Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Julho 2016 (Página 1 de 2)

Qual é o problema da palavra «dica»?

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Uma dica para o Verão…

Há pessoas que odeiam esta ou aquela palavra. Os argumentos são variados: a palavra X é uma moda irritante; ou então tem significados a mais; ou já há outra palavra com o mesmo sentido; ou é demasiado informal; ou tem origem brasileira…

Sim, aceito que cada um tenha as suas irritações. Mas fico sempre surpreendido quando descubro que uma palavra que muitos de nós usamos sem hesitação é considerada por algumas pessoas como imprópria.

Ora, hoje descobri que a palavra «dica», que usei alegremente no artigo anterior (e no título, vejam lá o desplante!), irrita algumas pessoas. Um comentador no blogue informou-me que é «calão brasileiro». Outro, no Facebook, diz-me que é um «neologismo de origem brasileira», como se isso fosse razão suficiente para não usar a palavra.

Quando lhe disse que há outras palavras relativamente recentes que todos usamos, como «pensar» (no sentido que lhe damos hoje) e «normal» (descobri isso há poucos dias no sítio do costume), o comentador respondeu-me isto: «Palavras recentes que vêm do Latim? E apanhar Pokémons?»

Tento interpretar a resposta e chego a esta conclusão: segundo o comentador, é um disparate dizer que «pensar» e «normal» são recentes. Porquê? Porque vêm do latim. (Quanto à obscura referência aos bichos imaginários, imagino que ele me esteja a tentar incluir na metade do mundo que não percebe nada de nada.)

Ora, olhemos para «normal». Talvez tenha origem latina, mas apareceu-nos através do francês e do castelhano. Da mesma forma, «dica» terá surgido da palavra «indicação», que presumo ter os seus próprios pergaminhos latinos.

Tudo palavras de remota origem latina que andaram a passear e nos chegaram vindas doutras paragens. (Ou, no caso de «pensar», mudaram de significado de forma radical.)

Assim, se aceitamos «normal» e «pensar», qual é o problema de «dica»?

Veio do Brasil. E isso é que não pode ser!

Ora, amigos, a sério, querem mesmo andar a limpar a língua e a perguntar às palavras por onde é que passaram? As palavras andam aos saltos pelas línguas. O inglês absorve palavras como uma esponja e faz ele muito bem. O espanhol também. Até o francês! O português tem em si palavras de todos os tipos e origens. Se quiserem uma língua pura, só com palavras que vieram do latim até aos nossos dias sem sair das nossas fronteiras, mais vale calarem-se, porque não vão ter palavras suficientes para viver.

Alguns dirão: ah, mas temos de aceitar qualquer modismo? Claro que não! Mas peço que não me venham mudar à força a língua que aprendi de pais e professores e encontro nos textos que leio… A palavra «dica» faz parte da minha língua, pelo menos da língua que aprendi. Se já foi um modismo, esse tempo passou há muito. Uso «dica» desde que me lembro e, naquele texto, pareceu-me uma palavra clara e directa. Ainda por cima tem a leveza que procurava.

Sim, há outras palavras com significados semelhantes. Mas não podemos ter várias tintas para compor os nossos textos? «Sugestão» tem um significado parecido, mas é um pouco mais formal. «Truque» pareceu-me demasiado forte, porque não estava a falar de técnicas assim tão desconhecidas ou inovadoras… «Dica» era a palavra certa. Outra pessoa teria escrito outro texto, claro. Mas temos de limitar a língua às palavras que cada um de nós usa?

Quem escreve todos os dias precisa de palavras diferentes para compor bons textos: palavras com vários pesos e sonoridades; palavras associadas a registos diferentes; palavras com conotações variadas… É disto que se faz a riqueza da língua. Uma vez mais vemos como o purismo — a ideia de que a língua tem de ser pura, sem palavras estrangeiras nem mudança ao longo do tempo — é um dos inimigos do bom português.

Em vez de matarmos palavras, proponho a seguinte receita para defender o bom português: ler muito, ouvir os outros com atenção e compreender que o bom uso da língua, mais do que na origem das palavras que escolhemos usar, está no estilo do texto, na clareza da exposição e na destreza no uso dos materiais ao nosso dispor. E julgo não me enganar se disser que todos temos muito a melhorar nesses aspectos. Proibir palavras não melhora a língua: é só uma perda de tempo.

O que acham desta dica?

Sete dicas para evitar erros ortográficos

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Há quem esteja convencido que escrever bem é só isto: não dar erros ortográficos.

Ah, se fosse assim tão fácil.

Mas, claro, é muito importante aprender a evitá-los. Aliás, a minha profissão também implica andar à caça desses bichos feios. E, na verdade, um texto bem escrito com erros ortográficos é como uma bela casa com a tinta a cair. Ou alguém que se veste bem mas não repara nas nódoas.

Sim, temos de limpar os textos antes de os apresentar em público.

Aqui ficam sete dicas (há muitas outras, mas estas foram as que me vieram à cabeça neste fim de tarde):

  1. A dica das dicas nisto da língua: ler muito. Ler ainda mais. Ler com atenção. A ortografia também se aprende ao ler. Aliás, é a única forma de ganhar boas bases nisto da escrita. Bem, há outra: escrever. Escrever muito. Repetir a dose durante muitos e bons anos e nunca achar que já está.
  2. Perceber que todos nós podemos dar erros. Quem acreditar no contrário está em risco de dar mais erros do que daria se tomasse uma boa dose de cautela. E tendo em conta as reacções absurdas de algumas pessoas perante os erros dos outros, há quem ande por aí convencido que o mundo se divide entre os que dão muitos erros e quem não dá nenhum. Ah, mesmo aqueles que dominam a ortografia têm horas cansadas, dedos mais rápidos do que o pensamento…
  3. Rever os nossos textos. Sim, eu sei: é óbvio. Mas se o escrevente tiver demasiada confiança em si próprio não revê coisa nenhuma. Confesso aqui, porque estas dicas também são para mim: neste blogue, já me aconteceu carregar no botão «Publicar» sem reler o texto. Arrependi-me, quase sempre. Mais vale reler. Por isso, não é demais repetir: depois de escrever, convém ler. E o melhor é deixar passar algum tempo. Se estivermos a escrever no computador, também é certo e sabido que há erros que só nos vão aparecer no papel. Por fim, sempre que possível, convém pedir a um amigo de confiança para olhar com atenção para os nossos textos. Porque os nossos próprios erros têm uma tendência enervante para serem invisíveis aos nossos olhos.
  4. Consultar obras de referência. A ortografia é uma das áreas convencionais da língua: há regras relativamente claras e estas regras vêm explicadas em prontuários e outras obras de referência. É uma questão de as ter ao pé da mão. Um outro truque: mesmo quando não temos dúvidas, é interessante folhear um livro deste tipo e descobrir pormenores da ortografia que não conhecemos.
  5. Aprender quais são os nossos erros habituais. Todos nós temos um ou outro erro em que caímos com um pouco mais frequência do que o habitual. Será boa ideia procurar esse erro nos nossos textos. Podemos criar uma lista e tê-la ao pé do computador. Mas, lá está, para isto resultar é preciso não estar convencido que isto dos erros é só com os outros.
  6. Usar o corrector ortográfico do Word. Outro conselho óbvio, eu sei. Mas já vi tanto texto que merecia uma boa varridela automática que vale a pena sublinhar o óbvio: os correctores ortográficos automáticos ajudam a detectar alguns erros. E são fáceis de usar! Querem uma dica um pouco mais estranha? Ponham o computador a ler o texto (é possível!). Alguns dos erros que são quase invisíveis aos nossos olhos são desmascarados quando nos arranham os ouvidos. Um exemplo? A falta de acento nos ii.
  7. Ligar mais aos nossos erros do que aos erros dos outros. Devemos corrigir os erros dos outros? Sim, claro: em privado e com delicadeza. Mas viver obcecado com os erros dos outros só nos deixa mais longe de melhorar o nosso próprio português. Por isso, toca a olhar com mais afinco para os textos que nos saem das mãos. Se somos exigentes e sarcásticos com os erros dos outros, sejamos ainda mais exigentes e sarcásticos com os nossos erros.

Disse no início que os erros ortográficos são um aspecto secundário da língua. Mas a verdade é que se cumprirmos estas dicas, aprendemos muito sobre aquilo que é ainda mais importante: como escrever de forma clara, como estruturar bem as frases, como criar uma voz própria, como fazer com a língua aquilo que queremos. No fundo, quem dá muitos erros ortográficos mostra que não lê muito, não revê os textos, não quer saber disso. Assim, é normal que os erros apareçam em maus textos.

Sim, é possível escrever bons textos com muitos erros, mas é raro. A verdade é que os nossos cérebros estão tão habituados a fazer a associação entre ortografia correcta e bom português que, por mais qualidade que vejamos no tecido, ligamos mais às nódoas.

E pronto: são estas as minhas dicas de hoje para evitar erros ortográficos. Quem tiver mais que se acuse…


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Hoje é o Dia Nacional da Galiza

Pois é. É hoje. Parabéns a todos os meus amigos galegos! Mal posso esperar para voltar à vossa terra.

(Como este blogue também tem muito de galego, deixo-vos os artigos em que falo da Galiza. Espero que gostem. Deixo ainda uma promessa: a de vos falar muito em breve duns quantos livros galegos que tenho na minha cabeceira. Vai valer a pena.)

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Lugo.

Qual é a palavra mais perigosa da língua portuguesa?

Mas onde é que eu tenho a cabeça? Então começo a falar de piolhos num blogue sobre a língua? Pois, hoje, tenho de voltar a falar do português. Mas andamos em época de muita preocupação: são os ataques terroristas sem fim à vista, são as eleições americanas, são os ingleses a querer aumentar o tamanho do Canal da Mancha…

Pois, neste turbilhão de notícias, entrevejo uma palavra, talvez apenas uma ideia, ou será um desejo? Seja como for, essa ideia tem um nome e esse nome é, quanto a mim, a palavra mais perigosa da nossa língua. Sei que dizer uma coisa destas é um bom exemplo do maior erro de português de todos os tempos: a hipérbole destravada. Mas, que seja! Hoje apetece-me ser destravado.

Pois bem: assim sendo, qual é a palavra mais perigosa da língua portuguesa?

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Nada de pensamentos impuros!

Ora bem. No meu concurso muito pessoal, a palavra que ganhou o prémio Palavra Mais Perigosa do Mundo 2016 é…

… rufem os tambores…

«Pureza.»

Imagino a cara dos meus caríssimos leitores: «o gajo passou-se?». Num mundo de crise económica, terrorismo global, nacionalismo galopante — acusa a pureza de ser perigosa? Que mal pode ter a pureza? Acima de tudo: a palavra mais perigosa? Que exagero mais estrambólico.

Enfim, a mais perigosa não sei. Mas parece-me mesmo que é uma palavra muito, muito perigosa — por ser tão sedutora.

Não acreditam? Bem, deixem-me então dar-vos exemplos de sítios onde tantos procuram pureza quando a pureza só faz é mal:

  • Nação. É sedutora, esta ideia de nos refugiarmos num país puro. Dá-nos a sensação que o mundo já foi bem mais simples e puro e agora é tudo uma grande confusão. A mistura, a impureza — parece um sinal dos tempos mais em que vivemos. Esta sensação, à mistura com um certo pessimismo ingénuo (havemos de falar disto), leva a movimentos políticos de retorno à nação pura (que nunca existiu). Vemos isto em tantos casos que nem vale a pena referi-los. Pronto, afinal vale, até porque há um elefante na sala: o famoso laranjinha que assombra a Casa Branca porque milhões de americanos têm saudades dum país com menos crime (quando o crime está em níveis historicamente baixos), sem imigração (quando a expulsão dos imigrantes seria um desastre para o país), sem comércio internacional (num país que sempre ganhou com esse comércio internacional). Por cá, também temos disto, claro. Vemos, por exemplo, no futebol: há quem ache que só pode defender Portugal quem nasceu em Portugal, o que me parece redutor. Para estes, o Pepe nunca deveria ter entrado na selecção. Acima de tudo, pureza! O resto que se lixe.
  • Raça. Este foi o ideal de pureza que mais estragos fez. Enquanto a ideia de nação ainda costuma permitir que qualquer pessoa se junte ao grupo, desde que aceite a sua cultura e a sua língua, no ideal de pureza racial, as pessoas ficam definidas para sempre logo à nascença. Para estes, a nossa raça mais ou menos inventada é o aspecto principal da nossa identidade, queiramos ou não queiramos. Nesta visão do mundo, as raças são identidades que devem ser defendidas. Nem vale a pena explicar por que razão isto é perigosíssimo.
  • Partidos. Na política, há quem queira ideologias puras, partidos uniformes, ideias sempre iguais. Será isso bom? Não me parece… Esta necessidade de pureza também se vê nas escolas literárias, nas disciplinas intelectuais, etc. O desejo de pureza intelectual é a melhor receita para ideias mortas, dogmáticas, irrelevantes… Aliás, o desejo de matar a discussão e deixar apenas os puros é o exacto contrário da ideia de ciência e progresso intelectual.
  • Comportamento sexual. Será que a pureza sexual é positiva? Nada tenho contra a prudência e contra a elegância (coisas muito diferentes da pureza). Menos ainda contra a educação sexual e contra o planeamento familiar. Mas a obsessão com a pureza a todo o custo parece-me ser terrível para cada um de nós e para o mundo — limita-nos a vida e leva-nos a querer controlar a vida dos outros. Ainda há anos, nos E.U.A., havia leis contra a prática de sexo oral dentro do quarto de cada um. Felizmente, foram todas eliminadas duma só vez por uma decisão sábia do Supremo Tribunal. Pois não acham que leis dessas são das coisas menos elegantes, mais taradas e menos sábias do mundo? É por estas e por outras que o horror à sexualidade diferente me parece ser fruto de obsessão pelo sexo. Deixem lá cada um com as suas manias e comportamentos impuros (entre adultos livres, qual é o mal?).
  • Religião. O que atrai muitos dos terroristas que se explodem por aí? Um ideal puro de amor a Deus e desprezo pelo mundo infecto. Lutam contra uma sociedade que querem menos depravada. Defendem aquilo que vêem como uma lei sagrada e eterna — e pura. Têm uma visão totalitária do mundo e das sociedades — que se querem puras. Aliás, os totalitários de todas as cores são assim — adoram a pureza, adoram os simplismos que impõem aos outros. Ambiguidades? Dúvidas? Diferenças? Discussão? Democracia? Nada disso é puro. É tudo complexo e muito sujo. Por isso, mais do que aceitar uma mundo complicado, alguns acabam numa explosão que os deixa de alma intacta e mártires, em direcção à eternidade. O desejo de pureza, aqui, é a perfeita incarnação do mal.

Reparem como estes campos onde a pureza se apresenta como sedutora são facetas da identidade pessoal e colectiva. Ou seja, o desejo de pureza é especialmente perigoso quando está ligado a uma qualquer identidade (nacional, religiosa…)

Não me entendam mal: percebo a necessidade de ter uma identidade forte. Em relação à nossa identidade pessoal, não acho que todos temos de ir a correr atrás de qualquer moda ou tentação que nos apareça à frente. Já as nações, é normal que mantenham rituais e mitos próprios, que ajudam a manter a comunidade forte e coesa. Também os partidos precisam de princípios básicos que unam os militantes. Digo mais: o medo da diluição não deve ser todo posto no mesmo saco do purismo exacerbado. Podemos levá-lo a sério e discuti-lo.

Mas — e este mas é  muito importante — quanto mais forte um país, um partido ou uma pessoa, menos necessidade tem de afirmar uma pureza a todo o custo.

(Já no que toca à raça, esqueçam lá isso… Excepto quando a identidade racial nasce duma história qualquer de opressão, parece-me absurdo basear a nossa identidade na proximidade superficial de cor ou aspecto.)

A necessidade de pureza a todo o custo é um sinal de extrema fragilidade. A obsessão pela pureza das identidades que descrevi acima está, muitas vezes, ligada à insegurança. Quando achamos que a nossa nação está em decadência, viramo-nos para a pureza irreal que julgamos ver no passado. Quando temos acesso a cada vez mais textos escritos, nem todos bons, achamos que a língua precisava de purificação (em vez de nos darmos ao trabalho de procurar o que é bom).

A vida pede mais descontracção, mais confiança, menos pureza, porque um certo grau de mistura é a melhor forma de garantir a força e a vitalidade de qualquer língua, qualquer nação, qualquer pessoa. E então na religião temos um caso muito óbvio em que a pureza pode ser extraordinariamente perigosa… Quando o mundo é complexo, aparece-nos a tentação de soluções simples, totalitárias, em que Deus manda viver assim ou assado desde o início do mundo, para todo o sempre. É por este caminho que algumas pessoas se tornam monstros ao serviço dum ideal muito puro. Mais vale ter dúvidas, gostar mais das pessoas concretas, do seu corpo real, aqui e agora, do que das suas almas futuras e eternas.

O desejo de pureza levado ao extremo leva ao terrorismo, ao fascismo, ao sangue dos inocentes que têm o azar de ser vistos como impuros. Solução para estas fúrias dos puros? Não tenho. Mas posso propor que respiremos fundo. Algumas gargalhadas ajudam a viver melhor. Lembrem-se que os muito, muito puros odeiam o riso.

Sabiam que os piolhos dos nossos filhos são nossos primos?

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Uma das minhas primas.

Ora, já percebi que há certos assuntos que são polémicos: se falo do acordo, é certo e sabido que vou ter gritos no blogue. Se falo do português do Brasil e de como não é uma deturpação da nossa Santa e Virginal Língua — pumba! Pancada da grossa (virtual — é o que vale). Pois descobri nos últimos dias que falar de jogos de computador também é complicado. As emoções ficam à flor da pele. Se me atrever a dizer que os jogos de computador não são um sinal do fim dos tempos, a coisa aquece. O que vale é que essa discussão é entre amigos e fica tudo bem no fim.

Pois agora quero um assunto que não seja polémico! Quero falar de qualquer coisa sem ter de me preparar para combates virtuais!

Vou falar de piolhos.

Conto-vos uma história: há uns meses, falava com uma amiga do perigo que são os piolhos nas escolas dos nossos filhos. Conversa de quem tem filhos há pouco tempo…

Perguntou a minha amiga: mas afinal, donde vêm os piolhos?

Fiquei calado, a tentar perceber que raio de pergunta era aquela.

A medo, disse: «hum, vêm dos outros piolhos…».

E ela: sim, mas esses outros piolhos aparecem donde?

Percebi que ela tinha na cabeça a ideia de que estes bichinhos surgem do nada. Que se uma pessoa tiver uma má higiene, de repente tem piolhos na cabeça e sabe-se lá mais o quê no resto do corpo. A teoria da geração espontânea está viva (mas não se recomenda).

Não foi a primeira vez que percebi isto: talvez sem que as pessoas de ciências desconfiam, quem nunca gostou muito de biologia tem ideias muito vagas sobre a origem da vida. Ainda acredita que os micróbios nascem do nada. Que a vida surge várias vezes ao longo dos tempos.

Quando alguém tem a curiosidade para aprender mais a sério donde vêm todas as formas de vida na Terra, tem uma surpresa. Os piolhos têm ADN. São fruto da evolução por selecção natural ao longo de milhões de anos. E têm a mesma origem que nós.

Somos todos primos.

Sim, pegamos num piolho e andamos para trás olhando, com os olhos da imaginação, para cada um dos seus antepassados: o pai do piolho, o avô do piolho, o bisavô do piolho… Mais uns larguíssimos milhões de milhões de gerações e chegamos a um ponto (aí há uns três milhares de milhões de anos): temos o bichinho minúsculo, uma espécie de bactéria, que deu origem a toda a vida actual na Terra.

Se fizermos o mesmo exercício connosco próprios chegamos ao mesmo sítio. O meu pai… O meu avô… O meu bisavô… E por aí fora. Se imaginarmos as fotos empilhadas dos antepassados de cada um de nós, chegamos ao mesmo bichinho. Aliás, antes de lá chegarmos, chegamos a um ponto onde temos o antepassado comum dos seres humanos e dos piolhos. Sim, os mesmos piolhos que nos arreliam as cabeças dos putos — são nossos primos muito afastados! E o mesmo é válido para tudo: até as plantas são nossas primas. As bactérias que temos nos intestinos? Primas. As baleias? Primas. Os leões? Primos? Os micróbios nas nossas mãos? Primos. As girafas? Primas. Tudo, tudo. (As árvores? Grandes primas.)

(Já agora, um pormenor: há quem diga que somos descendentes dos macacos. Não: somos primos. Nós e os macacos temos um antepassado comum. Mas, no fundo, o mesmo se aplica aos piolhos: só que esse antepassado comum viveu há muito mais tempo do que o antepassado comum dos seres humans e dos macacos.)

Desde muito cedo que me lembro de ficar maravilhado com a forma como a vida na Terra se dividiu no número espantoso de espécies que vemos à nossa volta (a culpa foi dum livro de que já falei aqui e ainda de uma professora duma disciplina insuspeita; mas fica a história para outro dia).

Mas, esta semana, lembrei-me disto porque estou a ler este livrinho maravilhoso: The Ancestor’s Tale, de Richard Dawkins. Sim, o título remete para Chaucer. Já o conteúdo remete para o início da vida: vamos acompanhando toda a sucessão de nossos antepassados, até chegarmos ao princípio. (E o princípio, como foi? Fica para depois.)

Para não me ficar por um livro em inglês, lembro que ainda há tempos vos falei de outro livro, de Jorge Buescu, que mostrava como somos todos descendentes de Afonso Henriques.

Os livros são caixinhas de surpresas que deitam por terra as ilusões de nobreza familiar e também as ideias de nobreza da espécie. Somos bichos. Mas bichos muito interessantes.

Assim sendo, mais respeitinho para com os piolhos na cabeça dos nossos filhos: eles não aparecem do nada. Vêm duma linhagem muito antiga e muito nobre… Ah, mas no fim levam com o Quitoso na mesma. Primos ou não, são um nojo.

Cinco razões para levar os jogos de computador a sério

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Há anos que tenho longas conversas com o meu irmão Diogo sobre a importância cultural dos jogos. Tenho recordações magníficas de longas conversas sobre o tema enquanto flanávamos por Cambridge. Ah, se não fosse por mais nada, os jogos de computador já valiam a pena por causa disso. Diga-se que, nessas discussões, mudei algumas vezes de opinião, o que se recomenda. Diga-se ainda que o meu irmão não é propriamente imparcial. Afinal, já ganhou um BAFTA por causa dum jogo que ajudou a criar na Sony. (Sim, acabei de cair na irresistível tentação do orgulho fraternal; espero que me perdoem!)

Ora, gostemos ou não de jogar — pessoalmente, não costumo jogar muito, só uma ou outra coisa no telemóvel e uns meses de pancada com a Wii —, o que me parece é que está na hora de considerarmos a importância cultural dos jogos de computador.

Alguns dirão: qual é a novidade? Então se já há cursos e teses sobre os jogos enquanto manifestação cultural, ainda é preciso que venha alguém dar-nos esta «novidade»? Quando milhões jogam e falam dos jogos, será assim tão difícil perceber essa importância? (Já agora, para ficarem a conhecer um académico português que se dedica ao tema, visitem a página de Nelson Zagalo.)

Outros ficarão horrorizados, habituados que estão a ver os jogos de computador como mania de jovens alienados e que não sabem pensar ou não percebem a importância das outras formas, bem mais importantes, de cultura (livros, cinema, etc.). E, no entanto, era essa a reacção perante o cinema, ainda há umas décadas.

Vejamos então cinco razões de que me lembrei para levar os jogos de computador bem a sério:

  1. O tamanho da indústria dos jogos. Podem achar que isto tem pouca importância, que a quantidade e os montantes envolvidos nada dizem sobre a importância cultural do fenómeno, mas se soubermos que é uma indústria que movimenta mais dinheiro do que o cinema, percebemos que esse tamanho é um sinal inequívoco de que isto é muito mais do que uma mania.
  2. Os jogos podem ser considerados uma forma de desporto. Sim, é verdade: o desporto é objecto de grandes elogios. Faz bem à saúde. Promove espírito de equipa (ou de competição, se necessário for). Põe-nos a correr ao ar livre. Já o desporto profissional é uma indústria imensa, que nos põe com pele de galinha quando os nossos jogam e ganham. Pois, veja-se: os jogos são uma espécie de desporto mental e, para dizer a verdade, cada vez mais físico. Pensem na Wii e pensem no novíssimo Pokémon Go. E já há campeonatos de jogos de computador — na Coreia do Sul, a maluqueira já se instalou há muito. Ah, os E.U.A. já consideram alguns jogadores como atletas.
  3. Os jogos também são uma forma de arte. Aqui começam alguns a impacientar-se, mas é verdade: tal como o cinema começou por ser uma técnica de gravação de imagens e acabou por ser uma forma de arte completíssima, os jogos juntam muito das artes anteriores, juntando-lhes a interactividade difícil de obter noutras artes. Temos personagens, temos aspectos filosóficos a considerar, temos ficção e emoções a rodos. Para quem (como eu) não conhece o fenómeno a fundo, pode ser difícil perceber como esta arte funciona, mas ela está aí. E veio para ficar.
  4. Não são o bicho-papão que alguns pensam. Há jogos violentos? Sim, claro, tal como há filmes e livros violentos. Mas isso não quer dizer nada. Há indicações fortes que os jogos fazem bem ao desenvolvimento intelectual dos jovens. E mesmo que assim não seja, a arte ou o desporto nunca precisaram de justificações utilitárias para se impor.
  5. Os jogos são viciantes. Sim, é verdade. São uma forma de arte que vicia. Assim, é normal ver essas explosões de este ou daquele jogo, como agora este Pokémon Go, que parece ter um bom efeito de pôr gente a brincar ao ar livre, em grupo, com amigos (se fosse um peddy paper, ninguém achava ridículo). Alguns ficarão pasmados a dizer: mas alguma vez jogos de Facebook ou o Pokémon Go são arte? Ora, não tomem a parte pelo todo. O cinema também é imenso e importante, mas não tem todo o mesmo valor. E, tal como nas outras artes, há fenómenos de massa, há fenómenos mais restritos e aqueles casos que juntam tudo: qualidade e quantidade (Shakespeare não era conhecido por ser um autor de poucos). Sim, daqui a 500 anos, haverá talvez um Shakespeare dos jogos nos livros de História (sim, porque os livros e tudo o que vem antes não vai desaparecer).

Como diz o meu irmão, isto não é um jogo de soma zero: a força dos jogos não tem de ser um ataque às outras manifestações culturais, tal como a televisão não acabou com a rádio. As formas de arte alimentam-se umas às outras e se esta é uma arte que também é um desporto, tanto melhor. E se um jogo movimenta milhões à procura de bichos virtuais em todo o mundo, digamos que é dessas experiências que se fazem as recordações do futuro.

Agora, gostemos ou não, a verdade é que convém mesmo levar os jogos a sério. Mais do que uma arte ou um desporto, são um canal de transmissão daquilo que quisermos: arte, informação, desporto, etc.

A brincar, a brincar, os jogos são das grandes manifestações culturais do futuro. Aliás, do presente. E até do passado, porque já há jogos que fazem parte da história da cultura.

Digo «levar a sério os jogos», mas no fundo quero dizer que devemos levar tão a brincar como o resto da cultura, do desporto e da arte. Porque a vida também é brincar um pouco connosco próprios. Brincar e jogar. À apanhada, ao futebol ou ao computador — não é assim tão diferente.

O que é a norma da língua portuguesa?

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Acabei de ler uma magnífica entrevista de Marcos Bagno, linguista brasileiro, que nos ajuda a perceber o que é a norma da língua.

Bagno distingue (citações da entrevista):

  • Norma-padrão: «É a ideia de que a língua “certa”, “boa”, “bonita” se encontra no trabalho estético dos maiores escritores do passado, os chamados “clássicos da língua”. […] A principal característica da norma-padrão é que ela não é falada nem escrita integralmente por ninguém, não corresponde a nenhum uso real da língua.»
  • Norma culta: «Diferentemente da tradição gramatical, os linguistas chamam de “norma culta” o conjunto de formas linguísticas realmente, autenticamente, comprovadamente empregadas pelos falantes classificados de “cultos”, isto é, nascidos e criados em ambiente urbano, inseridos na cultura letrada e com grau de escolaridade superior completo.»
  • Norma curta: «[…] um modelo de língua “certa” que não corresponde a nenhum uso real, nem mesmo dos escritores consagrados (desde o Romantismo, no século XIX!) e, muito menos, das pessoas cultas e letradas da época atual. Essas pessoas cultuam e tentam difundir aquilo que o linguista Carlos Alberto Faraco chama de norma “curta”, que é muito mais uma ideologia linguística (conservadora) do que um modelo de língua.»

Talvez estas três citações nos ajudem a navegar as difíceis águas das discussões sobre a língua. E talvez assim seja mais fácil perceber que os linguistas também trabalham com a norma. Só que a norma, nas mãos mais informadas desses cientistas, é um conceito mais complexo, mas também mais completo e útil, do que na boca dos cultores da tal norma curta, cheios de certezas e moralismo fora do lugar.

Para integrar as três definições acima no que temos discutidos neste blogue, os erros falsos que tanto tenho combatido são parte da «norma curta», invenções de quem acha que sabe mais português do que todos os outros. Depois, defendo aqui a «norma culta» como a forma de prestígio do português, forma esta que não é gramaticalmente mais perfeita do que as outras, mas tem uma força social muito marcada, que convém reconhecer. Esta norma culta é útil para todos os portugueses e a verdade é que se tem espalhado pelo país pela escola e pela televisão. Nunca tanta gente falou, como hoje, a norma culta do português.

Quanto à norma-padrão, tem o seu lugar como ideal e será importante para quem escreve literatura. Mas também é verdade que muita da boa literatura vai beber não à norma-padrão, mas sim à norma culta — e, mais, vai beber a todas as formas de falar português, que são material para os escritores com bom ouvido para a língua, como ela existe nos lábios de quem fala e nas mãos de quem escreve.

É por tudo isto que fico estarrecido quando oiço algumas pessoas bem-intencionadas defender uma qualquer norma curta (que termo fabuloso de Faraco!) e a clamar contra a falta de exigência destes e daqueles, quando a verdadeira exigência e o verdadeiro desafio é usar cada vez melhor a norma culta — uma norma que se quer expressiva, flexível e rica, sem os espartilhos de quem acha que a língua tem o tamanho dos seus preconceitos.

(Para terminar, sugiro que leiam a tal entrevista de Marcos Bagno. Concentra-se no português do Brasil, mas o que lá se diz é perfeitamente válido para o nosso português.)

Livro do dia | Como surgiu a Al-Qaeda?

reading-925589_1280Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível — e sempre às três da manhã!

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

Em português, A Torre do Desassossego.

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].

O turco e o seu i com pinta ou sem pinta

Os turcos estão nas bocas do mundo.

Nas notícias da tentativa de golpe, todos vimos imagens das televisões turcas, entre o horror e a dúvida sobre o que se estaria a passar.

Alguns, mais atentos, naqueles longos minutos em que tudo parecia acontecer, mas nada se conseguia perceber, talvez tenham olhado com mais atenção para as estranhas palavras turcas e percebido que se passava algo estranho com a letra i.

Mas antes de falarmos da pinta — quando olhamos para o turco escrito, há algo tão óbvio que nem reparamos: o alfabeto que usam é o nosso velho alfabeto latino. Mas nem sempre foi assim. Até aos anos 20, o alfabeto usado era o árabe.

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Kemal Atatürk

Foi Kemal Atatürk, o pai da Turquia moderna, que impôs este novo sistema gráfico, como medida de aproximação cultural ao Ocidente. Enfim, como já discutimos muitas vezes neste blogue, a ortografia também tem implicações políticas e identitárias…

Essa Turquia que se quer moderna convive com uma outra Turquia, mais religiosa e conservadora, que terá algumas saudades do Império Otomano. Erdogan, com o seu palácio excessivo e as suas derivas autoritárias, apesar de continuar a dizer-se presidente da república fundada por Atatürk, terá como modelo, provavelmente, os sultões otomanos.


Bem, falemos da pinta: a letra i, no turco, é mais complicada do que parece. A pinta do i turco é um acento: pode lá estar ou não.

Assim, o turco tem i sem pinta e i com pinta:

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O primeiro i, sem pinta, é mais difícil de ler. Se repararmos, dizemos «uuu» arredondando os lábios. Ora, se dissermos «uuu» sem arrendondar os lábios, estaremos a dizer qualquer coisa parecida com o i sem pinta do turco.

Já o i com pinta é parecido com o nosso i.

Assim, temos:

istambul

Mas:

Bandirma

Bem, com pinta ou sem pinta, com golpe ou sem golpe, confesso já que adorava ir a Istambul. Ou İstanbul.

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O Euro, o sabor da vitória e o elogio do bom falhanço

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Sim, eu sei: isto de arranjar lições depois da vitória já cansa, não é? Andamos todos a ouvir os pensadores da bola e não só: ah, isto prova isto. Depois disto vamos todos passar a ser aquilo. Agora é que vai ser. E ficamos cansados.

Porra: ganhámos. E isso chega. A festa foi bonita, pá! E pronto. Andar a pensar nisto é como filosofar sobre o amor enquanto estamos sentados na cama, no famoso cigarro pós-____.

E, diga-se, depois de Paris, percebemos que a diferença entre não ganhar a taça e ganhar a taça (ou seja, a diferença entre 2004 e 2016) é um pouco a diferença entre pedir alguém em casamento e ouvir um «não» e pedir alguém em casamento e ouvir um «sim». O nosso valor, a nossa coragem, o nosso esforço é o mesmo. Mas o resultado é tudo.

Pronto, tenho de admitir: sou daqueles que tem tendência para essas filosofias pós-vitórias. Por isso, cá vai disto.

Sim, foi uma vitória desportiva, meus caros. Mas o desporto é o palco onde as nossas identidades colectivas se mostram (é melhor assim). Ser português quer dizer muita coisa ou quase nada, mas quer dizer sem dúvida nenhuma que quando um dos jogadores com a nossa bandeira ao peito marca um golo, é como se fôssemos nós a marcar o golo. É pouco? É muito? Não sei: é bom.

Esta é uma vitória desportiva, no desporto mais importante da Europa. Por que razão é o desporto mais visto e amado pelos europeus? Não faço ideia. Mas que o é, não tenho dúvidas.

Continuando com reflexões pós-vitória-que-desta-vez-não-é-só-moral. Reparem numa coisa: nós tivemos uma sorte monumental neste Euro. Empatámos todos os jogos do grupo e passámos. Mais: os nossos amigos islandeses marcaram um golinho no último minuto do último jogo do grupo, golo esse que os islandeses não precisavam para passar, e puseram-nos, pela arte e engenho da matemática, a jogar contra a Croácia, contra a Polónia, contra o País de Gales. Boas equipas, principalmente a Croácia. Equipas simpáticas, principalmente os galeses. Mas do outro lado tínhamos o campeão do mundo, o bicampeão da Europa, a França. Todos a eliminarem-se uns aos outros até sobrar só um, para ir ter connosco a Paris.

Por isso, equipas daqueles que assustam mesmo? Só na final.

Mas que equipa! O nosso bicho-papão! A única equipa contra a qual nunca ganhamos.

E se tivesse sido outra?

Inglaterra? Easy-peasy.

Alemanha? Ainda há uns anos demos-lhes três secos. Difícil, mas não impossível.

Itália? Ah, não era fácil, mas havíamos de dar a volta nos penaltis, que eles quando chegam lá são uns coxos.

Espanha? Havíamos de dar a volta. Três vezes seguidas é demais, amigos.

Agora a França? Ui, impossível. Nem com toda a sorte do mundo. Só se for o Ronaldo num dia de sorte.

Pois, enfim, como se diz, o resto é história: o Ronaldo para o banco, o Éder para o céu. O Éder e todos nós. O que eu gostava de sublinhar é isto: foi sorte, mas foi uma sorte muito provável.

Porquê? Ora, até os comentadores da BBC fartaram-se de falar disto: Portugal vai às meias-finais muitas vezes. Já somos habitués, como se diz em bom francês.

Vão lá ver: desde 2004, tivemos 7 campeonatos a sério (mundiais e europeus). Fomos a 4 meias-finais! Mais de metade das vezes.

O que é que isto quer dizer? Quer dizer que era provável que mais cedo ou mais tarde tivéssemos sorte. Mesmo num Euro em que empatámos muito.

Isto é desvalorizar o que aconteceu? Nem pensar! Antes pelo contrário!

Ou seja: falhámos muito, mas fomos falhando cada vez melhor. Podia nunca dar-se o caso de ganharmos, é verdade. Mas, com tanto esforço ao longo de tanto tempo, era provável que conseguíssemos. Por isso, a vitória também é de todos os que tentaram e não conseguiram, porque sem eles seria muito menos provável.

Agora, podia pôr-me aqui a dizer que isto também se aplica noutras áreas da vida, da escrita ao amor, mas deixemo-nos disso.

Ganhámos! Por fim! E parece que todos estávamos lá, a levantar a taça.

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