Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Mês: Janeiro 2018

A Cidade das 1001 Línguas

Nova Iorque não é a capital de nada: nem do país (embora seja a maior cidade dos Estados Unidos) nem sequer do próprio Estado de Nova Iorque. É certo que é por lá que reside o Guterres — e isto talvez chegue nalgumas cabeças para chamar à cidade a Capital do Mundo.

Não sei se será do mundo, mas — desviando a atenção para o tema preferido por estas paragens — Nova Iorque é a capital da língua inglesa. Digo isto com algum medo de levar porrada dum londrino, mas o critério que usei é só este: é a maior cidade do maior país de língua inglesa — e é a maior cidade de língua inglesa tout court (lamento a intromissão francesa).

E, no entanto, o mundo tem destas coisas: a cidade que está no centro da grande língua que parece engolir o mundo e é hoje a língua de comunicação internacional é também a cidade onde se falam mais línguas em todo o mundo.

Serão umas oitocentas as línguas faladas pelos nova-iorquinos — a BBC, neste artigo, chama mesmo à cidade «o cemitério das línguas», pois há línguas em perigo de extinção que ainda se ouvem naquelas ruas. Nova Iorque é a capital do mundo, do império, do que se quiser, e como todas as capitais há por lá habitantes de todas as províncias, que trazem as suas línguas e falares… Parece que metade (!) dos nova-iorquinos fala uma língua diferente do inglês em casa. 

O leitor não acredita nesta diversidade absurda? Não sei se gostava da série Seinfeld — havia por lá um episódio em que o George tentava converter-se em orgulhoso membro da Igreja Ortodoxa da Letónia. Podia ter calhado qualquer outra religião, cultura, língua… Como há por lá letões, também há arménios, mongóis, turcos, albaneses, tailandeses, suíços, cazaques, portugueses, paraguaios e tudo o mais. Pensar em 800 línguas diferentes não é assim tão descabido.

Há também esses bichos que são os turistas — eu sei que na cabeça de alguns já são uma espécie de praga sub-humana, mas são gente, ora bolas! Eu, pelo menos, que já fui turista várias vezes, continuo a achar que tenho direito à vida… E se tenho direito à vida, também tenho direito de falar a minha própria língua com a Zélia, que ia ao meu lado na viagem de que já falei ao meu caro leitor

Assim, para lá dos nova-iorquinos dos quatro cantos do mundo, há os turistas das sete partidas do mesmo mundo. Pelas ruas da cidade ouvem-se 800 línguas nativas (se são faladas por nativos da cidade, são nativas) e mais umas quantas de nativos doutros sítios… Logo, não estarei muito longe da verdade se chamar a Nova Iorque a Cidade das 1001 Línguas.

Quem quer conhecer o Jimmy Fallon?

Pois bem: conto agora como tive experiência directa desta diversidade imensa. Num dos dias da tal viagem, enquanto nos divertíamos pelas ruas, como se estivéssemos num cenário de todos os filmes e todas as músicas — o tal império está bem entranhado na nossa cabeça — fomos dar com o nariz nos estúdios da NBC, no edifício 30 Rockefeller Plaza. O edifício é nova-iorquino até à sua medula de aço…

A cidade é o que é e entrámos não nos estúdios (não tínhamos nenhuma entrevista marcada), mas na loja da NBC. Sim, a NBC tem uma loja gigantesca onde podemos comprar merchandising da cadeia: e garanto-vos que ficamos de boca aberta a olhar para tudo o que se pode vender numa televisão…

Andávamos por lá quando um rapaz muito simpático se aproxima e pergunta se queremos fazer parte do público do programa Late Night with Jimmy Fallon — ficámos pasmados: íamos mesmo participar num programa de televisão americano? O Jimmy Fallon não era ainda muito conhecido — ou pelo menos, nós não o conhecíamos muito bem. Mas o entusiasmo tornou-nos, naquele momento, fãs incondicionais e eternas do homem.

O rapaz lá explicou que, enfim, não era bem assistir ao programa, mas a um dos ensaios, em que o Jimmy Fallon iria experimentar as piadas do monólogo inicial para ver quais resultam e quais não resultam — para depois as repetir à noite. Não interessa: o nosso sonho sempre fora assistir a um ensaio do programa do Jimmy Fallon!

Dissemos logo que sim e lá pegámos nos dois bilhetes, que iríamos usar dali a umas duas horas. No entretanto, teríamos de nos entreter pelos arredores da Rockefeller Plaza, o que — Nova Iorque é Nova Iorque — não era muito difícil.

É ali, naquele sítio, que fica instalada a famosa árvore de Natal onde o miúdo do Sozinho em Casa 2, depois de se encontrar com o futuro presidente dos E.U.A., vê por fim a sua distraída e triste mãe.

Os edifícios são de ficar de boca aberta. Ali mesmo ao lado temos a Catedral de São Patrício — e, claro, não podemos andar muito sem encontrar uma livraria, o que me dá para gastar duas horas e muito mais. Foi por isso que, naquele dia, houve quem tivesse visto o ensaio do programa com um saco cheio de livros aos pés.

O americano que sabia onde era Portugal

À hora marcada, estávamos à porta do edifício da NBC. A bicha era enorme, todos de bilhetes na mão. Pusemo-nos atrás dos outros convidados para o grande ensaio…

Entretanto, um rapaz bem louro e bem americano ia recolhendo os nomes e os países das pessoas. Quando chegou a nossa vez, lá dissemos os nomes e o país: Portugal.

Ora, na cabeça de muitos portugueses, um americano perante o nome do nosso país ou coça a cabeça ou diz algo como «Ah, em Espanha, não é?»

Pois, eu tenho uma teoria: a ideia de que somos uma província de Espanha é uma ideia muito… portuguesa. Ou melhor: não é que nós concordemos com tal afirmação, mas sempre que a ouvi não foi da boca de nenhum estrangeiro, mas antes da boca de algum português a reclamar contra os tais estrangeiros que dizem o tal disparate.

Ora, a verdade é que há um ou outro estrangeiro distraído a quem já ouvi dizer, a seguir ao nome de «Portugal» algo como «Ah, sim, fica ali perto de Espanha, não é?» — o que, diga-se, não prova distracção alguma, pois é a mais pura das verdades: estamos ao pé de Espanha. Ao lado e por baixo, para dizer a verdade.

Eu sei que o nosso orgulho de nação valente e antiga nos leva a preferir os estrangeiros que dizem o contrário: «Ah, Espanha, ali ao pé de Portugal, não é?» Pois, o problema é que há poucos desses.

Sejamos generosos: é normal que as pessoas se orientem desta maneira… Nós também dizemos que a Irlanda é ao pé do Reino Unido; que a Bélgica fica ali mesmo por cima de França; que a Holanda é ao lado da Alemanha; que a República Checa é assim como que a antiga Checoslováquia menos um pedaço; que a Lituânia fica lá para os lados da Rússia… Pronto, é bem verdade que a Lituânia nunca descobriu o Brasil nem chegou por mar à Índia — mas teve uma grande história que fazemos mal em ignorar.

Tudo isto para dizer que fiquei à espera do esgar de incompreensão perante a nossa simples declaração: viemos de Portugal! Note-se que isto foi muito antes de ser um português o político mais importante de Nova Iorque. Foi ainda antes de a nossa Selecção ganhar o Euro — e ainda faltavam muitos anos para a estrondosa vitória na Eurovisão… Depois destes feitos históricos, é habitual que os americanos saibam onde é Portugal! Aliás, muitos têm posters do Éder e do Salvador no quarto, segundo dizem.

Mas, nesses velhos tempos, julgávamos nós que os americanos sabiam tanto sobre Portugal como nós sobre o Butão. O problema, claro, é que confundimos sempre os americanos com o Americano que está na nossa cabeça. Este último é um bicho inculto e, vá, inexistente, fruto da nossa imaginação dada a caricaturas. Os primeiros são para cima de 300 milhões.

Pois, desses 300 milhões, calhou-nos precisamente aquele que, perante o belo nome de Portugal, sorri com todos os dentes.

Portugal? I love it!

Era simpatia falsa de quem nos estava a apaparicar com vista a obter um público bem domado? Nem por isso: o homem desatou a falar dos encantos de Coimbra, de como o Porto não ficava atrás e não deixou de elogiar Lisboa — «But Coimbra, oh, Coimbra!…»

Ficámos de boca aberta, a dizer que sim com a cabeça, contentes por irmos ver o Jimmy Fallon e por sabermos que um dos seus produtores era um apaixonado por Coimbra. Lá nos deixou, depois de uns bons minutos a falar de Portugal, passando a conversar com os senhores de trás. A conversa foi muito menos entusiasmada. O problema é que não eram portugueses e ele não conhecia tão bem a Coreia do Sul… 

Tantas línguas numa sala

A bicha de turistas entrou então, ordenadamente, numa pequena sala, onde ficámos de pé. Deixem-me reformular: entrámos todos numa pequeníssima sala, onde só podíamos estar de pé, já que não havia espaço para mais nada. Ali estavam umas boas dezenas de habitantes sortidos deste belo planeta empacotados numa minúscula divisão dum enorme arranha-céus.

Estávamos à espera do quê? De quem? Para quê? Passaram alguns minutos e começámos a ficar impacientes. Ouvimos conversas e telefonemas em várias línguas. Alguns pareciam já um pouco zangados, mas talvez fosse da língua e não da zanga — há idiomas que nos soam mais agressivos do que outros, mesmo quando aquilo que ouvimos é um melífluo poema de amor.

Tanta diversidade ali espelhada na pequena sala à entrada do estúdio dum programa visto em todo o mundo… Aproveito, enquanto estou com o leitor nesta sala carregada de turistas à espera não sabemos bem do quê, para perguntar: será que a diversidade linguística do mundo está a diminuir ou está a aumentar? Por um lado, o inglês avança pelo mundo fora; por outro, nunca tínhamos ouvido falar de tantas línguas diferentes — mesmo aqui ao lado, em Espanha, agora parece que há mais línguas quando, há umas décadas, os portugueses só ouviam falar do espanhol e pronto. Em Portugal, vejam lá, ouvimos mais variação: antigamente, parece que não havia tantos sotaques…

Na verdade, há muitas línguas a morrer e a diversidade dentro de cada língua parece estar a diminuir. Por outro lado, a diversidade que ainda existe é mais visível do que alguma vez foi — há quem proteja com unhas, dentes e língua as maneiras diferentes de falar.

Mas por que razão digo que a diversidade está a diminuir? Por causa do inglês? Também, mas não só (ou nem sequer principalmente por causa do inglês): na verdade, as línguas oficiais de cada Estado estão mais fortes do que nunca e, dentro de cada língua oficial, as formas de prestígio espalham-se com uma força inaudita por causa da escolaridade, televisão, rádio, etc.

Parece estranho dizer isto, mas aquilo que tem acontecido, ao longo das décadas, é um fortalecimento das normas de cada língua. Muitas pessoas deixam para trás, de forma gradual, os falares mais distantes da maneira como se fala nas capitais. Da mesma maneira, em países com muitas línguas, a tendência tem sido para que muitas delas percam falantes.

A diversidade diminui. Mas, depois, as misturas são mais que muitas. Há umas décadas, haveria menos gente a viajar, a sair da sua terra, a ouvir outras maneiras de falar — e muito menos outras línguas. É cada vez mais difícil ser um perfeito monolingue.

Isto também tem a ver com Portugal: há umas boas décadas, a diversidade linguística era maior (vemos esse movimento centrípeto na maior diversidade linguística nos falares das gerações mais velhas em comparação com os falares das gerações mais novas). Hoje, há uma maior aproximação às formas de prestígio (e, diga-se, neste jogo nem sempre as coisas correm bem, pois os contactos entre gente de regiões e classes sociais levam a alguns atritos linguísticos que pedem uma atitude um pouco mais saudável para com a diversidade).

Resumindo isto dentro da nossa história bem real sobre como vimos ao vivo o Jimmy Fallon: aquela gente toda ali na salinha dos estúdios da NBC falaria menos línguas diferentes do que os seus bisavós. Talvez algum chinês estivesse a usar já o mandarim, quando o seu bisavô não falaria mais que a língua da sua província. Ou então o galego ali ao nosso lado estaria a falar castelhano, quando os avós falariam galego. Talvez o francês de Marselha à nossa frente falasse francês sem dúvida e sem perdão, quando os seus trisavós eram ainda adeptos de discutir tudo no velhinho occitano — e nós falávamos com um sotaque parecido com o lisboeta, bem diferente dos sotaques dos nosso avós…

Mas, na verdade, o bisavô galego, o trisavô occitano, o pai chinês, os avós alentejanos — dificilmente se encontrariam todos na mesma sala por mais voltas que o mundo desse.

Por isso, volto a dizer: a diversidade está a diminuir, mas a sua visibilidade está a aumentar — e, no que toca a este segundo ponto, ainda bem.

Saber rir na altura certa

Abre-se então a porta e aparecem uns três homens de ar divertido. Apresentaram-se: eram os guionistas responsáveis por escrever as piadas do nosso Jimmy Fallon. Explicaram o que iria acontecer: o tal Jimmy aparecia como sempre, no início do programa, e iria contar piadas — nós devíamos ouvir e rir sempre que nos apetecesse. O objectivo era testar as piadas. Ver o que resulta. Saber se aquilo que parece genial não passa duma piada seca.

Foi então que nos fizeram a todos um pedido:

— Se alguém aqui não percebe assim muito bem inglês, diga-nos, por favor! É que precisamos de gente que perceba as piadas… — e riram-se durante dois segundos, calando-se de seguida, muito sérios, à espera que os pecadores se denunciassem.

O problema — pensei eu — é que se, de facto, alguém não percebia inglês, é bem possível que também não percebesse a pergunta.

Lá entrámos todos no estúdio, debaixo das luzes, com a secretária do apresentador e o sofá dos convidados ali mesmo à nossa frente, a cortina por onde iria entrar o nosso amigo Jimmy à direita e a inevitável banda já a ensaiar.

Sentámo-nos, começou a música, apareceu o Jimmy Fallon, contou boas piadas e todos nos rimos. Se ali alguém não sabia inglês, sabia pelo menos rir na altura certa. O estúdio, esse, parecia muito mais pequeno do que na televisão — mas isso é o que todos dizem.

De todas as piadas — que eram boas — só me lembro de uma: parece que nesse dia o Facebook tinha ido abaixo durante uma hora. «Foram avistadas pessoas com ar ressacado, na Quinta Avenida, a apontar para vários objectos e a gritar “Like”, “Like”, “Like”.» Enfim, perdoem-me a tentativa… Não tenho tanto jeito para contar piadas como o homem… O que nos rimos nós das piadas dele (ou melhor, das piadas dos três senhores que conhecêramos na salinha) — por mais línguas que haja, há coisas que são mesmo universais. A capacidade de aprender uma língua, por exemplo — e a capacidade de rir. E se é verdade que o humor é das coisas mais difíceis de traduzir, também é verdade que não há língua sem piadas.

Quando o ensaio terminou, saímos para a rua. Ainda era de dia e ficámos atrapalhados com o sol nos olhos. Afinal, estivéramos num estúdio que fingia uma eterna noite nova-iorquina. Continuávamos o passeio? Ora, tinha um saco de livros na mão.

Fomos até ao hotel, com um sorriso nos lábios e a ouvir à nossa volta as línguas todas daquela cidade que não se cala.

Os nossos objectos (ou como tranquei a minha família em casa)

Há umas semanas, estive quase para não escrever esta crónica porque deixei cair os óculos no mar. Pois, esta semana aconteceu algo pior: deixei o computador em casa.

Pânico: só volto a casa no domingo à noite. Como escrever o texto?

Enfim, a solução está no bolso: o telemóvel. O problema é que escrever mais do que dez palavras no telemóvel irrita-me os dedos. Lá dei umas voltas à cabeça e depois de algumas aventuras que ficarão para outro dia, já tenho um teclado de jeito à minha frente. A crónica há-de sair.

Este meu lapso de bagagem levou-me a pensar nos objectos que nos afligem quando estão longe. Sim, nós somos dependentes de muitos objectos. Imagino que já todos estão a pensar nos telemóveis, mas o que dizer das ferramentas de cozinha, da roupa, dos óculos? Ou do papel higiénico?

Onde estão os óculos escuros?

Depois da tal aventura em que perdi os óculos, acabei por conseguir uma daquelas promoções em que paguei um e levei dois. Foi assim que, pela primeira vez na vida, arranjei óculos escuros graduados.

Agora é ver-me pelas estradas da vida a acelerar sem semicerrar os olhos — e a travar logo a seguir porque cheguei ao sinal vermelho.

Ora, estranhamente, se por acaso me esqueço dos óculos escuros, fico irritado e com dores nos olhos por causa da luz — tanta luz! O que é estranho, pois nunca me tinha sentido especialmente incomodado por conduzir ao sol antes de ter óculos escuros…

O terror na casa de banho

Sei que isto não é assunto digno, mas faz parte da vida e, como tal, faz parte da crónica. Pois quem de entre nós nunca se esqueceu de verificar se há papel higiénico e, chegando ao final do processo que o trouxe àquela importante divisão da casa, ficou em pânico quando percebeu que nada tinha para resolver o problema?

O que vale é que todos nós temos o mítico telemóvel no bolso das calças caídas no chão e, se é verdade que muitos o vilipendiam, o tal objecto já me safou de apertos deste género, permitindo-me pedir ajuda a quem me podia trazer o confortável papel.

Mau, mau foi o dia em que me esqueci do papel higiénico e do telemóvel. O horror, o horror!

Mas nisto dos esquecimentos, há pior…

As chaves esquecidas (e a família presa em casa)

Claro que já me esqueci das chaves e tive de fazer viagens nocturnas por causa dessa distracção — julgo que poucos serão os portugueses a quem tal nunca aconteceu.

Mas há pior: lá por casa, depois de nascer o meu filho, ganhámos o hábito de fechar o corredor dos quartos à chave para que o nosso gato não vá onde não é chamado. Sim, o bichano consegue abrir portas — só ainda não aprendeu a rodar a chave. Pois um dia, saio do quarto para ir ao supermercado. Chego à entrada, tranco o corredor como de costume. Saio de casa — e reparo que não tinha trazido a chave.

Foi então que senti um piano a cair-me em cima com estrondo: a minha mulher estava no quarto, com o meu filho — e a chave de casa estava na sala. Nem ela podia abrir a porta, nem eu podia entrar em casa. Acabara de trancar a minha família no quarto!

A minha cunhada tinha uma cópia da chave, que estava em casa dela. E a chave da casa dela? Estava na mala pendurada na sala de professores duma escola do outro lado da cidade. Durante duas horas, percorri a cidade com vários molhos de chave no bolso, impaciente para reencontrar mulher e filho presos no quarto. Imaginem o esforço que fiz para parar nos semáforos e nas passadeiras. Com alguma dificuldade, não atropelei ninguém e não passei por cima de nenhum carro.

Duas horas depois, libertei a minha família — e nunca mais me esqueci da chave.

Os objectos moldam-nos o corpo

Se algum extraterrestre aterrasse na Terra, veria o nosso mundo dominado pelas bactérias. Mas, para lá desses bichos — que são muito mais numerosos do que nós e hão-de nos sobreviver a todos —, os extraterrestres notariam a nossa presença.

No entanto, imagino que, mais do que os nossos frágeis corpos de símio pouco peludo, o que impressionaria os visitantes celestes seria a panóplia de objectos com que andamos a forrar a Terra.

Estradas, muralhas, cidades, campos de cultivo, roupa, lixo, papéis onde os tais mamíferos escrevinham uns símbolos estranhamente relacionados com os sons que lhes saem da boca… Há ainda ecrãs, transmissões variadas, antenas e colunas de som.

Nós criamos objectos e estes acabam por nos transformar mais do que pensamos. Até a forma das nossas cabeças, bem diferente dos restantes símios, parece adaptada aos alimentos cozinhados — e este é apenas um exemplo da maneira como os objectos são uma continuação dos nossos corpos.

Também por isso, creio que poucos de nós sobreviríamos na floresta. Exagero? Talvez. O ser humano adapta-se a tudo. Mas estou certo que o papel higiénico nos faria muita falta — para não falar do telemóvel, para pesquisar no Google como caçar um bisonte. Por outro lado, não consta que, na floresta, alguém consiga deixar a família trancada em casa, o que me parece uma vantagem a ter em conta.

Publicado no Sapo 24 no dia 12 de Novembro de 2017.

Somos todos descendentes de Afonso Henriques?

Os livros servem para muita coisa — para passarmos bons momentos na praia e até para perceber melhor o mundo. Aqui ficam quatro exemplos.

1. O estranho caso dos aviões sem balas no motor

Há uns tempos, li num excelente livro sobre matemática (já vos digo qual) uma história muito curiosa que mostra bem como nos podemos enganar com facilidade.

Alguns especialistas americanos, durante a II Guerra Mundial, começaram a analisar os aviões que chegavam da guerra para ver que partes da fuselagem tinham mais buracos de balas — e assim reconfigurar os aviões para proteger os pontos mais frágeis.

Os especialistas chegaram então à conclusão que a zona do motor era aquela onde havia menos buracos de balas inimigas. Logo, era ali que podiam poupar na protecção. Pelos vistos, os inimigos acertavam menos no motor do que nos outros locais do avião.

Pois foi um matemático de nome Abraham Wald que impediu tal disparate: na verdade, havia menos buracos de balas na zona do motor porque, quando a bala acertava no motor, o avião tinha tendência para cair.

Ou seja, os aviões que chegavam aos EUA para serem analisados eram aqueles aviões que, por acaso, não tinham levado um tiro no motor. Os que tinham mais buracos na zona do motor estavam no fundo do mar e não no laboratório daqueles especialistas.

Claro que os aviões tinham menos balas no motor — aqueles eram precisamente os aviões que não tinham levado tiros em zonas críticas…

Quando lemos esta história, faz-se um clique na cabeça e vemos como é tão fácil enganarmo-nos mesmo quando olhamos de frente para a realidade. O erro descrito nesta história é muito comum e apanha-nos quase todos os dias.

O livro onde encontrei esta história é Como Não Errar, de Jordan Ellenberg. A Penguin publicou o capítulo em questão nesta página (em inglês). O livro, diga-se, ajuda-nos a perceber como esta história se repete todos os dias…

2. Todos temos avós famosos

Bem, aqui fica mais um caso de enganos resolvidos com matemática. Na Inglaterra, está agora na moda encontrar ascendentes históricos de gente famosa — e as pessoas assim premiadas com um avoengo espampanante ficam muito orgulhosas. Ah, afinal são gente não só famosa, mas também de pergaminhos antigos.

Ainda em 2015 alguém descobriu que Benedict Cumberbatch era descendente de Ricardo III, o rei que o actor iria representar numa série de televisão. Não sei o que Cumberbatch pensou do caso, mas muita gente ficou pasmada com a coincidência.

Só que não era coincidência: na verdade, o mais provável é eu próprio, aqui neste canto da Europa, ser também descendente de Ricardo III. Eu — e o meu caro leitor. Somos todos!

E também somos todos descendentes de Afonso Henriques (sim!). E de Maomé (ah, pois é!). E só não seremos descendentes de Jesus porque dizem que não teve descendentes.

Como é isto possível? Bem, pensemos ao contrário: tenho dois pais, quatro avós, oito bisavós… Se continuarmos por mais umas quantas gerações em direcção ao passado, chegaremos rapidamente a números impossíveis — o que significa que somos todos primos uns dos outros, de forma bem mais imbricada do que imaginam os defensores de certas ideias de pureza dinástica.

As contas são um pouco mais difíceis do que possa parecer ao lermos o parágrafo anterior. O leitor pode ver a explicação mais desenvolvida neste pequeno artigo — mas se quer que lhe diga, bem mais interessante será ler o pequeno livro chamado O Mistério do Bilhete de Identidade, de Jorge Buesco. Perceberá que é descendente até dos faraós — e aproveita para ficar a conhecer um livro muito simpático.

3. Dois livros para nos tirar as palas dos olhos

As palavras são perigosas — podem enganar-nos e bem. Basta pensar no uso matreiro de termos como «energia», «magnetismo», «quântico», etc. Podemos ainda imaginar o estrago criado por certos mitos relacionados com a natureza, com a ciência, com aquilo que está ou não provado. Afinal, há quem ande por aí a dizer que a teoria da Evolução não está provada porque é só uma teoria — mostrando de uma assentada que não sabe bem o que quer dizer «prova» nem o que quer dizer «teoria» no campo da ciência.

Como os dois casos de que falei acima mostram, por vezes, temos de olhar para os números para nos curarmos da embriaguez das palavras bonitas. Ou, pelo menos, temos de ser críticos com as nossas próprias ideias e estar sempre à coca para encontrar os erros sedutores que nos esperam à esquina.

Pois acabou de sair um livro que nos ajuda a fazer isso mesmo: Não Se Deixe Enganar, escrito por membros da Comcept. Vale bem a pena!

Sim, esta semana apeteceu-me falar de livros. E fica a faltar a última sugestão: não, não tem nada a ver com matemática ou ciência e não acabou de sair. É um livro antigo — o que se passa é só isto: acabei de o ler esta semana.

Se não nos ajuda a não sermos enganados por aviões que fogem das balas nazis ou a percebermos que, no fundo, somos mesmo todos primos, este livro tira-nos a ilusão de que as vidas dos outros são tão banais como parecem e ajuda-nos a perceber como a mais triste das existências pode conter em si uma beleza que os bons escritores conseguem revelar na sua esplendorosa tristeza. Não sei dizer muito mais. O livro é Stoner, de John Williams. Foi publicado em 1965, perdeu-se no tempo e foi recuperado há alguns anos. Aconselho vivamente quem me lê nestes dias de Verão a ir correr à livraria e a comprá-lo. É um livro triste, mas também de tristeza se faz a beleza da vida — talvez seja um choque lê-lo ao sol, numa praia. Mas será um choque que vale a pena.

O que têm estes quatro livros a ver uns com os outros? Entre matemática e literatura, são livros que nos tiram as palas dos olhos e mostram o mundo um pouco mais perto do osso.

Que este ano vos traga muitos e bons livros — é o que vos desejo.

Este artigo foi publicado no Sapo 24 no dia 9 de Julho de 2017.

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