Segure-se bem. Vamos falar de coisas que mexem cá fundo com um indivíduo. Sobretudo se for português… Bom, está firme? Aqui vai então.

Ao longo dos cem anos do século XVI, o português absorveu 246 (duzentos e quarenta e seis) adjectivos de fabrico castelhano. Esses, os que identifiquei até hoje. Terão sido mais.

Repare-se: falamos só de adjectivos, deixando de fora os verbos e os substantivos também adquiridos do castelhano, e que não foram poucos. Deixaram-se de fora, igualmente, os abundantes adjectivos que o castelhano havia tomado do latim, e que nesse século XVI fizemos nossos também, depois de os havermos lido e relido em textos castelhanos.

Lido… ou ouvido. No século de Quinhentos, eram numerosas as peças de teatro espanholas que percorriam as nossas cidades, numerosos os pregadores espanhóis que ecoavam nas nossas igrejas, numerosos os cânticos e cantigas em espanhol que enchiam capelas e ruas.

Foi isso: sem a maioria dos falantes se aperceber, o português ia-se modernizando em castelhano. Pode parecer-nos hoje incrível, mas cerca de 95% do vocabulário ‘culto’ documentado em português nos séculos XVI e XVII foi por nós absorvido do idioma vizinho.

Agiram eles bem, os nossos tetravós? Sim e não. A língua de Castela gozava, ao tempo, de enorme difusão na Europa, e toda a convergência com ela fornecia ao português virtualidades inegáveis. Para mais, o castelhano era, nessa época, um idioma particularmente desenvolvido, maleável, coerente. Numa palavra, ‘moderno’. Mas o preço pago foi alto. Tanta riqueza ali ao virar da esquina dispensou o português de investir a fundo em si próprio, explorando ao máximo o léxico autóctone para as novas necessidades da expressão.

Dentre esses 246 adjectivos castelhanos que, só nesse século de Quinhentos, o Português fez seus, destaquemos alguns, por ordem de entrada: maciço, comedido, malogrado, moreno, varonil, desditoso, bonito, mulato, airoso, desgrenhado, pontiagudo, boçal, lastimoso, matreiro, bisonho, nublado, incansável, pressuroso, bravio, atilado, teimoso, apaziguado, comilão, madrugador, caudaloso, trapaceiro, desabrido, pujante, cabisbaixo, boquiaberto, sangrento, descarado.  

Os casos de pontiagudo, cabisbaixo e boquiaberto são particularmente curiosos. São três formações únicas, três achados irrepetíveis, que, uma vez cunhados, só já podem ser copiados.

E assim foi, efectivamente. Em 1504, certa obra castelhana sobre agricultura, fala dum archote “bien pontiagudo”. Em português, o termo vai aparecer numa crónica de 1535, onde são referidas “pedras ponteagudas”, será dicionarizado como pontiagudo, em 1562, por Jerónimo Cardoso, e voltará a ser testemunhado no ano de 1600, num livro do jesuíta João de Lucena. Dos autores portugueses, sabemos que tiveram trato assíduo com o castelhano.

Eis, de facto, as três principais circunstâncias que denunciam um castelhanismo: 1. a palavra já circula largamente em Castela, 2. a forma deriva doutras formações castelhanas, ou é complexa, e 3. surge entre nós em ambiente castelhanizante.

Passemos ao caso de cabisbaixo. A primeira ocorrência de cabizbajo conhece-se de 1513, numa carta do religioso Antonio de Guevara. Demorará a entrar no português, onde cabisbaixo é documentado em 1589, numa obra de Amador Arrais. Quanto a boquiabierto, ele surge na Segunda Celestina, de 1522, e a espera foi semelhante: boquiaberto aparace em 1594.

Outros três adjectivos merecem comentário. São eles bonito, varonil e bisonho.

Podemos perguntar-nos: como se exprimia até 1500 um português que achasse certa coisa, ou alguém,  ‘agradável à vista’? Pois escolhia entre formoso (ou fermoso) e belo. Mas agora o castelhano inventara bonito, e ele acabou por tornar-se, também entre nós, o mais corrente. A história de varonil vai mais atrás. O galego e o português medievais tinham a forma baroíl, provavelmente uma adaptação patrimonial do castelhano varonil ou baronil. Esse baroíl vai conservar-se até pelo menos 1600, mas Gil Vicente, numa peça de 1521, tinha-o reconduzido a baronil, que depois se fixou em varonil. Já bisoño, documentado desde 1517, foi importado de Itália por militares espanhóis. Designava um soldado inexperiente, que repetia às chefias Io bisogno (“Eu necessito”) isto ou aquilo. Em espanhol, e depois em português, significava indivíduo ‘principiante, caloiro’, mas passou, no nosso idioma, a sinónimo de ‘tímido, assustadiço’.

Uma nota à margem. Com tão volumosas importações, o português acabou por conservar formas que o espanhol, mais tarde, deixou arcaizar, e finalmente abandonou. Entre elas estão: afrontoso, ajaezado, assisado, cediço, caridoso, desgostoso, figadal, galhofeiro, lastimável, sequioso.

Todas estas realidades são-nos praticamente desconhecidas. As nossas Histórias da Língua evitam estes temas incómodos. A imagem dum Português tão dependente da língua de Castela desagrada-nos, revolta-nos, obriga-nos a esquecer essa página do nosso percurso. Preferimos um idioma à imagem que fazemos de nós mesmos: altivo, independente, dominador. E esse idioma existe, realmente. O problema é que, ao recalcarmos aquele tão relevante lado da nossa história linguística, privamo-nos de descobrir o seu contrário: o que o Português tem de próprio, de exclusivo, de irredutivelmente seu.

Mértola, 25 de Junho de 2017

Fernando Venâncio (Mértola, 1944). Licenciou-se em Linguística Geral na Universidade de Amesterdão, onde também se doutorou. Foi docente de Língua e Cultura Portuguesa em várias universidades holandesas. É investigador sénior em História do Léxico Português. É ainda tradutor e escritor, com longa presença na imprensa escrita portuguesa.