e uma gramática muito complexa, mas limpou alguma da confusão deixada por séculos e séculos de complicação, desde que uma velha população do noroeste da Península aprendeu a língua dos romanos e lhe aplicou uma boa e certeira martelada persa.

Nós, no fundo, falamos um latim martelado. Quando os romanos espalharam o latim pelo Império, as populações aprenderam-no sem ir à escola. Assim, deixaram de lado os casos e mais umas quantas coisas que não serviam de muito. Que cada zona o tenha feito de forma diferente explica, em parte, as diferenças entre as línguas latinas. No fundo, são formas diferentes de arrumar o latim.


Bem, isto já vai longo. Tudo começou com uma pergunta do meu irmão, ali no café da Fnac do Vasco da Gama, e acabou no latim antigo, a ser simplificado por esse Império fora. E ainda fomos à Pérsia, à China, à Rússia — e, se não estou enganado, à Indonésia.

O que querem? Acho tudo isto interessantíssimo e não me canso de passear pelo mundo, com esta desculpa saborosa de perceber melhor a linguagem do estranho animal que é o ser humano.

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