Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

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Quais são as expressões mais deliciosas da nossa língua?

Estou a planear escrever um pequeno texto com mais expressões deliciosas, para continuar aquele artigo em que descrevi as delícias que uma alemã encontrou na nossa língua.

Pois, desta vez, pergunto directamente aos meus leitores: que expressões da nossa língua consideram deliciosas?

Entre todas as respostas, irei escolher aquelas que me deixarem mais água na boca…

Podem usar os comentários para responder. Desde já, o meu muito obrigado!

Os deliciosos erros dos nossos filhos

Já todos sabemos como é: há coisas que os nossos filhos fazem que nos deixam derretidos e que, para as outras pessoas, não são nada de especial. «O meu filho aprendeu a contar até três!» — e lá se põe o pai com um sorriso de orelha a orelha. Já o amigo encolhe os ombros, porque isso de contar até três, enfim, não é assim uma façanha de correr a contar a toda a gente.

Bem, sendo pai, fico mais comovido com o ingénuo entusiasmo daquele pai do que com o encolher dos ombros do amigo. Sim, eu sei que raramente as crianças fazem coisas que as outras não façam também. Só que isso não torna o crescer menos espantoso.

E, por isso, confesso: fico com um sorriso no canto dos olhos quando o Simão faz qualquer coisa de novo. Por estes dias (em que ele tem quatro anos e pouco), são as frases cada vez mais completas, as palavras novas que não sei donde aparecem (pregando-nos um ou outro susto…), a atenção a tudo o que passa por ele e as perguntas curiosas sobre tudo e nada — sem esquecer aquilo que ele já sabe e eu nunca conseguirei fazer bem, como por exemplo (ai, vergonha) dançar.

E não é que até fico comovido com os erros? Acho um portento de invenção fonética a maneira como ele diz essa palavra onde quase todas as crianças tropeçam: «frigorífico». Diz qualquer coisa como «fuísco» e é uma delícia ver esse simpático fuísco, ao longo do tempo, a transformar-se num pesado frigorífico (ainda não chegou lá — está a meio caminho).

E tal como quando nos dizem que o nariz dele é meu e os olhos da mãe, parece que nos erros também há qualquer coisa nossa… Ontem apanhei-o a dizer: «isto é um poguema». E eu disse: «um problema?» e ele disse que sim — e por dentro fiquei a rir-me, lembrado da minha mãe a contar-me como eu não conseguia dizer «problema» até bem mais tarde do que a minha vergonha permite confessar. O que dizia eu? «Poguema», claro está.

Doze deliciosas palavras deste Natal

Fiquem então com estas doze palavras muito natalícias. Deixei de fora muitas outras, claro está. Mas estas, poucas que são, já me sabem muito bem…

  1. Neve. Por cá, é raro termos neve a cair para lá da janela, mas o que querem? Seja dos filmes, dos livros ou da imaginação, achamos sempre que a neve quadra bem com o Natal. Não sei o que sentirão os brasileiros, com o seu Natal de Verão, mas por cá o frio natalício sabe bem.
  2. Lareira. Sim, o frio sabe bem, mas o calor da lareira, o cheiro da lenha, o crepitar do fogo… Ui, haverá coisa melhor? Digamos que o frio sabe bem lá fora. Em casa, o que queremos é calor: da lenha e das pessoas à nossa volta.
  3. Mesa. Melhor do que olhar para a lareira? Só estar sentado à mesa, com a comida em cima da mesa, entre decorações de Natal, a árvore a piscar lá atrás, o presépio iluminado, e a janela onde vemos a neve a cair (pronto, lá estou eu a imaginar coisas).
  4. Prendas. No fim do jantar, as prendas. O rasgar do papel com que embrulhámos cuidadosamente brinquedos, roupa, envelopes, postais, meias e…
  5. Livros. A melhor prenda de todas, sem a mínima dúvida. Pelo menos para mim. Nunca me canso. Quem se cansam são as estantes, que lá em casa já andam abauladas do peso dos livros estacionados em segunda fila. Paciência. Foi para isso que foram feitas.
  6. Brinquedos. Brinquedos há muitos e para os miúdos, nesta noite, tudo serve e tudo é uma alegria, pois mais simples que sejam. Depois, adormecer é que está quieto, com tanto brinquedo novo ali ao lado. E há choro e depois sono descansado e, de manhã, tudo aos gritos a brincar.
  7. Filmes. Os de sempre e os mais recentes. As xaropadas de Natal. O rapaz que tortura ladrões. O inglês apaixonado pela portuguesa que não sabe inglês. A inglesa a trocar de casa com a americana que se apaixona pelo irmão da inglesa. O Mr. Bean armado em agente secreto a tentar ter graça. E nós sentados a ver, no dia depois das prendas, com a enxaqueca de Natal, mas confortáveis e felizes, no dia em que está tudo fechado e podemos ficar a ver televisão ou, o que é ainda melhor, a conversar…
  8. Conversas. Mais sérias ou sem rumo, opiniões para todos os gostos, à luz da lareira e ao som das canções sempre iguais, sempre deliciosas. E, por vezes, à distância, os telefonemas rápidos, as mensagens de Facebook, uma conversa rápida por Skype a destruir distâncias. Ou um abraço a alguém que já não víamos há muito tempo.
  9. Histórias. Desligada a televisão, é hora de ler as histórias dos livros que oferecemos aos filhos. Ou aconchegarmo-nos num sofá e ler um livro que nos ofereceram ou que escolhemos nós mesmos. Ou então ouvir os avós e os pais a contar as histórias de sempre, de viva voz, ali ao pé de nós, e os netos a ouvir, de olhos brilhantes.
  10. Estrada. Para muitos casais, o Natal implica percorrer o país, à procura das várias terras da família. Assim, há anos que, na manhã de 25 de Dezembro, lá vou de casa da minha família para a casa da família da Zélia (ou ao contrário, dependendo do ano). É já uma das nossas tradições.
  11. Crianças. Sim, tudo o que vimos acima só faz sentido porque o Natal é especialmente importante para os mais novos. A nossa tarefa é preservar o mais possível o Natal deles, para que venham a lembrar-se dessas noites mágicas daqui a muitos anos. Pois para nós, que já deixámos a infância há uns tempos, o Natal tem quase sempre qualquer coisa de saudade…
  12. Saudade. Nesta altura, rimos e abraçamo-nos, mas também choramos mais do que o habitual. Porque há pessoas que já não estão e felicidades que não voltam. Também faz parte do Natal e, em certos momentos, com o brilho da lareira nos copos à nossa frente e o calor na pele, sentimo-nos bem a recordar essas pessoas que passaram outros Natais ao nosso lado. E abraçamos uma vez mais os que estão ao nosso lado, certos de que não será para sempre, mas é o melhor que temos neste mundo.

Cinco expressões deliciosas da língua portuguesa

O meu irmão Diogo já me avisou que eu uso demasiado a palavra «delicioso». Quando ele me disse isso, não acreditei. Mas, depois, fiz uma procura no blogue e saíram-me três páginas de artigos onde uso a palavra. Raios.

Bem, hoje lembrei-me novamente da palavra «delicioso» ao ouvir uma alemã a falar português.

Deixem-me lá contar: hoje estive na conferência  «30 anos de Português na UE», no Museu do Oriente, organizada pelas instituições europeias.

Pois, a certa altura uma funcionária alemã (cujo nome não consegui registar a tempo [um leitor informou-me, nos comentários abaixo, que se chama Ulrike Hub]) decidiu contar as suas aventuras na língua portuguesa, o que muito divertiu o público. Acabou por dizer várias expressões portuguesas que acha engraçadíssimas — e que nós quase nem notamos.

Aqui ficam cinco dessas expressões, que rabisquei furioso enquanto as ouvia (muitas passaram-me):

  1. «Pequenos nadas». Sim, à funcionária alemã esta expressão faz-lhe cócegas divertidas. Pensem bem como nem notamos que os «nadas» não podem ser nem pequenos nem grandes — são nadas. E a vida, claro, é feita desses pequenos nadas… Uma expressão ilógica? Ah, sim, mas deliciosa. No fundo, é um dos pequenos nadas de que se faz o irresistível charme da língua portuguesa.
  2.  «Barriga das pernas». Claro que a nós não parece, mas é de facto uma expressão curiosa. Imagino que um alemão, quando encontra esta expressão pela primeira vez, pense num umbigo no meio das pernas. Ou mesmo numa pequena criança a nascer na barriga da perna dum qualquer deus grego (que tinham tendência para essas maluqueiras).
  3. «Céu da boca». É tão normal, mas tão normal que não percebemos quão malandra pode ser esta expressão portuguesa: pois quem não encontrou já o céu num bom beijo? E andamos nós com esta poesia toda nos lábios sem lhe dar valor. Sim, quem fala português tem um céu dentro da boca. Uma alemã arregala os olhos, claro está. E aproveita os segredos desta língua, pois então.
  4. «Beijinhos grandes». A alemã arrancou gargalhadas de todos os que lá estavam ao perguntar se haverá coisa mais estrambólica do que beijinhos grandes… E, de facto, ou bem que os beijos são -inhos ou bem que são grandes. Mas que importa? São beijinhos, chiça. E grandes, ainda por cima. Quem não quiser que vire a cara.
  5. «Fuz». Disse-nos a alemã que se nós temos «faz», «fez», «fiz», «foz» — só temos de nos esforçar um pouco para ter um «fuz». E tem muita razão, sim senhora. Quem de entre nós se atreverá a dar um significado ao nosso «fuz»?

É no que dá pôr-me a ouvir a nossa língua pela mente duma alemã. Tudo se torna menos familiar, menos habitual e por fim — como acontece quando repetimos uma palavra comum muitas vezes — estranho e delicioso. Por momentos, ouvimos essa palavra como se fosse a primeira vez.

Será também aí que reside um dos grandes prazeres de aprender línguas: a estranheza da língua dos outros é sempre imensa — e há momentos em que até a nossa língua nos aparece como uma estranha invenção que não é de ninguém em particular, mas de todos nós — até duma alemã que a aprende em adulto — e que vamos desfiando pelos séculos, pela boca e pela escrita.

E, já agora, feliz Dia Europeu das Línguas!

26 de Setembro de 2016

Falamos uma língua bastarda (e é deliciosa)

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As línguas, meus caros, são umas bastardas.

Reparem: o português julga que vem do latim, essa língua imperial, mas nem sempre se lembra que o latim era outro: não o latim dos intelectuais romanos, mas a língua do padeiro. E do ferreiro. E da mulher da vida. E do soldado. Sim, também temos Cícero a correr nas veias da língua, mas menos do que gostam de imaginar os que sonham com uma qualquer nobreza da língua.

Mas, mais: depois de cozer a língua na Galécia, misturámos esse nosso galego com uns pós de árabe — e nem sequer era bem o árabe, mas sim os pedaços de árabe que já vinham misturados, como pedaços de chocolate numa bolacha, no moçárabe, a língua do povo do sul da península.

Durante séculos, o nosso português era a língua vulgar e o antigo latim continuava no seu trono. Enfim, lá se tornou oficial e, mais tarde, inventámos algumas palavras a soar a grego e também fomos outra vez ao latim para dar um ar mais cultivado…

Mas não nos enganemos: a língua continuou a ser um bicho sem tino. Importámos palavras de todo o lado. Até Os Lusíadas têm palavras de muitas paragens (e castelhanismos que sobram).

Então se nos afastarmos da língua escrita, se olharmos para a língua da rua, essa sempre se misturou, sempre se deixou levar por manias e modas, sempre pisoteou todas as ideias de pureza. Lá vieram palavras do francês, do italiano, do inglês, das línguas índias e muito mais (mas descansem: também oferecemos palavras a outras línguas: ao inglês, ao castelhano, ao francês, até ao japonês).

E, claro, depois, nas naus, lá foi o português e lá se espalhou pelo mundo, e em todo o mundo se misturou e se pintalgou: a nossa língua também é mestiça, ó gente armada ao puro!

Sim, eu sei: se a língua nasceu na rua, os escritores e os gramáticos deram-lhe lustro, limaram-lhe as arestas, escolheram isto em vez daquilo. Mas a verdade, também, é que a literatura se alimenta dessas correntes obscuras, da língua doutros sítios, doutras gentes — não é de todo feita duma linguagem depurada: muito antes pelo contrário. Poucos bons escritores conseguiriam escrever se a língua fosse qualquer coisa de artificial ou um bicho domado. Não: a literatura vive desse bicho selvagem criado nas ruas, nas camas, nas noites — a língua de todos, de quem insulta e ama, de quem vende e compra — e por isso tem de misturar, aprender, mudar — de quem tem pouca paciência para queixas, de quem precisa, agora, de falar, às vezes à pressa, muitas vezes com um sorriso na boca, ou um grito, ou um segredo, ou um beijo.

Somos só nós que somos assim? Não: o português não está sozinho: o inglês, por exemplo, a língua que agora anda nas bocas do mundo, chegou àquelas ilhas britânicas como língua dum povo guerreiro, estragou-se com os celtas e os viquingues, que lhe esfacelaram a gramática toda, andou à rédea solta enquanto os nobres falavam normando, absorveu palavras latinas, francesas, até portuguesas. Hoje, é uma manta de retalhos em que o tecido original, muito germânico, já está cheio de remendos de todo o tipo. Alguém se importa? Há quem se importe, mas não interessa. (Já agora, lembro que há um livro muito bom sobre essa bastardia do inglês: Our Magnificent Bastard Tongue; nesse livro me inspirei para dar o título a este texto.)

O mesmo podemos ver no espanhol, no francês (até no francês!), no italiano — e em todas as outras línguas. Mesmo o esperanto, coitadinho, não passa duma mistura estranha de muitas línguas, só que em vez de ser na cabeça de milhões, foi na cabeça de um só homem.

As línguas ficam mais pobres com estas misturas todas? Claro que não! A ideia de pureza linguística é como todas as outras ideias de pureza: extraordinariamente sedutora, mas perigosa, daquele perigo mau, que às vezes até acaba em tragédia. É uma mania que não ajuda ninguém e só nos deixa enervados uns com os outros.

Por isso, todos os que querem uma língua impoluta, sem misturas, sempre no mesmo registo, sem palavrões, sem palavras populares em textos escritos (como «deslargar» e outras), sem um ou outro absurdo, sem redundâncias, sem palavras que querem dizer a mesma coisa, sem estrangeirismos: percebam que o português, como todas as línguas, é um fenómeno natural, um sistema complexo e desordenado, que podemos estudar, usar, moldar para nosso proveito — mas que dificilmente podemos controlar. Podemos (isso sim) conhecer e até amar esse bicho bastardo. Podemos ainda — aliás, devemos — cada um de nós, tentar falar e escrever cada vez melhor a língua que nos calhou na rifa. É bastarda, mas é nossa.

Sim, temos de ter uma norma-padrão, o português seleccionado que serve para as situações formais e académicas — e serve de base à escrita, essencial à civilização. Quanto mais pessoas a conhecerem bem, mais pessoas têm acesso a muita coisa que julgo importante. A norma-padrão é um instrumento essencial — mas não se convençam que é sagrada e, acima de tudo, não tentem reduzi-la ao mínimo, não tentem cortá-la até ficar sem vida. A norma pode ser mais ou menos rica — e quanto mais pura, mais pobre será. Sim: mesmo à norma, quando a conhecemos de trás para a frente, fica bem dar-lhe um pouco de sangue, esticar um pouco a corda. Arriscar. Misturar. Sem medo. Querem protegê-la? Escrevam mais, leiam mais, trabalhem! Não desatem a querer cortar à língua palavras e expressões por esta ou aquela razão, deixando a norma mais pobre e mais distante da língua de todos.

É verdade, admito: isto vem muito a propósito do estardalhaço que li por causa duma simples palavra numa notícia. Fiquei pasmado com o absurdo. Uma pequena brincadeira, um pequeno risco que um jornalista decidiu correr — e vem a correr a brigada da língua, cheia de discursos inflamados a acusar os falantes da língua de todas as patifarias deste mundo. São os discursos habituais, que se viram contra a própria língua com a desculpa de a proteger.

Quando vejo tanta gente a atacar os outros por falarem português, tanta gente a atarefar-se a mudar a língua para a tornar mais lógica, mais pura, mais pequena, penso: quem salvará a língua de quem quer salvar a língua?

O que vale é que a língua é mesmo um animal selvagem: lá dá uns coices e continua, matreira e bastarda, saborosa todos os dias. E nós, com ela nos lábios, lá escrevemos, conversamos e damos beijos em bom português — e esquecemos esses tontos que a querem prender à força. Porque a língua é bastarda, sim senhora — e deliciosa para quem a souber ouvir.

A deliciosa tradição islandesa de dar livros no Natal


Há poucos dias, descobri a mais deliciosa tradição de Natal, um hábito magnífico desse pequeno país perdido nas águas frias do norte do Atlântico, que faz as delícias de qualquer viciado em livros.

Na Islândia, a prenda que todos oferecem no Natal são livros e, pelos vistos, a consoada pode ser passada a ler os livros que recebemos.

Mais: publicam-se tantos livros antes do Natal que a língua islandesa tem uma palavra só para esse fenómeno: Jólabókaflóð — literalmente, inundação de livros do Natal.

Para um marado dos livros como eu, isto é o suficiente para querer visitar a ilha — apesar dos vulcões e do frio. Imagino que os livros sejam quase todos em islandês, mas não faz mal.

Já agora, que estamos com a mão na massa, que é como quem diz, na palavra Jólabókaflóð, reparem nessa deliciosa letra «ð», que, em conjunto com o «þ», dá um sabor muito característico a esta língua quando a vemos escrita — são símbolos que nos põem a imaginação a sonhar com sagas e deuses nórdicos e têm o seu quê de alfabeto secreto. (A mim lembra-me também o Beowulf, em inglês antigo, que conheci fugazmente nas aulas de literatura inglesa, há tantos anos…)

Reparem ainda que conseguimos distinguir na palavra islandesa qualquer coisa que não deixa de ser familiar para quem sabe alguma língua germânica (o inglês, por exemplo): temos bóka, que lembra o book mais nosso conhecido, e o flóð, que lembra flood — a palavra quer dizer «Christmas book flood».

E que deliciosa inundação!

Depois de ler sobre esta tradição num artigo encontrado no Facebook, encontrei uma referência à palavra no livro Lingo, de que já vos falei e que tenho andado a ler. Para quem nunca tinha ouvido falar desta tradição, não deixa de ser uma coincidência agradável encontrar referências em dois sítios diferentes em menos de dois dias.

Em Lingo, o autor diz que Jólabókaflóð é uma palavra que bem podia ser importada para o inglês, pois faz alguma falta.

Pois eu digo mais: podia ser também importada para o português, e a tal bela tradição podia vir a reboque, se faz favor.

Uma noite quente, em casa, com pessoas de quem gostamos e o frio a bater lá fora — haverá melhor desculpa para passar umas boas horas a ler, depois de um jantar em família em que se trocaram livros? Se houver lareira, ainda melhor.

Nesta manhã de Natal, deixem-me desejar-vos um 2016 inundado de livros. Há coisas piores.

O galego e o português são a mesma língua?

Esta é uma pergunta muito curiosa, porque raramente se faz em Portugal. Podemos viver, neste país, uma vida inteira descansados e felizes (tanto quanto o pequeno rectângulo nos permite) sem que nos entre pelos ouvidos um eco que seja desta batalha linguística.

E, no entanto, ali acima do Minho, há uma discussão acérrima sobre a nossa própria língua!

Então, mas o que se passa? Para um português, a questão da divisão das línguas é bastante clara: nós falamos português. Os espanhóis falam espanhol. Os franceses falam francês. Podemos acenar com a miríade de confusões que desmancham a limpeza do nosso mapa linguístico. Não importa: a questão é fácil, pelo menos no que toca à nossa língua: português é português. Qual é a dúvida?

Então e o galego? Dirão muitos: «Chama-se galego, não se chama? Então não é português. Ainda por cima soa a espanhol…»

O problema é que, no caso de línguas muito próximas, os nomes que lhes damos não são um bom critério para avaliar a diversidade ou a unidade das ditas. Vejamos dois casos…

Rumamos a Valência

Comecemos pela situação linguística na Comunidade Valenciana.

Em Valência, para lá do espanhol, há outra língua oficial, denominada no Estatuto de Autonomia como «valenciano».

Ora, a grande discussão lá por terras de Valência é esta: será o valenciano um outro nome para o catalão? Ou será uma língua própria? Note-se que os valencianos — aqueles que falam a língua — não mudam de maneira de falar de acordo com aquilo que pensam sobre a questão. Por outro lado, a compreensão mútua entre valencianos e catalães está assegurada.

Então, que consequências tem esta discussão? Tem algumas. Por exemplo, os defensores duma língua valenciana separada não aceitam que se apresentem aos alunos livros da literatura catalã nas aulas de valenciano; afinal, é uma língua separada. Já os valencianos que defendem o valenciano como outro nome para o catalão acham muito bem que se estudem obras catalãs nas salas de aula de Valência. Depois, temos a norma: os que defendem a separação entre as línguas defendem uma ortografia e um léxico que se afastam propositadamente da ortografia oficial catalã e do léxico usado na Catalunha.

Já os catalães, diga-se, consideram o valenciano como outra forma da sua própria língua e, nas escolas, as obras valencianas são dadas nas aulas de literatura catalã. Basta pensar em Tirant lo Blanc, uma das obras mais famosas da literatura nesta língua, escrita pelo valenciano Joanot Martorell.

Quem estiver interessado em saber mais sobre as tensões que se escondem por trás do nome que se dá a uma língua, comece por ler o livro Quem fala a minha língua? (Através, 2013), uma colecção de ensaios de vários autores sobre este assunto.

Não é difícil criar uma língua

Olhando para a nossa língua, antes de nos abalançarmos para a discussão que está no título deste pequeno texto, rumemos ao Brasil.

Teria sido possível, no momento da independência, criar uma língua nova. Bastava integrar na norma algumas formas populares do português brasileiro (falo do vocabulário e estruturas gramaticais), estabelecer uma nova ortografia e criar o nome de «língua brasileira». Pronto: estava feito. 

Note-se: num mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado uma língua brasileira, ninguém teria mudado a maneira de falar no momento da decisão. Os brasileiros continuariam a mesma língua, mas dar-lhe-iam outro nome. Claro que aquilo que falavam seria facilmente distinguível do português de Portugal, mas isso também acontece na nossa versão do mundo, em que o nome da língua é o mesmo. Independentemente do nome da língua, portugueses e brasileiros foram falando, escrevendo e desenvolvendo a língua à distância de um oceano e com influências diversas.

Este afastamento não é suficiente para que deixemos de nos compreender — e também não seria no mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado a tal língua brasileira. O nome que se dá à língua e a criação de uma norma autónoma não cortam, de imediato, a possibilidade de comunicar. Nem de imediato, nem durante muito tempo… Mas criam, claro está, uma barreira mental e política que alimenta o distanciamento linguístico.

Em relação ao Brasil, temos a distância e a indiferença, mas a língua é ainda vista como comum por grande parte de portugueses e brasileiros (quando pensam nisso) e as duas normas ainda estão muito próximas. Assim, há leitura de alguns livros brasileiros nas escolas portuguesas, ouvimos os brasileiros na televisão sem precisar de legendas, não traduzimos livros de literatura brasileira (embora, em certo tipo de livros, se note algum tipo de adaptação) e conversamos bem uns com os outros, para lá das picardias típicas de povos próximos e de algum medo do Brasil que uns quantos portugueses apresentam como sintoma de alguma insegurança (digo eu). A língua continua a divergir, mas continuamos a aproveitar as proximidades — o que se faz de forma muito mais saudável quando não há imposições de unidades artificiais.

Portanto: o nome da língua pode sublinhar diferenças ou manter uma unidade decidida para lá do uso real da língua. Com diferenças comparáveis às diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil (provavelmente, as diferenças até serão menores), alguns valencianos pretendem criar uma língua separada. Mas claro que a questão não é estritamente política: é política e é também emocional…

E enquanto discutimos os nomes e as divisões, as línguas, na boca dos falantes, vão mudando ao seu ritmo próprio.

Como muda uma língua?

As línguas avançam pelo tempo de forma espantosa: conversamos com os nossos filhos e eles criam a complexa maquinaria mental necessária para produzir, continua e maravilhosamente, a mesma língua dos pais, com todo o intrincado e caótico sistema de hábitos e regras mais ou menos lógicas a que chamamos «português».

Na escola, tomamos consciência de algumas dessas regras, aprendemos a ler e a escrever — o que é outra maquinaria um pouco mais artificial, mas também mais difícil de aprender — e aprendemos a organizar o discurso, a seguir algumas regras de etiqueta linguísticas e, quando a coisa corre bem, a debater uns com os outros com civismo e proveito — tudo importantíssimo, mas bem menos espantoso que a aprendizagem inicial da língua toda. Pelo caminho, também aprendemos a aproximar a nossa máquina linguística daquilo que é mais normal na sociedade em que vivemos — aproximamo-nos da norma, pois então.

A máquina que temos na cabeça nunca é igual à dos nossos pais: afinal, nós ouvimos a língua dos pais, dos amigos, dos familiares, dos professores, das pessoas na televisão, das pessoas na rua… É desse magma linguístico que extraímos a informação para criar a nossa máquina linguística. E funciona! A maneira como o cérebro humano consegue este feito ainda não está compreendida por completo, mas lá que é espantosa, sem dúvida que é.

A interacção entre o que aprendemos dos pais e aquilo que ouvimos na escola, os textos a que somos expostos, a nossa própria vida… — tudo isto leva a que a língua esteja sempre a mudar. Vemos isto na pronúncia, no vocabulário, nas conotações e nas definições das palavras. Há um livro sobre os mecanismos que estão por trás da mudança linguística que recomenda aos interessados: Words on the Move, de John McWhorter. Embora o livro seja sobre o inglês, aquilo que aprendemos vale para todas as línguas: todas mudam, excepto as línguas mortas. 

A língua muda, pois então — mas muda devagar. As crianças aprendem a recriar a máquina linguística dos pais de maneira bastante mais correcta do que imaginamos — o que se passa é que é muito mais fácil notar as pequenas diferenças, que irritam muita gente, do que sublinhar a incrível continuidade da língua ao longo dos séculos.

O galego e o português

E chegamos ao galego — isto porque o galego é uma prova de que a língua muda, mas muito devagar. Quando Portugal se tornou independente, já se falava em toda a Galiza de então algo que reconheceríamos como a nossa língua. No momento da independência, criou-se uma barreira política entre Portugal e aquilo que restou da Galiza. É claro que esta barreira era muito mais porosa do que pensamos hoje em dia — afinal, não houve guardas civis a vigiar a fronteira durante séculos e séculos —, mas ninguém desmente que os portugueses começaram a viver como comunidade separada dos territórios vizinhos.

Pois bem: apesar desta barreira com mais de 800 anos, aconteceu uma coisa espantosa. Se, no século XIX, ouvíssemos os galegos a falar, aquilo que sairia da boca deles ainda era algo muito parecido com o português sem que ninguém tivesse criado escolas, dicionários ou gramáticas para manter a proximidade da língua dum lado e doutro da fronteira. A língua que os contemporâneos de Afonso Henriques falava mudou, mas mudou tão lentamente que, muitos séculos depois, as populações dum lado e doutro daquela que é uma das fronteiras mais antigas da Europa ainda conversavam sem esforço.

Peço que o leitor repare naquilo que acabei de dizer: uma das fronteiras mais antigas da Europa divide populações que, após 800 anos de separação, ainda conseguem conversar sem grande esforço.

Quem não conhece, na prática, esta proximidade, tem uma boa forma de começar a explorá-la: olhe para os verbos galegos e portugueses, como fez Fernando Venâncio no artigo «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português».

Ora, foi também no século XIX que surgiram os movimentos de reivindicação literária das línguas de Espanha, faladas na rua, mas esquecidas na escrita, num movimento que tem paralelo nos muitos movimentos de cariz nacionalista desse século. (Para evitar confusões, convém dizer que o nacionalismo oitocentista não é uma mania dos bascos, catalães e galegos — inclui também os nacionalismos com Estado, como o espanhol, o italiano, o alemão, o português… Foi nesse século que muitos dos mitos nacionais foram criados e foi só então que a Nação, assim com letra grande, começou a suplantar o soberano como sustentação do Estado.)

Na Galiza, o movimento teve como nome Rexurdimento e teve como figura maior Rosalía de Castro. A história é longa e não cabe aqui, mas note-se: os galegos, no século XIX — e estamos a falar de praticamente todos os galegos — sabiam falar galego e este galego era mesmo muito parecido com o português falado do outro lado da fronteira, embora houvesse pouco reconhecimento mútuo dessa proximidade.

Os galegos sabiam falar galego, mas não sabiam escrever a língua. Aqueles que sabiam escrever, escreviam em castelhano. Quando começaram a surgir as obras em galego — a língua dos avós, que há séculos não era escrita a norte da fronteira —, os galegos usaram uma ortografia com forte influência castelhana.

Pois, ao longo do século XX, aconteceram algumas coisas curiosas: o galego continuou a ser falado, mas o castelhano foi ganhando força (os motivos são muitos: basta pensar na escolaridade da população, na televisão em espanhol…). Já em Portugal, a língua começou a uniformizar-se. Criámos uma ortografia nacional em 1911 (sim, só então tivemos uma ortografia estável), as escolas e os meios de comunicação social espalharam o português-padrão por todo o país e a língua começou a mudar de forma rápida entre as gerações tomando como norma um português baseado no que se fala em Lisboa, bastante longe da fronteira com a Galiza. Ainda hoje conseguimos ver como a língua é diferente entre os avós e netos minhotos: os avós estão mais próximos dum português com uma sonoridade que os galegos reconhecem como próxima da sua, enquanto os netos têm a língua a deslizar em direcção a um lisboeta com sabor nortenho.

Na Galiza, depois do final do franquismo, o galego tornou-se oficial. Foi então que surgiu a opção: ou bem que o galego oficial usava a ortografia com características espanholas («ñ», «ll», «z») ou assumia a proximidade com a língua a sul do Minho e escolhia uma ortografia com «nh», «lh», «ç», etc.

Esta última ortografia chama-se «reintegracionista», pois tenta reintegrar o galego no espaço dos povos de língua galega ou portuguesa. Esta ortografia próxima é quase indistinguível do português escrito, não fosse e uma ou outra opção que reflecte as diferenças fonéticas entre galego e português (por exemplo, «associaçom» em vez de «associação»).

Note-se que os textos reintegracionistas, para lá da ortografia, também costumam escolher um vocabulário mais próximo do português. (Já agora, fica aqui anotado que muitas palavras perfeitamente correntes e formais em galego são palavras portuguesas, mas do registo popular. É assim que temos um Sindicato Labrego Galego—Comissões Labregas que nunca falha: deixa sempre os portugueses a rir.)

Nesta luta entre ortografias (que decorreu durante os anos 80), ganharam os defensores da ortografia com «ñ» e o galego ensinado na escola é o galego com uma ortografia bastante diferente da ortografia portuguesa. Temos «A Coruña» em vez de «A Corunha», «camiño» em vez de «caminho», etc. No entanto, o reintegracionismo manteve-se como alternativa usada por muitos galegos. Para quem não conhece, pode encontrar textos em galego reintegracionista no Portal Galego da Língua.

Esta descrição não transmite, claro está, nem a complexidade da questão (cada uma das opções inclui várias tendências) nem a força das emoções que esta guerra levanta na Galiza. Não será inútil recordar que a discussão faz-se num contexto em que a língua se vê a perder falantes a cada dia que passa.

Simplificando bastante, podemos encontrar duas atitudes perante a língua, alinhadas com a divisão que descrevi acima:

  • Muitos galegos defendem o galego enquanto língua autónoma, não querendo confundi-la com o português. A separação política é velha de muitos séculos e a língua seguiu caminhos diferentes dos dois lados. Mesmo assim, alguns destes galegos não deixam de ter perfeita noção da proximidade entre o português e o galego e aproveitam essa proximidade para ler em português e conversar com portugueses.
  • Os reintegracionistas defendem que uma ligação mais estreita ao português tem fundamentos históricos e permite combater o verdadeiro perigo para o galego: a sua substituição pelo espanhol, que não só lhe tira espaço de uso social como vai também desfigurando a língua, na pronúncia e no vocabulário, até torná-la numa mistura de galego e espanhol.

Tudo isto é ignorado cá por Portugal, tirando um ou outro caso. Como disse noutro artigo, nós olhamos para os galegos como os brasileiros olham para nós: sabemos que existem, têm alguma importância na nossa história, mas podem ser ignorados sem perigo.

Mas são a mesma língua ou não?

Antes de tentar responder, podemos olhar para aquilo que é factual. Primeiro: esta pergunta só se faz naqueles casos em que as línguas estão tão próximas que podem funcionar como língua única (se houver vontade).

Segundo: existem galegos, hoje em dia, que olham para o português e o galego e optam por vê-los como a mesma língua. Vêem televisão portuguesa, lêem livros portugueses, etc. Aqui fica uma sugestão de um livro que mostra esta perspectiva: O galego é uma oportunidade, de José Ramom Pichel e Valentim Fagim, um livro que tenta mostrar aos galegos como a sua língua lhes abre os horizontes para um espaço de 200 milhões de falantes. 

Terceiro: se consideramos o português e o galego como línguas separadas, serão certamente das línguas mais próximas que encontraremos em todo o mundo.

Ainda uma curiosidade: há milhares de galegos que se inscrevem para aprender português nas escolas de idiomas da Galiza. Porquê? Tentei responder neste artigo. Note-se que este interesse pela língua portuguesa vai muito para lá das divisões entre as duas normas da língua galega.

E nós, em Portugal? Podíamos considerar o galego como outra variedade da nossa língua, com outro sotaque, algum vocabulário diferente e outro nome? Podíamos, mas não vai acontecer: não há nem conhecimento suficiente entre os portugueses nem interesse da nossa parte. Para nós, os galegos são espanhóis e isso, para a nossa consciência histórica, é algo que nos impede de imaginar qualquer tipo de comunidade, mesmo que meramente linguística. 

Da minha parte, não tenho qualquer interesse em alimentar uma relação de cariz político entre Portugal e a Galiza — e também não quero andar a dar conselhos sobre a ortografia e o vocabulário que os galegos devem usar. Andar a propalar a unidade do galego e do português em Portugal quando, a esse propósito, nem os galegos se entendem parece-me não só inútil como contraproducente.

Mas o belo da questão, do lado português, é que não temos de nos meter na discussão galega nem proclamar a tal unidade: cada um de nós pode aproveitar-se impunemente da proximidade entre o galego e o português. Sem grande dificuldade, podemos aceder a outra literatura e conversar, sem mudar a maneira de falar, com milhões de vizinhos — ficamos mais próximos de boa gente, boa literatura, boa conversa e boas oportunidades.

Pessoalmente, ando a aproveitar esta proximidade. Tenho lido em galego, tenho conversado muito com galegos, tenho até viajado pela Galiza. Todo este texto serve como convite para que mais portugueses aproveitem esta ponte linguística.

O primeiro artigo deste blogue foi sobre Manuel Rivas, um escritor galego, e foi esse escritor que escreveu as primeiras palavras que li em galego, num livro chamado Ela, maldita alma, que um dia comprei num supermercado de Vigo só porque sim:

«Aquela primavera chegara axiña e en demasía. 

Á hora do café, pola fiestra que daba á horta, Chemín mirou a festa de páxaros na vella maceira florida.»

Note-se que esta é a ortografia do galego mais distante da nossa. As opções vocabulares soam-nos estranhas — mas deliciosas. Não precisei de aulas para ler o livro, apesar das saborosas diferenças, tal como não precisei de aulas para ler o livro Outra idea de Galicia, de Miguel-Anxo Murado. Foi a minha leitura de há umas semanas e recomendo-a vivamente. É um livro interessantíssimo para quem gosta de boa escrita, queira ou não saber mais sobre a Galiza.

Para terminar, uma confissão: não consigo aprender galego. Ou seja, por mais que leia galego e converse com galegos, as palavras que me saem são sempre as minhas… E chegam! Talvez esta confissão seja a minha resposta — pessoalíssima — à pergunta do título.

O dia em que conheci um russo com um buraco no pescoço

Há uns tempos, comecei a contar por aqui uma certa viagem que fiz a Nova Iorque. Nessa altura, revelei o que aconteceu no voo — e também já dei uns lamirés sobre o que se passou dentro do quarto do hotel na 42nd Street. Pois hoje conto como fui dar com um russo que tinha um buraco no pescoço ali numa rua de Brooklyn.

Antes disso, tenho de explicar que aquele foi um dia de muitos sustos — talvez até me atrevesse a chamá-los de presságios, não fosse dar-se o caso de… Bem, já vos digo o caso que se deu.

Primeiro presságio: o ataque de que fomos vítimas…

1. O ataque no Central Park

Tudo começou num passeio que demos no inevitável Central Park. Não sei se o leitor concorda, mas aquele parque urbano parece uma espécie de ferida verde num corpo feito de pedra. Os prédios que o rodeiam são exagerados, quase feios — embora o conjunto seja de tirar a respiração.

Pois lá fomos nós armados em antropólogos de fim-de-semana. Por ali estavam as personagens de muitos dos filmes que vemos, na dieta de cinema norte-americano que é apanágio de muito português. As empregadas a tomar conta dos filhos das senhoras, os joggers de fios a sair das orelhas, os Mr. Bigs de telefone na cara e confiança no passo e os cinquentões à Woody Allen a discutir em gabardines nervosas.

Era Setembro e estava sol. O sossego era bom. Passeámos pelos lagos, pelos caminhos, por aquela natureza que, de tão pensada que foi, tinha o seu quê de selvagem. Ao mesmo tempo, aquela era uma paisagem há muito conquistada pelos filmes, pelos livros e pelas fotografias que nos inundam a mente e nos tornam a todos um pouco nova-iorquinos (muito pouco, admito).

Adiante. Lá estávamos nós a passar ao pé dum lago quando, de repente, a Zélia dá um grito de dor e leva as mãos à cabeça.

Tinha sido barbaramente atacada.

Por um esquilo.

E o gajo estava lá em cima da árvore com outra bolota na mão. Atirou-nos, malvado, mas já não nos acertou.

A Zélia estava estupefacta: uma bolota aleija e não é pouco. Ainda fui atrás do esquilo para lhe ensinar o que era bom tirando-lhe uma fotografia às trombas, mas não consegui. Fotografei um dos irmãos, que estas vinganças podem servir-se à família sem que daí venha mal ao mundo.

O que aconteceu a seguir? Nada. Continuámos. Dali a umas duas horas, quando anoitecesse, tínhamos um encontro marcado na Union Square.

Fomos gastá-las para uma livraria de cujo nome já não me lembro e que vendia, no meio dos livros, roupa. Não me lembro do nome, mas lembro-me dos livros que comprei, claro está, embora agora não me apeteça revelar quais foram.

2. Um susto em Union Square

Nessa noite, tínhamos um encontro marcado com o Filipe, amigo do meu irmão Diogo, que vivia por aqueles tempos em Nova Iorque, a estagiar como técnico de som.

Do caminho da livraria até à praça, em que entrámos no violento metro daquela cidade, lembro-me de pouca coisa: lembro-me bem melhor das páginas que me pus a ler e do livro que tinha na mão — diga-se que tinha sido comprado numa banca de livros usados à porta da tal livraria/loja de roupa.

O sol já baixara. A Union Square era um rodopio de casais aos beijos e grupos de estudantes a conversar. Lá ficámos à espera. Foi agradável estar ali um pouco entre nova-iorquinos, a sentir a outra cidade com um encontro marcado, a imaginar as vidas inteiras que por ali passam e as rotinas e sobressaltos que ali tinham a sua paragem.

De repente, chega-se um rapaz ao pé de mim e diz-me:

— Deixas-me ver o teu telemóvel?

3. «Passa para cá o dólar»

Não, não foi um assalto. Ele queria apenas saber o modelo de telemóvel. Pediu-me então, simpaticamente, para ir à loja online do telemóvel e procurar um jogo em concreto.

Procurei o jogo e mostrei o resultado. E ele, feliz:

— Este jogo fui eu que o fiz! Queres comprar?

Não era por ter ali o programador ao lado, mas o jogo parecia-me realmente engraçado. Custava 1 dólar. Tentei comprar, mas não deu, porque a minha loja online era portuguesa e não me deixava comprar o jogo ali nos Estados Unidos (não me lembro bem porquê).

O certo é que prometi comprá-lo logo que chegasse a Portugal. E ele acreditou. E eu comprei — ainda passei umas boas horas a jogar àquele jogo, entre as traduções e as saudades das viagens, num prazer que certamente vale muito mais do que o mísero dólar que paguei.

Já aqui escrevi algumas vezes — e não sou o único a dizê-lo — que os livros são uma espécie de caixinhas de recordações: abrimos as páginas dum livro e lembramo-nos bem dos sítios onde o lemos, onde o comprámos, onde o folheámos distraidamente.

Pois, naquele caso, um jogo de telemóvel foi uma dessas caixinhas de recordações em miniatura: quando me punha a jogar nas semanas seguintes, lembrava-me sempre daquele rapaz que criara um jogo e o andava a vender pelas ruas de Nova Iorque.

Voltemos à Union Square, que se faz tarde e já é de noite: conversámos um pouco com o rapaz — até que vimos o Filipe a surgir pelo meio da multidão, com o sorriso que já conhecia da minha terra.

4. Um caçador de sons em Nova Iorque

Começou-nos logo a contar como eram os dias de Nova Iorque. E, ao contrário do que acontece noutros casos, pusemo-nos a ir mesmo aos sítios da sua vida nova-iorquina.

Começámos pelo laboratório de som onde ele trabalhava. Ficava na Broadway, num prédio onde nenhum turista se atrevia a entrar.

Nada tenho contra fazer turismo: sempre gostei de viajar e não tenho assim tantas certezas sobre a fronteira entre turista e viajante. Sei que existe, mas não sei onde fica. Às vezes, parece-me que a atravesso várias vezes numa só viagem.

Mas também sei que é precisamente naquele momento em que entramos num sítio qualquer que não vem nos guias que uma viagem ganha outro tom, outro sabor: pois é então que até um mísero elevador num velho prédio da Broadway nos parece delicioso e parte duma cidade que agora também é um pouco nossa.

Bem, deixemo-nos de delírios. Lá em cima, no laboratório, eram televisões aos montes, microfones pendurados como estalactites ou perdidos no chão como estalagmites, gravadores e televisores e outros quantos materiais de imagem e som.

O Filipe ainda nos mostrou o seu equipamento de caçador de sons: as almofadas nos ouvidos e o microfone pendurado na sua cana muito particular. Não era aquilo que usava todos os dias. O que tinha na mão chegava. Confessou-nos então que andava por Nova Iorque de aparelho em riste, a caçar aquilo em que poucos reparam: a porta do metro que se fecha, uma conversa passageira numa língua desconhecida, a travagem dum taxi, um insulto dum mafioso, os sons dentro dum café na Village, o sino duma igreja entalada entre dois arranha-céus, o primeiro beijo de dois adolescentes, uma bolota atirada por um esquilo…

Apetecia-me ficar com essas outras fotografias de que ninguém se lembra. Os sons. Os cheiros. Aquilo que desaparece logo que levantamos voo, deixando-nos com fotografias mal tiradas duma cidade a duas dimensões. Pois que as cidades têm todas tantos lados e tanta coisa e até o passar as mãos nas paredes sabe bem e apetece — e é tão difícil guardar… Lá está, só a fraca memória e os deliciosos livros…

Pensámos então em ir jantar. Queixámo-nos dos preços naquela ilha — e o Filipe propôs-nos que fôssemos com ele até Brooklyn, onde iríamos ao supermercado, baratíssimo. Depois, ele tinha lá uma mesa em casa…

— Mas aviso: lá em casa vive um russo com um buraco no pescoço.

5. Os estranhos feiticeiros de Brooklyn

Pois lá fomos, de metro, até Brooklyn. Pelo caminho, íamos conversando sobre aquelas temas a que os viajantes se agarram: pensamos ver um padrão qualquer nos países por onde andamos e, de repente, contamos uns aos outros todos os casos que confirmam esse padrão, com o entusiasmo de quem descobriu uma verdade qualquer sobre o mundo — ou pelo menos sobre uma rua qualquer de Nova Iorque. Este método não me parece ser muito científico, mas é o que temos quando andamos a conversar em ruas longe de casa. E, para dizer a verdade, às vezes as conclusões são pouco mais absurdas que as conclusões a que chegamos sobre a nossa própria terra.

Naquele dia, falámos da estranha simpatia dos nova-iorquinos, que foi uma surpresa para nós, habituados a ouvir falar duma cidade de gente antipática. E o Filipe confirmava: logo no primeiro dia, tinha pedido informações a uma senhora que o ajudou até à exaustão. Depois de o largar, ainda gritou mais uma indicação da janela aberta do carro, por entre os táxis de Nova Iorque. E o Filipe, parado no passeio, olhava de boca aberta para aquela nova-iorquina de simpatia a toda a prova.

Da minha parte, contei como tinha passado à frente — sem querer — numa fila num café e o homem que tinha assim sido relegado para o lugar logo atrás de mim olhou-me não com indignação, mas com surpresa: parecia ser a primeira vez que tal lhe tinha acontecido. Pedi desculpa quando reparei e lá fui para o lugar que me competia, sem problemas e sem estalo. (Foi sorte, eu sei.)

A Zélia contava o estranho caso dos sapatos na mão: pois vimos não sei quantos nativos da zona a correr pelos passeios de sapatos bonitinhos na mão e ténis confortáveis nos pés. Chegámos à conclusão que aquela gente anda tanto quilómetro de manhã que precisa de calçado adequado à corrida — logo no escritório calçam os sapatos mais consentâneos com a importância da tarefa que têm entre mãos.

A casa do Filipe ainda era longe e, quando saímos do metro, andámos pelas ruas a tentar absorver aquela outra cidade dentro de Nova Iorque. Manhattan aparecia-nos como uma loucura de luzes por entre as casas, contra um céu muito escuro. A ilha, vista dali, deixa-nos muito pequeninos. Já as ruas de Brooklyn são duma normalidade que nos deixa desorientados.

Pois foi então que a normalidade se esvaiu num segundo. Apareceram-nos homens com chapéus negros altíssimos, capas brancas e ar de — como direi — feiticeiros. Andavam a percorrer as ruas e a entrar em várias casas, onde as famílias os recebiam felizes.

O Filipe explicou-nos então que aqueles eram judeus ortodoxos que faziam visitas às casas dos correligionários nas sextas-feiras à noite para conversar e conviver.

Continuámos a percorrer as ruas e, entre aqueles homens de chapéus estranhos, víamos talhos turcos, mercearias polacas, restaurantes bálticos e, entre as casas, a embriaguez das luzes de Manhattan como cenário.

Passou um metro por cima de nós e tive vontade de pegar no gravador dele para guardar para sempre aquelas cores, aqueles cheiros e aqueles sons duma noite banal de Nova Iorque.

6. Uma família siberiana

Aproximamo-nos do momento em que conhecemos o tal russo de buraco no pescoço. Mas antes disso fomos a um supermercado normal, barato (e que sabor tem essa palavra depois duns dias de Manhattan), onde comprámos qualquer coisa para jantar.

Pois bem: deixe-nos agora o leitor a escolher pizzas e outras iguarias nos corredores pouco originais do supermercado. Quero agora contar que, nesse dia ou no dia anterior, visitámos o Museu de História Natural — aquele mesmo onde o Ben Stiller andou a tomar ácidos há uns anos.

Pois bem, a certa altura tive aquilo que algumas pessoas chamam de «epifania» e eu chamo de «momento de cansaço».

Estávamos perante uns bonecos dentro dum vidro, daqueles que parecem muito reais, tão reais que o Ben Stiller ainda hoje jura tê-los visto a falar nessas tais noites no museu.

Olhei para aquela cena: uma tenda no meio da Sibéria, uma família — uma mãe, um pai, um filho — protegidos da neve e a comer qualquer coisa. A cena representaria a vida naquelas paragens longínquas há uns bons milhares de anos.

E, tal como, se repetimos uma palavra muitas vezes, ouvimos o som pelo que ele é e não pelo que significa — ao olhar com muita atenção para aqueles bonecos, abstraindo-me de estar em Nova Iorque, num museu, vi como aqueles seres humanos viveram mesmo à neve, em florestas e espetes longínquas — e como aquelas vidas, para eles, eram tão completas como as nossas vidas de gente citadina, que viaja. No fundo, tive ali consciência de como aquelas vidas eram tão humanas como as nossas, com histórias, sarcasmos, discussões, amores e filhos e comida e tantos medos. De alguma maneira, aquela família era ainda mais real do que eu, turista a olhar para bonecos para lá dum vidro.

As epifanias são assim: impossíveis de explicar, ainda por cima a mais de cinco anos de distância. Porque me lembrei agora daquela família? Não sei. Talvez por causa da tal conversa do russo com buraco no pescoço. Provavelmente, o homem tinha tanto a ver com aquela família siberiana como eu. Mas não deixei de pensar como, agora, andamos pelo mundo misturados e nessa altura, em que uma família se abrigava em tendas, uma viagem de alguns quilómetros era uma aventura que seria suficiente para dar origem a lendas e sagas que duravam séculos.

Voltemos pois a Brooklyn, onde já estamos a sair do supermercado de sacos na mão.

— Mas que história é essa do buraco no pescoço?

Ele riu-se:

— Não faço ideia. Ele vive lá em casa e tem um buraco no pescoço. Não liguem. Em princípio, ele não vos faz mal.

Ficámos calados, a olhar. Seriam aquelas as últimas imagens que veria antes de ser barbaramente assassinado por um ex-agente do KGB?

Há sítios piores para morrer. Se tivesse de ser, que fosse rápido — e sem buracos no pescoço.

7. Por fim, o russo e o seu pescoço

Entrámos na casa. Pusemos os sacos na mesa. Olhámos pela janela e lá andavam os feiticeiros de chapéus na cabeça. O Filipe continuava a contar as suas aventuras à procura dos sons de Nova Iorque.

Entrou então na cozinha um homem com cara de mau, como se quisesse confirmar a nossa imagem estereotipada dum agente secreto. (Fico um pouco corado de vergonha: por que razão um russo em Nova Iorque me leva a pensar em agentes secretos?)

O Filipe disse «olá», o homem cumprimentou-o — e não nos disse nada, como se não existíssemos. Subtilmente, eu e a Zélia aproximamo-nos um do outro.

Tentámos ver-lhe o pescoço mas ele franziu os olhos e não virou a cabeça. Olhou para nós. Nós olhamos para ele. Caiu naquela cozinha o silêncio que todos conhecemos daquelas situações em que tentamos ver o pescoço de outra pessoa e ela não deixa.

Vira, não vira, o certo é que o russo encolheu os ombros e virou-se para sair.

E foi então, com um salto, que vimos o tal buraco no pescoço. Ou melhor, vimos qualquer coisa estranha ali entre o cabelo e o colarinho da camisa. Teria levado um tiro? Teria sido preso na Sibéria? Teria tropeçado num degrau à saída do supermercado? Teria um problema de pele?

Sobrevivemos — e eu pensei nas vidas e mistérios que se escondem numa rua banal de Nova Iorque ou de qualquer cidade. Ou até numa tenda na Sibéria ou por trás dum colarinho dum russo nova-iorquino.

O Filipe riu-se da nossa cara de susto e voltámos à conversa de portugueses perdidos numa cidade estrangeira — como seria o nosso aspecto aos olhos daquele russo? Como soaria a nossa língua aos ouvidos dele? Ou o que diriam de nós aqueles homens vestidos de negro que percorriam as ruas de Brooklyn? Ou os nova-iorquinos que, por um momento, saíssem do adormecimento de tantos milhões de turistas e olhassem para nós com olhos de ver? Somos todos um pouco estranhos — mas não deixamos de ser todos mais parecidos do que parece, se virmos bem: desde famílias siberianas numa tenda, passando por judeus ortodoxos, até portugueses a fazer compras num supermercado de Brooklyn. Se a roda do mundo assim quiser, podemos ser vizinhos de qualquer humano deste mundo. Diremos então «olá», a imaginar o que se esconde por trás daqueles olhos e das cicatrizes que todos temos.

Por hoje, fico por aqui. Como disse no início, foi um dia de muitos sustos, de muitos presságios. Mas não aconteceu nada — e aconteceu tudo. Falei-vos de caçadores de sons, vendedores de rua de jogos virtuais, russos com buracos no corpo, feitiços de sexta-feira à noite, portugueses a deambular por Brooklyn. Demos uma boa espreitadela na estranheza que se esconde por trás de todas as esquinas do mundo.

Até à próxima viagem!

Qual é a pátria dos bons escritores?

Hoje é dia de entregar a mítica declaração de IRS.

Reparo na cara de susto do leitor mais desprevenido. Vem a um blogue de línguas e livros e aparece-lhe o IRS à frente. O horror!

Antes de fugir a sete pés, deixe-me lá explicar porque trago os impostos à liça. Quero falar dum certo livro e a melhor maneira que encontrei foi falar de impostos.

Sim, a literatura e o IRS parecem viver em universos paralelos — mas, por vezes, lá se encontram à esquina…

Ler no hospital

Há muitos, muitos anos, num desses dias em que os jacarandás também andavam por aí a rebentar na beleza desvairada desta cidade, tive de esperar pacientemente numa bicha do Hospital Santa Maria.

Lembro-me bem desse dia porque andava aflito com o pólen — a Primavera é apetitosa, mas muito perigosa — e ainda porque tinha na mão um daqueles objectos que ajudam a recordar os sítios por onde passamos: um livro.

Estava a ler o segundo volume das memórias de Anthony Burgess: You’ve Had Your Time. Como fui parar a este livro? Não faço ideia. Nunca tinha lido o primeiro volume e, do autor, só conhecia o inevitável Clockwork Orange, que uma amiga tinha recomendado enquanto estávamos a jogar bowling — digo isto só para provar que o mundo é muito pouco arrumado e até o bowling se mistura com o prazer dos livros.

Enfim, lá andava eu no hospital de Santa Maria, à espera. E muito esperei eu nesse dia — o que foi óptimo, pois assim tive tempo para ler. Ah, o livro é demasiado bom para caber num apertado artigo de blogue.

Fiquei a saber que Anthony Burgess foi diagnosticado com uma doença fatal ali por volta de 1960 e ficou com um ano para viver — viver e escrever. Precisava de deixar algum dinheiro para Lynne, a futura viúva. O autor fez da necessidade força, desatou as mãos e escreveu livros como se não houvesse amanhã. E, de facto, não havia amanhã — diziam-lhe os médicos.

O que fazer com esta vida?

O mundo é imprevisível — e a verdade é que Burgess não morreu em 1961, mas sim em 1993, o que foi óptimo para ele e muito bom para nós, seus leitores. Só não foi assim tão extraordinário para Lynne, pois o homem, com uma nova vida entre mãos, esqueceu a mulher e arranjou uma amante italiana — Liana — com quem viveu durante muitos e (diz-me o autor) bons anos.

Pois a verdade é que o sucesso foi-lhe madrasto: os inspectores dos impostos começaram a cheirar a nova fortuna e caíram-lhe em cima. À época, as taxas de impostos britânicas para os rendimentos mais elevados eram assim coisa para chegar aos 90%.

Bedford Dormobile. Numa carrinha deste tipo se escreveram algumas das melhores obras da literatura europeia.

O que fez Anthony Burgess? Fugiu. Sim, tornou-se um exilado fiscal, um nómada, a viver numa Bedford Dormobile pela Europa fora, com a sua nova mulher italiana, a bater furiosamente na máquina de escrever instalada na carrinha, cigarro na boca, lá à frente a estrada sem fim deste continente louco à sua espreita.

Não é isto delicioso? O autor ainda viveu uns tempos em Malta, onde teve de aturar a alfândega, que nessa época de bons costumes cortava as páginas menos próprias dos livros que Burgess encomendava. Sim: os livros chegavam-lhe retalhados, sem sexo nem nada.

Leiam o livro que vale a pena. Temos o mundo nas nossas mãos, desde Malta, Mónaco, Rússia, Austrália, as memórias de como escreveu as grandes obras e ainda confissões sobre a adaptação de Clockwork Orange para cinema.

Ainda estou para ler o primeiro volume — mas dá-me a sensação que vou acabar por reler este antes de me aventurar nos primórdios dessa vida de espantar. E, como livro puxa livro, acabei por ler mais uns quantos romances dele, o que só me fez bem.

Fazer o que se quer com a língua

Anthony Burgess foi escritor, mas não só: também foi tradutor, crítico e compositor (mais de 250 obras musicais!). Além disso, era um apaixonado pela linguística e esse interesse bem marcado pelas línguas ajudou-o a lidar com o seu material de trabalho. (Falei dessa sua faceta linguística há muito tempo, num dos primeiros artigos deste blogue.)

Burgess não só gostava muito de línguas — também criava línguas! Ou melhor, criou um novo inglês, aquele registo adolescente cheio de interferências russas que marcava a sociedade distópica de Clockwork Orange. A linguagem, nas suas misturas, mostra o que somos e como somos — e estas misturas são bem mais interessantes do que o manejo traquejado dum registo puro, fora do mundo.

Aqui fica o início desse romance:

‘What’s it going to be then, eh?’
There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry.

Anthony Burgess recusou-se a criar um glossário para ajudar o leitor: aprendemos este novo inglês à medida que lemos o livro. E o certo é que aprendemos! Deste início, ficamos logo a saber como se diz «amigo» entre a juventude dessa época imaginária. «Droog», pois então. Já agora, em russo, o que temos é друг, ou seja,«drug».

Anthony Burgess imaginou o cenário linguístico dum mundo em que a União Soviética era a grande potência. O russo seria a língua da moda, a língua onde os jovens iriam buscar as suas palavras próprias, talvez para horror dos pais. Para lá desse realismo linguístico, essa língua alterada também permitiu ao autor criar novas palavras e obriga o leitor a aprendê-las — e, o que não será o menos importante, ajudou a elevar esteticamente a violência descrita no romance.

Mas para lá de todas as razões e análises, Anthony Burgess brinca com a língua — e brinca com prazer, como se estivesse a dirigir uma orquestra enquanto compõe uma sinfonia naquele preciso momento, a sorrir.


Antes de avançar, deixo ao leitor — como exemplo da imaginação verbal de Burgess nestas memórias — a descrição da Sagrada Família de Barcelona que aparece lá pelo meio:

Gaudí had worked on the structure like a novelist, letting new ideas effloresce as he built. The towers of the Sagrada Familia were more than an unfinished novel; they were a meal — foraminated like waffles, crunchy, with pinnacles of crisp sugar. […] I was desperate to be done with the film scrip and at work on a Gaudiesque novel.

A imaginação do artista junta o que nunca ninguém juntou. Gaudí faz isso e Burgess também. E a vida, a vida: sem querer, por motivos fiscais, enfia um escritor numa carrinha por essa Europa fora e quem ganha somos nós.

Como explodir com as fronteiras das línguas

Hoje escrevo sobre misturas e a passagem por Barcelona trouxe-me à memória outro escritor: Juan Marsé.

No seu romance El amante bilingüe, Marsé imagina um burguês bem catalão que descobre, de repente, que a sua mulher — também catalã dos sete costados e funcionária do departamento linguístico da Generalitat — tem um fraquinho por andaluzes de bigode e cheiro de castanholas.

O marido começa então a transformar-se nesse andaluz dos sonhos da mulher, telefonando-lhe para o trabalho sem dizer quem é.

Numa sátira aos purismos linguísticos da sua cidade, o autor imagina a linguagem desse catalão de identidade desfeita. O protagonista tem de falar em espanhol andaluz quando telefona para a mulher.

Com o andar do romance, começa a esquecer-se de quem é e as duas línguas vão-se fundindo. O livro acaba assim:

Pué mirizté, en pimé ugá me’n fotu e menda yaluego de to y de toos i així finson vostè vulgui poque nozotro lo mataore catalane volem toro catalane, digo, que menda s’integra en la Gran Encisera hata onde le dejan y hago con mi jeta lo que buenamente puedo, ora con la barretina ora con la montera, o zea que a mí me guta el mestizaje, zeñó, la barreja y el combinao, en fin, s’acabat l’explicació i el bròquil, echusté una moneíta, joé, no sigui tan garrapo ni tan roñica, una pezetita, cony, azí me guta, rumbozo, vaya uzté con Dió i passiu-ho bé, senyor…

Esta é uma mistura explosiva, um espanhol andaluz eivado de catalão ou um catalão eivado de andaluzismos — ou qualquer outra coisa que não consigo definir. Não interessa. O livro é cruel e muito divertido. E, pronto, confesso, pode irritar muita gente, mas «me guta el mestizaje».

A pátria dos bons escritores

Juan Marsé, há uns anos, numa entrevista em Portugal, disse esta frase magnífica: «Creio que a pátria de um escritor não é sequer a língua, é a linguagem.» (Visão, 10 de Maio de 2012).

É normal que isto seja dito por um escritor que se sente puxado pelos braços por duas línguas em tensão contínua. Mas a verdade é que esta frase é adequada a todos os escritores, em todas as épocas e lugares. Um escritor usa a língua em que cresceu — mas raramente está limitado a um registo, a um lugar, a uma língua nacional. A literatura — e em especial o romance, esse género que engole a humanidade inteira — faz-se do confronto de várias linguagens, de várias línguas.

Se alguém imagina que um bom escritor é o paladino da língua pura e certinha, vai perder quase tudo o que vale a pena na literatura. Os grandes escritores têm sempre de trair essa primeira pátria. Sim, lêem muito na sua língua (mas não só), inscrevem-se numa tradição literária (mas também gostam de lhe dar com os pés) — e depois misturam, transgridem, brincam, abusam.

Repito: um bom escritor não é animal duma só língua. Habita a linguagem humana, tal como a encontra nas ruas que percorre — e lembremo-nos que, muito pouco pura, a linguagem humana é um bicho selvagem feito de gestos obscenos, carinhosos, aflitivos — um bicho que faz um esforço para se comportar nos salões da sociedade, mas que está sempre à coca para, à primeira oportunidade, fugir para a sua inconfessável vida das ruas. É dessas vidas todas — à mesa da sociedade, pés entrelaçados debaixo da mesa, e ainda na rua, ao beijo, ao soco e em corrida — que se faz a literatura.

Sim, a literatura, em boas mãos, faz-se de tudo: de línguas à mistura, catedrais que parecem refeições, gente fugida aos impostos em carrinhas perdidas pelas estradas da Europa. E tudo isto é delicioso e tudo isto está à distância dum bom livro.

Convite: uma festa galega no centro de Lisboa

Jardim do Torel (Foto: CM Lisboa)

Volto à Galiza, mas sem sair de Lisboa. Esta sexta-feira, pelas 19h30, irei participar na Festa das Letras Galegas com uma apresentação do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. A festa não fica por aí: há um recital, um concerto e uma foliada.

O programa oficial é este:

+ Apresentação do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

+ Foliada com o grupo de gaitas de foles ANAQUINHOS DA TERRA.

+ Recital poético-performance com as galegas DUAS GAMBERRAS E UM MICRO.

+ Concerto do cantautor punk galego O LEO DE MATAMÁ.

Haverá queimada e tapas (petiscos) no Álvaro Cunqueiro (bar do Centro Galego).

Deixo o convite, não só por causa da festa, mas também pelo edifício do Centro Galego — que vale a pena conhecer — e do Jardim do Torel, mesmo ali ao lado.



Por curiosidade, deixo-vos a descrição do livro em galego tal como publicada pelo Centro Galego na sua página (a ortografia é a oficial, ou seja, a que mais se distancia do português):

Presentación do Libro de Marco Neves «A incrível história secreta da língua portuguesa». Acompañe unha celta e un romano aos bicos, un amigo de Afonso Henriques procurando mouras encantadas, Gil Vicente a perseguir un home perigoso polas rúas de Lisboa, unha coleccionista de libros fuxindo nun carro para Amsterdam, Camões ao puñazo por causa dunha dama da corte e moitas outras aventuras de que é feita esta historia da lingua portuguesa, chea de deliciosas sorpresas e un toque de humor…

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