Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Agosto 2017

A Princesa Diana em Vila Nova de Milfontes

O título pode parecer um tudo-nada enganador — mas a tal princesa que depois de morta foi do povo está ligada a Milfontes. É da História — pelo menos da história muito particular da minha família.

Isto porque na última semana de Agosto de 1997 passámos férias nessa terra alentejana, numa pequena quinta transformada em hotel. O nome? Não sei. A minha memória não chega a tanto.

Não chega ao nome do hotel, mas chega a isto: nessa noite estava a dar um especial da Praça da Alegria. Julgo que era o 500.º programa — ou algo assim.

Por essa razão, na peculiar arrumação da minha cabeça, a Princesa Diana ocupa uma pequena gaveta onde também estão o Manuel Luís Goucha e a Sónia Araújo. Todos juntos em Vila Nova de Milfontes.

Mas, claro, o importante não são esses nomes de gente famosa. O importante é que as notícias deste tipo servem para gravar umas quantas horas na nossa memória com mais força do que o habitual.

Assim, lembro-me especialmente bem daquele último dia de férias de 1997. Lembro-me dos últimos mergulhos na piscina, nessa alegria feita de água e risos de irmãos; lembro-me das conversas ainda espantadas sobre a notícia do dia; lembro-me dos preparativos para o regresso a casa e do carro cheio para voltar à vida habitual. E lembro-me de termos tirado todos uma fotografia para dizer adeus às férias: os meus pais e nós, os quatro filhos, ao sol, a sorrir e felizes.

A fotografia ainda lá está, em casa dos meus pais, e não consigo olhar para ela sem me lembrar dessa felicidade do fim da adolescência — e ainda da Princesa Diana, do Manuel Luís Goucha e da Sónia Araújo.

Miriam e os caçadores de raparigas

Era uma vez uma mulher nua a correr por uma floresta em chamas. Era uma vez um romano transviado que tinha medo de cogumelos. Era uma vez um homem a afogar-se numa praia do Mar do Norte. Era uma vez uma viagem que só terminou muito tempo depois, numa ilha que um dia viria a ser portuguesa.

E era uma vez três amigos e duas crianças num cinema de Lisboa.

A Ana veio a Portugal para as férias de Verão e, nuns dias que ela passou em Lisboa, aproveitámos para irmos ao cinema com os nossos filhos para que eles pudessem brincar e nós pudéssemos conversar e estar um pouco juntos, mesmo quando a vida do dia-a-dia se faz à distância de muitos países.

Falámos então, com pressa (o filme estava a começar), do livro que escrevi há uns meses e que a Ana tinha acabado de ler.

— O que eu gostava mesmo era de saber a história de Miriam… Como é que ela foi ali parar?

Sorri e ia responder — mas o filme começou, com o habitual estrondo de sons que nos deixou iluminados pelo ecrã, onde já se viam os primeiros desenhos animados em grande alvoroço.

O que a Ana não sabia — e eu não lhe pude dizer — é que já andava há uns tempos para contar algumas das histórias que ficaram fora da Baleia. Mas foi por causa dessa conversa que decidi começar pela história de Miriam — embora, para ser sincero, tenha alguma dificuldade em contá-la. O livro, já se sabe, é um rodopio de histórias que, embora com o seu quê de macabro, foram pensadas para toda a família — ora, a história de Miriam tem algumas passagens menos próprias para crianças.

Bem, mas vamos a isto. Como é que Miriam acabou como escrava em Mileto, donde foi salva por Lúcio Arvénio Rústico, que a trouxe até ao nosso país antes de ser o nosso país?

O pai de Miriam  —  revelo agora —  chamava-se Hrathgor e era chefe duma pequena tribo que deambulava por entre florestas, brumas e pântanos do Norte da Europa.

É até lá que temos de viajar. Ajude-me, então, o leitor: faça a viagem com a sua imaginação e aterre, de mansinho, nessas terras governadas por tribos germânicas perdidas entre florestas.

Em Roma, governa o primeiro imperador. Mas estamos fora do Império, mesmo à beira do Mar do Norte, por onde ainda deambulam velhos deuses nórdicos. Esta aventura que agora conto veio a ser a origem de histórias contadas pelas gerações fora  —  e há quem diga que as ouviu da boca dum viquingue nessa mesma ilha portuguesa onde Miriam aportou no fim da história que começa agora.


Um estranho nome de rapariga

Já revelei ao leitor o nome do pai de Miriam. Se por acaso confundir Hrathgor com Hrothgar, que é nome com pergaminhos e bem conhecido, não se preocupe: é um erro comum. À época, poucos se preocupavam com estas manias modernas de registar os nomes por escrito e acertar a ortografia dos mesmos. Nomes e histórias eram coisas que passavam de boca em boca e mais Hrothgar, menos Hrathgor  —  não vinha mal ao mundo.

Mas, diga-se, o pai de Miriam era Hrathgor e tinha o exacto aspecto do seu nome: um homem grande, vestido de peles de caça, com uma áspera língua nórdica na boca —  e tudo o que o leitor quiser associar a tão sonoro nome.

Já o nome da mãe de Miriam era  — dizem-me  — Yrsa.

A menina nasceu nove meses depois da chegada de Hrathgor de uma longa viagem que fez aos confins da Europa, donde trouxe umas estranhas pedras  —  e um gosto peculiar no que toca aos nomes das crianças. É que — convenhamos — «Miriam» não é nome que se dê a uma filha dum bom rei germânico. Mas Hrathgor não vacilou: por razões que hoje terão de ficar por explicar, deu esse nome à menina, por cima das reclamações de Yrsa e dos comentários da tribo.


Uma fogueira na floresta

Miriam nasceu ruiva e feliz e cresceu sem medo durante raros anos de abundância nessas paragens nortenhas.

Uma das suas primeiras recordações era de uma das noites em que assistiu ao seu tio Loki a contar histórias. Miriam ouvia, cabelos ruivos à luz da fogueira, e ficava embevecida enquanto Loki levantava os braços, contava histórias de gigantes e dragões  e intrigas entre deuses, heróis e gigantes. As sombras dos seus braços misturavam-se com o reflexo das chamas nas árvores e Miriam chegava-se mais ao seu pai — e assim ficavam pai e filha a beber as histórias de Loki, o matreiro contador de histórias.

Hrathgor nunca tinha sentido amor como aquele. Aliás, dizia-se pelas tendas daquela tribo, à noite, quando os casais conversavam em voz baixa, que os dois filhos mais velhos  —  Wiglaf e Weohstan  —  não andavam felizes com a atenção que o rei dava à criança mais nova.

O certo é que a menina cresceu feliz, sem notar essas conversas sussurradas. Aos quinze anos, era já a melhor e mais activa conselheira do seu pai. O rei treinava-a para batalhas e para negócios  —  e, no seu íntimo, andava já a magicar uma maneira de a tornar sua herdeira.

Miriam tentava participar em tudo  —  e Hrathgor só não a levou para uma batalha porque não queria aquela menina perto de espadas e cavaleiros. Pois a filha chorou por aventuras. Não queria ficar sempre para trás, ela que já quase governava a tribo, para horror dos seus irmãos, que não aceitavam uma mulher a mandar.

Hrathgor levou-a, então, de viagem até uma ilha onde viviam romanos. Foi a primeira vez que a miúda viu um romano — e ficou admirada com as togas e o ar alheado dos civilizados cidadãos. Mas decidiu ali mesmo que gostava mais das peles de animal que o pai vestia, dos javalis assados e servidos com leite, da floresta que ela conhecia como ninguém, dos acampamentos da sua tribo, das histórias de Loki contadas à noite, das praias frias do Mar do Norte — e dos morangos.


Um bando de romanos transviados

A aventura que agora vou contar começou numa outra noite de histórias à volta da fogueira, muitos anos depois. Miriam tinha já 19 anos e deixava os rapazes da tribo um pouco nervosos quando passava por eles.

Por esses dias, vagueava pelas florestas da zona um soldado romano cujo nome fazia tremer até o mais forte dos reis germanos.

Laio — era assim o seu nome — fora expulso de Roma por ter sido responsável por uma execução pública de escravos que deixou horrorizadas até as consciências habituadas a lutas de gladiadores e mortes em catadupa. Pelo menos, era isso que se contava.

Expulso de Roma, o antigo soldado não se fez rogado e assumiu como sua essa imagem de maldade sem limites. Juntou-se a uns quantos romanos descontentes, germanos irritados e berberes desviados e criou um bando de salteadores. Diz a lenda que a primeira batalha desse bando foi com uns soldados romanos apanhados desprevenidos numa estrada da Gália. Laio ganhou e os soldados dividiram-se entre aqueles que se juntaram àquela legião dos infernos e aqueles que foram cozinhados  —  sim, cozinhados  —  numa noite de festa e muita farra.

Depois dessa vitória de má memória, o bando passou a cumprir, numa vertigem de paródia, todo o ritual militar das legiões romanas  —  mas usava como símbolo uma águia de pernas para o ar e os homens afadigavam-se por deixar de lado qualquer traço de honra ou compaixão.

Aquela gente não defendia nada: os homens de Laio perseguiam alguns viajantes desprevenidos, roubavam acampamentos dispersos, comiam o que calhava — e eram ricos, imensamente ricos, com tesouros escondidos em várias grutas das florestas desse território sem fronteira e que podiam usar para comprar o que quisessem em Roma ou noutra das cidades do Império. Isto, claro, se pudessem entrar no Império.

Eram ricos. Tinham uma vida cheia. Com o tempo, sem família para quem voltar, com as florestas vazias de gente que não os temesse, o que estes homens mais queriam era outra coisa. Tesouros, tinham-nos de sobra. O corpo de uma mulher é que não.

Quando se atreviam a destruir mais uma aldeia, já não iam à procura de ouro ou peles  —  ou carne de javalis  —  mas sim de jovens apetitosas que pudessem saciar uma outra fome bem mais profunda.

Um dia, Laio ouviu dizer que a filha do chefe da tribo de bárbaros daquela zona era linda. Aproximou-se dos seus homens e picou-os, com histórias de mulheres e com pequenos insultos bem preparados para os deixar em ponto de bala.

Um dos seus companheiros avisou então, muito sério, que não deviam meter-se com aquele rei  —  e muito menos com a tal miúda.

Laio riu-se. E lá foram até à aldeia.

Eram quatro  —  sim, do bando que chegou a ter mais de cinquenta homens sobravam agora quatro. Mas as razões dessa diminuição são uma história que terá de ficar para outro dia. É que ainda tenho muito para contar sobre o dia em que Miriam foi raptada. O leitor só tem de saber isto: eles eram, de facto, quatro — mas as tribos da zona estavam convencidas que eram para cima de cinquenta.


Os caçadores de Miriam

Os quatro brutos pisam a neve que caiu durante todo o dia num silêncio desconcertante de corpos gigantescos em bicos de pé. Aproximam-se, devagar, da aldeia de Hrathgor. Nos rostos tensos, relampejam já vestígios das chamas da fogueira com que a tribo se aquece nesta noite fria. Laio sente o coração a bater: aqueles bárbaros não fazem ideia daquilo que os espera.

A certa altura, começam a ouvir a voz de Loki. A história que o velho conta fala de gigantes e de um tesouro escondido há muito tempo numa terra longínqua. As crianças e os adultos da tribo, sem imaginar quem está à espreita, não desprendem os olhos do contador matreiro.

Laio observa a tribo, como um tigre: são algumas dezenas de homens. Quatro gladiadores, por mais furiosos que sejam, não conseguem invadir aquela pequena aldeia. Não faz mal. Laio é matreiro e não há-de sair dali sem a rapariga ruiva que já consegue ver ao lado do chefe daqueles brutos. Lambe os lábios na antecipação do predador a olhar para a presa.

Com sinais de mãos afinados ao longo de anos de aventuras, Laio dá a estratégia aos companheiros. Os quatro sorriem, preparados.

À volta da fogueira, Miriam também sorri: Loki conta uma passagem antiga, que ela já ouvira muitas vezes, mas que só agora compreende na verdade. As histórias que ela ouve são sempre as mesmas e nunca são as mesmas — e, depois do que lhe aconteceu duas semanas antes (e que eu não irei contar), é como se ouvisse todas as histórias pela primeira vez.

É então que, em redor da aldeia, ouvem ruídos de passos. Vêm de todos os lados. Os homens levantam-se de imediato e reluzem espadas e facas vindas não se percebe bem de onde. Algumas mulheres correm com as crianças para as tendas. Loki fica calado, a olhar para a fogueira. Hrathgor olha para o irmão com olhos severos e o contador lá se convence a ir buscar a sua arma.

A julgar pelos sons que ouvem, a tribo julgo estar cercada por várias dezenas de pessoas. Miriam olha em redor. Pega também numa espada.


O mensageiro de Laio

Por entre as árvores, surge então um homem grande, sujo e feio, com ar gozão. Os dois filhos de Hrathgor aproximam-se dele com espadas alçadas, mas o pai, com um gesto, indica-lhes que devem ouvir o que o mensageiro tem para dizer.

O homem aclara a voz e põe-se a cuspir com dificuldade a língua da tribo:

—  Meus caríssimos brutos. Venho em nome de Laio, o Esplendoroso.

Hrathgor treme um pouco. Sabe bem a fama do bicho, desse romano vaidoso que obriga todos aqueles que subjugava a gritar «Avé Laio»  —  e de joelhos! E também já ouviu da boca dum outro chefe as histórias do que ele fazia às mulheres das tribos.

O enviado de Laio explica então, alargando os braços, num sorriso triunfal:

— Aqui em redor estão dezenas e dezenas de soldados romanos. Todos às ordens de Laio! Vamos destruir esta aldeia e matar-vos um a um.

Cala-se por segundos, as labaredas reflectidas na pele e nos metais que veste. A tribo, calada, bebe as suas palavras, como minutos antes bebera as palavras das histórias de Loki.

E, sim, todos acreditam naquela mentira. Porque os quatro romanos manhosos, na verdade, sabem correr em redor do acampamento, com passos multiplicados com as mãos a bater nas árvores e nos metais da farda. É um dos truques de Laio: com poucos homens, sabe criar a ilusão duma legião inteira.

O mensageiro de Laio continua então:

— Há uma solução… Basta que entreguem ali a cria do rei, essa ruiva ali sentada — e aponta para Miriam, que aperta a espada com mais força — e nada acontecerá. Levaremos a miúda e a tribo continuará a vida como se nada fosse.

Os homens e as mulheres da tribo, em terror, olham para o seu rei, que se aproxima do romano.

Rodeia-o como a uma presa — uma presa orgulhosa, é certo — e cospe-lhe na cara.

Diz-lhe então, com voz calma:

— Se são assim tantos, do que estão à espera? Sejam menos cobardes e apareçam. — Grita bem alto, para a floresta: — Apareçam, cabrões! Venham cá! A minha filha é que não entrego e morreremos todos, se preciso for. Mas viva é que não a levam!

O romano sai dali com o desprezo a pingar dos lábios. Laio sorri, por trás duma árvore. Com gestos, pede aos colegas para esperarem um pouco. A coisa resolve-se. Esteve a olhar com atenção para as caras dos filhos do rei…

Hrathgor sabe o que vem aí. Puxa a filha pela mão e leva-a para a tenda principal. Lá dentro, abraça-se a ela e diz-lhe palavras ao ouvido que não posso revelar.

Como disse, Hrathgor julgava saber o que vai acontecer — mas enganou-se. Esperava a morte; talvez o fogo; talvez a espada afiada dum romano transviado. O que ele não esperava era ver os dois filhos a entrar na tenda e a prenderem-no eles mesmos, pegando na irmã à força, para a levar dali para fora. A cara de Miriam era de surpresa — percebeu que seria entregue pelos irmãos como sacrifício àqueles romanos sujos armados em deuses.


A história não fica por aqui, claro — mas isto faz-se tarde e tenho de ir jantar. O fim do relato — que é o início duma outra história que chega aos nossos dias — está no livro A Baleia Que Engoliu Um EspanholMas entre este início que hoje vos contei e o fim que está no livro houve muitas peripécias. Miriam não acabará a viagem sem matar umas quantas pessoas — e ainda nem chegámos à mulher nua a correr pela floresta que prometi no início. Fica essa história para a semana que vem. Se quiser, pode receber os próximos episódios…

«Estivéramos» é erro de português?

Há umas semanas, tive uma espécie de duelo virtual com um senhor que dizia ter encontrado a prova irrefutável da decadência da língua: um amigo dele tivera o desplante de usar a estranhíssima expressão «estivéramos lá oito professores».

O contexto é este: estavam eles (o tal senhor e o amigo) a conversar sobre uma escola que tinha fechado. Ora, a escola fechou e, antes disso, afirmou o amigo, «estivéramos lá oito professores a trabalhar».

É isto um erro de português?

Não me parece. O pretérito mais-que-perfeito é adequado naquela situação, embora nos soe já um pouco estranho por estarmos pouco habituados à forma verbal. Ao vivo e a cores é já muito raro usarmos tal relíquia da nossa gramática. E é pena. Mas pior ainda é encontrar sinais de decadência no uso dum tempo verbal tão bem feito e simpático.

Num comentário por baixo do tal post de Facebook, disse isto mesmo: talvez aquela palavra não fosse um erro. O senhor não gostou. Não só me descascou forte e feio, como ainda insultou quem teve o desplante de dizer que talvez eu até tivesse alguma razão.

Por fim — e isto é curioso — ainda nos deu a todos a lista de todos os jornais em que já tinha escrito, como se isso tivesse alguma coisa que ver com a correcção ou incorrecção daquela palavrinha. Continuou a enumerar as línguas em que sabia escrever e terminou dizendo, para quem o quis ouvir, que nunca ninguém lhe dissera que escrevia mal! Estivéssemos mas é calados que ele é que sabia. A coisa não ficou por aí. Recebi ainda uma mensagem privada do mesmo senhor a dizer que eu não tinha nada de o pôr em causa e não sei que mais.

Eu respirei fundo, já arrependido por ter comentado um texto de tal personagem. Disse-lhe então, com calma, que apenas afirmara, sem mal algum, que «estivéramos» existe e que me parecia correcto naquela situação. Não concordei com a opinião dele, segundo a qual, o pretérito mais-que-perfeito não podia ser usado naquele contexto. Podia dar-se o caso de eu estar errado e a forma verbal não ser adequada no diálogo em questão. Mas, seja como for, o meu comentário certamente não valia a tempestade com que o senhor me azucrinara o juízo (perdão antecipado pelo mais-que-perfeito que acabei de usar).

Enfim, nada mais há a concluir do estranho episódio do que isto: a arrogância existe no mundo e, no que toca à língua, parece que há gente com poucos travões nessa arrogância.

Mas trago aqui este episódio para referir outra coisa. Na discussão que entretanto começou por ali, uma das «regras» que me apresentaram para provar que eu estava errado era esta: o pretérito mais-que-perfeito só deve ser usado numa frase onde outro verbo esteja no pretérito perfeito.

Este é um exemplo de «regra à pressão»: uma regra inventada naquele momento para justificar uma ideia sobre a língua — e que serve de substituto à observação atenta dessa mesma língua tal como existe na boca dos falantes.

«O pretérito mais-que-perfeito exige sempre o pretérito perfeito na mesma frase.» Soa bem, parece uma regra, mas não é assim que a língua funciona. Nós podemos usar o pretérito mais-que-perfeito mesmo quando não temos o pretérito perfeito na mesmíssima frase. Basta estarmos a pensar num evento passado que ocorreu antes doutro evento passado que esteja na nossa ideia naquele momento. «Trouxeste o livro lá de casa? Não, a minha mãe já o dera ao meu primo…» A segunda frase não tem pretérito perfeito nenhum e o pretérito mais-que-perfeito fica ali muito bem. Claro que no dia-a-dia substituímos pela forma composta — «a minha mãe já o tinha dado ao meu primo» — mas a lógica é a mesma.

As regras do português encontram-se quando observamos a língua com atenção, o que implica não saltar logo para a conclusão que os falantes estão errados quando alguma coisa não nos soa bem. As regras de português não se encontram pensando em lógicas repentinas, só porque nos apetece e só porque dá jeito para provar que os outros são burros e nós é que falamos bem. O respeito pelos falantes é essencial quando nos propomos dizer alguma coisa sobre o assunto.

Sim, os falantes enganam-se. Sim, os falantes usam vários registos e formas que não são adequadas a todas as situações. (E, sim, os falantes por vezes não sabem escrever, mas isso é outra questão.) Mas, apesar dos erros, é na boca dos falantes que encontramos as regras da língua. Não é nas nossas invenções apressadas.

Tudo para dizer que inventar regras à pressão para justificar os nossos preconceitos é precisamente o que não devemos fazer nisto da língua. Tal como também não devemos chegar a conclusões definitivas sobre o estado da língua com base numa qualquer conversa — o tempo verbal até podia estar errado sem que daí pudéssemos dizer fosse o que fosse sobre o estado da língua em comparação com outras épocas. Ou será que houve alguma década dessas que já lá vão em que ninguém se enganava num tempo verbal enquanto conversava com um amigo?

Mas — admito: o português já não é como era. Usamos muito menos o pretérito mais-que-perfeito do que antigamente. Mas quando o usamos, por amor da santa, deixem-no lá sossegado.

O dia em que conheci um russo com um buraco no pescoço

Há uns tempos, comecei a contar por aqui uma certa viagem que fiz a Nova Iorque. Nessa altura, revelei o que aconteceu no voo — e também já dei uns lamirés sobre o que se passou dentro do quarto do hotel na 42nd Street. Pois hoje conto como fui dar com um russo que tinha um buraco no pescoço ali numa rua de Brooklyn.

Antes disso, tenho de explicar que aquele foi um dia de muitos sustos — talvez até me atrevesse a chamá-los de presságios, não fosse dar-se o caso de… Bem, já vos digo o caso que se deu.

Primeiro presságio: o ataque de que fomos vítimas…

1. O ataque no Central Park

Tudo começou num passeio que demos no inevitável Central Park. Não sei se o leitor concorda, mas aquele parque urbano parece uma espécie de ferida verde num corpo feito de pedra. Os prédios que o rodeiam são exagerados, quase feios — embora o conjunto seja de tirar a respiração.

Pois lá fomos nós armados em antropólogos de fim-de-semana. Por ali estavam as personagens de muitos dos filmes que vemos, na dieta de cinema norte-americano que é apanágio de muito português. As empregadas a tomar conta dos filhos das senhoras, os joggers de fios a sair das orelhas, os Mr. Bigs de telefone na cara e confiança no passo e os cinquentões à Woody Allen a discutir em gabardines nervosas.

Era Setembro e estava sol. O sossego era bom. Passeámos pelos lagos, pelos caminhos, por aquela natureza que, de tão pensada que foi, tinha o seu quê de selvagem. Ao mesmo tempo, aquela era uma paisagem há muito conquistada pelos filmes, pelos livros e pelas fotografias que nos inundam a mente e nos tornam a todos um pouco nova-iorquinos (muito pouco, admito).

Adiante. Lá estávamos nós a passar ao pé dum lago quando, de repente, a Zélia dá um grito de dor e leva as mãos à cabeça.

Tinha sido barbaramente atacada.

Por um esquilo.

E o gajo estava lá em cima da árvore com outra bolota na mão. Atirou-nos, malvado, mas já não nos acertou.

A Zélia estava estupefacta: uma bolota aleija e não é pouco. Ainda fui atrás do esquilo para lhe ensinar o que era bom tirando-lhe uma fotografia às trombas, mas não consegui. Fotografei um dos irmãos, que estas vinganças podem servir-se à família sem que daí venha mal ao mundo.

O que aconteceu a seguir? Nada. Continuámos. Dali a umas duas horas, quando anoitecesse, tínhamos um encontro marcado na Union Square.

Fomos gastá-las para uma livraria de cujo nome já não me lembro e que vendia, no meio dos livros, roupa. Não me lembro do nome, mas lembro-me dos livros que comprei, claro está, embora agora não me apeteça revelar quais foram.

2. Um susto em Union Square

Nessa noite, tínhamos um encontro marcado com o Filipe, amigo do meu irmão Diogo, que vivia por aqueles tempos em Nova Iorque, a estagiar como técnico de som.

Do caminho da livraria até à praça, em que entrámos no violento metro daquela cidade, lembro-me de pouca coisa: lembro-me bem melhor das páginas que me pus a ler e do livro que tinha na mão — diga-se que tinha sido comprado numa banca de livros usados à porta da tal livraria/loja de roupa.

O sol já baixara. A Union Square era um rodopio de casais aos beijos e grupos de estudantes a conversar. Lá ficámos à espera. Foi agradável estar ali um pouco entre nova-iorquinos, a sentir a outra cidade com um encontro marcado, a imaginar as vidas inteiras que por ali passam e as rotinas e sobressaltos que ali tinham a sua paragem.

De repente, chega-se um rapaz ao pé de mim e diz-me:

— Deixas-me ver o teu telemóvel?

3. «Passa para cá o dólar»

Não, não foi um assalto. Ele queria apenas saber o modelo de telemóvel. Pediu-me então, simpaticamente, para ir à loja online do telemóvel e procurar um jogo em concreto.

Procurei o jogo e mostrei o resultado. E ele, feliz:

— Este jogo fui eu que o fiz! Queres comprar?

Não era por ter ali o programador ao lado, mas o jogo parecia-me realmente engraçado. Custava 1 dólar. Tentei comprar, mas não deu, porque a minha loja online era portuguesa e não me deixava comprar o jogo ali nos Estados Unidos (não me lembro bem porquê).

O certo é que prometi comprá-lo logo que chegasse a Portugal. E ele acreditou. E eu comprei — ainda passei umas boas horas a jogar àquele jogo, entre as traduções e as saudades das viagens, num prazer que certamente vale muito mais do que o mísero dólar que paguei.

Já aqui escrevi algumas vezes — e não sou o único a dizê-lo — que os livros são uma espécie de caixinhas de recordações: abrimos as páginas dum livro e lembramo-nos bem dos sítios onde o lemos, onde o comprámos, onde o folheámos distraidamente.

Pois, naquele caso, um jogo de telemóvel foi uma dessas caixinhas de recordações em miniatura: quando me punha a jogar nas semanas seguintes, lembrava-me sempre daquele rapaz que criara um jogo e o andava a vender pelas ruas de Nova Iorque.

Voltemos à Union Square, que se faz tarde e já é de noite: conversámos um pouco com o rapaz — até que vimos o Filipe a surgir pelo meio da multidão, com o sorriso que já conhecia da minha terra.

4. Um caçador de sons em Nova Iorque

Começou-nos logo a contar como eram os dias de Nova Iorque. E, ao contrário do que acontece noutros casos, pusemo-nos a ir mesmo aos sítios da sua vida nova-iorquina.

Começámos pelo laboratório de som onde ele trabalhava. Ficava na Broadway, num prédio onde nenhum turista se atrevia a entrar.

Nada tenho contra fazer turismo: sempre gostei de viajar e não tenho assim tantas certezas sobre a fronteira entre turista e viajante. Sei que existe, mas não sei onde fica. Às vezes, parece-me que a atravesso várias vezes numa só viagem.

Mas também sei que é precisamente naquele momento em que entramos num sítio qualquer que não vem nos guias que uma viagem ganha outro tom, outro sabor: pois é então que até um mísero elevador num velho prédio da Broadway nos parece delicioso e parte duma cidade que agora também é um pouco nossa.

Bem, deixemo-nos de delírios. Lá em cima, no laboratório, eram televisões aos montes, microfones pendurados como estalactites ou perdidos no chão como estalagmites, gravadores e televisores e outros quantos materiais de imagem e som.

O Filipe ainda nos mostrou o seu equipamento de caçador de sons: as almofadas nos ouvidos e o microfone pendurado na sua cana muito particular. Não era aquilo que usava todos os dias. O que tinha na mão chegava. Confessou-nos então que andava por Nova Iorque de aparelho em riste, a caçar aquilo em que poucos reparam: a porta do metro que se fecha, uma conversa passageira numa língua desconhecida, a travagem dum taxi, um insulto dum mafioso, os sons dentro dum café na Village, o sino duma igreja entalada entre dois arranha-céus, o primeiro beijo de dois adolescentes, uma bolota atirada por um esquilo…

Apetecia-me ficar com essas outras fotografias de que ninguém se lembra. Os sons. Os cheiros. Aquilo que desaparece logo que levantamos voo, deixando-nos com fotografias mal tiradas duma cidade a duas dimensões. Pois que as cidades têm todas tantos lados e tanta coisa e até o passar as mãos nas paredes sabe bem e apetece — e é tão difícil guardar… Lá está, só a fraca memória e os deliciosos livros…

Pensámos então em ir jantar. Queixámo-nos dos preços naquela ilha — e o Filipe propôs-nos que fôssemos com ele até Brooklyn, onde iríamos ao supermercado, baratíssimo. Depois, ele tinha lá uma mesa em casa…

— Mas aviso: lá em casa vive um russo com um buraco no pescoço.

5. Os estranhos feiticeiros de Brooklyn

Pois lá fomos, de metro, até Brooklyn. Pelo caminho, íamos conversando sobre aquelas temas a que os viajantes se agarram: pensamos ver um padrão qualquer nos países por onde andamos e, de repente, contamos uns aos outros todos os casos que confirmam esse padrão, com o entusiasmo de quem descobriu uma verdade qualquer sobre o mundo — ou pelo menos sobre uma rua qualquer de Nova Iorque. Este método não me parece ser muito científico, mas é o que temos quando andamos a conversar em ruas longe de casa. E, para dizer a verdade, às vezes as conclusões são pouco mais absurdas que as conclusões a que chegamos sobre a nossa própria terra.

Naquele dia, falámos da estranha simpatia dos nova-iorquinos, que foi uma surpresa para nós, habituados a ouvir falar duma cidade de gente antipática. E o Filipe confirmava: logo no primeiro dia, tinha pedido informações a uma senhora que o ajudou até à exaustão. Depois de o largar, ainda gritou mais uma indicação da janela aberta do carro, por entre os táxis de Nova Iorque. E o Filipe, parado no passeio, olhava de boca aberta para aquela nova-iorquina de simpatia a toda a prova.

Da minha parte, contei como tinha passado à frente — sem querer — numa fila num café e o homem que tinha assim sido relegado para o lugar logo atrás de mim olhou-me não com indignação, mas com surpresa: parecia ser a primeira vez que tal lhe tinha acontecido. Pedi desculpa quando reparei e lá fui para o lugar que me competia, sem problemas e sem estalo. (Foi sorte, eu sei.)

A Zélia contava o estranho caso dos sapatos na mão: pois vimos não sei quantos nativos da zona a correr pelos passeios de sapatos bonitinhos na mão e ténis confortáveis nos pés. Chegámos à conclusão que aquela gente anda tanto quilómetro de manhã que precisa de calçado adequado à corrida — logo no escritório calçam os sapatos mais consentâneos com a importância da tarefa que têm entre mãos.

A casa do Filipe ainda era longe e, quando saímos do metro, andámos pelas ruas a tentar absorver aquela outra cidade dentro de Nova Iorque. Manhattan aparecia-nos como uma loucura de luzes por entre as casas, contra um céu muito escuro. A ilha, vista dali, deixa-nos muito pequeninos. Já as ruas de Brooklyn são duma normalidade que nos deixa desorientados.

Pois foi então que a normalidade se esvaiu num segundo. Apareceram-nos homens com chapéus negros altíssimos, capas brancas e ar de — como direi — feiticeiros. Andavam a percorrer as ruas e a entrar em várias casas, onde as famílias os recebiam felizes.

O Filipe explicou-nos então que aqueles eram judeus ortodoxos que faziam visitas às casas dos correligionários nas sextas-feiras à noite para conversar e conviver.

Continuámos a percorrer as ruas e, entre aqueles homens de chapéus estranhos, víamos talhos turcos, mercearias polacas, restaurantes bálticos e, entre as casas, a embriaguez das luzes de Manhattan como cenário.

Passou um metro por cima de nós e tive vontade de pegar no gravador dele para guardar para sempre aquelas cores, aqueles cheiros e aqueles sons duma noite banal de Nova Iorque.

6. Uma família siberiana

Aproximamo-nos do momento em que conhecemos o tal russo de buraco no pescoço. Mas antes disso fomos a um supermercado normal, barato (e que sabor tem essa palavra depois duns dias de Manhattan), onde comprámos qualquer coisa para jantar.

Pois bem: deixe-nos agora o leitor a escolher pizzas e outras iguarias nos corredores pouco originais do supermercado. Quero agora contar que, nesse dia ou no dia anterior, visitámos o Museu de História Natural — aquele mesmo onde o Ben Stiller andou a tomar ácidos há uns anos.

Pois bem, a certa altura tive aquilo que algumas pessoas chamam de «epifania» e eu chamo de «momento de cansaço».

Estávamos perante uns bonecos dentro dum vidro, daqueles que parecem muito reais, tão reais que o Ben Stiller ainda hoje jura tê-los visto a falar nessas tais noites no museu.

Olhei para aquela cena: uma tenda no meio da Sibéria, uma família — uma mãe, um pai, um filho — protegidos da neve e a comer qualquer coisa. A cena representaria a vida naquelas paragens longínquas há uns bons milhares de anos.

E, tal como, se repetimos uma palavra muitas vezes, ouvimos o som pelo que ele é e não pelo que significa — ao olhar com muita atenção para aqueles bonecos, abstraindo-me de estar em Nova Iorque, num museu, vi como aqueles seres humanos viveram mesmo à neve, em florestas e espetes longínquas — e como aquelas vidas, para eles, eram tão completas como as nossas vidas de gente citadina, que viaja. No fundo, tive ali consciência de como aquelas vidas eram tão humanas como as nossas, com histórias, sarcasmos, discussões, amores e filhos e comida e tantos medos. De alguma maneira, aquela família era ainda mais real do que eu, turista a olhar para bonecos para lá dum vidro.

As epifanias são assim: impossíveis de explicar, ainda por cima a mais de cinco anos de distância. Porque me lembrei agora daquela família? Não sei. Talvez por causa da tal conversa do russo com buraco no pescoço. Provavelmente, o homem tinha tanto a ver com aquela família siberiana como eu. Mas não deixei de pensar como, agora, andamos pelo mundo misturados e nessa altura, em que uma família se abrigava em tendas, uma viagem de alguns quilómetros era uma aventura que seria suficiente para dar origem a lendas e sagas que duravam séculos.

Voltemos pois a Brooklyn, onde já estamos a sair do supermercado de sacos na mão.

— Mas que história é essa do buraco no pescoço?

Ele riu-se:

— Não faço ideia. Ele vive lá em casa e tem um buraco no pescoço. Não liguem. Em princípio, ele não vos faz mal.

Ficámos calados, a olhar. Seriam aquelas as últimas imagens que veria antes de ser barbaramente assassinado por um ex-agente do KGB?

Há sítios piores para morrer. Se tivesse de ser, que fosse rápido — e sem buracos no pescoço.

7. Por fim, o russo e o seu pescoço

Entrámos na casa. Pusemos os sacos na mesa. Olhámos pela janela e lá andavam os feiticeiros de chapéus na cabeça. O Filipe continuava a contar as suas aventuras à procura dos sons de Nova Iorque.

Entrou então na cozinha um homem com cara de mau, como se quisesse confirmar a nossa imagem estereotipada dum agente secreto. (Fico um pouco corado de vergonha: por que razão um russo em Nova Iorque me leva a pensar em agentes secretos?)

O Filipe disse «olá», o homem cumprimentou-o — e não nos disse nada, como se não existíssemos. Subtilmente, eu e a Zélia aproximamo-nos um do outro.

Tentámos ver-lhe o pescoço mas ele franziu os olhos e não virou a cabeça. Olhou para nós. Nós olhamos para ele. Caiu naquela cozinha o silêncio que todos conhecemos daquelas situações em que tentamos ver o pescoço de outra pessoa e ela não deixa.

Vira, não vira, o certo é que o russo encolheu os ombros e virou-se para sair.

E foi então, com um salto, que vimos o tal buraco no pescoço. Ou melhor, vimos qualquer coisa estranha ali entre o cabelo e o colarinho da camisa. Teria levado um tiro? Teria sido preso na Sibéria? Teria tropeçado num degrau à saída do supermercado? Teria um problema de pele?

Sobrevivemos — e eu pensei nas vidas e mistérios que se escondem numa rua banal de Nova Iorque ou de qualquer cidade. Ou até numa tenda na Sibéria ou por trás dum colarinho dum russo nova-iorquino.

O Filipe riu-se da nossa cara de susto e voltámos à conversa de portugueses perdidos numa cidade estrangeira — como seria o nosso aspecto aos olhos daquele russo? Como soaria a nossa língua aos ouvidos dele? Ou o que diriam de nós aqueles homens vestidos de negro que percorriam as ruas de Brooklyn? Ou os nova-iorquinos que, por um momento, saíssem do adormecimento de tantos milhões de turistas e olhassem para nós com olhos de ver? Somos todos um pouco estranhos — mas não deixamos de ser todos mais parecidos do que parece, se virmos bem: desde famílias siberianas numa tenda, passando por judeus ortodoxos, até portugueses a fazer compras num supermercado de Brooklyn. Se a roda do mundo assim quiser, podemos ser vizinhos de qualquer humano deste mundo. Diremos então «olá», a imaginar o que se esconde por trás daqueles olhos e das cicatrizes que todos temos.

Por hoje, fico por aqui. Como disse no início, foi um dia de muitos sustos, de muitos presságios. Mas não aconteceu nada — e aconteceu tudo. Falei-vos de caçadores de sons, vendedores de rua de jogos virtuais, russos com buracos no corpo, feitiços de sexta-feira à noite, portugueses a deambular por Brooklyn. Demos uma boa espreitadela na estranheza que se esconde por trás de todas as esquinas do mundo.

Até à próxima viagem!

Um pescoço bem cortado

Devereux tremeu ao ouvir os passos do meirinho e do carrasco.

Enquanto era transportado para a morte, gritava:

– Eu sei onde está o tesouro!

Mas desistiu. Em breve, a sua cabeça rolaria pela terra molhada do pátio da Torre de Londres.

Limitou-se a pedir ao carrasco que fosse rápido – e decidiu informá-lo:

– Já fui amante da rainha, sabia?

O carrasco olhou para aquele homem e sentiu um calafrio. Era a primeira vez que executava alguém.

O primeiro golpe acertou no cabelo, sem beliscar a pele ao pobre conde. Devereux atirou, como se estivesse a falar com um criado nos seus tempos de riqueza:

– Ó homem, mas é assim tão difícil acertar no pescoço? Vá, despache-se que a minha vida não é isto.

Mas de repente calou-se. A lâmina do carrasco brilhava e em breve acertar-lhe-ia no pescoço. Seria rápido? Iria sentir dor? E depois? O que se seguiria?

A segunda estocada já acertou no pescoço – e a terceira separou a cabeça do amante da rainha. Naquele momento, o olhar do homem apagou-se para sempre – e para sempre se perderam as suas memórias de rainhas nuas, salteadoras esplendorosas, guerras e feitos de admirar, tesouros escondidos pelo mundo e muita vontade de aventura. Tudo acabou naquele momento – mas foram décadas duma vida bem preenchida.

Conto tudo isto porque tenho muito a agradecer a este nobre inglês. Aquele pirata inglês, enquanto esperava pela morte, contara as histórias do Tesouro de Saturno ao seu companheiro de cela. Se não o tivesse feito, eu nunca teria ouvido aquelas histórias da boca do meu avô.

O carrasco pegou pelos cabelos na cabeça de Robert Devereux, mostrou-a à assistência e gritou «God Save the Queen».

(Capítulo 25 de A Baleia Que Engoliu Um Espanhol)

Agruras dum comprador de livros

Gosto de livrarias. Aliás: gosto muito de livrarias. Mas confesso este pecado: de vez em quando, lá mando vir um ou dois ou três livros lá de longe. E a livraria cujo nome não vale a pena pronunciar manda-me os livros e eles chegam aqui.

Com o tempo, tal como há prazer em passar os dedos pelas lombadas dos livros que nunca hei-de comprar numa boa livraria, aprendemos que também há prazer em receber esses pacotes castanhos com livros dentro. Como se fosse Natal quando um leitor quiser.

Bem, o certo é que a tal livraria inglesa de nome brasileiro, quando manda uma encomenda, deixa-nos bisbilhotar por onde andam a passear os nossos livros. Vamos lá à página e vemos a viagem quase em directo. E eu quero ver. E vou ver. E lá vou esperando, a afagar as mãos, pelos meus livrinhos.

Ora, esta semana, encomendei uns livros na página espanhola da tal livraria. A minha lógica foi esta: Espanha está mais perto, os livros chegam mais rápido. E sempre vou treinando para o Brexit.

Fiz a encomenda e, minutos depois, fui espreitar onde estavam os meus livros. Pois, logo me apareceu a primeira paragem da viagem dos livros: França.

França? Então, mas não era Espanha?… Enfim, tudo bem, eles é que sabem.

A terra donde saíram os livros chama-se Gidy. Hum, cheira a terra com muita flor e um rio. Muito bem, comece a viagem dos meus livrinhos. Vá, venham por aí abaixo até mim, até Lisboa…

Pois os livros em vez de virem para sul, vão para norte e chegam, horas depois, a St Jean de la Ruelle. O que é isto? O que se passa? Quem anda a passear com o meu livro pela França? Portugal é para baixo, ó ignaro condutor de camiões transportadores de bens preciosos.

Pois, em poucas horas, os livros passam de St Jean de la Ruelle para Chilly Mazarin, ainda mais a norte. Não só estou a ver os livros a afastarem-se em direcção ao Mar do Norte, como ainda por cima estou a ficar com fome de estrada.

Porra: eu é que queria estar em Chilly Mazarin ou lá o que é! É verdade: gostava ainda mais de estar em Nice ou na Córsega, mas não se pode ter tudo. Aliás, nem sequer se pode ter Chilly Mazarin, quanto mais.

Fui dormir. Na manhã seguinte, acordo, ponho os óculos, pego no telemóvel, vejo onde estão os livros ainda estremunhado.

Os livros estão em Benavente! Viva! Lisboa à vista!

Só que aparece “Benavente, ES”. ES? Espanha? Mas o que é isto? Fomos invadidos?

Percebo então que há um Benavente perto de Zamora. Raios. Eu queria os meus livros agora. Prometo nunca mais fazer isto e, a partir de agora, comprar todos os meus livrinhos em livrarias. Isto de adiar a satisfação é importante para a vida, mas muito aborrecido.

E, ainda por cima, o raio dos livros ficam em Benavente um dia inteiro! O que raio há em Zamora para ver? Nada! Venham lá embora, se faz favor.

E, ao fim da tarde, eles saem lá de cima e vêm por aí abaixo. E eu contente, já a sentir a vibração daquelas páginas.

Por fim, ao som de Wagner, vejo o camião a dobrar a esquina. Sorrio. O camião passa por mim sem parar. Fico triste em câmara lenta. Até que os meus livros travam. O homem enganara-se. Marcha-atrás. Estacionamento perfeito. E lá aparece o senhor de chapéu na cabeça e caneta na mão, com o meu embrulho castanho.

Assino aquilo, digo um obrigado a correr e destruo com prazer o cartão. Aliviado, passo os dedos pelos livros vadios. Fecho os olhos e penso: a felicidade, às vezes, está no cheiro dum livro novo.

Somos bichos muito estranhos.

Agora, desculpem, mas vou ali ler e já volto.

Episódio 2 – O dia em que um livro me salvou a noite

O episódio de hoje é curtinho — falo daquela vez em que um livro me ajudou a sair do Colombo.

Episódio 1 – Cinco ideias para quem escreve na Internet

Neste episódio, dou cinco ideias para escrevermos melhor na Internet.

Sabe, por exemplo, qual é o tamanho ideal para um texto num blogue? Enfim, será sempre um palpite, não é verdade? Mas neste episódio digo o que penso sobre o assunto.

Espero que gostem — e cá estarei à espera dos comentários.

Já agora, a assinatura no iTunes é feita nesta página. (E o livro que refiro no final do episódio é Quem disser o contrário é porque tem razão, de Mário de Carvalho.)

Convite: a Baleia chega a Peniche

É já esta quinta-feira: A Baleia Que Engoliu Um Espanhol chega a Peniche — donde, aliás, nunca saiu, não é verdade?

Quem quiser dar uma voltinha a essa terra no meio do mar será muito bem-vindo. Até pode dar um saltinho a Atouguia da Baleia e ficar a conhecer o osso da dita baleia… Ou, se quiser, vá até à praia — também fica muito bem servido.

O livro será apresentado às 21h30, dia 3 de Agosto, na Feira do Livro, no Clube Recreativo Penichense. A apresentação — organizada pela Câmara Municipal de Peniche e pela Associação Juvenil de Peniche — também está no Facebook:

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