Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

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Línguas, livros e outras viagens

Às vezes, é bom mudar. Depois de muitos meses com a descrição «Línguas e Tradução», hoje inauguro esta nova descrição do blogue: «Línguas, livros e outras viagens.»

Os temas continuam os mesmos: a nossa língua portuguesa, as línguas do mundo, o trabalho de passar entre umas e outras — e ainda livros e outras manias minhas.

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O dia em que conheci um russo com um buraco no pescoço

Há uns tempos, comecei a contar por aqui uma certa viagem que fiz a Nova Iorque. Nessa altura, revelei o que aconteceu no voo — e também já dei uns lamirés sobre o que se passou dentro do quarto do hotel na 42nd Street. Pois hoje conto como fui dar com um russo que tinha um buraco no pescoço ali numa rua de Brooklyn.

Antes disso, tenho de explicar que aquele foi um dia de muitos sustos — talvez até me atrevesse a chamá-los de presságios, não fosse dar-se o caso de… Bem, já vos digo o caso que se deu.

Primeiro presságio: o ataque de que fomos vítimas…

1. O ataque no Central Park

Tudo começou num passeio que demos no inevitável Central Park. Não sei se o leitor concorda, mas aquele parque urbano parece uma espécie de ferida verde num corpo feito de pedra. Os prédios que o rodeiam são exagerados, quase feios — embora o conjunto seja de tirar a respiração.

Pois lá fomos nós armados em antropólogos de fim-de-semana. Por ali estavam as personagens de muitos dos filmes que vemos, na dieta de cinema norte-americano que é apanágio de muito português. As empregadas a tomar conta dos filhos das senhoras, os joggers de fios a sair das orelhas, os Mr. Bigs de telefone na cara e confiança no passo e os cinquentões à Woody Allen a discutir em gabardines nervosas.

Era Setembro e estava sol. O sossego era bom. Passeámos pelos lagos, pelos caminhos, por aquela natureza que, de tão pensada que foi, tinha o seu quê de selvagem. Ao mesmo tempo, aquela era uma paisagem há muito conquistada pelos filmes, pelos livros e pelas fotografias que nos inundam a mente e nos tornam a todos um pouco nova-iorquinos (muito pouco, admito).

Adiante. Lá estávamos nós a passar ao pé dum lago quando, de repente, a Zélia dá um grito de dor e leva as mãos à cabeça.

Tinha sido barbaramente atacada.

Por um esquilo.

E o gajo estava lá em cima da árvore com outra bolota na mão. Atirou-nos, malvado, mas já não nos acertou.

A Zélia estava estupefacta: uma bolota aleija e não é pouco. Ainda fui atrás do esquilo para lhe ensinar o que era bom tirando-lhe uma fotografia às trombas, mas não consegui. Fotografei um dos irmãos, que estas vinganças podem servir-se à família sem que daí venha mal ao mundo.

O que aconteceu a seguir? Nada. Continuámos. Dali a umas duas horas, quando anoitecesse, tínhamos um encontro marcado na Union Square.

Fomos gastá-las para uma livraria de cujo nome já não me lembro e que vendia, no meio dos livros, roupa. Não me lembro do nome, mas lembro-me dos livros que comprei, claro está, embora agora não me apeteça revelar quais foram.

2. Um susto em Union Square

Nessa noite, tínhamos um encontro marcado com o Filipe, amigo do meu irmão Diogo, que vivia por aqueles tempos em Nova Iorque, a estagiar como técnico de som.

Do caminho da livraria até à praça, em que entrámos no violento metro daquela cidade, lembro-me de pouca coisa: lembro-me bem melhor das páginas que me pus a ler e do livro que tinha na mão — diga-se que tinha sido comprado numa banca de livros usados à porta da tal livraria/loja de roupa.

O sol já baixara. A Union Square era um rodopio de casais aos beijos e grupos de estudantes a conversar. Lá ficámos à espera. Foi agradável estar ali um pouco entre nova-iorquinos, a sentir a outra cidade com um encontro marcado, a imaginar as vidas inteiras que por ali passam e as rotinas e sobressaltos que ali tinham a sua paragem.

De repente, chega-se um rapaz ao pé de mim e diz-me:

— Deixas-me ver o teu telemóvel?

3. «Passa para cá o dólar»

Não, não foi um assalto. Ele queria apenas saber o modelo de telemóvel. Pediu-me então, simpaticamente, para ir à loja online do telemóvel e procurar um jogo em concreto.

Procurei o jogo e mostrei o resultado. E ele, feliz:

— Este jogo fui eu que o fiz! Queres comprar?

Não era por ter ali o programador ao lado, mas o jogo parecia-me realmente engraçado. Custava 1 dólar. Tentei comprar, mas não deu, porque a minha loja online era portuguesa e não me deixava comprar o jogo ali nos Estados Unidos (não me lembro bem porquê).

O certo é que prometi comprá-lo logo que chegasse a Portugal. E ele acreditou. E eu comprei — ainda passei umas boas horas a jogar àquele jogo, entre as traduções e as saudades das viagens, num prazer que certamente vale muito mais do que o mísero dólar que paguei.

Já aqui escrevi algumas vezes — e não sou o único a dizê-lo — que os livros são uma espécie de caixinhas de recordações: abrimos as páginas dum livro e lembramo-nos bem dos sítios onde o lemos, onde o comprámos, onde o folheámos distraidamente.

Pois, naquele caso, um jogo de telemóvel foi uma dessas caixinhas de recordações em miniatura: quando me punha a jogar nas semanas seguintes, lembrava-me sempre daquele rapaz que criara um jogo e o andava a vender pelas ruas de Nova Iorque.

Voltemos à Union Square, que se faz tarde e já é de noite: conversámos um pouco com o rapaz — até que vimos o Filipe a surgir pelo meio da multidão, com o sorriso que já conhecia da minha terra.

4. Um caçador de sons em Nova Iorque

Começou-nos logo a contar como eram os dias de Nova Iorque. E, ao contrário do que acontece noutros casos, pusemo-nos a ir mesmo aos sítios da sua vida nova-iorquina.

Começámos pelo laboratório de som onde ele trabalhava. Ficava na Broadway, num prédio onde nenhum turista se atrevia a entrar.

Nada tenho contra fazer turismo: sempre gostei de viajar e não tenho assim tantas certezas sobre a fronteira entre turista e viajante. Sei que existe, mas não sei onde fica. Às vezes, parece-me que a atravesso várias vezes numa só viagem.

Mas também sei que é precisamente naquele momento em que entramos num sítio qualquer que não vem nos guias que uma viagem ganha outro tom, outro sabor: pois é então que até um mísero elevador num velho prédio da Broadway nos parece delicioso e parte duma cidade que agora também é um pouco nossa.

Bem, deixemo-nos de delírios. Lá em cima, no laboratório, eram televisões aos montes, microfones pendurados como estalactites ou perdidos no chão como estalagmites, gravadores e televisores e outros quantos materiais de imagem e som.

O Filipe ainda nos mostrou o seu equipamento de caçador de sons: as almofadas nos ouvidos e o microfone pendurado na sua cana muito particular. Não era aquilo que usava todos os dias. O que tinha na mão chegava. Confessou-nos então que andava por Nova Iorque de aparelho em riste, a caçar aquilo em que poucos reparam: a porta do metro que se fecha, uma conversa passageira numa língua desconhecida, a travagem dum taxi, um insulto dum mafioso, os sons dentro dum café na Village, o sino duma igreja entalada entre dois arranha-céus, o primeiro beijo de dois adolescentes, uma bolota atirada por um esquilo…

Apetecia-me ficar com essas outras fotografias de que ninguém se lembra. Os sons. Os cheiros. Aquilo que desaparece logo que levantamos voo, deixando-nos com fotografias mal tiradas duma cidade a duas dimensões. Pois que as cidades têm todas tantos lados e tanta coisa e até o passar as mãos nas paredes sabe bem e apetece — e é tão difícil guardar… Lá está, só a fraca memória e os deliciosos livros…

Pensámos então em ir jantar. Queixámo-nos dos preços naquela ilha — e o Filipe propôs-nos que fôssemos com ele até Brooklyn, onde iríamos ao supermercado, baratíssimo. Depois, ele tinha lá uma mesa em casa…

— Mas aviso: lá em casa vive um russo com um buraco no pescoço.

5. Os estranhos feiticeiros de Brooklyn

Pois lá fomos, de metro, até Brooklyn. Pelo caminho, íamos conversando sobre aquelas temas a que os viajantes se agarram: pensamos ver um padrão qualquer nos países por onde andamos e, de repente, contamos uns aos outros todos os casos que confirmam esse padrão, com o entusiasmo de quem descobriu uma verdade qualquer sobre o mundo — ou pelo menos sobre uma rua qualquer de Nova Iorque. Este método não me parece ser muito científico, mas é o que temos quando andamos a conversar em ruas longe de casa. E, para dizer a verdade, às vezes as conclusões são pouco mais absurdas que as conclusões a que chegamos sobre a nossa própria terra.

Naquele dia, falámos da estranha simpatia dos nova-iorquinos, que foi uma surpresa para nós, habituados a ouvir falar duma cidade de gente antipática. E o Filipe confirmava: logo no primeiro dia, tinha pedido informações a uma senhora que o ajudou até à exaustão. Depois de o largar, ainda gritou mais uma indicação da janela aberta do carro, por entre os táxis de Nova Iorque. E o Filipe, parado no passeio, olhava de boca aberta para aquela nova-iorquina de simpatia a toda a prova.

Da minha parte, contei como tinha passado à frente — sem querer — numa fila num café e o homem que tinha assim sido relegado para o lugar logo atrás de mim olhou-me não com indignação, mas com surpresa: parecia ser a primeira vez que tal lhe tinha acontecido. Pedi desculpa quando reparei e lá fui para o lugar que me competia, sem problemas e sem estalo. (Foi sorte, eu sei.)

A Zélia contava o estranho caso dos sapatos na mão: pois vimos não sei quantos nativos da zona a correr pelos passeios de sapatos bonitinhos na mão e ténis confortáveis nos pés. Chegámos à conclusão que aquela gente anda tanto quilómetro de manhã que precisa de calçado adequado à corrida — logo no escritório calçam os sapatos mais consentâneos com a importância da tarefa que têm entre mãos.

A casa do Filipe ainda era longe e, quando saímos do metro, andámos pelas ruas a tentar absorver aquela outra cidade dentro de Nova Iorque. Manhattan aparecia-nos como uma loucura de luzes por entre as casas, contra um céu muito escuro. A ilha, vista dali, deixa-nos muito pequeninos. Já as ruas de Brooklyn são duma normalidade que nos deixa desorientados.

Pois foi então que a normalidade se esvaiu num segundo. Apareceram-nos homens com chapéus negros altíssimos, capas brancas e ar de — como direi — feiticeiros. Andavam a percorrer as ruas e a entrar em várias casas, onde as famílias os recebiam felizes.

O Filipe explicou-nos então que aqueles eram judeus ortodoxos que faziam visitas às casas dos correligionários nas sextas-feiras à noite para conversar e conviver.

Continuámos a percorrer as ruas e, entre aqueles homens de chapéus estranhos, víamos talhos turcos, mercearias polacas, restaurantes bálticos e, entre as casas, a embriaguez das luzes de Manhattan como cenário.

Passou um metro por cima de nós e tive vontade de pegar no gravador dele para guardar para sempre aquelas cores, aqueles cheiros e aqueles sons duma noite banal de Nova Iorque.

6. Uma família siberiana

Aproximamo-nos do momento em que conhecemos o tal russo de buraco no pescoço. Mas antes disso fomos a um supermercado normal, barato (e que sabor tem essa palavra depois duns dias de Manhattan), onde comprámos qualquer coisa para jantar.

Pois bem: deixe-nos agora o leitor a escolher pizzas e outras iguarias nos corredores pouco originais do supermercado. Quero agora contar que, nesse dia ou no dia anterior, visitámos o Museu de História Natural — aquele mesmo onde o Ben Stiller andou a tomar ácidos há uns anos.

Pois bem, a certa altura tive aquilo que algumas pessoas chamam de «epifania» e eu chamo de «momento de cansaço».

Estávamos perante uns bonecos dentro dum vidro, daqueles que parecem muito reais, tão reais que o Ben Stiller ainda hoje jura tê-los visto a falar nessas tais noites no museu.

Olhei para aquela cena: uma tenda no meio da Sibéria, uma família — uma mãe, um pai, um filho — protegidos da neve e a comer qualquer coisa. A cena representaria a vida naquelas paragens longínquas há uns bons milhares de anos.

E, tal como, se repetimos uma palavra muitas vezes, ouvimos o som pelo que ele é e não pelo que significa — ao olhar com muita atenção para aqueles bonecos, abstraindo-me de estar em Nova Iorque, num museu, vi como aqueles seres humanos viveram mesmo à neve, em florestas e espetes longínquas — e como aquelas vidas, para eles, eram tão completas como as nossas vidas de gente citadina, que viaja. No fundo, tive ali consciência de como aquelas vidas eram tão humanas como as nossas, com histórias, sarcasmos, discussões, amores e filhos e comida e tantos medos. De alguma maneira, aquela família era ainda mais real do que eu, turista a olhar para bonecos para lá dum vidro.

As epifanias são assim: impossíveis de explicar, ainda por cima a mais de cinco anos de distância. Porque me lembrei agora daquela família? Não sei. Talvez por causa da tal conversa do russo com buraco no pescoço. Provavelmente, o homem tinha tanto a ver com aquela família siberiana como eu. Mas não deixei de pensar como, agora, andamos pelo mundo misturados e nessa altura, em que uma família se abrigava em tendas, uma viagem de alguns quilómetros era uma aventura que seria suficiente para dar origem a lendas e sagas que duravam séculos.

Voltemos pois a Brooklyn, onde já estamos a sair do supermercado de sacos na mão.

— Mas que história é essa do buraco no pescoço?

Ele riu-se:

— Não faço ideia. Ele vive lá em casa e tem um buraco no pescoço. Não liguem. Em princípio, ele não vos faz mal.

Ficámos calados, a olhar. Seriam aquelas as últimas imagens que veria antes de ser barbaramente assassinado por um ex-agente do KGB?

Há sítios piores para morrer. Se tivesse de ser, que fosse rápido — e sem buracos no pescoço.

7. Por fim, o russo e o seu pescoço

Entrámos na casa. Pusemos os sacos na mesa. Olhámos pela janela e lá andavam os feiticeiros de chapéus na cabeça. O Filipe continuava a contar as suas aventuras à procura dos sons de Nova Iorque.

Entrou então na cozinha um homem com cara de mau, como se quisesse confirmar a nossa imagem estereotipada dum agente secreto. (Fico um pouco corado de vergonha: por que razão um russo em Nova Iorque me leva a pensar em agentes secretos?)

O Filipe disse «olá», o homem cumprimentou-o — e não nos disse nada, como se não existíssemos. Subtilmente, eu e a Zélia aproximamo-nos um do outro.

Tentámos ver-lhe o pescoço mas ele franziu os olhos e não virou a cabeça. Olhou para nós. Nós olhamos para ele. Caiu naquela cozinha o silêncio que todos conhecemos daquelas situações em que tentamos ver o pescoço de outra pessoa e ela não deixa.

Vira, não vira, o certo é que o russo encolheu os ombros e virou-se para sair.

E foi então, com um salto, que vimos o tal buraco no pescoço. Ou melhor, vimos qualquer coisa estranha ali entre o cabelo e o colarinho da camisa. Teria levado um tiro? Teria sido preso na Sibéria? Teria tropeçado num degrau à saída do supermercado? Teria um problema de pele?

Sobrevivemos — e eu pensei nas vidas e mistérios que se escondem numa rua banal de Nova Iorque ou de qualquer cidade. Ou até numa tenda na Sibéria ou por trás dum colarinho dum russo nova-iorquino.

O Filipe riu-se da nossa cara de susto e voltámos à conversa de portugueses perdidos numa cidade estrangeira — como seria o nosso aspecto aos olhos daquele russo? Como soaria a nossa língua aos ouvidos dele? Ou o que diriam de nós aqueles homens vestidos de negro que percorriam as ruas de Brooklyn? Ou os nova-iorquinos que, por um momento, saíssem do adormecimento de tantos milhões de turistas e olhassem para nós com olhos de ver? Somos todos um pouco estranhos — mas não deixamos de ser todos mais parecidos do que parece, se virmos bem: desde famílias siberianas numa tenda, passando por judeus ortodoxos, até portugueses a fazer compras num supermercado de Brooklyn. Se a roda do mundo assim quiser, podemos ser vizinhos de qualquer humano deste mundo. Diremos então «olá», a imaginar o que se esconde por trás daqueles olhos e das cicatrizes que todos temos.

Por hoje, fico por aqui. Como disse no início, foi um dia de muitos sustos, de muitos presságios. Mas não aconteceu nada — e aconteceu tudo. Falei-vos de caçadores de sons, vendedores de rua de jogos virtuais, russos com buracos no corpo, feitiços de sexta-feira à noite, portugueses a deambular por Brooklyn. Demos uma boa espreitadela na estranheza que se esconde por trás de todas as esquinas do mundo.

Até à próxima viagem!

Alegrias e tristezas num aeroporto

Hoje conto o dia em que o meu filho descobriu um dos segredos dos aeroportos.

1. Falar de acidentes de avião no aeroporto

Não sei se já vos disse, mas às vezes sou um pouco estranho. Aqui têm um sintoma dessa estranheza: quando estou prestes a viajar de avião, ponho-me a ler artigos e estatísticas sobre… Sim, adivinharam: acidentes de avião.

Imagine o leitor a cara da Zélia quando, um lindo dia, naqueles caóticos corredores cheios de gente à espera da voz que nos anuncia a abertura da porta de embarque, lhe digo: «Sabias que o maior acidente de aviação da história foi um choque entre dois aviões nas Canárias?»

Mas a verdade é que os aeroportos nos deixam mesmo de nervos à flor da pele. Há o nervosismo de levantar voo — na nossa cabeça está sempre presente a hipótese de o avião cair. Podem vir todas as estatísticas da segurança daquelas máquinas, dos anos de formação dos pilotos e das benditas listas de verificação — o monstro continua lá! O avião é qualquer coisa muito pesada e cheia de pessoas daquelas que morrem quando caem do céu—o avião, no fundo, é um bicho forte com uma fragilidade que assusta.

Depois, quem parte para longe tem na pele a excitação das viagens — do trabalho em sítios distantes, das férias entre outras línguas, de negócios inconfessáveis — e quem chega tem nos olhos o cansaço das horas dentro duma chapa apertada, dos barulhos incomodativos, dos ouvidos a zunir, do cheiro a ar queimado, dos sons que nunca sabemos se não serão o prenúncio da morte — ou talvez prenúncio da chegada da sandes mirrada que pedimos há três fusos horários (e entretanto a criança da fila de trás já se calou, benza-o deus).

Nesse caldinho de emoções, de pele em carne viva, de nervos agitados, o que temos cá em baixo são, num dos lados do aeroporto, as despedidas com choro mais ou menos reprimido e, do outro, os reencontros e os abraços de olhos fechados e alegria pouco contida.

2. As despedidas dos outros também custam

Ainda há poucos dias, no Facebook, uma amiga minha (a Ana Chainho) contou como foi ao aeroporto e chorou só de ver os reencontros das outras pessoas.

E, sim, eu que também já tive a minha dose de esperas no aeroporto, percebo o que ela quer dizer. Ainda por cima, passamos muito tempo à espera: por qualquer razão que me escapa, quando combinamos as horas para ir esperar alguém ao aeroporto, ninguém faz conta com o calvário interminável por que passam os passageiros desde que o avião aterra até que surgem, atarantados, à porta que separa a alfândega do mar de gente que está à espera.

Resultado? Muitos de nós passam muito tempo cá fora, ao lado de homens engravatados de papéis na mão e famílias impacientes, enquanto os nossos amigos andam de autocarro pela pista do aeroporto, percorrem sádicos corredores, põem-se numa bicha épica de passaporte na mão e crianças a chorar, mostram o passaporte ao simpático SEF em atrapalhações de casacos e malas, deixam-se estar a olhar para o carrossel das bagagens e, com sorte, lá vão tirar a senha para ir reclamar da mala desaparecida.

E nós? Cá estamos, ao lado dos tais homens engravatados. Entretanto, pela ranhura da alfândega, já pingaram selecções de andebol, turistas japoneses, académicos lituanos, famílias de Freixo-de-Espada-à-Cinta… E nós à espera.

Nessas horas de espera, também já me comovi com a avó que vê a neta pela primeira vez, o pai que abraça o filho depois de meses à fome de abraços em skypes frustrantes, os amigos que se reencontram para mais um Verão das suas vidas… Às vezes, mordo o lábio. Gente adulta não chora — só que às vezes chora. Disfarçamos, claro. E lá esperamos, pacientes, pelos amigos que ainda estão à espera da mala desaparecida.

3. A tristeza de 1 a 10 — e a próxima viagem

Chego por fim ao que vos queria contar, que é uma história que parece banal para quem a vê de fora — e é tudo menos banal para nós, que a vivemos (é o que acontece com tantas e tantas histórias).

O meu irmão Diogo, a Sofia e a minha sobrinha Lilah voltaram anteontem para casa, que é como quem diz, para Inglaterra. Os meus pais estavam cá em Lisboa e tínhamos pensado ir todos ao aeroporto despedir-nos — os meus pais, a Zélia, o Simão. Mas foi um dia agitado, muito trabalho na empresa, a Zélia teve de ficar duas horas no notário a tratar de certificações de traduções, a minha mãe não pôde ir — e acabei eu, o Simão e o meu pai a chegar ao aeroporto mesmo a tempo de nos despedirmos.

Pois foi então que vi a Lilah, de três anos, e o Simão, que tem quatro, a ficarem tristes de repente — e também percebi como o Simão ficou surpreendido com a sua própria tristeza. Abraçou-se à prima e pôs aquele sorriso que eu conheço bem, um sorriso nervoso, de quem está a reprimir o choro.

Há momentos no aeroporto que doem, mas se não doessem, era mau sinal. É uma boa tristeza, porque o próprio facto de aquele momento custar muito mostra que gostamos das pessoas de quem nos estamos a despedir — e há-de haver outras vezes, mais viagens, mais chegadas atrapalhadas entre malas e correrias para apanhar o avião e ir ver a prima à terra dela — e mais chegadas como aquela chegada de há duas semanas, em que a Lilah saltou do colo do pai para correr até ao primo para o abraçar, deixando-o surpreendido com as saudades da prima que vive a 2000 quilómetros de distância.

Saímos do aeroporto e o Simão lá começou a falar doutras coisas, a olhar pela janela do carro para a cidade ao sol e a rir-se com uma piada qualquer. Quando, por fim, chegámos a casa, perguntou-me: «Pai, de 1 a 10, quanto é que ficaste triste no aeroporto?» Eu ri-me com a pergunta — mas não respondi. Ele disse-me então: «Eu fiquei 10!» Sim, eu sei: um dia ele ainda terá de descobrir que não, esse dez ainda não chegou. Mas anteontem, sim, ele ficou muito triste — mas também feliz enquanto sonhávamos com a próxima viagem para ir visitar a prima.

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«E a escrita… a escrita é um encanto, fluida, ágil, com aquele tom certo entre o pessoal e o formativo, com humor q.b. e uma ponta de indignação quando é necessário.» — Ana C. B., Gene de Traça.

Sobre o autor

Marco Neves. Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: é também pai, com o ofício de contar histórias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas.

Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. É professor de tradução na FCSH. É tradutor e director do escritório de Lisboa da Eurologos. É ainda colunista no Sapo 24.

Escreve neste blogue sobre línguas, livros e outras viagens.

É autor dos livros:

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Cinco surpresas de Nova Iorque

Prometi aventuras — ataques no Central Park, russos de ar perigoso… — e terei de cumprir. Nem sabem o que vos espera, digo-vos já. E, sim, isto é uma ameaça.

Mas ainda não será desta. Hoje, neste segundo episódio das minhas viagens à terra dos outros, quero alimentar um pouco a mania das listas que anda por aí. Somos uma espécie muito estranha. Até neste humilde blogue escondido num recanto da internet portuguesa, é certo e sabido: se o título do artigo tiver um número («Sete palavras disto ou daquilo…») tenho partilhas e gostos em barda.

Tento não abusar. Mas um blogue faz-se para se ler. Se os leitores gostam de listas, de vez em quando dou-lhes listas.

Pois bem, antes das grandes revelações sobre o mundo e o universo que descobri nas ruas de Nova Iorque, deixo-vos aqui cinco surpresas que a Zélia e eu tivemos ao chegar à cidade.

Antes da primeira surpresa, um pequeno relato: estávamos nós na fila para passar pelos serviços de estrangeiros lá do sítio, para mostrarmos o passaporte e sentirmos aquele pequeno formigueiro do estilo «será que me vai sair dali um polícia daqueles gigantescos e mandar-nos ao chão porque o passaporte tem um problema?», quando percebemos que à nossa frente estava uma pessoa vagamente conhecida. Aliás, muito conhecida em Portugal e desconhecida no resto do mundo (o que, em média, justifica o «vagamente»).

Mal sabia o polícia que tinha perante si aquele que viria a ser um dos homens mais importantes do planeta e, quem sabe, de Nova Iorque!

Avancemos. Saímos do aeroporto, pusemo-nos num comboio e toca de aviar surpresas:

1. O tamanho de Manhattan

Estávamos a aproximarmo-nos de comboio e a Zélia agarrou-me no braço: olha, olha!

A segunda fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

E lá ao fundo apareceram os prédios da ilha. Aquela paisagem que todos conhecemos — com aquela famosa falha que ainda não tinha sido consertada com a nova torre.

A verdade é que o raio da ilha impressiona — e impressiona mesmo quem já vai preparado. Vemos filmes, fotos, livros… E mesmo assim o gigantismo daquilo é inacreditável, quando aparece no horizonte a quem vem de comboio do aeroporto de Newark, entre armazéns e ruas sujas.

Perante aquilo, todos somos provincianos. E todos nós reconhecemo-nos um pouco naquela paisagem — mesmo o mais empedernido dos anti-americanos. Aquilo não é uma cidade estrangeira: é outra coisa, uma paisagem que vem do fundo da nossa infância, dos filmes, das bandas desenhadas — e é também a cidade por excelência, no seu excesso e na sua concentração e na aflição por chegar às nuvens.

Sim, aquilo é Manhattan, Nova Iorque, mas também Gotham — e é ainda a cidade de todos nós.

Lá fomos. Chegámos a uma estação subterrânea, andámos às voltas, encontrámos a saída e vimo-nos no meio da mais famosa ilha do mundo…

2. As ruas estão sempre à sombra

Os prédios altos, cá pela Europa, são uma espécie de amostra mal semeada de arranha-céus. Já foram a La Defense, em Paris? E Canary Wharf, em Londres? Não deixam de ser uma coisa mais ou menos interessante, mas não são essenciais àquelas cidades. São, como diriam os ingleses ou os americanos, um afterthought. Por cá, gostamos de cidades na horizontal — e um café a seguir. Estou a generalizar, eu sei.

Pois, em Manhattan, os prédios são gigantescos. São desmesurados. São para lá de altos. Tentam mesmo arranhar o céu. São monstros de vidro ou pedra ou o que for. Estão aflitos por olhar por cima do prédio da frente.

Bem, acho que me estou a repetir. Avancemos para a segunda surpresa: durante muitas horas do dia, na rua, andamos na sombra. Não há luz directa, ou há apenas em certos sítios, onde o alinhamento dos prédios dá uma folga ao sol.

Mas não pensem que isto torna a cidade pesada. As avenidas são largas. Os parques são muitos. E andando um pouco chegamos ao rio, que envolve Manhattan. Depois, o sol a bater nos vidros os prédios não é coisa para deitar fora…

3. O cheiro a comida

Há restaurantes, carrinhos de comida, pequenas lojas com manjares de todo o mundo… Os cheiros ficam ali presos entre os prédios, enrolam-se uns nos outros e de repente temos uma cidade que nos deixa com água na boca em todas as esquinas. Ou seja, Nova Iorque é apetitosa de forma muito concreta.

Restaurantes chineses, gregos, portugueses, turquemenistanos. O mundo inteiro ali, sem dúvida. Misturado, como os fumos das cozinhas no ar apertado entre os prédios. Parece enjoativo, assim à distância? Admito que sim. Mas na vida real, no frio de Setembro, apetecia-nos viver aquela cidade por uns dias. Foi isso que fizemos, continuando a andar sem medo até ao hotel. Éramos turistas, sim, essa condição tão rasteira… Mas também éramos um casal contente por visitar uma das cidades das nossas vidas.

4. Os sapatos nas mãos

Ora, quem diria? Andamos pelas ruas tão cheias de gente como vemos nos filmes e vemos pessoas de sapatos na mão.

Porquê?

Porque têm de andar muito para chegar ao trabalho e preferem, assim, ir de ténis. Chegam ao escritório e toca de trocar para sapatos mais adequados aos trabalhos importantes das gentes de Manhattan.

Porque Nova Iorque é enorme e convém mesmo ir com calçado confortável — o que vale tanto para turistas como para nova-iorquinos de gema.

Nós percebemos bem isso logo nessa lenta caminhada até ao hotel. No mapa, parecia que estávamos a poucas ruas do hotel. Pensámos: bem, podemos ir a pé. E lá fomos. Andámos. Andámos. E andámos mais. Malas atrás, suor a escorrer. Gente a olhar para nós com pena.

Mas não desistimos e chegámos. Tínhamos percorrido umas míseras duas ruas e andado mais quilómetros do que aconselha a fraqueza humana. Ao nosso lado, táxis até mais não e gente a passar por nós de sapatos na mão. E nós espatifados logo no primeiro dia.

Porque, em Nova Iorque, todos andam a pé — e andam que se fartam.

5. Um hotel no centro do mundo

E pronto, cansados mas a sorrir, chegámos ao hotel, na 42nd Street virada a este. Estávamos, de repente, no centro do mundo. Porquê? Porque tínhamos calhado mesmo na semana da Assembleia Geral das Nações Unidas. E o edifício da ONU era mesmo ali ao lado.

Passavam por nós carros da segurança, havia ruas interrompidas, polícias enervados e calmos diplomatas de todo o mundo. Na entrada do hotel, ouvíamos línguas disparatadas. O mundo estava todo ali.

Quando nos pusemos na fila do check-in ficámos de boca aberta: ali mesmo à nossa frente estava a mesma pessoa que tínhamos encontrado na fila da fronteira no aeroporto, como se toda aquela viagem por Nova Iorque, entre fumos de comida e gente de sapatos na mão, não tivesse acontecido e, no fundo, tivéssemos andado uns míseros metros no aeroporto.

E quem era ele? Ora, não é difícil: que português tem de ir, de há anos para cá, a todas as assembleias gerais da ONU? Aquele que hoje se prepara para ser o Secretário-Geral da dita organização… Na altura, poucos nova-iorquinos saberiam quem era ele. Pois bem, a partir de de Janeiro, será o mais importante dos residentes da cidade. Isto porque em Nova Iorque nem sequer vive o Governador: a capital do Estado de Nova Iorque é Albany. Nova Iorque não é a capital de nada — só do mundo. E ali estava ele, o futuro Secretário-Geral, a fazer check-in no nosso hotel. Ao lado, uns japoneses enervavam-se com uns polícias gigantescos. Ah, Nova Iorque…


Vista do quarto. Esta é, provavelmente, a fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

Fomos para o quarto. Ligámos a televisão — estava a dar publicidade. Abrimos a janela. Estava a dar o Empire State Building. Mas tudo isso fica para outro dia. Como também ficará para outro dia dizer-vos os estranhos segredos que se descobrem num quarto nova-iorquino…

(Já agora, para vos deixar água na boca: no dia seguinte, fomos ao Central Park — e fomos barbaramente atacados! Mas já não vimos o Guterres.)

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1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

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Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

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Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

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Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

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Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

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Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

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Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

As vacas do País de Gales (e como se diz «futebol» em galês)

Desde que o meu irmão foi viver para Inglaterra, às vezes lá vamos nós visitá-lo — e aproveitamos para passear.

Numa dessas viagens, há uns cinco anos, ainda sem filhos, decidimos ir de Cambridge até ao País de Gales. Lá fui eu, o meu irmão, a Zélia e a Sofia.

Saímos de manhã, prontos para ir almoçar a Cardiff — e perdemo-nos.

Andámos entre aldeias inglesas que ninguém conhece, estradas onde nunca um carro parece ter passado, auto-estradas que iam para todo o lado menos para Gales — enfim, um delicioso labirinto britânico, que nos libertou, por fim, ao fim da tarde, a tempo de jantar em Cardiff. Acabámos por decidir lá ficar de noite.

Por esses dias, o meu irmão ainda andava a descobrir o mundo mental inglês e passou-me a viagem a descrever os estereótipos sobre os galeses: na mente de muitos ingleses, o vizinho pequenito é um canto cheio de gente obcecada com vacas.

Ri-me desses simplismos — e, claro, Cardiff é uma cidade que desmente essas ideias inglesas sobre o país.

O problema é que, fosse eu inglês preconceituoso, teria visto as minhas ideias confirmadíssimas quando cheguei ao hotel.

Porquê?

cows-1013108_640Ora, quando cheguei ao quarto, liguei a televisão ávido de encontrar a televisão local, para ouvir um pouco a língua galesa. Finalmente lá encontrei o tal canal: canal esse em que estava a dar um programa apresentado por um homem de suíças gigantescas, que discutia em galês qualquer coisa relacionada com… vacas! Pois que apontava e ria e discutia entusiasmado o que devia ser o mundo das vacas, pois estava rodeado dessas simpáticas criaturas.

Fiquei em choque e o meu irmão a rir às gargalhadas.

Logo a seguir deu um programa sobre poetas galeses, sem vacas à vista, e eu sorri um pouco. Dizem que aquele é um país de poetas. Será também um simplismo? Enfim, simplismos há em todo o lado, como sabemos — e têm sempre aquele fundo de verdade de que se alimentam as mentiras que contamos sobre os outros.

O certo é que, com vacas ou não, não percebi patavina do que diziam os tais galeses. A língua é exótica aos ouvidos portugueses.

Diga-se que, na rua, como sabemos, o que se ouve em Cardiff é inglês. O galês já se ouve pouco nas cidades, embora nos rodeie nas placas das ruas, nas estradas e nalguns livros nas montras das livrarias.

Aproveitei para comprar um livro sobre a situação social da língua (uns é com vacas, outros é com línguas, cada um na sua). Pus-me a ler. Descobri alguns aspectos curiosos da língua galesa: vivendo lado a lado com o inglês, quem protege a norma do galês tenta afastar a língua o mais possível do vizinho poderoso.

Assim, o galês, uma das línguas do Reino Unido, está estranhamente livre de anglicismos…

Repare-se, assim, na palavra para futebol em várias línguas:

  • Inglês: football
  • Português: futebol
  • Alemão: Fußball
  • Dinamarquês: fodbold (!)
  • Basco: futbol
  • Neerlandês: voetbal (esta foi-me oferecida por Fernando Venâncio, que me disse ainda que «oe» soa a «u»)
  • Francês: football
  • Galês: pêl-droed

Sim: na quarta a nossa selecção vai jogar uma boa partida de PÊL-DROED com os nossos amigos de Cymru.

Querem mais estranhos exemplos de palavras em que os galeses resistiram aos anglicismos? “Internet”, em galês, traduz-se por “rhyngrwyd“. E computador? “Cyfrifiadur“.

Sim, naquele país, até os termos informáticos parecem saídos da boca do Rei Artur.

A Europa de que eu gosto está em Londres

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Às vezes, só damos importância ao que perdemos. E, sim, uma Europa de livre circulação, de estudantes Erasmus, de viagens de comboio com poucas fronteiras, um espaço onde vivemos e trabalhamos onde queremos — esta é uma Europa em que gosto de viver.

Mas esta também tem de ser uma Europa democrática e, por isso, por mais injusto que possa parecer, sim, os britânicos têm direito de fazer o que fizeram.

Agora, a verdade, como diz este triste texto, cruel como só os textos a quente podem ser, é que os eleitores tiraram algumas destas tão nossas liberdades às gerações futuras do Reino Unido. (Encontrei isto no Facebook do meu irmão Diogo e o texto está, numa versão mais composta, no blogue do autor.)

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Sinto isto de forma particular porque tenho amigos ingleses por cá e uma sobrinha inglesa por lá. Eu e não só, claro: somos mesmo todos um pouco europeus por estes dias. Ainda bem. Mas é por isso que este resultado dói.

Mas isto também é verdade: existe já uma quantidade imensa de ingleses jovens e menos jovens que se habituou a conviver com europeus de todos os países, que também se sentem europeus — e essas relações de proximidade que o projecto europeu ajudou a criar não morrem. E cabe-nos a nós não criar as barreiras mentais que não merecemos: que continuem as viagens, as conversas, os casamentos, a amizade…

E, já agora, digo-vos isto: a Europa de que eu gosto tem o espírito duma cidade como Londres. O Reino Unido pode sair da União, mas Londres continua a ser a capital da minha Europa.

Os segredos da língua de volta a Lisboa

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Dois meses depois da inesquecível apresentação do livro por Fernando Venâncio na Bertrand de Picoas, e a pedido de várias famílias, o livro Doze Segredos da Língua Portuguesa volta a Lisboa.

Desta vez, a apresentação será na FNAC do Vasco da Gama, esta quinta-feira, dia 23 de Junho, às 18h30. Vou estar a responder às perguntas de Pedro Gaspar, que nos últimos anos tem prestado uma particular atenção aos livros de quem vive e trabalha por estes lados da cidade.

Terei todo o gosto de falar um pouco com quem ainda não teve oportunidade de pôr as mãos no livro — ou de me pedir um rabisco.

O evento está também, como de costume, no Facebook.


knowledge-1052012_640Uma confissão muito minha: quando era mais novo, tinha um gosto especial por marcar num mapa o itinerário das viagens que fazia. Depois, muitas vezes, não cumpríamos nada do que estava planeado (e não é tão bom?), mas essa preparação era uma parte deliciosa da viagem.

Pois, aqui, faço ao contrário: deixo aqui as estradas que o livro já percorreu nos últimos dois meses.

  • Lançamento do livro na Bertrand de Picoas (21 de Abril). O livro foi apresentado por Fernando Venâncio.
  • Apresentação em Peniche (14 de Maio). O livro foi apresentado por José Monteiro.
  • Sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa (10 de Junho).
  • Lançamento galego na livraria Lila-Ciranda (16 de Junho). O livro foi apresentado por Valentim Fagim e José Ramom Pichel.
  • Sessão de autógrafos na Conferência da APTRAD, no Porto (19 de Junho).
  • Apresentação na FNAC do Vasco da Gama (23 de Junho).

E, em breve, vai ao Alentejo, a Ponte de Sor (que tem lá o seu segredo).

As memórias que não tenho: a Guerra Civil em Portugal

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Uma guerra morta?

Não sou historiador, embora a História seja uma das minhas paixões. Ora, a verdade é que esta paixão não é nada de especial: quase todos nós gostamos de saber o que aconteceu — nem que seja o que aconteceu com a nossa família. E é engraçado (digam-me lá se não é) quando as histórias que ouvimos em casa se misturam com a História que lemos nos livros ou aprendemos na escola.

Os meus avós e os meus pais foram-me passando, ao longo dos anos, as tais memórias das décadas que não vivi — quase sem querer, as conversas, os comentários às notícias, às vezes até os desabafos quando algum político aparecia na televisão, tudo isso foi uma maneira de viver esses tempos através das vozes da minha família.

É por esta razão que, para pessoas da minha idade, o 25 de Abril ainda é uma memória viva, com muitas vozes ainda entusiasmadas, outras a torcer um pouco o nariz, as músicas ainda aprendidas da boca dos pais, as discussões ainda quentes à mesa do jantar. Eu não existia, mas sei onde estava a minha mãe nesse dia, sei que teve um ataque de riso incontrolável, sei que o meu avô ficou muito sério, sei disso e posso saber um pouco mais se perguntar — o que hei-de fazer quando chegar a esse capítulo destas histórias dos meus avós.

Mas consigo ir mais longe: a minha avó ainda me falou da I República (era já uma visão de quem cresceu depois, no Estado Novo) e ainda ouvi uns zunzuns sobre o que se passou ou não passou em Fátima. O Estado Novo, claro, pesado e sério, ainda está bem presente em todos nós — e ouvi um avô (não me lembro de qual) a falar do que a mãe ou o pai dele disseram sobre o tempo dos reis.

Pois, a verdade é que há tempos já mortos nesta vida recordada nas famílias portuguesas: já não tenha vislumbre de memória de muito do que se passou no século XIX.

Basta pensar na Guerra Civil: matou tantos e tantos portugueses, desuniu famílias, foi um trauma difícil de imaginar e, hoje, já não levanta uma brisa de emoção pessoal em nós que vivemos neste país que se crê de brandos costumes. Aliás, «Portugal» e «Guerra Civil» parecem palavras que não combinam.

Já só sabemos (vagamente) o que aconteceu dos livros de História ou da literatura que lemos. Os nossos pais, os nossos avós já não se lembram de nada. (Pelo menos, os meus pais e os meus avós — a experiência de cada um de nós não vale assim tanto, bem sei.)

À laia de comparação, basta ir para lá da raia e temos uma outra Guerra Civil bem mais presente e bem mais pesada na vida do dia-a-dia. Os espanhóis da minha idade têm avós que se mataram uns aos outros…

Ora, em relação à nossa guerra, há lendas, claro. E há canções. E há os livros. E há a imaginação. Mas são memórias diferentes, mais abstractas, menos sentidas. Miguelistas, pedristas, liberais, malhados, apostólicos, o Imperador, o Mindelo, o Cerco do Porto… Tudo soa a História escrita, nada nos levanta as memórias de avós a contar histórias quando éramos novos.

E, claro, já ninguém defende, no dia-a-dia, o absolutismo — e o liberalismo do resto do século é cenários de livros, visto pelos olhos da Geração de 70.

Será assim? Será que essa guerra está morta? Talvez nem tanto. Mas antes de vos mostrar que ela reaparece onde menos se espera, deixem-me contar-vos porque me lembrei duma guerra já tão distante.

Um livro por abrir em Esposende

Lembrei-me disto por vários motivos, para começar porque estou em Esposende, numa casa alugada. Como fui à Galiza na quinta e tinha de estar no Porto no fim-de-semana, fiz uma média e calhou-me Esposende — até porque os hotéis do Porto estavam caríssimos nesta altura e eu não ia sozinho.

Pois, perto do sítio onde estou temos o monumento ao desembarque do Mindelo, que foi, na realidade, na Praia dos Ladrões — o que deve ter feito as delícias das más-línguas absolutistas. Ora, a Guerra Civil, que teve esse episódio importantíssimo tão perto donde estou, está bem presente na minha mente por estes dias por dois motivos.

Primeiro: nas últimas semanas, andei a ler as Viagens na Minha Terra. É um salutar exercício ler com muita calma as frases de Garrett; poucos, como ele, libertaram a língua. Poucos, como ele, puseram a vida na literatura e na política e misturaram tudo de forma deliciosa. Não quero exagerar, mas leio as Viagens e o português já é o meu. Ainda não encontrei um livro anterior onde sentisse esta proximidade. É algo pessoal, uma impressão, bem sei, mas é assim.

Segundo: chego à casa que aluguei para aqui ficar uns dias e tenho uns livros, daquelas edições do Círculo dos Leitores que desconfio estarem em muitas casas para enfeitar. Mas não me importo. Mais vale estar alguma coisa nas estantes do que não estar nada — e sempre pode dar-se o caso de alguém chegar a uma casa, pôr as malas no chão, e dirigir-se de imediato para esses livros antigos quase novos. Os livros são assim: alguém os compra, deixa na prateleira e, décadas depois, são abertos por outra pessoa qualquer e acabam assunto dum artigo de blogue.

Um dos livros que ali estava, à minha espera era o Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins. Pus-me a ler de imediato. Porque sim.

É uma obra espantosa: já distante dos factos que relata, é verdade, mas suficientemente próxima para ser deliciosamente parcial — e lê-se como um romance (o que para mim é um elogio).

Vejo-me, assim, numa casa de Esposende, a viver esses dias em que chega ao Porto e a Lisboa a Carta oferecida por D. Pedro, Imperador do Brasil, agora hesitante rei de Portugal, Carta essa que o Duque de Saldanha teve de impor a uma regência relutante. Tudo parte da História e, de repente, ali presente, como se um avô me estivesse a contar o que viveu…

O Porto e Lisboa em festa

O relato é magnífico. Reparem no sorriso matreiro por trás das palavras com que descreve a ingenuidade dos dias liberais antes do reinado de D. Miguel.

Comecemos no Porto, nas comemorações do Juramento da Carta… Havia poemas à Constituição — aliás, à Divinal Constituição! O passado é mesmo um país estrangeiro…

(E, já agora, atente-se na ortografia oitocentista: fui buscar a edição que está disponível na Biblioteca Nacional.)

0 JURAMENTO - OFENDIDO

4 FESTAS NO PORTO

Ora, Lisboa não ficava atrás em entusiasmos pueris…

1 FESTAS CARTA LISBOA

2 FESTAS CARTA LISBOA

Um país comovido com uma constituição (que, diga-se, viera do Brasil, trazida por um embaixador inglês). Treze meninas de azul e branco. Pombas brancas de fitas azuis nas asas! Boas esperanças optimistas…

D. Miguel, rei de Portugal

O mundo pula e avança e, dois anos depois, a mesma cidade aclamava o infante D. Miguel como rei absoluto de Portugal… É já uma cidade a ferver de touros e procissões, muito longe das pombas liberais.

6 CHEGADA DE D. MIGUEL

O clamor duma guerra. A guerra que vinha aí… O resto do livro descreve essa guerra e mais não vou dizer, porque o livro existe, está aí, magnífico, para quem quiser viver um pouco do que foi passar por uma guerra civil neste país à beira-mar plantado.

Picar os mitos dum regime aborrecido

Disse há pouco, antes deste festival de citações coladas dum livro oitocentista, que Oliveira Martins era deliciosamente parcial. O que queria eu dizer com isto? Que ele se punha ao lado dos liberais? Dos absolutistas? Parece-me tudo mais complexo: sabemos nós — e sabia ele e os seus leitores — que os liberais acabaram por vencer.

Ora, Oliveira Martins vivia nesse regime saído da Guerra Civil, embora a algumas décadas de distância. Assim, parece-me a mim que ele tem uma certa vontade de picar o balão inchado da mitologia do regime em que vivia, para que os seus heróis fundadores caíssem do altar kitsch que todos os regimes criam e aparecessem como figuras frágeis, vaidosas, fracas, demasiado humanas.

Parece-me que o historiador, na obra, quer destruir com gozo as mansas ilusões do regime burguês, numa fúria bem típica de intelectual da Geração de 70. Não que fosse, claro está, um defensor do absolutismo… Mas numa Guerra Civil não queria o autor deixar a impressão de que só um lado tinha a razão ou a força do carácter. Havia portugueses de todos os lados — portugueses dos bons e, principalmente, dos maus.

Nós, que estamos distantes disto tudo, que já não sofremos a modorra desse regime rotativo que aborrecia os desiludidos da vida (sim, temos outros sofrimentos e outras rotações, mas isso agora não vem ao caso) — dizia eu que nós, ou melhor, eu, leitor ocasional desta obra de espantar aqui perdida numa casa de Esposende, sinto alguma estranheza nesse ataque tão feroz aos liberais dessa guerra.

A Lisboa horrível do início do século XIX

Ora, agora um parêntesis. Sinto um tremor ao ler uma certa descrição horripilante que aparece no livro, uma passagem terrivelmente bem escrita que mostra um profundo desgosto pelo Portugal que está sob a lupa do escritor. A citação é longa, mas vale a pena.

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Éramos assim? Talvez. Mas Oliveira Martins carrega bem nas tintas… Note-se ainda aquilo que a nós horroriza de racista no texto; mas perdoe-se (sem deixar de registar), porque isto foi há muito tempo e o mundo, lá está, pula e avança — e às vezes até calha pular e avançar bem. (Depois, reparem que Oliveira Martins chama a Lisboa «a Nápoles de Espanha»! Se nos puséssemos a falar disto, estávamos aqui mais três horas…)


Enfim, ao procurar mais informações sobre a obra, dou com este texto de Rui Tavares, em que o historiador desespera um pouco da pintura sombria de Oliveira Martins neste livro (que Rui Tavares considera uma «recriação do Portugal liberal, de resto sempre proveitosa e mesmo viciante»):

Mas há uma pergunta que não quer calar enquanto se lê o livro: porquê? Se todos são tão mesquinhos e venais, por que raio se exilaram e regressaram, por que atravessaram oceanos e continentes para fazer uma guerra civil, por que escreveram Constituições enquanto esperavam em ilhas, sem poder combater, antecipando uma vitória que era tudo menos certa? Por que o fizeram, se eram tão mesquinhos e venais? Isto fica por explicar.

Sim: esta gente mesquinha e venal exilava-se pelas suas ideias e lutava, de armas nas mãos, pelo que entendia ser o melhor para o seu país. E escreviam constituições e criavam um regime minimamente democrático.

Talvez influenciado por esta minha visão menos aterradora da época, vejo na obra (se calhar sou mesmo só eu) uma certa ironia ao contrário (que também encontrei no fim d’Os Maias, confesso já). O que é isso de ironia ao contrário? Talvez não seja uma boa descrição… Diria que sinto, aqui e ali, em relação a essas personagens mesquinhas e fúteis, um vislumbre de salvação. Por exemplo, a certa altura, Oliveira Martins diz que D. Pedro IV era tão vaidoso e estava tão convencido que era um herói que, vai na volta, acaba por se comportar mesmo como um herói. Não me vou pôr a citar de novo (até porque não encontro a passagem e isto já vai longo), mas digamos que Oliveira Martins está-me a dizer isto: estes homens tontos eram tão maus, mas tão maus, que chegavam a ser bons.

Qual era o hino de Portugal durante a monarquia constitucional?

Bem, no meio disto tudo, já me perdi! Comecei a falar das memórias que já não temos… Perdemos os discursos inflamados, os maus poemas, os insultos, as palavras que, certamente, ainda décadas depois, ainda libertavam emoções fortes em quem tinha vivido tudo aquilo. E a música!… Nós já pouco nos lembramos das cores, dos sons, daquilo que enchia o peito desses portugueses oitocentistas, que me parecem tudo menos de brandos costumes (temos forcas, mortes, guerra sem fim).

Se quiserem ver como essa memória pessoal é muito curta (e por isso a História e a imaginação é tão importante), reparem no Hymno da Carta, o hino português de tantas e tantas décadas e que hoje já pouquíssimos conhecem:

O sangue quente das vítimas

Enfim, houve uma guerra civil, em Portugal, e não foi assim há tanto tempo. Lembrei-me dela por causa dos livros. São memórias perdidas, que servem aqui como prelúdio para essas outras memórias, que me propus contar, as memórias bem mais vividas e próximas de todo o século XX dos meus avós.

Mas antes de vos deixar, um pormenor. A certa altura, Oliveira Martins diz isto, em que compara D. Miguel a Robespierre:

8 O SANGUE DAS VÍTIMAS

Assim, num livro do século XIX que encontrei numa casa de Esposende, encontro qualquer coisa de muito importante para perceber alguns dos radicalismos de hoje em dia: essa bebedeira do sangue das vítimas, essa loucura iluminada.

E, com isso, lembrei-me da descrição de Garrett, no capítulo XV das Viagens, quando descreve o frade:

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d’ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.

Ora, aí está. Muitas ideias (não só religiosas) acabam neste extremo: não é preciso mais nada, está tudo neste ou naquele livro. Os fundamentalistas cristãos dizem que está tudo na Bíblia. Os radicais islâmicos dizem que a xaria basta como lei dos povos. E por aí fora… Esta tentação de pôr o mundo a rodar em torno dum eixo muito simples (o Livro basta!) é muito sedutora — e dela jorra o sangue de muitas vítimas. Os livros, no plural, são uma dádiva, que nos transportam, numa bela casa de Esposende, até ao século XIX. Mas o Livro, assim, com maiúscula e no singular, pode ser a coisa mais perigosa do mundo.

A guerra, afinal, ainda não acabou

Agora, por fim, volto ao início e pergunto: será que esta Guerra Civil que matou tantos portugueses, que dividiu famílias, que foi assunto de obras-primas da literatura, será que essa guerra deixou algum rasto nas emoções das famílias e de cada um dos portugueses? Será que alguém ainda liga, pessoalmente, à luta entre absolutistas e liberais? À luta dos dois irmãos, Pedro e Miguel?

Surpresa: parece que sim.

Ora, reparem nestes parágrafos do artigo da Wikipédia sobre a Guerra Civil portuguesa, que parecem escritos como argumentário miguelista:

Após a morte de D. João VI, a regência foi confiada à Infanta Isabel Maria de Bragança que nomeou D. Pedro, então Imperador do Brasil, como sucessor. Em 1826, D. Pedro aclamou-se Rei de Portugal como Pedro IV de Portugal, mas, como a constituição brasileira de 1824 impedia que governasse ambos os países, e não fazendo caso das fundacionais leis monárquicas do Reino de Portugal, abdicou um direito que não tinha um mês depois na filha D. Maria da Glória (indo também aqui contra as regras de sucessão e de abdicação), uma menina de sete anos, até esta cumprir a idade necessária para casar com D. Miguel, que, entretanto, com a perda de direitos de D. Pedro, se tinha tornado o legítimo sucessor de D. João VI.

Em abril de 1826, D. Pedro “reviu” a Constituição de 1822, e retornou [sic] ao Brasil impondo no trono a D. Maria da Glória e fazendo do seu irmão Miguel regente. D. Miguel, exilado após ter liderado duas defesas contra o ataque dos liberais, embora contra a vontade de seu pai (que temia novas tentativas dos liberais e mações que havia conseguido impor a constituição) – a Vilafrancada e a Abrilada – voltou do dito exílio e assumiu a regência em nome da sobrinha. Em 23 de Junho de 1828, depois de preparadas as condições de retirar a opressão que os liberais e maçonaria estavam a fazer, as Cortes aclamaram finalmente como legítimo sucessor D. Miguel, rei de Portugal, deixando clara perante todos a sua legitimidade como herdeiro do trono e ilegítimos todos os actos praticados por D. Pedro em relação a Portugal após a “declaração da independência” no Brasil, e com grande alegria para o Povo em geral. A base para esta decisão foram as Leis Fundamentais do Reino, conhecidas como “Côrtes de Lamego” e o costume secular, que à data se encontravam em vigor por serem as leis fundamentais de Portugal, e à luz das quais D. Pedro e os seus descendentes tinham perdido o direito à Coroa a partir do momento em que, por um lado, aquele príncipe se tornara soberano de um estado estrangeiro (Brasil) e, por outro, levantara armas contra Portugal.

Talvez esteja enganado. Mas parece-me que quem escreveu este fragmento da Wikipédia tem uma simpatia muito forte pelos miguelistas. E, se bem me lembro, ainda há anos ouvi dizer que nalgumas famílias portuguesas, descendentes da nobreza da época, esta questão está tão acesa como sempre e ainda há discussões à mesa sobre quem tinha razão: D. Pedro ou D. Miguel…

Enfim, as memórias do país são uma lagoa por onde passam correntes profundas, invisíveis para muitos, mas ainda bem quentes e muito reais noutras casas e noutras cabeças.

E por hoje tenho de ficar por aqui, que esta guerra já me ocupou uns milhares de palavras — e a paciência do meu caro leitor não é infinita. Mas, olhe, vá a Esposende que vale bem a pena. Com um livro na mão, então, é de ir e chorar por mais.

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