Certas Palavras

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Aproximação a Lisboa

Não tenho viagens suficientes no corpo para conseguir dizer qual é a cidade mais bonita do mundo — e mesmo que tivesse, estaria sempre inclinado para certas cidades que, de qualquer forma, já conheço. Por isso, desconfio dessas declarações de amor destravadas em que alguém diz que uma certa cidade é a mais bonita do mundo só porque vivemos nela (e, no entanto, em certos dias, também caio nessa tentação; não há muito a fazer quando se vive em Lisboa).

Por outro lado, tenho sempre alguma vontade de perceber o que pensa e sente alguém que nunca aterrou ou nunca chegou a Lisboa e a descobre pela primeira vez como é chegar a esta cidade. Acho que todos concordamos que a chegada ao aeroporto da nossa capital deixa muitas pessoas de boca aberta — ainda ontem conversava sobre isso com o meu cunhado, que me contou ter aterrado a semana passada em Lisboa com um grupo de italianos que se mostrava espantado com o espectáculo.

É difícil explicar por que razão a aterragem em Lisboa é tão surpreendente: talvez o facto de o avião dar a volta à cidade (se aterrar de sul) e vermos o mapa da Grande Lisboa ali por baixo, a cidade em redor duma baía muito bem marcada. Talvez as pontes, talvez o tecido das luzes, ou talvez o perigoso trajecto entre prédios, como se pudéssemos tocar-lhes com os dedos. Imagino que alguns estrangeiros pensarão de si para si que estes portugueses são loucos em construir um aeroporto no meio da cidade. Um português não quer saber disso perante uma vista como esta.

Ora, não é só a aterrar que Lisboa é espantosa: quando chegamos de sul, pela Ponte 25 de Abril, temos ali os telhados também à distância dum braço, vários palácios, a Torre de Belém dum lado, Alcântara de outro (e a Baixa lá ao fundo), Monsanto a receber-nos como uma floresta misteriosa — e se repararem bem, conseguem ver a Serra de Sintra lá ao fundo.

Já na Ponte Vasco da Gama temos esse mar imenso que afinal é um rio e a cidade mais baixa, imensa, iluminada e distante. A aproximação é, também aqui, qualquer coisa de deixar o coração bater forte — e curiosamente, há muitos anos, vinha eu do Algarve de autocarro e cheguei acompanhado também por um grupo de italianos que, logo depois da estação de serviço de Alcochete, começaram a ficar agitados e, quando chegámos aí a meio da ponte já estavam em pé, a apontar, e com muitos “ah!” de aprovação nos lábios.

Será que Lisboa afecta especialmente os italianos?

Pois, não sei, mas depois de anos de hábito e muitas chegadas e partidas, afecta-me a mim ainda assim um bocadinho: quando venho pela ponte, não consigo evitar olhar para o lado, mesmo a conduzir, e distrair-me por momentos com a minha cidade.

… Imagino que alguns estrangeiros pensarão de si para si que estes portugueses são loucos em construir um aeroporto no meio da cidade. Um português não quer saber disso perante uma vista como esta…

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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2 Comentários

  1. Quando vou para Lisboa (estudo na FCSH), fascino-me sempre pela paisagem, sobretudo na parte da ponte. Admito que fico assim com um receiozinho de haver um qualquer acidente. A paisagem é aterradora.

    • Marco Neves

      A paisagem no sétimo andar da FCSH também tem que se lhe diga 🙂

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