Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

Mês: Julho 2017

Porque há tantos tesourinhos das autárquicas?

Há algumas pessoas que olham para os cartazes autárquicos que andam por aí a rodar no Facebook e ficam com medo de sair à rua. Se são estes os candidatos que nos vão limpar os passeios…

Sim, é verdade: alguns dos cartazes não parecem, de facto, o melhor exemplo da arte de bem comunicar. Terá havido uma enchente de mau gosto por esse país fora?

Ora, não é bem isso — embora não me importe de admitir que o bom gosto não é material que abunde por aí. (O problema, claro, é perceber o que é o tal bom gosto.)

Primeira explicação: alguns dos cartazes são falsos. Ainda agora me passou pelos olhos o famoso cartaz «Picha Para a Frente!» que há quatro anos me andou a importunar o mural do Facebook. Ora, a Picha existe — é ali perto de Leiria. Mas não é freguesia. Ou seja, não há eleições na Picha. Uma desilusão, eu sei. (E aquele cartaz da Coina também é muito suspeito.)

Segunda explicação: na verdade, eleições autárquicas há muitas. Muitas mesmo. Temos mais de 3000 freguesias. Imagino que na larga maioria das freguesias haja mais do que uma candidatura. Logo, temos perto de 6000 candidaturas (no mínimo). Ora, haverá vários candidatos em cada candidatura (com suplentes, julgo que não serão menos de 5 por cada candidatura, mesmo nas freguesias mais pequenas). Logo, temos para cima de 30 000 candidatos — e só nas freguesias.

E se falarmos dos municípios, reparem que só em Barcelos temos 61 lugares a eleger na Assembleia Municipal (as gentes de Barcelos são conhecidas pelo talento para criar galos e pelo gosto extremado por ter assembleias municipais muito concorridas). Multipliquem pelo número de candidaturas e comecem a ter pesadelos com exércitos de candidatos…

É muita gente. Muito candidato. Muita lista. Muito cartaz. Seria impossível que todos fossem um primor estético. Basta 1% dos cartazes terem sido feitos por amadores e já temos larguíssimas dezenas de cartazes feitos em Powerpoint às três da manhã pelo primo do candidato.

E — claro — seria impossível que os nomes das terras que há por esse país fora não dessem origem a cartazes que nos deixam um tanto ou quanto bem-dispostos. «Continuar Calvos» é o meu favorito, nem que seja por me lembrar que eu também continuo um pouco calvo aqui na zona do cocuruto.

Onde quero chegar com isto? A lugar nenhum. Serve apenas de lembrança que o país é maior do que pensamos — e que as eleições autárquicas são as mais democráticas de todas, pois não há eleitor que não seja candidato ou, pelo menos, que não tenha um candidato na família ou na sua rua — o que quer dizer que, quando nos rimos destes cartazes, estamos a rir-nos de nós próprios, portugueses. O que só faz bem, diga-se.

Continuemos, pois, calvos e a rir!

Alegrias e tristezas num aeroporto

Hoje conto o dia em que o meu filho descobriu um dos segredos dos aeroportos.

1. Falar de acidentes de avião no aeroporto

Não sei se já vos disse, mas às vezes sou um pouco estranho. Aqui têm um sintoma dessa estranheza: quando estou prestes a viajar de avião, ponho-me a ler artigos e estatísticas sobre… Sim, adivinharam: acidentes de avião.

Imagine o leitor a cara da Zélia quando, um lindo dia, naqueles caóticos corredores cheios de gente à espera da voz que nos anuncia a abertura da porta de embarque, lhe digo: «Sabias que o maior acidente de aviação da história foi um choque entre dois aviões nas Canárias?»

Mas a verdade é que os aeroportos nos deixam mesmo de nervos à flor da pele. Há o nervosismo de levantar voo — na nossa cabeça está sempre presente a hipótese de o avião cair. Podem vir todas as estatísticas da segurança daquelas máquinas, dos anos de formação dos pilotos e das benditas listas de verificação — o monstro continua lá! O avião é qualquer coisa muito pesada e cheia de pessoas daquelas que morrem quando caem do céu—o avião, no fundo, é um bicho forte com uma fragilidade que assusta.

Depois, quem parte para longe tem na pele a excitação das viagens — do trabalho em sítios distantes, das férias entre outras línguas, de negócios inconfessáveis — e quem chega tem nos olhos o cansaço das horas dentro duma chapa apertada, dos barulhos incomodativos, dos ouvidos a zunir, do cheiro a ar queimado, dos sons que nunca sabemos se não serão o prenúncio da morte — ou talvez prenúncio da chegada da sandes mirrada que pedimos há três fusos horários (e entretanto a criança da fila de trás já se calou, benza-o deus).

Nesse caldinho de emoções, de pele em carne viva, de nervos agitados, o que temos cá em baixo são, num dos lados do aeroporto, as despedidas com choro mais ou menos reprimido e, do outro, os reencontros e os abraços de olhos fechados e alegria pouco contida.

2. As despedidas dos outros também custam

Ainda há poucos dias, no Facebook, uma amiga minha (a Ana Chainho) contou como foi ao aeroporto e chorou só de ver os reencontros das outras pessoas.

E, sim, eu que também já tive a minha dose de esperas no aeroporto, percebo o que ela quer dizer. Ainda por cima, passamos muito tempo à espera: por qualquer razão que me escapa, quando combinamos as horas para ir esperar alguém ao aeroporto, ninguém faz conta com o calvário interminável por que passam os passageiros desde que o avião aterra até que surgem, atarantados, à porta que separa a alfândega do mar de gente que está à espera.

Resultado? Muitos de nós passam muito tempo cá fora, ao lado de homens engravatados de papéis na mão e famílias impacientes, enquanto os nossos amigos andam de autocarro pela pista do aeroporto, percorrem sádicos corredores, põem-se numa bicha épica de passaporte na mão e crianças a chorar, mostram o passaporte ao simpático SEF em atrapalhações de casacos e malas, deixam-se estar a olhar para o carrossel das bagagens e, com sorte, lá vão tirar a senha para ir reclamar da mala desaparecida.

E nós? Cá estamos, ao lado dos tais homens engravatados. Entretanto, pela ranhura da alfândega, já pingaram selecções de andebol, turistas japoneses, académicos lituanos, famílias de Freixo-de-Espada-à-Cinta… E nós à espera.

Nessas horas de espera, também já me comovi com a avó que vê a neta pela primeira vez, o pai que abraça o filho depois de meses à fome de abraços em skypes frustrantes, os amigos que se reencontram para mais um Verão das suas vidas… Às vezes, mordo o lábio. Gente adulta não chora — só que às vezes chora. Disfarçamos, claro. E lá esperamos, pacientes, pelos amigos que ainda estão à espera da mala desaparecida.

3. A tristeza de 1 a 10 — e a próxima viagem

Chego por fim ao que vos queria contar, que é uma história que parece banal para quem a vê de fora — e é tudo menos banal para nós, que a vivemos (é o que acontece com tantas e tantas histórias).

O meu irmão Diogo, a Sofia e a minha sobrinha Lilah voltaram anteontem para casa, que é como quem diz, para Inglaterra. Os meus pais estavam cá em Lisboa e tínhamos pensado ir todos ao aeroporto despedir-nos — os meus pais, a Zélia, o Simão. Mas foi um dia agitado, muito trabalho na empresa, a Zélia teve de ficar duas horas no notário a tratar de certificações de traduções, a minha mãe não pôde ir — e acabei eu, o Simão e o meu pai a chegar ao aeroporto mesmo a tempo de nos despedirmos.

Pois foi então que vi a Lilah, de três anos, e o Simão, que tem quatro, a ficarem tristes de repente — e também percebi como o Simão ficou surpreendido com a sua própria tristeza. Abraçou-se à prima e pôs aquele sorriso que eu conheço bem, um sorriso nervoso, de quem está a reprimir o choro.

Há momentos no aeroporto que doem, mas se não doessem, era mau sinal. É uma boa tristeza, porque o próprio facto de aquele momento custar muito mostra que gostamos das pessoas de quem nos estamos a despedir — e há-de haver outras vezes, mais viagens, mais chegadas atrapalhadas entre malas e correrias para apanhar o avião e ir ver a prima à terra dela — e mais chegadas como aquela chegada de há duas semanas, em que a Lilah saltou do colo do pai para correr até ao primo para o abraçar, deixando-o surpreendido com as saudades da prima que vive a 2000 quilómetros de distância.

Saímos do aeroporto e o Simão lá começou a falar doutras coisas, a olhar pela janela do carro para a cidade ao sol e a rir-se com uma piada qualquer. Quando, por fim, chegámos a casa, perguntou-me: «Pai, de 1 a 10, quanto é que ficaste triste no aeroporto?» Eu ri-me com a pergunta — mas não respondi. Ele disse-me então: «Eu fiquei 10!» Sim, eu sei: um dia ele ainda terá de descobrir que não, esse dez ainda não chegou. Mas anteontem, sim, ele ficou muito triste — mas também feliz enquanto sonhávamos com a próxima viagem para ir visitar a prima.

Episódio 0 – Comprar livros é perigoso?

Neste episódio experimental, conto como ia morrendo um dia por causa duma livraria — e ainda falo de outras armadilhas dos livros. O certo é que, por mais perigos que espreitem à esquina, aqueles que se habituaram a comprar e a usar estes objectos apetitosos não conseguem libertar-se do vício. Antes assim.

(Pode parecer muito estranho, mas esta é uma forma de poupar tempo: gravar um artigo em vez de o escrever. Sim, têm sido dias de muita agitação — ou então é o calor que me deixa preguiçoso. Enfim, o certo é que «escrevi» este artigo com a voz e deixo aqui o resultado. É o episódio zero do podcast deste blogue. Espero que goste — e já agora peço ao meu caro leitor sugestões quanto à qualidade do som, aos próximos temas, à frequência e tudo o mais. Obrigado! Quem quiser assinar no iTunes, pode aceder a esta ligação.)

Um pedido aos leitores deste blogue

Sim, é verdade, tenho tido pouco tempo para escrever por aqui. Mas ando a preparar uma nova aventura: muito em breve, vou contar aqui no blogue o dia em que ia morrendo numa livraria.

Enquanto não acabo esse relato, deixo-vos um vídeo: o trailer daquele livrinho de que, provavelmente, já ouviram falar — A Baleia Que Engoliu Um Espanhol.

Ora, depois de alguns meses às voltas solitárias com a história, o meu maior prazer é ver esta aventura a chegar às mãos dos leitores. Assim, pedia-lhe a si, leitor deste blogue, que partilhe o vídeo no Facebook, no Twitter, pelos contactos de e-mail…

A baleia armada em Padeira de Aljubarrota ficar-lhe-á muito agradecida — e eu também!

Pois, então, aqui está o trailer do nosso livro:

Aventuras entre ânforas, espadas e livros

Foi um fim de tarde quase tão louco como o próprio livro.

Muito obrigado ao Alvim pela apresentação — e a todos os amigos, leitores, alunos, colegas e família que estiveram por lá.

Tive duas surpresas nesta apresentação…

Primeira surpresa: uma das próprias personagens destas aventuras decidiu dar um ar de sua graça e lá apareceu, de espada na mão — o próprio D. António, Prior do Crato. Quem o convidou foi António José Correia, presidente da Câmara de Peniche (há quem diga que o viu por lá).

Segunda surpresa: na assistência, estava a equipa de arqueólogos que há vinte anos estuda os vestígios deixados por outra das personagens do livro — o romano Lúcio Arvénio Rústico, que no livro anda a percorrer a Europa até dar de caras com um tesouro. Em breve, conto visitá-los em Peniche.

Agora é pegar nesta baleia carregadinha de aventuras e começar a ler…

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