Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Setembro 2017 (Página 1 de 2)

Feliz Dia do Tradutor

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Cinco belas palavras da língua basca

Hoje levo os leitores deste blogue a uma viagem por cinco palavras da mais estranha língua dos nossos arredores. Sim, o basco. Há uma surpresa lá pelo meio: pois quem diria que, a partir do basco, iríamos acabar por falar de índios e cowboys?


Ao contrário do que se possa pensar, o basco é hoje uma língua em crescimento — mas sobre esse fenómeno falaremos noutro dia. Para já, queria mostrar este mapa, talvez pouco conhecido em Portugal. São as sete províncias que os nacionalistas bascos consideram parte da sua pátria.

Neste mapa, quanto mais verde estiver uma área, maior a percentagem de falantes do basco. Nas áreas mais escuras, a percentagem é superior a 80%.

As três províncias à esquerda (uma delas tem um buraco no meio, o que é curioso e talvez mereça um artigo um dia destes) constituem o País Basco que todos conhecemos, que é uma comunidade autónoma de Espanha. A província maior, ao meio, é Navarra, uma outra comunidade espanhola, separada do País Basco. As três províncias no canto superior direito são parte de França.

Se o leitor olhar com atenção, verá que há uma província (a que tem o buraco no meio, ou seja, Álava) onde o basco quase desapareceu. O peso da língua está em Guipúscoa (capital: Donostia / San Sebastián), no norte de Navarra e em França… Diz-me quem já lá foi que há aldeias de Guipúscoa onde é difícil encontrar alguém a falar espanhol na rua. Por outro lado, se formos passear para Bilbau, será difícil ouvir alguém a falar em basco, a não ser que entremos numa escola.

Aqui ficam os nomes bascos das sete províncias:

  • Bizkaia
  • Araba
  • Gipuzkoa
  • Nafarroa Garaia
  • Lapurdi
  • Nafarroa Beherea
  • Zuberoa

Bem, chega de mapas. Vamos às palavras:

1. Itsaso (mar)

Esta bela palavra engana bem, pois estamos habituados a olhar para o mar e ver por ali a ondear uma só sílaba. Em basco, o mar tem esse som mais picado — e, se há povo marítimo, são os bascos — que chegaram longe nos seus barcos de pesca.

2. Itsasgizonak (marinheiros)

Os marinheiros bascos chamam-se «itsasgizonak»que significa, literalmente, «homens do mar». Temos «itsaso» (mar), «gizon» (homem) e o «ak» que marca o plural.

Pensará agora o leitor: para um povo de marinheiros, será estranho que nenhum deles seja conhecido. Ora, talvez se lembre dos livros de História que o nosso Fernão de Magalhães tentou dar a volta ao mundo, só que morreu a meio. Quem terminou a viagem foi um tal de Elcano, que também pode ser chamado de Elkano — e era basco… E não foi o único marinheiro basco que andou pelo mundo!

2. Arrantzaleek (pescadores)

Os pescadores bascos aventuraram-se desde muito cedo pelas águas do Atlântico Norte e chegaram bem longe. É possível que tenham arribado às costas americanas ainda antes de Colombo.

Mesmo que não tenham sido os primeiros europeus a pisar aquelas terras, a verdade é que se tornaram presença assídua por aquelas paragens — e surgiu até uma espécie de lingua franca (o pidgin referido neste artigo) que misturava basco com línguas dos nativos americanos. Os nativos americanos usaram, durante muitas gerações, várias palavras bascas.

Estas voltas do mundo são curiosas, não são? Aqueles índios que imaginamos imponentes, em cima do cavalo, à espera dos cowboys, podiam muito bem usar entre eles algumas palavras bascas, aprendidas décadas antes da boca dum pescador na foz do rio São Lourenço. Os Pirenéus em contacto com o Velho Oeste…

Nesta página, encontramos um artigo da Smithsonian Magazine sobre a presença basca na América do Norte.

4. Ur (água)

Fonte: UK Data Explorer.

Se o nome do mar parece, em basco, ter sílabas a mais, a água parece ficar reduzida ao murmúrio duma fonte. Mas isto são impressões dum português a tentar orientar-se no meio de palavras tão estranhas — na verdade, este «ur» é interessante mais por ser tão diferente de todas as águas em seu redor do que por nos soar, por acaso, a murmúrio.

5. Bost (cinco)

No quinto lugar, deixo o próprio número 5.

Se alguém ficou com curiosidade, aqui ficam os dez primeiros números em basco:

  1. bat
  2. bi
  3. hiru
  4. lau
  5. bost
  6. sei
  7. zazpi
  8. zortzi
  9. bederatzi
  10. hamar

St Jean Pied de Port, no País Basco francês. Em basco, a terra chama-se Donibane Garazi.

Podia ter optado por outras palavras mais conhecidas — por exemplo, «kale borroka» (luta de rua) ou mesmo a palavra usada para descrever alguns partidos bascos: «abertzale» (uma palavra inventada pelo pai do nacionalismo basco, Sabino Arana, e que significa «patriota»).

Há ainda o próprio nome do País Basco, «Euskal Herria», que se aplica não à comunidade autónoma espanhola (que se chama, em basco, «Euskadi»), mas sim toda a nação basca como entendida pelos nacionalistas, o que inclui as sete províncias que vimos no início.

Podia ainda referir a expressão «ongi etorri» (bem-vindo), que já vi em placas na estrada e dá sempre jeito, ou aquela expressão que tantos aprendem a dizer em muitas línguas: «maite zaitut» (amo-te).

Mas fiquemo-nos, por hoje, por mais esta palavra:

«Agur!» — ou seja, adeus!

Nomeação para o Prémio Blogs do Ano 2017

Como dizem os nossos amigos brasileiros, fico sem jeito ao dar esta notícia. Afinal, nunca pensei ver um blogue sobre línguas misturado com os blogues de moda, de família e todos os outros que nós conhecemos bem. Mas a verdade é que o blogue Certas Palavras é um dos nomeados dos Prémios Blog do Ano.

A categoria é Educação e, se quiser votar, pode fazê-lo nesta página — e, já agora, se gosta do blogue, partilhe a notícia pelas famosas redes sociais…

Muito obrigado!

A Catalunha e a banda desenhada húngara

Todos nós temos aquele amigo que gosta de qualquer coisa muito estranha a que mais ninguém liga. Nuns casos, será a banda desenhada húngara; noutros será o cinema do Cazaquistão; imagino ainda quem tenha um gosto muito particular por literatura do Tajiquistão ou pelas as revoltas internas na província de Sichuan na China.

Pois, para os meus colegas da faculdade, eu era esse amigo esquisito com uma mania absurda. Todos eles sabiam de cor: eu tinha uma peculiar e inexplicável inclinação por tudo o que tivesse alguma coisa a ver com a Catalunha.

Sim, sabia mais do que é saudável sobre a sua história, lia literatura catalã (!) — e quando jogávamos ao jogo do STOP e calhava letra C, eu punha de propósito «Catalunha» na coluna dos países. Os meus colegas, entre dentes, rosnavam que isso não é um país, já a saber o que vinha aí. Eu sorria e dizia que, tudo bem, aceito o critério de que um país tem de ser independente para entrar na ONU e no jogo do STOP, mas sendo assim que ninguém se atrevesse a escrever «Escócia» quando calhasse a letra E. Algum colega mais distraído ainda dizia, por vezes, «isso é diferente» — mas os outros faziam-lhe olhos de terror, como quem diz «não digas nada, que este é maluco».

Depois, cheguei a escrever artigos para revistas da faculdade, cartas do leitor em jornais, e sempre que podia entregava trabalhos sobre tão simpática nação (espero que nenhum madrileno me bata por ter usado esta palavra). Entretanto, arranjei um carro. O Luís (sei que foste tu!) escreveu com o dedo no vidro sujo: «Lava-me, porco catalão!»

Enfim, isto tudo para dizer que agora me sinto como o tal geek da banda desenhada húngara que já estava resignado a viver num país onde ninguém liga nenhuma à banda desenhada húngara. Um dia, acorda e fica de olhos arregalados quando percebe que, em todos os telejornais, em todos os títulos, em todas as conversas de Facebook — toda a gente desatou a falar da banda desenhada húngara. E, espantosamente, todos sabem tudo sobre banda desenhada húngara!

Sinto-me como esse pobre maluco da BD magiar, que não sabe se há-de estar contente com o interesse repentino do país inteiro pela sua pancada (a banda desenhada húngara é cool!) ou furioso porque todos falam sobre o assunto com a mania que sabem e não passaram os anos todos que ele passou a ler e a estudar a excelente banda desenhada húngara! Ah, o prazer que se esconde nos quadradinhos de Pál Korcsmáros!

A certas horas, já apetece gritar: porra, já se calavam com a banda desenhada húngara! Quero voltar a ser eu o esquisito!

Mas depois lá deixo subir aos lábios um sorriso matreiro: estão a ver como o assunto é interessante e cheio de perspectivas diferentes, histórias que ninguém conhecia e muita emoção à flor da pele? Ah, pois é! Agora vamos lá ver é se nos quadradinhos desta BD não desata tudo ao estalo.

O dia em que ia atropelando um polícia espanhol (e outras aventuras na fronteira portuguesa)

Hoje apetece-me falar da fronteira — ou pelo menos da atracção fatal que tal risco no mapa exerce em certas pessoas. Para começar, conto o dia em que quase atropelei um polícia espanhol e, para terminar, deixo-vos o relato da noite em que raptei três amigos para os levar até Espanha — duas vezes!

1. O dia em que quase atropelei um guarda civil

Foi por pouco que não apareci nas notícias como o português que atropelou um guarda civil. Tinha a carta há muito pouco tempo — e fui com a minha família até Barcelona, atravessando a costa toda do Mediterrâneo. Fomos numa autocaravana. Sem ar condicionado. Em Agosto. Mas, enfim, a história dessa viagem, que teve as suas peripécias, ficará para outro dia.

Hoje conto apenas isto: ia o meu pai a conduzir o trambolho pela Via do Infante, quase a entrar em Espanha, quando me lembrei que nunca tinha atravessado a fronteira a conduzir! Parece coisa pouca, mas para quem tirou a carta há pouco tempo, este tipo de marcos da vida automobilística tem alguma importância. (Ou então sou só eu que sou mesmo muito estranho. É possível.)

Pois bem, o meu pai deixa-me pegar na traquitana, apesar de haver um senão: o contrato de aluguer da dita tinha uma cláusula que implicava a proibição de o condutor ter menos de 1 ano de carta — o que era o meu caso.

O meu pai lembrou-se disso, a minha mãe também, mas eu insisti. Eles deixaram: não havia de ser por cinco minutos que a coisa iria correr mal e eu queria mesmo muito atravessar a fronteira a conduzir.

E assim me meti atrás dum volante enorme, acelerei a fundo e lá fui com a minha família aos saltos pela Via do Infante, para atravessar a fronteira pela primeira vez de pedais nos pés.

Era de noite. Vi aparecer ao fundo a ponte sobre o Guadiana. Espanha à vista e eu a conduzir!

Atravessámos a fronteira e eu feliz…

Pois não é que logo após a fronteira encontrei uma catrefa de guardas civis no meio da estrada? Um deles acenava com a sua luz, fazendo um gesto ambíguo, que eu não sabia se queria dizer «por favor, pare e mostre lá a carta e o contrato dessa coisa para eu poder multá-lo ou mesmo prendê-lo» ou «siga para a direita, que há obras na estrada».

Sem saber o que fazer, bloqueei. Sim, bloqueei ao volante. Ou seja, continuei a conduzir a autocaravana em direcção ao pobre guarda civil, que arregalou os olhos, continuou a acenar com a luz cada vez mais depressa e desatou a rezar às virgens todas e a maldizer os portugueses todos.

A minha mãe gritou, o meu pai saiu lá de trás para ver o que se passava, os meus irmãos riam-se sem parar e eu consegui dar uma guinada a tempo. Acabei por passar a 30 centímetros do guarda civil e continuei pela estrada fora.

Quando já não via luzes de polícia no retrovisor, travei e implorei ao meu pai para nunca mais me deixar conduzir aquele monstro.

Sentado lá atrás, enquanto avançávamos pela Andaluzia, ainda temi ver atrás de nós as luzes da guarda civil à procura da perigosa carrinha portuguesa. Mas, não. O senhor guarda deu-se por feliz por não acabar os dias debaixo dos pneus duma autocaravana e hoje ainda lá deve andar, pelas estradas do seu reino, quem sabe à procura de urnas e boletins de voto.

2. A minha primeira vez foi em Ayamonte

Por acaso, foi ali perto que, pela primeira vez, passei a fronteira. Imagino que não seja uma experiência de tal forma inolvidável que uma pessoa a guarde na gaveta das outras primeiras vezes: o primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro…

Mas, enfim, a verdade é que me lembro. Foi muitos anos antes do episódio do guarda civil. Tinha três anos — e passei a fronteira de barco.

Vou contar tudo do início.

Era a primeira vez que passávamos férias no Algarve. Fui com os meus pais e os meus avós maternos — o Avô Manuel e a Avô Gisela — para a Aldeia das Açoteias, que pertencia aos proprietários da loja onde o meu avô trabalhava, na Atouguia da Baleia.

Estas férias, na altura, devem ter sido marcantes: afinal, não era assim tão normal ir de férias para o Algarve — pelo menos, não seria para a minha família. Só assim se explica que esta seja uma das três recordações que tenho da minha vida como filho único (estávamos em 1983 e o meu irmão Diogo nasceria no ano seguinte).

O que tenho na memória é pouca coisa: lembro-me da sala, com um vidro grande virado para um pequeno pinhal à frente da vivenda; lembro-me do corredor para os quartos — e também me lembro de ver um vídeo gravado pela Betamax do meu pai, em que percorríamos a casa até ao quarto e, ao virarmos a câmara, o sol fazia um efeito de luz na lente, como uma tinta branca a sujar o quarto. Sim, essa memória será não do quarto, mas das vezes que vimos o pequeno filme, já de regresso a casa. Mas as memórias são assim, muito a dar para a mistura, não é?

Também me lembro dum pesadelo que tinha muitas vezes por esses dias: estava num lago, em cima dum crocodilo com cornos, que me levava para muito longe, enquanto a minha mãe desesperava na margem… Se alguém souber interpretar tal sonho, faça o favor de me ajudar!

Bem, já me estou a perder. Voltemos ao tema: a primeira vez que passei a fronteira foi nessas férias, quando fomos passear a Vila Real de Santo António. Não havia ponte, mas antes um pequeno ferry. Não me recordo do barco, nem me lembro da primeira vez que pus o pé em Espanha, mas tenho na cabeça a imagem duma feira espanhola com muitos brinquedos e muita música — e vejo-me na casa de férias a brincar com uma grua. Sim, fui a Espanha comprar uma grua de brincar — uma daquelas cor-de-laranja, bem altas. E assim me fingi construtor nessa sala algarvia de há muitos anos, depois de ter passado a fronteira pela primeira vez.

Dessa passagem por Espanha, há algo que me intriga: será que tivemos de mostrar os bilhetes de identidade? Haveria alfândega no cais de desembarque? Não me lembro. Mas lembro-me que tivemos problemas com os nossos documentos na segunda vez que passei a fronteira.

3. Sem documentos na Portela do Homem

Pois bem, foi no Gerês. Eu teria por volta de 10 anos, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Não sei, o meu calendário do telefone ainda não funcionava na altura (mas hei-de procurar uma fotografia que os meus pais têm lá por casa e que deve ter uma data por trás).

A minha alma de infante quase a dar para o adolescente estava pasmada com o Gerês — se há coisa de que me lembro nessa minha vida de viandante motorizado é a beleza prodigiosa daquelas serranias.

Reparem: eu era um puto que só tinha saído do país para ir comprar uma grua a Ayamonte. Não tinha ainda visto assim tanto mundo que me permitisse encarar o Gerês com um ar um pouco mais blasé. Não: eu era ingénuo. Pouco vivido. Para mim, aquilo era o supra-sumo da beleza natural.

Hoje sou mais vivido, um pouco (muito pouco) menos ingénuo — e continuo a arrepiar-me quando penso nas folhas outonais do Gerês, na cascata onde mergulhámos, nessas férias infantis que são o meu paraíso perdido. Tudo é luminoso e tremendo nessas memórias fugidias.

Pois bem, o Gerês, como sabem, fica ali à volta duma pequena borbulha de Galiza. Arranjei um daqueles mapas turísticos onde o Parque Natural aparecia como território apetitoso em tons verdes num papel de textura vegetal — e, lá no meio da mão esquerda a fechar-se que é o Gerês, estava um espaço em branco, sem nada, onde aparecia, sumida, a palavra «ESPANHA». Pois eu queria ir a Espanha, queria passar a fronteira. Queria ir à Portela do Homem!

Éramos cinco: os meus pais, o Diogo, que teria uns 6 anos, e o Tiago, com 3 anos. Faltava ainda a minha irmã, que chegaria à família uns anos depois.

À época, as crianças não tinham cartões do cidadão — nem bilhetes de identidade. Havia uma coisa chamada cédula pessoal e era isso que o Tiago tinha — ou melhor, não tinha, pois os meus pais tinham-se esquecido dela em casa.

Vivíamos nesses tempos antigos antes de Schengen. As fronteiras eram coisa séria: ir a Espanha implicava mostrar documentos a polícias.

Ora, não fazia mal. Podíamos sempre tentar. Fomos então até à Portela do Homem. Chegámos lá e fomos falar com os senhores guardas. Como nos explicaram de forma muito simpática, sem a cédula do meu irmão, não podíamos passar. Os meus pais perguntaram se podíamos só pôr os pés em Espanha. Os guardas encolheram os ombros e disseram que, se é para pôr os pés e voltar, não havia problema.

E foi assim que fiquei com uma foto tirada por um guarda em que estamos todos por trás da placa que diz «ESPAÑA» — uma placa branca, anterior às estrelinhas europeias.

Lá muito atrás, sem que eu (ou ninguém) ligasse alguma coisa ao assunto, aparecia outra placa que dizia «GALICIA». Está ali, na foto, como um fantasma de conversas futuras, de obsessões que ainda não tinha, de outras viagens, bem mais profundas que uns passos atrás duma placa.

4. Mérida: a beleza para lá da fronteira

Eu nem queria ir — mas o professor Tavares, que já tinha sido professor do meu pai e desesperava da minha timidez, tão diferente da desenvoltura típica da família, obrigou-me a inscrever-me. «Vais a Mérida, sim!»

E lá fomos, no autocarro, nessa excitação de putos em viagem sem os pais. Até à fronteira, não me lembro de nada — depois da fronteira, lembro-me apenas de duas coisas: uma vaga imagem dum museu com peças romanas; e da beleza.

Qual beleza? Da cidade, ou das ruínas — e da mais bela rapariga da minha turma, que, ao final da tarde, enquanto os pobres mortais que éramos nós ouvíamos a modorra a sair da boca do guia no anfiteatro romano, se sentou armada em deusa no cimo duma coluna e se pôs a olhar para tudo, mão no queixo, cabelo ao sol alaranjado do final da tarde — e foi assim que, certamente sem querer, ficou para sempre gravada na minha memória como exemplo da beleza humana, bem real e muito viva, misturada com a História e as pedras e as ruínas do tempo. Fiquei de boca aberta e só avancei quando o colega de trás me empurrou, impaciente, sem reparar que a beleza tinha descido à terra.

Mas não é para falar do espanto adolescente perante a beleza duma rapariga que trouxe à liça essa viagem. É para falar do momento preciso em que passámos a fronteira. Alguns dos meus colegas nunca tinham saído de Portugal — eu já, mas confesso que estava tão excitado como eles.

Pois lembro-me duma colega que, logo que passou a fronteira, começou aos gritos de excitação e gritou algo como «olha uma árvore espanhola!»

Foi o fim da picada. O autocarro desatou a rir-se e o mais sarcástico dos rapazes da turma começou a imitá-la durante longos minutos:

«Olha um cão espanhol!»

«Olha uma estrada espanhola!»

«Olha um café espanhol!»

«Olha um passarinho espanhol!»

«Olha uma pessoa espanhola!» — e abanava os ombros da minha colega, que já não estava a gostar da brincadeira, animando-a aos gritos para que se sentisse excitada pela visão repentina desse ser mítico: o Ser Humano Espanhol!

A brincadeira começou a rolar como bola por uma montanha cheia de neve e, pouco depois, o autocarro estava todo de dedo em riste a apontar para o mundo espanhol. No dia seguinte, já no hotel de Mérida, pelos corredores, ainda se ouviam vozes a gritar:

«Olha uma cadeira espanhola!»

«Olha um tapete espanhol!»

«Olha uma sanita espanhola!» — e outras descobertas menos edificantes e que me abstenho de enumerar.

Pois, na verdade, a minha colega não tinha culpa. Passar uma fronteira faz isto a uma pessoa. Há a promessa de coisas novas e de algum perigo — cheira irremediavelmente a viagem e a aventura.

Agora já não há paragens obrigatórias, bichas de carros, polícias carrancudos. O que há é uma placa simples — e logo a seguir, outra língua, uma estrada ligeiramente diferente, gentes com hábitos que não são os nossos. Reparamos quase instintivamente nessas diferenças, que tendemos a empolar. A fronteira dá uma instrução aos nossos olhos: a partir daqui, estás noutro país. A partir daqui, deves reparar no que é diferente. A partir daqui, isto não é teu. Estás fora do que é habitual. Estás a viajar e os dias não são normais.

5. Ir a Espanha duas vezes na mesma noite

Ora, esta tal atracção da fronteira levou-me a uma das «loucuras» dos anos de faculdade. (Deixo a palavra entre aspas porque, enfim, todos sabemos que há loucuras bem mais loucas do que esta.)

Uma noite, o Nuno, o Rodrigo, a Rita e eu decidimos ir tomar café à Outra Banda.

O problema de tomar café em Almada é que uma pessoa chega lá e o que apetece mesmo é continuar pela estrada fora, a conversar — até porque já era tarde e os cafés de Almada já tinham fechado.

Ficou decidido: iríamos experimentar as delícias dos bares de Évora. Cá por dentro, eu tinha outros planos, mas não disse nada.

Chegados a Évora, já depois da meia-noite, não encontrámos nada aberto.

Foi então que dei a sugestão: já sabemos que os espanhóis têm horários esquisitos, por isso não seria mal pensado tomar café em Badajoz! Eles ainda reclamaram um pouco, mas fiz-lhes ver que quem ia a conduzir era eu.

E assim fomos, numa dessas noites que não são fáceis de explicar, cinco amigos dentro dum carro, pela noite fora, numa auto-estrada escura, em direcção a um café para lá da fronteira.

Quando passámos a tal linha, ninguém gritou «olha uma árvore espanhola!». Éramos estudantes universitários, com toda a sabedoria do mundo e arredores, e para mais eram cinco da manhã e o cansaço não era pouco.

Fomos andando pelos semáforos inutilmente ligados das ruas vazias de Badajoz.

Encontrámos, por fim, um café de luzes acesas. O Rodrigo e o Nuno ficaram no carro, enquanto a Rita e eu fomos comprar uma garrafa de água, que por aqueles momentos já era só o que nos apetecia.

E entrámos assim num café espanhol às cinco da manhã e vimos o que nunca pensámos ver: a meio da noite, famílias inteiras tomavam refeições e conversavam, num café tão animado como Lisboa às cinco da tarde.

Não sei que horários as gentes de Badajoz seguem. Sei que, enfim, por lá já eram seis da manhã, o que explica, em parte, o mistério. Mas não explica tudo: o que faziam tantas crianças acordadas àquela hora?

Não sei e também não quis saber. Estávamos cansados. Sentei-me ao volante e voltámos para Portugal, a beber sofregamente a água, depois duma noite à míngua.

Ou melhor… (Aqui, a história começa a ficar confusa.) Quando dei por mim, estava a sair da auto-estrada. Ainda andámos durante bastante tempo, as cabeças deles já a tombar de sono. Eu mordia a língua, sem vestígio de cansaço: havia de atravessar a fronteira mais uma vez naquela noite.

Quando apareceu a placa a dizer «ESPAÑA», os meus companheiros de viagem sobressaltaram-se:

— Então, mas não estamos a ir para Lisboa?

Expliquei-lhes que sim, mas não queria acabar a noite sem conhecer uma fronteira por onde nunca tinha passado: a de Campo Maior.

Eles abanaram a cabeça, mas riram-se (tive sorte).

Acabámos (os três rapazes) a devolver a Espanha a água que compráramos em Badajoz — isto, claro, com os pés bem assentes em Portugal.

E depois regressámos, por fim, já o sol subia e a névoa rodeava as oliveiras nas margens da auto-estrada. Lembro-me de atravessar a Ponte Vasco da Gama no meio do nevoeiro mais denso que alguma vez vi na minha vida e de dormir profundamente durante toda a manhã, já na minha cama, depois da noite em que fui duas vezes a Espanha.


Porque conto tudo isto? Não sei bem. Talvez para provar que a fronteira exerce uma atracção particular nalgumas pessoas, entre as quais me incluo, para mal dos meus pecados e dos pecados de alguns amigos meus. Ou então é só para me divertir a contar histórias. Seja por que razão for, hei-de continuar a trazer para aqui algumas aventuras que vivi para lá da raia — a começar por uma certa viagem que fiz até outra fronteira: aquela que separa o Reino de Espanha do Principado de Andorra.

Até já!

«Tirar as impressões digitais» é erro de português?

1. «Fazer piscinas» sabe bem

Há uns dias, estive numa piscina com a minha mulher. Estava mais quieto do que o habitual, a tentar adaptar-me às lentes de contacto (depois do episódio que já contei por aqui).

A Zélia vira-se então para mim e diz: «Costumas gostar de fazer umas piscinas…»

Sorri e pus-me a nadar. Sim, é verdade: é bom fazer piscinas. Fico bem-disposto.

Enquanto nadava, comecei a pensar. A expressão «fazer piscinas» é curiosa. Naquele contexto, é uma forma familiar de dizer «nadar todo o comprimento duma piscina». Noutro contexto, quererá dizer «construir uma piscina». A nossa cabeça dificilmente se atrapalha: pega numa palavra e estica-a para apanhar uma série de significados e de nuances, usando para isso tudo o que encontra à volta.

O verbo «fazer» quer dizer tantas coisas! Desde «cortar» (em «fazer a barba») até ao tal «nadar» (em «fazer piscinas»). É um belo monstro semântico — e uso «monstro» no bom sentido. Isto é mau? Claro que não! Só alguns obcecados por uma língua simplificada e quadrada não gostam da maleabilidade do português — e de todas as outras línguas.

2. É favor não arrancar as pontas dos dedos!

Chegamos então ao verbo «tirar» é às impressões digitais… Já me aconteceu ouvir pessoas muito preocupadas com a expressão «tirar as impressões digitais». Na cabeça dessas pessoas, um funcionário que diga ao incauto cidadão «agora tenho de lhe tirar as impressões digitais» está a incorrer num gravíssimo erro de português. O certo seria sempre «colher (ou recolher) impressões digitais».

Porquê este medo arbitrário do verbo «tirar» com sentido de «recolher»? Não sei bem. Talvez porque a estas pessoas lhes faça impressão o facto de haver verbos que mudam de sentido conforme o contexto. Talvez porque inventem uma ambiguidade fantasma, imaginando um cenário em que tirar «impressões digitais» quisesse dizer «retirar as pontas dos dedos a alguém». Estará o tal funcionário do registo civil, quando diz ao cidadão «vou-lhe tirar as impressões digitais», a informar que o passo seguinte é cortar-lhe a pele das pontas dos dedos? Um filme de terror, não haja dúvida!

3. Tirar fotografias e outros medos

Um terror, na verdade, é esta visão da língua, que lá vai fazendo o seu caminho, estragando a relação dos portugueses com o português.

Enquanto os engenheiros informáticos andam, com esforço, a tentar elevar os computadores ao nível de inteligência dos nossos cérebros (e ainda estão tão longe…), estes «defensores da língua» (aspas bem sublinhadas!) parecem querer baixar a inteligência humana ao nível dum robot, que só percebe as palavras se estas tiverem um significado fixo, imutável e único.

Estes simplificadores compulsivos parecem ainda estar sempre a tremer de medo das ambiguidades absurdas. Como se eu, ao dizer a um amigo «vou-te tirar uma fotografia», arriscasse ver o meu amigo a fugir, pensando certamente que lhe quero roubar a fotografia que ele tem na carteira…

As palavras mudam de significado conforme a pessoa, a hora do dia, a época, o contexto… Sempre assim foi e sempre assim será — porque somos seres muito pouco mecânicos e usamos as palavras de forma orgânica, mudando-lhes o significado a cada uso e cosendo esse mesmo significado às outras palavras, aos nossos gestos, ao piscar dos nossos olhos. E fazemos isto a várias vozes, o que só não espanta quem estiver muito distraído…

Três prazeres da língua portuguesa

Há uns meses, escrevi este texto para o jornal da Escola Eça de Queirós, nos Olivais, a pedido do professor Fernando Pinto. Hoje, lembrei-me de vir aqui deixá-lo para que os leitores deste blogue também o possam ler.


Nunca fui aluno da Escola Eça de Queirós. Mas não deixa de ser uma das minhas escolas. Porquê? Explico já.

Primeiro, anda por lá o meu sobrinho mais velho, o Dinis. Depois, é bem provável que o meu filho Simão lá vá parar um dia. E, por fim, nunca me vou esquecer do dia em que conversei com os alunos da escola, interessadíssimos e bem atentos, ali à minha frente. Sim, nunca vou esquecer, porque, se é verdade que já tinha falado sobre os dois livros que escrevi em livrarias e bibliotecas, esta foi a primeira escola a que fui. E se há palavra que descreve o que senti, só pode ser esta: prazer!

Pois que melhor tema para escrever para o jornal desta escola do que os prazeres da língua? São muitos, eu sei. Por isso, tive de escolher três:

1. Conversar

Com as palavras, todos os dias fazemos alguém rir. Ou, pelo menos, serão raros os dias em que cada um de nós não se ri ou não faz rir nas conversas que temos. É um dos grandes prazeres: entre amigos, amores, família, a língua serve para viver. Conversamos, sussurramos, contamos histórias, interrompemo-nos, discutimos, fazemos as pazes, apimentamos tudo com os gestos das nossas mãos, a acompanhar a torrente de sons que sai da boca. E não é um prazer? Sim, é: embora seja um prazer que sentimos tantas vezes e em tantos sítios, que nem reparamos nele, tal como não reparamos no triste que seria uma vida sem conversas, sem riso, sem palavras.

2. Ler

Há poucos dias, encontrei um homem de ar curioso, sério e compenetrado, a ler no metro. Mal reparei no senhor, até ao momento em que percebo que está a ler um livro minúsculo. Tão pequeno que eu não conseguia, a dois metros de distância, perceber o título. Pois o certo é que tão diminuto objecto, com as palavras que lá estavam escritas, conseguiu fazer o homem franzir as sobrancelhas, suspirar fundo, chorar e rir às gargalhadas — tudo bem visível na sua cara e tudo no espaço de três estações. Nunca me vou esquecer dessa curta viagem em que vi, ao vivo, a força da literatura na cara dum homem no meio de gente distraída. Naquela carruagem, era ele quem vivia mais intensamente. É essa a força das palavras e um dos prazeres das línguas humanas.

3. Regressar à língua-mãe

Falar outras línguas é mais do que importante: é imprescindível nos dias que correm. Poucos são aqueles que vivem uma vida inteira sem balbuciar palavras em línguas estrangeiras — e ainda bem que é assim, digo-vos. No entanto, sinto um prazer especial quando ando umas horas ou uns dias a falar em inglês ou em espanhol e, depois, volto ao nosso querido português. É como chegar a casa depois duma viagem: a viagem sabe bem, mas o regresso… Ah, o regresso… Os sons, a entoações, as exactas palavras que vêm da nossa infância. A nossa língua materna é isso mesmo: materna — e nossa. É a nossa boa língua portuguesa.

O dia em que perdi os óculos no mar

Pois bem, há dois dias os meus óculos foram ter com os peixinhos.

O que se passou foi o seguinte. Fui passar um fim-de-semana no Algarve com a minha mulher para comemorar os 10 anos de casamento. Chegámos ao hotel e zarpámos de imediato para a praia.

Ora, a praia não fica perto do hotel. Tivemos de zarpar de carro. Chegámos à praia e percebemos que o único estacionamento era pago. Enfim, pensámos nós, vamos só ficar uma ou duas horas, não é caro.

Andámos, andámos, andámos. A praia ainda era longe — mas valia a pena. Cansados, chegámos e decidi logo ir ver como estava a água, como qualquer veraneante que se preze. As ondas pareciam simpáticas. Avancei um pouco mais. Fui sentindo a areia nos pés, o calor do ar, a água à minha volta e o cheiro bom do Verão. Na cara, os meus óculos — é raro não os deixar na toalha, mas só tinha vindo molhar os pés. Não estava a pensar mergulhar.

Não estava a pensar, mas mergulhei. A culpa não foi minha: apareceu uma onda bem maior do que eu estava à espera que rebentou mesmo em cima de mim. Virei-me um pouco para não levar com a água de chapa na cara, tropecei — e quando dei por mim estava sem óculos.

Procurei-os com os braços atarantados dentro da água turva da areia — o que é especialmente difícil quando, enfim, não se tem óculos na cara. A água estava agitada, muita areia, muitas ondas. Tentei encontrá-los com os pés, mas só encontrei pedras — e bem afiadas.

Comecei a ver a vida a andar para trás. Estava a 300 quilómetros de casa, com o carro num estacionamento pago — e sem óculos.

Não podia conduzir, não podia fazer nada.

Comecei a agitar os braços, a ver se a minha mulher me via. Não fazia ideia onde ela estava. A praia, para mim, era uma mancha amarela. Onde estavam pessoas, agora via umas quantas borradelas deitadas em pinceladas de várias cores. Estava preso num quadro abstracto. Um horror.

A Zélia apareceu então — e pediu ajuda a uns rapazes que ali estavam. Procurámos todos juntos, eu atarantado sem saber o que fazer nem para onde me virar.

Bem, quem safou o dia do nosso 10.º aniversário foi um casal de Fafe — Paulo e Dolores —, os pais dos tais rapazes, que abandonaram um dia de praia como há poucos e se ofereceram para tirar o carro do estacionamento para nos levar até à óptica mais próxima.

Pouco depois, percebemos que a óptica mais próxima não tinha maneira de me ajudar. Andámos mais uns quilómetros e lá consegui arranjar umas lentes de contacto de emergência, para me permitir andar sem bater nas paredes.

Tive de passar de novo pelo martírio de pôr as lentes. A certa altura tinha os funcionários da loja, a minha mulher e o casal que nos salvou a olhar para mim, numa roda atenta. Quando finalmente pus a lente direita, todos se alegraram como quem via a sua equipa a marcar golo. Pronto: só faltava a esquerda! Mais quinze minutos e podíamos ir embora.

Por fim, a chorar (experimentem passar quinze minutos a espetar o dedo no olho para ver se não choram), levantei-me, de novo a ver, e cumprimentei a sorrir os nossos salvadores — é que ainda não os tinha visto! Ainda conversámos muito nesse dia — que se perder os óculos é aborrecido, pelo menos serve para fazer novos amigos.

Estávamos aliviados. Não fosse o preço dos óculos a morder-me a consciência e quase que podia dizer que estava feliz com as minhas novas lentes de contacto.

(A crónica completa está no Sapo 24: http://24.sapo.pt/opiniao/artigos/perigos-dum-dia-de-verao)

As línguas gestuais têm sotaques?

Uma ideia errada sobre a linguagem humana que se ouve por aí é esta: as línguas gestuais não são mesmo línguas, mas antes uma linguagem incompleta, uma espécie de «português dito com as mãos» ou algo assim.

Na verdade, são línguas como as outras, tirando o facto óbvio de que usam os gestos das mãos em vez dos gestos da boca. Já falámos disto neste blogue — por exemplo neste artigo: «A língua gestual portuguesa é uma língua a sério?»

Sim, são línguas com gramática, sotaques, poesia, palavrões, tradutores, regras inconscientes que não vêm nos livros, mas estão nas mãos dos falantes… Tudo!

Neste pequeno vídeo, uma professora de linguística explica como a ASL (a língua gestual dos EUA) tem sotaques. E, claro, o mesmo se passa com a língua gestual portuguesa, a outra língua que a nossa constituição manda o Estado proteger.

Um filho numa palavra

Não é que não o tivesse visto antes. Já estive em pelo menos duas ecografias e vi aquela imagem vagamente perturbadora dum extraterrestre a navegar em águas escuras.

Ah, mas foi uma palavra, uma palavrinha apenas que me fez sentir com a força dum estalo que está ali um novo filho.

A Zélia ontem teve de fazer uns exames e quando entrou no gabinete deixou-me cá fora — algo a ver com as regras daquele piso do hospital ou outra coisa qualquer que não percebi.

Pois, minutos depois, sai de lá, sorridente. Estava tudo bem e tinha acabado de ver outra vez o bebé cujo nome não podemos dizer (porque não sabemos).

— E então, que disse a médica?

— Nada de especial. Disse que estava tudo bem e que ele hoje está muito irrequieto.

Ah, a culpa foi dessa palavrinha simples, que estou habituado a usar para descrever crianças já crescidas aos saltos num parque infantil — ou no meio da minha sala…

Foi essa palavrinha que me fez sentir, pela primeira vez, aquela criança ali bem real, a crescer, já diferente do irmão (que, na barriga, estava sempre quietinho).

E senti muitas outras coisas, mas isso agora não cabe num simples post do Facebook, não é verdade?

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