Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

As crianças precisam de palavras como de vitaminas

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Todos nós sabemos como é importante uma boa alimentação durante os primeiros anos de vida.

Curiosamente, além duma boa alimentação, as crianças precisam, e muito, de palavras.

Isto poderá parecer uma daquelas frases muito bonitas e que querem dizer pouco mais que nada. Mas é verdade de forma muito concreta: a falta de palavras nos primeiros anos tem consequências para toda a vida, tal e qual como a falta de certos nutrientes.

Desde os anos 80 que se sabe (ver artigo da New Yorker citado abaixo) que as crianças privadas duma dose substancial de palavras durante a infância têm mais dificuldades ao longo da vida: dificuldades na escola, no trabalho, na vida do dia-a-dia.

Na prática, a falta de palavras nos primeiros anos acaba por contribuir para diferenças sociais marcadas, que nem a escola consegue apagar. As crianças das famílias com menores rendimentos ouvem, em média, muito menos palavras do que outras crianças e, quando chegam à escola, já chegam com diferenças de desenvolvimento de difícil correcção.

Por isso, tem havido projectos de intervenção social assentes na ideia de que ajudar os pais a falar mais com os filhos é uma forma fácil (e barata) de ajudar a combater o insucesso escolar e a desigualdade.

Temos aqui uma oportunidade de melhoria concreta da vida de inúmeras pessoas, bastando, para isso, alterar alguns hábitos.

Ora, claro está, os hábitos são bichos difíceis de domar. Por outro lado, as palavras são, até ver, de graça. Os pais que conseguem alimentar os seus filhos com um número de palavras significativo conseguem dar-lhes uma ajuda preciosa para a vida, independentemente do rendimento.

Este artigo da New Yorker descreve tentativas de fechar o “word gap” (diferencial verbal) das famílias americanas.

Ora, quando falo de palavras, estou a falar de conversas, perguntas e respostas, interrogações, pais a apontar para objectos e a dizer o nome, perguntas feitas à criança, histórias contadas com princípio, meio e fim, conversas sobre os programas de televisão, para que a criança se habitue a falar do que está a ver e a ouvir.

Não estou a falar necessariamente de palavras muito bem ditas, pronunciadas como que em cima dum palco: estou a falar de todas as palavras, variadas, misturadas, em velocidades diferentes, um caldo linguístico donde saia a criatividade e inteligência verbal que se procura. Misturar línguas, provavelmente, só fará bem. Mas, com misturas ou sem elas, o importante é isto: as crianças precisam de palavras. Muitas palavras.

Mesmo quando tudo o resto falha, quando a crise é um peso nos ombros, mesmo quando é difícil gerir os dias apertados, falar não custa nada e ajuda muito. Podemos falar com os nossos filhos ao acordar, durante o dia, no supermercado, no caminho para a escola, à mesa, sentados no sofá, enquanto brincamos…

Conversar, perguntar, responder, perguntar de novo, falar sem cessar com os nossos curiosos filhos.

É tão importante como as vitaminas — e ainda por cima é muito bom.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.

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4 Comentários

  1. Adela Figueroa Panisse

    Concordo com essa afirmação. Mais ainda, sei que é certo. Nisso eu coloco a importância da literatura oral, os contos e aquelas pequenas anedotas com humor das que crianças tanto gostam. A ironia as “mentiras” divertidas fazem rir a crianças de todas as idades e provocam nelas o intuito de fazerem contos e ironias. Todas as crianças a quem se contam contos querem elas também contar e inventar. Nem sei se a inteligência vai ser estimulada pelos falares das pessoas próximas, mas sim sei que a afetividade vai ser estimulada e também as lembranças da vida em comum com essas pessoas que investiram seu tempo em falar, brincar e rir com crianças.

  2. Maria Cêncio

    É nosso dever cuidar da nossa língua.

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