Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

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Línguas, livros e outras viagens

Às vezes, é bom mudar. Depois de muitos meses com a descrição «Línguas e Tradução», hoje inauguro esta nova descrição do blogue: «Línguas, livros e outras viagens.»

Os temas continuam os mesmos: a nossa língua portuguesa, as línguas do mundo, o trabalho de passar entre umas e outras — e ainda livros e outras manias minhas.

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Cinco surpresas de Nova Iorque

Prometi aventuras — ataques no Central Park, russos de ar perigoso… — e terei de cumprir. Nem sabem o que vos espera, digo-vos já. E, sim, isto é uma ameaça.

Mas ainda não será desta. Hoje, neste segundo episódio das minhas viagens à terra dos outros, quero alimentar um pouco a mania das listas que anda por aí. Somos uma espécie muito estranha. Até neste humilde blogue escondido num recanto da internet portuguesa, é certo e sabido: se o título do artigo tiver um número («Sete palavras disto ou daquilo…») tenho partilhas e gostos em barda.

Tento não abusar. Mas um blogue faz-se para se ler. Se os leitores gostam de listas, de vez em quando dou-lhes listas.

Pois bem, antes das grandes revelações sobre o mundo e o universo que descobri nas ruas de Nova Iorque, deixo-vos aqui cinco surpresas que a Zélia e eu tivemos ao chegar à cidade.

Antes da primeira surpresa, um pequeno relato: estávamos nós na fila para passar pelos serviços de estrangeiros lá do sítio, para mostrarmos o passaporte e sentirmos aquele pequeno formigueiro do estilo «será que me vai sair dali um polícia daqueles gigantescos e mandar-nos ao chão porque o passaporte tem um problema?», quando percebemos que à nossa frente estava uma pessoa vagamente conhecida. Aliás, muito conhecida em Portugal e desconhecida no resto do mundo (o que, em média, justifica o «vagamente»).

Mal sabia o polícia que tinha perante si aquele que viria a ser um dos homens mais importantes do planeta e, quem sabe, de Nova Iorque!

Avancemos. Saímos do aeroporto, pusemo-nos num comboio e toca de aviar surpresas:

1. O tamanho de Manhattan

Estávamos a aproximarmo-nos de comboio e a Zélia agarrou-me no braço: olha, olha!

A segunda fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

E lá ao fundo apareceram os prédios da ilha. Aquela paisagem que todos conhecemos — com aquela famosa falha que ainda não tinha sido consertada com a nova torre.

A verdade é que o raio da ilha impressiona — e impressiona mesmo quem já vai preparado. Vemos filmes, fotos, livros… E mesmo assim o gigantismo daquilo é inacreditável, quando aparece no horizonte a quem vem de comboio do aeroporto de Newark, entre armazéns e ruas sujas.

Perante aquilo, todos somos provincianos. E todos nós reconhecemo-nos um pouco naquela paisagem — mesmo o mais empedernido dos anti-americanos. Aquilo não é uma cidade estrangeira: é outra coisa, uma paisagem que vem do fundo da nossa infância, dos filmes, das bandas desenhadas — e é também a cidade por excelência, no seu excesso e na sua concentração e na aflição por chegar às nuvens.

Sim, aquilo é Manhattan, Nova Iorque, mas também Gotham — e é ainda a cidade de todos nós.

Lá fomos. Chegámos a uma estação subterrânea, andámos às voltas, encontrámos a saída e vimo-nos no meio da mais famosa ilha do mundo…

2. As ruas estão sempre à sombra

Os prédios altos, cá pela Europa, são uma espécie de amostra mal semeada de arranha-céus. Já foram a La Defense, em Paris? E Canary Wharf, em Londres? Não deixam de ser uma coisa mais ou menos interessante, mas não são essenciais àquelas cidades. São, como diriam os ingleses ou os americanos, um afterthought. Por cá, gostamos de cidades na horizontal — e um café a seguir. Estou a generalizar, eu sei.

Pois, em Manhattan, os prédios são gigantescos. São desmesurados. São para lá de altos. Tentam mesmo arranhar o céu. São monstros de vidro ou pedra ou o que for. Estão aflitos por olhar por cima do prédio da frente.

Bem, acho que me estou a repetir. Avancemos para a segunda surpresa: durante muitas horas do dia, na rua, andamos na sombra. Não há luz directa, ou há apenas em certos sítios, onde o alinhamento dos prédios dá uma folga ao sol.

Mas não pensem que isto torna a cidade pesada. As avenidas são largas. Os parques são muitos. E andando um pouco chegamos ao rio, que envolve Manhattan. Depois, o sol a bater nos vidros os prédios não é coisa para deitar fora…

3. O cheiro a comida

Há restaurantes, carrinhos de comida, pequenas lojas com manjares de todo o mundo… Os cheiros ficam ali presos entre os prédios, enrolam-se uns nos outros e de repente temos uma cidade que nos deixa com água na boca em todas as esquinas. Ou seja, Nova Iorque é apetitosa de forma muito concreta.

Restaurantes chineses, gregos, portugueses, turquemenistanos. O mundo inteiro ali, sem dúvida. Misturado, como os fumos das cozinhas no ar apertado entre os prédios. Parece enjoativo, assim à distância? Admito que sim. Mas na vida real, no frio de Setembro, apetecia-nos viver aquela cidade por uns dias. Foi isso que fizemos, continuando a andar sem medo até ao hotel. Éramos turistas, sim, essa condição tão rasteira… Mas também éramos um casal contente por visitar uma das cidades das nossas vidas.

4. Os sapatos nas mãos

Ora, quem diria? Andamos pelas ruas tão cheias de gente como vemos nos filmes e vemos pessoas de sapatos na mão.

Porquê?

Porque têm de andar muito para chegar ao trabalho e preferem, assim, ir de ténis. Chegam ao escritório e toca de trocar para sapatos mais adequados aos trabalhos importantes das gentes de Manhattan.

Porque Nova Iorque é enorme e convém mesmo ir com calçado confortável — o que vale tanto para turistas como para nova-iorquinos de gema.

Nós percebemos bem isso logo nessa lenta caminhada até ao hotel. No mapa, parecia que estávamos a poucas ruas do hotel. Pensámos: bem, podemos ir a pé. E lá fomos. Andámos. Andámos. E andámos mais. Malas atrás, suor a escorrer. Gente a olhar para nós com pena.

Mas não desistimos e chegámos. Tínhamos percorrido umas míseras duas ruas e andado mais quilómetros do que aconselha a fraqueza humana. Ao nosso lado, táxis até mais não e gente a passar por nós de sapatos na mão. E nós espatifados logo no primeiro dia.

Porque, em Nova Iorque, todos andam a pé — e andam que se fartam.

5. Um hotel no centro do mundo

E pronto, cansados mas a sorrir, chegámos ao hotel, na 42nd Street virada a este. Estávamos, de repente, no centro do mundo. Porquê? Porque tínhamos calhado mesmo na semana da Assembleia Geral das Nações Unidas. E o edifício da ONU era mesmo ali ao lado.

Passavam por nós carros da segurança, havia ruas interrompidas, polícias enervados e calmos diplomatas de todo o mundo. Na entrada do hotel, ouvíamos línguas disparatadas. O mundo estava todo ali.

Quando nos pusemos na fila do check-in ficámos de boca aberta: ali mesmo à nossa frente estava a mesma pessoa que tínhamos encontrado na fila da fronteira no aeroporto, como se toda aquela viagem por Nova Iorque, entre fumos de comida e gente de sapatos na mão, não tivesse acontecido e, no fundo, tivéssemos andado uns míseros metros no aeroporto.

E quem era ele? Ora, não é difícil: que português tem de ir, de há anos para cá, a todas as assembleias gerais da ONU? Aquele que hoje se prepara para ser o Secretário-Geral da dita organização… Na altura, poucos nova-iorquinos saberiam quem era ele. Pois bem, a partir de de Janeiro, será o mais importante dos residentes da cidade. Isto porque em Nova Iorque nem sequer vive o Governador: a capital do Estado de Nova Iorque é Albany. Nova Iorque não é a capital de nada — só do mundo. E ali estava ele, o futuro Secretário-Geral, a fazer check-in no nosso hotel. Ao lado, uns japoneses enervavam-se com uns polícias gigantescos. Ah, Nova Iorque…


Vista do quarto. Esta é, provavelmente, a fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

Fomos para o quarto. Ligámos a televisão — estava a dar publicidade. Abrimos a janela. Estava a dar o Empire State Building. Mas tudo isso fica para outro dia. Como também ficará para outro dia dizer-vos os estranhos segredos que se descobrem num quarto nova-iorquino…

(Já agora, para vos deixar água na boca: no dia seguinte, fomos ao Central Park — e fomos barbaramente atacados! Mas já não vimos o Guterres.)

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1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

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Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

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Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

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Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

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Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

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Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

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Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

As vacas do País de Gales (e como se diz «futebol» em galês)

Desde que o meu irmão foi viver para Inglaterra, às vezes lá vamos nós visitá-lo — e aproveitamos para passear.

Numa dessas viagens, há uns cinco anos, ainda sem filhos, decidimos ir de Cambridge até ao País de Gales. Lá fui eu, o meu irmão, a Zélia e a Sofia.

Saímos de manhã, prontos para ir almoçar a Cardiff — e perdemo-nos.

Andámos entre aldeias inglesas que ninguém conhece, estradas onde nunca um carro parece ter passado, auto-estradas que iam para todo o lado menos para Gales — enfim, um delicioso labirinto britânico, que nos libertou, por fim, ao fim da tarde, a tempo de jantar em Cardiff. Acabámos por decidir lá ficar de noite.

Por esses dias, o meu irmão ainda andava a descobrir o mundo mental inglês e passou-me a viagem a descrever os estereótipos sobre os galeses: na mente de muitos ingleses, o vizinho pequenito é um canto cheio de gente obcecada com vacas.

Ri-me desses simplismos — e, claro, Cardiff é uma cidade que desmente essas ideias inglesas sobre o país.

O problema é que, fosse eu inglês preconceituoso, teria visto as minhas ideias confirmadíssimas quando cheguei ao hotel.

Porquê?

cows-1013108_640Ora, quando cheguei ao quarto, liguei a televisão ávido de encontrar a televisão local, para ouvir um pouco a língua galesa. Finalmente lá encontrei o tal canal: canal esse em que estava a dar um programa apresentado por um homem de suíças gigantescas, que discutia em galês qualquer coisa relacionada com… vacas! Pois que apontava e ria e discutia entusiasmado o que devia ser o mundo das vacas, pois estava rodeado dessas simpáticas criaturas.

Fiquei em choque e o meu irmão a rir às gargalhadas.

Logo a seguir deu um programa sobre poetas galeses, sem vacas à vista, e eu sorri um pouco. Dizem que aquele é um país de poetas. Será também um simplismo? Enfim, simplismos há em todo o lado, como sabemos — e têm sempre aquele fundo de verdade de que se alimentam as mentiras que contamos sobre os outros.

O certo é que, com vacas ou não, não percebi patavina do que diziam os tais galeses. A língua é exótica aos ouvidos portugueses.

Diga-se que, na rua, como sabemos, o que se ouve em Cardiff é inglês. O galês já se ouve pouco nas cidades, embora nos rodeie nas placas das ruas, nas estradas e nalguns livros nas montras das livrarias.

Aproveitei para comprar um livro sobre a situação social da língua (uns é com vacas, outros é com línguas, cada um na sua). Pus-me a ler. Descobri alguns aspectos curiosos da língua galesa: vivendo lado a lado com o inglês, quem protege a norma do galês tenta afastar a língua o mais possível do vizinho poderoso.

Assim, o galês, uma das línguas do Reino Unido, está estranhamente livre de anglicismos…

Repare-se, assim, na palavra para futebol em várias línguas:

  • Inglês: football
  • Português: futebol
  • Alemão: Fußball
  • Dinamarquês: fodbold (!)
  • Basco: futbol
  • Neerlandês: voetbal (esta foi-me oferecida por Fernando Venâncio, que me disse ainda que «oe» soa a «u»)
  • Francês: football
  • Galês: pêl-droed

Sim: na quarta a nossa selecção vai jogar uma boa partida de PÊL-DROED com os nossos amigos de Cymru.

Querem mais estranhos exemplos de palavras em que os galeses resistiram aos anglicismos? “Internet”, em galês, traduz-se por “rhyngrwyd“. E computador? “Cyfrifiadur“.

Sim, naquele país, até os termos informáticos parecem saídos da boca do Rei Artur.

A Europa de que eu gosto está em Londres

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Às vezes, só damos importância ao que perdemos. E, sim, uma Europa de livre circulação, de estudantes Erasmus, de viagens de comboio com poucas fronteiras, um espaço onde vivemos e trabalhamos onde queremos — esta é uma Europa em que gosto de viver.

Mas esta também tem de ser uma Europa democrática e, por isso, por mais injusto que possa parecer, sim, os britânicos têm direito de fazer o que fizeram.

Agora, a verdade, como diz este triste texto, cruel como só os textos a quente podem ser, é que os eleitores tiraram algumas destas tão nossas liberdades às gerações futuras do Reino Unido. (Encontrei isto no Facebook do meu irmão Diogo e o texto está, numa versão mais composta, no blogue do autor.)

COMMENTS

Sinto isto de forma particular porque tenho amigos ingleses por cá e uma sobrinha inglesa por lá. Eu e não só, claro: somos mesmo todos um pouco europeus por estes dias. Ainda bem. Mas é por isso que este resultado dói.

Mas isto também é verdade: existe já uma quantidade imensa de ingleses jovens e menos jovens que se habituou a conviver com europeus de todos os países, que também se sentem europeus — e essas relações de proximidade que o projecto europeu ajudou a criar não morrem. E cabe-nos a nós não criar as barreiras mentais que não merecemos: que continuem as viagens, as conversas, os casamentos, a amizade…

E, já agora, digo-vos isto: a Europa de que eu gosto tem o espírito duma cidade como Londres. O Reino Unido pode sair da União, mas Londres continua a ser a capital da minha Europa.

Os segredos da língua de volta a Lisboa

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Dois meses depois da inesquecível apresentação do livro por Fernando Venâncio na Bertrand de Picoas, e a pedido de várias famílias, o livro Doze Segredos da Língua Portuguesa volta a Lisboa.

Desta vez, a apresentação será na FNAC do Vasco da Gama, esta quinta-feira, dia 23 de Junho, às 18h30. Vou estar a responder às perguntas de Pedro Gaspar, que nos últimos anos tem prestado uma particular atenção aos livros de quem vive e trabalha por estes lados da cidade.

Terei todo o gosto de falar um pouco com quem ainda não teve oportunidade de pôr as mãos no livro — ou de me pedir um rabisco.

O evento está também, como de costume, no Facebook.


knowledge-1052012_640Uma confissão muito minha: quando era mais novo, tinha um gosto especial por marcar num mapa o itinerário das viagens que fazia. Depois, muitas vezes, não cumpríamos nada do que estava planeado (e não é tão bom?), mas essa preparação era uma parte deliciosa da viagem.

Pois, aqui, faço ao contrário: deixo aqui as estradas que o livro já percorreu nos últimos dois meses.

  • Lançamento do livro na Bertrand de Picoas (21 de Abril). O livro foi apresentado por Fernando Venâncio.
  • Apresentação em Peniche (14 de Maio). O livro foi apresentado por José Monteiro.
  • Sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa (10 de Junho).
  • Lançamento galego na livraria Lila-Ciranda (16 de Junho). O livro foi apresentado por Valentim Fagim e José Ramom Pichel.
  • Sessão de autógrafos na Conferência da APTRAD, no Porto (19 de Junho).
  • Apresentação na FNAC do Vasco da Gama (23 de Junho).

E, em breve, vai ao Alentejo, a Ponte de Sor (que tem lá o seu segredo).

As memórias que não tenho: a Guerra Civil em Portugal

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Uma guerra morta?

Não sou historiador, embora a História seja uma das minhas paixões. Ora, a verdade é que esta paixão não é nada de especial: quase todos nós gostamos de saber o que aconteceu — nem que seja o que aconteceu com a nossa família. E é engraçado (digam-me lá se não é) quando as histórias que ouvimos em casa se misturam com a História que lemos nos livros ou aprendemos na escola.

Os meus avós e os meus pais foram-me passando, ao longo dos anos, as tais memórias das décadas que não vivi — quase sem querer, as conversas, os comentários às notícias, às vezes até os desabafos quando algum político aparecia na televisão, tudo isso foi uma maneira de viver esses tempos através das vozes da minha família.

É por esta razão que, para pessoas da minha idade, o 25 de Abril ainda é uma memória viva, com muitas vozes ainda entusiasmadas, outras a torcer um pouco o nariz, as músicas ainda aprendidas da boca dos pais, as discussões ainda quentes à mesa do jantar. Eu não existia, mas sei onde estava a minha mãe nesse dia, sei que teve um ataque de riso incontrolável, sei que o meu avô ficou muito sério, sei disso e posso saber um pouco mais se perguntar — o que hei-de fazer quando chegar a esse capítulo destas histórias dos meus avós.

Mas consigo ir mais longe: a minha avó ainda me falou da I República (era já uma visão de quem cresceu depois, no Estado Novo) e ainda ouvi uns zunzuns sobre o que se passou ou não passou em Fátima. O Estado Novo, claro, pesado e sério, ainda está bem presente em todos nós — e ouvi um avô (não me lembro de qual) a falar do que a mãe ou o pai dele disseram sobre o tempo dos reis.

Pois, a verdade é que há tempos já mortos nesta vida recordada nas famílias portuguesas: já não tenha vislumbre de memória de muito do que se passou no século XIX.

Basta pensar na Guerra Civil: matou tantos e tantos portugueses, desuniu famílias, foi um trauma difícil de imaginar e, hoje, já não levanta uma brisa de emoção pessoal em nós que vivemos neste país que se crê de brandos costumes. Aliás, «Portugal» e «Guerra Civil» parecem palavras que não combinam.

Já só sabemos (vagamente) o que aconteceu dos livros de História ou da literatura que lemos. Os nossos pais, os nossos avós já não se lembram de nada. (Pelo menos, os meus pais e os meus avós — a experiência de cada um de nós não vale assim tanto, bem sei.)

À laia de comparação, basta ir para lá da raia e temos uma outra Guerra Civil bem mais presente e bem mais pesada na vida do dia-a-dia. Os espanhóis da minha idade têm avós que se mataram uns aos outros…

Ora, em relação à nossa guerra, há lendas, claro. E há canções. E há os livros. E há a imaginação. Mas são memórias diferentes, mais abstractas, menos sentidas. Miguelistas, pedristas, liberais, malhados, apostólicos, o Imperador, o Mindelo, o Cerco do Porto… Tudo soa a História escrita, nada nos levanta as memórias de avós a contar histórias quando éramos novos.

E, claro, já ninguém defende, no dia-a-dia, o absolutismo — e o liberalismo do resto do século é cenários de livros, visto pelos olhos da Geração de 70.

Será assim? Será que essa guerra está morta? Talvez nem tanto. Mas antes de vos mostrar que ela reaparece onde menos se espera, deixem-me contar-vos porque me lembrei duma guerra já tão distante.

Um livro por abrir em Esposende

Lembrei-me disto por vários motivos, para começar porque estou em Esposende, numa casa alugada. Como fui à Galiza na quinta e tinha de estar no Porto no fim-de-semana, fiz uma média e calhou-me Esposende — até porque os hotéis do Porto estavam caríssimos nesta altura e eu não ia sozinho.

Pois, perto do sítio onde estou temos o monumento ao desembarque do Mindelo, que foi, na realidade, na Praia dos Ladrões — o que deve ter feito as delícias das más-línguas absolutistas. Ora, a Guerra Civil, que teve esse episódio importantíssimo tão perto donde estou, está bem presente na minha mente por estes dias por dois motivos.

Primeiro: nas últimas semanas, andei a ler as Viagens na Minha Terra. É um salutar exercício ler com muita calma as frases de Garrett; poucos, como ele, libertaram a língua. Poucos, como ele, puseram a vida na literatura e na política e misturaram tudo de forma deliciosa. Não quero exagerar, mas leio as Viagens e o português já é o meu. Ainda não encontrei um livro anterior onde sentisse esta proximidade. É algo pessoal, uma impressão, bem sei, mas é assim.

Segundo: chego à casa que aluguei para aqui ficar uns dias e tenho uns livros, daquelas edições do Círculo dos Leitores que desconfio estarem em muitas casas para enfeitar. Mas não me importo. Mais vale estar alguma coisa nas estantes do que não estar nada — e sempre pode dar-se o caso de alguém chegar a uma casa, pôr as malas no chão, e dirigir-se de imediato para esses livros antigos quase novos. Os livros são assim: alguém os compra, deixa na prateleira e, décadas depois, são abertos por outra pessoa qualquer e acabam assunto dum artigo de blogue.

Um dos livros que ali estava, à minha espera era o Portugal Contemporâneo de Oliveira Martins. Pus-me a ler de imediato. Porque sim.

É uma obra espantosa: já distante dos factos que relata, é verdade, mas suficientemente próxima para ser deliciosamente parcial — e lê-se como um romance (o que para mim é um elogio).

Vejo-me, assim, numa casa de Esposende, a viver esses dias em que chega ao Porto e a Lisboa a Carta oferecida por D. Pedro, Imperador do Brasil, agora hesitante rei de Portugal, Carta essa que o Duque de Saldanha teve de impor a uma regência relutante. Tudo parte da História e, de repente, ali presente, como se um avô me estivesse a contar o que viveu…

O Porto e Lisboa em festa

O relato é magnífico. Reparem no sorriso matreiro por trás das palavras com que descreve a ingenuidade dos dias liberais antes do reinado de D. Miguel.

Comecemos no Porto, nas comemorações do Juramento da Carta… Havia poemas à Constituição — aliás, à Divinal Constituição! O passado é mesmo um país estrangeiro…

(E, já agora, atente-se na ortografia oitocentista: fui buscar a edição que está disponível na Biblioteca Nacional.)

0 JURAMENTO - OFENDIDO

4 FESTAS NO PORTO

Ora, Lisboa não ficava atrás em entusiasmos pueris…

1 FESTAS CARTA LISBOA

2 FESTAS CARTA LISBOA

Um país comovido com uma constituição (que, diga-se, viera do Brasil, trazida por um embaixador inglês). Treze meninas de azul e branco. Pombas brancas de fitas azuis nas asas! Boas esperanças optimistas…

D. Miguel, rei de Portugal

O mundo pula e avança e, dois anos depois, a mesma cidade aclamava o infante D. Miguel como rei absoluto de Portugal… É já uma cidade a ferver de touros e procissões, muito longe das pombas liberais.

6 CHEGADA DE D. MIGUEL

O clamor duma guerra. A guerra que vinha aí… O resto do livro descreve essa guerra e mais não vou dizer, porque o livro existe, está aí, magnífico, para quem quiser viver um pouco do que foi passar por uma guerra civil neste país à beira-mar plantado.

Picar os mitos dum regime aborrecido

Disse há pouco, antes deste festival de citações coladas dum livro oitocentista, que Oliveira Martins era deliciosamente parcial. O que queria eu dizer com isto? Que ele se punha ao lado dos liberais? Dos absolutistas? Parece-me tudo mais complexo: sabemos nós — e sabia ele e os seus leitores — que os liberais acabaram por vencer.

Ora, Oliveira Martins vivia nesse regime saído da Guerra Civil, embora a algumas décadas de distância. Assim, parece-me a mim que ele tem uma certa vontade de picar o balão inchado da mitologia do regime em que vivia, para que os seus heróis fundadores caíssem do altar kitsch que todos os regimes criam e aparecessem como figuras frágeis, vaidosas, fracas, demasiado humanas.

Parece-me que o historiador, na obra, quer destruir com gozo as mansas ilusões do regime burguês, numa fúria bem típica de intelectual da Geração de 70. Não que fosse, claro está, um defensor do absolutismo… Mas numa Guerra Civil não queria o autor deixar a impressão de que só um lado tinha a razão ou a força do carácter. Havia portugueses de todos os lados — portugueses dos bons e, principalmente, dos maus.

Nós, que estamos distantes disto tudo, que já não sofremos a modorra desse regime rotativo que aborrecia os desiludidos da vida (sim, temos outros sofrimentos e outras rotações, mas isso agora não vem ao caso) — dizia eu que nós, ou melhor, eu, leitor ocasional desta obra de espantar aqui perdida numa casa de Esposende, sinto alguma estranheza nesse ataque tão feroz aos liberais dessa guerra.

A Lisboa horrível do início do século XIX

Ora, agora um parêntesis. Sinto um tremor ao ler uma certa descrição horripilante que aparece no livro, uma passagem terrivelmente bem escrita que mostra um profundo desgosto pelo Portugal que está sob a lupa do escritor. A citação é longa, mas vale a pena.

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Éramos assim? Talvez. Mas Oliveira Martins carrega bem nas tintas… Note-se ainda aquilo que a nós horroriza de racista no texto; mas perdoe-se (sem deixar de registar), porque isto foi há muito tempo e o mundo, lá está, pula e avança — e às vezes até calha pular e avançar bem. (Depois, reparem que Oliveira Martins chama a Lisboa «a Nápoles de Espanha»! Se nos puséssemos a falar disto, estávamos aqui mais três horas…)


Enfim, ao procurar mais informações sobre a obra, dou com este texto de Rui Tavares, em que o historiador desespera um pouco da pintura sombria de Oliveira Martins neste livro (que Rui Tavares considera uma «recriação do Portugal liberal, de resto sempre proveitosa e mesmo viciante»):

Mas há uma pergunta que não quer calar enquanto se lê o livro: porquê? Se todos são tão mesquinhos e venais, por que raio se exilaram e regressaram, por que atravessaram oceanos e continentes para fazer uma guerra civil, por que escreveram Constituições enquanto esperavam em ilhas, sem poder combater, antecipando uma vitória que era tudo menos certa? Por que o fizeram, se eram tão mesquinhos e venais? Isto fica por explicar.

Sim: esta gente mesquinha e venal exilava-se pelas suas ideias e lutava, de armas nas mãos, pelo que entendia ser o melhor para o seu país. E escreviam constituições e criavam um regime minimamente democrático.

Talvez influenciado por esta minha visão menos aterradora da época, vejo na obra (se calhar sou mesmo só eu) uma certa ironia ao contrário (que também encontrei no fim d’Os Maias, confesso já). O que é isso de ironia ao contrário? Talvez não seja uma boa descrição… Diria que sinto, aqui e ali, em relação a essas personagens mesquinhas e fúteis, um vislumbre de salvação. Por exemplo, a certa altura, Oliveira Martins diz que D. Pedro IV era tão vaidoso e estava tão convencido que era um herói que, vai na volta, acaba por se comportar mesmo como um herói. Não me vou pôr a citar de novo (até porque não encontro a passagem e isto já vai longo), mas digamos que Oliveira Martins está-me a dizer isto: estes homens tontos eram tão maus, mas tão maus, que chegavam a ser bons.

Qual era o hino de Portugal durante a monarquia constitucional?

Bem, no meio disto tudo, já me perdi! Comecei a falar das memórias que já não temos… Perdemos os discursos inflamados, os maus poemas, os insultos, as palavras que, certamente, ainda décadas depois, ainda libertavam emoções fortes em quem tinha vivido tudo aquilo. E a música!… Nós já pouco nos lembramos das cores, dos sons, daquilo que enchia o peito desses portugueses oitocentistas, que me parecem tudo menos de brandos costumes (temos forcas, mortes, guerra sem fim).

Se quiserem ver como essa memória pessoal é muito curta (e por isso a História e a imaginação é tão importante), reparem no Hymno da Carta, o hino português de tantas e tantas décadas e que hoje já pouquíssimos conhecem:

O sangue quente das vítimas

Enfim, houve uma guerra civil, em Portugal, e não foi assim há tanto tempo. Lembrei-me dela por causa dos livros. São memórias perdidas, que servem aqui como prelúdio para essas outras memórias, que me propus contar, as memórias bem mais vividas e próximas de todo o século XX dos meus avós.

Mas antes de vos deixar, um pormenor. A certa altura, Oliveira Martins diz isto, em que compara D. Miguel a Robespierre:

8 O SANGUE DAS VÍTIMAS

Assim, num livro do século XIX que encontrei numa casa de Esposende, encontro qualquer coisa de muito importante para perceber alguns dos radicalismos de hoje em dia: essa bebedeira do sangue das vítimas, essa loucura iluminada.

E, com isso, lembrei-me da descrição de Garrett, no capítulo XV das Viagens, quando descreve o frade:

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d’ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.

Ora, aí está. Muitas ideias (não só religiosas) acabam neste extremo: não é preciso mais nada, está tudo neste ou naquele livro. Os fundamentalistas cristãos dizem que está tudo na Bíblia. Os radicais islâmicos dizem que a xaria basta como lei dos povos. E por aí fora… Esta tentação de pôr o mundo a rodar em torno dum eixo muito simples (o Livro basta!) é muito sedutora — e dela jorra o sangue de muitas vítimas. Os livros, no plural, são uma dádiva, que nos transportam, numa bela casa de Esposende, até ao século XIX. Mas o Livro, assim, com maiúscula e no singular, pode ser a coisa mais perigosa do mundo.

A guerra, afinal, ainda não acabou

Agora, por fim, volto ao início e pergunto: será que esta Guerra Civil que matou tantos portugueses, que dividiu famílias, que foi assunto de obras-primas da literatura, será que essa guerra deixou algum rasto nas emoções das famílias e de cada um dos portugueses? Será que alguém ainda liga, pessoalmente, à luta entre absolutistas e liberais? À luta dos dois irmãos, Pedro e Miguel?

Surpresa: parece que sim.

Ora, reparem nestes parágrafos do artigo da Wikipédia sobre a Guerra Civil portuguesa, que parecem escritos como argumentário miguelista:

Após a morte de D. João VI, a regência foi confiada à Infanta Isabel Maria de Bragança que nomeou D. Pedro, então Imperador do Brasil, como sucessor. Em 1826, D. Pedro aclamou-se Rei de Portugal como Pedro IV de Portugal, mas, como a constituição brasileira de 1824 impedia que governasse ambos os países, e não fazendo caso das fundacionais leis monárquicas do Reino de Portugal, abdicou um direito que não tinha um mês depois na filha D. Maria da Glória (indo também aqui contra as regras de sucessão e de abdicação), uma menina de sete anos, até esta cumprir a idade necessária para casar com D. Miguel, que, entretanto, com a perda de direitos de D. Pedro, se tinha tornado o legítimo sucessor de D. João VI.

Em abril de 1826, D. Pedro “reviu” a Constituição de 1822, e retornou [sic] ao Brasil impondo no trono a D. Maria da Glória e fazendo do seu irmão Miguel regente. D. Miguel, exilado após ter liderado duas defesas contra o ataque dos liberais, embora contra a vontade de seu pai (que temia novas tentativas dos liberais e mações que havia conseguido impor a constituição) – a Vilafrancada e a Abrilada – voltou do dito exílio e assumiu a regência em nome da sobrinha. Em 23 de Junho de 1828, depois de preparadas as condições de retirar a opressão que os liberais e maçonaria estavam a fazer, as Cortes aclamaram finalmente como legítimo sucessor D. Miguel, rei de Portugal, deixando clara perante todos a sua legitimidade como herdeiro do trono e ilegítimos todos os actos praticados por D. Pedro em relação a Portugal após a “declaração da independência” no Brasil, e com grande alegria para o Povo em geral. A base para esta decisão foram as Leis Fundamentais do Reino, conhecidas como “Côrtes de Lamego” e o costume secular, que à data se encontravam em vigor por serem as leis fundamentais de Portugal, e à luz das quais D. Pedro e os seus descendentes tinham perdido o direito à Coroa a partir do momento em que, por um lado, aquele príncipe se tornara soberano de um estado estrangeiro (Brasil) e, por outro, levantara armas contra Portugal.

Talvez esteja enganado. Mas parece-me que quem escreveu este fragmento da Wikipédia tem uma simpatia muito forte pelos miguelistas. E, se bem me lembro, ainda há anos ouvi dizer que nalgumas famílias portuguesas, descendentes da nobreza da época, esta questão está tão acesa como sempre e ainda há discussões à mesa sobre quem tinha razão: D. Pedro ou D. Miguel…

Enfim, as memórias do país são uma lagoa por onde passam correntes profundas, invisíveis para muitos, mas ainda bem quentes e muito reais noutras casas e noutras cabeças.

E por hoje tenho de ficar por aqui, que esta guerra já me ocupou uns milhares de palavras — e a paciência do meu caro leitor não é infinita. Mas, olhe, vá a Esposende que vale bem a pena. Com um livro na mão, então, é de ir e chorar por mais.

O dia em que caiu um avião inglês numa praia da Atouguia

O meu avô Manel janta em casa dos meus pais quase todos os dias desde o final do século XX. A razão não é das mais felizes, mas a vida é assim e às vezes daquilo que nos dói nascem as histórias que gostamos de ouvir.

Assim, desde os meus 15 anos que todos os dias oiço as histórias da vida dele — e acabo por ter recordações de todas essas décadas que não vivi.

Pois esta semana, talvez por algum arrepio de calor nesta Lisboa de Junho, enquanto seguia, obediente, numa lenta linha de carros, veio-me à ideia viajar no tempo, com o DeLorean que são as histórias dos meus avós.

Lembro-me de muitas das coisas que o meu avô Manuel me contou: soldados ingleses a pedir leite num café de Peniche, a PIDE atrás de emigrantes ilegais, hinos soviéticos na banda da terra, histórias de bêbados e telefones, a minha avó no primeiro concurso de televisão — enfim, fica aqui decidido: vou tentar contar o melhor que souber essas histórias que os meus avós me foram contando ao longo dos anos. Foram contando e ainda hão-de contar, que agora vou perguntar-lhes se não têm mais histórias. Porque a meada de que comecei agora a puxar o fio parece não ter fim. E ainda bem.

Não sei quanto tempo isto vai demorar. Mas o truque é começar.


Já agora, esta é a loja onde o meu avô trabalhou entre os anos 40 e os anos 80 do século XX:

atouguia

Mas as histórias que vos hei-de contar não são só desta loja na Atouguia. Também a mercearia da minha Avó Leonor, em Peniche, tem umas histórias engraçadas.

As lojas das pequenas terras têm muito que se lhes diga…

Um avião no pinhal e o homem que não sabia inglês

Não começo pelo início do século XX — pois os meus avós nem sequer tinham nascido nessa altura — mas antes ali no meio, nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial. Havemos de voltar atrás, até às primeiras décadas, mas para já caímos de pára-quedas nos anos da guerra.

A verdade é que uma das histórias mais deliciosas que o meu avô me contou é esta (espero não estar a acrescentar muitos pontos a este conto).

Durante a Segunda Guerra Mundial, de vez em quando lá caíam aviões dos combatentes na costa portuguesa.

Ora, lembra-se o meu avô disto: numa madrugada fria do início dos anos 40, um avião inglês cai numa praia perto de Peniche.

Os tripulantes ingleses foram resgatados pela população da freguesia, que os levou, assustados (e provavelmente molhados) ao café mais próximo, para que pudessem comer.

O café ainda hoje existe (é o Avis, em Peniche).

Parece-me muito português, isto: o que se faz a soldados ingleses que aparecem numa praia? Pega-se neles e toca de ir para o café.

Enfim, foram para o café e fizeram muito bem. A gente que estava no café, admirada com aquelas aparições, perguntou-lhes se havia alguma coisa que quisessem.

Imagino a cara dos ingleses com um círculo de portugueses dos anos 40 a perguntarem-lhes:

— Mas o que é que os senhores querem?

— Que tal um cafezinho?

— Vai um bagacinho?

— Isso os homens querem é um bife!

Foram-lhes oferecendo coisas, mas eles, por uma razão ou outra, iam recusando. Não queriam nada. Nem vinho, nem bife, nem água.

Diz o meu avô que, por esta altura chega ali perto um analfabeto, trabalhador da Quinta da Granja, que todos os dias ia entregar vinho ao café de carroça.

O nome dele? O meu avô não se lembra. Mas lembra-se que o analfabeto percebe que se passa alguma coisa, olha para os ingleses assustados e a suplicar alguma coisa que ninguém percebia — e declara, confiante:

— Os homens querem é leite com café!

Todos se calam, o dono do café, já por tudo, arranja o leite com café e os ingleses olham-no com olhos de agradecimento profundo.

Bebem o leite bem quente como se fosse a bebida mais saborosa que alguma vez tivessem provado.

Como perceberam que o seu salvador fora o tal trabalhador analfabeto, rodearam-no felizes da vida, atirando-lhe com perguntas em inglês em catadupa. Finalmente ali estava quem sabia a sua língua!

Como diz o meu avô, o homem mal sabia português, quanto mais inglês. Logo que viu uma abertura por entre os soldados, saltou para a carroça do vinho e pisgou-se dali para fora, antes que ficasse nomeado intérprete oficial da terra.

Chovem aviões nas praias portuguesas

aterrem em portugalAh, o gosto que é pegar neste fio e ir puxando. Por causa disto, fui investigar e descobri que as quedas de aviões eram tantas que até há um site para as contabilizar a todas. Há um site e um livro: Aterrem em Portugal!, de Carlos Guerreiro. (Já está na lista para comprar.)

Procurei nesse site por quedas de aviões na zona de Peniche. Apareceram-me três. Será que alguma delas é aquela de que o meu avô se lembra?

Halifax-mk3

Handley Page Halifax

Há pouco, perguntei ao meu avô que avião era.

Disse-me ele que se lembra dum avião caído num pinhal e dum planador amarado ao largo da praia, mas não sabe se caíram no mesmo dia ou em qual deles vinham os tais ingleses do leite com café.

Ora, um dos incidentes registados é a queda do Handley Page Halifax EB178 da Royal Air Force, na zona de Peniche. A descrição do incidente, no site que referi acima, diz o seguinte:

Rebocava um planador para o Norte de África quando um dos motores se incendiou. Dirigiu-se para Portugal e largou o planador que aterrou numa praia próxima. O avião despenhou-se num pinhal e incendiou-se. Os tripulantes escaparam mas alguns sofreram ferimentos. Reed, Treleaven e Saunders foram assistidos por médicos e enviados para Hospital Inglês em Lisboa. Nenhum tinha ferimentos graves. Participavam na missão “Beggar/Turkey Buzzard”, com objectivo de transportar planadores para bases africanas. Estes aparelhos iriam participar na Invasão da Sicília.

Serão estes os ingleses do meu avô? Será que eles se lembram do que aconteceu?

Pergunto-me ainda isto: o que terão pensado eles? Será que contaram à família da queda em Portugal? O que terão dito aos filhos? Talvez sejam as histórias duma família inglesa, que se entretém a ouvir o avô a contar a história do dia em que caiu numa praia do sul da Europa e foi levado para um café, onde bebeu um belo leitinho quente?


Andei à procura de imagens de aviões caídos na Internet para ilustrar este post. Pelos vistos, todos vinham cá parar, não só os ingleses ou americanos:

AVIÃOhttp://diasquevoam.blogspot.pt/2006/01/praias-e-guerra.html

Quem ganharia a guerra?

Uns ganham, outros perdem. Todos suspiramos de alívio por ter ganho quem ganhou (até os alemães dão esse suspiro — imagino).

Nós olhamos para trás e vemos claramente o que se passou: a Guerra, com o princípio, meio e fim, os vencedores, o mundo que veio depois.

Mas como seria viver naquele momento exacto? As notícias confundiam-se, haveria simpatizantes dos alemães e outros dos ingleses — e o dia-a-dia, no fundo, estava longe dessa história de aviões e guerreiros, que existiam nas páginas dos jornais ou passavam lá em cima — isto quando não caíam na praia.

A guerra, essa, podia não ter fim… Ninguém sabia o que viria a ser o futuro. Sei que é óbvio — ou mesmo muito banal —, mas quando olhamos para o passado esquecemo-nos de que, para quem lá vivia, aquele era o presente, com todas as cores, todas as dores e todas as rotinas do dia-a-dia: e o futuro ainda não tinha acontecido. (Às vezes, acho que até nos é difícil a nós, habitantes doutros tempos, perceber que os dias não eram a preto e branco…)

Será que as pessoas liam o jornal? Do que se falaria no café ou na loja? Isto sou eu a apontar para perguntar ao meu avô…

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A vida do dia-a-dia a cores e com som bem nítido — e a história ao fundo, imprecisa. Para nós, que estudámos a época na escola, é ao contrário: a história aparece-nos em letras garrafais e a vida do dia-a-dia desaparece, esbatida, escondida nas memórias de cada pessoa.

O mesmo acontecerá com o nosso presente: o que se passa com a vida de cada um em cada dia aparece-nos nítido e tremendo — em contraste, a História que aparecerá nos livros de amanhã ainda é difícil de adivinhar no rodopio de notícias. Daqui a umas boas dezenas de anos, as nossas vidas já terão passado e andará por aí uma narrativa mais clara sobre a História deste início do século XXI — narrativa que nós não conhecemos (ou mal intuímos).

Só por curiosidade, fui procurar um ou outro jornal da época para me ambientar. Fui à Hemeroteca virtual da Câmara Municipal de Lisboa e encontrei um número de Janeiro de 1943 da revista Mundo Gráfico (quem chamaria isto a uma revista hoje em dia?).

A capa não mostra, mas havia muito da guerra lá por dentro:

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Será que se lia esta revista na Atouguia da Baleia?

Perguntei ao meu avô e, por lá, só o Diário de Notícias.

Pois hoje não tenho tempo de ir à procura destas notícias no velhinho DN. Fica para depois, para passeios na Hemeroteca menos virtual, passeios esses que já não faço há uns anos e que sabem sempre bem.

Hoje fico-me por aqui, com esta história de ingleses caídos entre a praia e o pinhal da Atouguia da Baleia. Mas não se preocupem, que há mais: só por ter perguntado sobre alguns pormenores desta história ao meu avô, já ouvi muito mais histórias, entre galegos que vinham fugidos da guerra e não podiam falar em público, o dia em que a minha avó participou no primeiro concurso da televisão portuguesa, como era ver as pessoas a habituarem-se a falar ao telefone (havia horas marcadas para atender chamadas) — e muito, muito mais.

Serão estas as viagens pelo século dos meus avós.

Os Portugueses são uma praga (segundo Mark Twain)

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Livros na Bagagem. Capítulo 8.
Como viajar pelos olhos dos amigos.

Ora, não sei se já vos disse, mas éramos quatro lá em casa. É normal, portanto, que os meus pais, entretidos com aulas (a minha mãe) e vendas (o meu pai) precisassem de ajuda — quando era só eu, nos inícios muito longínquos dos anos 80, ainda o meu pai me podia levar na carrinha das entregas, mas quatro miúdos já não dá…

A certa altura, portanto, os meus pais arranjaram ajuda — e a senhora que ia lá a casa todos os dias tomar conta de nós chama-se Teresa e tornou-se minha amiga. Diga-se que o termo «senhora» não fazia jus à sua juventude — e ainda por cima ela adorava livros e muito conversávamos nós sobre isso e muito mais.

Pois bem, lá por volta de 1997, já eu andava no secundário prestes a ir para Lisboa, a Teresa fez uma viagem a Nova Iorque para visitar a irmã. Por esses dias, eu só podia sonhar em ir a essa cidade mítica. Podia sonhar e visitá-la através dos olhos da Teresa, que me contou o que pode e trouxe de lá uma prenda em forma de livro. Trouxe-me ainda folhetos a monte, que era coisa de que eu gostava, não sei porquê.

O livro que ela me deu foi The Innocents Abroad, um livro de viagens de Mark Twan:

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E o folheto que usei como marcador foi este:

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(Entretanto, não sei se repararam que este World Trade Center já não existe…)

Pois bem, comecei a ler o livro, apesar de o meu inglês da altura ainda não ser o suficiente para o ler sem falhas. Mas isso nunca me impediu e ainda hoje acho que não ter medo de ler mesmo sem perceber algumas palavras é a melhor forma de aprender a ler — em qualquer língua.

O livro é o relato duma viagem de Mark Twain à Europa e ao Médio Oriente — ao Velho Mundo, portanto. Não vou estar para aqui a falar do livro muito tempo, mas gostava de vos partilhar um extracto, quase no início, sobre o momento em que Mark Twain conhece esse povo exótico: os Portugueses.

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Sim, somos «lentos, pobres, indolentes, sonolentos e preguiçosos». Mais nada?

A coisa não fica por aqui…

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Não é todos os dias que nos vemos tratados como «vermin». No fundo, somos uma praga à face da terra. Que simpático.

Isto é muito politicamente incorrecto e todos nós até gostamos de ser politicamente incorrectos, mas temos de admitir que é um pouco mais aborrecido quando somos nós o alvo da tal incorrecção…

Ora, o melhor nestes casos é encolher os ombros e ler o livro na mesma, que o Mark Twain não escreve mesmo nada mal. Não se chateiem muito com ele. Afinal, é um génio, não tinha papas na língua — e nunca disse que acertava em todas.

E, depois, não disse pior do que muitos portugueses dizem dos Portugueses, não é?

Adenda. Aqui fica a ligação para um artigo académico sobre este mesmo assunto (quem o encontrou foi Jorge Beleza): “Mark Twain and the “Slow, Poor, Shiftless, Sleepy, and Lazy” Azoreans in The Innocents Abroad” Estou a começar a ler…

O dia em que descobri Londres na Andaluzia

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LIVROS NA BAGAGEM. Capítulo 4.

Ora, e não é que vou ter de adiar, mais uma vez, a história da voz do metro de Londres? Estas viagens sem plano são assim. Aliás, plano até tenho: não tenho é paciência para o seguir à risca.

Ora, apeteceu-me assim contar-vos hoje como fiquei a conhecer Londres ao passear na Andaluzia. São os milagres dos livros.

Ora, deixem-me então contar-vos a história de Londres ali perdida em Huelva.

Os meus pais sempre gostaram muito de passear de carro — e fiquei-lhes com esse bichinho. A primeira viagem de que me lembro foi ao longínquo Algarve, quando tinha uns três anos. Para lá chegar, tínhamos de passar por estradas infindáveis. Demorávamos, desde Peniche, umas boas cinco horas. Com alguma sorte…

Ficámos num apartamento emprestado, de que recordo algumas imagens muito vagas (e um pinhal à frente) e uma viagem de barco a Ayamonte, onde comprei uma grua de brincar… Banalíssimo, mas para mim tem qualquer coisa de história antiga, pois são das minhas primeiras memórias — afinal, era mais novo do que o meu filho é agora…

As únicas memórias que tenho mais antigas que essa viagem são de estar na cadeira de bebé a olhar para uma máquina de lavar roupa na cozinha da primeira casa dos meus pais; de estar na Estefânia com uns três anos a entrar para o bloco operatório — nada de minimamente grave, já agora, mas para um miúdo de três anos estar rodeado de médicos é coisa para nunca mais se esquecer — e ainda uma viagem a uma casa gigantesca em Birre — sei que é em Birre por investigações que fiz muito depois; talvez vos conte um dia destes.

Pois bem. Não me lembro assim tão bem, mas sei que, antes e depois dessa viagem ao Algarve, percorremos Portugal de cima a baixo. Julgo que fomos a todos os distritos — pelo menos, eu andava de mapa, sentado lá atrás, sempre a apontar as paragens. Era a Volta a Portugal em quatro rodas. Mas dessas voltas não me lembro tão bem como das voltas da adolescência, por já ter nessa altura um pouco mais de idade — e livros na mão. E, como já vimos, pouco haverá melhor para nos lembrarmos dos sítios onde vamos do que os livros que levamos connosco.

Portugal já estava despachado — digamos assim — e, assim, na minha adolescência, acabámos por passear muito por Espanha, todos os Verões, o que me levou a ter uma inclinação muito grande para gostar do(s) nosso(s) país(es) vizinho(s). Fica feito o aviso: pais portugueses, se não quereis ter filhos com estranhos gostos de travo hispânico, quando chegarem a Vilar Formoso, toca de não parar até chegar a França. Ou então usem o avião.

Mas isso agora não interessa, porque hei-de vos falar dessas voltas espanholas mais tarde. Agora o que interessa é que, nos Anos 90 as vidas portuguesas andavam a melhorar (sim, estamos a falar dum passado distante). E, assim, não era descabido dar voltas de carro por Espanha e passar uns dias no Algarve noutra altura do ano. Ou até misturar as duas coisas.

Pois então, lá para os meus 14 ou 15 anos, estávamos nós no Algarve e os meus pais decidem ir dar uma volta a Espanha. As fronteiras estavam abertas, já havia ponte sobre o Guadiana, e fomos até Huelva. Por lá passeámos, até que tivemos de ir comprar alguma coisa para comer e fomos a um supermercado.

Ora, lá pelas terras do Sul os supermercados costumam ter alguns livros ingleses à venda. Eu já gostava muito de ler e andava com vontade de ler em inglês. Porquê? Porque não só lia, como ainda tinha o sabor exótico duma outra língua a passar-me nos lábios.

Se tinha inglês suficiente para ler como deve ser era coisa que não me interessava. Acabei por comprar este calhamaço:

BLEAK HOUSE

… e foi um prazer olhar para as palavras inglesas, ainda com sabor exótico para a minha mente adolescente, e ir entrando pelo texto dentro, calmamente, com o dedo indicador, como se estivesse a aprender a ler outra vez.

Várias vezes li aquele primeiro parágrafo, e fui investigar o que era o Michaelmas Term, o que era o Lincoln’s Inn Hall, e por aí fora. Aprendi muito inglês só com estas primeiras linhas.

Leiam, leiam, porque só estes dois parágrafos são deliciosos. Nunca mais me esqueci do Megalosaurus nem do «Fog everywhere»…

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Aqui têm, em todo o esplendor, a Londres de Dickens, com nevoeiro a perpassar pelas palavras e pelas ruas…  Um nevoeiro que imaginei enquanto voltava de carro para o apartamento de férias, no esplendor do sol andaluz. beach-678535_640

Na minha geografia pessoal, a Londres de Dickens, cheia de lama e escuridão muito literária, tem qualquer coisa do sol do sul de Espanha.

Já agora: amanhã, se o trabalho me deixar, conto-vos como Oxford, para mim, tem qualquer coisa de espanhol. As cidades e os livros, todos à mistura, têm destes segredos muito pessoais.

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