Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

A mãe da nossa língua (ou os prazeres de ouvir Fernando Venâncio)

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Ontem assisti à extraordinária aula que Fernando Venâncio deu na FCSH sobre o português, o galego e o latim — ou como o primeiro não surgiu directamente deste último, mas teve essa outra mãe de que poucos falam. Em resumo: o português não é filho do latim, mas antes neto. (E, lembrei-me agora, já temos entre nós bisnetos da língua do Lácio — basta ir a Cabo Verde ou mesmo ouvir o português brasileiro mais popular.)

Foi um prazer conhecer o Professor, depois de nos termos cruzado virtualmente por estas bandas blogueiras e pelos caminhos do Facebook (quem disse que as novas tecnologias afastam as pessoas?).

Percebi — não na aula, mas em comentários no Facebook — que está para breve um livro sobre estas questões. Fiquei com uma vontade irreprimível de ir a correr reservá-lo.

Quem lá esteve ouviu falar de forma bem concreta sobre essa língua que se forjou ao longo de séculos, muito antes dos nossos primeiros documentos escritos, e que era (na acertadíssima fórmula do professor) a «língua disponível» no momento da criação do Estado português: a língua do Noroeste peninsular, que podemos chamar galego, galego-português ou português, conforme as preferências e sensibilidades. Depois, houve séculos de separação e de «desgaleguização» do português, até ao ponto em que os portugueses não concebem ver no galego a origem da sua própria língua. A história é mais complexa e a ela voltarei, claro, agora muito picado por tudo o que hoje ouvi.

Não pensem que vos estou a fazer um resumo: a aula foi muito além de tudo isto — e a discussão final foi também interessantíssima. Dali ninguém saiu a dizer que não aprendeu nada: e é isso que se quer duma aula…

Queria agora confessar-vos um segredo: um dos prazeres que tive nesta aula foi estar perto de Mário de Carvalho, um dos «alunos». A minha timidez não me permitiu o atrevimento de uma apresentação (e que lhe diria eu?) — mas senti aquele deslumbramento de quem vê de perto um dos heróis da sua adolescência.

Foi com Mário de Carvalho que, no meu 8.º ano, passei da literatura infantil para outros prazeres — aproveitando a deliciosa «A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho». Ainda me lembro do livro de Português onde esse conto estava impresso na íntegra. Foi ainda com Mário de Carvalho que me perdi na Lusitânia, com aquele Deus que passeava pela brisa da tarde, um dos primeiros livros de gente grande que li. Foi com ele que troquei ideias sobre o tal assunto. Que ouvi dois coronéis a disparatar à beira duma piscina. Foi com ele que aprendi (entre muitos outros mestres, claro está) a ler em bom português.

Ou, diria agora algum provocador: em bom galego.

Chamemos-lhe o nome que quisermos. A nossa é a língua dos nossos grandes escritores — e entre os nossos grandes escritores está o meu colega de turma por duas horas.

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5 Comentários

  1. Na consideração que nutro pela minha cultura de base e por sangue que me corre nas veias, do galaico-duriense faço as minhas origens e sem receio a raiz de uma língua.

  2. GEOLÍNGUA: novo nome para o Galego-brasileiro.

    Abaixo, transcrevo uma sinopse de uma Obra a ser apresentada em Livro, Teatro e Cinema 3D.

    Como nasceu a língua “portuguesa”

    .. pelos Reis, D. Afonso X de Leão e Castela, D. Dinis sexto rei de Portugal, Alexandre Herculano, historiador de referência e – Humberto Eco, conceituado filósofo … e, tudo relatado por Roberto Moreno, prof. e historiador, fundador da Fundação Geolíngua – cujo objetivo é: transcender a língua “portuguesa”.

    Colocações factuais e históricas.

    1 – D. Dinis, sexto rei de Portugal, em 1296, por decreto, instituí o português na Chancelaria Real, na redação das leis, nos notários e na poesia, eliminando a palavra Galego, por razões socioculturais e políticas. – D. Dinis adotou uma língua própria para o reino, tal como o seu avô, espanhol, D. Afonso X, fizera com o castelhano à partir de 1252, também eliminando a palavra Galego, pelas mesmas razões, politicas (embora, ambos continuassem a utilizar o Galego em suas poesias). – Portanto, como reza a história e – diante dos fatos (factos) – A língua portuguesa foi criada por Decreto, e – o Galego, fonte do português e castelhano – foi banido.

    2 – O conceituado historiador, de referência, Alexandre Herculano em 1874, disse: “A Galiza deu-nos população e língua, e o português não é senão o dialecto galego civilizado e aperfeiçoado”

    3 – «O certo é que as línguas não podem ter nascido por convenção já que, para se porem de acordo sobre as suas regras os homens necessitariam de uma língua anterior; mas se esta última existisse, por que razão se dariam os homens ao trabalho de construir outras, empreendimento esforçado e sem justificação?» – (Umberto Eco)

    __________________________________________

    Proposta de Roberto Moreno, fundador da Fundação Geolíngua:

    À luz dos factos e da história e diante destas três colocações – a Fundação Geolíngua propõe-se a seguir os mesmos passos dos Reis D. Dinis e D. Afonso X, no âmbito de, ambos, terem criado as duas primeiras “marcas brancas” do mundo, ao nomear de “português e castelhano”, o – Galego.

    O objetivo é designar o Galego, no seu dialeto brasileiro (em sintonia com Alexandre Herculano) – por GEOLÍNGUA (língua da terra). – É uma espécie de “Esperanto II” – uma “nova marca branca” – 8 Séculos após à marca “português”, ter sido criada.

    Esta proposta resulta de uma minuciosa e fundamentada investigação científica, ao consultar varias fontes, além das “oficiais”, desde 1992, onde se vislumbra que: a percentagem que separa uma língua de outra – é de aproximadamente 20%. A diferença, hoje, entre o português de Portugal e o galego é de 7% e, entre o português e o “brasileiro” é de 3%. – Portanto, histórica e cientificamente analisada, o português simplesmente inexiste como língua, mas sim como – dialeto evoluído e aperfeiçoado – como afirmou Alexandre Herculano.

    Nesta perspectiva – a futura Geolíngua (Galego-brasileiro) passa a ser a primeira língua do mundo, pelo fato desta, entender 90% do “espanhol”, 50% do italiano e 30% do francês, sem qualquer dificuldade (pelo menos, na linguagem escrita) e une, para já e, a partir do Galego-castelhano (espanhol) 800 milhões de pessoas em 30 países e nos 5 continentes e – se acrescentar o italiano ultrapassa os 900 milhões, superando o inglês e o mandarim, com a vantagem de – a Geolíngua possuir, além do aspecto quantitativo, também o qualitativo, geopolítico e geoeconômico, em simultâneo, o que não é encontrado em nenhuma outra língua do planeta.

    Algumas fontes consultadas:

    – Língua brasileira – http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/a-lei-fora-da-lei

    – O Brasil fala a Língua Galega – ‪http://www.udc.gal/dep/lx/cac/sopirrait/sr044.htm‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬
    … artigo do Prof. Catedrático Júlio César Barreto Rocha, da Universidade de Santiago de Compostela.

    – O português vem do Galego – “Não é correto, do ponto de vista histórico-geográfico, afirmar, como fazem todas as gramáticas históricas, que “o português vem do latim”. – O português vem do galego – o galego, sim, é que representa a variedade de latim vulgar que se constituiu na Gallaecia romana e na Galiza medieval” – Marcos Bagno

    “O nosso idioma é muito mais antigo que a nação. Isto significa que, se nunca Portugal tivesse surgido, esta mesma língua (hoje chamada portuguesa) teria existido sem ele”. Palavras do Prof. Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam, referindo-se à língua Galega.– E, acrescenta: «Se a língua de Afonso Henriques algum nome pudesse ter tido, era só este: galego». –

    Quanto ao Acordo Ortográfico, sugiro ver a posição de Roberto Moreno, aqui
    http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudicao.aspx?BID=94935

    E, para complementar veja este vídeo – http://www.youtube.com/watch?v=aisI7SEry4c

  3. Carlos Sousa

    Apenas três questões:
    Se o português deriva exclusivamente do galego como explicar as outras línguas latinas e a respetiva semelhança fonética e ortográfica?
    Porque se chama galego a uma língua que provavelmente nasceu fora do atual território galego?
    O português assim como o galego não serão oriundas de um dialeto desenvolvido a partir das necessidades de comunicação nas trocas comerciais ao longo de séculos e mais tarde adaptado ao latim?

    • Marco Neves

      O português tem as suas origens no latim, mais propriamente, do latim falado no noroeste peninsular, donde saíram o galego e o português actuais. Ou seja, houve ali um passo intermédio a que podemos chamar galego-português (a população que falava essa língua não lhe chamaria nem português nem galego, nesses séculos antes da nacionalidade). Pode ler uma descrição bem mais profunda nesta nota de Fernando Venâncio.

      Quanto à língua galega ter nascido fora do território galego, não sei a que se refere. Se se referir ao facto de o galego ter nascido do latim e o latim vir de Itália, podemos continuar a andar para trás indefinidamente. Todas as línguas vieram de algum lado e, se recuarmos bastante, todos falamos dialectos duma língua qualquer nascida ali para os lados da Somália (estou a especular, claro está). A língua galega, entendida enquanto tal, «nasceu» onde hoje se fala: no noroeste da Península Ibérica.

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