Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Dezembro 2016 (Página 1 de 2)

A felicidade nos pés do Éder (e na cama numa manhã de domingo)

Esqueçam as previsões: tanto quanto sei, 2017 pode correr de tantas formas que nem vale a pena andar por aí a sofrer. Há-de morrer gente famosa, vão acontecer mais coisas do que imagina a mente humana e o mundo, quanto sei, até pode acabar. Bem, pelo menos que dure mais um dia para não estragar a festa de mais logo à noite.

E 2016? Há duas narrativas: correu mal ao mundo, mas correu bem a cada um de nós (é o que mais oico por aí). Não me vou pôr a fazer esse tipo de avaliações. Não sei se o ano me correu bem: houve coisas muito boas e coisas muito más e, no meio, o assim-assim em que passamos os dias.

Quanto ao mundo… Bem, se olharmos para os títulos das notícias o mundo já devia ter acabado. Mas só os ingénuos acham que o estado do mundo se vê nas notícias. Os títulos dos jornais dizem pouco sobre o estado do mundo e muito sobre o estado das nossas excitações. O mundo está mal? Com certeza que está. Pior do que em 2015? Tenho dúvidas.

Bem, deixemos isso. Pensemos antes nos momentos de felicidade, que é coisa mais concreta e definida. Há muita coisa que nos traz felicidade: as horas com um livro na mão, uma canção ouvida ao adormecer, um bom filme. E a felicidade complicada e difícil que as outras pessoas nos trazem. Lembro-me de ter lido numa tarde de Agosto, enquanto o meu filho brincava com os primos e eu estava deitado com a Zélia num relvado no Parque da Serafina e encontrei um parágrafo do livro Soldados de Salamina, de Javier Cercas, que não posso citar por não o ter comigo, mas em que Miralles recordava os amigos mortos na II Guerra dizendo que nunca saberão a felicidade que é ter o filho de três anos a chegar ao quarto de manhã e dormir mais um pouco ao pé dos pais. Naquela tarde de sol, enquanto o meu filho brincava ali, aquele livro triste deu-me uma felicidade imensa. E pronto, depois há a felicidade dos beijos e do calor do corpo e da alegria matreira daquilo que se faz e não se diz. Misturo muito as coisas? A nossa vida é uma grande salganhada.

(Lembrei-me agora: de certeza que a citação dos Soldados de Salamina está por aí. Fui ao Google e lá está este arremedo quase lamechas num livro muito pouco sentimental e muito bom:

«Desde que terminó la guerra no ha pasado un solo día sin que piense en ellos. Eran tan jóvenes… Murieron todos. Todos muertos. Muertos. Muertos. Todos. Ninguno probó las cosas buenas de la vida: ninguno tuvo una mujer para él solo, ninguno conoció la maravilla de tener un hijo y de que su hijo, con tres o cuatro años, se metiera en su cama, entre su mujer y él, un domingo por la mañana, en una habitación con mucho sol…»)

A felicidade nos livros, na música, nas pessoas… — e nos pés do Éder. Sim, tudo isto foi desculpa para chegar àquele momento de felicidade inesperada, aleatória, inútil e saborosa que 2016 nos deu: o golo do Éder e, mais ainda, o apito final do árbitro nessa final.

Sim, aquele golo e aquela história que ali encaixava, o país que esperou 12 anos para ganhar aquilo que uns gregos lhe roubaram, foram um momento de felicidade para milhões. Muitos reclamam que não é felicidade como deve ser, que futebol é só futebol, que… mas o que querem? Lembro-me desse momento em que o árbitro apitou para o fim do jogo e eu e a Zélia saltávamos como crianças, com o Simão a perguntar o que foi o que foi e não vou ser capaz de deixar 2016 sem um sorriso. Houve felicidades maiores neste ano de memória incerta? Claro que sim. Mas daquelas que se partilham e que nos mandam para a rua gritar, esta foi a maior.

O Éder e a felicidade em bruto… Não é a maior felicidade do mundo, mas é uma felicidade despida, sem mas nem meio mas. Sim, não fizemos nada para a merecer, desaparece num instante, mas foi capaz de, ali durante dez minutos, pôr adversários aos saltos juntos, casais desavindos aos beijos, um pedreiro e um ministro a rir felizes e juntos, os portugueses quase todos aos saltos porque um homem feliz marcou um golo ao calhas — e tudo isso ainda nos deixa um sorriso nos lábios quando nos lembramos. Tem lógica? Não. Mas é tão bom!

Bem, desejo-vos muitos pontapés do Éder para 2017. (E se o mundo acabar, paciência.)

O meu filho disse um palavrão — e agora?

(Deixem-me deixar aqui um aviso para ninguém apanhar um susto: este artigo contém um palavrão.)

Sempre a querer saber o que o rapaz anda a aprender, perguntei ao Simão se lá na escola já tinha ouvido palavras feias. E ele disse que sim: chichi, cocó, pilinha, pipi, totó. Ora, cá estão eles todos, vários palavrões em semente: os fluidos corporais, os órgãos sexuais, os insultos. Mas do chichi ao totó, não vi ali nada para atrapalhar os pais em público. Suspirei fundo, aliviado.

Pois bem, pior foi ontem quando ele disse:

— Pai, queres ouvir uma palavra feia?

— Diz lá — e fiquei à espera dum totó, dum pipi, dum chichi.

Vai ele e diz, inocente, «puta».

Eu de olhos arregalados fiz-lhe esta pergunta inteligentíssima: «hã?»

Lá me compus e informei com cara séria que a palavra é muito feia e não se pode dizer. E ele, a sorrir sem mal, pergunta simplesmente: «qual palavra?»

Já estava noutra.

E pronto, pensei. Tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo, e podia ser pior. Mas lembrei-me então de como os palavrões são engraçados. Temos de fazer cara feia e ralhar. Mas todos sabemos que ninguém deixa de mandar um bom palavrão mais tarde ou mais cedo — e que, aliás, até aliviam! (Já por aqui falámos disso, lembram-se?)

Ou seja, nenhum de nós acredita que os palavrões fazem mal, mas ralhamos com os filhos quando eles se descaem com um — os palavrões dizem-se, mas não se podem dizer. Não se podem dizer, mas dizem-se…

Uma vírgula de Saramago na nossa cama

(A fonte da foto é este site.)

Já que estou em blogue alheio, convém dizer que me chamo Rita. E fui com o meu novo namorado passar um fim-de-semana de Natal para outras paragens que não a consoada e prendas e putos e outros cansaços.

Sim, sou assim, o que querem? Os meus pais não se importam e eu muito menos. Já o Daniel, coitado, teve de suar muito para justificar aos pais a ausência na mesa de Natal, mas também sei que não ia perder a oportunidade de passar três dias comigo numa casa perdida lá no meio da Serra da Estrela. Uma cama, uma banheira no quarto e muita neve a impedir-nos de sair de lá. Namoramos há menos de três meses: não há quem resista.

Ora, chegámos, estacionámos, percorremos os poucos metros do carro à casa com as malas na mão, a neve a atrapalhar-nos os movimentos, o cansaço da viagem de cinco horas no corpo. Abrimos a porta, ficámos de boca aberta: era o que queríamos, só que melhor ainda. Nem despimos o casaco e já estávamos embrulhados na cama a rir e depois o que se sabe. Uma bela consoada antecipada — ainda eram seis da tarde.

Bem, pouco depois, a lareira acesa, a neve a cair lá fora, dois copos de champanhe na mão, os lençóis espalhados e nós nus a conversar, começou a dar-nos uma moleza natalícia e ele pôs-se a ler o Facebook. Decidi levantar-me para ir buscar qualquer coisa para ler.

— Raios, esqueci-me do livro…

— Qual livro?

— O livro que estou a ler: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como é Natal…

Ele não se riu e tive aí o primeiro pressentimento de que alguma coisa podia correr mal. O que ele fez foi puxar-me para ele e dizer, bem-disposto, que nunca lera o Saramago e também não era agora que ia começar — porquê? Porque se recusava a ler escritores que não usam bem a pontuação.

Eu travei de imediato, a meio caminho do colo dele.

— Explica lá isso melhor…

Não me digas, pensei eu para comigo, que este mânfio é daqueles que acha que o Saramago não usava pontuação.

— Então, é o que todos sabemos: o Saramago não usava vírgulas. E elas estão lá para ser usadas! Nunca gostei dessa ideia de os escritores mandarem às malvas as regras do português…

Fiquei em choque e comecei a vestir-me de imediato. Fui dizendo enquanto abotoava a camisa:

— Tu achas mesmo que o Saramago não usava vírgulas?

Ele riu-se:

— Claro! Toda a gente sabe! Ele é conhecido por isso mesmo! Mas estás a vestir-te porquê?

— Não, não é conhecido por isso mesmo. É conhecido por ter sido um dos melhores escritores do século passado. Vou repetir devagarinho… — disse eu enquanto vestia as calças. — O Saramago não usava vírgulas?

— Claro que não!

— Mas tu já abriste algum livro dele?

— Sim, na escola, o Memorial do Convento ou lá o que era… Não havia lá vírgulas, pelo menos na minha edição.

— Olha, posso dizer-te que já li os livros todos dele e sempre encontrei muitas vírgulas e muitos pontos…

— Não inventes! Queres agora convencer-me que o Saramago usava vírgulas? É que toda a gente sabe…

— Lá estás tu e o «toda a gente». Então tu abriste o Memorial durante dois minutos na Secundária e achas que eu, que estou neste momento a ler um livro do homem, não reparei que ele não usa vírgulas? É isso?

— Pois não sei, se calhar não viste bem. É que toda a gente sabe que ele não usa vírgulas!

— Toda a gente sabe o car****!

Ele ficou embatucado. Tentou aproximar-se, amaciar-me com palavras com muitas reticências, mas eu não estava para aí virada. Comecei à procura da chave do carro.

— Aonde vais, amor?

— Vou a casa buscar o livro para te mostrar as vírgulas do Saramago.

— A tua casa? Em Évora?

— Sim, claro, é onde está o livro.

— E eu?

— Podes ficar à espera, se quiseres. Diverte-te muito, tens aí a banheira, a cama, a lareira…

— Vais estragar o Natal por causa duma vírgula?

— Sim — e abri a porta onde se via muita neve e muito frio.

— Ouve, tudo bem, se tu dizes que há vírgulas nos livros de Saramago, eu acredito!

Olhei para ele e olhei para a neve. Apetecia-me muito dar-lhe uma lição. Mas também me apetecia muito estar à lareira. Suspirei, virei-me para ele, e disse:

— Muito bem, mas então faz o seguinte: compra aí um livro de Saramago para o iPhone para eu te espetar a vírgula na cara, pode ser?

— Ficas cá se eu fizer isso?

— Sim.

O rapaz correu para o telemóvel e desatou à procura. Encontrou e descarregou, enquanto murmurava «só me faltava passar o Natal a comprar livros de Saramago». Eu fiz-lhe olhos maus, peguei no telemóvel, abri na primeira página e enfiei-lhe o ecrã nos olhos:

— Estás a ver as vírgulas ou não?

— Sim, estou. Mas se calhar é desta edição. Puseram as vírgulas depois.

— Mau, queres que eu vá mesmo a Évora e ficas a chuchar no dedo?

— Não, não… Mas deixa lá ver outro.

Descarregou O Ano da Morte de Ricardo Reis, folheou o ecrã e a certa altura encontrou uma coisa que lhe deixou um sorriso na cara:

— Estás a ver: que história é esta de maiúscula a seguir a uma vírgula?

— Ora, meu caro, isso são questões de estilo. É só uma pequena adaptação das convenções ortográficas para sublinhar a oralidade do relato…

— Estilo? Estilo? É por estas e por outras que odeio o Saramago…

— Odeias o Saramago? Mas porquê? Por causa das maiúsculas a seguir às vírgulas?

— Não: por não respeitar as regras do português, por exemplo.

Eu abri muito os olhos:

— Ora, pedir para os escritores seguirem estas convenções do diálogo é o mesmo que obrigar o Picasso a ir à Câmara Municipal perguntar quais são os tipos de tinta autorizados para os seus quadros…

— Mau! Mas então achas que as regras da língua são como as regras camarárias?

— E tu achas mesmo que isso são as regras de português que realmente importam? Saramago sabia muito bem as regras da língua e podia dar-lhes a volta exactamente porque as conhecia de trás para a frente.

— Conversa da treta. Irrita-me essa mania dos escritores de fazerem o que querem com a língua!

— Pois, isso é verdade: os escritores fazem o que querem com a língua. Pelo menos os bons.

Calámo-nos então e fizemos, o resto da noite, o que quisemos.

[Histórias]

Quem quer casar com um homem tão pesado?

Meu amor, agora que estamos a pensar em casar tenho de te revelar o mais pesado dos meus segredos. Está ali guardado na cave dos meus pais.

Não vai ser fácil. Mas tens de saber isto se queres mesmo casar comigo.

Vem, dá-me a mão, desce as escadas. Prepara-te. Vou acender a luz.

Aqui está.

Quando tivermos uma casa vamos ter de enfiar lá estes 2562 livros (em breve 2565, pois amanhã vou às compras). São muitos? São. Mas não faças essa cara, isto é assim mesmo, cada pessoa tem o seu passado, o seu peso, os seus caixotes. Há homens com bagagem, eu tenho uma biblioteca. Sim, estas pilhas de livros espalhadas pelo chão são uma biblioteca. Há aqui uma organização invisível, que segue alguns caminhos que nem a ti posso confessar.

Sim, é este o meu segredo. Querias o quê? Um cadáver escondido na cave? Máquinas de tortura? Andas a ler demasiados livros. Tenho aqui uns quantos romances sobre pessoas que lêem livros a mais — lêem-nos mal ou lêem os livros errados. Ah pois é, fica a saber que isto dos livros não é só comprar e ler. Alguns compram-se e não se lêem. Alguns lêem-se pela metade ou a começar pelo fim. Outros compram-se, lêem-se e queimam-se com prazer. (Olha, tens aqui Los mares del Sur. Lê e não queimes.)

Já que estamos numa de revelações, tens de saber que esta biblioteca que aqui tens cresce sem parar. E se me sair a sorte grande ou me tornar rico, esquece as férias nas Caraíbas, esquece o Mercedes, esquece isso tudo: vou mas é gastar o dinheiro em mais livros e numa casa que dê para os livros.

Tens de perceber o que está aqui: olha-me este livro todo riscado, uma edição de bolso da Penguin do Pride and Prejudice. Li isto no quarto ano da faculdade, no apartamento de Benfica onde nunca foste e, em certas tardes, sozinho a andar pelas ruas de Lisboa, a tentar perceber o mundo e as mulheres através da Jane Austen. Sim, eu sei, é ridículo. É uma verdade universalmente reconhecida que um gajo de óculos a ler Jane Austen no meio da rua não percebe grande coisa nem da vida nem das raparigas. Adiante.

Aqui este The Alexandria Quartet li-o há uns cinco anos, em Madrid, ainda namorava com a Carolina. Sim, a Carolina. Já sei que não gostas dela, mas o que queres?, aquela viagem foi importante e aqui está, na biblioteca que te há-de acompanhar para o resto da vida, na saúde e na doença, na sala de estar e nos carros das mudanças.

Nessa viagem, a Carolina e eu ficámos num hotel na Gran Vía, com uma piscina lá em cima donde se via a cidade inteira. Lembro-me de estar a ler e ela a nadar à minha frente, enquanto eu vagueava por uma Alexandria de delírio.

A certa altura, a Carolina veio deitar-se ao sol e lembro-me dos exactos movimentos dela, bem mais perto do que o aconselhável para deixar um rapaz a ler sossegado, e lembro-me que do biquíni saltou uma gota de água que salpicou a página 137 do Quartet, que ficou para sempre com o papel enrugado no sítio onde a gota caiu. Nunca mais me esqueci e para mim o melhor do livro é essa ruga — e olha que eu gosto muito do livro.

Não faças essa cara. Se vamos casar, não posso ter segredos, não é verdade? Tens de te casar comigo inteiro, até com as rugas das gotas da água das outras mulheres que já passaram por estes livros.

Aqui esta edição dos Dubliners, comprei-a em Cambridge, quando fui lá contigo e começámos a namorar. Ainda hoje folheio o livro e lembro-me de passearmos encasacados nos relvados nas traseiras dos colégios e sonharmos com outras vidas ao sol frio do Inverno inglês. Lembro-me de anoitecer e começar a nevar e do conforto que foi entrar na livraria, de escolher este livro, olhar para ti e sentarmo-nos os dois num dos sofás do café no terceiro andar, onde demos o primeiro beijo a sério. Também te lembras? Eu sei que sim.

Pronto, aqui tens: o peso todo dos meus livros. Sou eu que encontras aqui. Todas as vezes que mudarmos de casa, lá terão de ir estes calhamaços todos. E como arrumar isto na sala? Sim, na sala. Ou achas que vamos ter dinheiro para uma casa com escritório? Nem penses que os livros vão para a arrecadação. Ou queres que passe mais tempo lá em baixo do que contigo na nossa casa? E o pó, já imaginaste? Vamos passar horas a limpar as estantes! E daqui a muitos anos, se por cá ficares e eu não for mais do que pó, terás de os vender — ou talvez fiquem para os filhos que aí vêm, que bem podem herdar este estranho bichinho dos livros. Enfim: aqui me tens. Decide lá. Tens tempo. Mas entretanto dá-me um beijo — cuidado é para não derrubares essa pilha de livros aí atrás de ti. Obrigado.

[Histórias]

Sete animais escondidos na língua portuguesa 

A língua tem destas coisas: muitas surpresas, algumas voltas menos claras — e tem também alguns animais escondidos, que de vez em quando lá arrebitam a cabeça e dão um ar de sua graça nas nossas conversas e nos nossos escritos. Lembrei-me destes sete exemplos, embora saiba que há muitos outros animais escondidos na nossa língua: são os autarcas armados em dinossauros, são os espertos que nem raposas, são os sujos que nem porcos — mas deixemos os insultos para outro dia. Hoje quero animais inocentes. A começar na pulga…

  1. A pulga atrás da orelha. Haverá pulga mais simpática do que aquela que se esconde por trás da nossa orelha? Sim, é simpática, mas também perigosa. Às vezes, uma frase dita assim de passagem, uma palavra com uma certa entoação, uma alusão muito vaga, muito disfarçada, uma conversa que deixamos passar por distracção — e ficamos com a tal pulga a picar-nos a pele por trás da orelha. E a partir daí, começamos a puxar o fio à meada e às vezes a coisa começa a transformar-se numa bola de neve. Bem, chega de lugares-comuns. Qual é o próximo animal?
  2. Cobras e lagartos. Dizemos dos outros cobras e lagartos — que, coitados, nem sabem o uso que têm na nossa língua. Eles que até são tão pachorrentos, apesar dos medos que temos na cabeça. Quer lá a cobra saber do que andamos a maldizer. O que elas querem é paz e sossego (e um ou outro animal para matar a fome).
  3. Lágrimas de crocodilo. Não deixando o mundo dos répteis, temos ainda os crocodilos que choram a fingir. Quer dizer, na verdade somos nós, animais matreiros como poucos, que andamos a inventar essas calúnias sobre os bichos.
  4. Cães e gatos a caçar. Por cá, não dizemos que os cães e os gatos chovem, como em inglês. Mas dizemos que quem não tem cão, caça com gato. E olhem que se calhar até ficamos bem servidos, se o objectivo for caçar moscas ou ratos (ou coelhos). Ou qualquer coisa pequena que se mexa muito.
  5. Nem que a vaca tussa. Não sei muito bem porque não há-de tossir a vaca, mas pronto, a língua é assim (ou se calhar a língua até acertou e a vaca não tosse mesmo). Mas diga-se que o pacato animal, nesta expressão, até tem sorte. Quando chegamos ao mundo dos insultos, a coitada da vaca está bem servida, está.
  6. Bicho-carpinteiro. Aquilo que se mete nos móveis — mas também nas crianças e aí é que (7) a porca torce o rabo. Só o sono ou às vezes os desenhos animados aliviam essa comichão que deixa os putos aos saltos, às vezes sem saber o que fazer. Há dias em que o único antídoto é uma boa história contada no sofá, de preferência com animais que falam.

São vacas a tossir, porcas a torcer o rabo, crocodilos a chorar… Já sabemos que isto, no fundo, são tudo bichos na nossa cabeça. Será que algum destes animais, ao falar com um amigo, encolhe os ombros e diz «não sejas complicado como um humano»?

27 de Dezembro de 2016

Doze deliciosas palavras deste Natal

Fiquem então com estas doze palavras muito natalícias. Deixei de fora muitas outras, claro está. Mas estas, poucas que são, já me sabem muito bem…

  1. Neve. Por cá, é raro termos neve a cair para lá da janela, mas o que querem? Seja dos filmes, dos livros ou da imaginação, achamos sempre que a neve quadra bem com o Natal. Não sei o que sentirão os brasileiros, com o seu Natal de Verão, mas por cá o frio natalício sabe bem.
  2. Lareira. Sim, o frio sabe bem, mas o calor da lareira, o cheiro da lenha, o crepitar do fogo… Ui, haverá coisa melhor? Digamos que o frio sabe bem lá fora. Em casa, o que queremos é calor: da lenha e das pessoas à nossa volta.
  3. Mesa. Melhor do que olhar para a lareira? Só estar sentado à mesa, com a comida em cima da mesa, entre decorações de Natal, a árvore a piscar lá atrás, o presépio iluminado, e a janela onde vemos a neve a cair (pronto, lá estou eu a imaginar coisas).
  4. Prendas. No fim do jantar, as prendas. O rasgar do papel com que embrulhámos cuidadosamente brinquedos, roupa, envelopes, postais, meias e…
  5. Livros. A melhor prenda de todas, sem a mínima dúvida. Pelo menos para mim. Nunca me canso. Quem se cansam são as estantes, que lá em casa já andam abauladas do peso dos livros estacionados em segunda fila. Paciência. Foi para isso que foram feitas.
  6. Brinquedos. Brinquedos há muitos e para os miúdos, nesta noite, tudo serve e tudo é uma alegria, pois mais simples que sejam. Depois, adormecer é que está quieto, com tanto brinquedo novo ali ao lado. E há choro e depois sono descansado e, de manhã, tudo aos gritos a brincar.
  7. Filmes. Os de sempre e os mais recentes. As xaropadas de Natal. O rapaz que tortura ladrões. O inglês apaixonado pela portuguesa que não sabe inglês. A inglesa a trocar de casa com a americana que se apaixona pelo irmão da inglesa. O Mr. Bean armado em agente secreto a tentar ter graça. E nós sentados a ver, no dia depois das prendas, com a enxaqueca de Natal, mas confortáveis e felizes, no dia em que está tudo fechado e podemos ficar a ver televisão ou, o que é ainda melhor, a conversar…
  8. Conversas. Mais sérias ou sem rumo, opiniões para todos os gostos, à luz da lareira e ao som das canções sempre iguais, sempre deliciosas. E, por vezes, à distância, os telefonemas rápidos, as mensagens de Facebook, uma conversa rápida por Skype a destruir distâncias. Ou um abraço a alguém que já não víamos há muito tempo.
  9. Histórias. Desligada a televisão, é hora de ler as histórias dos livros que oferecemos aos filhos. Ou aconchegarmo-nos num sofá e ler um livro que nos ofereceram ou que escolhemos nós mesmos. Ou então ouvir os avós e os pais a contar as histórias de sempre, de viva voz, ali ao pé de nós, e os netos a ouvir, de olhos brilhantes.
  10. Estrada. Para muitos casais, o Natal implica percorrer o país, à procura das várias terras da família. Assim, há anos que, na manhã de 25 de Dezembro, lá vou de casa da minha família para a casa da família da Zélia (ou ao contrário, dependendo do ano). É já uma das nossas tradições.
  11. Crianças. Sim, tudo o que vimos acima só faz sentido porque o Natal é especialmente importante para os mais novos. A nossa tarefa é preservar o mais possível o Natal deles, para que venham a lembrar-se dessas noites mágicas daqui a muitos anos. Pois para nós, que já deixámos a infância há uns tempos, o Natal tem quase sempre qualquer coisa de saudade…
  12. Saudade. Nesta altura, rimos e abraçamo-nos, mas também choramos mais do que o habitual. Porque há pessoas que já não estão e felicidades que não voltam. Também faz parte do Natal e, em certos momentos, com o brilho da lareira nos copos à nossa frente e o calor na pele, sentimo-nos bem a recordar essas pessoas que passaram outros Natais ao nosso lado. E abraçamos uma vez mais os que estão ao nosso lado, certos de que não será para sempre, mas é o melhor que temos neste mundo.

Feliz Natal!

DEZEMBRO DE 2015

Porque é que os ingleses têm frio em Portugal?

Os ingleses que tenho em mente não são bem ingleses: falo do meu irmão e da minha cunhada, que foram lá para as terras britânicas há uns anos e agora dizem que, por cá, o que sentem é frio. Ah, mas não são só os meus «ingleses»: ainda há anos andei às voltas a mostrar Lisboa a uma holandesa que garantia sentir um briol dos antigos quando vinha a Portugal.

Mas como é possível? Bem, convém explicar que estamos a falar do interior das casas… As casas do Norte da Europa estão feitas para o frio e são, por isso, quentes. Por cá, temos a mania que vivemos num Verão eterno e temos paredes que deixam passar qualquer frieza.

Estarei a delirar? Mas então por que razão há tanta gente lá de cima (da Europa) que treme de frio quando se mete entre quatro paredes lusitanas? E por que razão me sinto tão quentinho quando vou visitar o meu irmão?

Enfim, são preocupações de Inverno: o que vale é que amanhã os dias lá começam a crescer e em breve já ninguém acredita que também faz frio em Portugal — aqui a sul o Inverno é coisa que bate forte e passa depressa. Espero eu.

Uma prenda de Natal: um curso sobre o corrector ortográfico do Word

Neste Natal, decidi oferecer uma prenda a todos os assinantes deste blogue: um pequeno curso online sobre como evitar erros ortográficos no Word.

O curso inclui as seguintes aulas:

  1. Perigos do corrector ortográfico do Word
  2. Como evitar que o Word se esqueça de corrigir partes do texto
  3. Como evitar que o Word se esqueça de corrigir as palavras em maiúsculas
  4. Como aplicar (ou esquecer) o Acordo Ortográfico
  5. Como ensinar o Word a corrigir os nossos erros habituais
  6. Como usar os nossos olhos como corrector ortográfico
  7. Como usar o travessão e o hífen

Se ainda não for assinante do blogue, pode inscrever-se de imediato e irá receber em poucos segundos uma mensagem com a ligação para o curso:

Se já for assinante, pode encontrar a ligação para o curso na coluna da direita da mensagem que recebeu no dia 19 de Dezembro com os últimos artigos deste blogue.

Espero que goste da prenda — e do blogue, claro! E já agora, se não se importar, peço um pequeno favor: partilhe esta oferta pelos seus amigos… Obrigado!

Sou um criminoso que gosta de falar do galego (ou o gosto de dramatizar no Facebook)

Há quem goste de dramas, de indignações sem freio, de frases cheias de importância.

Ora, no Facebook, lá me aparecem por vezes algumas dessas personagens cheias de ar no peito, prontas a declarar certezas e indignar-se por tudo e por nada.

Pois ainda há pouco fui chamado de criminoso por um desses inflamados (ou, vá, alguém me disse que eu talvez tivesse cometido um crime). Porquê? Por causa deste artigo: «10 nomes de línguas de Espanha (incluindo o português)».

Que crime cometi eu? Pelos comentários, só posso chegar a esta conclusão: o homem deu uma cambalhota mental e achou que eu estava a defender a união de Portugal e Espanha. (Se lerem o artigo, verão quão estranha é essa ideia.)

Perante isto, podia dar-me para pior… Mas limitei-me a pedir ao comentador baralhado para ir ler o texto. Talvez seja ingenuidade, mas estou convencido que ninguém que tivesse lido o texto diria um disparate daqueles.

Será que o comentador implacável foi mesmo ler o texto que já tinha comentado? Não sei. Desculpas não recebi. Mas recebi mais uma lição sobre natureza humana em ambientes virtuais: lemos o título, chegamos à pior conclusão possível e comentamos, cheios de certezas.

Deixem-me lá aconselhar que façamos ao contrário: lemos (com alguma generosidade), respiramos fundo, pensamos e comentamos. Se não temos tempo para ler, bem… não comentamos!


Agora pondo a hipótese de o homem ter mesmo lido o texto… Só posso chegar a outra conclusão: estas coisas da identidade mexem tanto connosco que ficamos a pensar mal. Só assim se explica que alguém considere crime lembrar que o galego e o português estão muito próximos, partilham uma história e ainda há quem os considere a mesma língua (o que significa que, na cabeça dessas pessoas, «português» é um dos nomes de uma das línguas de Espanha).

Quem achar que dizer isto é crime, vá à polícia, porque não vou deixar de falar destes assuntos.

Reparem que o comentador ainda teve tempo para me atirar com um perigoso insulto, assim, às secas: «espanholista»! Acho que hoje vou ter pesadelos com castanholas.

Bem, é verdade, até gosto das Espanhas. Mas, tendo em conta que defendo a continuação da separação política entre Portugal e o reino vizinho por muitos e bons séculos e ando sempre a deslizar para perigosas simpatias galegas e catalãs, devo ser o único espanholista separatista do universo.

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