Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

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Línguas, livros e outras viagens

Às vezes, é bom mudar. Depois de muitos meses com a descrição «Línguas e Tradução», hoje inauguro esta nova descrição do blogue: «Línguas, livros e outras viagens.»

Os temas continuam os mesmos: a nossa língua portuguesa, as línguas do mundo, o trabalho de passar entre umas e outras — e ainda livros e outras manias minhas.

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Cinco ideias para não ser enganado pelos números

Há pouco, li o título dum jornal a passar por mim, a grande velocidade, pelo Facebook: «Turistas apresentam quatro queixas por mês contra taxistas». Quando dei por mim, já tinha perdido a notícia e não consigo saber em que jornal apareceu. (Sim, eu sei que há o Google, mas hoje não me apetece.)

O título chamou-me a atenção. Porquê? Porque fico sem saber se aquilo são muitas queixas, poucas queixas, queixas assim-assim.

Estou certo que o jornalista dá mais informações no corpo da notícia desaparecida. Mas essa minha confusão inicial lembrou-me deste facto interessante: os números podem enganar e muito. Não julguem, no entanto, que podemos ignorá-los: na verdade, se os números enganam muito, as palavras enganam ainda mais — e essas palavrinhas especiais que são os números dão muito jeito para pensarmos melhor.

Portanto, perante o título «Turistas apresentam quatro queixas por mês contra taxistas», a nossa tentação é usar este número para as nossas narrativas particulares.

  • Ah, esses taxistas, malandros, vejam lá que se portam tão mal que recebem quatro queixas por mês (tantas!).
  • Ah, esses turistas, malandros, que andam sempre a importunar os nossos taxistas.
  • Ah, quatro queixas? Só? Tão poucas! Os turistas não têm é coragem de se impor perante os abusos dos taxistas.
  • Ah, quatro? Só? Os nossos taxistas são uma maravilha!

E por aí fora…

Ou seja: aquele número, assim muito frio, pode servir para mil e uma histórias diferentes ou mesmo opostas. O mesmo número serve para elogiar ou para insultar os taxistas.

Como resolver isto? Aqui ficam cinco ideias, tomando como exemplo este caso:

1. Fazer comparações

Por exemplo, qual será o número de queixas noutras cidades? E, já agora, qual será o número de queixas por 100 000 habitantes em cada cidade (para compararmos as coisas de forma mais correcta).

Ou, melhor ainda: qual será o número de queixas por 1000 viagens de táxi em cada cidade?

Talvez assim comecemos a perceber se quatro queixas por mês é muito ou pouco. E há ainda outras formas de escavar para lá dos primeiros números.

2. Olhar para a evolução ao longo do tempo

O número de queixas está a aumentar ou a diminuir? Estabilizou? Deu um salto neste mês? Aumentou durante uns anos e agora tem diminuído?

Há que ter cuidado, no entanto: com números baixos, o acaso tem um papel muito importante no número de queixas por mês. O melhor será olhar para tendências de longo prazo…

3. Tentar saber qual era a expectativa inicial

Será que os taxistas têm objectivos de qualidade no que toca ao número de queixas? Esses objectivos foram ou não cumpridos?

(Como vemos, o truque está em fazer perguntas aos números. Claro que nem sempre temos maneira de chegar às respostas — ou tempo, para dizer a verdade. Mas, pelo menos, se fizermos as perguntas, começamos a perceber aquilo que os números não dizem.)

4. Abrir o número e olhar para o que está lá dentro

Será que as queixas estão concentradas em poucos taxistas? Ou nem por isso? As queixas são apresentadas a qualquer hora, ou concentram-se em determinadas alturas do dia? E será que os mesmos taxistas recebem queixas todos os meses, ou, em geral, um taxista que recebe uma queixa num mês não recebe mais durante o ano?

5. Não cair na tentação de procurar números interessantes

Há que evitar o risco de encontrarmos nos números uma qualquer história mais interessante do que verdadeira. Os números nem sempre são interessantes — e ainda bem.

Imaginemos que um comportamento frequente de muita gente aumenta o risco disto ou daquilo. Vou inventar um cenário fictício. Por exemplo: um grupo de cientistas descobre que ler aumenta em 100% (!) a probabilidade de sofrer uma estranha doença nos olhos — chamemos-lhe leiturite. Ou seja, quem lê tem o dobro da probabilidade de ter a tal doença. Assusta, não é? Certamente, se esta história fosse verdadeira, teríamos os jornais a declarar que a leitura, afinal, é perigosa.

Isto, claro, até um leitor muito pouco dado a aceitar assim insultos à sua actividade preferida se dar ao trabalho de olhar para os números com mais atenção.

Percebemos então que o risco na população em geral será de 1 doente em cada 10 000 000 de pessoas. Entre os portugueses, o mais provável será termos 1 sofredor da tal leiturite.

Ora, se a probabilidade aumenta para o dobro, quer isso dizer que seria necessário que todos os portugueses passassem a ler para passarmos a ter 2 sofredores de tal mal.

De repente, um aumento da probabilidade em 100% já não parece razão para grandes sustos, não é?

Diga-se, já agora, que a doença é mesmo inventada. Riscos a sério corre aquele que não lê, como sabemos.

Voltemos aos nossos amigos taxistas. Esta vontade de pôr os números a gritar manchetes pode levar-nos a dizer: aumento de 100% das queixas contra taxistas! Porquê? Porque em Julho houve quatro queixas, quando em Junho tinha havido duas. A única diferença foi ter havido um taxista que teve o azar de dar com um casal que gosta muito de reclamar — e, pronto, lá temos manchete. Com a verdade me enganas, não é assim? (Aviso aos desprevenidos: os números neste parágrafo são fictícios. Não quero cá insultos a classes profissionais por dá cá aquela palha.)

A síndrome da velha que bebia gin

Para terminar, deixem-me lá falar desta síndrome antiga. Alguém diz que o álcool faz mal e logo aparece alguém a dizer: ora, ora, conheço uma senhora que bebia todos os dias e viveu até aos 100 anos!

Ó meus amigos: também conheço fumadores que viveram até aos 100 anos. Quer isto dizer que fumar não faz mal? Claro que não…

A verdade é que olhamos para os números como nos dão jeito. Queremos fumar? Então reparamos na velha que fumava até aos 100 e ignoramos todos os que morreram aos 50. Queremos justificar a nossa falta de leitura? Olhamos para o risco mínimo (quase inexistente) duma doença que nem sequer é assim tão grave.

Gostamos de apontar uma pistola à cabeça dos números até eles confessarem aquilo que nós queremos que confessem. Ora, se resistirmos à tentação e baixarmos a pistola, os números dizem-nos, em voz baixinha e sem ameaças, algumas coisas interessantes. Só temos de ter calma e ouvi-los com atenção.

(Publicado no Sapo 24 no dia 20 de Agosto.)

O dia em que ia atropelando um polícia espanhol (e outras aventuras na fronteira portuguesa)

Hoje apetece-me falar da fronteira — ou pelo menos da atracção fatal que tal risco no mapa exerce em certas pessoas. Para começar, conto o dia em que quase atropelei um polícia espanhol e, para terminar, deixo-vos o relato da noite em que raptei três amigos para os levar até Espanha — duas vezes!

1. O dia em que quase atropelei um guarda civil

Foi por pouco que não apareci nas notícias como o português que atropelou um guarda civil. Tinha a carta há muito pouco tempo — e fui com a minha família até Barcelona, atravessando a costa toda do Mediterrâneo. Fomos numa autocaravana. Sem ar condicionado. Em Agosto. Mas, enfim, a história dessa viagem, que teve as suas peripécias, ficará para outro dia.

Hoje conto apenas isto: ia o meu pai a conduzir o trambolho pela Via do Infante, quase a entrar em Espanha, quando me lembrei que nunca tinha atravessado a fronteira a conduzir! Parece coisa pouca, mas para quem tirou a carta há pouco tempo, este tipo de marcos da vida automobilística tem alguma importância. (Ou então sou só eu que sou mesmo muito estranho. É possível.)

Pois bem, o meu pai deixa-me pegar na traquitana, apesar de haver um senão: o contrato de aluguer da dita tinha uma cláusula que implicava a proibição de o condutor ter menos de 1 ano de carta — o que era o meu caso.

O meu pai lembrou-se disso, a minha mãe também, mas eu insisti. Eles deixaram: não havia de ser por cinco minutos que a coisa iria correr mal e eu queria mesmo muito atravessar a fronteira a conduzir.

E assim me meti atrás dum volante enorme, acelerei a fundo e lá fui com a minha família aos saltos pela Via do Infante, para atravessar a fronteira pela primeira vez de pedais nos pés.

Era de noite. Vi aparecer ao fundo a ponte sobre o Guadiana. Espanha à vista e eu a conduzir!

Atravessámos a fronteira e eu feliz…

Pois não é que logo após a fronteira encontrei uma catrefa de guardas civis no meio da estrada? Um deles acenava com a sua luz, fazendo um gesto ambíguo, que eu não sabia se queria dizer «por favor, pare e mostre lá a carta e o contrato dessa coisa para eu poder multá-lo ou mesmo prendê-lo» ou «siga para a direita, que há obras na estrada».

Sem saber o que fazer, bloqueei. Sim, bloqueei ao volante. Ou seja, continuei a conduzir a autocaravana em direcção ao pobre guarda civil, que arregalou os olhos, continuou a acenar com a luz cada vez mais depressa e desatou a rezar às virgens todas e a maldizer os portugueses todos.

A minha mãe gritou, o meu pai saiu lá de trás para ver o que se passava, os meus irmãos riam-se sem parar e eu consegui dar uma guinada a tempo. Acabei por passar a 30 centímetros do guarda civil e continuei pela estrada fora.

Quando já não via luzes de polícia no retrovisor, travei e implorei ao meu pai para nunca mais me deixar conduzir aquele monstro.

Sentado lá atrás, enquanto avançávamos pela Andaluzia, ainda temi ver atrás de nós as luzes da guarda civil à procura da perigosa carrinha portuguesa. Mas, não. O senhor guarda deu-se por feliz por não acabar os dias debaixo dos pneus duma autocaravana e hoje ainda lá deve andar, pelas estradas do seu reino, quem sabe à procura de urnas e boletins de voto.

2. A minha primeira vez foi em Ayamonte

Por acaso, foi ali perto que, pela primeira vez, passei a fronteira. Imagino que não seja uma experiência de tal forma inolvidável que uma pessoa a guarde na gaveta das outras primeiras vezes: o primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro…

Mas, enfim, a verdade é que me lembro. Foi muitos anos antes do episódio do guarda civil. Tinha três anos — e passei a fronteira de barco.

Vou contar tudo do início.

Era a primeira vez que passávamos férias no Algarve. Fui com os meus pais e os meus avós maternos — o Avô Manuel e a Avô Gisela — para a Aldeia das Açoteias, que pertencia aos proprietários da loja onde o meu avô trabalhava, na Atouguia da Baleia.

Estas férias, na altura, devem ter sido marcantes: afinal, não era assim tão normal ir de férias para o Algarve — pelo menos, não seria para a minha família. Só assim se explica que esta seja uma das três recordações que tenho da minha vida como filho único (estávamos em 1983 e o meu irmão Diogo nasceria no ano seguinte).

O que tenho na memória é pouca coisa: lembro-me da sala, com um vidro grande virado para um pequeno pinhal à frente da vivenda; lembro-me do corredor para os quartos — e também me lembro de ver um vídeo gravado pela Betamax do meu pai, em que percorríamos a casa até ao quarto e, ao virarmos a câmara, o sol fazia um efeito de luz na lente, como uma tinta branca a sujar o quarto. Sim, essa memória será não do quarto, mas das vezes que vimos o pequeno filme, já de regresso a casa. Mas as memórias são assim, muito a dar para a mistura, não é?

Também me lembro dum pesadelo que tinha muitas vezes por esses dias: estava num lago, em cima dum crocodilo com cornos, que me levava para muito longe, enquanto a minha mãe desesperava na margem… Se alguém souber interpretar tal sonho, faça o favor de me ajudar!

Bem, já me estou a perder. Voltemos ao tema: a primeira vez que passei a fronteira foi nessas férias, quando fomos passear a Vila Real de Santo António. Não havia ponte, mas antes um pequeno ferry. Não me recordo do barco, nem me lembro da primeira vez que pus o pé em Espanha, mas tenho na cabeça a imagem duma feira espanhola com muitos brinquedos e muita música — e vejo-me na casa de férias a brincar com uma grua. Sim, fui a Espanha comprar uma grua de brincar — uma daquelas cor-de-laranja, bem altas. E assim me fingi construtor nessa sala algarvia de há muitos anos, depois de ter passado a fronteira pela primeira vez.

Dessa passagem por Espanha, há algo que me intriga: será que tivemos de mostrar os bilhetes de identidade? Haveria alfândega no cais de desembarque? Não me lembro. Mas lembro-me que tivemos problemas com os nossos documentos na segunda vez que passei a fronteira.

3. Sem documentos na Portela do Homem

Pois bem, foi no Gerês. Eu teria por volta de 10 anos, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Não sei, o meu calendário do telefone ainda não funcionava na altura (mas hei-de procurar uma fotografia que os meus pais têm lá por casa e que deve ter uma data por trás).

A minha alma de infante quase a dar para o adolescente estava pasmada com o Gerês — se há coisa de que me lembro nessa minha vida de viandante motorizado é a beleza prodigiosa daquelas serranias.

Reparem: eu era um puto que só tinha saído do país para ir comprar uma grua a Ayamonte. Não tinha ainda visto assim tanto mundo que me permitisse encarar o Gerês com um ar um pouco mais blasé. Não: eu era ingénuo. Pouco vivido. Para mim, aquilo era o supra-sumo da beleza natural.

Hoje sou mais vivido, um pouco (muito pouco) menos ingénuo — e continuo a arrepiar-me quando penso nas folhas outonais do Gerês, na cascata onde mergulhámos, nessas férias infantis que são o meu paraíso perdido. Tudo é luminoso e tremendo nessas memórias fugidias.

Pois bem, o Gerês, como sabem, fica ali à volta duma pequena borbulha de Galiza. Arranjei um daqueles mapas turísticos onde o Parque Natural aparecia como território apetitoso em tons verdes num papel de textura vegetal — e, lá no meio da mão esquerda a fechar-se que é o Gerês, estava um espaço em branco, sem nada, onde aparecia, sumida, a palavra «ESPANHA». Pois eu queria ir a Espanha, queria passar a fronteira. Queria ir à Portela do Homem!

Éramos cinco: os meus pais, o Diogo, que teria uns 6 anos, e o Tiago, com 3 anos. Faltava ainda a minha irmã, que chegaria à família uns anos depois.

À época, as crianças não tinham cartões do cidadão — nem bilhetes de identidade. Havia uma coisa chamada cédula pessoal e era isso que o Tiago tinha — ou melhor, não tinha, pois os meus pais tinham-se esquecido dela em casa.

Vivíamos nesses tempos antigos antes de Schengen. As fronteiras eram coisa séria: ir a Espanha implicava mostrar documentos a polícias.

Ora, não fazia mal. Podíamos sempre tentar. Fomos então até à Portela do Homem. Chegámos lá e fomos falar com os senhores guardas. Como nos explicaram de forma muito simpática, sem a cédula do meu irmão, não podíamos passar. Os meus pais perguntaram se podíamos só pôr os pés em Espanha. Os guardas encolheram os ombros e disseram que, se é para pôr os pés e voltar, não havia problema.

E foi assim que fiquei com uma foto tirada por um guarda em que estamos todos por trás da placa que diz «ESPAÑA» — uma placa branca, anterior às estrelinhas europeias.

Lá muito atrás, sem que eu (ou ninguém) ligasse alguma coisa ao assunto, aparecia outra placa que dizia «GALICIA». Está ali, na foto, como um fantasma de conversas futuras, de obsessões que ainda não tinha, de outras viagens, bem mais profundas que uns passos atrás duma placa.

4. Mérida: a beleza para lá da fronteira

Eu nem queria ir — mas o professor Tavares, que já tinha sido professor do meu pai e desesperava da minha timidez, tão diferente da desenvoltura típica da família, obrigou-me a inscrever-me. «Vais a Mérida, sim!»

E lá fomos, no autocarro, nessa excitação de putos em viagem sem os pais. Até à fronteira, não me lembro de nada — depois da fronteira, lembro-me apenas de duas coisas: uma vaga imagem dum museu com peças romanas; e da beleza.

Qual beleza? Da cidade, ou das ruínas — e da mais bela rapariga da minha turma, que, ao final da tarde, enquanto os pobres mortais que éramos nós ouvíamos a modorra a sair da boca do guia no anfiteatro romano, se sentou armada em deusa no cimo duma coluna e se pôs a olhar para tudo, mão no queixo, cabelo ao sol alaranjado do final da tarde — e foi assim que, certamente sem querer, ficou para sempre gravada na minha memória como exemplo da beleza humana, bem real e muito viva, misturada com a História e as pedras e as ruínas do tempo. Fiquei de boca aberta e só avancei quando o colega de trás me empurrou, impaciente, sem reparar que a beleza tinha descido à terra.

Mas não é para falar do espanto adolescente perante a beleza duma rapariga que trouxe à liça essa viagem. É para falar do momento preciso em que passámos a fronteira. Alguns dos meus colegas nunca tinham saído de Portugal — eu já, mas confesso que estava tão excitado como eles.

Pois lembro-me duma colega que, logo que passou a fronteira, começou aos gritos de excitação e gritou algo como «olha uma árvore espanhola!»

Foi o fim da picada. O autocarro desatou a rir-se e o mais sarcástico dos rapazes da turma começou a imitá-la durante longos minutos:

«Olha um cão espanhol!»

«Olha uma estrada espanhola!»

«Olha um café espanhol!»

«Olha um passarinho espanhol!»

«Olha uma pessoa espanhola!» — e abanava os ombros da minha colega, que já não estava a gostar da brincadeira, animando-a aos gritos para que se sentisse excitada pela visão repentina desse ser mítico: o Ser Humano Espanhol!

A brincadeira começou a rolar como bola por uma montanha cheia de neve e, pouco depois, o autocarro estava todo de dedo em riste a apontar para o mundo espanhol. No dia seguinte, já no hotel de Mérida, pelos corredores, ainda se ouviam vozes a gritar:

«Olha uma cadeira espanhola!»

«Olha um tapete espanhol!»

«Olha uma sanita espanhola!» — e outras descobertas menos edificantes e que me abstenho de enumerar.

Pois, na verdade, a minha colega não tinha culpa. Passar uma fronteira faz isto a uma pessoa. Há a promessa de coisas novas e de algum perigo — cheira irremediavelmente a viagem e a aventura.

Agora já não há paragens obrigatórias, bichas de carros, polícias carrancudos. O que há é uma placa simples — e logo a seguir, outra língua, uma estrada ligeiramente diferente, gentes com hábitos que não são os nossos. Reparamos quase instintivamente nessas diferenças, que tendemos a empolar. A fronteira dá uma instrução aos nossos olhos: a partir daqui, estás noutro país. A partir daqui, deves reparar no que é diferente. A partir daqui, isto não é teu. Estás fora do que é habitual. Estás a viajar e os dias não são normais.

5. Ir a Espanha duas vezes na mesma noite

Ora, esta tal atracção da fronteira levou-me a uma das «loucuras» dos anos de faculdade. (Deixo a palavra entre aspas porque, enfim, todos sabemos que há loucuras bem mais loucas do que esta.)

Uma noite, o Nuno, o Rodrigo, a Rita e eu decidimos ir tomar café à Outra Banda.

O problema de tomar café em Almada é que uma pessoa chega lá e o que apetece mesmo é continuar pela estrada fora, a conversar — até porque já era tarde e os cafés de Almada já tinham fechado.

Ficou decidido: iríamos experimentar as delícias dos bares de Évora. Cá por dentro, eu tinha outros planos, mas não disse nada.

Chegados a Évora, já depois da meia-noite, não encontrámos nada aberto.

Foi então que dei a sugestão: já sabemos que os espanhóis têm horários esquisitos, por isso não seria mal pensado tomar café em Badajoz! Eles ainda reclamaram um pouco, mas fiz-lhes ver que quem ia a conduzir era eu.

E assim fomos, numa dessas noites que não são fáceis de explicar, cinco amigos dentro dum carro, pela noite fora, numa auto-estrada escura, em direcção a um café para lá da fronteira.

Quando passámos a tal linha, ninguém gritou «olha uma árvore espanhola!». Éramos estudantes universitários, com toda a sabedoria do mundo e arredores, e para mais eram cinco da manhã e o cansaço não era pouco.

Fomos andando pelos semáforos inutilmente ligados das ruas vazias de Badajoz.

Encontrámos, por fim, um café de luzes acesas. O Rodrigo e o Nuno ficaram no carro, enquanto a Rita e eu fomos comprar uma garrafa de água, que por aqueles momentos já era só o que nos apetecia.

E entrámos assim num café espanhol às cinco da manhã e vimos o que nunca pensámos ver: a meio da noite, famílias inteiras tomavam refeições e conversavam, num café tão animado como Lisboa às cinco da tarde.

Não sei que horários as gentes de Badajoz seguem. Sei que, enfim, por lá já eram seis da manhã, o que explica, em parte, o mistério. Mas não explica tudo: o que faziam tantas crianças acordadas àquela hora?

Não sei e também não quis saber. Estávamos cansados. Sentei-me ao volante e voltámos para Portugal, a beber sofregamente a água, depois duma noite à míngua.

Ou melhor… (Aqui, a história começa a ficar confusa.) Quando dei por mim, estava a sair da auto-estrada. Ainda andámos durante bastante tempo, as cabeças deles já a tombar de sono. Eu mordia a língua, sem vestígio de cansaço: havia de atravessar a fronteira mais uma vez naquela noite.

Quando apareceu a placa a dizer «ESPAÑA», os meus companheiros de viagem sobressaltaram-se:

— Então, mas não estamos a ir para Lisboa?

Expliquei-lhes que sim, mas não queria acabar a noite sem conhecer uma fronteira por onde nunca tinha passado: a de Campo Maior.

Eles abanaram a cabeça, mas riram-se (tive sorte).

Acabámos (os três rapazes) a devolver a Espanha a água que compráramos em Badajoz — isto, claro, com os pés bem assentes em Portugal.

E depois regressámos, por fim, já o sol subia e a névoa rodeava as oliveiras nas margens da auto-estrada. Lembro-me de atravessar a Ponte Vasco da Gama no meio do nevoeiro mais denso que alguma vez vi na minha vida e de dormir profundamente durante toda a manhã, já na minha cama, depois da noite em que fui duas vezes a Espanha.


Porque conto tudo isto? Não sei bem. Talvez para provar que a fronteira exerce uma atracção particular nalgumas pessoas, entre as quais me incluo, para mal dos meus pecados e dos pecados de alguns amigos meus. Ou então é só para me divertir a contar histórias. Seja por que razão for, hei-de continuar a trazer para aqui algumas aventuras que vivi para lá da raia — a começar por uma certa viagem que fiz até outra fronteira: aquela que separa o Reino de Espanha do Principado de Andorra.

Até já!

Viagem ao Aquário: peixes camuflados e bactérias assassinas

Como é que os peixes aprendem a camuflar-se?

Sei que já temos o Oceanário, mas por vezes é bom voltar ao velhinho Aquário Vasco da Gama. Aqueles corredores de madeira e toscos ecrãs a tresandar a anos 70 lembram-me a infância e as viagens de estudo. E lá estivemos, com o meu filho e os meus sobrinhos, a olhar para peixes de todos os tipos e feitios.

A certa altura, maravilhámo-nos com a maneira como alguns peixes se camuflavam.

Aqui está um peixe armado em rocha (procurem bem, está ali no centro da imagem, no meio das duas pedras, na sombra, virado para o canto inferior direito):

E, depois, abrimos a boca perante uma raia armada em fundo do mar (diga-se que as fotos foram tiradas sem flash, para não incomodar ninguém):

É um espanto, não é? E perante isto, podemos perguntar: mas como é que estes peixes conseguem? Como é que se armam em espertos e se disfarçam? Será de propósito? Pensaram nisso? Alguém andou a afiná-los?

O mecanismo da evolução

Ora, pensar na camuflagem ajuda-nos a perceber o mecanismo da evolução por selecção natural. Não há nada consciente no mecanismo, mas o resultado parece planeado. É um truque magnífico da Natureza, embora a Natureza, diga-se, não pense nisto como um truque. Aliás, a Natureza pensa pouco: age muito mais.

A evolução por selecção natural ocorre em dois passos: todos os seres são ligeiramente diferentes uns dos outros, mesmo dentro de cada espécie. Estas diferenças vêm, por exemplo, das pequenas mutações genéticas, inevitáveis e muito úteis, que ocorrem no momento da reprodução.

Ora, alguns seres acabam — devido a estas mutações — por ficar mais bem preparados para enfrentar o mundo em redor e, assim, reproduzem-se mais e espalham a tal mutação por cada vez mais descendentes.

É um processo natural e lógico. Se, por via duma mutação, uma raia começar a parecer-se mais com o fundo do mar onde vive, vai conseguir fugir um pouco melhor aos predadores — e, assim, sobrevive mais tempo, reproduz-se mais, passa esse gene melhorado aos descendentes, que também conseguem reproduzir-se melhor, num efeito multiplicador que é a grande razão por que a vida tende a invadir todos os recantos da terra.

Mais tarde, se nova mutação levar a que uma das descendentes da tal raia ainda se pareça mais com o fundo do mar — melhor! Por outro lado, se a mutação for em sentido contrário, será mais provável que a pobre raia com o seu gene alterado acabe no estômago do predador em vez de passar a mutação à próxima geração.

Isto tem mais a ver connosco do que muitos gostam de admitir: todo o nosso corpo foi criado assim, devagar, ao longo de milhões e milhões de anos. Aliás, muitas das nossas tendências psicológicas saíram deste processo de escultura genética. Sim, eu sei, temos a cultura, o acaso, as opções individuais — mas tudo isto acontece em cima desse material humano criado ao longo de milhões e milhões de anos de evolução.

Algumas pessoas ficam incomodadas com esta descoberta. Por algum motivo, gostavam que o ser humano tivesse sido criado de uma só vez. Noutros casos, o incómodo está nessa ideia de que existe uma natureza humana, de que temos tendências inscritas em nós — ora, isso é o que acontece com todos os animais, por que razão havíamos de ser diferentes nesse facto tão básico de todos os seres vivos do nosso planeta?

Aliás, estou em crer que aquilo que nos une na nossa humanidade comum é precisamente aquilo que também nos une aos outros seres deste planeta. Todos nascemos, temos necessidades e emoções — e depois nós, seres sociais e muito inteligentes, também temos ideias, amores, desejos formulados em língua de gente. E, sim, conseguimos juntar a isto a consciência de aqui estarmos, a necessidade de criar qualquer coisa para lá do dia-a-dia, a curiosidade de saber um pouco mais sobre o que nos rodeia, o que nos empurra para a arte, a filosofia, a ciência…

Muitos de nós também temos esta mania de tentar melhorar, o que nem sempre dá bons resultados, mas é um bom instinto. Há ainda quem fique impaciente: perante a nossa terrível imperfeição, desespera, como se tivéssemos caído do paraíso imaginado. E, no entanto, nunca fomos anjos, mas antes animais conscientes e que desejam, em certos momentos, ser mais do que isso. O problema é que somos também inteligentes, muito inteligentes — o que é óptimo, mas aliado ao nosso tribalismo ancestral, tem resultados terríveis.

Desse processo que deu origem à nossa querida espécie, há muito que não sabemos. Mas sabemos pelo menos isto: somos herdeiros dessa carga antiga, modelada durante tanto tempo por esse mecanismo que explica a camuflagem dos peixes.

O perigo das bactérias mutantes

Gosto de saber estas coisas porque sou curioso (não somos todos?). Mas também vale a pena saber isto por outras razões. Afinal, esconder a natureza humana pode dar mau resultado — e não perceber a evolução até faz mal à saúde.

As bactérias, por exemplo — o nosso uso dos antibióticos por tudo e por nada é muito perigoso. Porquê? Porque as bactérias mudam de geração como nós mudamos de cuecas. Aliás, a coisa até é mais rápida: se tomarmos em consideração um humano que mude de cuecas com menos frequência do que o razoável, antes que tal senhor experimente boxers novos, já as bactérias conheceram as suas trisnetas.

Ora, neste cenário, ao usarmos os antibióticos de forma descuidada, estamos a dar oportunidades aos bichos para, através das tais mutações que ocorrem sempre (e de forma aleatória), acertarem numa qualquer alteração genética que torne a bactéria imune àquele antibiótico. Ora, a partir dessa avozinha rija, temos filhas, netas, trisnetas, milhões de descendentes aos saltinhos… Todas imunes! Lá ficamos com uma estirpe que não morre com aquele medicamento em particular. Pum: quem morre somos nós quando a netinha da senhora bactéria entra no corpo de um ser humano.

Reparem que isto acontece por causa de mutações aleatórias: mas quantos mais antibióticos desnecessários tomarmos, mais probabilidade temos de levar com a tal neta maluca da senhora bactéria. E, de facto, infelizmente, as bactérias super-resistentes têm aparecido por esse mundo fora. A sorte que tivemos com a invenção dos antibióticos (os milhões de vidas que foram salvas!) pode estar a ser desperdiçada, agora, por não nos sabermos controlar.

O que fazer? Bem: não tomar antibióticos a não ser quando for necessário. Os médicos sabem disto. Nós também. Mas, mesmo assim, é tão comum tomá-los por dá cá aquela palha. Enfim, a culpa é da natureza humana, que saiu do forno implacável da evolução por selecção natural, que não sabia o que eram antibióticos nem quais as características certas para viver em sociedades complexas no início do século XXI. Mas podíamos ser um pouco mais espertos e contrariar a nossa preguiça tão humana…

Bem, estamos muito longe do Aquário Vasco da Gama. Esta viagem foi mais longa do que o previsto. Mas não faz mal. Gosto de viajar sem plano.

O dia em que conheci um russo com um buraco no pescoço

Há uns tempos, comecei a contar por aqui uma certa viagem que fiz a Nova Iorque. Nessa altura, revelei o que aconteceu no voo — e também já dei uns lamirés sobre o que se passou dentro do quarto do hotel na 42nd Street. Pois hoje conto como fui dar com um russo que tinha um buraco no pescoço ali numa rua de Brooklyn.

Antes disso, tenho de explicar que aquele foi um dia de muitos sustos — talvez até me atrevesse a chamá-los de presságios, não fosse dar-se o caso de… Bem, já vos digo o caso que se deu.

Primeiro presságio: o ataque de que fomos vítimas…

1. O ataque no Central Park

Tudo começou num passeio que demos no inevitável Central Park. Não sei se o leitor concorda, mas aquele parque urbano parece uma espécie de ferida verde num corpo feito de pedra. Os prédios que o rodeiam são exagerados, quase feios — embora o conjunto seja de tirar a respiração.

Pois lá fomos nós armados em antropólogos de fim-de-semana. Por ali estavam as personagens de muitos dos filmes que vemos, na dieta de cinema norte-americano que é apanágio de muito português. As empregadas a tomar conta dos filhos das senhoras, os joggers de fios a sair das orelhas, os Mr. Bigs de telefone na cara e confiança no passo e os cinquentões à Woody Allen a discutir em gabardines nervosas.

Era Setembro e estava sol. O sossego era bom. Passeámos pelos lagos, pelos caminhos, por aquela natureza que, de tão pensada que foi, tinha o seu quê de selvagem. Ao mesmo tempo, aquela era uma paisagem há muito conquistada pelos filmes, pelos livros e pelas fotografias que nos inundam a mente e nos tornam a todos um pouco nova-iorquinos (muito pouco, admito).

Adiante. Lá estávamos nós a passar ao pé dum lago quando, de repente, a Zélia dá um grito de dor e leva as mãos à cabeça.

Tinha sido barbaramente atacada.

Por um esquilo.

E o gajo estava lá em cima da árvore com outra bolota na mão. Atirou-nos, malvado, mas já não nos acertou.

A Zélia estava estupefacta: uma bolota aleija e não é pouco. Ainda fui atrás do esquilo para lhe ensinar o que era bom tirando-lhe uma fotografia às trombas, mas não consegui. Fotografei um dos irmãos, que estas vinganças podem servir-se à família sem que daí venha mal ao mundo.

O que aconteceu a seguir? Nada. Continuámos. Dali a umas duas horas, quando anoitecesse, tínhamos um encontro marcado na Union Square.

Fomos gastá-las para uma livraria de cujo nome já não me lembro e que vendia, no meio dos livros, roupa. Não me lembro do nome, mas lembro-me dos livros que comprei, claro está, embora agora não me apeteça revelar quais foram.

2. Um susto em Union Square

Nessa noite, tínhamos um encontro marcado com o Filipe, amigo do meu irmão Diogo, que vivia por aqueles tempos em Nova Iorque, a estagiar como técnico de som.

Do caminho da livraria até à praça, em que entrámos no violento metro daquela cidade, lembro-me de pouca coisa: lembro-me bem melhor das páginas que me pus a ler e do livro que tinha na mão — diga-se que tinha sido comprado numa banca de livros usados à porta da tal livraria/loja de roupa.

O sol já baixara. A Union Square era um rodopio de casais aos beijos e grupos de estudantes a conversar. Lá ficámos à espera. Foi agradável estar ali um pouco entre nova-iorquinos, a sentir a outra cidade com um encontro marcado, a imaginar as vidas inteiras que por ali passam e as rotinas e sobressaltos que ali tinham a sua paragem.

De repente, chega-se um rapaz ao pé de mim e diz-me:

— Deixas-me ver o teu telemóvel?

3. «Passa para cá o dólar»

Não, não foi um assalto. Ele queria apenas saber o modelo de telemóvel. Pediu-me então, simpaticamente, para ir à loja online do telemóvel e procurar um jogo em concreto.

Procurei o jogo e mostrei o resultado. E ele, feliz:

— Este jogo fui eu que o fiz! Queres comprar?

Não era por ter ali o programador ao lado, mas o jogo parecia-me realmente engraçado. Custava 1 dólar. Tentei comprar, mas não deu, porque a minha loja online era portuguesa e não me deixava comprar o jogo ali nos Estados Unidos (não me lembro bem porquê).

O certo é que prometi comprá-lo logo que chegasse a Portugal. E ele acreditou. E eu comprei — ainda passei umas boas horas a jogar àquele jogo, entre as traduções e as saudades das viagens, num prazer que certamente vale muito mais do que o mísero dólar que paguei.

Já aqui escrevi algumas vezes — e não sou o único a dizê-lo — que os livros são uma espécie de caixinhas de recordações: abrimos as páginas dum livro e lembramo-nos bem dos sítios onde o lemos, onde o comprámos, onde o folheámos distraidamente.

Pois, naquele caso, um jogo de telemóvel foi uma dessas caixinhas de recordações em miniatura: quando me punha a jogar nas semanas seguintes, lembrava-me sempre daquele rapaz que criara um jogo e o andava a vender pelas ruas de Nova Iorque.

Voltemos à Union Square, que se faz tarde e já é de noite: conversámos um pouco com o rapaz — até que vimos o Filipe a surgir pelo meio da multidão, com o sorriso que já conhecia da minha terra.

4. Um caçador de sons em Nova Iorque

Começou-nos logo a contar como eram os dias de Nova Iorque. E, ao contrário do que acontece noutros casos, pusemo-nos a ir mesmo aos sítios da sua vida nova-iorquina.

Começámos pelo laboratório de som onde ele trabalhava. Ficava na Broadway, num prédio onde nenhum turista se atrevia a entrar.

Nada tenho contra fazer turismo: sempre gostei de viajar e não tenho assim tantas certezas sobre a fronteira entre turista e viajante. Sei que existe, mas não sei onde fica. Às vezes, parece-me que a atravesso várias vezes numa só viagem.

Mas também sei que é precisamente naquele momento em que entramos num sítio qualquer que não vem nos guias que uma viagem ganha outro tom, outro sabor: pois é então que até um mísero elevador num velho prédio da Broadway nos parece delicioso e parte duma cidade que agora também é um pouco nossa.

Bem, deixemo-nos de delírios. Lá em cima, no laboratório, eram televisões aos montes, microfones pendurados como estalactites ou perdidos no chão como estalagmites, gravadores e televisores e outros quantos materiais de imagem e som.

O Filipe ainda nos mostrou o seu equipamento de caçador de sons: as almofadas nos ouvidos e o microfone pendurado na sua cana muito particular. Não era aquilo que usava todos os dias. O que tinha na mão chegava. Confessou-nos então que andava por Nova Iorque de aparelho em riste, a caçar aquilo em que poucos reparam: a porta do metro que se fecha, uma conversa passageira numa língua desconhecida, a travagem dum taxi, um insulto dum mafioso, os sons dentro dum café na Village, o sino duma igreja entalada entre dois arranha-céus, o primeiro beijo de dois adolescentes, uma bolota atirada por um esquilo…

Apetecia-me ficar com essas outras fotografias de que ninguém se lembra. Os sons. Os cheiros. Aquilo que desaparece logo que levantamos voo, deixando-nos com fotografias mal tiradas duma cidade a duas dimensões. Pois que as cidades têm todas tantos lados e tanta coisa e até o passar as mãos nas paredes sabe bem e apetece — e é tão difícil guardar… Lá está, só a fraca memória e os deliciosos livros…

Pensámos então em ir jantar. Queixámo-nos dos preços naquela ilha — e o Filipe propôs-nos que fôssemos com ele até Brooklyn, onde iríamos ao supermercado, baratíssimo. Depois, ele tinha lá uma mesa em casa…

— Mas aviso: lá em casa vive um russo com um buraco no pescoço.

5. Os estranhos feiticeiros de Brooklyn

Pois lá fomos, de metro, até Brooklyn. Pelo caminho, íamos conversando sobre aquelas temas a que os viajantes se agarram: pensamos ver um padrão qualquer nos países por onde andamos e, de repente, contamos uns aos outros todos os casos que confirmam esse padrão, com o entusiasmo de quem descobriu uma verdade qualquer sobre o mundo — ou pelo menos sobre uma rua qualquer de Nova Iorque. Este método não me parece ser muito científico, mas é o que temos quando andamos a conversar em ruas longe de casa. E, para dizer a verdade, às vezes as conclusões são pouco mais absurdas que as conclusões a que chegamos sobre a nossa própria terra.

Naquele dia, falámos da estranha simpatia dos nova-iorquinos, que foi uma surpresa para nós, habituados a ouvir falar duma cidade de gente antipática. E o Filipe confirmava: logo no primeiro dia, tinha pedido informações a uma senhora que o ajudou até à exaustão. Depois de o largar, ainda gritou mais uma indicação da janela aberta do carro, por entre os táxis de Nova Iorque. E o Filipe, parado no passeio, olhava de boca aberta para aquela nova-iorquina de simpatia a toda a prova.

Da minha parte, contei como tinha passado à frente — sem querer — numa fila num café e o homem que tinha assim sido relegado para o lugar logo atrás de mim olhou-me não com indignação, mas com surpresa: parecia ser a primeira vez que tal lhe tinha acontecido. Pedi desculpa quando reparei e lá fui para o lugar que me competia, sem problemas e sem estalo. (Foi sorte, eu sei.)

A Zélia contava o estranho caso dos sapatos na mão: pois vimos não sei quantos nativos da zona a correr pelos passeios de sapatos bonitinhos na mão e ténis confortáveis nos pés. Chegámos à conclusão que aquela gente anda tanto quilómetro de manhã que precisa de calçado adequado à corrida — logo no escritório calçam os sapatos mais consentâneos com a importância da tarefa que têm entre mãos.

A casa do Filipe ainda era longe e, quando saímos do metro, andámos pelas ruas a tentar absorver aquela outra cidade dentro de Nova Iorque. Manhattan aparecia-nos como uma loucura de luzes por entre as casas, contra um céu muito escuro. A ilha, vista dali, deixa-nos muito pequeninos. Já as ruas de Brooklyn são duma normalidade que nos deixa desorientados.

Pois foi então que a normalidade se esvaiu num segundo. Apareceram-nos homens com chapéus negros altíssimos, capas brancas e ar de — como direi — feiticeiros. Andavam a percorrer as ruas e a entrar em várias casas, onde as famílias os recebiam felizes.

O Filipe explicou-nos então que aqueles eram judeus ortodoxos que faziam visitas às casas dos correligionários nas sextas-feiras à noite para conversar e conviver.

Continuámos a percorrer as ruas e, entre aqueles homens de chapéus estranhos, víamos talhos turcos, mercearias polacas, restaurantes bálticos e, entre as casas, a embriaguez das luzes de Manhattan como cenário.

Passou um metro por cima de nós e tive vontade de pegar no gravador dele para guardar para sempre aquelas cores, aqueles cheiros e aqueles sons duma noite banal de Nova Iorque.

6. Uma família siberiana

Aproximamo-nos do momento em que conhecemos o tal russo de buraco no pescoço. Mas antes disso fomos a um supermercado normal, barato (e que sabor tem essa palavra depois duns dias de Manhattan), onde comprámos qualquer coisa para jantar.

Pois bem: deixe-nos agora o leitor a escolher pizzas e outras iguarias nos corredores pouco originais do supermercado. Quero agora contar que, nesse dia ou no dia anterior, visitámos o Museu de História Natural — aquele mesmo onde o Ben Stiller andou a tomar ácidos há uns anos.

Pois bem, a certa altura tive aquilo que algumas pessoas chamam de «epifania» e eu chamo de «momento de cansaço».

Estávamos perante uns bonecos dentro dum vidro, daqueles que parecem muito reais, tão reais que o Ben Stiller ainda hoje jura tê-los visto a falar nessas tais noites no museu.

Olhei para aquela cena: uma tenda no meio da Sibéria, uma família — uma mãe, um pai, um filho — protegidos da neve e a comer qualquer coisa. A cena representaria a vida naquelas paragens longínquas há uns bons milhares de anos.

E, tal como, se repetimos uma palavra muitas vezes, ouvimos o som pelo que ele é e não pelo que significa — ao olhar com muita atenção para aqueles bonecos, abstraindo-me de estar em Nova Iorque, num museu, vi como aqueles seres humanos viveram mesmo à neve, em florestas e espetes longínquas — e como aquelas vidas, para eles, eram tão completas como as nossas vidas de gente citadina, que viaja. No fundo, tive ali consciência de como aquelas vidas eram tão humanas como as nossas, com histórias, sarcasmos, discussões, amores e filhos e comida e tantos medos. De alguma maneira, aquela família era ainda mais real do que eu, turista a olhar para bonecos para lá dum vidro.

As epifanias são assim: impossíveis de explicar, ainda por cima a mais de cinco anos de distância. Porque me lembrei agora daquela família? Não sei. Talvez por causa da tal conversa do russo com buraco no pescoço. Provavelmente, o homem tinha tanto a ver com aquela família siberiana como eu. Mas não deixei de pensar como, agora, andamos pelo mundo misturados e nessa altura, em que uma família se abrigava em tendas, uma viagem de alguns quilómetros era uma aventura que seria suficiente para dar origem a lendas e sagas que duravam séculos.

Voltemos pois a Brooklyn, onde já estamos a sair do supermercado de sacos na mão.

— Mas que história é essa do buraco no pescoço?

Ele riu-se:

— Não faço ideia. Ele vive lá em casa e tem um buraco no pescoço. Não liguem. Em princípio, ele não vos faz mal.

Ficámos calados, a olhar. Seriam aquelas as últimas imagens que veria antes de ser barbaramente assassinado por um ex-agente do KGB?

Há sítios piores para morrer. Se tivesse de ser, que fosse rápido — e sem buracos no pescoço.

7. Por fim, o russo e o seu pescoço

Entrámos na casa. Pusemos os sacos na mesa. Olhámos pela janela e lá andavam os feiticeiros de chapéus na cabeça. O Filipe continuava a contar as suas aventuras à procura dos sons de Nova Iorque.

Entrou então na cozinha um homem com cara de mau, como se quisesse confirmar a nossa imagem estereotipada dum agente secreto. (Fico um pouco corado de vergonha: por que razão um russo em Nova Iorque me leva a pensar em agentes secretos?)

O Filipe disse «olá», o homem cumprimentou-o — e não nos disse nada, como se não existíssemos. Subtilmente, eu e a Zélia aproximamo-nos um do outro.

Tentámos ver-lhe o pescoço mas ele franziu os olhos e não virou a cabeça. Olhou para nós. Nós olhamos para ele. Caiu naquela cozinha o silêncio que todos conhecemos daquelas situações em que tentamos ver o pescoço de outra pessoa e ela não deixa.

Vira, não vira, o certo é que o russo encolheu os ombros e virou-se para sair.

E foi então, com um salto, que vimos o tal buraco no pescoço. Ou melhor, vimos qualquer coisa estranha ali entre o cabelo e o colarinho da camisa. Teria levado um tiro? Teria sido preso na Sibéria? Teria tropeçado num degrau à saída do supermercado? Teria um problema de pele?

Sobrevivemos — e eu pensei nas vidas e mistérios que se escondem numa rua banal de Nova Iorque ou de qualquer cidade. Ou até numa tenda na Sibéria ou por trás dum colarinho dum russo nova-iorquino.

O Filipe riu-se da nossa cara de susto e voltámos à conversa de portugueses perdidos numa cidade estrangeira — como seria o nosso aspecto aos olhos daquele russo? Como soaria a nossa língua aos ouvidos dele? Ou o que diriam de nós aqueles homens vestidos de negro que percorriam as ruas de Brooklyn? Ou os nova-iorquinos que, por um momento, saíssem do adormecimento de tantos milhões de turistas e olhassem para nós com olhos de ver? Somos todos um pouco estranhos — mas não deixamos de ser todos mais parecidos do que parece, se virmos bem: desde famílias siberianas numa tenda, passando por judeus ortodoxos, até portugueses a fazer compras num supermercado de Brooklyn. Se a roda do mundo assim quiser, podemos ser vizinhos de qualquer humano deste mundo. Diremos então «olá», a imaginar o que se esconde por trás daqueles olhos e das cicatrizes que todos temos.

Por hoje, fico por aqui. Como disse no início, foi um dia de muitos sustos, de muitos presságios. Mas não aconteceu nada — e aconteceu tudo. Falei-vos de caçadores de sons, vendedores de rua de jogos virtuais, russos com buracos no corpo, feitiços de sexta-feira à noite, portugueses a deambular por Brooklyn. Demos uma boa espreitadela na estranheza que se esconde por trás de todas as esquinas do mundo.

Até à próxima viagem!

Alegrias e tristezas num aeroporto

Hoje conto o dia em que o meu filho descobriu um dos segredos dos aeroportos.

1. Falar de acidentes de avião no aeroporto

Não sei se já vos disse, mas às vezes sou um pouco estranho. Aqui têm um sintoma dessa estranheza: quando estou prestes a viajar de avião, ponho-me a ler artigos e estatísticas sobre… Sim, adivinharam: acidentes de avião.

Imagine o leitor a cara da Zélia quando, um lindo dia, naqueles caóticos corredores cheios de gente à espera da voz que nos anuncia a abertura da porta de embarque, lhe digo: «Sabias que o maior acidente de aviação da história foi um choque entre dois aviões nas Canárias?»

Mas a verdade é que os aeroportos nos deixam mesmo de nervos à flor da pele. Há o nervosismo de levantar voo — na nossa cabeça está sempre presente a hipótese de o avião cair. Podem vir todas as estatísticas da segurança daquelas máquinas, dos anos de formação dos pilotos e das benditas listas de verificação — o monstro continua lá! O avião é qualquer coisa muito pesada e cheia de pessoas daquelas que morrem quando caem do céu—o avião, no fundo, é um bicho forte com uma fragilidade que assusta.

Depois, quem parte para longe tem na pele a excitação das viagens — do trabalho em sítios distantes, das férias entre outras línguas, de negócios inconfessáveis — e quem chega tem nos olhos o cansaço das horas dentro duma chapa apertada, dos barulhos incomodativos, dos ouvidos a zunir, do cheiro a ar queimado, dos sons que nunca sabemos se não serão o prenúncio da morte — ou talvez prenúncio da chegada da sandes mirrada que pedimos há três fusos horários (e entretanto a criança da fila de trás já se calou, benza-o deus).

Nesse caldinho de emoções, de pele em carne viva, de nervos agitados, o que temos cá em baixo são, num dos lados do aeroporto, as despedidas com choro mais ou menos reprimido e, do outro, os reencontros e os abraços de olhos fechados e alegria pouco contida.

2. As despedidas dos outros também custam

Ainda há poucos dias, no Facebook, uma amiga minha (a Ana Chainho) contou como foi ao aeroporto e chorou só de ver os reencontros das outras pessoas.

E, sim, eu que também já tive a minha dose de esperas no aeroporto, percebo o que ela quer dizer. Ainda por cima, passamos muito tempo à espera: por qualquer razão que me escapa, quando combinamos as horas para ir esperar alguém ao aeroporto, ninguém faz conta com o calvário interminável por que passam os passageiros desde que o avião aterra até que surgem, atarantados, à porta que separa a alfândega do mar de gente que está à espera.

Resultado? Muitos de nós passam muito tempo cá fora, ao lado de homens engravatados de papéis na mão e famílias impacientes, enquanto os nossos amigos andam de autocarro pela pista do aeroporto, percorrem sádicos corredores, põem-se numa bicha épica de passaporte na mão e crianças a chorar, mostram o passaporte ao simpático SEF em atrapalhações de casacos e malas, deixam-se estar a olhar para o carrossel das bagagens e, com sorte, lá vão tirar a senha para ir reclamar da mala desaparecida.

E nós? Cá estamos, ao lado dos tais homens engravatados. Entretanto, pela ranhura da alfândega, já pingaram selecções de andebol, turistas japoneses, académicos lituanos, famílias de Freixo-de-Espada-à-Cinta… E nós à espera.

Nessas horas de espera, também já me comovi com a avó que vê a neta pela primeira vez, o pai que abraça o filho depois de meses à fome de abraços em skypes frustrantes, os amigos que se reencontram para mais um Verão das suas vidas… Às vezes, mordo o lábio. Gente adulta não chora — só que às vezes chora. Disfarçamos, claro. E lá esperamos, pacientes, pelos amigos que ainda estão à espera da mala desaparecida.

3. A tristeza de 1 a 10 — e a próxima viagem

Chego por fim ao que vos queria contar, que é uma história que parece banal para quem a vê de fora — e é tudo menos banal para nós, que a vivemos (é o que acontece com tantas e tantas histórias).

O meu irmão Diogo, a Sofia e a minha sobrinha Lilah voltaram anteontem para casa, que é como quem diz, para Inglaterra. Os meus pais estavam cá em Lisboa e tínhamos pensado ir todos ao aeroporto despedir-nos — os meus pais, a Zélia, o Simão. Mas foi um dia agitado, muito trabalho na empresa, a Zélia teve de ficar duas horas no notário a tratar de certificações de traduções, a minha mãe não pôde ir — e acabei eu, o Simão e o meu pai a chegar ao aeroporto mesmo a tempo de nos despedirmos.

Pois foi então que vi a Lilah, de três anos, e o Simão, que tem quatro, a ficarem tristes de repente — e também percebi como o Simão ficou surpreendido com a sua própria tristeza. Abraçou-se à prima e pôs aquele sorriso que eu conheço bem, um sorriso nervoso, de quem está a reprimir o choro.

Há momentos no aeroporto que doem, mas se não doessem, era mau sinal. É uma boa tristeza, porque o próprio facto de aquele momento custar muito mostra que gostamos das pessoas de quem nos estamos a despedir — e há-de haver outras vezes, mais viagens, mais chegadas atrapalhadas entre malas e correrias para apanhar o avião e ir ver a prima à terra dela — e mais chegadas como aquela chegada de há duas semanas, em que a Lilah saltou do colo do pai para correr até ao primo para o abraçar, deixando-o surpreendido com as saudades da prima que vive a 2000 quilómetros de distância.

Saímos do aeroporto e o Simão lá começou a falar doutras coisas, a olhar pela janela do carro para a cidade ao sol e a rir-se com uma piada qualquer. Quando, por fim, chegámos a casa, perguntou-me: «Pai, de 1 a 10, quanto é que ficaste triste no aeroporto?» Eu ri-me com a pergunta — mas não respondi. Ele disse-me então: «Eu fiquei 10!» Sim, eu sei: um dia ele ainda terá de descobrir que não, esse dez ainda não chegou. Mas anteontem, sim, ele ficou muito triste — mas também feliz enquanto sonhávamos com a próxima viagem para ir visitar a prima.

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«E a escrita… a escrita é um encanto, fluida, ágil, com aquele tom certo entre o pessoal e o formativo, com humor q.b. e uma ponta de indignação quando é necessário.» — Ana C. B., Gene de Traça.

Sobre o autor

Marco Neves. Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: é também pai, com o ofício de contar histórias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas.

Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. É professor de tradução na FCSH. É tradutor e director do escritório de Lisboa da Eurologos. É ainda colunista no Sapo 24.

Escreve neste blogue sobre línguas, livros e outras viagens.

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Cinco surpresas de Nova Iorque

Prometi aventuras — ataques no Central Park, russos de ar perigoso… — e terei de cumprir. Nem sabem o que vos espera, digo-vos já. E, sim, isto é uma ameaça.

Mas ainda não será desta. Hoje, neste segundo episódio das minhas viagens à terra dos outros, quero alimentar um pouco a mania das listas que anda por aí. Somos uma espécie muito estranha. Até neste humilde blogue escondido num recanto da internet portuguesa, é certo e sabido: se o título do artigo tiver um número («Sete palavras disto ou daquilo…») tenho partilhas e gostos em barda.

Tento não abusar. Mas um blogue faz-se para se ler. Se os leitores gostam de listas, de vez em quando dou-lhes listas.

Pois bem, antes das grandes revelações sobre o mundo e o universo que descobri nas ruas de Nova Iorque, deixo-vos aqui cinco surpresas que a Zélia e eu tivemos ao chegar à cidade.

Antes da primeira surpresa, um pequeno relato: estávamos nós na fila para passar pelos serviços de estrangeiros lá do sítio, para mostrarmos o passaporte e sentirmos aquele pequeno formigueiro do estilo «será que me vai sair dali um polícia daqueles gigantescos e mandar-nos ao chão porque o passaporte tem um problema?», quando percebemos que à nossa frente estava uma pessoa vagamente conhecida. Aliás, muito conhecida em Portugal e desconhecida no resto do mundo (o que, em média, justifica o «vagamente»).

Mal sabia o polícia que tinha perante si aquele que viria a ser um dos homens mais importantes do planeta e, quem sabe, de Nova Iorque!

Avancemos. Saímos do aeroporto, pusemo-nos num comboio e toca de aviar surpresas:

1. O tamanho de Manhattan

Estávamos a aproximarmo-nos de comboio e a Zélia agarrou-me no braço: olha, olha!

A segunda fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

E lá ao fundo apareceram os prédios da ilha. Aquela paisagem que todos conhecemos — com aquela famosa falha que ainda não tinha sido consertada com a nova torre.

A verdade é que o raio da ilha impressiona — e impressiona mesmo quem já vai preparado. Vemos filmes, fotos, livros… E mesmo assim o gigantismo daquilo é inacreditável, quando aparece no horizonte a quem vem de comboio do aeroporto de Newark, entre armazéns e ruas sujas.

Perante aquilo, todos somos provincianos. E todos nós reconhecemo-nos um pouco naquela paisagem — mesmo o mais empedernido dos anti-americanos. Aquilo não é uma cidade estrangeira: é outra coisa, uma paisagem que vem do fundo da nossa infância, dos filmes, das bandas desenhadas — e é também a cidade por excelência, no seu excesso e na sua concentração e na aflição por chegar às nuvens.

Sim, aquilo é Manhattan, Nova Iorque, mas também Gotham — e é ainda a cidade de todos nós.

Lá fomos. Chegámos a uma estação subterrânea, andámos às voltas, encontrámos a saída e vimo-nos no meio da mais famosa ilha do mundo…

2. As ruas estão sempre à sombra

Os prédios altos, cá pela Europa, são uma espécie de amostra mal semeada de arranha-céus. Já foram a La Defense, em Paris? E Canary Wharf, em Londres? Não deixam de ser uma coisa mais ou menos interessante, mas não são essenciais àquelas cidades. São, como diriam os ingleses ou os americanos, um afterthought. Por cá, gostamos de cidades na horizontal — e um café a seguir. Estou a generalizar, eu sei.

Pois, em Manhattan, os prédios são gigantescos. São desmesurados. São para lá de altos. Tentam mesmo arranhar o céu. São monstros de vidro ou pedra ou o que for. Estão aflitos por olhar por cima do prédio da frente.

Bem, acho que me estou a repetir. Avancemos para a segunda surpresa: durante muitas horas do dia, na rua, andamos na sombra. Não há luz directa, ou há apenas em certos sítios, onde o alinhamento dos prédios dá uma folga ao sol.

Mas não pensem que isto torna a cidade pesada. As avenidas são largas. Os parques são muitos. E andando um pouco chegamos ao rio, que envolve Manhattan. Depois, o sol a bater nos vidros os prédios não é coisa para deitar fora…

3. O cheiro a comida

Há restaurantes, carrinhos de comida, pequenas lojas com manjares de todo o mundo… Os cheiros ficam ali presos entre os prédios, enrolam-se uns nos outros e de repente temos uma cidade que nos deixa com água na boca em todas as esquinas. Ou seja, Nova Iorque é apetitosa de forma muito concreta.

Restaurantes chineses, gregos, portugueses, turquemenistanos. O mundo inteiro ali, sem dúvida. Misturado, como os fumos das cozinhas no ar apertado entre os prédios. Parece enjoativo, assim à distância? Admito que sim. Mas na vida real, no frio de Setembro, apetecia-nos viver aquela cidade por uns dias. Foi isso que fizemos, continuando a andar sem medo até ao hotel. Éramos turistas, sim, essa condição tão rasteira… Mas também éramos um casal contente por visitar uma das cidades das nossas vidas.

4. Os sapatos nas mãos

Ora, quem diria? Andamos pelas ruas tão cheias de gente como vemos nos filmes e vemos pessoas de sapatos na mão.

Porquê?

Porque têm de andar muito para chegar ao trabalho e preferem, assim, ir de ténis. Chegam ao escritório e toca de trocar para sapatos mais adequados aos trabalhos importantes das gentes de Manhattan.

Porque Nova Iorque é enorme e convém mesmo ir com calçado confortável — o que vale tanto para turistas como para nova-iorquinos de gema.

Nós percebemos bem isso logo nessa lenta caminhada até ao hotel. No mapa, parecia que estávamos a poucas ruas do hotel. Pensámos: bem, podemos ir a pé. E lá fomos. Andámos. Andámos. E andámos mais. Malas atrás, suor a escorrer. Gente a olhar para nós com pena.

Mas não desistimos e chegámos. Tínhamos percorrido umas míseras duas ruas e andado mais quilómetros do que aconselha a fraqueza humana. Ao nosso lado, táxis até mais não e gente a passar por nós de sapatos na mão. E nós espatifados logo no primeiro dia.

Porque, em Nova Iorque, todos andam a pé — e andam que se fartam.

5. Um hotel no centro do mundo

E pronto, cansados mas a sorrir, chegámos ao hotel, na 42nd Street virada a este. Estávamos, de repente, no centro do mundo. Porquê? Porque tínhamos calhado mesmo na semana da Assembleia Geral das Nações Unidas. E o edifício da ONU era mesmo ali ao lado.

Passavam por nós carros da segurança, havia ruas interrompidas, polícias enervados e calmos diplomatas de todo o mundo. Na entrada do hotel, ouvíamos línguas disparatadas. O mundo estava todo ali.

Quando nos pusemos na fila do check-in ficámos de boca aberta: ali mesmo à nossa frente estava a mesma pessoa que tínhamos encontrado na fila da fronteira no aeroporto, como se toda aquela viagem por Nova Iorque, entre fumos de comida e gente de sapatos na mão, não tivesse acontecido e, no fundo, tivéssemos andado uns míseros metros no aeroporto.

E quem era ele? Ora, não é difícil: que português tem de ir, de há anos para cá, a todas as assembleias gerais da ONU? Aquele que hoje se prepara para ser o Secretário-Geral da dita organização… Na altura, poucos nova-iorquinos saberiam quem era ele. Pois bem, a partir de de Janeiro, será o mais importante dos residentes da cidade. Isto porque em Nova Iorque nem sequer vive o Governador: a capital do Estado de Nova Iorque é Albany. Nova Iorque não é a capital de nada — só do mundo. E ali estava ele, o futuro Secretário-Geral, a fazer check-in no nosso hotel. Ao lado, uns japoneses enervavam-se com uns polícias gigantescos. Ah, Nova Iorque…


Vista do quarto. Esta é, provavelmente, a fotografia mais mal tirada de todos os tempos.

Fomos para o quarto. Ligámos a televisão — estava a dar publicidade. Abrimos a janela. Estava a dar o Empire State Building. Mas tudo isso fica para outro dia. Como também ficará para outro dia dizer-vos os estranhos segredos que se descobrem num quarto nova-iorquino…

(Já agora, para vos deixar água na boca: no dia seguinte, fomos ao Central Park — e fomos barbaramente atacados! Mas já não vimos o Guterres.)

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1. O dia em que percorremos o aeroporto do Porto ao contrário

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Um livro em Nova Iorque | Episódio 1

Não sei porquê, mas há dias assim: acordo de manhã e apetece-me contar uma história qualquer. Pois hoje deu-me para isto: quero contar-vos uma viagem que fiz há seis anos.

Não é uma viagem qualquer: foi a prenda que a Zélia me deu quando fiz 30 anos. Ao perceber que a prenda era essa viagem transatlântica que quase todos queremos fazer, fiquei em pânico. Dali a seis exactos meses, teria de escolher uma prenda para os 3o anos dela! O que lhe havia de oferecer depois de receber uma viagem a Nova Iorque?

Ainda tentei armar-me em esperto e dizer:

«Bem, como também vais a Nova Iorque, isto no fundo é uma prenda para os dois…»

«Tens umas piadas muito giras…»

E pronto, lá fomos nós para Nova Iorque. Proponho-me agora contar tudo o que se passou. Pois não julguem que foi uma viagem banal, sem nada que contar — e mesmo que fosse, haveria sempre maneira de dar a volta, pois não houve quem tivesse ido a Santarém e daí tenha escrito um livro inteiro? Não tenho talento para tanto, mas estou em crer que será mais fácil escrever o relato duma viagem à capital do mundo em que nos aconteceu tanta coisa.

Pois a verdade é que houve de tudo: fomos atacados no Central Park, vimo-nos fechados com um russo de má cara num apartamento em Brooklyn, conheci uma família siberiana que vivia numa tenda, encontrámos o homem mais poderoso do mundo (e não era o Obama, que de qualquer maneira também passou por nós) – e vimos estranhos feiticeiros a vaguear pelas ruas.

E, não, nada do que acabei de dizer é mentira! Mas, claro, a verdade é sempre mais complicada do que parece…

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Tudo começou, claro está, com uma viagem de avião. Aliás, não foi uma viagem de avião: foram duas. A roleta dos horários da TAP levou-nos a embarcar em Lisboa, seguir para o Porto e de lá, por fim, partir para o outro lado do oceano.

Assim, a minha primeira viagem a Nova Iorque foi também a minha primeira viagem de avião até ao Porto.

Como não queríamos arriscar ficar em terra, fomos o mais cedo possível para o aeroporto. Se o avião partia às 9, lá estávamos às 7. Chegámos ao check-in, deixámos as malas e fomos informados que, infelizmente, o check-in do voo do Porto para Nova Iorque ainda não estava aberto e, por isso, quando chegássemos ao Porto, tínhamos de fazer o check-in outra vez.

Ah, a doce inocência dum jovem casal a viajar: a coisa parecia simples. Chegamos ao Porto e fazemos o check-in. O que pode correr mal?

Tudo.

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Bem, lá fomos. As viagens de Lisboa para o Porto têm o seu quê de cómico. O avião levanta, as hospedeiras vêm a correr com o carrinho a atirar com comida para cima dos passageiros, damos uma trinca na sandes, as hospedeiras lá vêm de novo por aí fora a tirar a sandes das bocas dos passageiros, que já começámos a descer… Rodas no chão com estrondo: chegámos.

Saímos do avião divertidos com aquilo e, à saída da manga, estava uma assistente a pedir aos passageiros de Lisboa para ir imediatamente para o voo de Nova Iorque, que estava quase a partir.

«Ah, mas ainda temos de ir fazer o check-in.»

Ela olhou-nos a franzir a cara toda:

«Como assim?»

Lá explicámos que chegáramos cedo de mais ao aeroporto e isto e aquilo e ela abriu muito os olhos a pensar que não sabia o que pensar.

«Bem, então têm de ir ao balcão…»

O problema é que dali, para chegar ao balcão de check-in, tínhamos de passar pela segurança – ao contrário!

E tinha de ser depressa que o avião não espera por quem chegou cedo de mais ao aeroporto.

Desatámos a correr, chegámos à segurança, onde encontrámos avisos maldispostos a dizer para não passar. Uma guarda olhava para nós desconfiada. Explicámos tudo. Ela lá deixou passar, desconfiada.

Os guardas da segurança ficaram admirados, mas tudo bem, o que cada um leva para fora do aeroporto não é com eles. Chegámos por fim ao balcão. A deitar os bofes todos pela boca lá explicámos pela terceira vez o problema. A senhora chama uma colega. Ficam a bichanar. Olham as duas para o ecrã. Olham para os nossos bilhetes. Bichanam mais. Põem um sorriso profissional e atiram-nos:

«Pois, mas o voo para Nova Iorque já está fechado.»

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Já não sei se fui eu ou a Zélia que disparou, a ranger os dentes:

«Se está fechado, é só abrir outra vez… Porque nós chegámos a horas ao aeroporto e não vamos ficar em terra… Como é evidente…»

A senhora riu-se, encolheu os ombros e telefonou não sei bem para onde.

«Pronto, reabriram outra vez. Deixe cá ver isso [e toca de me pegar no bilhete] para fazer o check-in antes que fechem outra vez.»

Teclou um pouco, mordeu os lábios, emitiu o talão e disse depois, a sorrir:

«Olha, fecharam isto outra vez!»

Agora tinha eu um talão de embarque na mão e a Zélia nada…

Ah, se eu não estivesse tão enervado, ainda teria tido presença de espírito para dizer: «Bem, a prenda de facto era para mim…»

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Como é que depois disto ainda ficámos ao lado um do outro? Não sei… E também não sei como é o avião já estava fechado se, depois de passarmos pela segurança (agora na direcção certa), ainda passámos pelo SEF e por mais segurança só para nós, passageiros dum voo para os EUA – e ainda esperámos bastante para embarcar.

Lá entrámos, as hospedeiras a sorrir, o avião já a fazer os seus barulhos, e sentamo-nos preparados para oito horas de viagem. Um livro na mão, uma revista, tira o cinto, põe o cinto, espero um momento, conversamos, tento olhar pela janela, que estava longe, olho para as movimentações da tripulação, reparo como naqueles aviões tudo é maior e mais à larga. Estou nervoso, embora já seja a segunda partida do dia.

Pouco depois, cross-check, avisos de segurança, vá oiçam isto que esta geringonça não está livre de cair, mas se cair tudo correrá bem desde que não empatem os outros na saída ordeira para meio do oceano. Obrigado.

O avião já na pista, tudo pronto a descolar, quando a hospedeira repara que está um homem em pé ao pé da porta da casa-de-banho.

«Pode sentar-se se faz favor?»

«Não.»

«Não?»

«A menina do check-in prometeu-me um lugar à janela e olhe onde fiquei!»

Estamos já todos a olhar para a interessante altercação.

«Pode reclamar depois e até posso ajudá-lo a encontrar outro lugar quando estivermos no ar, mas agora fazia o favor de se sentar? É que vamos levantar voo dentro de poucos segundos…»

«Pois não quero saber: sem lugar à janela vou em pé.»

A hospedeira sorriu e disse calmamente:

«SENTE-SE!»

Para lá do grito, todos conseguíamos ver o balão de pensamento por cima da cabeça dela com uns bons e saborosos palavrões.

O homem não se mexeu e a hospedeira não teve opção se não aguentar com a injustiça do mundo e procurar em poucos segundos alguém disponível para trocar de lugar. Um rapaz jovem aceitou de bom-grado e ainda recebeu da hospedeira um sorriso e uma promessa.

Ah, eu sei: ela devia ter impedido o avião de levantar voo e esperado que a polícia fosse lá prender o velho, mas pronto, o mundo às vezes é assim — e lá fomos para Nova Iorque todos felizes, com novo ódio de estimação e tudo. A hospedeira cumpriu a promessa: o rapaz foi ver a cabine todo contente. Já o casmurro deve ter levado com a sandes mais dura que a hospedeira encontrou — isto se não houve vingança mais inconfessável nessa viagem. Se houve, não reparei.

O voo, enfim, foi normal. O oceano, os filmes a monte, um homem mais à frente a meter-se com uma hospedeira enquanto a mulher dormia ao lado, a impaciência das crianças, o nervosismo destes símios que somos nós a imaginarem-se pendurados no ar sem nada por baixo — ali ia, a 700 km/h, a natureza humana… Todos virados para a frente numa lata, aproximando-se do Novo Mundo.

E nós, naqueles anos ainda sem filhos e recém-casados, de mãos dadas sobre o Atlântico… Viajar é, por si, um dos maiores prazeres que há no mundo — mas viajar a dois é o maior prazer deste mundo e do outro.

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Mal sabíamos nós que naquele avião seguia aquele que viria a ser o homem mais importante do mundo… E ainda tenho tanto para contar: sim, o Obama passou por nós; andámos à procura duma boneca — e vimos feiticeiros na rua e estivemos com um russo perigoso num apartamento em Brooklyn e conhecemos a tal família siberiana  — prometo-vos  tudo isso e muito mais nos próximos episódios desta nossa viagem a Nova Iorque…

As vacas do País de Gales (e como se diz «futebol» em galês)

Desde que o meu irmão foi viver para Inglaterra, às vezes lá vamos nós visitá-lo — e aproveitamos para passear.

Numa dessas viagens, há uns cinco anos, ainda sem filhos, decidimos ir de Cambridge até ao País de Gales. Lá fui eu, o meu irmão, a Zélia e a Sofia.

Saímos de manhã, prontos para ir almoçar a Cardiff — e perdemo-nos.

Andámos entre aldeias inglesas que ninguém conhece, estradas onde nunca um carro parece ter passado, auto-estradas que iam para todo o lado menos para Gales — enfim, um delicioso labirinto britânico, que nos libertou, por fim, ao fim da tarde, a tempo de jantar em Cardiff. Acabámos por decidir lá ficar de noite.

Por esses dias, o meu irmão ainda andava a descobrir o mundo mental inglês e passou-me a viagem a descrever os estereótipos sobre os galeses: na mente de muitos ingleses, o vizinho pequenito é um canto cheio de gente obcecada com vacas.

Ri-me desses simplismos — e, claro, Cardiff é uma cidade que desmente essas ideias inglesas sobre o país.

O problema é que, fosse eu inglês preconceituoso, teria visto as minhas ideias confirmadíssimas quando cheguei ao hotel.

Porquê?

cows-1013108_640Ora, quando cheguei ao quarto, liguei a televisão ávido de encontrar a televisão local, para ouvir um pouco a língua galesa. Finalmente lá encontrei o tal canal: canal esse em que estava a dar um programa apresentado por um homem de suíças gigantescas, que discutia em galês qualquer coisa relacionada com… vacas! Pois que apontava e ria e discutia entusiasmado o que devia ser o mundo das vacas, pois estava rodeado dessas simpáticas criaturas.

Fiquei em choque e o meu irmão a rir às gargalhadas.

Logo a seguir deu um programa sobre poetas galeses, sem vacas à vista, e eu sorri um pouco. Dizem que aquele é um país de poetas. Será também um simplismo? Enfim, simplismos há em todo o lado, como sabemos — e têm sempre aquele fundo de verdade de que se alimentam as mentiras que contamos sobre os outros.

O certo é que, com vacas ou não, não percebi patavina do que diziam os tais galeses. A língua é exótica aos ouvidos portugueses.

Diga-se que, na rua, como sabemos, o que se ouve em Cardiff é inglês. O galês já se ouve pouco nas cidades, embora nos rodeie nas placas das ruas, nas estradas e nalguns livros nas montras das livrarias.

Aproveitei para comprar um livro sobre a situação social da língua (uns é com vacas, outros é com línguas, cada um na sua). Pus-me a ler. Descobri alguns aspectos curiosos da língua galesa: vivendo lado a lado com o inglês, quem protege a norma do galês tenta afastar a língua o mais possível do vizinho poderoso.

Assim, o galês, uma das línguas do Reino Unido, está estranhamente livre de anglicismos…

Repare-se, assim, na palavra para futebol em várias línguas:

  • Inglês: football
  • Português: futebol
  • Alemão: Fußball
  • Dinamarquês: fodbold (!)
  • Basco: futbol
  • Neerlandês: voetbal (esta foi-me oferecida por Fernando Venâncio, que me disse ainda que «oe» soa a «u»)
  • Francês: football
  • Galês: pêl-droed

Sim: na quarta a nossa selecção vai jogar uma boa partida de PÊL-DROED com os nossos amigos de Cymru.

Querem mais estranhos exemplos de palavras em que os galeses resistiram aos anglicismos? “Internet”, em galês, traduz-se por “rhyngrwyd“. E computador? “Cyfrifiadur“.

Sim, naquele país, até os termos informáticos parecem saídos da boca do Rei Artur.

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