Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

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Cinco prazeres da cidade do Porto

Uma amiga minha pediu-me algumas sugestões sobre o Porto. Porquê eu, que não sou de lá? Porque por vezes tenho de lá passar uns dias. Chega para me armar em guia? Claro que não. Mas também não gosto de dizer que não aos amigos e, assim, tentei escrevinhar cinco prazeres da cidade, assim de repente — mesmo sabendo que, em viagem, o melhor plano é ir sem grandes planos.

Confesso: já há uns tempos que lá não vou. Serve assim este exercício também para matar um pouco das saudades que já tenho da cidade.

Ora bem, dito isto, aqui ficam cinco prazeres da cidade do Porto. Há muitos outros, claro está…

  1. Andar pela cidade. Ir à Rua de Santa Catarina, passar pelos Aliados, perdermo-nos pela cidade. Uma cidade como o Porto é para se descobrir à sorte, que é quase sempre a melhor maneira de viajar.
  2. A livraria Lello. Já começa a soar muito a cliché, eu sei, mas não é por muitos dizerem o mesmo que se torna mentira: é uma livraria linda. E até tem livros, vejam lá!
  3. Passear na Foz. O mar mais escuro e intenso do que outras cidades mais a sul. Muito, muito bom. A pé ou de bicicleta — ou até, não havendo alternativa, de carro. E então estar parado uns bons minutos a ver os navios, lá ao fundo.
  4. Fazer um cruzeiro no Douro. Turista que é turista tem de fazer este cruzeiro, não? Não faz mal, faz parte e ninguém se arrepende, que eu saiba.
  5. Passear na Ribeira. É preciso ter cuidado com as armadilhas de turistas. Mas tem de ser — e, depois, claro também isto tem de ser: ir até Gaia e olhar para o Porto ao anoitecer.

Tudo isto é giro, mas uma cidade descobre-se a sério doutra maneira: ter coisas para fazer, ir às compras, trabalhar — estar na cidade não para ver a cidade para viver na cidade. É assim que se descobrem os verdadeiros prazeres do Porto e de qualquer cidade. Sei disso tudo: mas esta foi só uma tentativa desesperada de encontrar sugestões para um fim-de-semana — dois dias que servem para pouco, é verdade, mas é o que temos.

Ajudem-me, leitores do Porto, por favor! O que sugerem para quem vai à cidade durante dois míseros dias?

Cinco prazeres das manhãs de domingo

Ora aqui estou eu, bem acordado às sete da manhã dum domingo. Imaginem-me com uma chávena de café a fumegar à minha frente, a teclar furiosamente, empenhado neste ofício da escrita.

É mentira, claro. Neste momento — são exactamente sete da manhã — estou a dormir. Chama-se a isto programar o blogue. Sim, é possível. (Aliás, confesso uma coisa: tenho um artigo agendado para as três da manhã do dia 3 de Março de 2033. Ah, será o meu melhor texto, garanto-vos já.)

Bem, enquanto não chega esse ano, fiquem com estes cinco prazeres das manhãs de domingo. É o meu elogio a estas horas deliciosas.

1. Abrir os olhos e pensar: hoje não é segunda-feira.

O sábado, é sabido, é bem melhor do que o domingo. O sábado sabe bem — o domingo é pasmacento. Pois as manhãs de domingo, no fundo, são a continuação do sábado: a tarde ainda vem longe, o peso da segunda-feira ainda é só um ponto no horizonte. É como aquele prazer secreto de acordar às 5 da manhã dum dia de semana e pensar: ainda posso dormir mais um pouco. Claro que fechamos os olhos e o despertador dispara logo a seguir. Mas acho que percebem onde quero chegar.

2. Ser acordado pelos filhos.

Não é dia de escola. E, assim, os filhos acordam-nos a nós, saltando para a cama. No meu caso, já sabem, não são «filhos», mas «filho». Seja como for, é bom, não é? Risos, conversas novas — e depois o prazer de abrir as cortinas e deixar o sol entrar. (Está a chover? Tudo bem, melhor ainda.)

3. Olhar para a rua e ver poucos carros.

Passam carros, mas não é a mesma coisa. Até se ouvem pássaros nas rotundas. Tanto assim é que a Suécia, quando passou a conduzir pela direita em 1967, escolheu precisamente a manhã dum domingo para a troca. (E pronto, ficaram com o pedaço de informação inútil da semana.)

4. Olhar para o Facebook e ver poucas irritações.

Sim, não são só as estradas: o Facebook, aos domingos de manhã, está vazio. Anda tudo a dormir, a ler em papel ou a conversar a sério. Até dá para passear por lá sem dar a cada momento com discussões furiosas e indignações tramadas. Isto porque, como sabemos, os portugueses só voltam ao Facebook em força e em fúria no domingo à noite.

5. Não ter nada para fazer.

Estas são horas sem horários. Há quem trabalhe, é certo, mas a maioria das pessoas não tem nada para fazer nestas manhãs. Nem sequer temos cafés marcados ou as intermináveis festas de aniversário que aborrecem os sábados dos pais das crianças pequenas. Não: nas manhãs de domingo, o habitual é termos horas cheias de nada. E o nada é muito bom: dá para ler, ver televisão, conversar ou mesmo ficar de olhos abertos a olhar para a rua a ver os poucos carros a passar. São horas tão vazias que alguns até vêm parar a este texto inútil — inútil, espero eu, como uma manhã de domingo.

Muitas manhãs de domingo assim na vida — é o que vos desejo!

Cinco prazeres de ter um livro na mão

books-985954_1280Há o prazer da leitura, claro. E da literatura, que é outra coisa. Pois hoje trago-vos cinco exemplos de prazer físico que os livros nos dão.

  1. Pegar nos livros. Sentir prazer só ao passar os dedos pelas páginas ainda fechadas. Sentir a lombada na mão. Pegar no livro e perceber o seu peso particular.
  2. Folheá-los. Passar pelas páginas… Lembrar-me do lugar exacto onde estava quando li aquele parágrafo. Recordar as emoções daquela história em particular.
  3. Cheirá-los. Era um maluquinho, eu. Conta-me a minha mãe que me punha a cheirar os livros, passando o nariz pela dobra… Menti-vos ainda agora: eu não era um maluquinho — eu sou um maluquinho.
  4. Encontrar vestígios do que éramos. Olhar para a data e local que deixámos na primeira página e sorrir um pouco. Descobrir as nossas anotações. Olhar para o que deixamos no meio das páginas. Encontrar um recibo dum restaurante onde não vamos há anos. Reler um antigo postal de Natal escrito pelos nossos amigos.
  5. Tirá-los das estantes, encostá-los uns aos outros, desarrumar e voltar a arrumar. Criar pilhas, desfazê-las e pegar num outro livro, ao calhar da sorte.

Os livros que lemos e guardamos são uma espécie de pedrinhas que vamos deixando na floresta, ajudando-nos a voltar atrás no tempo e perceber como éramos e como somos agora. E são, quase todos, objectos bonitos e apetitosos.

E ainda nem falei do maior prazer de todos: lê-los, por fim.

Dez prazeres dos dias de chuva

book-691407_1280A chuva irrita — principalmente quando temos de pôr o filho no carro à chuva e não temos braços que cheguem para tudo. Ou quando estamos no trânsito e passamos duas horas a ouvir as mesmas músicas nas mesmas rádios. Ou quando estamos desprevenidos e ficamos molhados que nem um pinto. Mas também há certos prazeres muito próprios dos dias de chuva. Aqui ficam dez. Deixo os mais secretos para o fim.

  1. Fazer um piquenique à lareira. Imaginem uma manta, frutos secos, bom vinho, o fogo a crepitar, a conversa e os risos, aquela sensação agradável de conforto e paz. E, lá fora, a chuva bate levemente no vidro da janela.
  2. Brincar em família. Sim, estar em casa, com brinquedos à volta, a imaginar universos alternativos ou então mascarados de piratas e outras fantasias. Ou apenas sentados a contar histórias ou a ler um livro em voz alta…
  3. Olhar para a cidade à chuva. À janela ou protegido da chuva, na rua. Ver os carros a passar, o risco dos pneus na água, as pessoas com os chapéus de chuva, a clareza das ruas sem o brilho do sol. Ou então, estar a conduzir e ver as luzes dos carros a dissolverem-se nas gotas até passar o limpa-pára-brisas.
  4. Sentir o cheiro da terra molhada. Sim, é quase um lugar-comum. Mas é também um dos grandes prazeres da vida. Tal como também o é ter a sorte de ouvir a chuva a bater no telhado duma casa no campo.
  5. Ler. No sofá, ou na cama. Com a chuva ao fundo, claro. O mundo está frio e não apetece sair, mas num livro encontramos os mundos todos de que precisamos.
  6. Trabalhar em sossego. Em frente ao computador com uma caneca de chá ou café à frente, a fumegar, o calor da casa a envolver-nos e a sensação de que até nos apetece trabalhar um pouco, pois o sol não chama e a chuva é um inventivo.
  7. Ver um filme. Com uma manta a tapar as pernas. Encostados um ao outro. Ou com o filho no meio. E uma história que nos prenda, de preferência. Ou então pegar numa série e, num qualquer sábado à tarde de Outono, ver tudo, do primeiro ao último episódio.
  8. Namorar à chuva. Agarrados debaixo do chapéu. Ou, se não tivermos chapéu, correr à procura de abrigo, enquanto nos rimos os dois… E depois, a arfar do esforço, bochechas rosadas do calor da corrida, a adrenalina no sangue, a pele salpicada, o sorriso nos olhos e um beijo. Mas isso já sou eu a imaginar enredos.
  9. Estar na cama e a chuva lá fora. Claro: alguns diriam que é o grande prazer. Ficar abraçados no quente dos lençóis. Em silêncio ou nem por isso.
  10. E, por fim, adormecer. Agarrados, ao som sereno da chuva a bater nos vidros da janela.

A mãe da nossa língua (ou os prazeres de ouvir Fernando Venâncio)

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Ontem assisti à extraordinária aula que Fernando Venâncio deu na FCSH sobre o português, o galego e o latim — ou como o primeiro não surgiu directamente deste último, mas teve essa outra mãe de que poucos falam. Em resumo: o português não é filho do latim, mas antes neto. (E, lembrei-me agora, já temos entre nós bisnetos da língua do Lácio — basta ir a Cabo Verde ou mesmo ouvir o português brasileiro mais popular.)

Foi um prazer conhecer o Professor, depois de nos termos cruzado virtualmente por estas bandas blogueiras e pelos caminhos do Facebook (quem disse que as novas tecnologias afastam as pessoas?).

Percebi — não na aula, mas em comentários no Facebook — que está para breve um livro sobre estas questões. Fiquei com uma vontade irreprimível de ir a correr reservá-lo.

Quem lá esteve ouviu falar de forma bem concreta sobre essa língua que se forjou ao longo de séculos, muito antes dos nossos primeiros documentos escritos, e que era (na acertadíssima fórmula do professor) a «língua disponível» no momento da criação do Estado português: a língua do Noroeste peninsular, que podemos chamar galego, galego-português ou português, conforme as preferências e sensibilidades. Depois, houve séculos de separação e de «desgaleguização» do português, até ao ponto em que os portugueses não concebem ver no galego a origem da sua própria língua. A história é mais complexa e a ela voltarei, claro, agora muito picado por tudo o que hoje ouvi.

Não pensem que vos estou a fazer um resumo: a aula foi muito além de tudo isto — e a discussão final foi também interessantíssima. Dali ninguém saiu a dizer que não aprendeu nada: e é isso que se quer duma aula…

Queria agora confessar-vos um segredo: um dos prazeres que tive nesta aula foi estar perto de Mário de Carvalho, um dos «alunos». A minha timidez não me permitiu o atrevimento de uma apresentação (e que lhe diria eu?) — mas senti aquele deslumbramento de quem vê de perto um dos heróis da sua adolescência.

Foi com Mário de Carvalho que, no meu 8.º ano, passei da literatura infantil para outros prazeres — aproveitando a deliciosa «A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho». Ainda me lembro do livro de Português onde esse conto estava impresso na íntegra. Foi ainda com Mário de Carvalho que me perdi na Lusitânia, com aquele Deus que passeava pela brisa da tarde, um dos primeiros livros de gente grande que li. Foi com ele que troquei ideias sobre o tal assunto. Que ouvi dois coronéis a disparatar à beira duma piscina. Foi com ele que aprendi (entre muitos outros mestres, claro está) a ler em bom português.

Ou, diria agora algum provocador: em bom galego.

Chamemos-lhe o nome que quisermos. A nossa é a língua dos nossos grandes escritores — e entre os nossos grandes escritores está o meu colega de turma por duas horas.

Há dias piores.

1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

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Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

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Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

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Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

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Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

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Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

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Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

A língua em José Cardoso Pires

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Há pouco, numa qualquer daquelas discussões absurdas em que alguém tenta provar que esta ou aquela expressão não está correcta «porque não está e eu é que sei e quero lá saber se os grandes escritores a usaram ou não», li um argumento que me feriu pessoalmente: saber se José Cardoso Pires usou ou não determinada expressão não interessa porque ele não sabia escrever bem em português. Escrevia mal, não no sentido estético com que podemos apodar a obra dum qualquer escritor, mas no sentido rasteiro de dar muitos erros, como mau aluno da primária. Apeteceu-me dar um grito. Mas não dei. Estava a caminhar pela faculdade com o telemóvel na mão e um grito era coisa para assustar os incautos utentes da famosa esplanada.

Sim, tenho de fazer uma declaração de interesses para perceberem o choque que foi ler tal argumento. José Cardoso Pires é um dos meus escritores: andei anos às voltas com as obras dele, para uma dissertação de mestrado que foi um prazer irrepetível. Ora bem, conhecendo eu a obra do autor de trás para a frente, perante tão absurdo argumento, desvendou-se-me num relance a pobreza de espírito de muitos desses inseguros da língua — que preferem ter uma língua ali muito certinha com regras de etiqueta propaladas por este ou aquele sábio mal amanhado e desprezam a língua que lemos nos romances de José Cardoso Pires.

E que há por lá, nessas obras escritas em «mau português» (enfim)? Não tenho espaço aqui, mas abram a Balada da Praia dos Cães: lá está o português dos autos judiciais, o português de certas ruas de Lisboa, o português dos polícias à caça de pistas improváveis por esse país fora, o português dum homem a espreitar uma mulher pelo buraco da fechadura, o português irónico e ferido que não sabemos bem se é o do autor, o português que é muito mais, mas mesmo muito mais, para lá do que posso aqui dizer, do que o português de quem cumpre todas as regrazinhas encafuadas neste ou naquele compêndio cheios de pó. Quem não sabe que a língua é mais do que aquilo que está nos dicionários e gramáticas passa ao lado dos prazeres perigosos dum escritor como este. Dificilmente percebe, de facto, o que é a literatura.

Mas tudo o que disse acima vai muito além das obras de José Cardoso Pires. O romance enquanto género é um óptimo lugar para vermos esse bicho selvagem que é a língua. Disse bicho selvagem? Enganei-me. A língua da boa literatura, às vezes, são vários tigres numa luta de morte. Um esplendor que encontramos nos bons escritores, aqueles que usam bem a língua, sim senhor, mas usam também as várias linguagens que se escondem nessa mesma língua, por vezes de costas voltadas ou em lutas na lama.

José Cardoso Pires é um desses escritores e é um génio — podem discordar, claro: agora não o descartem como quem chumba um aluno da primária porque não sabe escrever bem. Sabem o que é isso? Uma visão amesquinhada da língua. Saiam cá para fora e leiam bons livros. Isso passa.

Cinco palavras catalãs que me fazem cócegas

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Já vos disse aqui que as outras línguas ibéricas são, para mim, um estranho prazer — uma espécie de línguas secretas que nem todos vêem. Ora, os prazeres são para partilhar e, depois de alguns dias em terras catalãs, lembrei-me de vos trazer cinco palavras que me fazem cócegas nessa língua do outro lado da península.

Nit

Dizer «bona nit!» é simpático, mas para um português o estranho é ouvir um «bon dia» assim de chofre, sem nada que desmanche a ilusão que estamos a ouvir a nossa língua. Não estamos. Mas, durante aqueles segundos, parece.

Bem, avancemos então no dia. «Boa tarde» é «bona tarda». E, depois, a noite… A palavra «nit» é intrigante. Sim, estamos a caminhar até à «nuit» francesa, mas não temos nenhum «u» e estamos longe da «noite» portuguesa ou da «noche» castelhana, sempre com o «O» a lembrar-nos uma certa escuridão.

Sim, isto sou eu a delirar. A escuridão da noite não está nas palavras e sim no céu, mas o que querem? Quando oiço «nit» lembro-me de duas coisas: dum qualquer grito de alegria nocturna e ainda duns certos cavaleiros ingleses que gritavam «NIIII!».

Tardor

Não sei se me soa a Terra Média («e os cavaleiros puseram-se a caminho em direção às negras terras de Tardor») ou a qualquer coisa de tardio, ainda um pouco quente —  ou talvez me soe ao aspecto ardido das folhas castanhas no chão. Não faço ideia, mas sei que soa bem. É «outono» em catalão, mas lembra-me também o entardecer e uma certa mansidão. As outras línguas são assim: às vezes põem-nos a ver as coisas pela primeira vez.

Cap

Esta é uma estranha palavra que tanto quer dizer «cabeça», como «chefe» e ainda «cabo», «nenhum» — ou «em direcção a». E olhem que não fica por aqui.

Ou seja, «cap al cap» será «em direcção ao cabo». «No tinc cap pressa» é «não tenho nenhuma pressa». «El cap del meu cap» — «a cabeça do meu chefe».  Uma palavra bem cheia… (E espero não ter metido os pés pelas mãos com o atrevimento de escrever umas frases em catalão.)

Seny

Como nós, que temos sempre a saudade na boca quando nos falam do que é ser português, também os catalães tentam definir o seu carácter com uma ou duas palavras. Neste caso, duas: «seny» (bom senso) e «rauxa» (loucura) — uma estranha mistura que há uns anos li descrita (não sei bem onde) como alguém a tratar de negócios à varanda do hotel, mas todo nu. E se calhar com um bigode à Dali. Como sempre, estas caracterizações nacionais são perigosas, redutoras, ilusórias — o que quiserem. Mas aqui fica a tal «seny» nem que seja para vos dizer que o «ny» se lê «nh». Sim, em catalão, Catalunha escreve-se «Catalunya».

Una mica més: dona, germà, menjar, parlar, dinar, sopar, esmorzar, novel·la…

Não me consegui ficar pelas cinco… Não sei porquê, mas acho a expressão «una mica» muito engraçada (quer dizer «um pouco»). Também acho curiosa a palavra «dona» (mulher) ou «germà» (irmão) ou «menjar» (comer) ou «parlar» (falar). E estranho, estranho é dizer «dinar» para o «almoço». Já o jantar é «sopar». E o pequeno-almoço? «Esmorzar». Depois, temos ainda isto: «dona» no plural dá «dones» (mas o «e» lê-se quase como o nosso «a»). «Irmã» é «germana» e, assim, irmãs são «germanes». Ah, e «primo» é «cosí».

Para terminar, fiquem com a palavra «novel·la» (romance). Tem aquele símbolo estranho, exclusivamente catalão: assinala que os dois LL não se devem ler como o nosso «lh», mas antes como dois LL separados, um em cada sílaba. «Una novel·la excel·lent» é, por exemplo, La plaça del diamant, de Mercè Rodoreda (notem o «ç», que também existem em catalão).

Experimentem lê-la. Devagar, com a língua entre os dentes e o dedo a acompanhar as palavras, podemos ir aprendendo esta outra língua que nos faz cócegas, ao mesmo tempo tão próxima e tão distante.

Fins demà!

Cinco expressões deliciosas da língua portuguesa

O meu irmão Diogo já me avisou que eu uso demasiado a palavra «delicioso». Quando ele me disse isso, não acreditei. Mas, depois, fiz uma procura no blogue e saíram-me três páginas de artigos onde uso a palavra. Raios.

Bem, hoje lembrei-me novamente da palavra «delicioso» ao ouvir uma alemã a falar português.

Deixem-me lá contar: hoje estive na conferência  «30 anos de Português na UE», no Museu do Oriente, organizada pelas instituições europeias.

Pois, a certa altura uma funcionária alemã (cujo nome não consegui registar a tempo [um leitor informou-me, nos comentários abaixo, que se chama Ulrike Hub]) decidiu contar as suas aventuras na língua portuguesa, o que muito divertiu o público. Acabou por dizer várias expressões portuguesas que acha engraçadíssimas — e que nós quase nem notamos.

Aqui ficam cinco dessas expressões, que rabisquei furioso enquanto as ouvia (muitas passaram-me):

  1. «Pequenos nadas». Sim, à funcionária alemã esta expressão faz-lhe cócegas divertidas. Pensem bem como nem notamos que os «nadas» não podem ser nem pequenos nem grandes — são nadas. E a vida, claro, é feita desses pequenos nadas… Uma expressão ilógica? Ah, sim, mas deliciosa. No fundo, é um dos pequenos nadas de que se faz o irresistível charme da língua portuguesa.
  2.  «Barriga das pernas». Claro que a nós não parece, mas é de facto uma expressão curiosa. Imagino que um alemão, quando encontra esta expressão pela primeira vez, pense num umbigo no meio das pernas. Ou mesmo numa pequena criança a nascer na barriga da perna dum qualquer deus grego (que tinham tendência para essas maluqueiras).
  3. «Céu da boca». É tão normal, mas tão normal que não percebemos quão malandra pode ser esta expressão portuguesa: pois quem não encontrou já o céu num bom beijo? E andamos nós com esta poesia toda nos lábios sem lhe dar valor. Sim, quem fala português tem um céu dentro da boca. Uma alemã arregala os olhos, claro está. E aproveita os segredos desta língua, pois então.
  4. «Beijinhos grandes». A alemã arrancou gargalhadas de todos os que lá estavam ao perguntar se haverá coisa mais estrambólica do que beijinhos grandes… E, de facto, ou bem que os beijos são -inhos ou bem que são grandes. Mas que importa? São beijinhos, chiça. E grandes, ainda por cima. Quem não quiser que vire a cara.
  5. «Fuz». Disse-nos a alemã que se nós temos «faz», «fez», «fiz», «foz» — só temos de nos esforçar um pouco para ter um «fuz». E tem muita razão, sim senhora. Quem de entre nós se atreverá a dar um significado ao nosso «fuz»?

É no que dá pôr-me a ouvir a nossa língua pela mente duma alemã. Tudo se torna menos familiar, menos habitual e por fim — como acontece quando repetimos uma palavra comum muitas vezes — estranho e delicioso. Por momentos, ouvimos essa palavra como se fosse a primeira vez.

Será também aí que reside um dos grandes prazeres de aprender línguas: a estranheza da língua dos outros é sempre imensa — e há momentos em que até a nossa língua nos aparece como uma estranha invenção que não é de ninguém em particular, mas de todos nós — até duma alemã que a aprende em adulto — e que vamos desfiando pelos séculos, pela boca e pela escrita.

E, já agora, feliz Dia Europeu das Línguas!

26 de Setembro de 2016

Livro do dia | Como surgiu a Al-Qaeda?

reading-925589_1280Livros, livros e mais livros! Vou tentar deixar neste meu canto virtual um livro interessante todos os dias.

Pronto: todos os dias é capaz de ser difícil. Mas tentarei sempre que possível — e sempre às três da manhã!

Ora, hoje levanto-me, aproximo-me das estantes e encontro The Looming Tower: Al-Qaeda’s Road to 9/11, de Lawrence Wright (2006).

Em português, A Torre do Desassossego.

Confesso: ainda não acabei de ler esta obra gigantesca (desarrumo tantos os livros, que às vezes perco de vista obras que estou a ler…). Mas li o suficiente para saber que Wright nos explica a história dum certo tipo de fundamentalismo islâmico, aquele que nos deu a Al-Qaeda — e viria a dar origem ao Daesh, embora isso já seja história mais recente.

É interessante saber que a Al-Qaeda teve o seu início numa pacata cidade universitária norte-americana.

Não, não estou a defender uma das muitas e absurdas teorias da conspiração, que põem nas mãos do governo dos EUA a invenção dos seus inimigos.

O que se passa é que alguns dos intelectuais do wahhabismo (a corrente fundamentalista que deu origem ao terrorismo que nos anda a atacar) estudaram na América. No entanto, longe de estarem ao serviço dessa América, esses intelectuais aprenderam a desprezá-la por verem nela um ninho de decadência, perversão e mistura pouco saudável entre homens e mulheres.

Pelo que já li, o livro é um feito incomum de investigação profunda e narração inspirada. O autor explica o percurso intelectual e político da Al-Qaeda de forma detalhada, iluminando certos aspectos do nosso mundo muito para lá da história duma organização terrorista específica. Os bons livros são assim: vão além do tema principal; ou melhor, usam esse tema para mostrar o mundo doutra maneira.

Um pormenor: a certa altura, percebemos como muito do desprezo dos radicais islâmicos pelo Ocidente (e também pelos sectores menos radicais das suas próprias sociedades) se liga à sua aversão ao sexo fora das rigorosas margens religiosas. O Ocidente seria, na mente deles, obcecado pelo sexo, e por isso decadente e por isso desprezível. Curiosamente, também percebemos como há muito de tensão interior nesse desprezo pelos prazeres da carne. A obsessão também está no coração de muitos deles, mas reprimida até se transformar em pureza.

Esta obsessão pela pureza (sexual e não só) é sintoma de muito totalitarismo e muito fanatismo. Diria mesmo que «pureza» é das palavras mais perigosas do mundo. Olhem para as fotos de Osama bin Laden: o seu ar é, muitas vezes, beatífico. A sua fama era de pureza e santidade. E aí reside, muitas vezes, o mal do mundo: na necessidade de limpeza (sexual, étnica, religiosa…), na necessidade de purificação da alma, nem que seja com sangue. Muito sangue.

Livro do dia: The Looming Tower. Lawrence Wright (2006) [Amazon].

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