Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Dezembro 2017

Palavrões portugueses nas bocas galegas

Aviso: esta crónica contém palavrões e transcrições fonéticas [e foi publicada no Sapo 24 no dia 5 de Novembro].

Um palavrão galego na Volta a Portugal

Sabe o leitor quem é David Blanco?

Ora, meu caro leitor, ponha lá na cabeça a musiquinha da Volta a Portugal — aviso já que é melodia para ficar a martelar o cérebro o dia todo. Toca a pedalar!

David Blanco é o galego que venceu cinco edições da Volta a Portugal em Bicicleta.

Houve pela RTP muita entrevista em que os jornalistas se afadigavam a entrevistar o David em portunhol — e o galego fazia-lhes a desfeita de responder em galego.

Confesso agora: tinha pensado encontrar um vídeo de uma dessas entrevistas em que o jornalista tenta falar espanhol com um galego que responde em galego. Só que me saiu o tiro pela culatra. O único vídeo que encontrei foi um vídeo que não posso passar aqui — mas garanto que o jornalista não se confundiu: aquilo que David disse não era castelhano…

Hesito. Se calhar até passo o vídeo…

Enfim, peço ao leitor mais cioso da pureza dos seus ouvidos que salte à frente. Ou então mude de crónica — há aqui umas notícias e uns textos ao lado bem interessantes.

Ficou? Foi avisado! Não se queixe, por favor.

Cá vai, então. Oiça esta entrevista de David Blanco:

Os portugueses entrevistam-no — vá lá que não tentam afogar-se no espanhol — e ele responde sem papas na língua.

Repare no fim da entrevista:

— E amanhã como vai ser?

— Como vai ser? Apertar um [CENSURADO] contra o outro e dar-lhe duro…

O riso do jornalista não teve língua.

Note-se que ele não disse as palavras exactamente como nós diríamos em Portugal. Disse «apretar», por exemplo. A própria expressão «dar-lhe duro» tem o seu quê de estranho.

Ah, mas o palavrão… O palavrão é bem nosso!

Aliás, ouvi várias vezes (as coisas que um cronista faz…) e, aos meus ouvidos, Blanco diz a palavra precisamente como nós.

Como transcrever um palavrão?

Eis agora uma estreia no Sapo 24! Uma análise fonética… dum palavrão! É verdade que o Alfabeto Fonético Internacional não costuma aparecer em crónicas deste tipo, mas também é verdade que esta análise em particular dificilmente vai parar às páginas dum livro de linguística…

Aqui fica a transcrição daquela palavra na boca do David e ainda no português de Lisboa e do Rio de Janeiro, para comparação (as duas últimas fui buscá-las ao Portal da Língua Portuguesa):

Bem, à parte a fonética, pergunto ao leitor: um ciclista português diria isto na televisão ou na rádio? Provavelmente, não. O Cristiano Ronaldo disse «Se perdermos, que saf*da!», mas não sabia que estava a ser gravado.

Ora, os galegos… Como hei-de dizer isto?

Palavrões a norte do Norte

Explico na prática. Imagine-se o leitor numa aula na FCSH, ali à Avenida de Berna. O convidado é galego — José Ramom Pichel, um engenheiro informático que foi falar com os meus alunos sobre línguas ibéricas e software de tradução.

O José é um pouco como eu: tem cara de puto (embora seja mais velho do que eu) e não parece ser daquelas pessoas que dizem palavrões por dá cá aquela palha. Imagino que, se fosse cá do Sul, não diria palavrões numa aula.

Pois, a meio da conferência, o José disse, bem a propósito, a palavra «merda».

Ora, este é daqueles palavrões que já está a deslizar por aí abaixo em direcção ao clube dos palavrõezinhos: «chiça», «caraças», «fogo»… Tanto é assim que já nem preciso de disfarçá-lo como fiz ao «saf*da» do Cristiano. Mas, enfim, por enquanto, ainda é palavrão — pelo menos a julgar pelos olhos dos meus alunos e pelas bocas abertas de surpresa.

Vamos lá ver: os meus alunos não são santinhos — só não estão habituados a ouvir alguém a dizer palavrões numa aula.

Perante o espanto dos alunos, tentei explicar: «Têm de perceber: o José está a norte do Norte!»

Pois é: sabemos — ou julgamos saber — que os nortenhos dizem muitas asneiras. Ora, parece que o problema é de latitude, pois os galegos dizem ainda mais — e dizem as mesmas asneiras!

É claro que a ortografia em que os galegos escrevem estas palavrinhas será diferente da nossa (depende do galego). Mas os palavrões são os mesmos.

Será que os portugueses já se deram conta que «merda» é igual a sul e a norte da fronteira?

Os palavrões de Afonso Henriques

Os palavrões são umas palavras muito curiosas. Deixam-nos o coração aos saltos, continuam a ser proibidos em muitas situações e, no entanto, existem em todas as épocas e são raríssimas as pessoas que não os dizem — só que as situações em que os dizemos mudam de pessoa para pessoa e de região para região.

São palavras importantes, mas é difícil estudar o seu percurso histórico. As pessoas não tinham tendência para escrever palavrões fora das peças de teatro — bendito Gil Vicente e o seu magnífico hábito de usar a língua toda!

No entanto, os palavrões que existem dizem-nos pelo menos isto: o português e o galego, separados politicamente há tantos séculos, partilham ainda estas «palavras feias». São palavras antigas, fortes e imediatas. Palavras que nos mostram como a nossa língua é uma espécie de irmã gémea da língua dos galegos — ou então, como dizem muitos galegos, a mesma língua com outro nome, outro sotaque e umas quantas palavras diferentes para apimentar os dias.

Sim, os palavrões vêm do tempo em que portugueses e galegos ainda viviam no mesmo território e compreendiam perfeitamente as palavras uns dos outros — nem que fosse para ouvir um certo conde com ganas de ser rei a mandar a mãe à merda por andar metida com um galego.

Três mitos sobre o catalão

Este é um artigo por antecipação. Como daqui a oito dias* é Natal, queria falar já do grande assunto da semana que agora começa: as eleições na Catalunha. Tenho, no entanto, um problema: não faço ideia se vão ganhar os independentistas ou os unionistas. Assim, o melhor é falar daquilo que não vai mudar e que, para dizer a verdade, é o que mais me interessa nesta história toda: o catalão, uma das duas línguas lá da zona.

Ora, o desconhecimento é o melhor adubo dos mitos. Nos últimos meses, tenho ouvido muitos sobre esta língua. Ficam aqui três…

1. «O catalão não era usado até há pouco tempo.»

Esta é uma impressão que alguns portugueses têm, provavelmente porque só agora repararam na língua… No entanto, a realidade está muito longe dessas distraídas impressões portuguesas.

Não podendo resumir a história duma língua numa crónica, ficam alguns traços largos e necessariamente imprecisos. O catalão foi usado na literatura durante a Idade Média e há alguns grandes vultos da cultura europeia dessa época que escreveram em catalão. Por exemplo, Raimundo Lúlio (em catalão, Ramon Llull) ou Joanot Martorell, autor de Tirant lo Blanc. O certo é que, depois da junção das coroas de Aragão e Castela, o catalão perdeu prestígio e o castelhano foi, durante séculos, a língua usada pelo Estado, pelos escritores e pelas elites quando estavam foram de casa.

O castelhano era a língua visível e a língua da escrita — mas não era a língua materna da grande maioria dos catalães. A língua que se falava dentro da casa dos catalães continuou a ser o catalão (com este ou outro nome).

Pois bem, a partir do século XIX, houve um movimento de afirmação do catalão enquanto língua de prestígio. Recuperou-se o uso literário da língua, enquanto, nas aldeias e nas ruas das cidades, o catalão nunca deixou de ser a língua materna da população — até que a televisão e o ensino massificado durante o século XX espalharam o castelhano.

Hoje, os catalães usam as duas línguas e o catalão é, certamente, mais visível do que na época em que não se usava na escrita; no entanto, sendo hoje uma das línguas oficiais da Catalunha, é menos falado do que há 100 anos, por exemplo. No fundo, o catalão, nos últimos cem anos, aumentou o seu prestígio, mas diminuiu o seu uso.

2. «O catalão deriva do espanhol.»

O catalão sofre há séculos influência do castelhano — mas não deriva deste último. Dizem os historiadores da língua que o catalão é a evolução particular do latim popular da Marca Hispânica, a zona de fronteira entre o reino dos Francos e o território muçulmano da Península.

O catalão tem, assim, uma origem claramente distinta do castelhano — aliás, algumas palavras denunciam uma fronteira que separa o catalão de todas as outras línguas ibéricas, incluindo o português. Vemos isto, por exemplo, na palavra «medo» (português); «miedo» (espanhol); «por» (catalão); «peur» (francês); «paura» (italiano) — ou então, no verbo «falar» (português); «hablar» (espanhol); «parlar» (catalão); «parler» (francês); «parlare» (italiano).

Não, o catalão não é uma «língua de trapos» e muito menos uma forma errada de falar espanhol — é uma das línguas latinas, oficial em Andorra e em três regiões de Espanha.

3. «O catalão não serve para nada.»

Algumas pessoas encolhem os ombros ou ficam incomodadas com a insistência dos catalães em falar esta língua. Se o espanhol serve tão bem, para quê esta trabalheira?

Ora, o catalão é a língua que grande parte dos catalães ouviram da boca da mãe. É a língua deles, como o português é a nossa. É a língua em que se sentem confortáveis. É ainda uma língua com tradição literária e língua de cultura — ainda por cima, os catalães não perdem o acesso à cultura em língua castelhana, pois escrevem e falam as duas línguas.

Ou seja, só pode ficar incomodado com o facto simples de haver milhões de catalães que querem falar catalão e ensiná-lo aos filhos quem estiver convencido que o castelhano deve ser a única língua de todos os espanhóis.

Depois, há outra ideia errada que alguns portugueses também defendem. Dizem eles que o catalão só é falado por mania dos independentistas. Pois bem: estes últimos parecem representar, pelos resultados eleitorais dos últimos anos, aproximadamente dois milhões e meio de catalães. Ora, o catalão é língua materna de uns cinco milhões de pessoas (não só na Catalunha, diga-se) e é usado como segunda língua por mais uns quantos milhões. É uma língua falada por mais europeus do que o norueguês, por exemplo. Será o norueguês inútil ou mania dos noruegueses? De certa forma, todas as línguas são uma mania de quem as fala. Nós, portugueses, vejam lá bem, temos a mania de falar português… Os catalães têm a mania de falar catalão — e ainda se atrevem a saber castelhano…

Sim, a língua é uma das bandeiras dos independentistas, mas está longe de se limitar aos círculos que defendem a separação de Espanha. Aliás, julgo que há um consenso muito alargado na sociedade catalã sobre a preservação da língua — um consenso que está longíssimo de existir no que toca à independência…

Mas então, não há problemas com a língua?

Claro que há, mas esses problemas estão, muitas vezes, na cabeça de quem não vive na Catalunha.

Em muitas regiões do nosso reino vizinho, há tendência para desprezar as outras línguas de Espanha. Muitos toleram a sua existência, mas pouquíssimos se interessam por elas. Muitos acham que aprender catalão é inútil e, para dizer a verdade, um pouco suspeito. Esquecem-se que, se a Catalunha é de facto parte de Espanha, isso só pode querer dizer que o catalão é uma língua de milhões de espanhóis e que merece respeito e (será pedir muito?) algum interesse. 

Depois, ouve-se muito por Madrid que os catalães não querem aprender castelhano e que o castelhano está em perigo na Catalunha — ora, isto parece-me injusto. Para que o leitor compreenda a injustiça, imagine um madrileno a acusar irritado um catalão de não querer falar castelhano — quando o catalão, na verdade, fala e escreve castelhano fluentemente, enquanto ao madrileno nunca lhe passaria pela cabeça aprender catalão… Temos gente monolingue a acusar gente bilingue de querer ser monolingue.

Sim, eu sei que aquilo que irrita muitos madrilenos é o facto de as crianças que falam castelhano em casa terem de aprender catalão na escola. Mas, bolas, essas crianças ficam a saber falar duas línguas — e assim evita-se a situação que ocorria há 50 anos, em que a sociedade catalã se dividia entre aqueles que falavam castelhano e catalão e aqueles que só falavam castelhano. O objectivo é que todos falem as duas línguas, independentemente da língua de casa e da origem dos pais.

Enfim, uma Espanha em paz consigo própria vai ter de aprender a viver com as línguas faladas por milhões de espanhóis — mais do que tolerá-las, deve assumi-las como suas para que aqueles que falam outras línguas se sintam confortáveis em Espanha. Será possível? Não sei. Mas diria que, se o país vizinho conseguir reinventar-se enquanto Estado plurilingue, o catalão, longe de não servir para nada, terá servido para salvar Espanha…

Dito tudo isto, deixem-me terminar com um desabafo: ainda bem que nós, portugueses, não temos de pedir licença para aprender, ensinar e viver à vontade na nossa língua. É por estas e por outras que não compreendo como uns quantos portugueses dizem, meio a brincar meio a sério, que mais valia sermos espanhóis. Tenham juízo.

(Já agora, se não se importarem, deixo-vos a ligação para um artigo sobre cinco palavras catalãs que me fazem cócegas.)

(*Este artigo foi publicado no Sapo 24 no passado domingo.)

A nossa língua no mapa de Espanha?

A Espanha é, para muitos portugueses (não direi a maioria, porque não sei quantos são), um território imenso que devemos passar por cima, de avião — ou então de carro, bem depressa, quase sem parar, até chegar a França e então respirar.

Uma Espanha escrita em português?

Para esses portugueses distraídos — os mesmos que descobriram «o problema catalão» há duas semanas e julgam que tudo começou no mês passado — há muitas surpresas escondidas para lá da fronteira.

Por exemplo: há um mistério escondido no mapa de Espanha. Aliás, nem será tanto no mapa, mas antes na lista completa de aldeias, vilas e cidades espanholas. Se abrirmos essa lista, vemos que mais de metade dos nomes não estão em espanhol, mas antes numa estranha língua muito parecida com o português. Alguns exemplos: «O Barco», «A Guarda», «Gondomar», «O Porto de Corme», «A Lagoa», «Cabana Moura», «O Reino», «Os Milagres do Medo»… Lembro que isto são nomes que aparecem exactamente assim nos mapas de Espanha…

Também aparecem muitos nomes que soam um pouco portugueses, mas têm o famoso «ñ» ou um excesso de «x» ou «-ción»: «A Toxa», «O Carballiño», «A Estación», «Os Baños» e a famosíssima «A Coruña»…

Mais de metade, dizia eu… E isto porque mais de metade das terras de Espanha estão na Galiza, que se divide em tantas aldeias, vilas e cidades que acaba por monopolizar a toponímia dos nossos vizinhos.

Todos dizemos palavrões galegos

Ora, a Galiza é qualquer coisa que nós sabemos que está ali, mesmo em cima de nós, mas a que ligamos pouco. É normal: nós somos distraídos no que toca à Espanha. Afinal, os tais portugueses de que falava há pouco sofrem de uma estranha cegueira gustativa que os leva a dizer coisas como «em Espanha come-se mal», o que deixa qualquer pessoa com duas papilas na boca a coçar a cabeça sem perceber onde foram buscar tal ideia. É o que dá provar a gastronomia do reino vizinho na perspectiva das estações de serviço a caminho da França… Basta ir à Galiza para desfazer essa ilusão…

Mas as surpresas vão muito para lá da gastronomia. Temos também um território e um clima muito semelhantes ao território e ao clima do Norte do nosso país — não é por acaso que os fogos da semana passada afligiram o Norte e a Galiza (embora o estrago tenha sido bem maior aqui a sul do Minho).

Depois, temos a língua… Nas últimas décadas, o uso do galego tem diminuído, mas ainda é a língua materna de milhões de galegos. Ora, os falantes de galego, separados dos portugueses por uma fronteira com 800 anos, ainda falam qualquer coisa de muito próximo da nossa própria língua — muitos afirmam mesmo que o português e o galego são dois nomes para a mesma língua e, nessa afirmação surpreendente, são secundados por muitos linguistas.

Na escrita, é fácil perceber essa proximidade. É verdade que os galegos têm uma relação um pouco difícil com a versão escrita da sua língua — afinal, existem duas ortografias. A ortografia oficial tem o «ñ» e o «ll» que associamos ao espanhol, enquanto uma minoria significativa de galegos usa a ortografia chamada «reintegracionista», muito mais próxima do português. Nós, portugueses, não temos de entrar nessas guerras. Basta-nos saber que o galego escrito, mesmo na ortografia oficial, está tão próximo do português que arrepia.

Já na fala, é mais complicado. Nós confundimos facilmente o galego com o espanhol — isto porque estamos pouco habituados a ouvir o sotaque galego, que usa uns quantos sons que associamos ao espanhol. Assim, os nossos ouvidos pouco treinados enfiam o que ouvem no saco do castelhano.

Se prestarmos atenção, no entanto, lá encontramos na boca dos galegos os nossos verbos, os nossos artigos — e os nossos palavrões.

Sim, peçam a um galego para dizer palavrões e vão ouvir palavras à antiga portuguesa! Não posso reproduzi-las agora porque o Sapo 24 é para toda a família.

A saudade também é galega?

Mais surpresas: os galegos também usam a palavra «saudade» — e também por lá têm pessoas que se entretêm a pensar se não será essa palavra especialmente importante para descrever a alma galega. Sim: esses mitos crescem em todo o lado.

E a História… Todos os povos esquecem-se de muita coisa. Nós, portugueses, esquecemo-nos da Galiza. Houve episódios de que raramente ouvimos falar, como o ano em que os galegos aclamaram El-Rei D. Fernando de Portugal como rei — e ele aceitou, entrando na Galiza numa invasão que foi muito bem-vinda. Partilhámos o rei durante dois anos, mas entretanto as guerras da época lá deram mais uma guinada e D. Fernando desistiu de ser rei a norte do Minho. Já bastavam as confusões a sul…

Perder o medo de falar português

Quando converso com galegos, muitos contam estranhas histórias em que falam em galego com portugueses e estes respondem em espanhol, julgando estar a fazer um favor ao turista. Na verdade, com os galegos, nós podemos mesmo falar português: eles percebem e agradecem.

Sim, existem milhões de cidadãos espanhóis que querem que falemos português com eles e que vivem em terras com nomes tão nossos como «Os Milagres do Medo» (na Província de Ourense).

Falemos com os galegos sem medo. Depois do choque inicial, é como chegar ao pé dum vizinho com quem nunca falámos e começar a conversar — na nossa língua, pois então.

(Se alguém quiser ler mais sobre a Galiza, pode começar por Outra idea de Galicia, de Miguel Anxo Murado, que está escrito em galego e pode ser lido sem dificuldades por qualquer português. Um livro mais do que recomendável.)

(Artigo publicado no Sapo 24 no dia 22 de Outubro de 2017.)

Como se diz o nome daquela loja de móveis?

Já tinha eu o artigo alinhavado, faltava apenas a conclusão — e era um artigo tremendo, capaz de mudar umas quantas mentalidades, como se diz por aí. É então que a Zélia me diz: temos de ir ao IKEA.

Quantos nomes tem a loja?

E eu fiquei a olhar para ela, a pedir só mais uns minutos. Não podia ser: já se fazia tarde e tínhamos ainda muito que comprar. Porquê? Vem aí um novo rebento.

Pois deixei o artigo de lado, à espera de o terminar quando voltasse. Só que, no caminho de casa até a esse pequeno território de sabor sueco (embora governado por uma empresa, hum, holandesa), pus-me a pensar: afinal, como se diz o nome da tal loja?

Parece que ninguém sabe. É uma daquelas eternas questões que acabam em tremendas discussões de café: há quem diga «IKÊIA», enquanto outros se inscrevem no clube do «I-KÊ-Á». Não sei porquê, tornei-me adepto deste último clube.

Há argumentos para todos os gostos: ah, em sueco é assim; ah, o meu primo diz que ele é que sabe; ah, assim é que me soa bem. Ou seja, os argumentos do costume nisto da língua. Por outro lado, talvez os funcionários do IKEA acertem no nome da loja onde trabalham. Decidi-me a ouvir com atenção a maneira como dizem o nome.

Quanto à maneira como os suecos pronunciam o nome, pode ajudar, mas não é o critério absoluto. Poucos dizem «Maicrosoft» em vez de «Microsoft». Mais: os portugueses parecem apostados em inventar uma «Aipal», enquanto os americanos dizem «Apple» — e por aí fora. Confesso que digo «Microsoft» à portuguesa e «Apple» à inglesa. Porquê? Porque «Aipal» só é inglês na cabeça dos portugueses. Mais vale dizer à portuguesa e acertamos mais: «Áple».

Almôndegas e labirintos

Bem, chega de irritações. Chegamos ao dito cujo. Saímos do carro, depois de umas quantas voltas à procura de espaço, e subimos até ao restaurante, onde passamos pelo famoso ritual da ingestão de almôndegas suecas e café barato.

Findo o manjar nas famosas florestas escandinavas de Loures, avançámos para o Labirinto. É um estranho labirinto, este, pois tem setas em todo o lado e ninguém se pode perder. Aliás, o problema deste labirinto é outro: e se não seguirmos as setas? Se atravessarmos uma daquelas reentrâncias meio escondidas que nos levam para uma secção usando um atalho não autorizado? O alarme toca? O universo acaba?

Aliás, olhar para uma planta deste labirinto assusta-me: quando chegamos ao fim, estamos ao lado da cozinha por onde entrámos e, no entanto, parece que andámos até aos confins do mundo. Aquilo é um mundo enrolado em si próprio, dividido por cruéis paredes que nos obrigam a cirandar entre casas tão arrumadas e bem combinadas que ficamos com vergonha dos livros mal-arrumados lá na nossa sala. E apetece dizer: derrubem as paredes! Não queremos barreiras entre as cozinhas e a secção de plantas!

E as outras vidas todas?

Ah, o meu filho, quando chegou à primeira cozinha, disse: «É linda!» Ele lá sabe. O certo é que parece não ter grande critério: continuou a elogiar todas aquelas habitações em ponto pequeno, imaginando como seria viver ali. Aquela loja é também uma espécie de multiverso: imaginamos não sei quantas vidas (olha eu a viver em Estocolmo; olha eu a viver no meio duma floresta; olha eu a viver numa sala preta e amarela; olha eu a viver num escritório com cem livros iguais e em sueco) e de repente a vida desdobra-se na imensidão de escolhas e ficamos pequeninos a olhar para aquilo que nos calhou. O que nos calhou pode até ser bom, mas a imaginação acelera por esse mundo fora. Ficamos também a perceber que nestes mundos alternativos, somos todos diferentes, mas todos sabemos ler policiais em sueco.

(Diga-se que estou sob medicação contra as alergias; efeitos secundários: encontro profundidades em todo o lado.)

O atalho do fim do mundo

Chegamos ao fim do labirinto sãos e salvos e descemos à cave, aquela onde está o armazém self-service, e enfrentamos mais um labirinto, mais uma voltinha, mais umas quantas setas a percorrer diligentemente durante uma boa meia-hora.

É então que o meu pai (sim, os avós do rebento também foram para ajudar a acartar madeira sueca) repara numa abertura: um pouco a medo, como se estivéssemos a entrar em território proibido, atravessamos a abertura e estamos nas caixas! Poupámos todo um labirinto e ficámos sem a oportunidade de comprar novos talheres!

Por momentos, é como se tivéssemos descoberto um dos segredos do mundo. Entre coros celestiais (era tarde, estávamos cansados), fomos buscar as caixas castanhas num dos corredores (sou só eu ou aquilo parece aquela cena do Indiana Jones onde a Arca da Aliança se perde num armazém interminável?) e avançámos resolutos para pagar a lenha cortada.

Esperámos pacientemente a vez. O Simão sentou-se em cima das caixas e deitou-se. O empregado perguntou então se tínhamos cartão I-KÊ-Á. Eu sorri: olha, parece que digo bem. Vai o empregado ao lado e pergunta à pessoa que está a atender: «Tem cartão IKÊIA?» O mundo partiu-se em dois.

Raios. O universo faz pouco sentido nesta loja de móveis. Mas com um filho a nascer, pouco importa. O sentido está todo naquela barriga e no miúdo a dormir em cima das caixas onde estão os futuros móveis do irmão.

(Publicado no Sapo 24 no dia 26 de Novembro.)

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