Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Junho 2016 (Página 1 de 3)

Palavras de Ponte de Sor, de Peniche e da Galiza

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Ora, no sábado, é a vez de Ponte de Sor: lá estarei a falar sobre os segredos da nossa língua. Quem vai estar comigo a falar do livro é o vereador Rogério Alves. Apontem na agenda e atrevam-se a ir até ao Alto Alentejo: sábado, 16 horas, no Centro de Artes e Cultura da cidade.

(Agora reparo: Picoas, Peniche, Porto, Parque das Nações, Ponte de Sor. Não fosse Santiago de Compostela, e este era o livros dos pês. Será que Portimão quer ouvir falar dos segredos da língua? Estamos na época…)


Desculpem-me as pessoas de Ponte de Sor, mas a vossa terra também é um pouco minha. Sim, quando uma pessoa se casa com alguém, casa-se com a pessoa, mas também com a família (isso já muitos disseram) — e com a terra.

Pois abram lá os Doze Segredos na página 44:

NAOSEJASLAMBAO


As ideias são como as cerejas — e se estava a falar de Ponte de Sor, reparo no parêntesis do excerto que está aqui em cima.

Nesse parágrafo, falo da palavra «chincar», que é muito penicheira… e muito galega!

Sim: depois de me ouvir a falar dessa mesma palavra na Antena 3, há umas semanas, o José Ramom Pichel, que tem um entusiasmo contagiante em tudo o que tem a ver com a língua, mandou-me de imediato um e-mail a dizer que, há uns anos, esteve a fazer uma recolha de dicionários históricos do galego. E, com esse trabalho, descobriu que muitas das palavras populares em Portugal estão nesses dicionários… de galego!

Exemplo: o tal «chincar», que eu pensava ser uma palavra penicheira, é penicheira, sim, mas também é galega. E com o mesmo significado: «tocar». Magnífico, não é?

Diga-se que a palavra, nos tais dicionários, tem mais do que um significado: o «tocar», sim, mas também «ordenhar», o que deixaria os penicheiros a rir — mas é normal, as palavras têm vários significados e quase que aposto que haverá uma ou outra terra portuguesa onde «chincar» também se ouve (ou ouvia) para «ordenhar».

Agora, o que espanta, pelo menos quem não conheça a proximidade entre galego e português, é que uma palavra que encontramos em dicionários históricos do galego apareça perdida na boca dos adolescentes duma terra à beira-mar, bem portuguesa, bem mais a sul.

Assim descobrimos, sem querer, como as palavras são matreiras: algumas, mudam entre os poucos quilómetros que separam Peniche de Ponte de Sor. Outras mantêm-se, teimosas, a ligar Peniche à Galiza. E todas ligam-nos a nós, que gostamos de ler e conversar, seja onde for. Pois agora é em Ponte de Sor.

Ideias para escrever melhor:
1. Escrever para chegar a algum lado

auto-999719_640As minhas aulas de condução foram inesquecíveis, por boas e por más razões. Comecemos por estas últimas: lembro-me de ter deixado o carro ir abaixo, ao mesmo tempo que, num só milagroso gesto, ligava tudo o que havia para ligar: os limpa-pára-brisas, os máximos, o rádio e o pisca. E a buzina. Tudo ao mesmo tempo.

O meu instrutor olhou-me por cima dos óculos escuros, sem acreditar no que acabara de ver. Mas aprendi a conduzir: é essa a boa notícia. E, ao contrário do que esperava, gosto mesmo muito de ter um carro nas mãos.

Ora, uma das lições do instrutor, que tinha uma tendência para se distrair com quem passava na rua, desde que fosse do sexo feminino, deixando-me sozinho a olhar para a estrada — dizia eu que uma das suas lições bem concretas foi esta: se quero conduzir bem, tenho de olhar lá para a frente. Não devo olhar para o pedaço de estrada que está à frente do carro. Nem muito menos passar o tempo a espreitar os instrumentos do carro (bem, às vezes convém). Enfim, tenho de olhar para onde estou a ir, em frente, sem medo.

Parece óbvio, não é? Mas não: quem está a aprender tem tendência para olhar para o que está à sua volta, com medo de se esquecer de alguma coisa. Tem também tendência para olhar para a estrada que está mesmo à frente do carro, quando na verdade tem de esticar o olhar para o horizonte. E temos de estar à vontade com o carro para controlá-lo e conduzi-lo sem olhar para as mãos. E temos ainda de ter olhos para tudo: para a estrada, mas também para os espelhos e para os instrumentos (de vez em quando).

Depois, obviamente, chegamos a um cruzamento, temos de parar, olhar com atenção para todos os lados — temos de adaptar a condução à situação em que estamos. Já quando precisamos de chegar depressa ao hospital, com uma emergência no carro, tudo muda. Não convém estar preocupado com o código da Estrada. Enfim: conduzir é muito mais do que saber as regras. Ninguém aprende a conduzir a empinar livros de código (mas também tem de o fazer).

Bem, já estou a ir por atalhos que quero deixar para depois. Deixem-me lá olhar em frente e dizer o que queria dizer: para escrever bem temos de saber para onde queremos ir e avançar, confiantes, conhecendo a fundo a máquina que temos nas mãos.

Esta é a primeira ideia das várias que vou aqui deixar ao longo de várias semanas.

Aprendemos a escrever com as mãos no volante

small-driver-867577_640O dia em que comecei a ter verdadeiramente prazer em conduzir foi quando o meu instrutor me disse: «hoje tenho de ir aos Olivais comprar uma peça para a minha Harley-Davidson!» Sim, íamos a um sítio específico, com um objectivo concreto. E lá fomos, comigo ao volante.

Lembro-me do prazer que foi esse momento em que ele deixou de lado as instruções esmiuçadas do costume: põe a mudança, faz pisca, olha pelo espelho. Não: disse apenas onde queria ir e eu fui. O básico da condução já eu sabia: agora tinha de começar a ir onde é preciso.

Claro que, na verdade, ainda me faltava aprender imenso. Mas, lá está: aprendemos a escrever melhor quando queremos chegar a algum lado, quando o exercício não é artificial, quando por fim temos o volante na mão para fazer qualquer coisa com a máquina.

E há isto: uma pessoa que conduza bem na estrada, em que é preciso cuidado e condução defensiva, pode não ser um bom corredor de Fórmula 1 — e vice-versa. Na escrita, é a mesma coisa: saber escrever bem um contrato não quer dizer que a pessoa seja um bom escritor de contos. Quem sabe escrever ensaios pode não saber criar bons formulários para uma repartição (é difícil!).

Para escrever bem, temos de aprender o que é preciso para chegar onde queremos. Escrever bem não é algo abstracto, que se aprende de forma teórica: é na prática, é com objectivos concretos na mão, é com o leitor na nossa mente, é com sítio onde queremos chegar nos nossos olhos — é com tudo isto que aprendemos a escrever melhor.

Mas não é conduzir sem destino?

beach-resort-1259790_640Sim. Às vezes, é bom pegar no carro e partir sem direcção, para descansar a cabeça e encontrar uma praia onde nunca fomos, paisagens que nos surpreendam, novas terras. Já estamos no mundo da literatura — que é um mundo muito bom, mas que tem de ficar para outras mãos mais experientes.

Ah, mas não é só isso, diz-me algum leitor mais céptico. Às vezes começo a escrever com uma intenção, mas acabo a escrever sobre outra coisa.

É verdade: isso acontece muitas vezes. Estou a escrever um texto e começo a vaguear, a sair da estrada e a falar doutra coisa. É mais habitual do que parece.

Na fala, já não podemos fazer nada — e é por isso que as conversas são, às vezes, passeios sem rumo pelas nossas vidas e pelas nossas ideias (e é tão bom!). Mas a escrita, que tem muitas limitações, tem esta vantagem: podemos reescrever. E, por isso, em muitos casos, com mais ou menos digressões, o importante é que o texto pareça estar escrito do princípio ao fim com o objectivo em mente. Na escrita, tirando os casos em que gostamos de mostrar a forma anárquica como todos pensamos, devemos fazer como alguém que pega no carro para ir a uma cidade, acaba por ir para outra e, uma vez lá chegado, pega no mapa e cria um itinerário que faça fingir que sempre quis ir ali parar.

Não sei se me estou a fazer entender: a escrita é um processo de criação de textos — e é o aspecto final do texto que importa. O que fizemos para lá chegar às vezes é uma aventura cheia de hesitações, atalhos e tentativas falhadas. Mas o resultado final deve parecer ter sido feito do princípio ao fim sem hesitações: ou com as exactas hesitações que nos servem para aquilo que queremos fazer com o leitor.

É um artifício? Claro! A escrita é um artifício. O truque está em que tudo pareça natural. Mas sobre isso falaremos nos próximos dias…

Para a frente é que é o caminho!

road-815297_640Bem, deixemos de lado esses atalhos em que nos metemos. Na verdade, para começar a escrever temos mesmo de saber onde queremos ir — mesmo que depois mudemos de ideias. Por isso, sim, devemos começar por pensar naquilo que queremos fazer com a escrita — e usar todos os recursos para isso mesmo. Sem medo.

Escrever uma carta a um filho, escrever uma carta a um jornal, convencer os amigos a participar nas nossas causas, debater com alguém num blogue, fazer uma exposição a um serviço público para que nos resolvam um problema, pedir para que quem nos lê vote numa proposta em particular, reclamar junto duma empresa, participar na vida em sociedade, escrever um e-mail para convencer a pessoa a ler o nosso currículo — a nossa vida depende da escrita.

As falhas na escrita, por vezes, são mais do que aborrecidas: desde o cliente que perdemos porque um e-mail foi mal interpretado, passando pelo amigo que ficou triste pela forma brusca como nos explicámos no Facebook, indo acabar no artigo do blogue da empresa em que trabalhámos muitas horas e ninguém leu. Escrever melhor ajuda-nos a trabalhar melhor.

Tudo isto é importante — tal como também é importante aprender a escrever com prazer: o nosso e o do leitor. Porquê? Porque a escrita faz parte da vida e a boa escrita é uma parte da boa vida. Ora, pois: disse acima que escrever bem nos ajuda a trabalhar bem. E não é que também nos ajuda a viver melhor?

Três conselhos práticos

  1. fountain-pens-1393979_640Para escrever melhor, é bom ter objectivos que nos deixem com vontade de pegar no volante e partir. Quero convencer alguém? Não preciso de ir reler a gramática toda do princípio ao fim: o que devo fazer é ler outros textos para ter ideias, experimentar soluções na prática, rever e reescrever no fim. Trabalhar e não parar até conseguir um texto que faça o que precisamos que ele faça. E, na verdade, tudo isto funciona melhor se acreditarmos mesmo no que estamos a dizer.
  2. A escrita não se aprende em bloco: alguém que escreve bons contratos pode ser terrível a escrever num blogue. Temos de ter a humildade de estar sempre a aprender, mesmo quando alguém nos diz: «escreves muito bem». Ninguém escreve muito bem em geral. Há quem seja bom na ficção, outros nos artigos científicos. Mas escrever bem em abstracto é coisa que não existe. O importante é tentar, errar, escrever melhor da próxima vez.
  3. Tal como na condução, não importa apenas chegar vivo ao destino: a escrita também implica chegar ao lugar onde queremos sem grandes abanões e, se possível, passando por sítios bonitos. Ora, já sei, às vezes, é ao contrário: escrevemos para que o leitor passe por um grande abanão e veja os sítios menos bonitos que também há. Tudo isso é verdade e vai dar onde começámos: escrevemos para chegar a algum lado — mas que lugar é esse já não vos posso dizer.

Escrevamos, pois! É importantíssimo para as nossas vidas — e, às vezes, chega a ser um prazer.

Símbolos e sinais vindos da Escócia

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Esta é uma foto da primeira-ministra escocesa a falar aos jornalistas, ontem, anunciando planos para um segundo referendo escocês.

Repare-se nas bandeiras que a rodeiam. A Escócia não é um Estado-membro da UE (é, tecnicamente, uma região dum Estado-membro). E, no entanto, a bandeira está lá. De propósito. Tal como a bandeira escocesa. Apenas essas. Mais nenhuma.

Agora, proponho que procurem uma foto com uma bandeira europeia numa declaração do primeiro-ministro britânico em Londres de há muitos anos para cá: será praticamente impossível. Ao contrário de quase todos os Estados-membros, o Reino Unido raramente usa os símbolos europeus.

As bandeiras são pedaços de pano, dirão alguns. Pois são. Mas são pedaços de pano muito significativos.

A verdade é que Reino Unido sempre foi um membro hesitante da União. Mas a grande ironia é que este referendo aparece numa altura em que as gerações mais novas se sentiam cada vez mais europeias e em que as décadas de convivência nos fazem sentir a todos um pouco europeus. Assim, sentimos a saída britânica como uma perda muito nossa. Mas, enfim, está feito. O Reino Unido sai. Teremos de ser amigos como dantes.

Já a Escócia… Um sinal: uma das grandes defensoras da manutenção da Escócia no Reino Unido, há dois anos, foi J. K. Rowling, que lutou com todas as suas forças contra a independência.

Pois bem. Dois tweets da autora, há poucas horas:

  • “Goodbye, UK.”
  • “Scotland will seek independence now. Cameron’s legacy will be breaking up two unions. Neither needed to happen.”

Não desejo que o Reino Unido se parta em dois. Mas compreendo que os escoceses queiram ficar na Europa: a opção pela Europa foi, por larga margem, a mais votada em todas as regiões escocesas. Sem excepção.

E, mais: há dois anos, uns dos argumentos de quem lutou contra a independência foi este: uma Escócia independente poderia vir a ficar fora da UE. Ora, hoje, estamos ao contrário: só uma Escócia independente pode ficar na União.

Tudo isto é difícil. Raramente vemos a política nacional doutro país entrar-nos pela casa dentro e fazer-nos tanta impressão. É a democracia a funcionar, dizem. Claro que sim. Os ingleses têm todo o direito de sair. Tal como nós temos o direito de ficar tristes, como europeus que também somos. E a maior tristeza de todas é a de alguns ingleses, que percebem o que aconteceu: perderam alguns direitos e liberdades pessoais dum dia para o outro.

E a língua inglesa na União Europeia?

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Estava já a escrever um novo texto (depois deste) sobre as razões por que a saída britânica me custa tanto pessoalmente. Afinal, pouco dormi esta noite.

Mas cansei-me, suspirei, e decidi fazer como os polícias depois dum acidente: vá, toca a avançar, já não há nada para ver.

Sim, eu sei: há muito para ver. O acidente ainda não acabou, o Reino Unido não sabe se perde peças ou não e a Europa não pára de bater com a cabeça na parede. Mas avancemos, sim, para já (logo vejo se volto ou não a esse rascunho).

Assim, este blogue dá um pulo e avança para onde sempre esteve: a falar de línguas.

Ora, muito bem: o inglês… Será que vai deixar de ser a língua mais usada nos corredores da União Europeia? Algumas pessoas tenderão a imaginar que sim. Ou talvez, a desejar que sim.

Mas não me parece. A União Europeia usa o inglês como língua de trabalho e os britânicos serão, provavelmente, aqueles que o usam de forma mais estranha: usam-no como língua nativa, quando o inglês da Europa já é um estranho inglês não nativo, simplificado, com expressões próprias, um verdadeiro instrumento de trabalho que terá poucas ligações à cultura de origem — e agora ainda menos. Sim, porque a importância do inglês nas instituições europeias terá pouco que ver com o peso político e económico do Reino Unido na União. Se assim fosse, os funcionários europeus conversariam em alemão.

Estou a falar do inglês falado nos corredores de Bruxelas. E quanto ao inglês das leis? A língua continuará a ser uma das línguas oficiais, claro está, pois é oficial na Irlanda e em Malta. Depois, nada indica que as versões inglesas da legislação europeia deixem de ter o peso que têm. Quem trabalha em tradução sente isso mesmo: tenho muitos trabalhos em que traduzo para português documentos sobre a União Europeia. Em que língua estão escritos esses documentos? Em inglês, claro. Quantos vêm do Reino Unido? Poucos.

Mais: no comércio entre europeus, o inglês continuará a ser muito usado. E na cultura, não me parece que voltemos aos tempos em que o francês era rei e senhor das conversas entre gente de países diferentes.

Nas conversas entre portugueses, alemães, franceses e até (pasme-se) espanhóis, a lingua franca continuará a ser, quase sempre, o inglês. Na ciência, o inglês mantém-se como língua internacional (até porque, nesse aspecto, a força da língua vem doutro lado). E podia continuar. Nisto das línguas, o Brexit vale muito pouco.

Como dizia a revista The Economist (e deixem-me lá citar um parágrafo em inglês):

All this makes for an odd result. Britain may be a polarising, unusual EU member, but English has become neutral, utilitarian; it is useful because others understand it. Its association with Britain is already weak and set to weaken if “Brexit” comes to pass. Dreamers have long hoped for a neutral auxiliary language that is common to all. Some have even gone to the trouble of inventing such languages. Who knows? English might one day fulfil the destiny intended for Esperanto.

Enfim, o Reino Unido sai, mas deixa a língua, que agora ficará nas mãos dos outros europeus. Como diz o artigo que citei acima, podemos estar a criar uma nova variante do inglês. Depois do inglês britânico, do inglês americano, do inglês indiano (e todos os outros), teremos o inglês europeu, uma língua falada apenas e só como língua segunda pela Europa fora. Uma espécie de latim dos tempos modernos. O mundo dá mesmo voltas muito curiosas.

Depois, há isto: não sabemos se daqui a uns anos não teremos, a juntar-se à Irlanda e a Malta, um terceiro Estado-membro de língua inglesa: a Escócia.

Esperam-nos dias interessantes. E digo isso de coração pesado.

ADENDA (28/06/2016)

No calor dos últimos dias, apareceram notícias em que alguns responsáveis europeus dizem que o inglês pode deixar de ser língua oficial das instituições, porque a Irlanda considera o irlandês como a sua língua a nível europeu e Malta não quer saber do inglês (apesar de ser uma das suas línguas).

Tudo muito certo, mas pensar que o inglês está em perigo é wishful thinking (perdoem-me o inglês). A Irlanda não comunicou que a sua língua oficial é o inglês porque o Reino Unido entrou na União no mesmo dia e a Irlanda preferiu, compreensivelmente, proteger o irlandês, que apesar de tudo só se tornou oficial no âmbito da União muitos anos depois. Os eurodeputados e funcionários irlandeses sempre usaram o inglês e isso não vai mudar. Em suma, se de facto a Irlanda nunca disse à União que o inglês é uma das suas línguas, foi porque não foi preciso — até agora.

Se vier a ser necessário, a Irlanda irá certamente comunicar que uma das suas línguas oficiais é o inglês (nem que seja porque alguns os seus eurodeputados não sabem irlandês). E se a Irlanda não o fizer, rapidamente os regulamentos internos das instituições serão alterados para que o inglês se mantenha como até aqui, porque afinal é uma língua usada, no dia-a-dia, por grande parte dos deputados, funcionários, etc.

Depois, quem sabe a centralidade do inglês na interpretação (como língua de relé, ou seja, de ponte entre línguas entre as quais não há intérpretes), na discussão informal nos corredores de Bruxelas, nos sistemas de memórias de tradução e de tradução automática (que Bruxelas usa desde os anos 50) — quem sabe tudo isto percebe que é muito improvável que o inglês perca a sua posição nas instituições europeias. Isto não é um desejo meu: é apenas uma análise da situação, que pode estar errada (mas não me parece).

Só para que fique claro: uma coisa é falar do inglês como língua oficial da União (são 24 línguas) — aqui não tenho dúvidas que o inglês continuará presente. Pois eu acrescento que o inglês como principal língua de trabalho (um estatuto que não é propriamente oficial, mas antes oficioso) também se irá manter. Mas, como em tudo, temos de esperar para ver.

A Europa de que eu gosto está em Londres

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Às vezes, só damos importância ao que perdemos. E, sim, uma Europa de livre circulação, de estudantes Erasmus, de viagens de comboio com poucas fronteiras, um espaço onde vivemos e trabalhamos onde queremos — esta é uma Europa em que gosto de viver.

Mas esta também tem de ser uma Europa democrática e, por isso, por mais injusto que possa parecer, sim, os britânicos têm direito de fazer o que fizeram.

Agora, a verdade, como diz este triste texto, cruel como só os textos a quente podem ser, é que os eleitores tiraram algumas destas tão nossas liberdades às gerações futuras do Reino Unido. (Encontrei isto no Facebook do meu irmão Diogo e o texto está, numa versão mais composta, no blogue do autor.)

COMMENTS

Sinto isto de forma particular porque tenho amigos ingleses por cá e uma sobrinha inglesa por lá. Eu e não só, claro: somos mesmo todos um pouco europeus por estes dias. Ainda bem. Mas é por isso que este resultado dói.

Mas isto também é verdade: existe já uma quantidade imensa de ingleses jovens e menos jovens que se habituou a conviver com europeus de todos os países, que também se sentem europeus — e essas relações de proximidade que o projecto europeu ajudou a criar não morrem. E cabe-nos a nós não criar as barreiras mentais que não merecemos: que continuem as viagens, as conversas, os casamentos, a amizade…

E, já agora, digo-vos isto: a Europa de que eu gosto tem o espírito duma cidade como Londres. O Reino Unido pode sair da União, mas Londres continua a ser a capital da minha Europa.

Os segredos da língua de volta a Lisboa

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Dois meses depois da inesquecível apresentação do livro por Fernando Venâncio na Bertrand de Picoas, e a pedido de várias famílias, o livro Doze Segredos da Língua Portuguesa volta a Lisboa.

Desta vez, a apresentação será na FNAC do Vasco da Gama, esta quinta-feira, dia 23 de Junho, às 18h30. Vou estar a responder às perguntas de Pedro Gaspar, que nos últimos anos tem prestado uma particular atenção aos livros de quem vive e trabalha por estes lados da cidade.

Terei todo o gosto de falar um pouco com quem ainda não teve oportunidade de pôr as mãos no livro — ou de me pedir um rabisco.

O evento está também, como de costume, no Facebook.


knowledge-1052012_640Uma confissão muito minha: quando era mais novo, tinha um gosto especial por marcar num mapa o itinerário das viagens que fazia. Depois, muitas vezes, não cumpríamos nada do que estava planeado (e não é tão bom?), mas essa preparação era uma parte deliciosa da viagem.

Pois, aqui, faço ao contrário: deixo aqui as estradas que o livro já percorreu nos últimos dois meses.

  • Lançamento do livro na Bertrand de Picoas (21 de Abril). O livro foi apresentado por Fernando Venâncio.
  • Apresentação em Peniche (14 de Maio). O livro foi apresentado por José Monteiro.
  • Sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa (10 de Junho).
  • Lançamento galego na livraria Lila-Ciranda (16 de Junho). O livro foi apresentado por Valentim Fagim e José Ramom Pichel.
  • Sessão de autógrafos na Conferência da APTRAD, no Porto (19 de Junho).
  • Apresentação na FNAC do Vasco da Gama (23 de Junho).

E, em breve, vai ao Alentejo, a Ponte de Sor (que tem lá o seu segredo).

As memórias que não tenho: a Guerra Civil em Portugal

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Uma guerra morta?

Não sou historiador, embora a História seja uma das minhas paixões. Ora, a verdade é que esta paixão não é nada de especial: quase todos nós gostamos de saber o que aconteceu — nem que seja o que aconteceu com a nossa família. E é engraçado (digam-me lá se não é) quando as histórias que ouvimos em casa se misturam com a História que lemos nos livros ou aprendemos na escola.

Os meus avós e os meus pais foram-me passando, ao longo dos anos, as tais memórias das décadas que não vivi — quase sem querer, as conversas, os comentários às notícias, às vezes até os desabafos quando algum político aparecia na televisão, tudo isso foi uma maneira de viver esses tempos através das vozes da minha família.

É por esta razão que, para pessoas da minha idade, o 25 de Abril ainda é uma memória viva, com muitas vozes ainda entusiasmadas, outras a torcer um pouco o nariz, as músicas ainda aprendidas da boca dos pais, as discussões ainda quentes à mesa do jantar. Eu não existia, mas sei onde estava a minha mãe nesse dia, sei que teve um ataque de riso incontrolável, sei que o meu avô ficou muito sério, sei disso e posso saber um pouco mais se perguntar — o que hei-de fazer quando chegar a esse capítulo destas histórias dos meus avós.

Mas consigo ir mais longe: a minha avó ainda me falou da I República (era já uma visão de quem cresceu depois, no Estado Novo) e ainda ouvi uns zunzuns sobre o que se passou ou não passou em Fátima. O Estado Novo, claro, pesado e sério, ainda está bem presente em todos nós — e ouvi um avô (não me lembro de qual) a falar do que a mãe ou o pai dele disseram sobre o tempo dos reis.

Pois, a verdade é que há tempos já mortos nesta vida recordada nas famílias portuguesas: já não tenha vislumbre de memória de muito do que se passou no século XIX.

Basta pensar na Guerra Civil: matou tantos e tantos portugueses, desuniu famílias, foi um trauma difícil de imaginar e, hoje, já não levanta uma brisa de emoção pessoal em nós que vivemos neste país que se crê de brandos costumes. Aliás, «Portugal» e «Guerra Civil» parecem palavras que não combinam.

Já só sabemos (vagamente) o que aconteceu dos livros de História ou da literatura que lemos. Os nossos pais, os nossos avós já não se lembram de nada. (Pelo menos, os meus pais e os meus avós — a experiência de cada um de nós não vale assim tanto, bem sei.)

À laia de comparação, basta ir para lá da raia e temos uma outra Guerra Civil bem mais presente e bem mais pesada na vida do dia-a-dia. Os espanhóis da minha idade têm avós que se mataram uns aos outros…

Ora, em relação à nossa guerra, há lendas, claro. E há canções. E há os livros. E há a imaginação. Mas são memórias diferentes, mais abstractas, menos sentidas. Miguelistas, pedristas, liberais, malhados, apostólicos, o Imperador, o Mindelo, o Cerco do Porto… Tudo soa a História escrita, nada nos levanta as memórias de avós a contar histórias quando éramos novos.

E, claro, já ninguém defende, no dia-a-dia, o absolutismo — e o liberalismo do resto do século é cenários de livros, visto pelos olhos da Geração de 70.

Será assim? Será que essa guerra está morta? Talvez nem tanto. Mas antes de vos mostrar que ela reaparece onde menos se espera, deixem-me contar-vos porque me lembrei duma guerra já tão distante.

Um livro por abrir em Esposende

Lembrei-me disto por vários motivos, para começar porque estou em Esposende, numa casa alugada. Como fui à Galiza na quinta e tinha de estar no Porto no fim-de-semana, fiz uma média e calhou-me Esposende — até porque os hotéis do Porto estavam caríssimos nesta altura e eu não ia sozinho.

Pois, perto do sítio onde estou temos o monumento ao desembarque do Mindelo, que foi, na realidade, na Praia dos Ladrões — o que deve ter feito as delícias das más-línguas absolutistas. Ora, a Guerra Civil, que teve esse episódio importantíssimo tão perto donde estou, está bem presente na minha mente por estes dias por dois motivos.

Primeiro: nas últimas semanas, andei a ler as Viagens na Minha Terra. É um salutar exercício ler com muita calma as frases de Garrett; poucos, como ele, libertaram a língua. Poucos, como ele, puseram a vida na literatura e na política e misturaram tudo de forma deliciosa. Não quero exagerar, mas leio as Viagens e o português já é o meu. Ainda não encontrei um livro anterior onde sentisse esta proximidade. É algo pessoal, uma impressão, bem sei, mas é assim.

Segundo: chego à casa que aluguei para aqui ficar uns dias e tenho uns livros, daquelas edições do Círculo dos Leitores que desconfio estarem em muitas casas para enfeitar. Mas não me importo. Mais vale estar alguma coisa nas estantes do que não estar nada — e sempre pode dar-se o caso de alguém chegar a uma casa, pôr as malas no chão, e dirigir-se de imediato para esses livros antigos quase novos. Os livros são assim: alguém os compra, deixa na prateleira e, décadas depois, são abertos por outra pessoa qualquer e acabam assunto dum artigo de blogue.

Um dos livros que ali estava, à minha espera era o Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins. Pus-me a ler de imediato. Porque sim.

É uma obra espantosa: já distante dos factos que relata, é verdade, mas suficientemente próxima para ser deliciosamente parcial — e lê-se como um romance (o que para mim é um elogio).

Vejo-me, assim, numa casa de Esposende, a viver esses dias em que chega ao Porto e a Lisboa a Carta oferecida por D. Pedro, Imperador do Brasil, agora hesitante rei de Portugal, Carta essa que o Duque de Saldanha teve de impor a uma regência relutante. Tudo parte da História e, de repente, ali presente, como se um avô me estivesse a contar o que viveu…

O Porto e Lisboa em festa

O relato é magnífico. Reparem no sorriso matreiro por trás das palavras com que descreve a ingenuidade dos dias liberais antes do reinado de D. Miguel.

Comecemos no Porto, nas comemorações do Juramento da Carta… Havia poemas à Constituição — aliás, à Divinal Constituição! O passado é mesmo um país estrangeiro…

(E, já agora, atente-se na ortografia oitocentista: fui buscar a edição que está disponível na Biblioteca Nacional.)

0 JURAMENTO - OFENDIDO

4 FESTAS NO PORTO

Ora, Lisboa não ficava atrás em entusiasmos pueris…

1 FESTAS CARTA LISBOA

2 FESTAS CARTA LISBOA

Um país comovido com uma constituição (que, diga-se, viera do Brasil, trazida por um embaixador inglês). Treze meninas de azul e branco. Pombas brancas de fitas azuis nas asas! Boas esperanças optimistas…

D. Miguel, rei de Portugal

O mundo pula e avança e, dois anos depois, a mesma cidade aclamava o infante D. Miguel como rei absoluto de Portugal… É já uma cidade a ferver de touros e procissões, muito longe das pombas liberais.

6 CHEGADA DE D. MIGUEL

O clamor duma guerra. A guerra que vinha aí… O resto do livro descreve essa guerra e mais não vou dizer, porque o livro existe, está aí, magnífico, para quem quiser viver um pouco do que foi passar por uma guerra civil neste país à beira-mar plantado.

Picar os mitos dum regime aborrecido

Disse há pouco, antes deste festival de citações coladas dum livro oitocentista, que Oliveira Martins era deliciosamente parcial. O que queria eu dizer com isto? Que ele se punha ao lado dos liberais? Dos absolutistas? Parece-me tudo mais complexo: sabemos nós — e sabia ele e os seus leitores — que os liberais acabaram por vencer.

Ora, Oliveira Martins vivia nesse regime saído da Guerra Civil, embora a algumas décadas de distância. Assim, parece-me a mim que ele tem uma certa vontade de picar o balão inchado da mitologia do regime em que vivia, para que os seus heróis fundadores caíssem do altar kitsch que todos os regimes criam e aparecessem como figuras frágeis, vaidosas, fracas, demasiado humanas.

Parece-me que o historiador, na obra, quer destruir com gozo as mansas ilusões do regime burguês, numa fúria bem típica de intelectual da Geração de 70. Não que fosse, claro está, um defensor do absolutismo… Mas numa Guerra Civil não queria o autor deixar a impressão de que só um lado tinha a razão ou a força do carácter. Havia portugueses de todos os lados — portugueses dos bons e, principalmente, dos maus.

Nós, que estamos distantes disto tudo, que já não sofremos a modorra desse regime rotativo que aborrecia os desiludidos da vida (sim, temos outros sofrimentos e outras rotações, mas isso agora não vem ao caso) — dizia eu que nós, ou melhor, eu, leitor ocasional desta obra de espantar aqui perdida numa casa de Esposende, sinto alguma estranheza nesse ataque tão feroz aos liberais dessa guerra.

A Lisboa horrível do início do século XIX

Ora, agora um parêntesis. Sinto um tremor ao ler uma certa descrição horripilante que aparece no livro, uma passagem terrivelmente bem escrita que mostra um profundo desgosto pelo Portugal que está sob a lupa do escritor. A citação é longa, mas vale a pena.

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Éramos assim? Talvez. Mas Oliveira Martins carrega bem nas tintas… Note-se ainda aquilo que a nós horroriza de racista no texto; mas perdoe-se (sem deixar de registar), porque isto foi há muito tempo e o mundo, lá está, pula e avança — e às vezes até calha pular e avançar bem. (Depois, reparem que Oliveira Martins chama a Lisboa «a Nápoles de Espanha»! Se nos puséssemos a falar disto, estávamos aqui mais três horas…)


Enfim, ao procurar mais informações sobre a obra, dou com este texto de Rui Tavares, em que o historiador desespera um pouco da pintura sombria de Oliveira Martins neste livro (que Rui Tavares considera uma «recriação do Portugal liberal, de resto sempre proveitosa e mesmo viciante»):

Mas há uma pergunta que não quer calar enquanto se lê o livro: porquê? Se todos são tão mesquinhos e venais, por que raio se exilaram e regressaram, por que atravessaram oceanos e continentes para fazer uma guerra civil, por que escreveram Constituições enquanto esperavam em ilhas, sem poder combater, antecipando uma vitória que era tudo menos certa? Por que o fizeram, se eram tão mesquinhos e venais? Isto fica por explicar.

Sim: esta gente mesquinha e venal exilava-se pelas suas ideias e lutava, de armas nas mãos, pelo que entendia ser o melhor para o seu país. E escreviam constituições e criavam um regime minimamente democrático.

Talvez influenciado por esta minha visão menos aterradora da época, vejo na obra (se calhar sou mesmo só eu) uma certa ironia ao contrário (que também encontrei no fim d’Os Maias, confesso já). O que é isso de ironia ao contrário? Talvez não seja uma boa descrição… Diria que sinto, aqui e ali, em relação a essas personagens mesquinhas e fúteis, um vislumbre de salvação. Por exemplo, a certa altura, Oliveira Martins diz que D. Pedro IV era tão vaidoso e estava tão convencido que era um herói que, vai na volta, acaba por se comportar mesmo como um herói. Não me vou pôr a citar de novo (até porque não encontro a passagem e isto já vai longo), mas digamos que Oliveira Martins está-me a dizer isto: estes homens tontos eram tão maus, mas tão maus, que chegavam a ser bons.

Qual era o hino de Portugal durante a monarquia constitucional?

Bem, no meio disto tudo, já me perdi! Comecei a falar das memórias que já não temos… Perdemos os discursos inflamados, os maus poemas, os insultos, as palavras que, certamente, ainda décadas depois, ainda libertavam emoções fortes em quem tinha vivido tudo aquilo. E a música!… Nós já pouco nos lembramos das cores, dos sons, daquilo que enchia o peito desses portugueses oitocentistas, que me parecem tudo menos de brandos costumes (temos forcas, mortes, guerra sem fim).

Se quiserem ver como essa memória pessoal é muito curta (e por isso a História e a imaginação é tão importante), reparem no Hymno da Carta, o hino português de tantas e tantas décadas e que hoje já pouquíssimos conhecem:

O sangue quente das vítimas

Enfim, houve uma guerra civil, em Portugal, e não foi assim há tanto tempo. Lembrei-me dela por causa dos livros. São memórias perdidas, que servem aqui como prelúdio para essas outras memórias, que me propus contar, as memórias bem mais vividas e próximas de todo o século XX dos meus avós.

Mas antes de vos deixar, um pormenor. A certa altura, Oliveira Martins diz isto, em que compara D. Miguel a Robespierre:

8 O SANGUE DAS VÍTIMAS

Assim, num livro do século XIX que encontrei numa casa de Esposende, encontro qualquer coisa de muito importante para perceber alguns dos radicalismos de hoje em dia: essa bebedeira do sangue das vítimas, essa loucura iluminada.

E, com isso, lembrei-me da descrição de Garrett, no capítulo XV das Viagens, quando descreve o frade:

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d’ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.

Ora, aí está. Muitas ideias (não só religiosas) acabam neste extremo: não é preciso mais nada, está tudo neste ou naquele livro. Os fundamentalistas cristãos dizem que está tudo na Bíblia. Os radicais islâmicos dizem que a xaria basta como lei dos povos. E por aí fora… Esta tentação de pôr o mundo a rodar em torno dum eixo muito simples (o Livro basta!) é muito sedutora — e dela jorra o sangue de muitas vítimas. Os livros, no plural, são uma dádiva, que nos transportam, numa bela casa de Esposende, até ao século XIX. Mas o Livro, assim, com maiúscula e no singular, pode ser a coisa mais perigosa do mundo.

A guerra, afinal, ainda não acabou

Agora, por fim, volto ao início e pergunto: será que esta Guerra Civil que matou tantos portugueses, que dividiu famílias, que foi assunto de obras-primas da literatura, será que essa guerra deixou algum rasto nas emoções das famílias e de cada um dos portugueses? Será que alguém ainda liga, pessoalmente, à luta entre absolutistas e liberais? À luta dos dois irmãos, Pedro e Miguel?

Surpresa: parece que sim.

Ora, reparem nestes parágrafos do artigo da Wikipédia sobre a Guerra Civil portuguesa, que parecem escritos como argumentário miguelista:

Após a morte de D. João VI, a regência foi confiada à Infanta Isabel Maria de Bragança que nomeou D. Pedro, então Imperador do Brasil, como sucessor. Em 1826, D. Pedro aclamou-se Rei de Portugal como Pedro IV de Portugal, mas, como a constituição brasileira de 1824 impedia que governasse ambos os países, e não fazendo caso das fundacionais leis monárquicas do Reino de Portugal, abdicou um direito que não tinha um mês depois na filha D. Maria da Glória (indo também aqui contra as regras de sucessão e de abdicação), uma menina de sete anos, até esta cumprir a idade necessária para casar com D. Miguel, que, entretanto, com a perda de direitos de D. Pedro, se tinha tornado o legítimo sucessor de D. João VI.

Em abril de 1826, D. Pedro “reviu” a Constituição de 1822, e retornou [sic] ao Brasil impondo no trono a D. Maria da Glória e fazendo do seu irmão Miguel regente. D. Miguel, exilado após ter liderado duas defesas contra o ataque dos liberais, embora contra a vontade de seu pai (que temia novas tentativas dos liberais e mações que havia conseguido impor a constituição) – a Vilafrancada e a Abrilada – voltou do dito exílio e assumiu a regência em nome da sobrinha. Em 23 de Junho de 1828, depois de preparadas as condições de retirar a opressão que os liberais e maçonaria estavam a fazer, as Cortes aclamaram finalmente como legítimo sucessor D. Miguel, rei de Portugal, deixando clara perante todos a sua legitimidade como herdeiro do trono e ilegítimos todos os actos praticados por D. Pedro em relação a Portugal após a “declaração da independência” no Brasil, e com grande alegria para o Povo em geral. A base para esta decisão foram as Leis Fundamentais do Reino, conhecidas como “Côrtes de Lamego” e o costume secular, que à data se encontravam em vigor por serem as leis fundamentais de Portugal, e à luz das quais D. Pedro e os seus descendentes tinham perdido o direito à Coroa a partir do momento em que, por um lado, aquele príncipe se tornara soberano de um estado estrangeiro (Brasil) e, por outro, levantara armas contra Portugal.

Talvez esteja enganado. Mas parece-me que quem escreveu este fragmento da Wikipédia tem uma simpatia muito forte pelos miguelistas. E, se bem me lembro, ainda há anos ouvi dizer que nalgumas famílias portuguesas, descendentes da nobreza da época, esta questão está tão acesa como sempre e ainda há discussões à mesa sobre quem tinha razão: D. Pedro ou D. Miguel…

Enfim, as memórias do país são uma lagoa por onde passam correntes profundas, invisíveis para muitos, mas ainda bem quentes e muito reais noutras casas e noutras cabeças.

E por hoje tenho de ficar por aqui, que esta guerra já me ocupou uns milhares de palavras — e a paciência do meu caro leitor não é infinita. Mas, olhe, vá a Esposende que vale bem a pena. Com um livro na mão, então, é de ir e chorar por mais.

Os segredos da língua em Santiago de Compostela

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O livro Doze Segredos da Língua Portuguesa anda em digressão. Até já chegou onde eu nunca fui, mas desta vez vou com ele: a Santiago de Compostela, pois então.

Quem já leu o livro saberá que a Galiza tem um segredo só para ela e, por isso, é um grande prazer e uma honra apresentar os Doze Segredos lá bem a norte.

Assim, esta quinta-feira, pelas 20h (19h em Portugal), estarei na livraria Lilith-Ciranda. A página do evento está aqui. Vá, ponham-se à estrada: Santiago é já aqui!

Comigo, vão estar o José Ramom Pichel e o Valentim Fagim. Ainda hoje disse o José Ramom que são dois galegos duma cidade onde existe o bairro de Peniche… E o autor vem de Peniche. Está tudo ligado, é o que é!

Já agora, o Valentim fez-me uma entrevista há uns dias, que está no Portal Galego da Língua. Fica aqui um excerto, como deixa para a apresentação do livro:

Acho que me estou a repetir, mas isto é importante — é um facto indesmentível que brasileiros, galegos e portugueses falam qualquer coisa de muito próximo. Olhando para o galego, é certamente a língua mais próxima do português. Aliás, há tempos vi um mapa que tentava mostrar graficamente a proximidade lexical das várias línguas europeias, com uma linha menor ou maior conforme a distância entre cada língua — e o português e o galego eram dos poucos pares de línguas em que não conseguíamos ver linha nenhuma: a distância era mínima! (O mapa está aqui.)

No meu livro, tentei insistir nessa proximidade tanto no que toca ao galego como ao português do Brasil. Tentei dizer que o português do Brasil não nos faz mal: podemos ler livros brasileiros, podemos ver televisão em português do Brasil, podemos conversar à vontade. Não faz mal nenhum! Parece um absurdo dizer isto, porque parece óbvio, mas a verdade é que há quem tenha medo. Ora, também digo o mesmo em relação ao galego: oiçam essa língua curiosa que está aqui ao lado, oiçam os nossos vizinhos que falam de forma tão parecida com a nossa. Se fizerem isso, estarão a olhar para a história da nossa língua, porque esta nasceu entre o Norte e a Galiza. Reparem neste povo que fala qualquer coisa que tem muito de nós. Não digo que o galego e o português sejam a mesma língua (nem me compete a mim dizer tal coisa). Digo apenas que, olhando para a língua, estamos muito próximos uns dos outros. Para muitos, é uma surpresa: é como encontrar um irmão gémeo que não conhecíamos…


(Depois do evento…)

Os Doze Segredos lá foram à Galiza, e eu com eles (e ainda a Zélia, a Clara e o Simão, que isto onde vai um português, vão logo dois ou três).

Não gosto de exagerar nas palavras, mas a verdade é que a recepção de ontem, em Santiago, na livraria Lili-Ciranda, ultrapassou todas as minhas expectativas.

Muito obrigado ao José Ramom Pichel e ao Valentim Fagim, que apresentaram o livro, e a todos os que encheram a livraria. (E obrigado à Ciranda, claro!)

Foi uma sessão com muitas e boas perguntas, muito diálogo e boa disposição — e acabámos em excelente conversa e boa comida na Taberna da República do Couto Mixto, ali bem perto.

Fui tão bem recebido que mal posso esperar para voltar à Galiza. E não há-de demorar assim tanto…

O LIVRO DE VAlentim Fagim !

Escândalo: a Apple deixa de defender a pureza da língua

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Há quem abomine isto, mas paciência. A verdade é que, nas conversas informais — e nós, hoje em dia, temos conversas informais por escrito, algo que, há umas décadas, só acontecia nalgumas cartas — misturamos línguas, usamos abreviaturas, enfim, fazemos trinta por uma linha da nossa pobre língua. Aliás, das nossas pobres línguas.

Por exemplo, o meu irmão e eu falamos muitas vezes durante o dia e no meio lá vão umas quantas palavras inglesas, por vários motivos.

Também entre tradutores, é habitual ter de escrever palavras noutras línguas, nem que seja para perguntar o que a outra pessoa acha da tradução X para a frase Y.

E todos nós misturamos tudo muito mais do que imagina quem lê os textos menos informais, mais públicos, um pouco menos espontâneos.

É o fim do mundo? Claro que não. Sempre foi assim desde que há línguas em contacto umas com as outras.

Só um exemplo (e há imensos): se as obras bem pensadas e bem escritas do nosso Eça estão eivadas de palavras francesas (leiam Os Maias!), temo que uma conversa do escritor com um dos seus amigos, depois do jantar, fosse um fartote de expressões francesas, com uma ou outra frase inglesa lá pelo meio e, presumo, exclamações em espanhol. ¡Ay, caramba!

Ora, não sei se já notaram, mas os telefones não ajudam muito nesta mescla toda. Quando estamos a escrever num dos novos smartphones que por aí há, as palavras noutras línguas são corrigidas para uma qualquer palavra portuguesa. Já muito me ri à custa disto.

Às vezes, a chatice é tanta, que lá acabo por escrever uma palavra portuguesa e pronto. Os telefones até se atrevem a corrigir palavras do registo mais popular ou de calão. São uns puristas, estes nossos bichos de bolso.

Se aqueles que não gostam destas misturas sentem uma grande felicidade no seu santo coração ao verem a tecnologia a impedir barbaridades várias, a verdade é que para todos nós, pecadores da língua, esta limitação dava muito pouco jeito.

Pois a Apple, que não é burra, lá veio com a solução: escrita bilingue. Encontrei a notícia numa página sobre cultura latina dos EUA chamada Remezcla — imagino que os jornalistas da página tenham de misturar muito inglês e muito espanhol nas suas conversas e, por isso, tenham ficado bem felizes com esta notícia.

Ou seja: a nova actualização do iOS ajuda a escrever palavras em várias línguas numa mesma frase sem ter de estar a mudar constantemente a língua do teclado  — o telefone percebe o que estamos a tentar escrever e ajuda a completar as palavras em várias línguas. Hoje em dia, o telefone já nos ajuda, mas limita-se a propor palavras da língua que estiver seleccionada no momento (com algumas falhas cómicas, como todos sabemos).

Sim, a Apple deixou de proteger a pureza linguística nos seus sistemas de escrita inteligente. Por outro lado, pensou nos desejos dos falantes comuns das muitas línguas que por aí há.

O fim do mundo está próximo! Arrependei-vos!

(Obrigado ao Jorge Beleza pela sugestão de correcção: onde estava «multilingue», devia estar «bilingue». E agora está!)

Vamos lá, cambada!

Palavra perigosa: futebol.

football-1331838_640Na sua fúria de condenar o mundo — em especial o mundo dos que não são exactamente iguais a elas — algumas almas muito sérias condenam o futebol sem possibilidade de recurso. Estas condenações vêm em muitos sabores: são os salários dos jogadores que irritam, é a corrupção que é imensa, são os comentadores parciais e maus estilistas da língua. Mas acima de tudo é isto: o povo, coitadinho, que se aliena ao ver uma bola a rolar. E é tudo tão desinteressante, não é? Uns homens atrás duma bola. Que chatice! Ora, que ninguém sinta a mínima pressão para gostar deste desporto. Não gosta? Eu também não gosto de muitos desportos e não me queixo. Vejamos: salários milionários há por aí aos pontapés; corrupção também existe na política e ninguém quer acabar com a dita (giro era acabar com a corrupção). A língua? Há comentadores que lhe dão uns toques como se fosse a bola nos pés do Ronaldo. Só é preciso estar de ouvido atento e menos medroso. E a alienação? E as gentes que não desgrudam do ecrã? Aqui é que me vem ao de cima a indignação: então acham mesmo, ó senhores, que uma pessoa que gosta de futebol gosta de futebol? Haverá os obcecados — admito — mas a grande maioria de nós outros, meros espectadores dum desporto de massas (o horror, o horror!) gostamos disto e de tanto, tanto mais. E há gente para todos os gostos que vai ter o coração a bater durante o jogo de logo à tarde. Alienados? Durante aqueles minutos, é bem capaz. Mas a vida é mais do que aquilo que cada um de nós decide fazer durante 90 minutos. A vida é imensa e até inclui o futebol. A safada.

Vá, tirem lá os cachecóis das gavetas e toca de gritar!

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