Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Janeiro 2017 (Página 1 de 3)

Um sorriso e um pátio andaluz

Fiquem com este outro quadro de Julio Romero de Torres, o pintor que me calhou na rifa no último artigo. Não é um quadro para marcar a vida de ninguém, mas por algum motivo gosto muito da cara simpática da velhota com a menina a dormir ao colo (o quadro chama-se Mal de amores). A senhora já sabe o que a casa gasta nesta coisa de amores: sabe que a mulher de ar sombrio (será a filha?) fazia bem em encolher os ombros e ir para o pátio andaluz que apetece tanto, lá atrás…

Um quadro copiado milhões de vezes

Caí no vício outra vez. Apeteceu-me pôr a girar aquela roda da fortuna de que vos falei e fui parar, desta vez, a um artigo sobre um quadro espanhol. (Tive sorte, foi o que foi.)

O quadro é este (La Fuensanta):

É de Julio Romero de Torres e foi pintado em 1929. Foi apresentado na Exposição Iberoamericana de Sevilha de 1929 (é o que diz o artigo da Wikipédia) e, depois, desapareceu até 2007.

Bem, não desapareceu completamente: aliás, é provável que muitos espanhóis o conheçam — porque andou nos bolsos deles durante muitos anos, numa nota de 100 pesetas:

Mas como apareceu nas notas, se o quadro se perdeu? Bem, foi usada uma fotografia do quadro. E, a partir da foto, o quadro foi reproduzido 981.200.000 de vezes, nas tais notas de 100 pesetas.

Pois bem, mas este exercício de falar dum assunto ao calhas não pode limitar-se a repetir o que a Wikipédia diz. Para isso já bastam muitos trabalhos que por aí rodam. Pois, deixem-me lá dizer-vos isto: tal como os espanhóis conhecerão este quadro por causa das pesetas, também nós ainda nos lembramos do aspecto de algumas personagens muito nossas por causa da imagem que tínhamos nos bolsos. Pois, se eu disser Gago Coutinho, não se lembram logo deste Gago Coutinho?

E o Bocage? Não é esta a cara que vos aparece na mente?

O dinheiro é sujo, mas às vezes põe-nos arte nos bolsos — ou pelo menos a cara de algumas pessoas importantes. Tenho alguma pena que as notas de euro sejam tão anódinas. E não é que a Europa não tenha pintores em barda — e escritores, compositores e tudo o mais (até piratas, vejam lá). Não tem é poucos. Só que se pomos um quadro austríaco, logo tínhamos Malta a reclamar que também quer lá alguém, não é verdade? Problemas desta moeda complicada — mas também se fossem só esses, estávamos bem! E, sim, também é verdade que a arquitectura é um arte das maiores — mas aquelas janelas e pontes não lembram nada, porque são quase abstractas. E é pena.

Nós não pronunciamos os espaços, chiça!

Fiquei um pouco triste com os comentários apocalípticos de muitas pessoas por causa do magnífico vídeo que partilhei neste artigo. (A página dos professores que criaram o vídeo merece a visita.)

Pois não é que muitos leram o texto e continuaram a partilhar o vídeo como prova irrefutável da decadência do português?

Mas percebi agora, depois de ler com atenção alguns comentários no Facebook sobre os fenómenos naturais descritos no vídeo: muitos andam convencidos de que devíamos dizer os espaços. Ou seja, acham que um português a falar bem faz uma pausa entre cada palavra. Só assim se explica que tantos fiquem horrorizados por todos dizermos «qu’impressão» em vez de «que [pausa que ninguém faz mas muitos acreditam que sim] impressão».

Não, nós não pronunciamos os espaços. Na fala, cada frase é uma sequência de sons e a separação das palavras é mental, não é sonora. Quando eu digo: «Queres água ou sumo?» numa conversa natural, digo algo como (esta transcrição não usa o alfabeto fonético internacional): «Querezaguossúmu?» Lembrem-se das aulas de Português, quando tínhamos de ter em conta as ligações entre vogais para contar as sílabas d’Os Lusíadas… Não fui eu que inventei isto!

Grande parte dos fenómenos descritos no vídeo são apenas fenómenos de ligação complexos que decorrem desse facto simples e universal: as palavras não se separam na fala. É assim em todas as línguas e, aliás, a própria escrita reflectiu isso mesmo até muito tarde. Os espaços foram uma invenção tardia.

Sim, eu sei, o vídeo não trata apenas dos fenómenos de ligação: também temos a queda do «e» em muitas palavras, a transformação do som «s» em «ch» (somos muito palatais nós, os portugueses) e o «o» que se lê «u». Mas tudo isto não passa de portugueses a falar português de forma natural. Não é má dicção: uma óptima dicção tem de respeitar estes fenómenos, bem como a tal ligação entre palavras.

Tudo para concluir que, nisto como em muitos outros casos de análise da língua, é a própria ignorância sobre como a linguagem humana funciona que está na base da sensação de catástrofe. Esta sensação rapidamente descamba em fúria para com os inocentes falantes do português — que mais não fazem do que falar a sua língua. E neste caso do vídeo que indigna sem razão, o mais impressionante é que os próprios indignados também não separam as palavras com pausas e seguem (aposto) quase todos os fenómenos descritos no vídeo. Se assim não fosse, falariam de forma extraordinariamente divertida.

A palavra «desencher» é um erro de português?

No Facebook, encontrei quem se queixasse de ter ouvido um jornalista a dizer a curiosa expressão «o estádio está a desencher».

Por baixo do post, em muitos comentários, lá vinham as indignações habituais: não pode ser, isto agora é só ignorantes, essa palavra não existe, os jornalistas já não são o que eram — e por aí fora.

Confesso: nunca tinha ouvido tal verbo. Supus mesmo que o jornalista tivesse tido ali um assomo de criatividade e não deixei de sorrir. Mas, lá no meio dos comentários indignados, noto que alguém declarou a quem quis ouvir que lá na terra dela todos conheciam aquele verbo. Mais: teve o cuidado de ir ao dicionário — daqueles em papel e mais antigos — e encontrou o verbo «desencher».

Ou seja: a palavra existe. Sim, talvez seja do registo popular e já sabemos que há muitas pessoas incapazes de lidar com tais misturas, vá-se lá saber porquê. Também é verdade que o verbo é transitivo e fica a parecer que falta ali qualquer coisa. Agora o que o jornalista não fez foi inventar uma palavra nova…  Usou uma palavra que aprendeu como todos aprendemos muitas palavras: entre amigos, colegas e familiares.

Perante isto, qual foi a resposta dos indignados? Uma ou outra pessoa lá aceitou que estava perante uma palavra que não conhecia e não era caso para tanta indignação. Mas outras continuaram imperturbáveis na sua fúria por terem sido expostas a uma palavra desconhecida. Mais: declararam a quem os quis ouvir que, se o dicionário tinha essa palavra que elas não conheciam, então o dicionário só podia estar errado! «Desencher»? Alguma vez…

Tenho pena, tenho genuína pena de quem anda a ouvir televisão e a ler textos com o dedo já em riste, pronto a apontá-lo, indignado, à primeira palavra que não conhece. O mundo deve ser triste para quem perdeu assim o gosto pela sua língua.

Paixão e montanhas-russas

By 663highland (Own work) [GFDL, CC-BY-SA-3.0 or CC BY 2.5], via Wikimedia Commons


Ah, pois. O que me calhou na rifa naquele sorteio que vos descrevi no último artigo foi isto: uma montanha-russa em Tóquio que se chama «Big O».

Bem, o desafio era escrever um artigo sobre o tema escolhido pelos deuses escondidos no ventre da Wikipédia. Ora, o que posso eu dizer sobre esta montanha-russa?

Para começar, digo que não me apetece assim muito andar nesta coisa. Isto porque tenho um problema que é o seguinte: tenho medo. (Mas se alguém me oferecer uma viagem a Tóquio só para experimentar, não digo que não.)

O que mais posso dizer?… Neste momento, estou a suar as estopinhas para ver se me safo desta.

Bem, posso muito bem perguntar ao meu caro leitor: por que carga de água tanta gente gosta de andar nestes monstros? Porquê passar uns minutos a ser torturado?

A resposta não é assim muito difícil: estas construções delirantes são seguras (dizem), mas convencem o nosso corpo (e a nossa mente) que estamos em perigo, deixando-nos com o coração aos saltos e a adrenalina a bombar nas veias. Racionalmente, sabemos que não há grande perigo. Mas o corpo não sabe e ficamos mesmo aos saltos como se estivéssemos a viver uma grande aventura.

É uma maneira de nos enganarmos a nós próprios — e esse engano é delicioso. No fundo, as montanhas-russas e outras invenções do género deixam-nos eufóricos à força. Deixam-nos aos gritos e com a cara afogueada. Deixam-nos (e isto é muito importante) como se estivéssemos apaixonados.

E às vezes deixam-nos mesmo apaixonados. Se a dois potenciais pombinhos ainda na fase do vai-não-vai lhes der para entrar numa montanha-russa e passar pelos altos e baixos da coisa, é bem provável que saiam de lá bem mais chegados um ao outro do que entraram. Sim: pode até dar-se o caso de ser naquele momento, entre os gritos e os risos e o coração aos saltos e as mãos que de repente se entrelaçam sem querer — pode dar-se o caso, dizia eu, de ser naquele momento que o cupido acerta no coração dos dois.

No fundo, estas emoções fortes à força de muito carril retorcido são mesmo um poderoso feitiço. Ficamos zonzos, mais vivos do que nunca, com o coração a sair pela boca, nos lábios um sorriso imenso — e, à saída, os passos fazem-se uns centímetros mais chegados um ao outro, os olhares um pouco mais demorados e até as piadas secas começam a deixar-nos na boca um riso mais sincero.

Ou seja, se alguém andar por aí sem saber o que fazer para despertar a paixão no coração da bela amada ou do belo amado, não precisa de inventar ou mandar vir uma qualquer poção do amor. Precisa ainda menos de ir à bruxa. Do que precisa mesmo é de comprar um bilhete para uma bela volta a dois numa montanha-russa. E nem precisa de ir a Tóquio! (Se bem que uma viagem dessas não é de deitar fora.)


E pronto, foi assim que o raio do botão da Wikipédia transformou este blogue, por uns minutos, numa espécie de consultório sentimental. Mas descanse o leitor já aflito: amanhã voltamos à programação habitual.

Uma alhada das antigas (e o mundo num botão)

Já sei, já sei: devia estar a escrever a continuação daquela história do tesouro que escondemos dos espanhóis. E estou! Mas demora, porque tudo aquilo dá muitas voltas e aqueles pobres namorados nem sabem bem onde estão metidos.

Mas lá chegaremos. Agora tenho de cumprir uma promessa que fiz a mim mesmo. Uma espécie de desafio parvo que inventei e que tenho de cumprir sob pena de não me conseguir olhar ao espelho.

Então, deixem-me lá contar-vos como me meti nesta alhada.

Estava eu numa daquelas sessões que nos calha a todos em que temos de ir às compras e vemo-nos na aborrecida situação de esperar que a nossa mulher experimente roupa de vários tamanhos e feitios. Não me estou a queixar! Também tenho de comprar roupa e a Zélia espera e ajuda-me quando é preciso. Faz parte da vida…

Mas, enfim, ali enfiado no meio de prateleiras de roupa, pensei passar aqueles minutos usando a mais poderosa ferramenta para matar tempo: a Internet no telemóvel.

Sim, até podia ter lido um livro, mas eram poucos minutos e estava com a cabeça muito nas nuvens. Também podia ter ido ao Facebook. Mas está muito visto.

Vai daí, fiz uma coisa daquelas mesmo estranhas: fui à Wikipédia e carreguei no botão «Random». Para ler um artigo ao calhas.

Pois é: não sei se sabem, mas a Wikipédia dá-nos a possibilidade de escolher um artigo ao calhas entre os milhões e milhões de artigos criados por pessoas de todo o mundo. É fascinante ver toda a estonteante variedade do mundo naquele mundo reduzido duma enciclopédia criada pelos seus próprios leitores.

Descobri nessa loja de roupa que o botão é viciante. Vá: experimentem. Carreguei várias vezes e fui desde flores que só existem no Brasil até edifícios históricos dos E.U.A., passando por campeonatos de ténis dos anos 70, conceitos de linguística, a lista de todos os senadores canadianos que começam pela letra Y (a sério!), álbuns de cantores pimba australianos e um grande e aterrador et caetera.

Ah, e jogos de computador que só os japoneses conhecem. E ruas duma aldeia da Áustria. E estátuas em São Petersburgo. E posições sexuais que não lembram ao diabo (ou melhor, ao diabo lembram, mas a mais ninguém).

É mesmo viciante. Admito: talvez seja um vício muito restrito e pouco interessante. Mas não conseguia parar de carregar no botão para saber até onde me levaria neste mundo louco. Lembrou-me, assim muito vagamente, aquela série da minha adolescência, Quantum Leap, em que a personagem nunca sabia onde iria cair no episódio seguinte.

Bem, aos saltos pelo mundo virtual, a verdade é que continuava no mesmo sítio. A Zélia sai do provador, o feitiço desfaz-se, eu sorrio — e lá saímos os dois dali para fora (os dois, sim: o Simão estava a passar o serão em casa dos primos que isto de ir às compras com o filho é uma categoria de pesadelo que não vem na Wikipédia).

Foi então que me lembrei deste desafio: pensei para comigo — tenho de ser capaz de escrever um artigo sobre o assunto que me calhar nesta roleta russa maluca.

Ou seja: carrego no botão e tenho de escrever qualquer coisa sobre o tema que de lá sair. Seja ele qual for: o primeiro presidente da Câmara de Frenchville, Maine? Sai artigo! A posição sexual preferida de Hitler? Vamos a isso! A lista de deputados do Uganda? Com certeza!

Sorri. Era isso mesmo. Estava decidido. Ia mesmo desafiar-me a mim próprio. O blogue nunca mais seria o mesmo!

Mas, já com o polegar em cima do botão, hesito. Porra: e se me sai uma coisa intragável? Ou para maiores de 18? Ou tão desinteressante que nem o Garrett conseguiria escrever alguma coisa de jeito?

Mas um desafio é isso mesmo: um desafio. Tenho de me aguentar à bronca…

Estou a andar ao lado da Zélia quando carrego no botão e o mundo começa a rodar à minha volta. Sinto-me transportado milhares e milhares de quilómetros.

O que me calhou nesta rifa do mundo inteiro? Bem, conto-vos no tal artigo, que será o próximo.

Podia ser pior, mas não deixa de ser uma grande alhada. Veremos como me safo desta.

A História Secreta da Língua na RTP1

O lançamento d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa foi na passada quarta-feira. Foi um fim de tarde que não vou esquecer tão cedo. Obrigado a todos! Um obrigado particular a Nuno Pacheco, do Público, que apresentou o livro, e a Inês Figueiras, da Guerra e Paz Editores, que fez as honras da casa (e foi a revisora da obra). A RTP1 fez uma reportagem sobre o lançamento:

O tesouro que escondemos dos espanhóis

Caiu-me no colo uma história que está mesmo a pedir para ser transformada numa daquelas séries exageradas e tremendas, com tesouros, espadachins e gente escondida numa esquina. É uma autêntica tentação e calhou-me na rifa logo a mim, que sempre quis escrever um folhetim — não um romance, uma novela ou um conto, mas precisamente um folhetim, com mortos, pancada, segredos e amores delirantes. Nunca tive tempo ou desculpa — ou assunto, para dizer a verdade. Até hoje.

Pois é: não consigo resistir em transformar num folhetim aquilo que a Sara me contou este fim-de-semana. Um telefonema fora de horas mudou-lhe a vida toda e acabou à procura duma arca numa ilha perdida na fronteira entre Portugal e Espanha.

Setenta e cinco anos depois, um telefonema

Conto-vos então o que aconteceu: a Sara foi com o Rodrigo a um jantar de fim de ano num hotel de Lisboa. Não era o sítio onde ela queria estar, digo-vos. Preferia a rua ou uma festa mais privada — a dois de preferência. Mas o Rodrigo ouvira falar desta festa lá no escritório e adiantou-se aos colegas, afirmando que era mesmo ali que passaria o ano. A Sara torceu o nariz, mas lá disse que sim.

Naquele jantar, houve ali uns atrasos nos primeiros pratos (eram cinco!) e agora os empregados estavam, sob as ordens militares do chefe de sala, a despachar bifes e bebidas e a retirar a loiça enquanto os convivas ainda levavam o garfo à boca ou, em desespero, a boca ao garfo. A meia-noite estava a menos de uma hora de distância! Toca a despachar, que o fim de ano tinha de ser lá fora, ao pé do rio, acasacados e abraçados, não ali sentados à mesa a encher garfos.

Pois foi enquanto via a sua comida a fugir que a Sara viu o telemóvel a piscar e reparou no número: começava por +34 e ela não estava a perceber o que queria um estrangeiro com ela a poucos minutos do fim do ano.

— Rodrigo, os números +34 são donde?

Ele olhou para o telemóvel dela e encolheu os ombros.

— Não me lembro.

A Sara acabou por atender um pouco desconfiada e ouviu uma voz com carregado sotaque galego:

— Senhora Contreiras?

— Sim, sou eu.

— Não imagina como foi difícil encontrar o seu número…

O Rodrigo olha para a namorada, a tentar perceber a conversa através dos movimentos dos músculos da cara dela.

O que Sara estava a ouvir era isto:

— O meu nome é Manuel Garcia e sou um amigo de infância do seu bisavô João Antunes.

— Sim?

Com voz solene, o homem continuou:

— Senhora Contreiras, há 75 anos que estou à espera deste momento. O seu bisavô fez-me guardar um envelope para entregar ao seu bisneto mais velho, mas só em 2017, quando passassem 75 anos. Disse-me ele que aquilo que tenho para lhe dar é uma herança, uma confissão e um tesouro.

A Sara ficou de boca aberta. Aquilo seria a gozar? Tentou adivinhar a idade pela voz. O engraçadinho teria quantos anos? Cem?

O homem continuou, com voz cansada.

— Há meses que ando a investigar, para tentar perceber quem é o bisneto mais velho dele. Percebi que era a senhora. E, agora que já estamos em 2017, pude finalmente telefonar-lhe.

Ela ficou um pouco calada, apensar. Até que acabou por dizer:

— Bem, ainda não estamos em 2017. Falta pouco, mas ainda estamos em 2016…

Do outro lado da linha, o homem hesitou:

— Não estamos em 2017?…

— Ainda não, faltam uns 40 minutos.

A Sara ouviu um «ah!» e depois silêncio durante uns largos segundos. Até que, um pouco envergonhado, o ohomem explicou:

— Sim, tem toda a razão! Esqueci-me que em Portugal a hora é diferente. Bem, 75 anos a aguentar e mesmo assim ia revelando o segredo antes do tempo… — E riu-se sincero.

— Bem, mas diga-me lá, que segredo é esse?

— Não, não, já agora esperamos. Se não se importa, falamos daqui a pouco. Quero cumprir a promessa. E, para dizer a verdade, quem espera 75 anos também espera mais uns minutos.

E desligou. A Sara ficou a olhar para o telefone. O Rodrigo pedia ansioso que lhe contasse o que tinha sido aquilo, enquanto o empregado deixava uns últimos bifes armados em finos em cima dos pratos.

Ela ficou a olhar para o namorado. Seriam 40 longos minutos, à espera do momento em que podia, por fim, saber que tesouro era aquele que lhe cabia em herança.

O primeiro telefonema do ano

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 — Feliz Ano Novo!

Enquanto uns olhavam para o céu com as caras iluminadas pelo fogo de artifício e outros beijavam a boca cheia de passas de quem estava ao seu lado, a Sara pegou no telefone e marcou o número do velho galego, que atendeu de imediato.

A Sara não lhe deu tempo para dizer nada:

— Agora já estou em 2017!

— Muito bom ano, Senhora Contreiras.

— Bom ano, mas conte-me lá que tesouro é esse.

O homem riu-se.

— Já viu o que eu tive de passar durante 75 anos? É que eu também não sei… O que eu tenho é uma chave e, presumo, um mapa… Pelo menos, parece-me uma chave quando passo os dedos pelo envelope.

— Isto é alguma brincadeira?

— Não é brincadeira nenhuma.

— Quer mesmo convencer-me que me vai dar um mapa do tesouro?

— Juro pelos meus pais que Deus tem que isto é assunto muito sério.

— E quando posso ir ter consigo?

— Se quiser, agora mesmo.

Sara levantou-se e chamou o Rodrigo, tapando o telemóvel: «Anda, vá, temos de ir para o Minho!» «Para o Minho??» «Sim!» Voltando ao telefone, disse, decidida:

— Já estou a caminho.

— Mas também pode ser amanhã de manhã, se quiser.

— Não, não, vou agora. Também não tinha nada de muito interessante para fazer.

Uma auto-estrada vazia na primeira noite do ano

Pois nesta história aparece-me agora este intervalo que não sei como contar. Aventuras não é difícil — mas descrever uma viagem de auto-estrada de Lisboa até Tui? Durante a noite? O que posso eu fazer? Fazer um relatório do conta-quilómetros? Dizer apenas que fizeram a viagem e pronto?

A certa altura, ali por alturas da Estação de Serviço de Aveiras, a Sara virou-se para o Rodrigo:

— Desculpa lá não ficarmos para a festa.

Ele sorriu, encolhendo os ombros:

— Não faz mal, estava desejoso de sair dali para fora.

— Mas nós fomos à festa porque tu querias!

— O que eu queria é que tu me desses uma desculpa para não ir…

Ela riu-se, torcendo o nariz em jeito de brincadeira.

Talvez fosse a adrenalina da viagem imprevista ou do tesouro que os esperava, mas o resto da viagem continuou assim, em boa-disposição. Foram falando do futuro, numa dessas conversas de namorados em que as normais tensões desaparecem durante umas horas e a vida até parece fácil.

Pararam na Estação de Antuã, que só estava aberta dum dos lados. Para tomar um café anti-sono, tiveram de subir até ao passadiço, onde viam a auto-estrada. Normalmente, o efeito é estonteante, pois vêem-se os carros a passar por baixo para um lado e para o outro. Naquela noite, o efeito era outro: parecia que estavam suspensos sobre um país vazio, em que ninguém andava na estrada.

Quando voltaram ao carro, ligaram o rádio e seguiram um pouco em silêncio, à espera que o ar condicionado aquecesse o ar. Na rádio, passavam músicas a galope, certamente programadas no dia anterior por quem estava agora a dançar numa discoteca qualquer.

Foi então que começou uma música que falava de desenhos animados e não sei que mais (Os Azeitonas). Ouviram então um verso que lhes bateu como um estalo: «os tesouros que escondemos dos espanhóis».

— E lá vamos nós a Espanha para ir buscar um tesouro que o teu bisavô escondeu…

Ela sorriu. Sentia uma certa ansiedade no estômago, a subir pelo esófago. Nunca pensou ver-se numa alhada destas: uma aventura mesmo a sério. Isto não é coisa para acontecer na vida real. Só nos folhetins.

O mapa do tesouro 

Atravessaram a fronteira calados. A Sara olhou para as placas: España e depois Galicia. Logo a seguir, uma placa anunciava a saída para Tui.

— Tui não se escreve com y? — perguntou o namorado, com uma atenção a estas coisas das línguas que era pouco habitual nele.

— O nome oficial é em galego, assim, com «i»… Olha, e já reparaste na morada do senhor? «Rúa das Monxas.»

— O que tem?

— Não é «Calle»! É «Rúa»!

Mas o interesse dele por essas coisas já se esgotara:

— Onde é que estaciono?

Depois de deixar o carro ainda um pouco longe da tal Rua das Monjas, embrenharam-se no centro histórico da cidade galega. Das bocas saíam vapores do frio que estava. Havia copos de cerveja no chão e grupos dispersos de jovens a conversar em calmarias pós-alcoólicas.

Encontraram, lá pelo meio das ruas de pedra, a porta do escritório do advogado. Tocaram à campainha, que ecoou em toda a rua. Um casal abraçado ali ao lado olhou para eles com cara de assombro: será que aqueles portugueses pensavam que o advogado iria atendê-los às quatro e meia da manhã? E mais assombrados ficaram quando a porta se abriu e o Dr. Garcia apareceu a dizer, lento e feliz no seu corpo de 100 anos:

— Entrem, entrem…

O escritório era uma divisão da casa do advogado. Quando entraram, sentiram um cheiro acolhedor que, por mais anos que viva, não conseguirei descrever. O raio dos cheiros é coisa para deixar qualquer escritor com talento a coçar a cabeça, quanto mais um aprendiz de folhetinista. Vá, ajudem-me: imaginem o melhor cheiro da vossa infância, misturado com um travo a livros, e terão talvez uma ideia do que estou a falar. Ah, e têm de juntar o cheiro do chá que o homem tinha preparado minutos antes, num impressionante cálculo certeiro da duração da viagem dum casal de namorados de Lisboa até Tui.

O galego pegou no livro que tinha deixado aberto no sofá e convidou-os a sentarem-se à frente da secretária. Foi buscar o chá à cozinha, que lhes ofereceu com simpatia genuína.

— Se tivéssemos tempo e não estivéssemos os três cansados, tinha muitas histórias para contar sobre o seu bisavô, Senhora Contreiras! — A Sara sorriu e bebeu um pouco do chá, enquanto o Rodrigo olhava para as paredes forradas de livros.

O homem tossiu um pouco e continuou a falar:

— Há anos que espero por este momento. Sempre me interroguei sobre o que estaria neste sobrescrito — e dá à Sara um envelope antigo, já acastanhado, com um nome escrito num estilo que já não se usa. — Isto foi o seu bisavô que me deu na primeira manhã de 1942. Éramos muito amigos e ele sabia que eu seria o melhor guardião deste segredo. Não sei o que seja. Sei que é uma honra cumprir a promessa que fiz ao meu melhor amigo.

Ficaram os três em silêncio. O velho galego estava emocionado, a limpar umas lágrimas com um lenço de pano.

A Sara passou a mão pelo envelope, tentando sentir os 75 anos que a separavam do momento em que o seu bisavô o fechara. Nunca o tinha conhecido: ele morrera muito antes de ela ter nascido. Olhou em redor, para os livros pesados e solenes que a rodeavam. Olhou para a cara ansiosa do galego e para o namorado, a incentivá-la, com o olhar, a abrir o envelope.

Num gesto menos cuidadoso do que a idade do papel aconselharia, abriu por fim o sobrescrito. Encontrou uma chave e um papel dobrado. Desdobrou-o cuidadosamente e leu:

Ao meu bisneto do futuro: nesta ilha encontrarás uma casa abandonada e, por baixo da lareira, um baú. O baú tem lá dentro a minha maior culpa e o meu maior orgulho. Quero que tu saibas o que é, porque não quero que este segredo morra comigo. Mas — por favor — tens de ir sozinho. No fim, quando conseguires descobrir tudo o que tenho para ter dar, peço-te que contes a minha história.

Por baixo, estava um mapa rabiscado.

O Rodrigo e o advogado já se tinham levantado e espreitavam por cima do ombro dela. A Sara olhou para eles e perguntou ao galego, apontando para o mapa rabiscado no papel que tinha na mão:

— Mas onde será isto?

— Isso? Isso é uma ilha aqui muito perto. A Ilha ——.

— Uma ilha? E como chego lá?

— Há sempre uns barcos de madeira encostados à margem. Não posso ir convosco, mas ajudo-vos a encontrar o sítio no Google Maps — e sorriu, enquanto procurava o telefone para abrir a aplicação.

Pouco depois, os dois namorados estavam a atravessar de novo a fronteira e a seguir pela estrada que serpenteava ao lado do Rio Minho, a seguir as instruções da voz robótica do telemóvel. Procuravam o pequeno ancoradouro onde estariam os barcos de madeira de que o Dr. Garcia lhes falara. Lá os encontraram, à espera dum qualquer aventureiro de ocasião…

Um grito que se ouviu em dois países

A Sara — contou-me ela ainda ontem — nunca pensou passar parte da noite da Passagem de Ano a remar nas águas frias dum rio, ali mesmo na fronteira, em busca dum tesouro.

Remavam ao ritmo descompassado do desejo de chegar à ilha, mas também músculos pouco habituados àquelas façanhas.

— Sabes uma coisa, Rodrigo? — perguntou ela, em esforço. — Nunca tinha remado na vida!

Ele não disse nada. Estava com a língua entre os lábios, concentrado no esforço e na margem, cada vez mais próxima, mas ainda tão longe. E estava um frio… Era bom que o tesouro fosse alguma coisa de jeito.

Pouco depois, salpicados e a tremer de frio, o barco embateu da ilha com um estrondo que os assustou. A própria ilha parecia frágil: tinha de aguentar o peso de toda a vegetação. Saltaram do barco, ficando com os pés e as calças molhadas.

Como não podia deixar de ser, a Sara ia tropeçando e teve de se agarrar ao Rodrigo. Ele olhou para ela e sentiram os dois o coração aos saltos. Ficava bem aqui um beijo, não ficava? Mas eles não estavam com paciência para isso: queriam era saber o que guardava o tal baú.

Olharam em volta. Olhando para os lados da ilha, viam luzes da Galiza. Se olhassem para trás, viam Portugal. O silêncio era impressionante — tal como a luz das estrelas, se eles tivessem com tempo para reparar nessas coisas.

— Aqui não há casa nenhuma.

— Esta ilha pertence a que país?

— Não sei bem. Se calhar a nenhum.

Um pouco a medo, avançaram pela vegetação, enterrando os pés na terra molhada e prendendo a roupa nos ramos.

— Cuidado, não tropeces.

Não viam nada. A Sara lembrou-se então das lanternas que tinham nos bolsos: os telemóveis.

Alguns metros mais à frente, ouviram um ruído que parecia duma cobra e agarraram-se um ao outro.

— O que foi isto?

— Não sei — disse ele — mas encontrámos a tal casa.

Fosse isto uma história de encantar, estariam agora perante uma casa com luzes e lá dentro estaria uma senhora a cozinhar que, depois de algumas peripécias, revelar-se-ia uma grande bruxa. Mas, não, aquilo era apenas uma ruína duma pequena construção, talvez um posto da guarda, um refúgio de contrabandistas — fosse o que fosse, já não dava para perceber.

— O velho falou-nos duma lareira, não foi? Achas mesmo que isto tem lareira?

Entraram pela porta que há décadas não estava ali e, na parede do outro lado, viram um buraco que podia passar bem por lareira.

Baixaram-se. Com dificuldade e com as mãos sujas, tiraram a terra lá de dentro. A respiração estava já descontrolada. Nos cabelos tinham folhas dos arbustos por onde tinham passado.

— O que eu não dava por uma pá…

Quando já quase não havia terra dentro da tal lareira, repararam numa tábua um pouco apodrecida. Levantaram-na e viram, espantados, que havia mesmo um baú. Só que ainda tinham de tirar mais umas quatro tábuas antes de o conseguir tirar dali.

E ainda teriam de içar o mono cá para cima.

— Porra, estas coisas nos livros parecem mais fáceis. E sujam menos.

Era um baú pesado, diga-se. Foi preciso muita força para tirá-lo do buraco.

Por fim, tinham o baú à frente. Riram-se do esforço e da emoção enquanto enxugavam o suor, sujando as caras, que pareciam camufladas de tanta terra e tanta folha.

A Sara pôs-se muito séria:

— Rodrigo, sai durante uns minutos. O meu avô escreveu na mensagem que tinha de ser eu a abrir isto. Sozinha.

— Não sejas tonta. Abrimos os dois.

— Vá, faz lá o que te digo…

Ele ficou de boca aberta. Não acreditava que ela não o quisesse ali. O que interessava o que o avô tinha dito há 75 anos?

— Porra, sai lá! Então se o Dr. Garcia esperou 75 anos e cumpriu à risca a vontade do meu bisavô, não posso respeitá-la também? Logo a seguir podes vir cá ver o que é isto.

— Mas pode ser perigoso!

— Vai-me saltar um animal feroz aqui de dentro?

Rodrigo estava impaciente, mas acabou por sair a resmungar — percebeu que ninguém abriria o baú enquanto não fizesse a vontade à rapariga. Ou ao bisavô da rapariga.

Cá fora, sentiu-se a tremer do esforço, do frio e da expectativa. Felizmente não chovia. Ouviu a namorada a pôr a chave na fechadura. Ouvia, como um tambor, o pulsar do seu próprio coração.

Olhou em redor. À esquerda, via uma abertura nas árvores por onde conseguia ver umas luzes. Lá ao fundo, não sabia bem de que lado da fronteira, passaram os dois faróis dum carro. O céu começava a clarear.

A Sara deu um grito tremendo.

A herança macabra

Se calhar devia deixar isto para o segundo episódio, não é? O suspense faz sempre falta e, assim, com um grito nos ouvidos, o leitor quer voltar e saber o que encontrou Sara dentro do baú escondido entre Portugal e a Galiza, naquela primeira madrugada de 2017…

Mas na verdade desconfio que os leitores não têm paciência para esperar — nem eu conseguia guardar o segredo tanto tempo. Vou contar já.

O Rodrigo ouviu o grito, entrou e viu à luz dum sol ainda muito fraco a Sara de cara lívida a apontar para o baú. O que lá estava dentro era isto: um esqueleto.

Ficaram os dois a olhar, agarrados, a dizer asneiras que não posso reproduzir aqui. Vou fingir que o Rodrigo disse apenas:

— Esta agora…

Será que o bisavô dela quis pregar uma partida que demorou quase oito décadas a preparar? Ou será que alguém encontrou o tesouro e deixou ali aquele esqueleto, vá-se lá saber porquê?

O Rodrigo aproximou-se enquanto a Sara apontava a lanterna do telefone para ver melhor o tesouro mais macabro de todos os tempos. Pois a lanterna apontou o feixe de luz à caveira, ali perfeita num riso estranho, e desligou-se logo de seguida, pregando-lhes mais um susto.

Mas não era feitiço: era só a bateria que tinha acabado. Foi com as mãos a tremer que o Rodrigo procurou o botão para ligar a lanterna do seu telefone.

Aproximaram-se do morto:

— Olha, tem uns fiapos de roupa…

O Rodrigo atreveu-se e tocar nos restos de tecido e percebeu que aquilo era um velho uniforme alemão da II Guerra Mundial.

— Mas que raio? O que faz um nazi dentro do baú do meu bisavô?

O Rodrigo estava de boca aberta. Aquela não era a manhã de Ano Novo que eles esperavam.

— Olha, o esqueleto tem qualquer coisa na mão…

E pronto, agora sim tenho de deixar o leitor um pouco pendurado.

Digo só que na mão o homem tinha de facto qualquer coisa. E não consigo resistir a revelar que essa coisa era uma fotografia — e essa fotografia incluía o bisavô da Sara, o morto e ainda um terceiro homem. E, por trás da foto, o bisavô tinha escrito mais um recado para a Sara.

Bolas, acho que não dou para escritor de folhetins. Conto logo tudo no primeiro episódio…

Pois vou ser forte e não vou contar o que estava escrito por trás da fotografia. Digo apenas que falava do tal tesouro que alguém escondera dos espanhóis.


Quer saber o fim da história?

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Os livros são caros?

Claro que a resposta só pode ser o irritante «depende». 

Depende da pessoa, da carteira, do livro… 

Mas Antonio Muñoz Molina tem muita razão quando diz isto no El País:

Con un libro que puede haberte costado menos que una cerveza tienes la posibilidad de horas extraordinarias de inmersión en un mundo que será todavía más deslumbrante y más saludable para ti.

É verdade que é difícil encontrar livros que custem menos que uma cerveja. Mas também é verdade que há por aí edições bem baratas de grandes autores. E podem não acreditar, mas um livro do Eça (por exemplo) pode ser bem melhor que qualquer bebida ou espectáculo ou jantar… Vão por mim.

(O artigo do El País é este: «La risa de Eça de Queiroz». Vale a pena ler o prazer com que o escritor espanhol reencontrou Eça num hotel de Lisboa…)

O golo do Éder em muitas línguas

Este vídeo tinha de estar neste blogue… Haverá forma mais agradável de ouvir os sons das várias línguas do mundo do que ouvi-los com o nome do Éder pelo meio? Não me parece. E, já agora, neste vídeo vemos como todos falamos de maneira diferente, mas todos gritamos quando é golo:

(Encontrei o vídeo no mural de Facebook de Fernando Venâncio, que foi buscá-lo ao mural de José Lucas Cardoso.)

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