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Sim, é exactamente isso: as línguas são um problema muito difícil, mas já temos soluções bem antigas…

  1. Aprender outras línguas (é sempre demorado, mas nunca é impossível);
  2. Pedir ajuda aos tradutores e intérpretes (e olhem que já cá estamos há muito tempo, apesar de sermos proverbialmente invisíveis).

Ora, há problemas de comunicação bem mais difíceis: as chatices do dia-a-dia; as diferenças culturais; as diferenças ideológicas; as diferenças de temperamento; a falta de paciência; as ideias erradas com que nos enganamos; a arrogância com que desprezamos os outros; o desejo de não perder a face numa discussão; e por aí fora…

E, depois, há ainda isto: nós, humanos, adoramos dividir-nos em grupos.

Fomos feitos assim pelos insondáveis cálculos da evolução por selecção natural, que nos deixou inscrito no cérebro um tribalismo tremendo, que nos faz matar pelo grupo e odiar quem é diferente — basta para isso estarmos convencidos que os outros nos odeiam ou, pelo menos, que estão contra os nossos interesses (e basta quase nada para nos convencer disso mesmo).

Sentimos o sangue a ferver pela tribo. Lutamos de lança na mão. Estamos obcecados pela identidade, pela nação, pelo clube. Não gostamos de ambiguidades no que toca à tribo. Estamos permanentemente alerta para detectarmos traidores à pátria — seja a pátria a nação propriamente dita, o partido, o clube, o grupo de amigos ou seja o que for.

Chamemos-lhe tribalismo ou, até, se quiserem, instinto de divisão.

Ora, quando falamos com alguém que julgamos fazer parte doutra tribo (ou em quem julgamos encontrar alguma ambiguidade em relação à nossa tribo), não há tradutor que nos valha: vamos sempre interpretar da pior forma possível, vamos sempre ouvir o outro como se estivesse a falar a mais obscura das línguas.

Como resolver isto? Enfim, não sei. É um problema que vai muito para lá da tradução (e a tradução já é um problema bem bicudo).

Mas, tal como no caso das línguas, este problema tem muito a ver com palavras. Os grupos em que nos dividimos usam palavras ligeiramente diferentes (discursos diferentes) — ou, às vezes, sentem de maneira diferente as mesmas palavras.

Basta lançar para cima da mesa uma palavra tão simples como “futebol” e há quem se lembre do jogo que adora; outros haverá que sentirão a pulsar dentro de si a indignação pela “alienação da população portuguesa”. (Outros, ainda, sentem uma certa ambivalência: “Ah, sim, aliena, mas é bom.”)

Ouvimos a palavra “literatura” e uns lembram-se da emoção tremenda de ler aquele livro ou do prazer que é estudar a fundo um determinado autor. Outros têm uma vaga memória de livros que os professores lhes tentaram impingir há muito tempo e de alguns discursos inflamados sobre o valor da literatura que lhes dizem muito pouco.

Sim, somos muito diferentes — mas também mais parecidos do que pensamos. Não é impossível, muito de vez em quando, derrubar uma das muitas barreiras que erguemos em nosso redor. Não é impossível aprendermos a viver com o nosso tribalismo instintivo e aproximarmo-nos um pouco mais uns dos outros.

Afinal, também havia quem dissesse que a tradução era impossível…

O meu livro mais recente é A Baleia Que Engoliu Um Espanhol (Guerra & Paz, 2017). Sou ainda autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa e Doze Segredos da Língua Portuguesa. Saiba mais nesta página.