Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Mês: Novembro 2016 (Página 1 de 2)

Ponham isto na cabeça: todos nós damos erros de português!

img_0878A Rádio Comercial, no seu Facebook, publicou esta imagem com uma gralha de todo o tamanho.

É isto um erro? Sim, claro.

Será que a pessoa que escreveu isto não sabe como se escreve «oficialmente»? Pelo amor da santinha: claro que sabe!

Este erro é, de forma bastante óbvia, uma gralha. Não se trata de ignorância: trata-se de distracção pura e simples.

Quer isto dizer que não é grave? É grave, sim: a Rádio Comercial chega a milhões de pessoas. Esta gralha transmite uma imagem de descuido. Há que olhar para as imagens que publicamos.

Mas mais grave do que a distracção são as ideias falsas que andam por aí e mostraram o rabo nos comentários a esta imagem que encontrei no Facebook:

  1. «Talvez um curso de português?»
  2. «As pessoas importantes não erram… Criam figuras de estilo.»

Aqui temos dois comentários que mostram algumas ideias feitas sobre a língua. Em relação ao primeiro, a verdade é que não há curso de português que resolva o problema, porque a pessoa que escreveu aquilo sabe escrever bem a palavra. O problema foi a distracção dessa pessoa e de quem olhou (ou não olhou…) para o texto antes de publicar. A ideia feita errada é esta: se sabemos escrever bem uma palavra, vamos escrever essa palavra sempre bem. Não, não… Todos damos erros mesmo em palavras que sabemos escrever bem. O segredo está em arranjar maneiras de os apanhar a tempo…

Em relação ao segundo comentário, temos aquela ideia peregrina que escritores como José Saramago ou outros usam convenções da língua um pouco diferentes do habitual porque não sabem escrever. Como já disse há muito tempo, estes escritores sabem usar a pontuação tão bem ou melhor do que qualquer um de nós. Mas, como qualquer artista, quando estão a trabalhar na sua arte, quebram as regras — tal como os pintores também não seguem as regras camarárias quando pintam um quadro.

Agora, o preocupante é isto: o que é que isso tem a ver com a gralha da Rádio Comercial? Nada. E, infelizmente, nas discussões da língua, é habitual vermos esta mistura de alhos e bugalhos.

Mas, pronto, é verdade: convém a quem publica numa página como a da Rádio Comercial ter muito cuidado com os textos. Mas há outra coisa que também é verdade: a página de Facebook da Rádio Comercial publica imensas* imagens e textos por dia! Para percebermos se há aqui um problema real, há que fazer o trabalho de casa: ver quantos textos são publicados e quantos têm gralhas deste tipo. Não há uma pessoa que não deixe passar uma gralha de vez em quando. E também não há nenhum sistema de revisão que evite todas as gralhas. Por mais atenção que se tenha a tudo o que se publique, uma gralha como esta é praticamente inevitável — basta esperar tempo suficiente.

Pensar o contrário é uma ilusão — e é por isso que acho os comentários mais preocupantes do que o erro na imagem. Ao ler estes comentários, parece que há por aí muita gente convencida que não dá erros ou que é fácil evitar gralhas. E essa é a receita ideal para dar muitos erros e deixar passar muitas gralhas…

* Com esta do «imensas», sou bem capaz de ter por aí algumas pessoas a acusar-me de errar. Ora, também dou erros, é claro. Mas este não é um deles. Vá, contem até dez e vão dar uma volta à praia.

1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

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Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

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Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

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Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

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Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

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Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

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Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

A língua na vida real (e um restaurante numa cidade vandalizada)

dictionary-698538_640Sim, há por aí muito medo da ambiguidade. Às vezes, é justificação para atacar uma boa regra da língua portuguesa. Outras vezes, serve para atacar uma frase real porque podia ser ambígua num universo alternativo.

Vou explicar-me com um exemplo concreto: encontrei há pouco, no Facebook, quem criticasse o título «Restaurante de José Avillez no Porto vandalizado» (no Observador).

Não é o título mais elegante — atrevo-me até a chamá-lo de infeliz, coitadinho. Mas, mas… Será ambíguo? Foi esse um dos argumentos de quem criticou a frase: estava errada porque podíamos interpretá-la de duas formas distintas.

Quais? Numa primeira interpretação, foi o restaurante que foi vandalizado. Numa segunda interpretação, foi o Porto que foi vandalizado.

Só que não. Não estamos num mundo em que um jornal abra uma notícia a falar dum restaurante que por acaso existe numa cidade vandalizada.

Ou seja, a ambiguidade é formal, inventada à pressão para justificar a impressão de que o título está errado.

Ora, meus caros: não, não. Tal como dizer «a gente vai almoçar» não é ambíguo no mundo real, também aquele título não é ambíguo. Mesmo exemplos muito verdadeiros de ambiguidades reais — «O João falou com a Maria sobre o seu carro.» — dificilmente são ambíguos na vida real, vida essa em que sabemos, quase sempre, se o carro é do João ou da Maria… Aliás, tanto é assim que aquele «seu» nem lá estará, na vida real da língua. Dizemos que o João falou com a Maria sobre o carro — e ninguém fica a pensar sobre o assunto mais do que dois segundos.

Por isso, não, aquele título não é ambíguo: é só esquisito. Ah, se escrever bem fosse só caçar ambiguidades…

A saudade nos olhos da minha avó Leonor

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A semana passada, a minha avó Leonor fez 80 anos. Estivemos na festa dela, onde celebrámos essa mulher incrível, que fez tanto e passou por tanto quase sem pestanejar. Mas isso são coisas muito nossas, pouco interessarão aos leitores deste blogue. O que interessa talvez seja isto: enquanto cantávamos os parabéns, a minha avó sorria e chorava ao mesmo tempo. Tinha ali a família toda, mas faltavam alguns, ou porque estão longe ou porque já morreram. Falta o meu avô, que morreu o ano passado. Falta a minha tia, a filha mais nova da minha avó, que morreu em 2012. E faltam tantos outros, claro, a começar pelos pais. E, assim, a minha avó chorava e sorria, feliz e triste ao mesmo tempo. Ou seja, a minha avó tinha a saudade na cara, essa sensação de tristeza calorosa, uma felicidade que sente falta de si própria. Não me venham agora com esses discursos absurdos a dizer que só os portugueses sabem o que é a saudade. Isto é demasiado importante para essas tretas. Não, não, não: essa tal palavra é da nossa língua, mas há tantas palavras por esse mundo fora… E se há pessoas que não têm a nossa palavrinha para descrever o sentimento, podem escrever frases, parágrafos, livros inteiros numa qualquer língua para dizerem o que sentem — porque a saudade, essa, na verdade pertence a todos os seres humanos e faz parte das nossas vidas, dos nossos corpos, dos nossos sonhos e não se deixa apanhar por banalidades…

Mas também vos digo: em português ou noutra língua qualquer, escrevam-se os livros que se escreverem, ninguém consegue dizer exactamente o que a minha avô Leonor sentia naquele momento e o que sentíamos nós ali ao pé dela — naquele dia, naquele momento, a saudade era uma palavra só dela, porque eram as memórias dela que lhe passavam nos olhos, os abraços que deu e agora já não dá, ali a passar naquele sorriso e naquelas lágrimas.

Depois, no fim, dei-lhe um abraço e todos, ali, entre irmãos, filhos, netos e bisnetos, brincámos uns com os outros e fomos felizes durante uma tarde.

«Mais pequeno»? Mata, mata! Esfola, esfola!

Há pouco, no Facebook, encontrei alguém exasperado porque descobriu um defeito no português! Pois, o pobre do homem percebeu que, em português europeu, podemos dizer «mais pequeno» mas não podemos dizer «mais grande».

Começaram logo as almas alarmadas a tremer de medo. Isto não é lógico! Isto não pode ser! Não faltaria muito para ter ali alguém a querer proibir a expressão «mais pequeno»! Há quem ande sempre a farejar problemas na língua…

Fernando Gomes, um dos pacientes navegadores destas discussões linguísticas, propôs-se a explicar a verdadeira e complexa lógica que todos nós trazemos na cabeça:

«Mais pequeno» usa-se com o que é mensurável metricamente ou palpável, «menor» com o que não é. Repare na diferença entre «o meu filho mais pequeno» e «o meu filho menor». No primeiro caso refere-se ao tamanho, no segundo à idade. Mais exemplos: «a mesa é mais pequena», «a inteligência é menor», «o carro é mais pequeno», «a distância é menor» (uma distância é mensurável mas não é palpável).

Boa explicação (embora me pareça que a situação ainda é mais complicada), mas o pânico continuou: então se é assim com «pequeno», tem de ser assim com «grande»! E não é! Que horror! O deus da língua distraiu-se!

Ai, calma, gente! Pois, os portugueses usam o adjectivo «pequeno» de maneira diferente do adjectivo «grande». E pronto, é isto. Tenham um bom dia.

Bem, deixem-me lá dizer mais umas coisas. A regra acima descrita pelo Fernando Gomes não foi pensada por ninguém, é a que está cabeça dos falantes do português, criada ao longo dos séculos pela deriva inconsciente e incontrolável da língua. As regras da língua são muitas vezes imprevisíveis — e muito complexas. São, elas próprias, a lógica da língua. Não convém andar à procura de outras lógicas para justificar por que razão «pequeno» segue um padrão diferente de «grande» — tal como também não vale a pena procurar a razão por que «estar» é da primeira conjugação e «comer» é da segunda. As línguas são assim: imprevisíveis e bem mais complexas do que imaginamos.

A língua não é criada a régua e esquadro antes de ser usada. Tem tantas e tantas destas inconsistências, destas aparentes falta de lógica… E não há língua humana que não as tenha. Por exemplo, o verbo «ser» é irregular. É isso ilógico? Bem, se fosse eu a desenhar o português, arrumava os verbos todos e usava uma só conjugação.

Mas, felizmente, o português não foi inventado nem por mim nem pelo Manuel Germano (aquele que se confunde com o género humano). A nossa língua — como todas as línguas — é uma colecção de hábitos antigos e muito desarrumados. Se querem mesmo ajardiná-la, têm muito que fazer — e no fim conseguiram apenas perder tempo. Mais vale gastar esse tempo a aprender a língua como ela existe agora, na sua complexidade gritante, mas natural, e ainda nas suas tremendas variações, ao acomodar-se a cada região, a cada geração, a cada falante. E não é que até nos entendemos bastante bem?

Não tenham medo do português, que ele raramente morde.

O Facebook afasta-nos das pessoas que não pensam como nós?

soap-bubble-824564_1280Há uns bons anos, íamos a uma festa dum amigo e lá tínhamos um tio bonacheirão, simpático, a dizer umas piadas e a mandar umas bocas. Riamo-nos todos e, no fim, íamos embora a simpatizar com essa figura mais velha. Pois, hoje em dia, é bem possível que esse tio escreva no Facebook. E é bem possível que sejamos confrontados com as ideias dele sobre o mundo. Nem sempre ficamos muito contentes — e o mesmo dirá ele, perante as nossas ideias.

Pedi-vos para imaginar esse tio para dizer isto: não, não me parece verdade que o Facebook nos ande a encerrar em bolhas ideológicas ou a impedir o diálogo entre gente com ideias muito diferentes. O que se passa é só isto: o Facebook mostra-nos o que pensam do mundo pessoas com quem nunca nos lembraríamos de falar de política ou religião ainda há uns poucos anos.

Alguns, que viviam eles sim em bolhas de ideias sempre iguais, ficam chocados: descobriram que os seus concidadãos pensam mal, dizem coisas ofensivas e votam pior ainda. Mas será que esses que agora se chocam com o que lêem no Facebook dos «amigos» ouviam mesmo o que esses amigos virtuais diziam antes de haver Facebook? Não: simplesmente não falavam com eles e, se falassem, não falavam de certas coisas.

Parece-me a mim que o Facebook pica as bolhas onde já vivíamos, deixando-nos à vista uns dos outros — e muitas vezes não gostamos do que vemos. Mas, vá lá, pensem bem: acham mesmo que essas opiniões que vos assustam surgiram agora, do dia para a noite?

As redes sociais dão-nos de bandeja as opiniões de uma variedade de pessoas com quem, antigamente, simplesmente não conversávamos. E a verdade é que não sabemos lidar com isso. Reagimos de várias maneiras: uns acham que as opiniões são todas iguais e não se importam; outros passam a vida a disparatar e é discussão de três em pipa; outros começam a ignorar e a querer voltar para a doce bolha onde viviam antes; ainda outros tentam mudar à força as opiniões dos tios dos amigos.

É difícil navegar nestas águas tumultuosas dum mundo em que as opiniões que lemos não são apenas as das pessoas em quem confiamos ou as opiniões que já foram previamente seleccionadas por editores — um mundo em que algumas opiniões menos correctas saíram das conversas de café e de família e estão aí, à vista de todos.

Sei perfeitamente que este contacto mais frequente com as outras bolhas nos irrita, deixa-nos indignados, faz-nos cerrar fileiras… Talvez afaste pessoas que, antigamente, podiam conviver perfeitamente sem falar de política ou religião — e agora dialogam quase sem querer, porque lêem as publicações uns dos outros.

O que fazer? Bem, mesmo antes de haver Facebook já havia algumas pessoas que lidavam bem com as ideias dos outros. O que fazem essas pessoas? Ouvem os outros, não partem logo para a pedrada. Percebem que todos somos muito imperfeitos e todos temos ideias que os outros acham ofensivas. E, mesmo assim, às vezes lá partem para a luta, porque tem de ser. Será que estas pessoas existem mesmo? Não sei. Mas podemos tentar ser assim alguns minutos por dia.

Custa equilibrar a necessária tolerância (porque somos todos diferentes e não chegamos às mesmas conclusões) com a necessidade de defender as nossas ideias, pensar no mundo, não achar que tudo é igual a tudo…

Custa, mas lá nos vamos habituando — e, na verdade, aqueles que são hoje mais novos do que eu (que estão na adolescência ou nos vinte anos) já estão a crescer com esta conversa contínua e sem descanso. Talvez seja mais fácil para eles.

Só espero que eles e nós não nos esqueçamos disto: sim, as ideias dos outros às vezes deixam-nos fulos, mas também convém desconfiar um pouco das nossas próprias certezas. Se não for assim, acabamos todos nas tais bolhas novas ou antigas, que às vezes explodem com estrondo.

«Quem não sabe escrever, não sabe pensar!»

cropped-pencil-918449_1280-2.jpgÉ mais ao contrário: quem não sabe pensar bem raramente consegue alinhavar as ideias na escrita. E, enfim, quem não tem jeito para a escrita às vezes atrapalha-se no pensamento — há uma ligação, sem dúvida.

Mas esta ideia, se tem alguma coisa de verdadeiro, acaba por ser repetida como mantra e, muitas vezes, não passa de superstição: quem não sabe cumprir as regras de ortografia (importantíssimas, claro) ou mesmo as regras de etiqueta da língua (menos importantes) não sabe pensar. Ora, não é bem assim. É mais complicado do que isso.

Vejam esta imagem que apanhei no Twitter:

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Não faço ideia de que debate faz isto parte, não sei quem são os debatentes, mas tenho a certeza absoluta que usar ou não usar «de o» num contexto como o Twitter (onde temos de abreviar a ortografia não poucas vezes) não diz absolutamente nada sobre as ideias e o pensamento da pessoa ou os méritos da questão em debate (seja ela qual for).

Neste contexto, atacar um erro de português, ainda por cima no que toca a uma convenção ortográfica e não ao funcionamento sintáctico da língua, é apenas uma estratégia de debate um pouco, hum, baixa.

É humor? Talvez. É uma piada? Com certeza. Mas também mostra essa ideia da relação entre o pensamento e as convenções da língua que parece muito profunda, muito inteligente — mas que está errada. Na verdade, as regras de ortografia não nos ajudam a pensar melhor. Ajudam, sim, a mostrar que nos interessamos pela língua, que lemos muito, que levamos a escrita o suficientemente a sério para sermos levados a sério, que respeitamos as convenções que nos permitem escrever sem ruído. Agora, pensar bem? Isso é outra coisa, bem mais difícil e que nada tem a ver com «de o» ou «do».

(E, sim, eu sei que, na frase, «de o» é a forma correcta de acordo com as convenções ortográficas da nossa língua. Mas não é disso que estou a falar: estou a falar do profundo erro de pensamento que muitos exibem ao confundir convenções ortográficas muito superficiais com bom pensamento e boas ideias.)

A língua e os políticos: Bush e Obama falam mal?

barack-obama-1174489_1280Todos nos lembramos das histórias sobre o mau inglês de George W. Bush. Pois sabiam que Obama também é acusado em certos círculos de falar muito mal? Ou, pelo menos, de abusar de pronomes na primeira pessoa: «I», «me», etc. e tal…

Por cá, esta ideia de que Obama fala mal ou abusa dos pronomes nunca se espalhou. Porquê? Talvez porque Obama colhe a simpatia de muitos portugueses e não há gente interessada em achincalhá-lo em número suficiente para fazer rodar por aí este mito. Sim, eis a novidade: a nossa opinião sobre a maneira de falar deste ou daquele baseia-se em grande parte na simpatia que temos por essa pessoa.

Nisso do Bush e do Obama, os linguistas, essa gente chata, foram ver o que se passava. Quanto ao Obama, não há dúvidas: não usa o pronome «eu» de forma mais frequente do que outros políticos. Mas os seus inimigos políticos não querem saber: se ouvem dois ou três «eus», já podem declarar que o homem é egocêntrico. Sim, porque o nosso cérebro funciona assim: se estamos convencidos de alguma teoria, olhamos em primeiro lugar para aquilo que confirma essa teoria. Obama é egocêntrico? Claro: ainda agora usou o pronome «eu» duas vezes no mesmo texto. Que malandro!

Ora, é possível fazer melhor: é possível comparar a frequência de certas palavras no discurso de uma pessoa e depois comparar esse valor com a frequência dessas palavras no discurso doutras pessoas na mesma situação.

Vejam este artigo do blogue Language Log. Mark Liberman, um linguista do M.I.T., analisa um texto em que um tal de Howard Portnoy se queixa do inglês de Obama. Depois de desmontar os argumentos de Portnoy de forma rigorosa (provando que Obama não usava mais pronomes na primeira pessoa do que o seu adversário de há quatro anos), Mark Liberman diz ainda esta frase que descreve bem o desalento que muitos linguistas sentem perante a forma despreocupada como muitos atiram por aí ideias falsas sobre as línguas:

I don’t expect these facts to have any impact on Mr. Portnoy’s complaint (…), but I continue to be surprised that apparently rational adults continue to publish obvious falsehoods about well-defined numbers that are easy to check.

No caso do vocabulário dos jovens, dos erros jornalistas, do uso da língua dos portugueses em geral os números não são assim tão fáceis de verificar. Mais uma razão para termos cautela e não andarmos por aí a acusar toda a gente de não saber falar português.

E Bush? Parece que também não falava assim tão mal. Dá erros, claro, talvez até ligeiramente mais do que outros políticos mais talentosos, mas não nos podemos esquecer que qualquer um de nós teria uma colecção bem jeitosa de erros após oito anos sob escrutínio apertado dos meios de comunicação social.

Para sabermos se estamos a ver erros a mais, temos de ter em conta a quantidade de texto que estamos a analisar — e convém ainda comparar a frequência de erros da vítima com a frequência de erros dos falantes com os quais queremos compará-la.

Olhar só para os erros sem ter em conta a quantidade de texto onde esses erros aparecem é uma forma desonesta de olhar para a questão: se esperarmos tempo suficiente, é sempre possível encontrar um número razoável de erros e aproveitar esses exemplos para atirar lama à cara de qualquer um de nós. (Se alguém acha mesmo que é possível não dar erros, é porque não percebe nada disto.)

E, sim, isto de contar e comparar e pensar um pouco antes de apontar o dedo é muito complicado. Mais complicado ainda é duvidar de ideias que dão tanto jeito nas conversas de café («o Bush não sabe falar!»; «o Obama é egocêntrico!»). Tudo bem. Aceito isso. Mas, pelo menos, não se acuse de facilitismo aqueles que hesitam antes de pronunciar julgamentos definitivos sobre o uso da língua desta ou daquela personagem — e, já agora, sobre o vocabulário desta ou daquela geração e os erros desta ou daquela classe. Porque fácil, fácil é mandar bocas ou cair em discursos empolados sobre a desgraça que é a língua que se fala hoje em dia. E isto é válido para o inglês — e para o português.

As histórias de Hillary e de Trump

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Não há nada mais potente do que as histórias com que explicamos o nosso mundo.

Muitos andam a questionar-se como é possível que alguns eleitores americanos não se tenham horrorizado com aquilo que Trump dizia — até porque ele parecia estar a esforçar-se para provocar e horrorizar jornalistas, leitores de jornais e espectadores de programas de humor político (o que, cá em Portugal, inclui praticamente todos os que se interessam pela política norte-americana).

A verdade é que todas essas provocações alimentavam uma narrativa: há uma classe corrupta e depois temos este homem que diz a verdade («tell it like it is»). Trump percebeu isso. Mesmo quando, no segundo debate, elogiou a adversária (naquela última pergunta em que disse que ela era forte e determinada), usou a frase: «I tell it like it is.»

Todas as provocações alimentavam a narrativa do homem que já tem tudo e por isso pode dizer tudo.

(Já agora, uma digressão que me parece interessante. Esta mesma narrativa permitiu a Trump um feito muito curioso: ele consegue ser o candidato menos religioso que os americanos — e logo os mais religiosos dos americanos! — alguma vez se atreveram a eleger. Obama e Hillary trazem Deus à liça sempre que podem. Trump não quer saber. He tells it like it is. Com Deus ou sem Deus.)

Os jornalistas e humoristas e todos os que o atacavam pelas afirmações objectivamente pavorosas que ele ia deixando cair (o ataque a McCain pareceu-me duma deslealdade a toda a prova) também iam alimentando a narrativa: «Ah, olhem para mim a enervar os bem-pensantes! Não sou politicamente correcto! Digo as coisas como elas são!» Cada ataque a Trump era mais uma acha para a fogueira. Trump podia dizer tudo e nada. Não importava. Estava a enervar os outros. E, ainda por cima, queria reverter a decadência da América — queria voltar aos bons velhos tempos. Uma outra história muito, mas mesmo muito poderosa.

Sim: são emoções. E são emoções dos dois lados. Os democratas tinham a narrativa da primeira mulher presidente e da candidata mais preparada de sempre. Podem dizer-me: sim, mas isso são factos! Ora, sim, mas não é disso que estamos agora a falar. O que estou a sublinhar é que nesta luta de narrativas, a de Trump era mais resistente, porque se alimentava das próprias gafes do candidato — e conseguia também alimentar-se dos defeitos da adversária sempre que estes vinham à luz. Os e-mails alimentavam a narrativa de Trump e eram uma distracção do lado de Hillary. Já os defeitos de Trump alimentavam a sua própria narrativa.

Mais: Trump só precisava de fazer isto no eleitorado de alguns estados específicos. Foi o que fez, de forma mais ou menos consciente. Os estados em que a narrativa da decadência está mais presente, onde a nostalgia por um passado melhor é mais forte.

Sim, porque a eleição do presidente norte-americano não se faz contando os votos totais — se assim fosse, Hillary teria ganho (como de facto ganhou, pois teve mais votos do que Trump no cômputo geral). Não: os sítios onde a narrativa dela mais emocionava a população eram os estados que ela teria ganho de qualquer maneira, aqueles onde nenhum dos candidatos fez campanha: Nova Iorque, Califórnia e estados nas redondezas. Aqueles estados onde vivem os jornalistas. Os estados com os quais os europeus mais se identificam.

(Não vou esconder: dentro desse caldo de ideias e histórias, a possibilidade de a eleição de Hillary promover a confiança das raparigas e melhorar, por pouco que fosse, o desequilíbrio entre os sexos parecia-me importante. Mas, lá está, cada um tem as suas histórias e olha para estes concursos de determinada maneira.)

E assim a história da campanha de Hillary, para os seus apoiantes (americanos e europeus), acabou com um final absurdo. Lembro-me do Euro 2004: tudo parecia indicar, por cá, que daquela vez é que era. Parecia um filme! O país que nunca tinha ganho iria ganhar em casa. No fim, o enredo parecia absurdo. Tudo parecia aleatório. A nossa narrativa não tinha chegado ao fim natural. Nuno Markl disse-o na altura: porra, isto foi um filme em que os bons morrem no fim! Claro que os gregos não concordariam com a descrição do que se passou, mas, lá está, estas narrativas combatem-se umas às outras sem perceber que o outro lado também tem uma história a contar.

Estou a misturar coisas que não devem ser misturadas? Sim, a eleição dum presidente norte-americano é bem mais séria do que a vitória num campeonato desportivo. Mas os mecanismos mentais com que encaramos campanhas e campeonatos, o tribalismo e narrativas associadas não são assim tão diferentes — independentemente das consequências.

Há, depois, os factos. Aquilo em que podemos tentar concordar uns com os outros. Mas têm pouca força, perante a força das histórias com que interpretamos o mundo. Não estou a dizer que devemos desistir: há que insistir em olhar com mais objectividade para o mundo. Podemos tentar complicar um pouco as histórias que temos na cabeça, olhar para vários lados, procurar aquilo que nos contraria, para conseguirmos uma imagem um pouco mais completa do mundo. Podemos tentar compreender, mesmo sem concordar. Fazer isto e não perder a paixão pelas nossas ideias é complicado. Ser rigoroso e continuar a bater-se por aquilo em que acreditamos é difícil, quando temos de ter sempre em mente que podemos estar errados. Mas não há volta a dar. Ou melhor, há uma volta a dar: tentar reduzir um pouco o nível de agressividade e diminuir a distância que nos separa dos outros. Todos podemos defender ideias tentando desprezar o menos possível aqueles que não concordam connosco.

Sabem o que ajuda? Parece um pouco contraditório, mas aqui ficam as sugestões. Ler muito. Pôr várias hipóteses em cima da mesa. Testar o que pensamos. Olhar para os números e para os factos. Imaginar como é o mundo visto pelos olhos de quem não compreendemos. E, já agora, não desistir de lutar por um sistema que permita gerir todas as histórias e emoções de forma o mais pacífica possível, mesmo quando aqueles de quem gostamos perdem — depois, dentro desse sistema, podemos lutar por outros objectivos, mais concretos, o que terá de ser feito sempre num caldo de histórias, emoções e muitos enganos. Sim, estou a falar da democracia. É difícil e, às vezes, parece mais frágil que esses outros sistemas em que há uma narrativa comum e embriagante em que todos participam, queiram ou não — daquelas narrativas tremendas que, de vez em quando, acabam em grandes tragédias. Mais vale as pequenas tragédias das eleições perdidas.

Cinco prazeres de ter um livro na mão

books-985954_1280Há o prazer da leitura, claro. E da literatura, que é outra coisa. Pois hoje trago-vos cinco exemplos de prazer físico que os livros nos dão.

  1. Pegar nos livros. Sentir prazer só ao passar os dedos pelas páginas ainda fechadas. Sentir a lombada na mão. Pegar no livro e perceber o seu peso particular.
  2. Folheá-los. Passar pelas páginas… Lembrar-me do lugar exacto onde estava quando li aquele parágrafo. Recordar as emoções daquela história em particular.
  3. Cheirá-los. Era um maluquinho, eu. Conta-me a minha mãe que me punha a cheirar os livros, passando o nariz pela dobra… Menti-vos ainda agora: eu não era um maluquinho — eu sou um maluquinho.
  4. Encontrar vestígios do que éramos. Olhar para a data e local que deixámos na primeira página e sorrir um pouco. Descobrir as nossas anotações. Olhar para o que deixamos no meio das páginas. Encontrar um recibo dum restaurante onde não vamos há anos. Reler um antigo postal de Natal escrito pelos nossos amigos.
  5. Tirá-los das estantes, encostá-los uns aos outros, desarrumar e voltar a arrumar. Criar pilhas, desfazê-las e pegar num outro livro, ao calhar da sorte.

Os livros que lemos e guardamos são uma espécie de pedrinhas que vamos deixando na floresta, ajudando-nos a voltar atrás no tempo e perceber como éramos e como somos agora. E são, quase todos, objectos bonitos e apetitosos.

E ainda nem falei do maior prazer de todos: lê-los, por fim.

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