Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Maio 2016 (Página 1 de 4)

O dia em que escrevi n’Os Lusíadas

Julgo que já aqui falei da forma como os livros nos transportam no tempo, para quando os lemos pela primeira vez, ou quando os comprámos, folheámos ou passámos a vista por cima. Pois este livro transporta-me para uns bons 30 anos atrás…

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Esta é uma edição d’Os Lusíadas que a minha mãe tem em casa desde de que nasci. Uma edição do Círculo de Leitores, de 1972, com introdução de Hernâni Cidade.

Esta é a minha edição d’Os Lusíadas. Cresci com ela. Folheei o livro, tentei ler (cedo de mais), e cedo me deu a vontade de escrever armado em Luís Vaz.

Aqui está a prova do crime (ao meu filho, felizmente, ainda não lhe deu para isto):

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Isto quando tinha uns 4 ou 5 anos. Tenho memórias muito antigas, de estar a escrevinhar no livro, com os móveis da casa dos meus pais dessa altura à minha volta, talvez de língua entre os lábios, embrenhado nesta minha obra.

Anos depois, comecei a procurar o famoso Canto IX. As figuras eram lindas:

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Já agora, fiquem com estes dois pormenores. O texto da Inquisição…

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… e as duas primeiras estrofes, que aparecem limpas, sem a parvoíce de algumas edições escolares, que colocam em itálico as palavras que contêm aquilo que as normas actuais considerariam erros.

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Enfim, lembro-me também de perguntar à minha mãe o que era aquele livro e de ela me explicar que era um grande poema que contava os feitos dos Portugueses nos Descobrimentos e, pelo meio, a história do país desde a fundação…

Sobre isso, haveria de ouvir falar muito, claro, mas o encanto desta edição nunca desapareceu, mesmo nos momentos mais sombrios de esquemas e planos da viagem e da história e não sei que mais. Para mim, era uma história, acima de tudo, de aventuras e de barcos que se faziam à água à procura de mostrengos que estão no fim do mar (sim, eu sei, isso já são outras mensagens).

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Porque é que a língua atravessa a estrada?

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Há muitos anos, fiquei impressionado com o que li num livro de matemática de cujo nome não me lembro: quando atravessamos a estrada para chegar ao outro lado da rua, o nosso cérebro tem de fazer uma série de cálculos muito complexos.

Sim, a nossa cabeça mete-se em cálculos bem avançados para conseguir este simples feito: não sermos atropelados. Então quando falamos de conduzir, os cálculos são ainda mais complexos e a rapidez com que tudo se processa é ainda maior (e os erros também aparecem com mais frequência, com consequências trágicas).

Quem se der ao trabalho de investigar o que é preciso para ensinar um robot a passar a estrada ou a conduzir (não é impossível), verá que o nosso cérebro é espantoso. Mesmo um aluno de condução muito atrapalhado está a aplicar uma inteligência inconsciente que espanta a nossa inteligência consciente quando esta se dá ao trabalho de investigar.

Aliás, precisamos de complicados cálculos para andar na rua sem embater nas outras pessoas; para andar de bicicleta; para nadar; para estar em pé; para respirar e, enfim, para viver. Tudo parece natural, não é? Porque é natural! O nosso cérebro é natural e muito complexo, afinado ao longo de milhões de anos de evolução.

Tudo isto acontece debaixo do capô, digamos assim. Nós não temos noção consciente das capacidades do nosso cérebro. Há quem passe décadas a estudar para reproduzir de forma explícita alguns dos cálculos que fazemos inconscientemente. A nossa inteligência consciente não sabe o que anda a fazer a nossa inteligência inconsciente.

No que toca à linguagem, as regras das línguas, aprendidas quando somos muito novos, são espantosamente complexas. É uma complexidade invisível, mas que existe em todos os cérebros que aprenderam essa mesma língua. Sem excepção. Os linguistas têm como ocupação compreender essas regras inconscientes e ainda estão muito longe de o conseguir na sua totalidade. Abram uma gramática descritiva, daquelas mais recentes (normalmente, são grandes calhamaços), e verão a extraordinária complexidade do que é descrito. E é apenas a ponta do icebergue…

No entanto, a nossa inteligência consciente está convencida que a língua se reduz às regras da pequena gramática que estudou quando andou na escola. E está convencida ainda que ninguém sabe falar, que a língua que está nas bocas dos jovens é um conjunto de grunhidos, que ninguém cumpre as regras do português… — mal sabem os cultores dessa visão aquilo que estão a ignorar…

Sim, há quem tenha muita dificuldade na escrita ou em falar em público — que são duas formas de usar a língua um pouco artificiais e que têm regras muito específicas. Mas esses dois aspectos do uso da língua não são, nem por sombras, a língua toda — nem o mais interessante daquilo que é a linguagem humana.

Ora, sendo muito importante aprender a escrever e a falar em público, também é bom olhar com mais respeito para essa complexidade invisível que está na cabeça de todos os falantes. Convém não medir a língua com a régua das nossas certezas. E, mais importante ainda, convém não andar a cortar a língua para se conformar a essa mesma régua. Digo isto porque há sempre quem não entenda as regras invisíveis do português e o queira martelar à força até caber nas regras simplificadas que tem na cabeça. São aqueles a quem alguns chamam de «puristas». Eu diria que são antes «simplistas».

Vou dar três exemplos concretos.

«Deslarguem-me!»

Já sabem que, há uns dias, andei às turras com enervadinhos da língua por causa dum título de jornal: houve por aí uma pequena rebelião por causa dum artigo de jornal que tinha o belíssimo verbo «deslargar» no título. O horror! Ao tentar defender o uso levemente humorístico do verbo, que é perfeitamente aceitável num texto jornalístico (que tende a misturar registos), a coisa azedou e, como não tinham argumentos de jeito, os meus opositores de ocasião acabaram por apontar as armas ao meu português, à procura de falhas. Uma maravilha!

Pois, a regra simplória que tinham na cabeça é esta: «des» é um prefixo que significa negação e ponto final! Ora, a língua portuguesa gosta de vos chatear, é verdade. Tanto assim é que o tal prefixo tem vários significados (tchanam!):

  1. Negação («desfazer»).
  2. Intensificação («deslargar»). Aqui, dizer «intensificação» é uma simplificação. O prefixo tem significados mais subtis…

É estranho? É! Mas todos nós compreendemos perfeitamente o significado das palavras «deslargar», «desmoer», «desinquietar».

Os sociolinguistas sublinharão ainda que os dois significados podem ser encontrados no registo popular, enquanto os registos mais formais usam apenas o significado n.º 1.

Complicado? Ah, pois é. Mas os mecanismos da língua permitem-nos lidar com tudo isto sem espiga, principalmente no caso daqueles que estão mais atentos, que falam mais, que lêem mais. Confusões só aquelas que certas almas criam quando não sabem o que está por baixo do capô da língua…

«Tem dias» e «Caiu umas pinguinhas»

Há uns dias, Fernando Venâncio falava destas expressões tão portuguesas, num divertido post de Facebook. Dizia o linguista:

«Já caiu umas pinguinhas» é perfeitamente gramatical. Sim, ó linguistas (m/f) de aviário que decretais os muitos “erros” da língua portuguesa. Trata-se, ali, da síncope do pronome impessoal ELE em «Ele já caiu umas pinguinhas». […] Por isso dizemos também: «Tem dias». Não é um brasileirismo, como poderia levianamente supor-se. É um português da melhor cepa. É o que resta depois de elidido o pronome em «ELE TEM DIAS». E a graça é, até, que os brasileiros não conhecem (ou já não conhecem) esta jeitosa construção.

Outro linguista, Victor Veríssimo Oliveira, comentava por baixo:

“Ele” seria o que nós gerativistas chamamos de “pronome expletivo”. Ou seja, não tem valor semântico, apenas função sintática de ocupar a posição de sujeito. É como o “it” do inglês ou “il” do francês.

Por outras palavras: as línguas, às vezes, fazem uso de pronomes que servem apenas para ocupar espaço (malandras, as meninas) e nada querem dizer na realidade («it is raining», por exemplo). Depois, línguas como o português europeu dão um passo em frente e permitem que esse pronome desapareça (a tal síncope), deixando um rasto no verbo, que continua a concordar com o tal pronome desaparecido.

Algumas pessoas põem as mãos na cabeça porque as frases («Já caiu umas pinguinhas» e o delicioso «Tem dias») não parecem cumprir uma simples concordância, quando, na verdade, estas frases estão a seguir mecanismos mentais bem mais complexos e profundos.

Sim, eu sei, esta concordância com um pronome desaparecido é aceitável na oralidade e menos na escrita formal. Até nisso a gramática é complexa — o que pode ser aceitável numa situação informal, pode ter de ser evitado na escrita. Porquê? Por vários motivos, sendo um deles este: a escrita tem regras mais simples e menos flexíveis. E, sendo mais permanente, está sujeita a certas elaborações conscientes que, às vezes, corrigem, de forma insegura, aquilo que o inconsciente lá pôs sem medo. Lá está: a inteligência consciente tem algumas manias estranhas.

Reparem: perante «tem dias» e «caiu umas pinguinhas», os linguistas fazem testes, investigam e tentam descobrir o sistema por trás da língua que põe os falantes a dizer, de forma sistemática, estas construções. É um exercício de análise que não é nada fácil.

Já os que pensam a língua à bruta acham que está errado e pronto. É mais fácil, de facto. Mas, o que é triste é isto: atrevem-se depois a dizer que os linguistas não acreditam em regras. Não acreditam eles noutra coisa! Aquilo que os linguistas estudam são essas regras inconscientes, bem mais complexas e difíceis de entender que as regrazitas que vamos decorando ao longo da vida.

«Garantir que fazemos isto!»

Um dia recebi, na empresa onde trabalho, uma reclamação sobre o uso dum verbo. Numa das nossas traduções, tínhamos usado uma construção do tipo: «garantir que fazemos o necessário para» (era uma frase parecida, não me lembro agora das palavras exactas; mas os elementos relevantes são estes: o verbo «garantir», um «que» e um verbo no indicativo).

Ora, a cliente informou-nos que este era um erro de palmatória. Como toda a gente sabe, depois dum «que», o verbo tem de vir no conjuntivo. Ou seja, devíamos ter escrito «garantir que façamos o necessário».

Mais uma vez, temos uma regra simples, decorada algures na vida de alguém, que esse alguém tenta sobrepor a regras mais complexas, que todos temos no nosso cérebro de falantes de português.

O mecanismo real que existe no português-padrão implica que, no caso de o verbo da oração principal ter um conotação de certeza («garantir», «afirmar», etc.), o verbo da subordinada pode vir no conjuntivo ou no indicativo. No caso de o verbo da oração principal exprimir dúvida ou incerteza, então sim não devemos usar o indicativo na oração subordinada. Ou seja, «garantir que fazemos o necessário» está correcto, mas «*duvidar que fazemos o necessário» está incorrecto. Esta última frase deve ser: «duvidar que façamos o necessário».

Será mais ou menos isto:

  • Se o verbo principal exprime certeza, o verbo da subordinada pode estar no indicativo («garantir que fazemos o necessário») OU no conjuntivo («garantir que façamos o necessário»).
  • Se o verbo principal exprime incerteza, o verbo da subordinada tem de estar no conjuntivo («duvidar que façamos o necessário»).

Esta regra (que é capaz de ser ainda mais complexa do que o descrito acima) está gravada, inconscientemente, no cérebro dos falantes de português. Já um estrangeiro que queira aprender a nossa língua perfeitamente (é quase impossível depois dos 15 anos) deverá aprender esta regras de forma mais ou menos consciente.

Sim, é uma regra pouco simpática: não é simétrica (num dos casos temos uma opção entre duas alternativas, no outro caso temos uma só alternativa) e permite duas opções, o que parece ser encarado como pecado mortal por muitos dos tais «linguistas de aviário» (nas palavras de Fernando Venâncio).

Já os estou a ouvir a gritar: «”Ou”? “Também”? Não, não, não! Nós não queremos opções! Nós só queremos proibições!»

Porque é que a língua atravessa a estrada, afinal?

Ora, sim. É essa a pergunta do título.

Mas antes dessa, uma outra pergunta: porque é que a língua é tão complexa? Porque as línguas humanas tendem todas para a complexidade. Podia tentar dizer mais alguma coisa sobre o assunto, mas este artigo já vai para lá de longo. Fica para depois.

Outra pergunta: não podíamos tentar simplificar a língua? Poder, podíamos, mas ninguém nos ligava nenhuma e não serviria de muito. As línguas são sistemas complexos, com as suas correntes profundas, que vivem nesse caldo criado pelo uso conjunto por muitas pessoas. Algumas línguas, às vezes, lá passam por períodos de simplificação (descrevi isso mesmo aqui e chamei-lhes, a esses períodos de simplificação, «marteladas persas»), mas pouco podemos fazer para acelerar o processo. E já todos devíamos saber que simplificações à força costumam dar porcaria…

Então e atravessar a estrada? A nossa língua dá-se ao trabalho de ser complexa, de atravessar a estrada com todos os cálculos que isso implica, para quê? Para nos permitir explicar, discutir, insultar, seduzir, conversar: quando andamos por aí, no dia-a-dia, usamos a língua para muitas coisas e usamo-la de forma muito mais criativa, subtil e inteligente do que pensamos. Mesmo quando balbuciamos, estamos a fazer cálculos linguísticos tremendamente complicados: a modulação da voz, a escolha das palavras, as formas de tratamento, o ritmo, as hesitações… Falhamos muito? Sim, como em tudo. Mas aquilo em que acertamos é tanto que me faz impressão haver por aí tanta indignação com um ou outro uso de algumas inocentes palavras e, por outro lado, tão pouca curiosidade sobre o que as línguas têm lá dentro, que é um espanto de ficar de boca aberta.

O maior problema da língua portuguesa é este!

Reparem nesta crítica assassina ao português dum cartaz afixado num qualquer hospital deste país:

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Ora bem, admito que a frase possa ser considerada um pouco infeliz, pois permite uma leitura ambígua em mentes mais distraídas. É, no entanto, uma ambiguidade improvável: haverá assim tantas pessoas que interpretem o aviso como se este indicasse que os doentes têm de ser diabéticos e estar internados para terem prioridade? Não creio.

Repito: admito que a frase é infeliz. Mas um «os» antes de «diabéticos» resolvia o problema.

Agora, uma demonstração de iliteracia?

Reparem: são os doentes internados e [os] diabéticos que têm prioridade. Mais: se fosse preciso dizer que só os internados que sejam simultaneamente diabéticos têm prioridade, o aviso seria diferente: «os doentes diabéticos que estejam internados» ou «os doentes diabéticos internados…». Por muito que custe a alguns, as palavras «E» e «OU», nas línguas naturais, têm um comportamento mais complexo do que os operadores lógicos com os mesmos nomes. Não confundam estas palavras com os símbolos que usamos na notação lógica. Estão relacionados, mas são diferentes.

Enfim, a discussão é interessante, mas mesmo se acharmos a frase infeliz, será que merecia o insulto? O queixoso não fez por menos: dispara contra os professores, contra o governo, contra todos nós, que somos burros. Pelos vistos, isto é um exemplo acabado da iliteracia que existe em Portugal.

Bem, já que estamos numa de reclamar de forma empolada, cá vai disto: digo-vos que a imagem acima é um exemplo do desconhecimento sobre linguística que ninguém expulsa deste país! Só que não é o cartaz, é mesmo a reclamação… Antes de mais, a palavra «iliteracia» não é  aplicável — nem de perto nem de longe — a quem escreveu este aviso (há ali uma certa tendência para evitar artigos e usar maiúsculas, mas iliteracia?). Depois, a queixa demonstra claramente uma falta de sentido das proporções. A frase mereceria um sorriso, talvez… No máximo, uma pequena recomendação simpática ao autor do cartaz, para evitar ambiguidades futuras: «olhe, não sei se reparou, mas falta ali um artigo». Mas acusações hiperbólicas deste tipo? Um insulto a todos os portugueses por não saberem escrever? Quando é que este pensamento empolado e errado é expulso do nosso país? Vá, é só ir deixá-lo em Ayamonte!

Bem, vou deixar o registo empolado de lado. Deixei-me levar. Peço perdão. Sublinho apenas que esta retórica se alimenta da vontade imensa que algumas pessoas têm de mostrar à força que defendem o português. Como não sabem bem como, caem nestas tontices. Imagino que, por trás destes discursos assarapantados, exista uma grande insegurança.

Alguns podem agora dizer-me: «Vá, não exageres! É um caso de alguém que estava maldisposto nesse dia…» Sim, mas vejo textos destes todos os dias. Todos os dias leio discursos inflamados sobre a língua. O perigo disto? Ora, a indignação gasta-se. Pensem em problemas verdadeiros: um formulário que ninguém entende ou ambiguidades realmente perigosas ou sentenças que os interessados não conseguem interpretar nem que a sua vida dependa disso… Quando há casos destes, que são erros sérios de português, deixamos de ter forma de os criticar, pois gastámos as palavras e a indignação em parvoíces. Quem distingue as críticas justas das injustas se estamos inundados destes discursos?

E mais: esta forma empolada de falar da língua deixa algumas pessoas mais inseguras no seu uso do português. Afasta da escrita uma ou outra pessoa menos motivada. Serve para criar irritações e desviar-nos a atenção das questões mais importantes. Deixa nalguns espíritos a impressão que isto é que é discutir a língua, que isto é que é defender o português.

Ler, escrever, reler, rever — usar a língua de forma generosa e honesta: isso não vale de nada, se somos insultados desta forma porque nos esquecemos dum artigo num cartaz — ou usámos a conjunção «e» correctamente…

suit-673697_1920Mais ainda: se formos por aqui, deixa de haver critério na avaliação que fazemos dos textos que lemos. Se é possível dizer isto deste cartaz, qualquer pessoa pode dizer o pior possível de qualquer texto. Basta inventar. É o facilitismo crítico no seu auge.

Vá, vou continuar a pagar na mesma moeda e puxar de mais uma hipérbole: estes exageros de português são o maior problema que a nossa língua tem. A ignorância das regras da norma-padrão resolve-se com algum esforço. Esta atitude já não sei.

Segredos do dia em que nasceste

Ora, para uma pessoa que anda sempre a falar de segredos, podia fazer aqui alguma revelação escabrosa, revelar alguma cena doméstica ou vício tremendo que deixasse os leitores em polvorosa e me desse aí uns bons quinze segundos de fama no Facebook.

Pois, mas não vai acontecer nada disso. Vou apenas contar-te um banal segredo do dia em que nasceste. Nada de estrondoso, mas hoje deu-me para isto. Porquê? Talvez porque acabou de nascer o João, o filho duma amiga nossa, e nestas alturas vem-me sempre à memória esse dia.

Pois bem: o segredo é este: o teu pai é um piegas. Peço desde já desculpa aos antipieguistas deste país. Mas é verdade: quando nasceste, chorei. Depois das lágrimas do parto, que são normais, andei o resto do dia a disfarçar, a morder o lábio, a olhar para o lado, a tentar limpar as lágrimas bem depressa. Por isso, soube bem, mais à noite, sair para o pátio do hospital, olhar para as estrelas, com o telemóvel a ferver de mensagens e chamadas, e calado deixar então sair a tal lágrima mal contida. Soube bem e não sei o que te hei-de dizer mais.

Mas o problema é que a coisa não acabou por aí. Meu Deus, que bebé chorão fui eu nesses dias, muito mais do que a tua valente mãe e muito mais do que tu, que até eras muito sossegado. (Repara bem, já agora, no pretérito imperfeito; o sossego, três anos depois, foi-se todo, ó reguila!)

Quando voltámos para casa, bastava apanhar na televisão uma série manhosa qualquer, banalíssima que fosse, para me virem as lágrimas aos olhos. Bastava passar por um bebé na rua. Chorava, ria — enfim, um piegas. A coisa só amainou uns três meses depois… Não contes a ninguém, por favor.

Já quando estava contigo, não chorava: punha o meu ar compenetrado, porque há banhos a dar, fraldas a pôr e tudo o resto de que já nem me lembro bem. Sem chorar e muito feliz, punha-me a olhar para ti, a ver-te adormecer, ao pé da tua mãe — percebi, então, que tudo tinha mudado. Mesmo antes de nasceres, já sabia que ia sentir isso mesmo, claro. Mas a realidade tem outro sabor. E outro peso.

Curiosamente, nessas primeiras semanas, ganhamos uma certa segurança. Aliás, já por aí ouvi dizer que há inseguranças que desaparecem quando nasce o primeiro filho e parece-me a mim, que percebo pouco disso, que é bem verdade.

Tudo isto são palavras banais, não é? Eu sei, eu sei. Quando tentamos falar de coisas muito nossas e muito importantes — o amor, o sexo, a morte, a vida, os filhos — tudo nos soa a banal; as palavras deixam-se ir no que já todos disseram, porque todos passamos por isto. Sim, é verdade, todos passamos por estes episódios, mas é sempre como se fosse a primeira vez, é sempre diferente, de alguma maneira — e esta sensação de algo que é natural, que é antigo, que é de todos e, no entanto, é novidade e é só nosso… Esta sensação de estarmos a passar por algo que vem do princípio do mundo, mas que nunca tinha acontecido antes… Vou parar com estas tentativas. Não faço ideia como se diz o que quero dizer sem cair nestas tontices. Que venha alguém com mais talento acabar o trabalho, porque pelos vistos não consigo. Mais vale calar-me.

Bem, calo-me já de seguida, mas deixa-me contar-te só mais uma coisa. Mais um segredo, se quiseres. Aquilo de que não estava mesmo nada à espera quando tu nasceste foi o medo que comecei a sentir. Agora, repara: não é bem medo. Já disse lá em cima que me senti mais seguro nessas primeiras semanas. Mas tinha medo.

Como é que eu hei-de explicar?

Dizem que a saudade é uma espécie de tristeza boa. Pois, falta-me aqui a palavra para «medo bom», ou seja, um medo que existe porque és demasiado importante. Talvez a palavra que estou à procura seja «amor», mas, lá está, isso seria imperdoavelmente banal. Isto de que estou a falar é tudo menos banal. Uso, em vez disso, uma maneira de dizer bem portuguesa: quando tu nasceste, a tua mãe e eu ficámos com o coração nas mãos. Desde então, para cá, tens brincado, divertido, com esses dois corações que temos na mão — e nós contigo.


Enfim, lembrei-me de tudo isto porque nasceu um dos teus primos emprestados. Os pais dele já sabem, agora, o que é ter o coração nas mãos. Os dias são agora mais perigosos e nunca mais dormimos da mesma maneira. Mas, depois de nos habituarmos, ter o coração nas mãos sabe bem. Faz parte do estranho amor que nos deixa piegas — e tão felizes.

Pasmai, ignaros leitores: o português vem do grego!

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Eu já devia saber que há por aí as mais mirabolantes ideias sobre as línguas e sobre o português em particular. Aliás, diga-se de passagem que há por aí ideias mirabolantes sobre tudo e mais alguma coisa. Também já devia saber que a ignorância se disfarça, muitas vezes, de absolutas certezas.

Mas o certo é que não estava preparado para isto. E até já tinha sobrevivido ao Netunogate!

Encontrei um comentário escondido num recanto do Facebook, comentário esse que pretendia ser uma crítica a este meu texto, um resumo muito rápido sobre alguns pontos da história da língua. Há muitas incertezas, há pontos em que podemos discordar, há muito ainda por saber, mas o certo é que quem estuda esta história, e não são assim tão poucos, tem algumas ideias-base concretas e bem fundamentadas, em que podemos confiar até ao dia em que apareçam novos dados extraordinários que contradigam estas bases sólidas do conhecimento linguístico. A existência desses dados não é impossível, mas é muito improvável — e não há vislumbre deles, diga-se. (Se alguém os encontrar, ficará certamente muito famoso. Mas não vale inventar!)

Bem, uma dessas bases sólidas do conhecimento sobre o português é esta: o português teve origem no latim popular trazido para a Península Ibérica pelos soldados e colonos romanos. Sim, houve certamente uma ou outra influência das línguas pré-latinas, mas a base é, claramente, o latim.

Ah, mas não… Claro que não! Leiam, leiam… (O «chorrilho de disparates e vulgaridades» referido no início é, claro, o meu artigo.)

CHORRILHO

Depois deste comentário inicial, o autor decidiu começar uma luta acérrima com o resto do mundo. O homem está mesmo convencido disto!

Ah, não é bom habitar no berço da civilização ocidental? Ah, não é bom falar grego? Não é bom viver num universo paralelo?

Será que na farmácia vendem doses de noção? Pode ser que dê jeito a quem tem tanta falta dela.

Só uma dica: se os proponentes destas teorias querem mesmo ignorar à força tudo o que se sabe e ter o prazer de chocar os outros com argumentos malucos, aconselho a que pensem em ideias ainda mais avançadas e menos convencionais. Porque não propor a origem extraterrestre do português? Digam que é a única língua que teve origem no planeta Marte. Assim como assim, sempre é mais divertido. Vá, força! Se calhar o português até veio de cometa. Vejam o último Indiana Jones para tirar ideias.

Por outro lado, também podem ler, com muito mais proveito, os livros e os artigos que refiro no meu post:

  • Introdução à História do Português, de Ivo Castro (um livro académico e actualizado, com fartos exemplos concretos).
  • História do Português, de Esperança Cardeira (um livro brevíssimo, editado numa colecção da Caminho sobre temas de linguística).

É um primeiro passo para sair do mundo delirante em que andam metidos. E, se me permitem puxar a brasa aqui ao blogue, aqui fica uma história romanceada dos primeiros tempos da nossa língua.

A ferida da lua

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Um pai é um pai e um pai (ou uma mãe, claro) fica babado com as coisas mais simples. Perdoem-me, portanto, este relato duma cena familiar.

Faço a viagem entre Peniche e Lisboa muitas vezes. A paisagem que vemos na auto-estrada é ondulante e pontuada de moinhos (e, agora, ventoinhas).

Estamos no reino do verde claro, entre colinas e terras simpáticas. Estamos a falar da antiga Estremadura, uma região serena entre o verde escuro e montanhoso do Norte e as planuras imensas do Sul — e tudo com muito mar, ao fundo.

Bem, mas este fim-de-semana a Zélia, o Simão e eu fizemos a viagem de noite, para voltar para Lisboa.

À noite, todas as paisagens são pardas e, se quisermos, assustadoras, principalmente numa auto-estrada, onde a velocidade não deixa perceber bem o que são as luzes que vemos a passar a alta velocidade. Mesmo a paisagem simpática do Oeste não é mais do que sombras e, no céu, aparecem uns estranhos pontos encarnados a piscar.

O meu filho não se importa. Já conhece. Viemos a cantar as músicas que ele nos ia pedindo (um dia conto-vos). Pois, de repente, aparece-nos a lua por trás duma montanha, enorme e laranja, para espanto imediato do Simão, que começa a apontar: «Olha a lua!»

Espanto dele e nosso, que há coisas que nunca cansam.

Passavam nuvens à frente do disco laranja da lua.

O meu filho pergunta-me: «A lua está viva?»

Digo-lhe que sim, sem saber bem porquê.

E ele faz-me esta outra pergunta, preocupado: «A lua está ferida?»

Olhei com mais atenção: havia, na lua, uma mancha negra muito definida que parecia mesmo uma ferida.

Disse-lhe que não, que a ferida era uma nuvem.

Ele ficou mais descansado, e passou os minutos seguintes a olhar para a lua, calado, lá nas suas coisas.

E nós calados, também, por causa da lua — e do Simão.


Depois de partilhar o texto acima, a minha mãe (que tinha ficado a tomar conta dele, com o meu pai, no domingo) contou no Facebook que, no dia anterior, o Simão lhe perguntara se a lua tinha morrido. Porquê? Porque não a via no céu… A minha mãe disse-lhe que não, que ainda iria aparecer. Deve ter vindo daí a pergunta que me intrigou: «A lua está viva?»


Depois de ler o artigo acima, o meu irmão contou-me que a Lilah, a minha sobrinha, quando veio cá a Portugal há dias também o surpreendeu com a lua. Estavam a andar de carro, quando ela diz: «Moon, Venus, many stars…» Depois, faz muitos gestos e ri-se: «so beautiful, pretty moon!». O que surpreendeu o meu irmão foi o simples facto de eles nunca lhe terem dito nada parecido. É um choque bom quando os nossos filhos começam a dizer coisas só deles… Disse-me ele ainda que, quando viajam, ela parece dar um salto no que diz e no que pensa. Também me parece ver isso no Simão. Nessas idades percebemos bem o valor que tem viajar: dá-nos mais ideias, dá-nos mais mundo, dá-nos mais palavras. Como os livros, aliás (e não só…).

O nosso vocabulário está cada vez mais pobre?

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Ainda há pouco ouvi, novamente, a ideia de que hoje só usamos X palavras. Desta vez, eram 500: na cabeça de algumas pessoas, os portugueses só usam 500 palavras diferentes. Mas também já ouvi 150 e há dias em que alguém inventa números mais bicudos: 800 ou 700 ou 234.

Ora, estes números fazem-me confusão, porque revelam certezas onde tenho muitas dúvidas.

Há umas semanas, só para experimentar, escolhi 10 artigos dos blogues do Sapo e contei as palavras diferentes. Eram só 10 artigos e escolhi-os aleatoriamente… Saíram-me 1500 palavras. Palavras diferentes, diga-se! Em 10 artigos de blogue! Lembrem-se ainda que usamos menos palavras na escrita do que na oralidade, onde somos todos muito mais criativos e desenrascados do que pensamos.

Também fiz a experiência de contar as palavras deste blogue: escolhi uns meses de amostra, descarreguei, contei e saíram-me 12 000 palavras diferentes!

Terei sido pouco rigoroso na contagem? Talvez. Mas mesmo que me tenha enganado à grande, tirem 50% dessas palavras e ainda ficamos com 6000. Doze vezes mais do que as tais 500 palavras que, pelos vistos, são o vocabulário típico do português de agora.

Talvez tenha um vocabulário doze vezes superior ao típico… Mas desconfio que o problema é outro: o vocabulário típico não é tão mau como o pintam. Mas, lá está: neste assunto, acho avisado ter mais dúvidas do que certezas.

Agora, um desabafo: custa-me ver algumas pessoas a reclamar, de manhã, contra o empobrecimento do vocabulário (e compreendo a preocupação) e, à tarde, a querer proibir esta ou aquela expressão. Ou bem que querem uma língua mais rica ou bem que querem uma língua mais limitada. As duas coisas é difícil.

Já agora, para quem estiver com vontade de dizer que estou a defender um vocabulário pobre (livra!), pedia-vos que lessem este artigo sobre a importância das palavras na educação das crianças.

E, sim, confesso já: gosto de literatura com muitas palavras diferentes, gosto de ler bons clássicos, gosto de ler textos difíceis. Mas também gosto de ler ideias complexas explicadas em palavras de todos os dias, gosto de cartas directas, às vezes até de livros de linguagem aparentemente limitada, mas que no fundo são o fruto da antiga arte de fazer muito com pouco. Enfim, gosto de muitas coisas diferentes. A língua é, felizmente, muito mais flexível e rica do que dizem por aí. E, se estamos preocupados, temos bom remédio: meter mãos à obra e escrever, escrever, escrever…


Como não podia deixar de ser (um autor não pode ficar parado), aqui fica um excerto sobre o assunto:

A verdade é que todas as línguas europeias sofrem deste vírus: a ideia de que o vocabulário está a diminuir.

O linguista David Crystal, por exemplo, conta que um dia ouviu alguém dizer que o leitor típico do The Sun só consegue ler umas 500 palavras diferentes. Não será difícil de acreditar: estamos a falar dum tablóide.

Mas os linguistas são gente tramada. David Crystal pegou num exemplar do jornal desse dia e contou as palavras. Resultado? Umas 8000 palavras diferentes!

Como comparação, David Crystal diz-nos que a King James Bible, uma obra importantíssima para a língua inglesa, tem também umas 8000 palavras diferentes…

David Crystal diz-nos ainda que, na verdade, o vocabulário típico de um adulto rondará as 50 000 palavras. Este vocabulário não é usado todos os dias, claro está. Depende da situação em que cada pessoa está. Se se vir em apertos, até é capaz de inventar palavras novas, que nós somos um animal muito criativo…

Bem, haverá sempre quem diga: «Ah, mas isso é na Inglaterra!» Ora, sim, mas nisto somos todos mais parecidos do que pensamos. Seja como for, se alguém quiser insultar os portugueses afirmando que temos um vocabulário que é apenas um quinto do vocabulário do inglês típico, ainda fica com 10 000 palavras, bem mais do que dizem as más-línguas que andam por aí.

Antes de continuarmos, um aviso: é óbvio que um vocabulário rico é bom e necessário — e ajuda em quase tudo. Mas daí não podemos concluir que os jovens de hoje conheçam menos palavras do que os jovens de há 100 anos, pouquíssimos dos quais iam à escola…

Sim, quem quiser defender a ideia da decadência do vocabulário pode usar a estratégia de comparar todos os jovens de hoje, de todas as origens sociais e situações familiares, com os jovens seleccionados de antigamente (os pouquíssimos que iam à escola). Mas isso é um erro quase tão grande como comparar-nos a todos com Eça e Camilo.

[…]

Sim: um escritor pode usar toda a paleta de palavras que a língua lhe oferece. Mas, por outro lado, um formulário do Estado ganha muito em ser simples e fácil de compreender por todos.

Sim: um adolescente parece debitar apenas e só monossílabos quando fala com alguns adultos — mas ponham-se à escuta quando o mesmo adolescente conversa com os amigos e vão ficar com os ouvidos a arder de tanta palavra nova e desconhecida.

O nosso vocabulário está cada vez mais pobre? Tenho dúvidas, tenho mesmo muitas dúvidas…

(Excerto de Doze Segredos da Língua Portuguesa)

O incêndio que destruiu os Jerónimos

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Ando a ler O Pequeno Livro do Grande Terramoto por uma razão muito concreta que vos hei-de contar daqui a uns tempos. Já tinha lido o livro há uns anos, com grande proveito, e agora preciso de o reler, para me embrenhar na época.

transferirA certa altura, Rui Tavares lembra-nos que aquilo que se disse do terramoto, na altura, por essa Europa fora, nem sempre era muito realista (digamos assim). Quem conta um conto acrescenta um ponto e quem conta um terramoto acrescenta um morto — ou uns bons milhares de mortos.

Ora, lembrei-me imediatamente dum episódio que se passou comigo em Barcelona, há muitos anos, quando em amena cavaqueira com um catalão, que me mostrava fotos duma viagem que fizera a Lisboa, ele me vem com esta, perante uma fotografia do Mosteiro dos Jerónimos: «Bem, isto foi antes do incêndio…»

Eu, intrigado com esse tal incêndio que destruíra os Jerónimos, perguntei do que é que ele estava a falar. E ele, intrigado com o português que nunca ouvira falar do grande fogo, disse-me: «Ora, o incêndio de 1988!».

E eu: «Ah! Esse!»

Digamos que nós, portugueses, reconstruímos os Jerónimos enquanto um diabo esfrega o olho. (Já o mesmo não se pode dizer do Chiado, que bem demorou.)

Vá, não sejamos mauzinhos. Afinal, o tal catalão sabia que tinha havido um incêndio em Lisboa (e em 1988!). Não é coisa pouca. Que não soubesse a exacta geografia do incêndio parece-me bastante desculpável. E, digo-vos, ele sabia muito mais de Portugal do que esperaríamos, sempre convencidos como estamos que o mundo não nos liga nenhuma…

Qual é a origem da língua portuguesa?

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O leitor Paulo Vieira enviou-me esta mensagem:

Ouvi-o na Prova Oral afirmar que a nossa língua vem do galego e estava agora a ler uma notícia do Público sobre os Lusíadas, a que fez referência no artigo da língua bastarda, e nessa notícia é dito que a obra tem uma forte influência do castelhano, língua que aparentemente era muito usada na corte.

Fiquei interessado e gostava de esclarecer quais as origens da nossa língua. Recomenda algum livro sobre o tema?

No final deste artigo, deixo algumas sugestões de leitura.

Mas antes, porque esta compulsão para escrever parece não ter cura, vou tentar explicar aquilo que sei (ou penso saber). Mas tenho de avisar: não sou linguista histórico. Sou um tradutor e professor que estuda linguística por motivos práticos e junta a isso uma paixão pela disciplina.

Pois bem: a verdade é que gosto muito da história da língua — e julgo ser este um tema que nos interessa a todos. Com base no que fui aprendendo ao longo dos anos, mas também com base na leitura dos livros e artigos que refiro no final, aqui fica o meu resumo (os erros, claro, serão meus e não dos livros e artigos — ressalve-se!).

O português vem do galego?

Enfim: todos nós que dizemos falar português e todos os que dizem falar galego falamos qualquer coisa que teve origem nos falares da Galécia, ali no noroeste da Península. Durante séculos, o latim trazido pelos soldados e colonos romanos e adquirido por toda a população foi sofrendo transformações — não as podemos ver em tempo real, porque ninguém as registava ou escrevia, mas, muitos séculos depois, quando finalmente a língua começou a ser escrita, havia nesse território uma língua já formada, com verbos próprios, com formas próprias, com características que a identificam e a distinguem das outras línguas em redor.

Gallaecia

A Galécia romana. A nossa língua terá nascido no triângulo que corresponde, de forma muito pouco rigorosa, à metade noroeste do território a verde.

O que chamavam as pessoas a essa língua que já era, em muitos aspectos, a nossa? Não lhe chamavam nem galego nem português: chamavam-lhe linguagem, com toda a probabilidade. Era a língua do povo. Nós, agora, olhando para trás, podemos chamar-lhe «português», o que não deixa de ser anacrónico, ou «galego», o que não deixa de assustar algumas almas mais sensíveis, ou «galego-português», para agradar a gregos e a troianos (como se esses fossem para aqui chamados). Na escrita, durante todos esses séculos do primeiro milénio, o latim continuou rei e senhor.

Quando Portugal se tornou independente, começámos a usar a língua que existia no território, que era ainda apenas o Norte. Não a escolhemos de imediato, pois nos primeiros tempos o latim ainda foi a língua oficial. Mas, devagar, a língua que era de facto falada começou a infiltrar-se nos textos escritos, às vezes de forma imperceptível, outras vezes de forma mais clara.

O país expandiu-se para sul e, com ele, veio a língua, claro. O português nasceu nesse canto noroeste e expandiu-se até ao Algarve (e, mais tarde, até além-mar). Por alturas de D. Dinis era já a língua oficial.

Depois, no final do século XIV, temos revoluções, a batalha de Aljubarrota… — a nobreza nortenha perde influência, a burguesia lisboeta alça-se à posição de classe dominante (e tudo o mais que faz parte da História). Lisboa é agora a capital e a nação esquece-se que a língua veio do norte, não foi criada em todo o território nacional. O que se falava em Lisboa seria esse galego-português que viera para sul com a Reconquista. Houve, claro, algumas intrusões do moçárabe, a linguagem latina do sul (com muitos arabismos). Mas, nas suas estruturas e características principais, a língua que Portugal assumiu como sua é a língua criada na Galécia: não houve um ponto em que o galego e o português se tivessem separado claramente.

Influências castelhanas no português literário

Não houve um ponto em que o galego e o português se separassem claramente. Mas há, isso sim, algum afastamento da língua padrão em relação ao que se fala mais a norte. Muito desse afastamento fez-se também por causa das influências externas. Com a corte em Lisboa, e durante muitos séculos (na época de Camões, por exemplo), o castelhano teve uma influência que hoje poucos imaginam. Os escritores portugueses também escreviam, muitos deles, em castelhano. Liam em castelhano. A igreja usava muito o castelhano. A corte também usava o castelhano. Era a língua de prestígio. As misturas eram inevitáveis…

Ora, o português popular de todo o país não sofreu estas influências de forma tão marcada. Assim, arrisco-me a dizer que o português popular manteve durante mais tempo uma maior grau de semelhança com o galego do que o português-padrão — talvez por não ter tanta influência castelhana. Principalmente no Norte, o português e o galego mantiveram-se tão próximos que a fronteira era difícil de traçar. Mais a sul, na Corte, na capital, a língua “desgaleguizava-se” (ver artigos de Fernando Venâncio citados abaixo). Para as elites lisboetas, o galego e o português do Norte começaram a soar a português da província. E, no entanto, era de lá que tinha vindo a língua…

Depois, o castelhano deixou de ser uma influência forte no português (aí por volta do século XVIII); vieram então as influências francesas e, já bem entrado o século XX, começamos a olhar para o inglês.

Sim, sempre fomos uma língua que sofreu influências fortes de outras culturas. Podemos não gostar do facto, mas é isso mesmo: um facto. Não fiquem horrorizados: o castelhano também teve vagas dessas, o francês idem — então o inglês nem se fala. Não percam muitas horas de sono com isso — e, depois, a língua vai atrás da cultura, neste ponto: se quisermos uma língua pura, temos de fechar a cultura a influências exteriores. As línguas mais puras são as mais isoladas, as menos importantes.

Para terminar este resumo muito resumido, diga-se que o português-padrão se expandiu de forma fenomenal durante o século XX, com a escola, a televisão, a rádio, a imprensa. Aí, as formas do sul começaram a suplantar as outras formas, que subsistem, mas com menos força. O português começou a tornar-se mais homogéneo (e menos nortenho/galego) — mas tudo isto já é história das últimas décadas…

E o galego?

Bem, quanto ao galego, lá em cima, num país sem corte, uma sociedade rural, não sofreu tanta influência castelhana até muito tarde, embora essa aparente pureza seja apenas reflexo do isolamento da sociedade. Grande parte da população galega, aliás, só terá começado a sentir a invasão da sua língua pelo castelhano quando a escolaridade obrigatória apareceu no horizonte — e a televisão, jornais, etc. Ou seja, para muitos galegos, o castelhano tornou-se influência no século XX (nas elites terá sido antes, claro). Apesar de tardia, a influência do espanhol é avassaladora, claro está. Aliás, chamar-lhe influência será um eufemismo cruel. O espanhol não influenciou o galego: o espanhol começou a substituir o galego. Afinal, o Estado é o espanhol e a escolaridade da população foi em castelhano até muito tarde. Ou seja, nos séculos XIX e XX, o galego levou uma coça de que ainda não se levantou, apesar de, desde os anos 70, o governo autónomo ter, oficialmente, uma política de defesa da língua.

Alguns galegos tentam aproximar a sua língua do português para assim melhor se defenderem do peso do castelhano; outros apostam num galego autónomo tanto do castelhano como do português. Mas que o galego e o português ainda estão mais próximos do que imaginamos, isso é indesmentível: então quando começamos a olhar para o vocabulário popular, aquele que muitos desprezam injustamente, começamos a ver como falamos uma língua que não deixa de ser muito galega.

Em resumo…

… o português tem origem no latim popular falado no noroeste da Península, na Galécia Magna, língua essa a que podemos chamar galego por ser uma língua da zona do Reino da Galiza, uma língua já com características muito próprias séculos antes da existência de Portugal. Ao tornar-se a língua dum estado independente a sul, chamado Portugal, a língua passou a chamar-se português — e com esse nome foi transplantada para os outros países que a falam. Apesar das mudanças a sul, a língua mantém uma forte proximidade com o que se fala a norte da fronteira. Essa língua portuguesa, como é típico duma língua dum país de cultura aberta a outros povos, sofreu grandes influências exteriores: do castelhano, do francês, do inglês… Até hoje. Também nos dias de hoje as formas mais padronizadas do português começam a suplantar as formas mais populares entre a população em geral — enquanto na Galiza, o castelhano avança.

Isto é uma explicação simplificada, claro está. É ainda a minha forma de o explicar: outros dariam ênfases a outras partes ou acrescentariam pontos talvez importantes… Se alguém quiser corrigir, matizar, completar, os comentários estão abertos!

(Proponho ainda que dê uma vista de olhos pelas histórias romanceadas que escrevi e que tentam dar uma ideia do que foi o percurso do idioma nesses primeiros séculos: «História Secreta da Língua Portuguesa».)

Bem, mas a pergunta era outra: que livros de especialistas podemos ler sobre o assunto?

Proponho dois livros breves, recentes, sobre a História da língua:

  • Introdução à História do Português, de Ivo Castro (um livro académico e actualizado, com fartos exemplos concretos).
  • História do Português, de Esperança Cardeira (um livro brevíssimo, editado numa colecção da Caminho sobre temas de linguística).

Proponho também três artigos de Fernando Venâncio sobre o assunto (convém dizer que as aulas que o autor deu na FCSH, este ano, permitiram-me aprender muito sobre as origens da língua):


Se está interessado na origem da língua portuguesa, não perca A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, um relato surpreendente da história milenar da nossa língua, que junta os falantes comuns da língua aos nossos grandes escritores: D. Dinis, Gil Vicente, Camões, Eça, etc.

O mistério do WC numa casa de Paris (e livros, claro)

Capítulo 11. Livros na bagagem.

1. A casa dos primos da França

Tinha uns 16 anos. Foi uma viagem diferente, porque não fomos para um hotel: fomos para casa duns primos afastados que estavam em Portugal nessas semanas. Estranhamente, não os conheço pessoalmente (até hoje). Ou seja, vivi numa casa de pessoas que para mim são perfeitos desconhecidos.

Deu jeito. Assim ficámos num apartamento parisiense, perto da Place de la Nation. Fomos à mercearia do bairro, andámos de transportes, falámos com as pessoas da zona e, claro, usámos a casa: a cozinha, os quartos e as casas de banho — o que teve consequências curiosas mas que direi apenas no final do capítulo para criar algum suspense.

Fiquei no quarto do filho mais velho dessa família, que tinha mais ou menos a mesma idade que eu. Fiquei fascinado com aquilo. É como se, durante uns dias, estivesse a viver uma outra vida, a viver em Paris, a ser estudante numa escola francesa. Abri os livros da escola, que cheiravam a novos, esse cheiro magnífico e viciante, com as cores brilhantes.

Lembro-me de ter aberto o manual de filosofia e de folhear, tentando perceber o que era parecido e o que era diferente com a filosofia que tinha na escola secundária em Portugal (tinha uma especial predilecção por essa disciplina, uma tendência estranha para adorar as disciplinas que os meus colegas detestavam; na faculdade foi a linguística).

2. Entre livros de filosofia franceses e o filme Aeroplano 

A certa altura, o livro escolar francês de filosofia tratava dessa paranóia francesa que é… a América. Explicava que a religiosidade americana não se cristaliza numa religião particular (como acontece com Portugal, França, etc.). É uma religiosidade mais difusa, ligada ao próprio conceito de Nação. Os americanos têm muitas denominações, mas acima de tudo são americanos e in God they trust. Sim, são também o país que inventou a separação entre a Igreja e o Estado, mas para eles a Igreja em si não é assim tão importante, o que interessa é a América, essa Nação escolhida por Deus (e tanto assim é que muitos radicais de extrema-direita norte-americana desconfiam dos católicos, esses perversos cristãos amarrados a um poder estrangeiro… Para eles, mais vale um judeu do que um papista.)

Já não me lembro bem em que fase estava na montanha russa que era a minha evolução em termos políticos, mas esta explicação, simplista se quiserem, acabou por me fazer sentido na altura e ajudou-me a interpretar os nossos amigos do outro lado do oceano. Para eles, a devoção à América não é uma questão cultural, linguística ou étnica — é uma religião. Uma religião civil. Obviamente que este tipo de mentalidade é mais comum entre os republicanos e, entre estes, os republicanos dos square states, mas é esta mentalidade que muitos europeus vêem quando olham para a América e é esta mentalidade que até os democratas têm de assumir, pelo menos parcialmente, quando se candidatam a algum cargo nos EUA. Por algum motivo Barack Obama, um presidente considerado um perigoso radical de esquerda por muitos americanos, traz a religião para o discurso político de forma que seria considerada totalmente despropositada num contexto europeu (basta pensar na estranheza que foi ouvir Paulo Portas, há uns anos, referir Nossa Senhora num discurso…)

AEROPLANOMas chega de elucubrações intelectuais. Um texano que lesse este artigo estaria a rir-se com esta forma de escrever tão pretensiosa. Diria, com as suas botas e chapéu de cowboy:

Cowboy: «Surely, you have better things to do with your life!» 

Eu: «Yes, I have, but don’t call me Shirley.» 

(Aviso para as mentes mais literais: eu não acho que os texanos sejam todos cowboys. Isto foi só para perceberem que posso gostar de folhear livros de filosofia como desporto de adolescente, mas também vi o Aeroplano. Não sou assim tão esquisito.)

3. O barulho dos carros em Paris

O que é certo é que me lembro muito bem dessa viagem em que fomos em família, numa carrinha, para Paris.

Vimos pela primeira vez a reacção que alguém num carro de matrícula portuguesa sente em Paris: os imensos portugueses, com os seus carros franceses e carrinhas de várias pequenas empresas de todos os ramos, começam a apitar e a acenar. Foi estranho ver tantos portugueses numa cidade distante.

Vimos também franceses de bicicleta com o pão debaixo do braço e, do alto dos meus 16 anos, declarei aquilo uma barbaridade.

Vimos ainda uma bicicleta amarrada a um poste de que sobrava apenas o quadro — e nós, do alto da nossa vida de pacatos portugueses, declarámos Paris uma cidade perigosa.

E o que se faz numa cidade perigosa? Anda-se de metro à 1 da manhã até que um gajo de mau aspecto se aproxima de nós e pergunta se queremos sair na próxima estação para nos ajudar a chegar a casa. Não, muito obrigado, porque somos portugueses, mas não somos tontos.

Lembro-me ainda de estar na cozinha muito urbana, com bancos de bar, tudo brilhante e limpo, à noite, com a luz apagada, só as luzes da cidade e o som dos carros a passar na avenida, esse sabor duma cidade à noite, os prédios de Paris pela janela.

No ano seguinte, lembro-me de ter dado nas aulas de Francês o livro Bonjour Tristesse de Françoise Sagan e o último parágrafo bateu-me como uma recordação desses nossos dias de Paris:

Seulement quand je suis dans mon lit, à l’aube, avec le seul bruit des voitures dans Paris, ma mémoire parfois me trahit : l’été revient et tous mes souvenirs. Anne, Anne ! Je répète ce nom très bas et très longtemps dans le noir. Quelque chose monte alors en moi que j’accueille par son nom, les yeux fermés : Bonjour Tristesse.

Pronto, as minhas memórias não eram dum Verão quente na Côte d’Azur, mas sim duma viagem de tugas a França, e a viagem não foi triste, mas a literatura e a memória são assim: o bruit des voitures dans Paris lembrou-me dessa outra vida que vivi durante uns dias, de adolescente francês, que nem por sombras prefiro, mas da qual sentia alguma nostalgia, que é uma coisa muito literária de se sentir.

Não sei mesmo porquê, mas essa expressão do «ruído dos carros em Paris» deu-me um murro no estômago, o que prova que as emoções literárias às vezes estão acessíveis até a um pobre rapaz sem grandes enredos amorosos na sua vida de adolescente de pequena cidade portuguesa que foi a Paris numa carrinha com os pais.

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4. Sobre casas de banho à francesa (e Montaigne)

E chegamos, obviamente, a Montaigne e à questão das casas de banho que deixei pendurada lá em cima, há muito tempo, no início deste post (que já vai a caminho de ser um postão). Porquê? Por causa das casas de banho da casa dos meus primos.

Não sei se sabem, mas muitas casas francesas (não sei se a maioria) têm uma divisão muito marcada entre o W.C. (sanita e companhia) e a casa de banho propriamente dita (para banhos e outra abluções). Pois a coisa, vista a esta distância temporal depois do primeiro choque com esse hábito estranhíssimo, até parece fazer sentido: há um sítio, digamos, mais porco, e outro onde lavamos os dentes e tomamos banho — e devem estar bem separados.

Mas, ó bárbaros franceses!, tinham de pôr o WC num lado da casa e a casa de banho no ponto mais distante possível?

Ainda me lembro do meu pai sair do WC: «Mas pode saber-se onde é que eu lavo as mãos?»

Todos nós corremos a analisar o WC. Depois fomos todos a correr analisar a casa de banho. Nada de lavatório num dos lados. Nada de sanita no outro. Ou seja, os franceses (ou pelo menos, aqueles franceses) tinham mesmo de fazer o que há a fazer numa ponta da casa e percorrer toda a santa casa para lavar as mãos, arriscando-se a tocar nalguma coisa antes da sagrada lavagem. Que nojo!

O que tem Montaigne a ver com isto? Tem muito, meus amigos. Pois leiam o ensaio do dito blogger do século XVI francês. Achamos sempre que os hábitos dos outros são muito estranhos e acabamos por achar os nossos incomparavelmente melhores, porque são nossos e sempre fizemos assim. Se para Montaigne o problema era o sistema de aquecimento usado na Alemanha em comparação com o sistema usado em França, para nós o problema é a colocação do WC. Enfim, cada época, seus problemas.

5. É melhor parar por hoje, que se faz tarde

São 23:53, e ainda tenho coisas para dizer. Porque nessa viagem fomos à Eurodisney (estávamos em 1996 e o parque da Disney abrira há um ano) — e adorámos. Lembro-me de ter achado os Piratas das Caraíbas uma experiência como nunca tinha tido.

Depois, repetimos, a família toda, essa visita à Eurodisney 16 anos depois, em 2012, e a coisa só podia ser um bocado diferente. Também aqui falamos de países diferentes: esse presente onde vivemos e esse passado que é um país estrangeiro.

Agora reparo: já contei isto por aqui: «Portugueses em Paris, um livro de espantar e ainda a primeira fotografia dum ser humano».

Bem, até à próxima. Talvez voltemos a Londres ou a Lisboa. Talvez não. Nunca se sabe.

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