Divida-se pessoas à sorte entre encarnados e verdes e ponha-se essas pessoas a jogar qualquer coisa. Rapidamente, a tensão vai aumentar. O nosso sentido tribal agarra-se a qualquer coisa, uma qualquer etiqueta tribal que nos faça sentir parte de de um grupo que nos protege e a quem devemos lealdade. No caso do desporto, estas etiquetas são pouco mais que aleatórias. É o que basta.

Se deixarem passar décadas e gerações, temos isto: ódios de morte, narrativas muito completas de agravos e acusações, identidades bem definidas, insultos tradicionais, discursos e palavras que já estão batidos, mas põem sempre o coração tribal de cada um a bater. Basta, por vezes, os nomes das tais tribos: “Benfica” e “Sporting” e “Porto” (e as outras, claro).

Sim, é só um jogo (de que por acaso gosto mundo), mas, quando juntamos as claques ao barulho, é também uma forma de canalizar esse tribalismo biológico, especialmente aceso pela testosterona no sangue, ou seja, entre os homens até aos 30 anos (não que seja exclusivo desse grupo demográfico; estou a falar do perfil típico).

É um jogo, mas assusta. Olhamos para aquelas bancadas e vemos uma força terrível, bruta, difícil de controlar, que por aqui se apresenta nos jogos entre o Benfica e o Sporting, mas noutras paragens diverte-se a queimar pessoas em jaulas ou a odiar profundamente o povo vizinho: a força não parece assim tão diferente. Esta força tribal, que odeia de forma radical os outros (da outra equipa, do outro povo, da outra religião), floresce em ambientes nacionalistas, ou religiosos, ou desportivos. Apesar de tudo, temos sorte em ter os nossos bárbaros ocupados a ver a bola.

Por outro lado, não se esqueçam que somos todos farinha do mesmo saco. Quando uma sociedade se esquece disso, vai a caminho duma barbárie bem menos… desportiva.