Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Mês: Fevereiro 2016 (Página 1 de 2)

O dia 29 de Fevereiro e o músculo da língua portuguesa 

calendar-1176594_1280De quem é a culpa de termos um mês tão pequenino — e que aumenta de quatro em quatro anos?

Parece ser dum tal Gregório, que foi papa. Hoje, o papa não manda nestas coisas. Podia até tentar, mas duvido que alguém o ouvisse, por mais simpático que seja Francisco. O mundo mudou.

Ora, isto para dizer que o calendário, a moeda, o lado em que andamos na estrada — tudo são convenções que são impostas de cima para baixo. Alguém decidiu, está decidido.

Ora, as línguas não funcionam assim. Sim, há normas-padrão, dicionários, gramáticas, mas todo esse aparato que parece definir a língua controla menos do que pensamos: dá-nos a ortografia, arruma uma coisita ou outra, descreve a língua tal e qual ela é escrita nos registos mais formais, mostra aquilo que algumas pessoas julgam ser «o correcto» — e pouco mais.

A língua vive na boca dos falantes e nas mãos de quem escreve. E tem regras — ó se tem! —, mas não são regras que venham de fora, tirando um ou outro caso.

Ora, é por isto mesmo que todos os que andam por aí aos gritos porque os portugueses não sabem português não sabem do que estão a falar.

O português é uma língua complexíssima (como todas, aliás) e essa complexidade está em todos os falantes — todos têm uma gramática na cabeça. Tentar mudar essa gramática à força por esta ou por aquela razão nunca dá bom resultado.

Mas há quem queira mudar?

Sim, há. Quando alguém diz infantilidades como «queria ou quer?», «a gente é da polícia» e outros que tais, estão a tentar limpar a língua dos outros para se conformar a regras impostas de fora, que não servem para nada.

Mas há quem vá mais longe. Ainda há anos discuti longamente com quem me queria convencer que dizer «não há nada» deve ser considerado erro. Porquê? Porque não dá jeito em certos textos. Que todos os portugueses usem essa construção não parece incomodar quem quer mudar a língua à força. (Já aqui referi esta questão.)

Depois, há outro exemplo de que já falei várias vezes por me parecer especialmente absurdo: há quem considere «tenho saudades tuas» um erro. Muitos dirão: «Claro que é um erro! “Tuas” é um possessivo, não deve ser usado assim.» Não deve? Mas é usado assim, e é claríssimo. Dizem-me logo a seguir: «Ah, então, tudo é permitido! Há regras!» Pois há. E nem tudo é permitido.

Reparem: nós não dizemos «tenho medo teu», mas dizemos «tenho saudades tuas». Porquê? Bem, é um bom tópico de investigação e podia tentar explicar um pouco melhor. Mas digo apenas isto: se alguém não percebe o porquê de determinada regra de português, pode começar por não exigir que a língua mude só para se encaixar na sua ignorância. Depois, com curiosidade e respeito, tente lá perceber a língua como ela é. Tem regras, pois então. Não são é tão simples como pensamos.

Ai, amigos que andam sempre com medo da língua: a vossa vontade de considerar toda a gente (todos nós?) como burra e ignorante leva-vos a desrespeitar a língua e os seus falantes. Vá, descontraiam e leiam um pouco mais sobre o músculo da língua…

O músculo da língua

stretching-498256_1280A gramática da língua não é inventada através de decisões conscientes e individuais, por mais que muitos gostassem que fosse. Para isso temos o esperanto e outras invenções. As línguas não são criações artificiais. Cada língua é um estranho músculo mental que tem a característica curiosa de ser um músculo colectivo. Sim, é um músculo que cresce e muda, constantemente, mas tem regras, regras essas que temos de conhecer — mas que não controlamos. Dizer o contrário é não perceber como a linguagem humana funciona.

Querer mudar as regras à força, no fundo, equivale a cortar um pedaço desse músculo para ficar mais bonito. É uma violência e raramente funciona.

Agora, reparem: como qualquer músculo, podemos conhecê-lo e começar a treiná-lo, todos os dias, para o usar cada vez melhor.

Sim: podemos pegar nas regras da língua como elas existem, de facto, na mente dos falantes e utilizá-las para nos expressarmos melhor, de forma mais cuidada, menos ambígua, mais bela. Os escritores, por exemplo, são exímios no uso desse músculo. São os ginastas da língua. Já nós, simples escreventes, temos de usar este músculo o melhor que sabemos. Não convém é desistir de fazer melhor todos os dias.

Não é fácil, como sabemos, principalmente quando tentamos usar o tal músculo à distância, ou seja, através da escrita. É como fazer ginástica com fantoches…

Pois bem: não é fácil, mas ainda é mais difícil quando nos tentam convencer que o importante, nisto da língua, é pôr talas e garrotes a esse belo músculo, para que a língua só se possa mexer dentro das apertadas regras dos inventores de erros.

Galego: uma língua invisível (e um pouco de Tetris)

É já na sexta-feira: no Centro Cultural Galego, em Lisboa, vou falar sobre o «Galego: língua invisível». Comigo vai estar José Ramom Pichel, que irá falar sobre a «Galiza, essa peça de Tetris linguístico». Fomos convidados pelo Centro de Estudos Galegos da FCSH/NOVA.

Se os títulos parecem estranhos (língua invisível? Tetris?), têm uma solução: apareçam por lá, ali perto do Campo dos Mártires da Pátria.

Acho que não se vão arrepender.

Quando? Sexta-feira, 4 de Março, às 19h00.
Onde?
Centro Cultural Galego, Rua Júlio de Andrade, 3 (perto do Campo dos Mártires da Pátria).

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Portugal tem a biblioteca mais espantosa do mundo?

Qual será o melhor país para todos os que gostam de livros?

Olhem que Portugal tem alguns bons argumentos para ganhar este concurso particular…

Antes de avançar, reparem que pus um ponto de interrogação no título porque, nestas coisas, andarmos com declarações espampanantes requer algum cuidado. Aliás, se somos portugueses, convém ter algum pudor em afirmar que o nosso próprio país é o melhor disto ou daquilo. Agora, o autor do artigo de que vos quero falar não teve dúvidas: declarou que a biblioteca mais espantosa do mundo é por cá, mais especificamente no Convento de Mafra.

Mafra

Fonte: BookRiot.

E é a mais espantosa porquê? Para lá de ser linda (o que é uma verdade objectiva), tem morcegos protectores de livros. Há coisa mais «awesome», como diz o autor?

Mas, claro, uma coisa é ter uma biblioteca de admirar. Outra será dizer que somos um paraíso para quem gosta de livros. Mas, reparem: como afirma o próprio site onde está o artigo (BookRiot), já temos a livraria mais bonita (no Porto). E, claro, a livraria mais antiga (em Lisboa). E, no que toca a bibliotecas, nem falámos ainda da Biblioteca Joanina

Portugal: o paraíso dos bibliófilos. Há slogans bem piores…

ADENDA

Informa-me Paulo J. S. Barata que a história dos morcegos é um mito, como o é a história dos ratos de Mafra. Parece que aquele sítio está fadado para os mitos urbanos e outras ficções… Enfim, eu que às vezes caio na tentação de desmascarar os mitos dos outros, não posso deixar passar esta minha escorregadela.

Não deixa de ser estranho saber que os próprios responsáveis pela biblioteca espalham a falsidade. Talvez achem ser uma mentira inofensiva. Não creio: mas explico isso noutro dia.

Como nunca dar erros de português?

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Há muitas pessoas que estão sempre a pensar nos erros de português (dos outros). Tanto que se esquecem de ouvir o que os outros estão a tentar dizer.

Em honra desses enervados da língua, deixo as únicas três sugestões que garantem um português sem erros (e mesmo assim não sei):

  • Não falar e não escrever.
  • Falar sempre em inglês (ou noutra língua à escolha).
  • Falar com guião, depois de mandar rever por duas ou três pessoas.

Vá, deixem-se lá de obsessões pouco saudáveis…

Quer isto dizer que não me preocupo com os erros?

Claro que me preocupo!

O que digo é isto: devemos dar mais importância aos nossos erros e um pouco menos aos dos outros.

Há excepções: os revisores são pagos para se preocuparem com os erros dos outros. Os professores têm como uma das suas muitas funções ensinar a evitar erros. Mas, tirando esses honrosos casos, andar para aí a apontar erros a torto e a direito não ajuda ninguém.

Mas há pior: há quem consiga andar sempre a queixar-se dos erros dos outros e não consiga escrever uma frase seguida sem erros (haverá perdão?). Pior ainda: há quem ande por aí a acusar os outros de erros que não existem. Mas desses já tenho falado muito por aqui. Vou deixá-los descansar só hoje.

Ora, espero que me permitam este atrevimento. Proponho alguns princípios para lidar de forma mais saudável com os erros de português:

  1. Dar mais importância aos nossos erros do que aos erros dos outros. (Rever os nossos textos, mas ler os textos dos outros.)
  2. Quando o erro for óbvio, corrigi-lo em privado (a outra pessoa agradecerá, se for esperta). 
  3. Não inventar erros (em caso de dúvida, pesquisar antes de acusar alguém).
  4. Aceitar que, por vezes, a língua permite várias construções semelhantes sem que uma esteja necessariamente errada.
  5. Nunca deixar de escrever por medo de errar.

Por último: podemos tentar ouvir os outros com algum respeito, mesmo que falem com erros.

O português é importante, mas as pessoas ainda são mais.

(Então e como dar menos erros? Bem, já aqui dei algumas ideias.)

O estranho caso do português que pensava que sabia inglês

Não sei se já alguma vez o meu caríssimo leitor ouviu falar do mais hilariante livro alguma vez publicado sobre a língua inglesa. Foi escrito por um português!

Antes que comece a inchar o peito com orgulho pátrio, convém dizer isto: o tal português não queria escrever um livro hilariante. Queria escrever, isso sim, um livro que ensinasse inglês. Só que se esqueceu dum ponto importante: aprender primeiro a falar a língua!

Sim, Pedro Carolino escreveu um livro sobre como falar inglês sem saber falar inglês.

O livro tem, hoje em dia, o título English As She Is Spoke. Foi várias vezes publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos como livro de humor. Mas a primeira edição (O novo guia da conversação em portuguez e inglez) era uma tentativa genuína de ensinar inglês… sem saber inglês!

mark-twain-391120_1280É preciso talento! Ou muita lata. (Atrevo-me a dizer que essa lata ainda hoje existe, como descrevi neste texto sobre as traduções para inglês…)

O certo é que o livro foi um sucesso. Pedro Carolino teve a honra de ser insultado por Mark Twain, que chamou o autor português de «honest and upright idiot». Não é para todos.

Querem um exemplo do hilariante texto? Aqui vai:

The fishing.

That pond it seems me many multiplied of fishes. Let us amuse
rather to the fishing.
I do like-it too much.
Here, there is a wand and some hooks.
Silence! there is a superb perch! Give me quick the rod. Ah! there
is, it is a lamprey.
You mistake you, it is a frog! dip again it in the water.

«You mistake you!»

Pode encontrar o texto completo aqui. Pode ainda dar uma espreitadela no artigo da Wikipédia sobre o livro.

Os erros falsos (outra vez)

Falei-lhe de Pedro Carolino por uma razão. Já lá vamos.

Antes, pergunto-lhe a si, leitor deste blogue (se já o é há algum tempo): consegue enumerar os temas de que escrevo por aqui?

Línguas, claro.

Alguma literatura.

Umas outras manias pessoais.

E a língua portuguesa, pois então.

Dentro da língua portuguesa, gosto particularmente de falar dos erros falsos que por aí andam. Sim, todas as pessoas que se arrogam o direito de inventar regras arbitrárias ou encontrar lógicas falsas na nossa língua para melhor poder acusar os outros de falar mal deixam-me fora do sério. Tento acalmar-me e, depois, explicar como estão errados. Nem sempre consigo, eu sei. Mas tento.

Ainda nos últimos dias, encontrei mais um caso: alguém que dizia que a frase «hoje estaremos fechados» está errada (porque logo a seguir à palavra «hoje» não podemos usar o futuro — pois, pois).

É mais um exemplo a juntar aos outros de que já falei: «terramoto», «queria um café», «saudades tuas», «pelos vistos», «espaço de tempo»…

São tudo palavras ou expressões correctíssimas, muito portuguesas, mas que algumas pessoas se afadigam a condenar, encontrando lógicas absurdas, muito distantes do verdadeiro conhecimento linguístico (que é coisa difícil e para o qual convém ouvir quem trabalha a sério no caso: os linguistas).

Agora, a quem fica arrepiado com a ideia de que algumas destas regras são falsas, faço uma sugestão: leia, para começar, linguistas de outras línguas. Chegue depois aos portugueses.

Porquê? Não será, certamente, por falta de qualidade dos linguistas pátrios. Longe disso. O problema é outro: a questão dos erros falsos e das regras inventadas desperta emoções tão fortes que, às vezes, é mais fácil falar da língua dos outros. Começamos a perceber como estas coisas funcionam sem despertar os nossos próprios demónios nacionais. Depois, já fortalecidos com o bom conhecimento linguístico, podemos abordar a nossa língua sem temores nem palas nos olhos.

Assim, gostava de falar um pouco dos chamados mitos do inglês. Verá que não são assim tão diferentes dos nossos na sua arbitrariedade e inutilidade.

Os erros falsos da língua inglesa

Os linguistas de língua inglesa que explicam bem o mundo da linguagem humana são imensos e escrevem muito bem. Só para nomear alguns: David Crystal; Steven Pinker; John McWhorter — mas há tantos outros…

Todos os que refiro acima já se debruçaram sobre algumas das regras falsas do inglês:

(1) «Não podemos dividir os infinitivos (“split infinitives”).»

Esta regra não aparece em nenhum prontuário ou gramática minimamente respeitável e, no entanto, imensa gente pensa que é verdadeira.

leonard-nimoy-393861_640Sim, segundo estas pessoas, dizer «to boldly go» (como se diz no Star Trek) é um erro terrível. Devíamos dizer «to go boldly». Sim: seguir esta regra leva-nos a escrever frases feias, pouco naturais.

Mas, assim sendo, esta «regra» existe porquê? Porque alguém se lembrou de escrever, há uns séculos, que não devíamos dividir os infinitivos em inglês porque no latim também não se dividem. Claro que não se dividem! Em latim, são uma só palavra. Já em inglês, são duas. Não poder dividir duas palavras porque há línguas em que essas duas palavras são só uma é das coisas mais abstrusamente ilógicas que já ouvi. Mas as lógicas dos profissionais do pânico são de partir o coco a rir.

(2) «Não podemos usar “they” como pronome singular.»

Sim, há séculos que os bons escritores usam o «they» para se referirem a alguém de quem não sabem o sexo. Por exemplo: «Everyone has the right to their safety.»

Muitos dizem que este é um erro terrível — e esta regra, ela sim, ainda aparece como regra de etiqueta em muitos livros respeitáveis. Convém, por isso, ir com cuidado.

Mas, a verdade é que muitos e cuidadosos escritores e oradores usam o «singular they». Foi até considerada a palavra do ano de 2015 pela American Dialect Society.

É uma palavra magnífica porque evita construções sexistas («Everyone has the right to his opinion.») ou atrapalhadas («Everyone has the right to his or her opinion.»).

(3) Há quem defenda que não podemos terminar uma frase inglesa com uma preposição.

Há uma história apócrifa em que Churchill teria dito o seguinte a um revisor que lhe tinha corrigido uma frase a terminar numa preposição: «This is the sort of English up with which I will not put.»

Ou seja, Churchill, com uma frase, teria dado cabo da tal «regra», ao mostrar como segui-la pode dar origem a frases horríveis. Não deu (porque a história é inventada), mas imagino que o único primeiro-ministro laureado com o Prémio Nobel da Literatura saberia bem o que são regras falsas e regras verdadeiras.

Sim, a frase apócrifa de Churchill é horrível porque segue a tal regra falsa. Uma frase mais natural, mas que os paniqueiros do inglês acham ser errada, seria: «This is the sort of English which I will not put up with.»

Qualquer bom escritor inglês acaba muitas frases com preposições. Mas alguns profissionais do pânico acham que não devem. Porquê? Porque fica mal. Na cabeça deles, claro.


Pois é: nenhuma destas regras é regra da língua inglesa. Uma pessoa pode decorar estas manias e continuar a falar pessimamente inglês; da mesma forma que pode não cumprir nenhuma destas regras e falar muito bem.

kids-1093758_1280A força destas regras vem da tradição, da insegurança linguística, de ideias falsas sobre o inglês (por exemplo, a ideia peregrina de que a sua gramática deve seguir o latim…), da falta de conhecimento e da força das regras de etiqueta: quando muita gente torce o nariz a uma palavra ou construção, claro que temos de ter em conta tal opinião generalizada. São manias, pequenas regras de etiqueta inúteis mas que, em certos momentos, têm muita força.

Mas estas regras fazem mal? Fazem mal, sim: dão a falsa sensação de que estamos a falar bem quando as seguimos. Quando, na verdade, falar bem e escrever bem é outra coisa. No fundo, estas regras falsas são uma perda de tempo. São ainda uma forma de levantar barreiras sociais sem qualquer razão. Enfim, já me estou a repetir. Adiante.

O que são, de facto, as verdadeiras regras do inglês?

Os linguistas chamam-lhes «gramática» — não o livro, mas o conjunto de regras que todos os falantes duma língua têm dentro do cérebro, sem conseguir descrevê-las de forma consciente. São regras complexíssimas e com muitas excepções (que, no fundo, são mini-regras ainda mais complexas). São estas as regras que os linguistas procuram e descrevem.

No fundo, as verdadeiras regras do inglês são as regras que Pedro Carolino não tinha aprendido quando escreveu o seu livro. São aquelas regras que aprendemos naturalmente no caso da língua materna, sem grandes lições nem livros (excepto no caso da escrita) — e que nos esforçamos para aprender mais tarde, quando queremos falar outra língua já em adultos.

Qualquer falante nativo de inglês saberia que o texto de Pedro Carolino está errado: todos os falantes têm estas regras na cabeça. Não é preciso manuais de etiqueta ou listas de erros para o saber.

Quer isto dizer que não temos nada a aprender no que toca à nossa própria língua? Claro que temos! Temos de aprender os vários registos, a língua-padrão (que inclui algumas das regras de etiqueta, para o mal e para o bem), a ortografia, estratégias para sermos claros e convincentes — e muito, mas mesmo muito mais. Perder tempo com regras que não existem na língua, impostas por mania ou desconhecimento a falantes inseguros, só nos deixa com menos tempo para falar bem e escrever bem.

Por isso, ingleses, dividam os vossos infinitivos se assim conseguirem dizer melhor o que querem dizer; e, claro, terminem frases com preposições sempre que quiserem. Já nós, portugueses, não podemos dividir os infinitivos, nem costumamos acabar frases com preposições, mas podemos dizer «queria um café», «tenho saudades tuas», «hoje, vou ler um livro»…

Sugestões de leitura

(1) Our Magnificent Bastard Tongue. McWhorter fala da história do inglês e, pelo meio, lá bate mais um pouco nos inventores de regras. Refere, da forma divertidíssima que lhe é típica, o nosso Pedro Carolino.

(2) Far from the Madding Gerund, de Mark Liberman e Geoffrey K. Pullum, linguistas muito respeitados e fundadores do excelente blogue Language Log. A não perder, para quem gosta destes assuntos e de largar uma boa gargalhada.

Cinco artigos úteis para quem escreve em português

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Já que este blogue teve uma inundação de novos assinantes nos últimos dois dias, lembrei-me de criar uma lista de alguns artigos do blogue que me parecem úteis para quem escreve em português.

  1. «Três passos para escrever melhor em português» Antes de mais, uma advertência: se acha possível escrever bem seguindo uma receita qualquer, ainda por cima em três míseros passos, pode ir tirar o cavalo da chuva. Depois de ler este pobre artigo não vai ficar a saber escrever bem — mas talvez consiga escrever um pouco melhor. Gostava ainda de avisar os incautos que querem … [Continue a ler]typewriter-801921_1280
  2. «Cinco truques para desemperrar a escrita» Hoje em dia, todos escrevemos imenso: na nossa vida profissional, na nossa vida pessoal — às vezes, até por prazer (como é o meu caso, quando me ponho a escrevinhar neste blogue). Ora, nem sempre estamos para aí virados: ou estamos cansados, ou não temos ideias, ou achamos que tudo vai sair mal — ou talvez até … [Continue a ler]
  3. «Como criar um blogue em português» Uma amiga minha perguntou-me que sítio recomendo para criar um blogue. Ora, que melhor sítio para responder a esta pergunta do que um blogue? Assim, aqui ficam as minhas quatro sugestões de plataformas para quem quer começar a escrever até que os dedos lhe doam: O Blogger.com é a plataforma clássica e muitos dos grandes blogues portugueses … [Continue a ler]interview-851440_1920
  4. «Cinco armadilhas do e-mail» Hoje apetece-me falar do e-mail. Não é fácil, digo-vos já. É como falar do dentista: não deixa de ser útil, mas há sempre coisas mais interessantes para discutir. E, no entanto, convém ir ao dentista — e convém pensar no e-mail. É por e-mail que escrevemos, hoje, tanta e tanta coisa. É por e-mail que recebemos notícias, … [Continue a ler]
  5. «Sete dicas para rever as nossas próprias traduções» (Este é um artigo escrito a pensar nos tradutores, mas que pode ser útil para todos os que querem rever os seus próprios textos.) Antes de mais, um conselho. Ou melhor, um pedido muito insistente. É o que lhe quiserem chamar: importante mesmo é ler as nossas traduções no fim. Ora, não é fácil. No fim da tradução, estamos cansados. Provavelmente, o prazo está a chegar ao fim. Estamos enjoados do texto. Já não conseguimos ver aquilo à frente. Ainda … [Continue a ler]

Espero que gostem!

Os portugueses, na Galiza, gostam de falar espanhol?

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Suso Moinhos deixou este comentário no artigo anterior, que trago aqui para cima por ser delicioso:

…E quando vierem à Galiza, falem galego, não permitam que se repitam situações como esta:

-Buenos dias, aonde tenemos que ir para encontrarmos el museu X?
-Bom dia. Para chegarem ao museu continuem até a praça e depois virem à esquerda.
-O senhor é português?
-Não, sou…
-Então é brasileiro? Angolano?
-Sou daqui, sou galego. Portanto, sou lusófono.
-Ah, usted es espanhol…! Muntchas grácias.

Deus está no Casino Lisboa

Ontem fui ver o espectáculo God, com Joaquim Monchique. Foi muito bom, até porque os novos Dez Mandamentos são muito úteis (principalmente o novo quarto mandamento — ou seria o quinto? — «não dirás aos outros com quem podem fornicar»).

GOD_Poster_SitNão posso deixar de recomendar este espectáculo, que mistura Deus, Puccini, música pimba, a versão da Bíblia agora-a-sério, o Querido, Mudei a Casa, a Voz, a Teresa Guilherme (que até lá estava a assistir, veja-se bem), o Anjo Gabriel e uma plateia que não conseguia parar de rir (mesmo aqueles que tentavam conter-se perante a blasfémia da coisa).

A peça foi escrita por David Javerbaum, que trabalhou com Jon Stewart no Daily ShowFoi adaptada por António Pires (encenador), João Quadros, Joaquim Monchique e Rui Filipe Lopes.

A adaptação ficou tão bem que é difícil acreditar que o texto não seja português. Cheguei a casa e fui ver como é a versão americana. Encontrei este vídeo e descobri que, por lá, Sheldon é Deus!

Em Barcelona, com ouvidos bem abertos

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Cada um de nós tem as suas manias, a sua perspectiva e uma ou outra coisa de que percebe mais do que o habitual. Já andei a viajar com quem conhecia todas as rochas e lá me ia descrevendo o que via debaixo dos pés. Também conheço quem me explique as várias técnicas de fabrico de cerâmica nas regiões por onde passamos. Outros conhecerão os pássaros, as plantas, a roupa, e por aí fora.

Já cá por casa, como é fácil adivinhar lendo este blogue, tenho o ouvido bem atento às línguas. Ora, a verdade é que muitos portugueses têm, pelo contrário, o ouvido um pouco mais fechado do que o normal para as diferenças linguísticas porque vivemos num país relativamente simples neste ponto: é difícil para nós perceber que, num só país, se possam esconder várias línguas.

Também é difícil estarmos atentos às implicações políticas do uso de cada língua, porque em Portugal tudo é simples: o português é a língua do Estado e a língua de quase todos. Ponto final.

Ora, a semana passada, fiz uma viagem até Barcelona. Fui de carro. Não porque sou masoquista, mas agora não me apetece explicar as razões. Fica para depois. Obviamente, lá fui reparando nalguns pormenores curiosos, que já tinha encontrado noutras viagens, mas que nunca me canso de apontar. Ficam aqui, para vos dar a conhecer um pouco melhor a complexidade da situação sócio-linguística da Catalunha. O que isto significa em termos políticos e sociais ficará para outra altura.

Os nomes das terras

LLEIDAAntes ainda de chegar à Catalunha, noto as placas a indicar «Lleida». Há muitos anos, quando atravessei pela primeira vez a nossa península, ainda me lembro de ver placas a dizer «Lérida». Hoje em dia, «Lérida» já não se vê.

O único nome oficial é mesmo «Lleida», em catalão, e isto mesmo quando estamos a ler textos em espanhol. Porquê? Porque, na Catalunha, a toponímia oficial é monolingue: só em catalão. O resto de Espanha, neste ponto em particular, lá decidiu ir atrás e usa os nomes catalães em certos contextos onde talvez não fosse normal esperar tal cedência.

Alguns espanhóis dizem que isto é ser mais papista do que o papa: afinal, ninguém diz «London» em espanhol, por que razão é preciso dizer «Lleida», se a palavra espanhola é «Lérida»? Repare-se que não estamos a falar do nome da terra nas placas dentro da Catalunha. Estamos a falar do nome da terra nas placas do resto de Espanha e nos documentos em espanhol. Em catalão, claro que o nome é «Lleida».

Estamos muito longe dos tempos em que ninguém, fora da Catalunha, sabia que «Lérida» não era assim chamada pelos habitantes da própria cidade.

Só para acabar: também pela Galiza, que optou pela toponímia apenas em galego, o nome da velhinha La Coruña é agora só A Coruña. Parece que só nós, portugueses, insistimos em usar o nome castelhano… Já no País Basco e em Valência, a solução foi dar dois nomes às cidades. Assim, o nome oficial de San Sebastián é «Donostia-San Sebastián» e o nome oficial de Elche é «Elx-Elche».

As placas da estrada

img_3339Logo quando passamos a fronteira entre Aragão e a Catalunha (os independentistas diriam, sem pestanejar «fronteira entre Espanha e a Catalunha») vemos uma mudança nas placas da estrada. Onde antes estava apenas «Red de Carreteras del Estado», temos agora, por cima, a versão catalã: «Xarxa de Carreteres de l’Estat». A versão em espanhol mantém-se porque são estrados da tal Estado (ou «Estat»). Nas estradas mantidas pela Generalitat (governo catalão) ou pelos municípios, o espanhol não é fácil de encontrar. E, sim, para lá de Aragão, as «salidas» agora são «sortides»…

Os nomes das terras também ganham um sabor bem pouco castelhano: temos Mollerussa, Montserrat, Sant Cugat e por aí fora…

Publicidade e conversas de rua

Em Barcelona, cada vez mais se vê catalão escrito e cada vez menos espanhol. Mesmo a publicidade começa a ser muito em catalão e menos em espanhol. Digo «cada vez mais» sem deixar de referir que a sensação é pessoal, de quem vai à cidade de vez em quando.

Já nas ruas, ouve-se uma mistura das duas línguas que, para muitos ouvidos portugueses, não deixa de soar ao mesmo (mas os ouvidos portugueses, muitas vezes, nem o galego conseguem distinguir…).

Note aquele que não está tão habituado a essa língua como os catalães dizem os jj à portuguesa, como usam verbos como «parlar» e «manjar», como dizem «bon dia», como têm vogais bem mais fechadas que o castelhano. Com tempo, habitua-se. Mas tem de perceber que, numa mesma loja de Barcelona, vai ouvir as duas línguas, se for preciso entre as mesmas pessoas.

Estava eu no Pans & Company (que, diga-se, é de origem catalã e lia-se, originalmente, à catalã, com o ny a fazer de nh) e ouvi a mesma rapariga a atender um rapaz em espanhol, um senhor mais velho em catalão, para logo voltar ao espanhol no cliente seguinte. Tudo sem pestanejar.

Falar catalão com estrangeiros?

Tente o português falar um pouco de catalão com catalães e terá uma surpresa: por alguma razão, a maioria passa rapidamente para o espanhol mesmo perante estrangeiros que até gostariam de ouvir essa bela língua um pouco escondida. Porquê? Não sei. Talvez seja do hábito. É tão pouco normal que um estrangeiro saiba o que é o catalão (quanto mais dizer umas frases na língua), que o catalão não se sente bem a falar a sua língua com quem não é catalão. Para estrangeiros, a língua certa é o espanhol, diz o inconsciente catalão.

Podem não falar muito catalão com estrangeiros, mas não deixam de sorrir e gostar de algumas frases: um «bon dia», um «benvinguts», uma «bona nit», um «parlo una mica de català». Ou até: «t’estimo molt» (mas aqui convém usar apenas com quem mereça). Quanto a dizer o nome, a frase é estranhíssima: «Em dic Marco.» Sim, chamo-me Marco. Ou, mais literalmente, «me digo Marco».

Cinema

E o cinema? Bem, há filmes em catalão (no original ou traduzidos), mas a maioria é lançada em espanhol, o que se compreende. Mas não deixa de ser curioso: passei por um cinema e todas as indicações (preços, condições, etc.) estavam em catalão, bem como a publicidade à empresa dona das salas. Já os filmes estavam em espanhol (incluindo cartazes).

Passear pela cidade

barcelona-915071_1280Andei a passear pela cidade durante as Festas de Santa Eulália, a grande festa de Inverno de Barcelona. Ouvia-se muito catalão na rua. Ouvi eu algo assim (alguém a gritar): «tancat» (o quê? o carrer). Em Madrid, teria ouvido «cerrada» (o quê? a calle).

E livros?

Num supermercado, havia a indicação na prateleira dos livros em catalão: «Llibres en català». Os livros em espanhol não tinham indicação nenhuma. Neste mundo, o normal ainda é o espanhol. Os livros em catalão têm a sua área específica…

Mas, não se enganem: não deixa de ser, das línguas minoritárias deste mundo, a que está mais bem protegida na área da literatura. Talvez por muitas editoras terem a sede em Barcelona, há muita edição em catalão. Muito mais do que em galego e basco, por exemplo. E há ainda esta coisa extraordinária: muitas traduções para catalão. Ainda há uns anos encontrei na Fnac de Lisboa Os Maias traduzidos para catalão. Estranhíssimo achado, há que dizer. Alguém que quis encomendar a versão em espanhol e se enganou…

Jornais

img_3330Dos jornais, já falei há poucos dias. Há jornais em espanhol (La Vanguardia, por exemplo), outros em catalão (El Punt Avui, por exemplo) e o El Periódico, quem tem duas edições: uma em catalão, outra em espanhol.

 

Estacionamentos e restaurantes

Já o estacionamento está (ou não) «lliure». Ou seja, «libre». Note-se que «lliure» lê-se, mais ou menos, «lhiúra». Sim, o «e» final lê-se como um a fechado. «Clàssiquesimg_3307» (que vi num menu dum restaurante para descrever sandes) escreve-se assim mas lê-se «clássicas». Praticamente igual à palavra portuguesa, com vogais fechadas e tudo. Só o s final é que é menos «ch» que o nosso. O menu é curioso: o «jamón» é «pernil», o «queso» é «formatge», o «atún» é «tonyina».

E podia continuar por aí fora. Podia ainda relacionar tudo isto com as estelades (bandeiras independentistas) que se vêem por toda a cidade, podia falar dos graffittis catalanistas dentro da cidade e espanholistas nos subúrbios, das «fruiteries», dos autocolantes com o «CAT» nalgumas matrículas (menos do que há uns anos — isto vai de manias, claro), e ainda do teatro que é quase só em catalão (não é como o cinema), dos tribunais que são quase só em espanhol, da polícia catalã que tem o bonito nome «mossos d’esquadra» e muito mais. Podia falar da literatura, com grandes escritores catalães que escrevem ou escreviam em espanhol (Juan Marsé ou Manuel Vásquez Montalbán) e lá têm umas frases em catalão pelo meio, outros que escrevem romances em espanhol e teatro em catalão (Eduardo Mendonza), outros que escrevem só em catalão (deixo-vos só o nome da escritora que escreveu La plaça del diamant, grande obra catalã do século XX: Mercè Rodoreda). Só na literatura, temos imenso para explorar neste mundo das línguas…

É uma situação muito, mas mesmo muito complexa, mas que todos os que lá vivem tentam navegar o melhor que podem e sabem. Há muitos anos, no início deste século, andei por lá mais dias, a conversar com muito mais pessoas, incluindo:

  • um padre que se orgulhava de ter protegido o catalão na sua paróquia quando a situação política era muito diferente e me dizia, baixinho, que tinha muita inveja dos portugueses por sermos independentes;
  • um senhor chamado Manuel (de Barthelona, pois então) que se orgulhava de ser espanhol e que sabia falar catalão, sem grande entusiasmo, mas não o conseguia nem queria escrever (e era amigo de Aznar e do rei, dizia-me ele);
  • e ainda um cirurgião e a sua mulher, catalanistas dos quatro costados, espantadíssimos com o meu interesse pela sua língua.

Do jantar com esse casal barcelonês, num pequeno apartamento no Eixample, lembro-me bem da filha, com uns cinco anos, a mostrar-me como sabia músicas de Natal e dos pais, orgulhosos, a olhar para a filha a cantar na sua língua. Lembro-me dessa língua estranha que me encantava por ser tão desconhecida no meu país. Não me recordo bem de qual era a canção, mas talvez a música fosse esta (lembro-me de ouvir o «ha nascut»:

castellers-930746_1280Estigui content,
Jesús ha nascut ;
Per dur-nos la joia
Al món ha vingut.

A menina quase não sabia espanhol, que iria começar a aprender na escola, dali a uns meses. Aqueles pais e aquela menina estavam a tentar viver a sua língua de forma tão normal como nós, portugueses, vivemos a nossa.

O tal senhor Manuel, bem espanhol, também queria viver na sua língua (o espanhol) da melhor forma possível e dizia-se irritado por ver o filho a aprender quase tudo em catalão.

São situações complicadas, que não se resolvem com opiniões brutalistas, é-assim-porque-tem-de-ser. Para já, enfim, digo-vos só: quando forem a Barcelona, abram os ouvidos. Reparem mais no que vos rodeia. Sim, é uma cidade pouco normal no que toca às línguas. E é tão interessante.

É também, como todos sabemos, um mimo de cidade… Mas isso são outras histórias.

Fins aviat, Barcelona!

Sexo obrigatório? (O diabo da tradução está na estrutura das frases…)

grammar

Quando traduzimos entre línguas latinas, a interpretação da estrutura da frase não é o nosso pior problema. Os problemas mais graves são outros: os falsos amigos, as interferências sintácticas e por aí fora.

(A quem está neste momento a perguntar onde raios pára o sexo neste artigo, gostaria de dizer: tende paciência, lá chegaremos.)

Já na tradução de inglês para português, o diabo está mesmo na interpretação da estrutura das frases. O tradutor tem de estar muito atento e perceber mesmo o que está a traduzir: não basta entrar em modo de tradução mecânica, que para isso já temos o nosso amigo Google Translate, que está cada vez melhor a fazer más traduções.

Um exemplo extremo será o caso da tradução de português para inglês da expressão “gestão, operação e manutenção da rede MPLS-TP”. Pode parecer simples, mas um tradutor apanhado num momento mais distraído pode acabar por fazer algo do género:

Management, operation and network maintenance MPLS-TP

Obviamente, uma tradução mais correcta seria:

MPLS-TP network management, operation and maintenance

(“Mas alguém faria um disparate destes?” Sim, eu sei, todos nós achamos sempre que nunca faríamos tão desabrido disparate. Mas não se esqueçam que os tradutores têm de interpretar centenas ou milhares de frases destas por dia. Nem sempre é assim tão fácil…)

Outro caso, desta vez no que toca à tradução entre inglês e português:

European packaging recovery and recycling targets are reviewed every five years.

A leitura em inglês parece fácil. Mas muitos tradutores, numa tradução apressada, podem meter os pés pelas mãos: será que estamos a falar de recuperação de embalagens europeia e objectivos de reciclagem? Ou serão objectivos europeus de reciclagem e recuperação de embalagens?

Uma reflexão rápida permite chegar a conclusões, mas a rapidez com que muitos de nós traduz leva ao disparate (de que ninguém está livre!).

Tradução errada:

A reutilização de embalagens e os objectivos da reciclagem na Europa são revistos a cada 5 anos.

Proposta de tradução mais correcta:

Os objectivos europeus de recuperação e reciclagem de embalagens são revistos a cada 5 anos.

Isto porque a estrutura da frase original, bem interpretada, será algo como

[European [packaging [recovery and recycling]] targets] are reviewed every five years.

e não

[European packaging recovery] and [recycling targets] are reviewed every five years.

Quando a ambiguidade está presente no original, uma boa estratégia será inverter a frase completamente.

Por exemplo:

European banks and indebted countries….

Será que estamos a falar de bancos europeus por um lado e países endividados por outro? Ou será que estamos a falar dos países endividados e bancos — todos eles europeus? Se o original não permitir esclarecer, podemos tentar manter a ambiguidade invertendo toda a expressão:

Os países endividados e os bancos europeus…

Se em vez de “banks” tivéssemos “institutions”, a coisa seria mais complicada, porque teríamos de escolher entre o feminino e o masculino no adjectivo, mas mesmo assim esta solução é útil em muitos casos.

Então e afinal onde está o sexo obrigatório nesta salganhada de más traduções? Ora, este problema da estrutura das frases pode levar a traduções embaraçosas, como aconteceria se um tradutor mais distraído encontrasse este parágrafo de um artigo do The Guardian sobre o sexismo na indústria musical dos EUA:

This week, a tipping point has been reached. Lily Allen launched the video to her comeback single, Hard Out Here, which takes aim at music industry sexism with specific reference to the Blurred Lines video. And three women’s organisations launched the Rewind&Reframe campaign, with a four-pronged strategy: to enable young women to air their grievances about music videos, to campaign for age ratings on videos, to encourage compulsory sex and relationship education in schools, and to pressure the music industry to get its house in order.

Se não interpretarmos bem esta frase (ou se formos tradutores muito perversos) podemos traduzir isto como “encorajar o sexo obrigatório e a educação sobre relações pessoais nas escolas”.

Obviamente, a tradução correcta seria algo como “promover a obrigatoriedade da educação sexual e sobre relações pessoais nas escolas”.

Teríamos ainda de mexer um pouco naquele “sobre” ali enfiado a martelo e nas “relações pessoais” (será essa a tradução certa?), mas já vamos no caminho certo.

Portanto, a interpretação errada da estrutura será esta:

to encourage [[compulsory sex] and [relationship education]] in schools

e a interpretação correcta será:

to encourage [compulsory [sex and relationship education]] in schools

Sim, o título prometia algo mais interessante, eu sei. Mas, mesmo pouco interessante, espero que vos seja útil.

Texto escrito originalmente em Dezembro de 2013 para outro blogue.

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