Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

Mês: Junho 2017

A língua dos tetravós (por Fernando Venâncio)

Segure-se bem. Vamos falar de coisas que mexem cá fundo com um indivíduo. Sobretudo se for português… Bom, está firme? Aqui vai então.

Ao longo dos cem anos do século XVI, o português absorveu 246 (duzentos e quarenta e seis) adjectivos de fabrico castelhano. Esses, os que identifiquei até hoje. Terão sido mais.

Repare-se: falamos só de adjectivos, deixando de fora os verbos e os substantivos também adquiridos do castelhano, e que não foram poucos. Deixaram-se de fora, igualmente, os abundantes adjectivos que o castelhano havia tomado do latim, e que nesse século XVI fizemos nossos também, depois de os havermos lido e relido em textos castelhanos.

Lido… ou ouvido. No século de Quinhentos, eram numerosas as peças de teatro espanholas que percorriam as nossas cidades, numerosos os pregadores espanhóis que ecoavam nas nossas igrejas, numerosos os cânticos e cantigas em espanhol que enchiam capelas e ruas.

Foi isso: sem a maioria dos falantes se aperceber, o português ia-se modernizando em castelhano. Pode parecer-nos hoje incrível, mas cerca de 95% do vocabulário ‘culto’ documentado em português nos séculos XVI e XVII foi por nós absorvido do idioma vizinho.

Agiram eles bem, os nossos tetravós? Sim e não. A língua de Castela gozava, ao tempo, de enorme difusão na Europa, e toda a convergência com ela fornecia ao português virtualidades inegáveis. Para mais, o castelhano era, nessa época, um idioma particularmente desenvolvido, maleável, coerente. Numa palavra, ‘moderno’. Mas o preço pago foi alto. Tanta riqueza ali ao virar da esquina dispensou o português de investir a fundo em si próprio, explorando ao máximo o léxico autóctone para as novas necessidades da expressão.

Dentre esses 246 adjectivos castelhanos que, só nesse século de Quinhentos, o Português fez seus, destaquemos alguns, por ordem de entrada: maciço, comedido, malogrado, moreno, varonil, desditoso, bonito, mulato, airoso, desgrenhado, pontiagudo, boçal, lastimoso, matreiro, bisonho, nublado, incansável, pressuroso, bravio, atilado, teimoso, apaziguado, comilão, madrugador, caudaloso, trapaceiro, desabrido, pujante, cabisbaixo, boquiaberto, sangrento, descarado.  

Os casos de pontiagudo, cabisbaixo e boquiaberto são particularmente curiosos. São três formações únicas, três achados irrepetíveis, que, uma vez cunhados, só já podem ser copiados.

E assim foi, efectivamente. Em 1504, certa obra castelhana sobre agricultura, fala dum archote “bien pontiagudo”. Em português, o termo vai aparecer numa crónica de 1535, onde são referidas “pedras ponteagudas”, será dicionarizado como pontiagudo, em 1562, por Jerónimo Cardoso, e voltará a ser testemunhado no ano de 1600, num livro do jesuíta João de Lucena. Dos autores portugueses, sabemos que tiveram trato assíduo com o castelhano.

Eis, de facto, as três principais circunstâncias que denunciam um castelhanismo: 1. a palavra já circula largamente em Castela, 2. a forma deriva doutras formações castelhanas, ou é complexa, e 3. surge entre nós em ambiente castelhanizante.

Passemos ao caso de cabisbaixo. A primeira ocorrência de cabizbajo conhece-se de 1513, numa carta do religioso Antonio de Guevara. Demorará a entrar no português, onde cabisbaixo é documentado em 1589, numa obra de Amador Arrais. Quanto a boquiabierto, ele surge na Segunda Celestina, de 1522, e a espera foi semelhante: boquiaberto aparace em 1594.

Outros três adjectivos merecem comentário. São eles bonito, varonil e bisonho.

Podemos perguntar-nos: como se exprimia até 1500 um português que achasse certa coisa, ou alguém,  ‘agradável à vista’? Pois escolhia entre formoso (ou fermoso) e belo. Mas agora o castelhano inventara bonito, e ele acabou por tornar-se, também entre nós, o mais corrente. A história de varonil vai mais atrás. O galego e o português medievais tinham a forma baroíl, provavelmente uma adaptação patrimonial do castelhano varonil ou baronil. Esse baroíl vai conservar-se até pelo menos 1600, mas Gil Vicente, numa peça de 1521, tinha-o reconduzido a baronil, que depois se fixou em varonil. Já bisoño, documentado desde 1517, foi importado de Itália por militares espanhóis. Designava um soldado inexperiente, que repetia às chefias Io bisogno (“Eu necessito”) isto ou aquilo. Em espanhol, e depois em português, significava indivíduo ‘principiante, caloiro’, mas passou, no nosso idioma, a sinónimo de ‘tímido, assustadiço’.

Uma nota à margem. Com tão volumosas importações, o português acabou por conservar formas que o espanhol, mais tarde, deixou arcaizar, e finalmente abandonou. Entre elas estão: afrontoso, ajaezado, assisado, cediço, caridoso, desgostoso, figadal, galhofeiro, lastimável, sequioso.

Todas estas realidades são-nos praticamente desconhecidas. As nossas Histórias da Língua evitam estes temas incómodos. A imagem dum Português tão dependente da língua de Castela desagrada-nos, revolta-nos, obriga-nos a esquecer essa página do nosso percurso. Preferimos um idioma à imagem que fazemos de nós mesmos: altivo, independente, dominador. E esse idioma existe, realmente. O problema é que, ao recalcarmos aquele tão relevante lado da nossa história linguística, privamo-nos de descobrir o seu contrário: o que o Português tem de próprio, de exclusivo, de irredutivelmente seu.

Mértola, 25 de Junho de 2017

Fernando Venâncio (Mértola, 1944). Licenciou-se em Linguística Geral na Universidade de Amesterdão, onde também se doutorou. Foi docente de Língua e Cultura Portuguesa em várias universidades holandesas. É investigador sénior em História do Léxico Português. É ainda tradutor e escritor, com longa presença na imprensa escrita portuguesa.

A Baleia Que Engoliu Um Espanhol

Este novo livro é um romance de aventuras que nos leva em busca dum tesouro escondido numa antiga ilha portuguesa e reconta, pelo caminho, algumas histórias da nossa História.

Nos primeiros segundos de 2017, com o fogo-de-artifício ainda a explodir no céu e a namorada ao seu lado, Duarte recebe um telefonema e fica a saber que tem uma herança à sua espera: um velho envelope com uma chave e um mapa. O nosso herói não resiste e parte à aventura — no entanto, quando, horas depois, abre o baú que o seu avô escondera numa gruta, não consegue evitar um grito de terror.

É o ponto de partida para um remoinho de aventuras, entre aviões da II Guerra Mundial, tesouros da Antiguidade e histórias de piratas, reis e princesas à nora nas praias portuguesas.

Deixe-se levar por este enredo de beijos, espadas, morangos e perseguições e parta em busca do tesouro que um romano escondeu, há muitos séculos, na Ilha de Peniche. São histórias inesquecíveis — e, no meio de mouros,espanhóis, ingleses e portugueses, lá aparece uma baleia a dar uma ajudinha à Padeira de Aljubarrota.

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«Slash solou» é erro de português? E «míster», no futebol?

Confesso já aqui: não estou habituado a ler o verbo «solar» com o significado de «fazer um solo». Mas a verdade é que, lendo este título do Público, percebo o que tal palavra significa: «Axl cantou, Slash solou, os Guns N’Roses voltaram a sério».

Pois, claro, um leitor mais alarmado com as malucas das palavras que saltam categorias foi-se queixar para o Facebook (onde haveria de ser?): não, não! A palavra não existe! Só podemos dizer «executar um solo»! Porquê? Porque é uma palavra brasileira, porque não se usa no Conservatório de Lisboa, porque isto e porque aquilo.

Ora, não sei se é palavra brasileira. Como informaram alguns comentadores em resposta à tal queixa publicada no Observatório da Asneira, a palavra já se usa há muito tempo na imprensa musical — e, enfim, segue as regras do português no que toca à sua formação.

Teresa Coutinho, com infinita paciência, chegou a colar uma fotografia do Dicionário Morais com a palavra lá escarrapachada. Sim, é usada (também) no Brasil — o que não é de espantar. Talvez tenha sido inventada no Brasil e em Portugal de forma independente. Afinal, na nossa língua, se temos um substantivo e queremos transformá-lo em verbo, o que fazemos é integrá-lo na primeira conjugação. «Solo» > «solar». «Telefone» > «telefonar», etc.

Se, por outro lado, os portugueses se lembraram desta palavra por a ouvirem da boca dum brasileiro há umas quantas décadas — enfim, não vem mal ao mundo. Tanto quanto sei, até pode ter sido ao contrário. (Diga-se que isto não permite tudo: há muitos verbos que seriam possíveis, mas que não se usam. Ninguém diz «microfonar» para «falar ao microfone». Porquê? Mistérios insondáveis da língua — ou melhor, resultado inevitável da imprevisibilidade dos sistemas complexos.)

Portanto, muitos usam «solar» como verbo em contexto musical. Depois, temos o jornalista do Público que o faz num artigo que parece isento de erros graves. Logo, devíamos dar o benefício da dúvida: se eu não conheço a palavra, se calhar é porque eu não conheço a palavra — afinal, quando nascemos, não conhecemos nenhuma palavra. Como se diz por aí, estamos sempre a aprender. Só não aprende quem acha que uma palavra desconhecida é sempre erro…

Mas nada disto convenceu o queixoso. Afinal, se já temos «executar um solo», não podemos aceitar esse verbo estranho: «solar». Até porque, como acrescentou outro alarmista, o verbo solar já quer dizer «pôr solas em sapatos». Logo, o jornalista devia ter evitado a palavra para não criar confusões.

Exacto, há mesmo pessoas que, perante a notícia acima, ficam com medo que alguém acredite que Slash foi arranjar sapatos para cima do palco.

Já sei: há maluqueiras para todos os gostos no Facebook. Nem vale a pena perder tempo com estas ideias tontas. Mas este episódio em particular ajuda a perceber dois princípios fundamentais do discurso simplista sobre a língua:

  • Princípio n.º 1: «Vivo rodeado de estúpidos. Eu não sou estúpido. Se alguém diz uma palavra que eu não conheço, tendo em conta que eu não sou estúpido, mas os outros tendem a sê-lo, a palavra só pode estar errada.»
  • Princípio n.º 2: «Ouvi a palavra Y que quer dizer X. Ora, eu já conhecia outra palavra com o mesmo significado. Logo, a palavra Y só pode estar errada. Além disso, se a palavra Y tem um significado, nunca pode ter outro. A cada palavra, um só significado, se faz favor, que eu não tenho tempo para estas confusões.»

Estes dois princípios norteiam muitas das acusações desabridas e simplistas sobre o português dos outros. Mas, para dizer a verdade, o debate sobre o Slash que solou até foi muito cortês. Todos nós nos enganamos e todos nós podemos tentar corrigir os erros dos outros com respeito e sensatez.

O problema é que os dois princípios acima são salpicados, o mais das vezes, pelo chamado «descontrolo verbal». Se vejo um erro de português — falso ou verdadeiro —, posso dizer o que me apetecer porque estou defender a Santa Madre Língua. Só assim se explica que, numa outra posta de Facebook sobre o uso da palavra «míster» para designar informalmente um treinador, alguém tenha dito que aqueles que tal dizem «são uns cretinos ignorantes!!!». Ah, o peso daqueles três pontos de exclamação. O cretino ignorante até fica calado, não vá dar-se o caso de o justiceiro lhe atirar com um quarto — quiçá um quinto! — ponto de exclamação.

Repare o leitor, já agora: quem usa «míster» são jogadores e miúdos que praticam desporto. É um hábito linguístico com várias décadas. Talvez tenha vindo do inglês, talvez não. É uma palavra do registo informal, uma gíria desportiva — tão inócua que nem vale a pena pensarmos muito no caso. Ah, mas não, um miúdo a dar chutos na bola para ver se o mister fica contente é um «cretino ignorante».

Na verdade, este descontrolo verbal tão típico de muitas conversas de Facebook transmite uma imagem de pensamento descuidado e prejudica o falante — é um gravíssimo erro de português, este sim muito verdadeiro.

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