Descobri que há quem ache que vale mesmo a pena perder clientes por causa do Acordo. A opinião será algo do género: se está em causa a língua, tudo vale a pena. Ora, nem está em causa a língua, que é muito mais que este acordo, nem tudo vale a pena neste caso, em que não estamos a pôr em causa a saúde ou os direitos de alguém. Podemos ser um pouco mais moderados nesta questão…

Dou um exemplo: na empresa onde trabalho, se recusássemos trabalhos de tradução em que o cliente pede o uso do novo acordo, seríamos sete pessoas no desemprego em poucos dias.

Mas, claro, que vale isso perante o prazer de argumentar de forma radical, sem tentar analisar as questões com um mínimo de moderação? O importante é conseguir uma vitória retórica contra o vizinho. Os outros que fiquem sem comer na mesa, que eu só não quero ouvir falar do Acordo… É isso?

Na realidade, é possível discutir esta questão de forma um pouco menos extremada. Mas, infelizmente, parece haver poucos incentivos para uma discussão racional entre quem concorda e quem discorda do infeliz acordo. Parece um jogo para ver quem ataca de forma mais forte e pura o outro lado.

Não, meus amigos: a vida real das pessoas é bem mais importante do que os nossos jogos retóricos. Por isso, guardemos os nossos radicalismos para quando precisarmos de salvar vidas ou melhorar o mundo. Não vale a pena perder clientes nem estragar a vida a ninguém por causa de um Acordo inútil.

Para perceberem a minha perspectiva, deixem-me dizer-vos que nunca trabalharia, por exemplo, num projecto relacionado com o anti-vacinismo. Aí, sim, vale a pena perder clientes e até perder o emprego: estão em causa as vidas de milhares de crianças.

Percebem a diferença?

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.