Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Cinco razões para levar os jogos de computador a sério

controller-852271_1280

Há anos que tenho longas conversas com o meu irmão Diogo sobre a importância cultural dos jogos. Tenho recordações magníficas de longas conversas sobre o tema enquanto flanávamos por Cambridge. Ah, se não fosse por mais nada, os jogos de computador já valiam a pena por causa disso. Diga-se que, nessas discussões, mudei algumas vezes de opinião, o que se recomenda. Diga-se ainda que o meu irmão não é propriamente imparcial. Afinal, já ganhou um BAFTA por causa dum jogo que ajudou a criar na Sony. (Sim, acabei de cair na irresistível tentação do orgulho fraternal; espero que me perdoem!)

Ora, gostemos ou não de jogar — pessoalmente, não costumo jogar muito, só uma ou outra coisa no telemóvel e uns meses de pancada com a Wii —, o que me parece é que está na hora de considerarmos a importância cultural dos jogos de computador.

Alguns dirão: qual é a novidade? Então se já há cursos e teses sobre os jogos enquanto manifestação cultural, ainda é preciso que venha alguém dar-nos esta «novidade»? Quando milhões jogam e falam dos jogos, será assim tão difícil perceber essa importância? (Já agora, para ficarem a conhecer um académico português que se dedica ao tema, visitem a página de Nelson Zagalo.)

Outros ficarão horrorizados, habituados que estão a ver os jogos de computador como mania de jovens alienados e que não sabem pensar ou não percebem a importância das outras formas, bem mais importantes, de cultura (livros, cinema, etc.). E, no entanto, era essa a reacção perante o cinema, ainda há umas décadas.

Vejamos então cinco razões de que me lembrei para levar os jogos de computador bem a sério:

  1. O tamanho da indústria dos jogos. Podem achar que isto tem pouca importância, que a quantidade e os montantes envolvidos nada dizem sobre a importância cultural do fenómeno, mas se soubermos que é uma indústria que movimenta mais dinheiro do que o cinema, percebemos que esse tamanho é um sinal inequívoco de que isto é muito mais do que uma mania.
  2. Os jogos podem ser considerados uma forma de desporto. Sim, é verdade: o desporto é objecto de grandes elogios. Faz bem à saúde. Promove espírito de equipa (ou de competição, se necessário for). Põe-nos a correr ao ar livre. Já o desporto profissional é uma indústria imensa, que nos põe com pele de galinha quando os nossos jogam e ganham. Pois, veja-se: os jogos são uma espécie de desporto mental e, para dizer a verdade, cada vez mais físico. Pensem na Wii e pensem no novíssimo Pokémon Go. E já há campeonatos de jogos de computador — na Coreia do Sul, a maluqueira já se instalou há muito. Ah, os E.U.A. já consideram alguns jogadores como atletas.
  3. Os jogos também são uma forma de arte. Aqui começam alguns a impacientar-se, mas é verdade: tal como o cinema começou por ser uma técnica de gravação de imagens e acabou por ser uma forma de arte completíssima, os jogos juntam muito das artes anteriores, juntando-lhes a interactividade difícil de obter noutras artes. Temos personagens, temos aspectos filosóficos a considerar, temos ficção e emoções a rodos. Para quem (como eu) não conhece o fenómeno a fundo, pode ser difícil perceber como esta arte funciona, mas ela está aí. E veio para ficar.
  4. Não são o bicho-papão que alguns pensam. Há jogos violentos? Sim, claro, tal como há filmes e livros violentos. Mas isso não quer dizer nada. Há indicações fortes que os jogos fazem bem ao desenvolvimento intelectual dos jovens. E mesmo que assim não seja, a arte ou o desporto nunca precisaram de justificações utilitárias para se impor.
  5. Os jogos são viciantes. Sim, é verdade. São uma forma de arte que vicia. Assim, é normal ver essas explosões de este ou daquele jogo, como agora este Pokémon Go, que parece ter um bom efeito de pôr gente a brincar ao ar livre, em grupo, com amigos (se fosse um peddy paper, ninguém achava ridículo). Alguns ficarão pasmados a dizer: mas alguma vez jogos de Facebook ou o Pokémon Go são arte? Ora, não tomem a parte pelo todo. O cinema também é imenso e importante, mas não tem todo o mesmo valor. E, tal como nas outras artes, há fenómenos de massa, há fenómenos mais restritos e aqueles casos que juntam tudo: qualidade e quantidade (Shakespeare não era conhecido por ser um autor de poucos). Sim, daqui a 500 anos, haverá talvez um Shakespeare dos jogos nos livros de História (sim, porque os livros e tudo o que vem antes não vai desaparecer).

Como diz o meu irmão, isto não é um jogo de soma zero: a força dos jogos não tem de ser um ataque às outras manifestações culturais, tal como a televisão não acabou com a rádio. As formas de arte alimentam-se umas às outras e se esta é uma arte que também é um desporto, tanto melhor. E se um jogo movimenta milhões à procura de bichos virtuais em todo o mundo, digamos que é dessas experiências que se fazem as recordações do futuro.

Agora, gostemos ou não, a verdade é que convém mesmo levar os jogos a sério. Mais do que uma arte ou um desporto, são um canal de transmissão daquilo que quisermos: arte, informação, desporto, etc.

A brincar, a brincar, os jogos são das grandes manifestações culturais do futuro. Aliás, do presente. E até do passado, porque já há jogos que fazem parte da história da cultura.

Digo «levar a sério os jogos», mas no fundo quero dizer que devemos levar tão a brincar como o resto da cultura, do desporto e da arte. Porque a vida também é brincar um pouco connosco próprios. Brincar e jogar. À apanhada, ao futebol ou ao computador — não é assim tão diferente.

Anterior

O que é a norma da língua portuguesa?

Próximo

Sabiam que os piolhos dos nossos filhos são nossos primos?

4 Comentários

  1. Paulo

    Aqui à uns anos (20? 30?) comprei um livro cujo titulo seria algo como isto “tudo o que nos faz mal, é bom para nós” e já nessa altura era defendido (no livro) que quem jogava jogos no computador, desenvolvia a mente, os reflexos e até a cultura.

  2. Daniel Ferreira

    Caro Paulo, a actividade lúdica é essencial ao desenvolvimento humano, como o demonstra o comportamento das crianças e animais em tenra idade. Há muitos jogos, de computador, cartas, tabuleiro, cromos ou outros, que desenvolvem o nosso físico, inteligência e cultura, tornando-nos pessoas mais bem formadas, sensíveis, e saudáveis. Mas há jogos e jogos. O Carmaggedon, por exemplo, só serve para desenvolver a parte mais rasca do ser humano.

Deixar uma resposta

Powered by WordPress & Autor do grafismo: Anders Norén

By continuing to use the site, you agree to the use of cookies. more information

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close