Leio este Manifesto sobre os 800 anos da nossa língua (aliás, os 800 anos do primeiro documento oficial) e acho que não deixa de ser uma forma inteligente de falar da língua sem cair no já cansativo tema do “acordo ou não acordo”.

Sim, é bom falar da nossa língua sem polémicas e sem medos.

Será? Ora, já devia saber que as pessoas interessadas nestes assuntos estão especialmente susceptíveis ao vírus do purismo inflamado.

Por baixo do artigo, lá encontro um link para um blogue brasileiro que refere o manifesto publicado pelo Público.

Vou ler o post desse blogue. O blogger faz link ao Manifesto, mas parece ficar ligeiramente enojado com o português do Manifesto: «Eu até ia postar o texto inteiro — apócrifo — sobre os 800 anos da língua portuguesa, mas comemorar uma data tão importante com um “a nível de”, eu me recuso!»

A ideia geral é esta: ah, e tal, eles até celebram a língua, mas estão a maltratá-la.

Porquê? Porque no Manifesto, a certa altura, encontramos a expressão “a nível de”.

Pois, exacto.

O que interessa estarmos a falar da nossa língua, quando o texto que a celebra usa tão pérfida expressão?

Bolas, tenho de perguntar: o que está errado com esse uso de “a nível de”?

Será uma expressão pouco clara?

Será uma expressão demasiado “popular”?

Será pouco formal?

É evitada por pessoas de elevado nível académico?

Ou tudo isto é apenas uma irritação pessoal do autor, umas das manias linguísticas que algumas pessoas não conseguem distinguir dos erros verdadeiros?

Neste caso, para além do purismo inflamado, presumo que haja alguma confusão do blogger, que não estará habituado à variante lusitana do português, na qual “a nível de” é perfeitamente aceitável (talvez um pouco afectada).

Pelos vistos, no Brasil, é considerada um “erro comum” (vejam o número seis desta lista).

É, provavelmente, daquelas expressões que muitos usam e alguns acham que ninguém deve usar, porque é feio e hoje não me apetece.

Mesmo que seja um erro no Brasil (não me parece, mas não vou comentar), não é um erro na variante em que o texto está escrito.

Temos aqui um exemplo claro da crítica “disparar primeiro e perguntar depois”. A expressão parece errada? Vamos acusar os autores do texto de maltratarem a língua! Nem vale a pena dar o benefício da dúvida.

O crítico fica sempre protegido no seu escudo de Protector da Língua. Os outros que se cuidem…

Mesmo que a expressão não fosse a mais feliz; mesmo que pudéssemos rescrever o texto para a evitar; mesmo que fosse um erro… Será o suficiente para mandar para as urtigas todo o texto?

A nossa tolerância linguística só pode ser zero? Não podemos celebrar a língua e falar da língua sem medo de irritar os polícias da língua?

E o que importa aqui é o que o texto diz (até porque está muito bem escrito…).

A língua que se celebra não é só a língua ideal que está na cabeça de cada um. É a língua toda, do Acre a Timor… Temos um texto que chama a atenção para essa data que ninguém conhecia: o aniversário do primeiro documento oficial em português (e, em Portugal, o Manifesto teve impacto mediático, raro nestas questões da língua).

Mas que vale isso perante uma expressão que nos irrita?