Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Categoria: Crónicas (Página 1 de 23)

Qual é a língua de Andorra?

Se os jogadores da Selecção tiverem tempo para passear um pouco pelas ruas de Andorra la Vella, ouvirão certamente muito espanhol, algum francês e muito português também. No entanto, nenhuma dessas línguas é a língua oficial do país. A língua de Andorra é o catalão.

É assim há séculos e, por essa razão, o catalão nunca foi apenas uma língua regional. É, para todos os efeitos, a língua dum país soberano.

Já agora, a história daquele pequeno território tem muito que contar: Andorra é independente desde o século XIII e foi criada por desavenças entre condes e bispos. Chegou a ter um russo a arvorar-se como rei ali por volta dos anos 30 do século passado (Boris I de Andorra) e desde 1993 que é uma democracia parlamentar. Tem como príncipe duas pessoas: o Bispo de Urgell e o Presidente da França. Os dois co-príncipes fazem tanto como a rainha Isabel II no Canadá: praticamente nada. Mas são os monarcas de Andorra.

Voltando à língua do país, nos últimos dias, por causa da questão catalã, ouvi aquilo que pensava já não ser possível: pelos vistos, ainda há muitos portugueses que, noutras matérias, estão bem informados, mas no que toca às línguas ibéricas ainda imaginam que o catalão é um dialecto — é o que ouvi chamar ainda há pouco à língua falada por milhões de pessoas do outro lado da península (e, pasme-se, numa pequena cidade italiana).

Ora, a diferença entre língua e dialecto não é simples. Podemos dizer — é uma maneira de ver a coisa — que, num espaço onde convivem dialectos próximos, serão línguas aqueles dialectos que ganharam prestígio para serem usado na escrita, ensinados nas escolas, imaginados enquanto idiomas duma comunidade — isto, claro, quando estamos a tentar discernir as divisões entre formas de falar próximas, como são todas as línguas latinas (o basco, por exemplo, não está sujeito a estas questões: é claramente uma língua, tão diferente do espanhol como o japonês).

Não é simples, pois. Mas neste caso, não há grande lugar para dúvidas. O catalão está separado do castelhano por divisões semânticas e morfológicas bem marcadas no universo das línguas latinas. Há semelhanças, claro, quer devido à comum origem latina quer devido a trocas de palavras e estruturas gramaticais, mas são línguas claramente distintas. O catalão é, no fundo, a evolução do latim popular na zona da Marca Hispânica. A sua origem é distinta da do castelhano.

Não é fácil mostrar uma língua em pouco espaço, mas aqui fica o artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos nas duas línguas:

  • Castelhano: «Todos los seres humanos nacen libres e iguales en dignidad y derechos y, dotados como están de razón y conciencia, deben comportarse fraternalmente los unos con los otros.»
  • Catalão: «Tots els éssers humans neixen lliures i iguals en dignitat i en drets. Són dotats de raó i de consciència, i han de comportar-se fraternalment els uns amb els altres.»

E uma frase que mostra algumas diferenças óbvias:

  • Castelhano: «Quiero hablar con mi primo.»
  • Catalão: «Vull parlar amb el meu cosí.»

Já que falamos da língua, aqui ficam algumas indicações sobre como pronunciar as palavras:

  1. O «e» em sílabas átonas lê-se de forma muito parecida ao nosso «a» fechado. Assim, o «els» catalão soa-nos «âls». Já «clássiques» lê-se precisamente como «clássicas» à portuguesa. O próprio nome de Barcelona lê-se «Barçalona»…
  2. Em geral, o catalão tem vogais mais parecidas com as portuguesas do que com as espanholas. Assim, «Catalunya» lê-se como «Câtâlunha» em português e não como a «Cátáluña», com «aa» abertos, do espanhol.
  3. A combinação de letras «ig» lê-se como «tch» ou «dj». Já o «t» no final duma palavra não se lê. Assim, o nome do agora famoso presidente (Puigdemont) lê-se «Pudjdamon». A terra Puigcerdà lê-se «Putchsardá»
  4. O «j» lê-se à portuguesa.
  5. Já o «ny» é como o «nh» português.
  6. O «ll» é como o «lh» português.
  7. Já o «l·l» (um símbolo muito catalão) lê-se como dois «l» separados, como em «síl·labes».
  8. Note-se ainda o «ç», que não existe em espanhol, mas está em tantas palavras catalãs (a começar por «Barça»). Lê-se à portuguesa, pois então.

Enfim, não é preciso ser a favor da independência da Catalunha para reconhecer algo que é bastante claro: o catalão é uma língua — e uma língua com milhões de falantes (mais do que o dinamarquês, por exemplo) e uma grande tradição cultural e literária.

Para terminar, aqui fica o hino de Andorra, que os jogadores portugueses vão ouvir amanhã. No fim, claro, ganha Portugal.

El Gran Carlemany

El gran Carlemany, mon pare,
dels alarbs em deslliurà,
i del cel vida em donà,
de Meritxell la gran Mare.
Princesa nasquí i pubilla
entre dues nacions, neutral;
sols resto l’única filla,
de l’imperi Carlemany.
Creient i lliure onze segles,
creient i lliure vull ser
siguin els furs mos tutors
i mos Prínceps defensors,
i mos Prínceps defensors!

A terra espanhola que a França engoliu

Há muitos anos, fui com os meus pais e uns amigos até Andorra. É história com peripécias curiosas — mas o relato fica para outro dia. Hoje quero apenas chamar a atenção do leitor para um segredo escondido no mapa.

Quando terminaram os dias de férias em Andorra, convenci os meus pais a passar por França antes de voltar a Espanha. Não foi muito difícil: quem se mete numa carrinha para atravessar a Península não se importa de fazer mais uns quilómetros só para dizer que foi a França.

Era um desvio pequeno… Subimos até Pas de la Casa — e passámos a fronteira. Fiquei feliz. Aqueles pouquíssimos quilómetros a atravessar um canto esquecido de França eram o suficiente para dizer que já tinha ido a cinco países.

Dizer a quem? Ao mundo! Aos meus botões! Tinha 13 anos, diga-se. Há entusiasmos muito adolescentes — embora a excitação de passar uma fronteira nunca tenha desaparecido.

Bem, não interessa: estávamos em França. Desse percurso francês, lembro-me de duas coisas.

Primeira recordação: olho pela janela da L300 e vejo um castelo com a bandeira francesa no topo. Se fosse hoje, teria tirado uma fotografia. Como estávamos em 1994, não tirei, porque já tinha gasto a minha dose de 24 fotos.

Segunda recordação: eu ia com o mapa na mão, nesses tempos sem telemóveis. E comecei a ficar entusiasmado quando percebi que, mais à frente, entraríamos numa espécie de vórtice geográfico. Iríamos passar perto duma terra engolida por França.

E, de facto, quando chegámos a Bourg-Madame (há lá terra com nome mais francês?), vimos duas placas: para a esquerda, «ESPAGNE». Para a direita, «ESPAGNE».

Mas, então? Como era possível?

Basta olhar para o mapa:

Este foi o percurso que fizemos em França, entre a fronteira de Andorra e a fronteira de Espanha — se o leitor olhar com atenção, vê ali no canto inferior direito um pequeno território em forma de croissant. Trata-se do município catalão de Llívia. É território espanhol completamente rodeado por França!

Como é que isto aconteceu?

A história conta-se assim — espero não simplificar demasiado. Em 1640, os catalães revoltaram-se contra a coroa espanhola, que andava a tornar-se demasiado castelhana para o gosto daquelas paragens (dizem por aí que não foram os únicos a aborrecerem-se nesse preciso ano).

A revolta é apoiada por França (nós, por cá, gostávamos mais de pedir ajuda aos ingleses). A Catalunha e a França entram então em guerra com Espanha, guerra essa que só termina em 1659, quando as duas coroas assinam o Tratado dos Pirenéus.

Ora, como em todos os tratados de paz, há concessões a fazer. Uma das concessões de Espanha à França foi a passagem para mãos francesas do Norte da Catalunha:

Divisão da Catalunha. Fonte: Wikipédia

O tratado estipulava que todas as aldeias da comarca catalã da Cerdanha que estivessem na vertente norte dos Pirenéus passariam para a coroa francesa. Ora, Llívia tinha o estatuto de vila e não de simples aldeia — logo, ficou fora do tratado e manteve-se em mãos espanholas, apesar de estar rodeada por território que era agora francês.

Quadro de Laumosnier que representa a assinatura do Tratado dos Pirenéus entre Luís XIV e Filipe IV.

Diga-se que os catalães não gostaram muito dessa divisão e os franceses demoraram ainda várias décadas a conseguir controlar, de facto, a zona.

Hoje em dia, a Catalunha Norte está no departamento francês dos Pirenéus Orientais. Por lá, ainda nem todos esqueceram o catalão e há algumas organizações apostadas em renovar as relações com a Catalunha a sul da fronteira. No entanto, o francês é a língua dominante e o catalão sobrevive mais por causa da força que tem hoje a sul da fronteira. (E em Llívia? O catalão é a língua da terra, claro. É oficial, em conjunto com o castelhano.)

Voltando à minha viagem: a tal terra de nome muito francês por onde passámos (Bourg-Madame) foi, portanto, catalã durante séculos e séculos. E tinha um nome bem catalão: la Guingueta d’Ix.

O nome ainda sobrevive — para lá dos livros de História — na designação francesa para os seus habitantes: são chamados de Guinguettois.

Bem, nesse dia de Agosto de 1994, não pude visitar Llívia. Lá entrámos na Espanha da direita, em direcção a Barcelona. Mal sabia eu o que nos iria acontecer por lá — mas essa outra história terá mesmo de ficar para outro dia.

Os catalães não aprendem espanhol?

Isto não tem a ver com a agora famosa independência da Catalunha. Ou melhor, lido de certa maneira, aquilo que vou dizer a seguir pode servir de argumento contra a independência.

Ora bem, roda por alguns mentideros de Madrid esta ideia: os catalães não querem ensinar espanhol aos filhos. Contam-se histórias horrorosas de crianças a aprender a ler e a escrever em catalão (que horror!).

Essas ideias servem depois para acusar os ditos catalães de serem especialmente fechados e terem uma atitude retrógrada em relação às línguas. (Muitas vezes isto é dito por quem sabe apenas uma língua…)

Bem, agora olhemos para a realidade: sim, o sistema de ensino catalão (a autonomia catalã abrange o ensino) usa a língua catalã como língua de ensino de muitas disciplinas: os catalães aprendem matemática e física em catalão (olhem lá o desplante!).

Não me parece nada de extraordinário: há línguas faladas por menos pessoas que também são línguas de ensino: o dinamarquês, o norueguês… Na Suíça, onde a maioria dos habitantes falam alemão, as zonas de língua francesa ou italiana também usam o francês ou o italiano como línguas de ensino.

Quando este sistema foi criado, a ideia era que todas as crianças aprendessem as duas línguas: afinal, o castelhano era falado por todos (como primeira ou segunda língua) e o catalão só por metade da população, apesar de ser uma língua com longa tradição e considerada materna por milhões de catalães.

E o espanhol (ou castelhano)? Ao contrário do que dizem as tais más línguas, é de aprendizagem obrigatória em todo o sistema de ensino. Os alunos da primária aprendem a ler e a escrever em catalão — e em espanhol. Durante os anos seguintes, têm sempre espanhol como disciplina obrigatória.

Resultado: os alunos catalães sabem todos falar espanhol como falantes nativos — e também catalão. Acabam bilingues, o que parece fazer muita confusão a espanhóis de outras zonas. Os resultados dos alunos catalães nos exames de espanhol não são piores que os de outras zonas. São mesmo jovens bilingues (o que não me parece mau).

Ou seja, qual a diferença entre um jovem catalão e um jovem madrileno no que toca às línguas? O catalão fala catalão e espanhol — e aprende inglês. O madrileno aprende espanhol — e inglês. O catalão leva uma língua de vantagem. Sabe ler Cervantes, mas também Mercè Rodoreda, Joan Maragall e todos os outros escritores de língua catalã.

Agora, talvez não fosse má ideia — se de facto querem uma Espanha unida — que todos os espanhóis assumissem as várias línguas espanholas como suas. Assim, as outras línguas não castelhanas deviam ser consideradas línguas de Espanha mesmo a sério, deviam adornar os edifícios do governo central e deviam ser aprendidas, como opção (não queiramos exigir aos espanhóis de outras zonas o que se exige aos catalães…).

Assim, uma criança madrilena podia aprender um pouco de catalão. Porquê? Para conhecer outra das línguas, das literaturas e das culturas do seu país. Não é preciso ser obrigatório: apenas uma opção. Também podia ter como opção o galego e o basco. A Espanha podia começar a ver-se como país de muitas línguas, em que todos os espanhóis, qualquer que seja a língua materna, se sentem em casa. Ninguém deixaria de aprender castelhano na escola. Ninguém ficaria prejudicado. Haveria um custo, claro: professores, manuais, horários… Mas será um custo assim tão grande? Será assim tão caro ou inconcebível querer aprender a língua daqueles que consideramos nossos concidadãos?

Se disserem isto a um madrileno, provavelmente irão ouvir um riso de surpresa, como se fosse a ideia mais absurda do mundo. E é pena! Porque se o madrileno for — legitimamente — contra a ideia de partir Espanha e deixar sair a Catalunha, então deveria considerar o catalão e a cultura catalãs como um pouco suas. Ou não?

Há 800 anos, a Catalunha era parte de Espanha?

Tenho ouvido dizer por aí que a Catalunha já é espanhola há 800 anos. Ora, temos um problema: nessa época, não havia Espanha…

Depois deste mapa, os reinos começaram a unir-se uns aos outros — muitos dos reis ibéricos queriam ser chefes disto tudo e usaram as técnicas habituais: guerras e casamentos.

Que nós, no fim, tenhamos sido os únicos a conseguir escapar a essa lógica centralista foi fruto do sangue e suor de muitos — e de alguma sorte, como em tudo.

Pelo caminho, houve tentativas de união de vários lados — e até nós chegámos a invadir os vizinhos para ver se uníamos Portugal a Castela, vejam lá bem.

Por fim, à força da Guerra da Restauração, conseguimos deixar de lado a ideia de juntar Portugal ao projecto — e mais tarde convencemo-nos a nós próprios que nunca tínhamos participado nestas andanças.

Hoje, quando nos distraímos, acabamos por acreditar que esta península dividida em dois estados sempre existiu…

Os outros povos da península, na verdade, só se uniram num Estado realmente unificado (e muito castelhano) lá para o século XVIII — e muitos nunca se sentiram confortáveis nesse projecto duma Espanha castelhana. Não é de agora — e também não vale a pena fingir que nunca tivemos nada a ver com isto.

Enfim. É certo que podemos contar esta História de muitas maneiras. Mas uma coisa parece clara: há 800 anos, os catalães não eram espanhóis (pelo menos no sentido que damos hoje à palavra).

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A Catalunha e a banda desenha húngara

Todos nós temos aquele amigo que gosta de qualquer coisa muito estranha a que mais ninguém liga. Nuns casos, será a banda desenhada húngara; noutros será o cinema do Cazaquistão; imagino ainda quem tenha um gosto muito particular por literatura do Tajiquistão ou pelas as revoltas internas na província de Sichuan na China.

Pois, para os meus colegas da faculdade, eu era esse amigo esquisito com uma mania absurda. Todos eles sabiam de cor: eu tinha uma peculiar e inexplicável inclinação por tudo o que tivesse alguma coisa a ver com a Catalunha.

Sim, sabia mais do que é saudável sobre a sua história, lia literatura catalã (!) — e quando jogávamos ao jogo do STOP e calhava letra C, eu punha de propósito «Catalunha» na coluna dos países. Os meus colegas, entre dentes, rosnavam que isso não é um país, já a saber o que vinha aí. Eu sorria e dizia que, tudo bem, aceito o critério de que um país tem de ser independente para entrar na ONU e no jogo do STOP, mas sendo assim que ninguém se atrevesse a escrever «Escócia» quando calhasse a letra E. Algum colega mais distraído ainda dizia, por vezes, «isso é diferente» — mas os outros faziam-lhe olhos de terror, como quem diz «não digas nada, que este é maluco».

Depois, cheguei a escrever artigos para revistas da faculdade, cartas do leitor em jornais, e sempre que podia entregava trabalhos sobre tão simpática nação (espero que nenhum madrileno me bata por ter usado esta palavra). Entretanto, arranjei um carro. O Luís (sei que foste tu!) escreveu com o dedo no vidro sujo: «Lava-me, porco catalão!»

Enfim, isto tudo para dizer que agora me sinto como o tal geek da banda desenhada húngara que já estava resignado a viver num país onde ninguém liga nenhuma à banda desenhada húngara. Um dia, acorda e fica de olhos arregalados quando percebe que, em todos os telejornais, em todos os títulos, em todas as conversas de Facebook — toda a gente desatou a falar da banda desenhada húngara. E, espantosamente, todos sabem tudo sobre banda desenhada húngara!

Sinto-me como esse pobre maluco da BD magiar, que não sabe se há-de estar contente com o interesse repentino do país inteiro pela sua pancada (a banda desenhada húngara é cool!) ou furioso porque todos falam sobre o assunto com a mania que sabem e não passaram os anos todos que ele passou a ler e a estudar a excelente banda desenhada húngara! Ah, o prazer que se esconde nos quadradinhos de Pál Korcsmáros!

A certas horas, já apetece gritar: porra, já se calavam com a banda desenhada húngara! Quero voltar a ser eu o esquisito!

Mas depois lá deixo subir aos lábios um sorriso matreiro: estão a ver como o assunto é interessante e cheio de perspectivas diferentes, histórias que ninguém conhecia e muita emoção à flor da pele? Ah, pois é! Agora vamos lá ver é se nos quadradinhos desta BD não desata tudo ao estalo.

O dia em que ia atropelando um polícia espanhol (e outras aventuras na fronteira portuguesa)

Hoje apetece-me falar da fronteira — ou pelo menos da atracção fatal que tal risco no mapa exerce em certas pessoas. Para começar, conto o dia em que quase atropelei um polícia espanhol e, para terminar, deixo-vos o relato da noite em que raptei três amigos para os levar até Espanha — duas vezes!

1. O dia em que quase atropelei um guarda civil

Foi por pouco que não apareci nas notícias como o português que atropelou um guarda civil. Tinha a carta há muito pouco tempo — e fui com a minha família até Barcelona, atravessando a costa toda do Mediterrâneo. Fomos numa autocaravana. Sem ar condicionado. Em Agosto. Mas, enfim, a história dessa viagem, que teve as suas peripécias, ficará para outro dia.

Hoje conto apenas isto: ia o meu pai a conduzir o trambolho pela Via do Infante, quase a entrar em Espanha, quando me lembrei que nunca tinha atravessado a fronteira a conduzir! Parece coisa pouca, mas para quem tirou a carta há pouco tempo, este tipo de marcos da vida automobilística tem alguma importância. (Ou então sou só eu que sou mesmo muito estranho. É possível.)

Pois bem, o meu pai deixa-me pegar na traquitana, apesar de haver um senão: o contrato de aluguer da dita tinha uma cláusula que implicava a proibição de o condutor ter menos de 1 ano de carta — o que era o meu caso.

O meu pai lembrou-se disso, a minha mãe também, mas eu insisti. Eles deixaram: não havia de ser por cinco minutos que a coisa iria correr mal e eu queria mesmo muito atravessar a fronteira a conduzir.

E assim me meti atrás dum volante enorme, acelerei a fundo e lá fui com a minha família aos saltos pela Via do Infante, para atravessar a fronteira pela primeira vez de pedais nos pés.

Era de noite. Vi aparecer ao fundo a ponte sobre o Guadiana. Espanha à vista e eu a conduzir!

Atravessámos a fronteira e eu feliz…

Pois não é que logo após a fronteira encontrei uma catrefa de guardas civis no meio da estrada? Um deles acenava com a sua luz, fazendo um gesto ambíguo, que eu não sabia se queria dizer «por favor, pare e mostre lá a carta e o contrato dessa coisa para eu poder multá-lo ou mesmo prendê-lo» ou «siga para a direita, que há obras na estrada».

Sem saber o que fazer, bloqueei. Sim, bloqueei ao volante. Ou seja, continuei a conduzir a autocaravana em direcção ao pobre guarda civil, que arregalou os olhos, continuou a acenar com a luz cada vez mais depressa e desatou a rezar às virgens todas e a maldizer os portugueses todos.

A minha mãe gritou, o meu pai saiu lá de trás para ver o que se passava, os meus irmãos riam-se sem parar e eu consegui dar uma guinada a tempo. Acabei por passar a 30 centímetros do guarda civil e continuei pela estrada fora.

Quando já não via luzes de polícia no retrovisor, travei e implorei ao meu pai para nunca mais me deixar conduzir aquele monstro.

Sentado lá atrás, enquanto avançávamos pela Andaluzia, ainda temi ver atrás de nós as luzes da guarda civil à procura da perigosa carrinha portuguesa. Mas, não. O senhor guarda deu-se por feliz por não acabar os dias debaixo dos pneus duma autocaravana e hoje ainda lá deve andar, pelas estradas do seu reino, quem sabe à procura de urnas e boletins de voto.

2. A minha primeira vez foi em Ayamonte

Por acaso, foi ali perto que, pela primeira vez, passei a fronteira. Imagino que não seja uma experiência de tal forma inolvidável que uma pessoa a guarde na gaveta das outras primeiras vezes: o primeiro amor, o primeiro beijo, o primeiro…

Mas, enfim, a verdade é que me lembro. Foi muitos anos antes do episódio do guarda civil. Tinha três anos — e passei a fronteira de barco.

Vou contar tudo do início.

Era a primeira vez que passávamos férias no Algarve. Fui com os meus pais e os meus avós maternos — o Avô Manuel e a Avô Gisela — para a Aldeia das Açoteias, que pertencia aos proprietários da loja onde o meu avô trabalhava, na Atouguia da Baleia.

Estas férias, na altura, devem ter sido marcantes: afinal, não era assim tão normal ir de férias para o Algarve — pelo menos, não seria para a minha família. Só assim se explica que esta seja uma das três recordações que tenho da minha vida como filho único (estávamos em 1983 e o meu irmão Diogo nasceria no ano seguinte).

O que tenho na memória é pouca coisa: lembro-me da sala, com um vidro grande virado para um pequeno pinhal à frente da vivenda; lembro-me do corredor para os quartos — e também me lembro de ver um vídeo gravado pela Betamax do meu pai, em que percorríamos a casa até ao quarto e, ao virarmos a câmara, o sol fazia um efeito de luz na lente, como uma tinta branca a sujar o quarto. Sim, essa memória será não do quarto, mas das vezes que vimos o pequeno filme, já de regresso a casa. Mas as memórias são assim, muito a dar para a mistura, não é?

Também me lembro dum pesadelo que tinha muitas vezes por esses dias: estava num lago, em cima dum crocodilo com cornos, que me levava para muito longe, enquanto a minha mãe desesperava na margem… Se alguém souber interpretar tal sonho, faça o favor de me ajudar!

Bem, já me estou a perder. Voltemos ao tema: a primeira vez que passei a fronteira foi nessas férias, quando fomos passear a Vila Real de Santo António. Não havia ponte, mas antes um pequeno ferry. Não me recordo do barco, nem me lembro da primeira vez que pus o pé em Espanha, mas tenho na cabeça a imagem duma feira espanhola com muitos brinquedos e muita música — e vejo-me na casa de férias a brincar com uma grua. Sim, fui a Espanha comprar uma grua de brincar — uma daquelas cor-de-laranja, bem altas. E assim me fingi construtor nessa sala algarvia de há muitos anos, depois de ter passado a fronteira pela primeira vez.

Dessa passagem por Espanha, há algo que me intriga: será que tivemos de mostrar os bilhetes de identidade? Haveria alfândega no cais de desembarque? Não me lembro. Mas lembro-me que tivemos problemas com os nossos documentos na segunda vez que passei a fronteira.

3. Sem documentos na Portela do Homem

Pois bem, foi no Gerês. Eu teria por volta de 10 anos, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Não sei, o meu calendário do telefone ainda não funcionava na altura (mas hei-de procurar uma fotografia que os meus pais têm lá por casa e que deve ter uma data por trás).

A minha alma de infante quase a dar para o adolescente estava pasmada com o Gerês — se há coisa de que me lembro nessa minha vida de viandante motorizado é a beleza prodigiosa daquelas serranias.

Reparem: eu era um puto que só tinha saído do país para ir comprar uma grua a Ayamonte. Não tinha ainda visto assim tanto mundo que me permitisse encarar o Gerês com um ar um pouco mais blasé. Não: eu era ingénuo. Pouco vivido. Para mim, aquilo era o supra-sumo da beleza natural.

Hoje sou mais vivido, um pouco (muito pouco) menos ingénuo — e continuo a arrepiar-me quando penso nas folhas outonais do Gerês, na cascata onde mergulhámos, nessas férias infantis que são o meu paraíso perdido. Tudo é luminoso e tremendo nessas memórias fugidias.

Pois bem, o Gerês, como sabem, fica ali à volta duma pequena borbulha de Galiza. Arranjei um daqueles mapas turísticos onde o Parque Natural aparecia como território apetitoso em tons verdes num papel de textura vegetal — e, lá no meio da mão esquerda a fechar-se que é o Gerês, estava um espaço em branco, sem nada, onde aparecia, sumida, a palavra «ESPANHA». Pois eu queria ir a Espanha, queria passar a fronteira. Queria ir à Portela do Homem!

Éramos cinco: os meus pais, o Diogo, que teria uns 6 anos, e o Tiago, com 3 anos. Faltava ainda a minha irmã, que chegaria à família uns anos depois.

À época, as crianças não tinham cartões do cidadão — nem bilhetes de identidade. Havia uma coisa chamada cédula pessoal e era isso que o Tiago tinha — ou melhor, não tinha, pois os meus pais tinham-se esquecido dela em casa.

Vivíamos nesses tempos antigos antes de Schengen. As fronteiras eram coisa séria: ir a Espanha implicava mostrar documentos a polícias.

Ora, não fazia mal. Podíamos sempre tentar. Fomos então até à Portela do Homem. Chegámos lá e fomos falar com os senhores guardas. Como nos explicaram de forma muito simpática, sem a cédula do meu irmão, não podíamos passar. Os meus pais perguntaram se podíamos só pôr os pés em Espanha. Os guardas encolheram os ombros e disseram que, se é para pôr os pés e voltar, não havia problema.

E foi assim que fiquei com uma foto tirada por um guarda em que estamos todos por trás da placa que diz «ESPAÑA» — uma placa branca, anterior às estrelinhas europeias.

Lá muito atrás, sem que eu (ou ninguém) ligasse alguma coisa ao assunto, aparecia outra placa que dizia «GALICIA». Está ali, na foto, como um fantasma de conversas futuras, de obsessões que ainda não tinha, de outras viagens, bem mais profundas que uns passos atrás duma placa.

4. Mérida: a beleza para lá da fronteira

Eu nem queria ir — mas o professor Tavares, que já tinha sido professor do meu pai e desesperava da minha timidez, tão diferente da desenvoltura típica da família, obrigou-me a inscrever-me. «Vais a Mérida, sim!»

E lá fomos, no autocarro, nessa excitação de putos em viagem sem os pais. Até à fronteira, não me lembro de nada — depois da fronteira, lembro-me apenas de duas coisas: uma vaga imagem dum museu com peças romanas; e da beleza.

Qual beleza? Da cidade, ou das ruínas — e da mais bela rapariga da minha turma, que, ao final da tarde, enquanto os pobres mortais que éramos nós ouvíamos a modorra a sair da boca do guia no anfiteatro romano, se sentou armada em deusa no cimo duma coluna e se pôs a olhar para tudo, mão no queixo, cabelo ao sol alaranjado do final da tarde — e foi assim que, certamente sem querer, ficou para sempre gravada na minha memória como exemplo da beleza humana, bem real e muito viva, misturada com a História e as pedras e as ruínas do tempo. Fiquei de boca aberta e só avancei quando o colega de trás me empurrou, impaciente, sem reparar que a beleza tinha descido à terra.

Mas não é para falar do espanto adolescente perante a beleza duma rapariga que trouxe à liça essa viagem. É para falar do momento preciso em que passámos a fronteira. Alguns dos meus colegas nunca tinham saído de Portugal — eu já, mas confesso que estava tão excitado como eles.

Pois lembro-me duma colega que, logo que passou a fronteira, começou aos gritos de excitação e gritou algo como «olha uma árvore espanhola!»

Foi o fim da picada. O autocarro desatou a rir-se e o mais sarcástico dos rapazes da turma começou a imitá-la durante longos minutos:

«Olha um cão espanhol!»

«Olha uma estrada espanhola!»

«Olha um café espanhol!»

«Olha um passarinho espanhol!»

«Olha uma pessoa espanhola!» — e abanava os ombros da minha colega, que já não estava a gostar da brincadeira, animando-a aos gritos para que se sentisse excitada pela visão repentina desse ser mítico: o Ser Humano Espanhol!

A brincadeira começou a rolar como bola por uma montanha cheia de neve e, pouco depois, o autocarro estava todo de dedo em riste a apontar para o mundo espanhol. No dia seguinte, já no hotel de Mérida, pelos corredores, ainda se ouviam vozes a gritar:

«Olha uma cadeira espanhola!»

«Olha um tapete espanhol!»

«Olha uma sanita espanhola!» — e outras descobertas menos edificantes e que me abstenho de enumerar.

Pois, na verdade, a minha colega não tinha culpa. Passar uma fronteira faz isto a uma pessoa. Há a promessa de coisas novas e de algum perigo — cheira irremediavelmente a viagem e a aventura.

Agora já não há paragens obrigatórias, bichas de carros, polícias carrancudos. O que há é uma placa simples — e logo a seguir, outra língua, uma estrada ligeiramente diferente, gentes com hábitos que não são os nossos. Reparamos quase instintivamente nessas diferenças, que tendemos a empolar. A fronteira dá uma instrução aos nossos olhos: a partir daqui, estás noutro país. A partir daqui, deves reparar no que é diferente. A partir daqui, isto não é teu. Estás fora do que é habitual. Estás a viajar e os dias não são normais.

5. Ir a Espanha duas vezes na mesma noite

Ora, esta tal atracção da fronteira levou-me a uma das «loucuras» dos anos de faculdade. (Deixo a palavra entre aspas porque, enfim, todos sabemos que há loucuras bem mais loucas do que esta.)

Uma noite, o Nuno, o Rodrigo, a Rita e eu decidimos ir tomar café à Outra Banda.

O problema de tomar café em Almada é que uma pessoa chega lá e o que apetece mesmo é continuar pela estrada fora, a conversar — até porque já era tarde e os cafés de Almada já tinham fechado.

Ficou decidido: iríamos experimentar as delícias dos bares de Évora. Cá por dentro, eu tinha outros planos, mas não disse nada.

Chegados a Évora, já depois da meia-noite, não encontrámos nada aberto.

Foi então que dei a sugestão: já sabemos que os espanhóis têm horários esquisitos, por isso não seria mal pensado tomar café em Badajoz! Eles ainda reclamaram um pouco, mas fiz-lhes ver que quem ia a conduzir era eu.

E assim fomos, numa dessas noites que não são fáceis de explicar, cinco amigos dentro dum carro, pela noite fora, numa auto-estrada escura, em direcção a um café para lá da fronteira.

Quando passámos a tal linha, ninguém gritou «olha uma árvore espanhola!». Éramos estudantes universitários, com toda a sabedoria do mundo e arredores, e para mais eram cinco da manhã e o cansaço não era pouco.

Fomos andando pelos semáforos inutilmente ligados das ruas vazias de Badajoz.

Encontrámos, por fim, um café de luzes acesas. O Rodrigo e o Nuno ficaram no carro, enquanto a Rita e eu fomos comprar uma garrafa de água, que por aqueles momentos já era só o que nos apetecia.

E entrámos assim num café espanhol às cinco da manhã e vimos o que nunca pensámos ver: a meio da noite, famílias inteiras tomavam refeições e conversavam, num café tão animado como Lisboa às cinco da tarde.

Não sei que horários as gentes de Badajoz seguem. Sei que, enfim, por lá já eram seis da manhã, o que explica, em parte, o mistério. Mas não explica tudo: o que faziam tantas crianças acordadas àquela hora?

Não sei e também não quis saber. Estávamos cansados. Sentei-me ao volante e voltámos para Portugal, a beber sofregamente a água, depois duma noite à míngua.

Ou melhor… (Aqui, a história começa a ficar confusa.) Quando dei por mim, estava a sair da auto-estrada. Ainda andámos durante bastante tempo, as cabeças deles já a tombar de sono. Eu mordia a língua, sem vestígio de cansaço: havia de atravessar a fronteira mais uma vez naquela noite.

Quando apareceu a placa a dizer «ESPAÑA», os meus companheiros de viagem sobressaltaram-se:

— Então, mas não estamos a ir para Lisboa?

Expliquei-lhes que sim, mas não queria acabar a noite sem conhecer uma fronteira por onde nunca tinha passado: a de Campo Maior.

Eles abanaram a cabeça, mas riram-se (tive sorte).

Acabámos (os três rapazes) a devolver a Espanha a água que compráramos em Badajoz — isto, claro, com os pés bem assentes em Portugal.

E depois regressámos, por fim, já o sol subia e a névoa rodeava as oliveiras nas margens da auto-estrada. Lembro-me de atravessar a Ponte Vasco da Gama no meio do nevoeiro mais denso que alguma vez vi na minha vida e de dormir profundamente durante toda a manhã, já na minha cama, depois da noite em que fui duas vezes a Espanha.


Porque conto tudo isto? Não sei bem. Talvez para provar que a fronteira exerce uma atracção particular nalgumas pessoas, entre as quais me incluo, para mal dos meus pecados e dos pecados de alguns amigos meus. Ou então é só para me divertir a contar histórias. Seja por que razão for, hei-de continuar a trazer para aqui algumas aventuras que vivi para lá da raia — a começar por uma certa viagem que fiz até outra fronteira: aquela que separa o Reino de Espanha do Principado de Andorra.

Até já!

O dia em que perdi os óculos no mar

Pois bem, há dois dias os meus óculos foram ter com os peixinhos.

O que se passou foi o seguinte. Fui passar um fim-de-semana no Algarve com a minha mulher para comemorar os 10 anos de casamento. Chegámos ao hotel e zarpámos de imediato para a praia.

Ora, a praia não fica perto do hotel. Tivemos de zarpar de carro. Chegámos à praia e percebemos que o único estacionamento era pago. Enfim, pensámos nós, vamos só ficar uma ou duas horas, não é caro.

Andámos, andámos, andámos. A praia ainda era longe — mas valia a pena. Cansados, chegámos e decidi logo ir ver como estava a água, como qualquer veraneante que se preze. As ondas pareciam simpáticas. Avancei um pouco mais. Fui sentindo a areia nos pés, o calor do ar, a água à minha volta e o cheiro bom do Verão. Na cara, os meus óculos — é raro não os deixar na toalha, mas só tinha vindo molhar os pés. Não estava a pensar mergulhar.

Não estava a pensar, mas mergulhei. A culpa não foi minha: apareceu uma onda bem maior do que eu estava à espera que rebentou mesmo em cima de mim. Virei-me um pouco para não levar com a água de chapa na cara, tropecei — e quando dei por mim estava sem óculos.

Procurei-os com os braços atarantados dentro da água turva da areia — o que é especialmente difícil quando, enfim, não se tem óculos na cara. A água estava agitada, muita areia, muitas ondas. Tentei encontrá-los com os pés, mas só encontrei pedras — e bem afiadas.

Comecei a ver a vida a andar para trás. Estava a 300 quilómetros de casa, com o carro num estacionamento pago — e sem óculos.

Não podia conduzir, não podia fazer nada.

Comecei a agitar os braços, a ver se a minha mulher me via. Não fazia ideia onde ela estava. A praia, para mim, era uma mancha amarela. Onde estavam pessoas, agora via umas quantas borradelas deitadas em pinceladas de várias cores. Estava preso num quadro abstracto. Um horror.

A Zélia apareceu então — e pediu ajuda a uns rapazes que ali estavam. Procurámos todos juntos, eu atarantado sem saber o que fazer nem para onde me virar.

Bem, quem safou o dia do nosso 10.º aniversário foi um casal de Fafe — Paulo e Dolores —, os pais dos tais rapazes, que abandonaram um dia de praia como há poucos e se ofereceram para tirar o carro do estacionamento para nos levar até à óptica mais próxima.

Pouco depois, percebemos que a óptica mais próxima não tinha maneira de me ajudar. Andámos mais uns quilómetros e lá consegui arranjar umas lentes de contacto de emergência, para me permitir andar sem bater nas paredes.

Tive de passar de novo pelo martírio de pôr as lentes. A certa altura tinha os funcionários da loja, a minha mulher e o casal que nos salvou a olhar para mim, numa roda atenta. Quando finalmente pus a lente direita, todos se alegraram como quem via a sua equipa a marcar golo. Pronto: só faltava a esquerda! Mais quinze minutos e podíamos ir embora.

Por fim, a chorar (experimentem passar quinze minutos a espetar o dedo no olho para ver se não choram), levantei-me, de novo a ver, e cumprimentei a sorrir os nossos salvadores — é que ainda não os tinha visto! Ainda conversámos muito nesse dia — que se perder os óculos é aborrecido, pelo menos serve para fazer novos amigos.

Estávamos aliviados. Não fosse o preço dos óculos a morder-me a consciência e quase que podia dizer que estava feliz com as minhas novas lentes de contacto.

(A crónica completa está no Sapo 24: http://24.sapo.pt/opiniao/artigos/perigos-dum-dia-de-verao)

Um filho numa palavra

Não é que não o tivesse visto antes. Já estive em pelo menos duas ecografias e vi aquela imagem vagamente perturbadora dum extraterrestre a navegar em águas escuras.

Ah, mas foi uma palavra, uma palavrinha apenas que me fez sentir com a força dum estalo que está ali um novo filho.

A Zélia ontem teve de fazer uns exames e quando entrou no gabinete deixou-me cá fora — algo a ver com as regras daquele piso do hospital ou outra coisa qualquer que não percebi.

Pois, minutos depois, sai de lá, sorridente. Estava tudo bem e tinha acabado de ver outra vez o bebé cujo nome não podemos dizer (porque não sabemos).

— E então, que disse a médica?

— Nada de especial. Disse que estava tudo bem e que ele hoje está muito irrequieto.

Ah, a culpa foi dessa palavrinha simples, que estou habituado a usar para descrever crianças já crescidas aos saltos num parque infantil — ou no meio da minha sala…

Foi essa palavrinha que me fez sentir, pela primeira vez, aquela criança ali bem real, a crescer, já diferente do irmão (que, na barriga, estava sempre quietinho).

E senti muitas outras coisas, mas isso agora não cabe num simples post do Facebook, não é verdade?

Viagem ao Aquário: peixes camuflados e bactérias assassinas

Como é que os peixes aprendem a camuflar-se?

Sei que já temos o Oceanário, mas por vezes é bom voltar ao velhinho Aquário Vasco da Gama. Aqueles corredores de madeira e toscos ecrãs a tresandar a anos 70 lembram-me a infância e as viagens de estudo. E lá estivemos, com o meu filho e os meus sobrinhos, a olhar para peixes de todos os tipos e feitios.

A certa altura, maravilhámo-nos com a maneira como alguns peixes se camuflavam.

Aqui está um peixe armado em rocha (procurem bem, está ali no centro da imagem, no meio das duas pedras, na sombra, virado para o canto inferior direito):

E, depois, abrimos a boca perante uma raia armada em fundo do mar (diga-se que as fotos foram tiradas sem flash, para não incomodar ninguém):

É um espanto, não é? E perante isto, podemos perguntar: mas como é que estes peixes conseguem? Como é que se armam em espertos e se disfarçam? Será de propósito? Pensaram nisso? Alguém andou a afiná-los?

O mecanismo da evolução

Ora, pensar na camuflagem ajuda-nos a perceber o mecanismo da evolução por selecção natural. Não há nada consciente no mecanismo, mas o resultado parece planeado. É um truque magnífico da Natureza, embora a Natureza, diga-se, não pense nisto como um truque. Aliás, a Natureza pensa pouco: age muito mais.

A evolução por selecção natural ocorre em dois passos: todos os seres são ligeiramente diferentes uns dos outros, mesmo dentro de cada espécie. Estas diferenças vêm, por exemplo, das pequenas mutações genéticas, inevitáveis e muito úteis, que ocorrem no momento da reprodução.

Ora, alguns seres acabam — devido a estas mutações — por ficar mais bem preparados para enfrentar o mundo em redor e, assim, reproduzem-se mais e espalham a tal mutação por cada vez mais descendentes.

É um processo natural e lógico. Se, por via duma mutação, uma raia começar a parecer-se mais com o fundo do mar onde vive, vai conseguir fugir um pouco melhor aos predadores — e, assim, sobrevive mais tempo, reproduz-se mais, passa esse gene melhorado aos descendentes, que também conseguem reproduzir-se melhor, num efeito multiplicador que é a grande razão por que a vida tende a invadir todos os recantos da terra.

Mais tarde, se nova mutação levar a que uma das descendentes da tal raia ainda se pareça mais com o fundo do mar — melhor! Por outro lado, se a mutação for em sentido contrário, será mais provável que a pobre raia com o seu gene alterado acabe no estômago do predador em vez de passar a mutação à próxima geração.

Isto tem mais a ver connosco do que muitos gostam de admitir: todo o nosso corpo foi criado assim, devagar, ao longo de milhões e milhões de anos. Aliás, muitas das nossas tendências psicológicas saíram deste processo de escultura genética. Sim, eu sei, temos a cultura, o acaso, as opções individuais — mas tudo isto acontece em cima desse material humano criado ao longo de milhões e milhões de anos de evolução.

Algumas pessoas ficam incomodadas com esta descoberta. Por algum motivo, gostavam que o ser humano tivesse sido criado de uma só vez. Noutros casos, o incómodo está nessa ideia de que existe uma natureza humana, de que temos tendências inscritas em nós — ora, isso é o que acontece com todos os animais, por que razão havíamos de ser diferentes nesse facto tão básico de todos os seres vivos do nosso planeta?

Aliás, estou em crer que aquilo que nos une na nossa humanidade comum é precisamente aquilo que também nos une aos outros seres deste planeta. Todos nascemos, temos necessidades e emoções — e depois nós, seres sociais e muito inteligentes, também temos ideias, amores, desejos formulados em língua de gente. E, sim, conseguimos juntar a isto a consciência de aqui estarmos, a necessidade de criar qualquer coisa para lá do dia-a-dia, a curiosidade de saber um pouco mais sobre o que nos rodeia, o que nos empurra para a arte, a filosofia, a ciência…

Muitos de nós também temos esta mania de tentar melhorar, o que nem sempre dá bons resultados, mas é um bom instinto. Há ainda quem fique impaciente: perante a nossa terrível imperfeição, desespera, como se tivéssemos caído do paraíso imaginado. E, no entanto, nunca fomos anjos, mas antes animais conscientes e que desejam, em certos momentos, ser mais do que isso. O problema é que somos também inteligentes, muito inteligentes — o que é óptimo, mas aliado ao nosso tribalismo ancestral, tem resultados terríveis.

Desse processo que deu origem à nossa querida espécie, há muito que não sabemos. Mas sabemos pelo menos isto: somos herdeiros dessa carga antiga, modelada durante tanto tempo por esse mecanismo que explica a camuflagem dos peixes.

O perigo das bactérias mutantes

Gosto de saber estas coisas porque sou curioso (não somos todos?). Mas também vale a pena saber isto por outras razões. Afinal, esconder a natureza humana pode dar mau resultado — e não perceber a evolução até faz mal à saúde.

As bactérias, por exemplo — o nosso uso dos antibióticos por tudo e por nada é muito perigoso. Porquê? Porque as bactérias mudam de geração como nós mudamos de cuecas. Aliás, a coisa até é mais rápida: se tomarmos em consideração um humano que mude de cuecas com menos frequência do que o razoável, antes que tal senhor experimente boxers novos, já as bactérias conheceram as suas trisnetas.

Ora, neste cenário, ao usarmos os antibióticos de forma descuidada, estamos a dar oportunidades aos bichos para, através das tais mutações que ocorrem sempre (e de forma aleatória), acertarem numa qualquer alteração genética que torne a bactéria imune àquele antibiótico. Ora, a partir dessa avozinha rija, temos filhas, netas, trisnetas, milhões de descendentes aos saltinhos… Todas imunes! Lá ficamos com uma estirpe que não morre com aquele medicamento em particular. Pum: quem morre somos nós quando a netinha da senhora bactéria entra no corpo de um ser humano.

Reparem que isto acontece por causa de mutações aleatórias: mas quantos mais antibióticos desnecessários tomarmos, mais probabilidade temos de levar com a tal neta maluca da senhora bactéria. E, de facto, infelizmente, as bactérias super-resistentes têm aparecido por esse mundo fora. A sorte que tivemos com a invenção dos antibióticos (os milhões de vidas que foram salvas!) pode estar a ser desperdiçada, agora, por não nos sabermos controlar.

O que fazer? Bem: não tomar antibióticos a não ser quando for necessário. Os médicos sabem disto. Nós também. Mas, mesmo assim, é tão comum tomá-los por dá cá aquela palha. Enfim, a culpa é da natureza humana, que saiu do forno implacável da evolução por selecção natural, que não sabia o que eram antibióticos nem quais as características certas para viver em sociedades complexas no início do século XXI. Mas podíamos ser um pouco mais espertos e contrariar a nossa preguiça tão humana…

Bem, estamos muito longe do Aquário Vasco da Gama. Esta viagem foi mais longa do que o previsto. Mas não faz mal. Gosto de viajar sem plano.

Como é que o Uri Geller põe os relógios a funcionar?

Não vi o programa, mas parece que o Uri Geller andou a arranjar relógios na RTP, no programa do Luís de Matos, para espanto de muitos espectadores — algumas pessoas contam nas redes sociais como viram com os seus próprios olhos um relógio avariado (que tinham lá para casa) a começar a dar horas.

Como é possível? Não vou ser eu a revelar o segredo. Mas não sonhe o leitor com explicações sobrenaturais. É tudo uma questão de… matemática!

Uma pista: não é impossível, mas é muito improvável que eu morra de acidente de carro durante o dia de hoje. Por outro lado, é muito, mas mesmo muito provável que algum português morra hoje de acidente de carro durante o dia de hoje. É uma infelicidade, claro: mas é provável.

Da mesma forma, é muitíssimo improvável que o meu caro leitor ganhe o Euromilhões. Mas já será bem provável que alguém ganhe o prémio.

Ainda não percebeu a ligação entre estes factos banais e os relógios de Uri Geller? Pois poderá encontrar a explicação escarrapachada neste livro, que li há uns meses: How Not To Be Wrong, de Jordan Ellenberg. A tradução portuguesa é da Marcador: Como Não Errar. É um livro sobre matemática, mas pensado para ser lido com prazer e proveito por todos nós, por menos matemáticos que sejam os nossos espíritos. É um livro útil e a leitura é um prazer.

No livro, o autor fala mesmo de Uri Geller e dos relógios. O mistério desvanece-se, mas o encanto nem por isso. Ficamos espantados com o mundo e com os números que nos rodeiam.

(Ah, e fica o aviso: o livro também mostra como o mesmo mecanismo por trás da ilusão de Uri Geller também pode servir de base para fraudes muito bem pensadas. É uma leitura aconselhada a todos os curiosos — e a todos aqueles que não gostam de ser enganados.)

Somos todos descendentes de Afonso Henriques?

Já tinha recomendado o livro de Ellenberg num artigo do Sapo 24: «Somos todos descendentes de Afonso Henriques» — até isso a matemática nos ensina (se o leitor ler até ao fim, encontrará mais uma recomendação de leitura matemática, desta vez dum livro português):

«Em Inglaterra, está agora na moda encontrar ascendentes históricos de gente famosa — e as pessoas assim premiadas com um avoengo espampanante ficam muito orgulhosas. Ah, afinal são gente não só famosa, mas também de pergaminhos antigos.

Ainda em 2015, alguém descobriu que Benedict Cumberbatch era descendente de Ricardo III, o rei que o actor iria representar numa série de televisão. Não sei o que Cumberbatch pensou do caso, mas muita gente ficou pasmada com a coincidência.

Só que não era coincidência: na verdade, o mais provável é eu próprio, aqui neste canto da Europa, ser também descendente de Ricardo III. Eu — e o meu caro leitor. Somos todos!

E também somos todos descendentes de Afonso Henriques (sim!). E de Maomé (ah, pois é!). E só não seremos descendentes de Jesus porque dizem que não teve descendentes.

Como é isto possível? Bem, pensemos ao contrário: tenho dois pais, quatro avós, oito bisavós… Se continuarmos por mais umas quantas gerações em direcção ao passado, chegaremos rapidamente a números impossíveis — o que significa que somos todos primos uns dos outros, de forma bem mais imbricada do que imaginam os defensores de certas ideias de pureza dinástica.

As contas são um pouco mais difíceis do que possa parecer, ao lermos o parágrafo anterior. O leitor pode ver a explicação mais desenvolvida neste pequeno artigo — mas se quer que lhe diga, bem mais interessante será ler o pequeno livro chamado O Mistério do Bilhete de Identidade, de Jorge Buescu. Perceberá que é descendente até dos faraós — e aproveita para ficar a conhecer um livro muito simpático.»

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