AS VACINAS SÃO uma das maravilhas do mundo moderno — sim, eu sei que há muita gente que não gosta deste tal mundo moderno, gente que tudo faria para voltar atrás, mas talvez possamos todos concordar que há uma coisa ou outra que tem vindo a melhorar e uma delas é a mortalidade infantil.

Nos velhos tempos do século XIX morriam tantas, mas tantas crianças que poucas pessoas haveria que não tivessem irmãos falecidos durante o primeiro ano de idade. Ora, sendo normal, não era menor o sofrimento de cada uma das crianças vítimas de doenças que hoje já nem conhecemos — juntem a esse sofrimento o dos pais e pensem na importância e no valor de qualquer tecnologia que evite a morte de milhões de crianças.

Ora, durante o século XX, houve alguns desenvolvimentos que ajudaram a diminuir a mortalidade infantil para níveis muito baixos em todo o mundo (embora, como sabemos, com variações geográficas). Como sublinha a The Economist, tirando a água potável e o saneamento básico, nada contribuiu tanto para a melhoria da saúde dos seres humanos como as vacinas.

As vacinas são uma bomba atómica, mas boa: salvam milhões e milhões de crianças. Claro que não sabemos quais as crianças que foram, de facto, salvas, porque esta invenção actua a nível colectivo e não individual. Só quando uma sociedade implementa as vacinas em larga escala podemos notar os efeitos.

E que efeitos! Basta darmos o exemplo do desaparecimento da varíola: durante o século XX, esta doença matou mais de 300 milhões de pessoas — muito mais do que a Segunda Guerra Mundial. Hoje, não mata ninguém. Só por este motivo, as vacinas já deviam ser consideradas a grande invenção do ser humano. Muitas outras doenças diminuiram de forma espantosa, estando algumas a caminho da erradicação.

O mecanismo das vacinas é bem conhecido: introduz-se no corpo uma pequena quantidade dos micróbios que provocam cada doença, mas depois de os desactivar. Em muitos casos, o que entra no corpo são apenas invólucros vazios. O corpo pode, assim, treinar as suas próprias defesas naturais contra o micróbio (ou seja, criar os anti-corpos correctos) e, se vier a encontrar a doença no dia-a-dia, envia soldados muito bem treinados (os anti-corpos), não dando hipóteses aos invasores. No fundo, é a diferença entre termos um exército a combater uma invasão sem qualquer treino (pessoas não vacinadas) ou com anos de prática em cima (pessoas vacinadas).

ORA, A VERDADE é que anda por aí a moda de criticar as vacinas. Esta é uma mania que ainda não chegou em força a Portugal, mas não deverá demorar muito. Pelos vistos, nalguns meios, é “cool” ser anti-vacinação, como se fosse prova de lucidez duvidar duma tecnologia que salva milhões de pessoas e está mais do que testada por cientistas de todo o mundo e de todas as sociedades e sistemas políticos.

Muitas das pessoas que lutam contra as vacinas não o fazem por mal: pensam genuinamente estar a defender os seus filhos ao atacar as vacinas. Algumas argumentam com a liberdade, esquecendo que há coisas em que temos de aceitar alguma redução da liberdade: eu não sou livre de andar a conduzir embriagado. Além disso, a minha liberdade acaba onde começa a liberdade dos nossos filhos de crescer saudáveis. Alguns argumentam com a ideia de que as vacinas são uma espécie de ataque à natureza porque a vacinação é algo artificial e estamos a introduzir químicos nos nossos corpos. Ora, meus amigos, até a cozedura é algo artificial, se pensarem bem. E a natureza está cheia de venenos… O que importa é a realidade, não as palavras vagas que vamos atirando para cima uns dos outros.

Vou parar por aqui. Já estava a cair na tentação de argumentar, quando a discussão não é racional. Não há razões ou argumentos que convençam estes movimentos. Estamos a falar dum problema de infecção narrativa.

Neste caso dos movimentos anti-vacinação, quem neles acredita mistura o discurso anti-ciência a umas ideias muito vagas que associam as vacinas a tudo o que é industrial, artificial e aos lucros das grandes empresas (o facto de haver empresas a lucrar com alguma coisa não significa que essa coisa seja necessariamente má — há quem lucre com a educação…).

Estas pessoas lêem uns quantos artigos num qualquer site da indústria do pânico, conversam com alguns pais à porta da escola, sentem o medo pelos filhos que é o pão nosso de cada dia de qualquer pai — e, claro, desconfiam do que dizem os vários governos, desconfiam desses arrogantes cientistas, acham que enfiar coisas nos corpos dos filhos só pode ser algo muito mau — e ficam infectados com esta narrativa anti-vacinação que podemos chamar de doença narrativa, uma infecção de que os portadores talvez não tenham culpa, mas que tem consequências fatais para algumas crianças. Morrem por causa da ignorância dos pais.

Felizmente, os casos fatais são poucos porque a maioria da sociedade não sucumbiu a esta doença. Mas temos de estar atentos à epidemia que grassa por outros países…

Uma vez infectados, os doentes vai alimentando a própria infecção, conversando apenas com quem com eles concorda, ficando indignados com as opiniões contrárias, fechando-se num pequeno mundo onde estas narrativas fazem sentido e eles próprios são heróis no combate à grande conspiração global que está a tentar enfiar essas malditas vacinas nos corpos dos nossos filhos.

O QUE FAZER? Enfim, com alguma calma, convém explicar a quem ainda não foi infectado o que são as vacinas, para que servem, o que fazem, que riscos têm… — sim, porque, obviamente, as vacinas têm riscos, mas estamos a falar de riscos minúsculos em comparação com o risco quase certo de morte de milhões de pessoas por falta de vacinação.

Temos de ter noção da força do nosso inimigo: esta forte narrativa, uma vez introduzida num qualquer cérebro, sabe defender-se muito bem, acusando quem a combate de fazer parte duma qualquer conspiração. Imagino já algum leitor a abanar a cabeça e a pensar que estou a soldo das grandes farmacêuticas…

Não estou, claro. Estou do lado dos imensos cientistas que, por este mundo fora, tentam encontrar melhores vacinas e curas para as doenças que todos odiamos.

Quem nos dera a nós que os cientistas conseguissem encontrar vacinas para as doenças que ainda restam. Em vez de os andarmos a acusar de conspirações inexistentes, talvez fosse boa ideia apoiá-los nessa luta que é de todos nós.