Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Outubro 2016 (Página 1 de 2)

Crescer em várias línguas (ou como soletrar a palavra «mola»)

Ah, sim, isto é capaz de assustar aqueles que vêem a língua como uma espécie de donzela que não se dá bem com misturas. Por isso, se for um desses famosos puristas, não veja o vídeo. É bem capaz de não conseguir dormir à noite.

O protagonista do vídeo abaixo é o Quico, filho da Ana e do Telmo, que vive nos Emirados Árabes Unidos (quem costuma ler este blogue ou já andou a folhear as páginas dum certo livro é capaz de se lembrar do nome).

O Quico está a crescer entre o português de casa, o inglês da escola e algum árabe do recreio. O que é surpreendente (daquelas surpresas boas) é que quem vive em ambientes com várias línguas acaba por, em geral, saber lidar perfeitamente com estas misturas e ainda ganha genica mental, alguma criatividade e mais umas quantas vantagens (sim, também há algum esforço adicional, mas acho que ninguém se importa, verdadeiramente).

Há quem tenha medo. Há quem não confie nas capacidades dos cérebros das nossas crianças. Há quem não goste de misturas. Mas a verdade é esta: durante a infância, aprendemos bem todas as línguas em que vivemos — e se há coisa que ajuda a viver melhor num mundo como o nosso é saber falar, escrever e ler em várias línguas. O Quico, por exemplo, já se põe a traduzir o que ele próprio diz quando brinca com o Simão — e é extraordinário como as crianças nunca se atrapalham mesmo entre línguas diferentes.

E, depois, vá, um vídeo como este sempre dá para umas boas gargalhadas.

Surpresa: os estrangeiros também sentem saudades!

lisbon-768199_1280Parece que os gregos chamavam «bárbaros» aos pobres coitados que não sabiam grego. E, claro, andavam convencidos que os tais bárbaros eram gente estranha e um pouco tola. É fácil de explicar: se falavam outra língua, não deviam perceber grande coisa do mundo — pois se o mundo é tão claro em grego!

Ora, a verdade é que essa ilusão do barbarismo dos outros persiste mesmo numa época como a nossa, em que muitos já aprenderam outras línguas. É uma ilusão mais vaga, claro está: mas nota-se quando dizemos, por exemplo, que esta ou aquela palavra não tem tradução ou que há um ou outro sentimento que é exclusivo dos portugueses. Sim, estou a falar do mito da saudade, de que já aqui falei — um mito que ainda ontem um amigo facebookiano (António Chagas Dias) chamou de «ilusão de Babel». Sim, para muitas pessoas, as línguas diferentes separam-nos de forma irremediável.

Esta ilusão vai beber a uma constatação: o mundo é tão claro e directo na nossa língua e tão difícil de descrever na língua dos outros… Logo, concluímos nós sem pensar muito no caso, as outras línguas não conseguem transmitir o nosso mundo, o mundo visto pelos olhos dos Portugueses. Daí prosseguimos, felizes: há uma forma muito própria de ver e sentir o mundo que está inscrita da nossa língua. Com uma pirueta desaconselhada a cardíacos, concluímos: há sentimentos que são apenas e só dos Portugueses! Ah, valentes!

Isto, lamento dizer-vos, é uma ilusão. Uma ilusão subtil, mas uma ilusão — e acreditem que encontramos este mito nas mentes mais inteligentes e nos escritos mais profundos. Pois quantos tratados não se fizerem à volta duma palavra como «saudade»?


Vamos pôr ordem nas nossas ideias: sim, em certas frases muito raras, a palavra «saudade» é difícil de traduzir. Mas não é impossível: os tradutores pegam na frase em que a palavra aparece e traduzem a frase. Têm de escolher a melhor forma — e escolhem. Não é muito diferente do que acontece em tantos outros casos de palavras que não têm uma correspondência directa na outra língua. E a verdade é que até encontramos algumas correspondências bastante directas (como «dor», em romeno).

Como há muito tempo disse por aqui, ainda está para vir o dia em que um livro traduzido aparece com um espaço em branco e uma nota do tradutor a dizer «esta palavra não tem tradução e o caro leitor nunca irá compreendê-la pois não é português».

Isto porque qualquer que seja o sentimento que a palavra está a expressar naquela frase, não será certamente exclusivo deste canto à beira-mar. Não, os estrangeiros não têm um qualquer bloqueio físico a impedi-los de sentir esse sentimento tão humano que é a saudade.

Vá, temos de admitir: não existem sentimentos exclusivamente portugueses. O que existe, isso sim, são atalhos um pouco mais curtos para chegar ao mesmo sítio. Ou como quem diz, palavras que mais directamente nos ligam a esta ou àquela emoção.

Porque os outros não são bárbaros. Apenas falam uma língua diferente.

Os Portugueses usam cada vez menos palavras?

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Há quem insista que usamos cada vez menos palavras. Aliás, há quem insista que já só usamos 800 palavras. Noutros dias, atiram com outro valor: 500 palavras! 100 palavras! Quem dá menos?

São estes ou outros números quaisquer, inventados na hora. Quem assim fala nunca se dá ao trabalho de contar, bem a sério, as palavras que usamos. Compreendo: o trabalho não é fácil — mas, na verdade, os linguistas que se atrevem a contar encontram sempre larguíssimos milhares de termos no vocabulário de todas as gerações.

Pois não há-de ser assim? Se até o meu filho de 3 anos tem hoje bem mais que as 100 palavras que muitos dizem ser o vocabulário dos Portugueses? Não é que o meu filho seja um génio: fala como os colegas — e fala que se desunha. Os que para aí se queixam do vocabulário diminuto dos Portugueses é que não sabem escapar aos lugares-comuns da língua.

Vá, não andem por aí a insultar o vocabulário dos Portugueses. Sim, não andamos a usar milhares de palavras diferentes em todas as conversas: somos mais inteligentes do que isso — mas quando é preciso, temos milhares de palavras ao nosso dispor.

(Por outro lado, sim, o vocabulário de quem lê muito e está atento será bem maior do que o vocabulário de quem não lê nada. Mas sempre assim foi: nunca houve uma época em que os Portugueses falavam todos da mesma maneira, com um vocabulário gigantesco e comum a todos, escribas e camponeses. Aliás, é bem provável que a população portuguesa, no seu conjunto, tenha hoje um vocabulário mais rico e unificado do que antes, por via da escola, da televisão, dos contactos sociais… Mas como isso contraria uma certa ingenuidade, há quem tape os olhos e continue a acreditar num passado de Portugueses bem-falantes e de dicionário na ponta da língua.)

A língua em José Cardoso Pires

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Há pouco, numa qualquer daquelas discussões absurdas em que alguém tenta provar que esta ou aquela expressão não está correcta «porque não está e eu é que sei e quero lá saber se os grandes escritores a usaram ou não», li um argumento que me feriu pessoalmente: saber se José Cardoso Pires usou ou não determinada expressão não interessa porque ele não sabia escrever bem em português. Escrevia mal, não no sentido estético com que podemos apodar a obra dum qualquer escritor, mas no sentido rasteiro de dar muitos erros, como mau aluno da primária. Apeteceu-me dar um grito. Mas não dei. Estava a caminhar pela faculdade com o telemóvel na mão e um grito era coisa para assustar os incautos utentes da famosa esplanada.

Sim, tenho de fazer uma declaração de interesses para perceberem o choque que foi ler tal argumento. José Cardoso Pires é um dos meus escritores: andei anos às voltas com as obras dele, para uma dissertação de mestrado que foi um prazer irrepetível. Ora bem, conhecendo eu a obra do autor de trás para a frente, perante tão absurdo argumento, desvendou-se-me num relance a pobreza de espírito de muitos desses inseguros da língua — que preferem ter uma língua ali muito certinha com regras de etiqueta propaladas por este ou aquele sábio mal amanhado e desprezam a língua que lemos nos romances de José Cardoso Pires.

E que há por lá, nessas obras escritas em «mau português» (enfim)? Não tenho espaço aqui, mas abram a Balada da Praia dos Cães: lá está o português dos autos judiciais, o português de certas ruas de Lisboa, o português dos polícias à caça de pistas improváveis por esse país fora, o português dum homem a espreitar uma mulher pelo buraco da fechadura, o português irónico e ferido que não sabemos bem se é o do autor, o português que é muito mais, mas mesmo muito mais, para lá do que posso aqui dizer, do que o português de quem cumpre todas as regrazinhas encafuadas neste ou naquele compêndio cheios de pó. Quem não sabe que a língua é mais do que aquilo que está nos dicionários e gramáticas passa ao lado dos prazeres perigosos dum escritor como este. Dificilmente percebe, de facto, o que é a literatura.

Mas tudo o que disse acima vai muito além das obras de José Cardoso Pires. O romance enquanto género é um óptimo lugar para vermos esse bicho selvagem que é a língua. Disse bicho selvagem? Enganei-me. A língua da boa literatura, às vezes, são vários tigres numa luta de morte. Um esplendor que encontramos nos bons escritores, aqueles que usam bem a língua, sim senhor, mas usam também as várias linguagens que se escondem nessa mesma língua, por vezes de costas voltadas ou em lutas na lama.

José Cardoso Pires é um desses escritores e é um génio — podem discordar, claro: agora não o descartem como quem chumba um aluno da primária porque não sabe escrever bem. Sabem o que é isso? Uma visão amesquinhada da língua. Saiam cá para fora e leiam bons livros. Isso passa.

«Não há nada»: erro de português? (Nem por isso.)

cropped-typewriter-801921_1920-2.jpgDe vez em quando, lá encontro alguém que escreve coisas como «custa nada» em vez de «não custa nada» ou «há nada dentro daquela caixa» em vez de «não há nada dentro daquela caixa». São os mesmos que evitam «não há nenhum» e outras construções dessas, perfeitíssimas.

Ora, como a sintaxe natural da língua não é essa, só posso concluir isto: estas pessoas devem ter passado por algum daqueles inventores de erros que têm medo das orações em que o valor negativo se expressa com duas palavras. Se as duas palavras começam com «n», ficam em pânico. Acham que o nosso cérebro vai ler ali duas negativas e ficar confundido.

Acalmem-se. Respirem fundo. O nosso cérebro sabe perfeitamente que duas negativas dão uma positiva («não há ninguém que não ache» = «todos acham») e isso não tem nada a ver com as manias sintácticas da nossa língua, que por vezes nos obriga a usar duas palavras para construir uma oração negativa.

Não: mudar a forma como construímos orações negativas não nos obriga a pensar melhor. Mas estraga as frases de pessoas que até escrevem bem: começam a dizer «custa nada» e coisas dessas. Não há nenhuma razão para fazer tal desfeita à nossa pobre língua!

ABC do Meu Filho:
A de Aniversário

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Ora, hoje vou escrever sobre aniversários dos miúdos. Porquê? Porque o Simão está mesmo quase a fazer anos e vai ter a sua primeira festa para amigos. Não que nos anos anteriores não tivesse tido festa, mas era uma festa para a família e para os nossos amigos.

Pois, agora, no quarto aniversário, a festa é outra e é mesmo dele: foram convidados os amigos dele, da escola. E assim entramos nesse quase calvário de festas que se espalham ao longo do ano. Sim, são vinte e tal miúdos: temos assim vinte e poucas festas. Nem vale a pena pensar em fugir a esta seringa: um dos miúdos tem uma festa para a turma toda e, claro, os outros não querem deixar de ter a sua. Há que dizer que não? Porquê?

E onde fazer a festa? Em casa? Houve pais de colegas do Simão que, sim, optaram por levar os colegas todos para casa. Mas a Zélia e eu imaginámos 20 e tal miúdos aos saltos no apartamento, os livros todos rasgados no chão, o nosso gato a ter um ataque de coração e (o horror! o horror!) o fim da festa, em que todos já foram e para limpar ficámos nós — e claro que optámos por procurar outro sítio qualquer.

Um armazém cheio de festas

Não sei se já repararam, mas os aniversários das crianças transformaram-se numa verdadeira indústria: há armazéns e armazéns por essas urbes fora preparados para aguentar com várias festas em simultâneo — isto para lá doutros locais que, a certas horas, se transformam em palcos para a criançada (o Oceanário e certos museus, por exemplo). Tudo depende das idades, claro — e da carteira dos pais.

Pois bem, alguns torcem o nariz, mas a verdade é que a coisa funciona: as crianças divertem-se, há bolo e cantoria, no fim está tudo limpo e é bastante seguro… E foi assim que escolhemos uma dessas fábricas de festas, que o Simão exigiu ver para nos dizer se estava bem. Foi lá e já não queria sair. Podia ser ali. Aliás, podia ser ali todos os dias…

Cinco minutos sem timidez

O Simão já anda nisto das festas há uns meses. E há uma confissão a fazer: nem sempre ele gosta assim tanto da festa. Ou melhor, gosta, mas à distância.

Talvez ele tenha alguma coisa de tímido (como eu), mas ainda há poucas semanas lá ficou a brincar um pouco sozinho, sem se importar muito com as brincadeiras dos outros. Mesmo nas brincadeiras de conjunto, pediu-me para ir com ele. E assim vi-me a fazer um jogo de crianças em que devia andar ao pé-coxinho aos saltos por vários arcos coloridos sem pisar nenhum dos bonecos que lá tinham sido postos pela animadora. Isto, claro, com o Simão ao colo.

Os coitados dos bonecos nem sabiam o que os esperava. Só vos digo que as crianças sabem brincar melhor do que eu. A animadora da festa estava de boca aberta e lá ralhou comigo como se fosse uma criança que não sabe acertar com os pés no sítio certo… Bem, diga-se em minha defesa que os meus pés são um pouco maiores que os dos petizes.

Porquê aquela timidez? Não sei: todos temos os nossos dias. Enfim, nos últimos cinco minutos a timidez passa e agora o rapaz já não quer ir embora. Fala, gesticula, corre, brinca o suficiente para compensar as duas horas de timidez. E parece que, para ele, está bem assim: vai todo feliz para casa, depois de cinco minutos de verdadeira festa.

Prendas e rituais

As festas têm os seus rituais, claro está. O bolo, a cantoria, as prendas… Sim, as prendas são uma obsessão: eles gostam mesmo de as receber (e quem não gosta?). Mas o mais engraçado é que nas festas já notei como os miúdos também gostam muito de dar a prenda ao rei desse dia. Pois, se as crianças são habitualmente um pouco invejosas e um pouco egoístas, nesse dia aprendem esse outro prazer.

Mas voltando aos rituais: há hábitos estranhos que aparecem vá-se lá saber de onde. Ainda há umas semanas, fomos à festa do meu sobrinho Martim, num dos tais armazéns, ali mesmo ao pé do aeroporto, o que tinha o encanto de, por entre os miúdos a gritar, nos deixar ouvir, de tantos em tantos minutos, um avião a passar. Pois, percebi que entre a geração dos oito anos (pelo menos naquela escola), depois de cantarem os parabéns, o miúdo que faz anos tem de ir para baixo da mesa e gritar.

Os miúdos riem-se e batem na mesa. Os pais franzem as sobrancelhas e olham uns para os outros, para tentar perceber se aquilo será normal. E parece que é! Será porque dá sorte? Não: é mesmo porque tem de ser.

E ainda dizem que os miúdos não brincam!…

Sim, eu sei que muitos acham que as crianças andam metidas nos computadores e iPads e outros que tais e já não brincam. Enfim, isso são pessoas que vêem uma criança a brincar com um iPad durante uns minutos e acham que as crianças passam a vida toda assim.

Ora, tretas! Pelo que vejo, as crianças brincam e não é pouco. E têm tantas actividades na escola e fora da escola que às vezes até acho que mais valia estarem mais tempo sossegadas a olhar para alguma coisa — mas isto já sou eu a provocar.

Sim, os putos brincam e saltam e, às vezes, lá passam o dedo pelo telemóvel — e desarrumam as aplicações dos pais ou mandam mensagens absurdas ou, como há dias me aconteceu, atendem o telefone sem dar cavaco a ninguém.

Não acreditam que as crianças de hoje em dia também brincam? Então, basta irem a um desses armazéns de festa e vê-los aos gritos e aos saltos, a correr (menos quando têm um ou outro ataque de timidez e querem que o pai vá andar ao pé-coxinho). Ou, aliás, podem sempre ir às escolas e ver como as crianças nunca deixaram de brincar.

Fotos aos magotes…

E durante as festas, os pais fazem o quê?

Os pais põem a conversa em dia, olham (esses sim) para o telemóvel, vêem os aviões a passar, tomam café e, claro, tiram fotos sem parar. Todos tiramos tantas e tantas fotografias e, agora que não há os limites dos rolos, parece que nos perdemos num mar de gigabytes de imagens atrás de imagens. A maioria delas são terríveis: desfocadas, desenquadradas, sem lógica. Mas lá aparecem umas quantas que vale a pena imprimir e guardar.

Depois, claro, esquecemo-nos de as imprimir e temo-las apenas no telemóvel ou no computador — mas elas lá estão. Sim, sem qualidade de artista, mas a fazer-nos recordar essas festas. O Google, aliás, no programa Photos, lembra-se de vez em quando de nos mostrar as recordações das festas dos anos anteriores. E ficamos logo babados.

Digamos que as festas de aniversário, esse dia em que cada criança é o rei do mundo, são também uma espécie de marco da estrada, onde vemos como os nossos filhos mudam de ano para ano. No dia-a-dia, crescem tão devagar que nem notamos. Mas de ano a ano percebemos como tudo muda em tão pouco tempo. Eles e nós.

As festas são todas iguais?

Para alguns dos que já tiveram filhos há muito ou nunca os tiveram, estas festas são todas iguais. E, sim, parecem iguais: são crianças. Aos gritos. A brincar.

Esta aparente banalidade engana bem: acontece o mesmo com os casamentos, com os baptizados, com os funerais, com os casais aos beijos no parque, com as casas por que passamos na cidade. Acontece isto com tudo, aliás: a vida dos outros parece-nos sempre igual a todas as outras e muito banal. Pensem no casamento: haverá festa mais igual, mais banal, mais formatada? E, agora, pensem no casamento do vosso melhor amigo: terá mesmo sido assim tão banal? As festas dos nossos nunca são banais, não é verdade?

Todos nós somos banais para quem nos vê de certa maneira — tal como, para dizer a verdade, quase ninguém é verdadeiramente banal a todo o momento. E, assim, digo-vos: cada uma destas festas repetidas em doses industriais são tudo menos banais para a criança que faz anos nesse dia. Esta é a festa dele, desta pessoa irrepetível, que ainda há pouco era um bebé a chorar como todos os outros e agora já tem as suas impaciências, os seus desejos, o seu olhar único, a sua maneira de rir, de adormecer, de nos pedir alguma coisa. É já uma pessoa inteira, com defeitos e qualidades e um olhar bem vivo a aprender como é isto de viver cada dia, de perceber o mundo — e de estar com os amigos, que é coisa para nos deixar felizes durante um bom bocado.

Antigamente, os Portugueses escreviam melhor?

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De vez em quando, lá oiço alguém afirmar convicto: antigamente, os Portugueses escreviam muito melhor! E, claro, esta afirmação já vem confirmada e aprovada: «Só não vê quem não quer!»

Ora, quem tal afirma acaba por revelar uma tremenda ingenuidade.

Ingenuidade? Sim: no fundo, está a deixar-se levar por uma imagem idealizada do «português de antigamente».

Pergunto a quem está convencido que antigamente todos os portugueses escreviam bem e que, daí para cá, passaram a escrever mal: se aterrássemos num qualquer lugar do Portugal dos anos 40 ou 50, será que iríamos encontrar génios da escrita e gente que, sem dificuldade, alinhavaria textos impecáveis num qualquer caderno que lhes déssemos? E com as vírgulas todas no lugar? E com a velocidade com que hoje todos nós escrevemos nos facebooks e mensagens da nossa perdição?

Podia dar-se o caso de termos sorte. Mas se me dizem que seria fácil encontrar quem escrevesse bem numa população que não estava, na sua maioria, nas cidades e tinha profissões em que não era preciso escrever nada durante anos — é porque nunca pensaram assim tanto no país onde vivemos.

Ora, meus caros: no tal «antigamente» (seja lá isso o que for) a maior parte dos portugueses não escrevia. Ponto final. Haverá quem prefira assim: que poucos escrevam — assim sempre evitam ler textos com erros. Mas até isso é uma ingenuidade: olhamos para o passado e, de todos os textos de quem escrevia (que eram poucos), só nos lembramos do que era bom, daqueles textos que sobreviveram ao turbilhão do tempo.

É um erro de análise fácil de explicar: como a memória não é perfeita, lembramo-nos mais facilmente daquilo de que gostámos do passado — e acabamos por idealizá-lo. Depois, claro, esquecemo-nos de compensar a fortíssima tendência que os nossos cérebros têm para confirmar aquilo em que já acreditam. É por isso que os ingénuos da língua perpetuam esse optimismo do passado, julgando-o sinal de forte lucidez, e ainda sentem um certo desespero perante que não acredita neles. Pois se é tão óbvio!

Curiosamente, estes ingénuos acham que quem não partilha essa visão cor-de-rosa do passado é porque idealiza o presente — e desatam a chamar de «ingénuos» e «optimistas» quem estuda mais a fundo a língua e os seus mecanismos seculares e, por isso mesmo, não cai nessa patranha do «antigamente é que era bom».

Pois, olhem, deixem-me que vos diga: em relação ao presente, só os tolos são optimistas. Há tanto que nos separa do melhor dos mundos… Mas o optimismo em relação ao passado é mais matreiro, porque a nostalgia embriaga-nos e somos facilmente enganados pela memória, que é uma peneira que, do passado, nos dá apenas os diamantes. A lama, essa, fica escondida na aridez dos números e de alguns livros de História.

Sejamos exigentes com o presente, claro! Sejamos ainda cautelosos quanto ao futuro. Mas não sejamos ingénuos quanto ao passado: há 50 anos, muita gente não sabia escrever, muitos dos que sabiam escreviam mal (mas como não precisavam de escrever no dia-a-dia, não se via), milhões de portugueses passavam a vida sem pegar num livro, o português-padrão era desconhecido de tantas e tantas famílias — e, já agora, a língua mudava como hoje muda e os jovens também tinham os seus códigos e as suas modas.

Sim, o presente desespera-nos: há muito a fazer. Mas não ser ingénuo quanto ao português de agora não implica que tenhamos de ser ingénuos quanto ao português de antigamente. Porque essa ilusão não ajuda nada a melhorar a vida dos falantes de português.

Cinco palavras catalãs que me fazem cócegas

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Já vos disse aqui que as outras línguas ibéricas são, para mim, um estranho prazer — uma espécie de línguas secretas que nem todos vêem. Ora, os prazeres são para partilhar e, depois de alguns dias em terras catalãs, lembrei-me de vos trazer cinco palavras que me fazem cócegas nessa língua do outro lado da península.

Nit

Dizer «bona nit!» é simpático, mas para um português o estranho é ouvir um «bon dia» assim de chofre, sem nada que desmanche a ilusão que estamos a ouvir a nossa língua. Não estamos. Mas, durante aqueles segundos, parece.

Bem, avancemos então no dia. «Boa tarde» é «bona tarda». E, depois, a noite… A palavra «nit» é intrigante. Sim, estamos a caminhar até à «nuit» francesa, mas não temos nenhum «u» e estamos longe da «noite» portuguesa ou da «noche» castelhana, sempre com o «O» a lembrar-nos uma certa escuridão.

Sim, isto sou eu a delirar. A escuridão da noite não está nas palavras e sim no céu, mas o que querem? Quando oiço «nit» lembro-me de duas coisas: dum qualquer grito de alegria nocturna e ainda duns certos cavaleiros ingleses que gritavam «NIIII!».

Tardor

Não sei se me soa a Terra Média («e os cavaleiros puseram-se a caminho em direção às negras terras de Tardor») ou a qualquer coisa de tardio, ainda um pouco quente —  ou talvez me soe ao aspecto ardido das folhas castanhas no chão. Não faço ideia, mas sei que soa bem. É «outono» em catalão, mas lembra-me também o entardecer e uma certa mansidão. As outras línguas são assim: às vezes põem-nos a ver as coisas pela primeira vez.

Cap

Esta é uma estranha palavra que tanto quer dizer «cabeça», como «chefe» e ainda «cabo», «nenhum» — ou «em direcção a». E olhem que não fica por aqui.

Ou seja, «cap al cap» será «em direcção ao cabo». «No tinc cap pressa» é «não tenho nenhuma pressa». «El cap del meu cap» — «a cabeça do meu chefe».  Uma palavra bem cheia… (E espero não ter metido os pés pelas mãos com o atrevimento de escrever umas frases em catalão.)

Seny

Como nós, que temos sempre a saudade na boca quando nos falam do que é ser português, também os catalães tentam definir o seu carácter com uma ou duas palavras. Neste caso, duas: «seny» (bom senso) e «rauxa» (loucura) — uma estranha mistura que há uns anos li descrita (não sei bem onde) como alguém a tratar de negócios à varanda do hotel, mas todo nu. E se calhar com um bigode à Dali. Como sempre, estas caracterizações nacionais são perigosas, redutoras, ilusórias — o que quiserem. Mas aqui fica a tal «seny» nem que seja para vos dizer que o «ny» se lê «nh». Sim, em catalão, Catalunha escreve-se «Catalunya».

Una mica més: dona, germà, menjar, parlar, dinar, sopar, esmorzar, novel·la…

Não me consegui ficar pelas cinco… Não sei porquê, mas acho a expressão «una mica» muito engraçada (quer dizer «um pouco»). Também acho curiosa a palavra «dona» (mulher) ou «germà» (irmão) ou «menjar» (comer) ou «parlar» (falar). E estranho, estranho é dizer «dinar» para o «almoço». Já o jantar é «sopar». E o pequeno-almoço? «Esmorzar». Depois, temos ainda isto: «dona» no plural dá «dones» (mas o «e» lê-se quase como o nosso «a»). «Irmã» é «germana» e, assim, irmãs são «germanes». Ah, e «primo» é «cosí».

Para terminar, fiquem com a palavra «novel·la» (romance). Tem aquele símbolo estranho, exclusivamente catalão: assinala que os dois LL não se devem ler como o nosso «lh», mas antes como dois LL separados, um em cada sílaba. «Una novel·la excel·lent» é, por exemplo, La plaça del diamant, de Mercè Rodoreda (notem o «ç», que também existem em catalão).

Experimentem lê-la. Devagar, com a língua entre os dentes e o dedo a acompanhar as palavras, podemos ir aprendendo esta outra língua que nos faz cócegas, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante.

Fins demà!

Harry Potter e a Língua Escondida

Podia pôr aqui uma série de fotografias bonitas de Tarragona. Podia até armar grande barracada no Facebook propondo a J.K. Rowling para Prémio Nobel. Mas em vez disso, por estes dias em que discutir o que é literatura é a polémica du jour no Facebook (e ainda dizem que o pessoal não se interessa pela dita!), fica este pormenor que alguns portugueses nem notam quando passam pela Catalunha: os êxitos de vendas nas livrarias, por terras catalãs, costumam aparecer em duas versões, sejam ou não literatura como deve ser.

Primeiro exemplo… Por favor, olhem bem para as duas capas lado a lado. É um bom exemplo de como um olhar distraído nem nota as diferenças (até as editoras são diferentes).

  • Harry Potter y el legado maldito
  • Harry Potter i el llegat maleït

Um outro sucesso de vendas dos últimos anos, que nunca li (ao contrário do livro acima):

  • La chica del tren 
  • La noia del tren


E, por fim, um livro que vou procurar quando chegar a Portugal…

  • No tendréis mi odio
  • No aconseguireu el meu odi 


Não comprei este último livro porque para comprar traduções prefiro as portuguesas, claro está. Mas quanto aos livros originais, acho mesmo que devemos arriscar e, por vezes, sair das nossas fronteiras: aqui ficam dois livros que comprei, para encher as malas no regresso.

Primeiro, um livro dum blogger (Àlex Ribes) que passa o tempo a responder com humor aos desconchavos anticatalães que encontra na internet (é um livro que junta textos do seu divertido blogue Societat Anònima):

benvolgut-o-no

Que provocações? Coisas destas:

Sim, há quem tenha asco do catalão. A coisa não é fácil…

E por fim um romance que há anos quero ler. Li um outro livro do autor (El llibre de les mosques) e gostei para lá de muito. Quando acabar este Pão Negro, digo-vos o que achei:

Por curiosidade, este livro foi traduzido para castelhano: Pan negro. Porque insisto nestas correspondências? Porque me parece ser uma das melhores formas de destapar aos olhos dos portugueses essa língua escondida que é o catalão. Pode fazer confusão a um espanhol, mas a verdade é que os portugueses têm dificuldade em distinguir as várias línguas ibéricas que existem para lá da fronteira. Não é por mal! Tal como também sei que não é por mal que muitos espanhóis dificilmente compreendem o que nós, portugueses, dizemos da boca para fora, não é verdade? Falta de hábito, dum e doutro lado.

Confesso: quando viajo com outras pessoas, aponto entusiasmado para estas provas de bilinguismo. Porquê? Porque desde há muitos anos que as outras línguas de Espanha me parecem segredos escondidos à vista de quem viaja pelo país vizinho. É aquela estranheza que nos faz delirar com vestidos que ora são dourados ora são azuis: então mas não vêem que isto é outra língua? Que bona nit não é buenas noches? É que se para mim é claro, para outros parece tudo a mesma coisa. Somos mesmo diferentes uns dos outros, caramba.

tarragonaSei que muitos não partilham deste entusiasmo, mas o que querem?, cada um tem as suas pancadas.

Bem, para terminar, fiquem com um pormenor de Tarragona para aguçar o apetite… É uma surpresa, esta cidade, vão por mim. E, se cá vierem, tragam os ouvidos bem abertos. Porque os olhos, esses, vão andar espantados o dia inteiro.

As vogais desaparecidas do português 

Este vídeo está a correr a internet e é bem divertido, ajudando alunos estrangeiros da nossa língua a aprender a ler português europeu de forma mais natural:

Claro que perante uma descrição divertida e bem-feita da língua, a reacção natural de alguns comentadores portugueses é dizer que os outros portugueses, se falam assim, falam mal!

Esses comentadores acusam as pessoas que falam da maneira descrita no vídeo de serem preguiçosas. Ora, a verdade é que a grande maioria dos portugueses fala assim e há muito tempo! A verdadeira preguiça está na mente dos comentadores, que nem conseguem parar uns minutos para observar como eles próprios pronunciam as palavras.

Mas percebo as reacções: as nossas ideias sobre como pronunciamos as palavras são muito influenciadas pela imagem gráfica dessas mesmas palavras no papel. Assim, há pessoas que não reparam que os portugueses raramente lêem o «s» de final de sílaba como «s» (mas sim como «ch» ou «j») e há quem não repare que há muitas vogais que desapareceram — e que, sim, todos nós dizemos, em conversa corrente, «qu’rido» e não «querido» (entre muitos outros exemplos). Todos elidimos estas vogais de forma natural, mas muito poucos reparam no que fazem com a língua — e há quem acabe a declarar que quem fala assim fala mal, sem perceber que faz a mesmíssima coisa (e faz muito bem!).

Não é só em português que a escrita acaba por nos enganar na hora de ouvir com atenção a maneira como dizemos as palavras: tal como li comentários ao vídeo em que alguém dizia que nunca diz «qu’rido», também muitos ingleses estão convencidos que no final da palavra «doing» pronunciam um «g». Pura ilusão: o «ng» é pronunciado de forma vagamente semelhante ao nosso «nh».

Sempre houve e sempre haverá mudanças fonéticas que vão afastando a língua da escrita (que aliás nunca é uma representação perfeita dos sons). Isto acontece em todas as línguas, numas mais, noutras menos. Esse mito de que a cada letra deve corresponder um som é uma forma muito simplista de olhar para a nossa língua. Olhem para França, por exemplo. Como bem lembrou Fernando Venâncio no debate sobre o assunto no Observatório da Asneira, os franceses lêem AOÛT como U (!) — e o próprio AOÛT também já é um corte radical do AUGUSTUS latino. Será que um francês que diz AOÛT como U está a falar mal? Não: está a falar francês. Mas na lógica dos comentadores indignados do vídeo, não, um francês tinha de ler aquelas letrinhas todas…

Muita gente anda por este mundo convencida de que a maneira como se fala e escreve a sua língua representa uma decadência terrível desde o tempo em que se falava bem — tempo esse que mais não é do que uma ilusão criada pela memória muito selectiva dumas quantas leituras e conversas de há muito tempo. Convençam-se duma vez por todas: o tempo em que se falava «o português perfeito» nunca existiu.

Por isso, um português que diz no dia-a-dia [pur issu] e [‘chtou a ch’gar] está a falar bem. Quem lê as letras uma a uma e de forma artificial está a inventar um português que não existe (ou, em bom português, [izícht]). Em Portugal, ninguém lê «existe» como [êzisstê] — só que muitos estão convencidos que sim.

A língua é complicada e a ortografia não é uma questão de correspondência simplista entre sons e letras… Em vez de indignações preguiçosas, vejam o vídeo e reparem, com um sorriso nos lábios, na forma peculiar como nós transformamos as nossas letras nos sons da nossa língua.

(Só uma última nota: nada do que disse acima equivale a dizer que, num contexto formal, podemos ler tudo de qualquer maneira! Não, não, não: há dicções mais claras do que outras e todos podemos melhorar nesse ponto. Mas falar bem português de Portugal nos seus vários registos implica conhecer os fenómenos explicados no vídeo! Quem os contraria de forma consciente está a tentar inventar uma língua inexistente. Confundir boa dicção com ideias erradas sobre a fonética da nossa língua é, deixem-me dizer-vos, sintoma de preguiça — ou de indignação linguística apontada ao alvo errado. )

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