Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Categoria: Crónicas (Página 1 de 18)

Agruras dum comprador de livros


Gosto de livrarias. Aliás: gosto muito de livrarias. Mas confesso este pecado: de vez em quando, lá mando vir um ou dois ou três livros lá de longe. E a livraria cujo nome não vale a pena pronunciar manda-me os livros e eles chegam aqui.

Com o tempo, tal como há prazer em passar os dedos pelas lombadas dos livros que nunca hei-de comprar numa boa livraria, aprendemos que também há prazer em receber esses pacotes castanhos com livros dentro. Como se fosse Natal quando um leitor quiser.

Bem, o certo é que a tal livraria inglesa de nome brasileiro, quando manda uma encomenda, deixa-nos bisbilhotar por onde andam a passear os nossos livros. Vamos lá à página e vemos a viagem quase em directo. E eu quero ver. E vou ver. E lá vou esperando, a afagar as mãos, pelos meus livrinhos.

Ora, esta semana, encomendei uns livros na página espanhola da tal livraria. A minha lógica foi esta: Espanha está mais perto, os livros chegam mais rápido. E sempre vou treinando para o Brexit.

Fiz a encomenda e, minutos depois, fui espreitar onde estavam os meus livros. Pois, logo me apareceu a primeira paragem da viagem dos livros: França.

França? Então, mas não era Espanha?… Enfim, tudo bem, eles é que sabem.

A terra donde saíram os livros chama-se Gidy. Hum, cheira a terra com muita flor e um rio. Muito bem, comece a viagem dos meus livrinhos. Vá, venham por aí abaixo até mim, até Lisboa…

Pois os livros em vez de virem para sul, vão para norte e chegam, horas depois, a St Jean de la Ruelle. O que é isto? O que se passa? Quem anda a passear com o meu livro pela França? Portugal é para baixo, ó ignaro condutor de camiões transportadores de bens preciosos.

Pois, em poucas horas, os livros passam de St Jean de la Ruelle para Chilly Mazarin, ainda mais a norte. Não só estou a ver os livros a afastarem-se em direcção ao Mar do Norte, como ainda por cima estou a ficar com fome de estrada.

Porra: eu é que queria estar em Chilly Mazarin ou lá o que é! É verdade: gostava ainda mais de estar em Nice ou na Córsega, mas não se pode ter tudo. Aliás, nem sequer se pode ter Chilly Mazarin, quanto mais.

Fui dormir. Na manhã seguinte, acordo, ponho os óculos, pego no telemóvel, vejo onde estão os livros ainda estremunhado.

Os livros estão em Benavente! Viva! Lisboa à vista!

Só que aparece “Benavente, ES”. ES? Espanha? Mas o que é isto? Fomos invadidos?

Percebo então que há um Benavente perto de Zamora. Raios. Eu queria os meus livros agora. Prometo nunca mais fazer isto e, a partir de agora, comprar todos os meus livrinhos em livrarias. Isto de adiar a satisfação é importante para a vida, mas muito aborrecido.

E, ainda por cima, o raio dos livros ficam em Benavente um dia inteiro! O que raio há em Zamora para ver? Nada! Venham lá embora, se faz favor.

E, ao fim da tarde, eles saem lá de cima e vêm por aí abaixo. E eu contente, já a sentir a vibração daquelas páginas.

Por fim, ao som de Wagner, vejo o camião a dobrar a esquina. Sorrio. O camião passa por mim sem parar. Fico triste em câmara lenta. Até que os meus livros travam. O homem enganara-se. Marcha-atrás. Estacionamento perfeito. E lá aparece o senhor de chapéu na cabeça e caneta na mão, com o meu embrulho castanho.

Assino aquilo, digo um obrigado a correr e destruo com prazer o cartão. Aliviado, passo os dedos pelos livros vadios. Fecho os olhos e penso: a felicidade, às vezes, está no cheiro dum livro novo.

Somos bichos muito estranhos.

Agora, desculpem, mas vou ali ler e já volto.

Porque há tantos tesourinhos das autárquicas?

Há algumas pessoas que olham para os cartazes autárquicos que andam por aí a rodar no Facebook e ficam com medo de sair à rua. Se são estes os candidatos que nos vão limpar os passeios…

Sim, é verdade: alguns dos cartazes não parecem, de facto, o melhor exemplo da arte de bem comunicar. Terá havido uma enchente de mau gosto por esse país fora?

Ora, não é bem isso — embora não me importe de admitir que o bom gosto não é material que abunde por aí. (O problema, claro, é perceber o que é o tal bom gosto.)

Primeira explicação: alguns dos cartazes são falsos. Ainda agora me passou pelos olhos o famoso cartaz «Picha Para a Frente!» que há quatro anos me andou a importunar o mural do Facebook. Ora, a Picha existe — é ali perto de Leiria. Mas não é freguesia. Ou seja, não há eleições na Picha. Uma desilusão, eu sei. (E aquele cartaz da Coina também é muito suspeito.)

Segunda explicação: na verdade, eleições autárquicas há muitas. Muitas mesmo. Temos mais de 3000 freguesias. Imagino que na larga maioria das freguesias haja mais do que uma candidatura. Logo, temos perto de 6000 candidaturas (no mínimo). Ora, haverá vários candidatos em cada candidatura (com suplentes, julgo que não serão menos de 5 por cada candidatura, mesmo nas freguesias mais pequenas). Logo, temos para cima de 30 000 candidatos — e só nas freguesias.

E se falarmos dos municípios, reparem que só em Barcelos temos 61 lugares a eleger na Assembleia Municipal (as gentes de Barcelos são conhecidas pelo talento para criar galos e pelo gosto extremado por ter assembleias municipais muito concorridas). Multipliquem pelo número de candidaturas e comecem a ter pesadelos com exércitos de candidatos…

É muita gente. Muito candidato. Muita lista. Muito cartaz. Seria impossível que todos fossem um primor estético. Basta 1% dos cartazes terem sido feitos por amadores e já temos larguíssimas dezenas de cartazes feitos em Powerpoint às três da manhã pelo primo do candidato.

E — claro — seria impossível que os nomes das terras que há por esse país fora não dessem origem a cartazes que nos deixam um tanto ou quanto bem-dispostos. «Continuar Calvos» é o meu favorito, nem que seja por me lembrar que eu também continuo um pouco calvo aqui na zona do cocuruto.

Onde quero chegar com isto? A lugar nenhum. Serve apenas de lembrança que o país é maior do que pensamos — e que as eleições autárquicas são as mais democráticas de todas, pois não há eleitor que não seja candidato ou, pelo menos, que não tenha um candidato na família ou na sua rua — o que quer dizer que, quando nos rimos destes cartazes, estamos a rir-nos de nós próprios, portugueses. O que só faz bem, diga-se.

Continuemos, pois, calvos e a rir!

Alegrias e tristezas num aeroporto

Hoje conto o dia em que o meu filho descobriu um dos segredos dos aeroportos.

1. Falar de acidentes de avião no aeroporto

Não sei se já vos disse, mas às vezes sou um pouco estranho. Aqui têm um sintoma dessa estranheza: quando estou prestes a viajar de avião, ponho-me a ler artigos e estatísticas sobre… Sim, adivinharam: acidentes de avião.

Imagine o leitor a cara da Zélia quando, um lindo dia, naqueles caóticos corredores cheios de gente à espera da voz que nos anuncia a abertura da porta de embarque, lhe digo: «Sabias que o maior acidente de aviação da história foi um choque entre dois aviões nas Canárias?»

Mas a verdade é que os aeroportos nos deixam mesmo de nervos à flor da pele. Há o nervosismo de levantar voo — na nossa cabeça está sempre presente a hipótese de o avião cair. Podem vir todas as estatísticas da segurança daquelas máquinas, dos anos de formação dos pilotos e das benditas listas de verificação — o monstro continua lá! O avião é qualquer coisa muito pesada e cheia de pessoas daquelas que morrem quando caem do céu—o avião, no fundo, é um bicho forte com uma fragilidade que assusta.

Depois, quem parte para longe tem na pele a excitação das viagens — do trabalho em sítios distantes, das férias entre outras línguas, de negócios inconfessáveis — e quem chega tem nos olhos o cansaço das horas dentro duma chapa apertada, dos barulhos incomodativos, dos ouvidos a zunir, do cheiro a ar queimado, dos sons que nunca sabemos se não serão o prenúncio da morte — ou talvez prenúncio da chegada da sandes mirrada que pedimos há três fusos horários (e entretanto a criança da fila de trás já se calou, benza-o deus).

Nesse caldinho de emoções, de pele em carne viva, de nervos agitados, o que temos cá em baixo são, num dos lados do aeroporto, as despedidas com choro mais ou menos reprimido e, do outro, os reencontros e os abraços de olhos fechados e alegria pouco contida.

2. As despedidas dos outros também custam

Ainda há poucos dias, no Facebook, uma amiga minha (a Ana Chainho) contou como foi ao aeroporto e chorou só de ver os reencontros das outras pessoas.

E, sim, eu que também já tive a minha dose de esperas no aeroporto, percebo o que ela quer dizer. Ainda por cima, passamos muito tempo à espera: por qualquer razão que me escapa, quando combinamos as horas para ir esperar alguém ao aeroporto, ninguém faz conta com o calvário interminável por que passam os passageiros desde que o avião aterra até que surgem, atarantados, à porta que separa a alfândega do mar de gente que está à espera.

Resultado? Muitos de nós passam muito tempo cá fora, ao lado de homens engravatados de papéis na mão e famílias impacientes, enquanto os nossos amigos andam de autocarro pela pista do aeroporto, percorrem sádicos corredores, põem-se numa bicha épica de passaporte na mão e crianças a chorar, mostram o passaporte ao simpático SEF em atrapalhações de casacos e malas, deixam-se estar a olhar para o carrossel das bagagens e, com sorte, lá vão tirar a senha para ir reclamar da mala desaparecida.

E nós? Cá estamos, ao lado dos tais homens engravatados. Entretanto, pela ranhura da alfândega, já pingaram selecções de andebol, turistas japoneses, académicos lituanos, famílias de Freixo-de-Espada-à-Cinta… E nós à espera.

Nessas horas de espera, também já me comovi com a avó que vê a neta pela primeira vez, o pai que abraça o filho depois de meses à fome de abraços em skypes frustrantes, os amigos que se reencontram para mais um Verão das suas vidas… Às vezes, mordo o lábio. Gente adulta não chora — só que às vezes chora. Disfarçamos, claro. E lá esperamos, pacientes, pelos amigos que ainda estão à espera da mala desaparecida.

3. A tristeza de 1 a 10 — e a próxima viagem

Chego por fim ao que vos queria contar, que é uma história que parece banal para quem a vê de fora — e é tudo menos banal para nós, que a vivemos (é o que acontece com tantas e tantas histórias).

O meu irmão Diogo, a Sofia e a minha sobrinha Lilah voltaram anteontem para casa, que é como quem diz, para Inglaterra. Os meus pais estavam cá em Lisboa e tínhamos pensado ir todos ao aeroporto despedir-nos — os meus pais, a Zélia, o Simão. Mas foi um dia agitado, muito trabalho na empresa, a Zélia teve de ficar duas horas no notário a tratar de certificações de traduções, a minha mãe não pôde ir — e acabei eu, o Simão e o meu pai a chegar ao aeroporto mesmo a tempo de nos despedirmos.

Pois foi então que vi a Lilah, de três anos, e o Simão, que tem quatro, a ficarem tristes de repente — e também percebi como o Simão ficou surpreendido com a sua própria tristeza. Abraçou-se à prima e pôs aquele sorriso que eu conheço bem, um sorriso nervoso, de quem está a reprimir o choro.

Há momentos no aeroporto que doem, mas se não doessem, era mau sinal. É uma boa tristeza, porque o próprio facto de aquele momento custar muito mostra que gostamos das pessoas de quem nos estamos a despedir — e há-de haver outras vezes, mais viagens, mais chegadas atrapalhadas entre malas e correrias para apanhar o avião e ir ver a prima à terra dela — e mais chegadas como aquela chegada de há duas semanas, em que a Lilah saltou do colo do pai para correr até ao primo para o abraçar, deixando-o surpreendido com as saudades da prima que vive a 2000 quilómetros de distância.

Saímos do aeroporto e o Simão lá começou a falar doutras coisas, a olhar pela janela do carro para a cidade ao sol e a rir-se com uma piada qualquer. Quando, por fim, chegámos a casa, perguntou-me: «Pai, de 1 a 10, quanto é que ficaste triste no aeroporto?» Eu ri-me com a pergunta — mas não respondi. Ele disse-me então: «Eu fiquei 10!» Sim, eu sei: um dia ele ainda terá de descobrir que não, esse dez ainda não chegou. Mas anteontem, sim, ele ficou muito triste — mas também feliz enquanto sonhávamos com a próxima viagem para ir visitar a prima.

Que cidade espanhola usa o brasão português?

Há muitos anos, fui com os meus pais e irmãos visitar uma cidade espanhola de cujo nome não me quero lembrar — por agora.

Chegámos à porta duma igreja e pusemo-nos a ler uma inscrição a explicar a história do templo. A inscrição estava, por incrível que possa parecer, em português.

Diego Delso, delso.photo, License CC-BY-SA

Um velhote que por ali andava chegou-se ao pé de nós e disse-nos, solícito, que aquele texto não se percebia — o correcto estava um pouco mais à direita. Seguimo-lo e vimos como apontava, a sorrir, para a versão castelhana do texto que começáramos a ler em português. Agradecemos e, sem que o espanhol percebesse porquê, voltámos ao texto na tal língua que não se percebe. (Pergunto-me se ele alguma vez pensou em tentar saber que língua era aquela.)

Mas as surpresas não acabaram por ali: reparei pouco depois na bandeira daquela cidade, a ondear ao lado da bandeira de Espanha e da União Europeia:

Sim, a bandeira daquela cidade espanhola é igual à bandeira de Lisboa, excepto no que toca ao brasão — ao contrário de Lisboa, a cidade espanhola usa o brasão português. As únicas diferenças parecem ser a coroa e a disposição dos castelos.

Alguns leitores já terão percebido que cidade é esta. Para os mais distraídos, aqui ficam mais duas pistas: olhando para lá do mar, talvez víssemos a ondear do outro lado a Union Jack… E, por fim, falta explicar que esta cidade de símbolos tão portugueses fica em África.

Sim, falo de Ceuta, uma das duas cidades espanholas no norte de África (a outra é Melilla).

As parecenças da bandeira e do brasão de Ceuta com os símbolos portugueses são fáceis de explicar — Ceuta foi portuguesa durante algum tempo: entre a Conquista de 1415, que todos conhecemos como tiro de partida dos Descobrimentos, e a Restauração da Independência, quando Ceuta optou por ficar espanhola, opção que Portugal não quis contrariar.

Lembrei-me desta estranha bandeira ao ler, durante as aventuras britânicas que relatei a semana passada, um pequeno livro chamado Worth Dying For: The Power and Politics of Flags, de Tim Marshall.

Sim, parece assunto árido, mas o título é muito verdadeiro: as bandeiras representam ideais ou ilusões pelos quais tanta gente mata e tanta gente morre. Vale a pena saber um pouco mais sobre estes símbolos e o livro diz-nos muito para lá da história desses pedaços de pano: conta-nos algumas das tensões e das narrativas por trás dos problemas que vemos, todos os dias, no telejornal.

A verdade é que o livro nada diz sobre Ceuta. Mas foi desculpa para me recordar dessa viagem que fiz há tantos anos e para falar da mais portuguesa das bandeiras espanholas.

Qual é a mais estranha fronteira da Europa?

Esta semana, na minha crónica no Sapo 24, falo da mais estranha fronteira da Europa — que tem este aspecto:

Leia no Sapo 24.

Aventuras nas escolas portuguesas

Ora, tenho tido uns meses bem agitados por causa dum certo livro. Espero que não se importem que vá contando por aqui algumas dessas aventuras. A semana passada, falei-vos da volta à Galiza. Pois hoje decidi contar-vos o que aconteceu nalgumas escolas portuguesas onde fui falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

Nunca pensei gostar tanto, digo-vos. Cada escola é diferente e nunca parece que me estou a repetir porque os olhos que tenho à frente e as perguntas que me fazem raramente são as mesmas. Vou dizer o nome de todas as escolas para agradecer a quem me recebeu tão bem.

Na Escola Secundária Eça de Queirós, assustei-me ao entrar no auditório e ao perceber que teria à minha frente mais de cem alunos — e não uma turma. (Antes de acabar este texto, ainda volto a falar desta escola.)

Na Escola Amália Vaz de Carvalho, fiquei à espera da sessão sozinho numa biblioteca de sonho — quando aparece um aluno e me pergunta se pode tocar piano. Foi assim que, durante uns minutos, me vi transportado para um filme de época ao som dum piano improvável.

Fui ainda à Escola Secundária de Camões, onde um aluno confirmou que o romeno também tem uma palavra que significa «saudade», enquanto outro me perguntou sobre «a origem etimológica dos palavrões», deixando-me atrapalhado.

Também estive na Escola Secundária Marquês de Pombal, onde conversámos muito sobre uma língua falada por 200 000 portugueses e da qual poucos falam.

E na Escola Básica Matias Aires, em Mira-Sintra, onde acabámos a sessão com dois alunos a ler, por sua iniciativa, frases em tupi-guarani.

Fui ainda à Escola Básica Alfredo da Silva, em Albarraque, onde pela primeira vez enfrentei alunos de 9.º ano, que andam às voltas a tentar perceber que futuro devem escolher.

E voltei à minha Escola Secundária de Peniche, onde fiquei de boca aberta e coração apertado com os corredores donde saí no final do século passado — e onde me assustei ao reparar que nenhum daqueles alunos tinha nascido quando eu saí da escola.

Rumo à Trafaria numa manhã de Primavera

Mas hoje queria falar, em representação de todas as outras, da última escola a que fui até agora: a Escola EB 2, 3 da Trafaria, convidado pelas professoras Rosa Guimarães e Carla Valente.

Saí de manhã e lá fiz o percurso contra o trânsito, num dos primeiros dias de verdadeira Primavera deste ano.

Atravesso a ponte e enfio-me na auto-estrada da Costa, mas não vou para a praia. Tento ouvir o melhor possível o GPS do telemóvel, que está ao meu lado, no banco do pendura. Consigo dar com a escola, estaciono e reconheci logo o cheiro a mar, que me deixou com um sorriso no nariz.

Entrei na escola e reparei numa chaminé plantada no meio dos pavilhões…

Confesso: estava num daqueles dias de dor de cabeça e cansaço. Tento ir à casa de banho e a coisa não corre bem, porque não consigo abrir a porta (sou um pouco trapalhão, não sei se já vos tinha dito). Tremo: será que é hoje que uma destas sessões vai correr mal? Vou até à biblioteca com as professoras, muito simpáticas — os alunos vão chegando, a conversar e a olhar para mim como que a tentar avaliar-me.

A professora apresenta-me, os alunos batem as palmas habituais — e quando digo «bom dia» respondem-me todos com um «bom dia» tão sonoro que me deixou estupefacto. Estavam contentes — e a partir daí foi sempre a subir. Durante duas horas, esqueci-me da dor de cabeça.

O estranho caso dos alunos que lêem

Aquilo que ali conversámos fica entre nós, que lá estivemos. Bem, talvez possa contar uma coisita ou outra. Posso contar como, depois de eu dizer que por vezes é mais fácil falar com alguém que não fala a nossa língua do que com um adepto de outro clube, houve um aluno que me obrigou a dizer o meu clube, deixando metade dos alunos aos gritos de excitação e a outra metade a encolher os ombros…

Os alunos ouviram com atenção e fizeram muitas perguntas. Discutimos palavras diferentes e sotaques doutros sítios, as outras maneiras de falar a nossa língua, as histórias de Camões e outros escritores, bem como uma ou outra cena do filme da família Contreiras, que acompanha, no livro, a língua durante 20 séculos. Falámos ainda de outros livros, futebol, tradução, telemóveis (que ficaram lá fora) — e de tantas outras coisas. Imaginámos Camões a aparecer ali tele-transportado do passado e do susto que o poeta iria apanhar por se ver ali na Trafaria sem aviso. E falámos de palavrões (sem dizer um palavrão), para chegarmos à conclusão que há gente que sabe faltar ao respeito sem dizer uma asneira e, por outro lado, há conversas cheias de palavras feias que, no entanto, são mostra de grande amizade. Como já sabemos: é complicado — mas por mais complicado que seja, é importante falar da nossa língua, que nos une a todos e às vezes nos separa, mas nunca deixa de ser uma parte essencial das nossas vidas. Afinal, é difícil haver dia que passe sem que as palavras de alguém nos façam rir. E é só um exemplo…

Não devia, mas quero muito contar uma coisa que derreteu o meu coração de autor recente: as turmas que ali estavam tinham andado a ler A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, em conjunto, em aulas extraordinárias. Sim, não havia tempo nas aulas de Português, pois têm provas daqui a umas semanas. Mas as professoras tiveram a ideia e os alunos foram aparecendo nessas horas extraordinárias de leitura. Claro que fiquei feliz, mas espero que os leitores do blogue me perdoem o pecado — não é por mim, mas pelo livro e, acima de tudo, por saber que estes alunos do 9.º ano não se importam de passar horas a ler livros sem obrigação. Temos de agradecer às professoras: é delas o trabalho.

Quando terminámos, fomos comer um bolo que a escola preparou para comemorar a semana da leitura. Nesse momento, tive a certeza que ia recordar aquelas horas por muito tempo.

Se escrever não servisse para mais nada, servia pelo menos para isto: conhecer estes miúdos. Apetecia-me saber os nomes deles e agradecer um a um. E apetecia-me conversar ainda mais um pouco. No final, ofereceram-me três excelentes prendas feitas na escola:

Ofereceram-me também o jornal da escola (A Chaminé), onde descobri o que conto já a seguir…

Eça de Queirós na Taberna do Zé da Lídia

Quem já leu sabe que, n’A Incrível História, conto, lá para o final, a história de como, um certo dia, Eça de Queirós comeu um belo prato de amêijoas na Póvoa de Varzim.

É ficção, presumo, embora não possa ter a certeza que a cena não tenha acontecido mesmo. Sim: há coisas que eu pensava ter inventado e, afinal, são bem verdade. Na Escola Eça de Queirós, descobri alunos que tinham vivido uma das cenas ficcionais do livro: encenaram peças de Gil Vicente usando o português de hoje em dia, imitando o nosso grande dramaturgo, que mais não fez que usar o português dos dias dele. E, tal como no livro, nem todas as reacções foram as melhores. Também dessas tensões e conflitos se faz a história da língua.

Mas voltando à mesa do jantar: Eça pode não ter estado à frente dum prato de amêijoas na Póvoa, mas na Trafaria há um restaurante — a Taberna do Zé da Lídia — que, uma vez por mês, em colaboração com a escola, faz uma refeição temática com pratos das obras de Eça. Aqui fica um recorte do jornal da escola:

Podia agora aproveitar para discorrer largamente sobre o estado do ensino, etc. e tal — mas não vou cair nesse erro. Afinal, tive só uma meia-dúzia de sessões com alunos e, por isso, não me parece que saiba mais sobre o estado das escolas do que qualquer outra pessoa. O que sei, simplesmente, é que há alunos e professores que sabem receber muito bem e que gostam muito de ler e conversar — e até gostam de comer bem com Eça à mesa. Chega para ficar com um sorriso de felicidade na boca.

Donald Trump, os portugueses e a ironia desaparecida 

Ora bem, esta semana, para a crónica que escrevo no Sapo 24, escolhi estas sete palavras:

  • Javali
  • Facebook
  • Trump
  • Portugal
  • Vacinas
  • Amigos
  • Ironia

Será que consegui uma crónica com sentido? Diga-me o leitor.

Agora vou fazer algo que não deixa de ser estranho: vou citar não a crónica, mas um parágrafo que cortei ao rever o texto.

«E o que dizer àqueles escritores que nos asseguram que os leitores, há umas décadas, percebiam sempre a ironia — hoje é que não? Ora, deixem-me lá propor uma teoria que talvez seja um tanto ou quanto arriscada: os leitores liam os livros, mas deixavam os comentários para si (ou escrevinhavam qualquer coisa nas margens). Ou seja, o escritor podia passar a vida inteira sem se dar conta de como a ironia daquela passagem em particular, tão óbvia para os dois amigos que leram o livro antes da publicação, passava completamente ao lado da maioria dos leitores. Hoje, o mesmo escritor escreve um pequeno texto no Facebook e vê então, nos comentários, como a ironia é mais difícil de ler do que parecia.»

Quem quiser ler os parágrafos que sobraram da minha fúria cortadora, pode encontrá-los nesta página.

Sete palavras entre a Holanda e espermatozóides

Na minha crónica desta semana no Sapo 24 («Sete palavras entre a Holanda e espermatozóides») falo de como não estamos livres de entrar em guerra com a Letónia — nem de encontrar um bom livro ao ler um texto qualquer na Internet.

E ainda tento adivinhar quem será o próximo primeiro-ministro…

As crónicas anteriores estão nesta página.

O dia em que descobri o British Museum no meio de Berlim

Já fui ao British Museum umas duas vezes — pois a verdade é que nunca gostei tanto de o visitar como quando o descobri, a semana passada, em Berlim.

Sim, exacto: descobri o Museu Britânico numa livraria no meio da capital alemã.

Explico-me. Comprei este livro, que comecei de imediato a devorar: A History of the World in 100 Objects. 

Foi escrito por Neil MacGregor, director do museu, e começou como programa de rádio na BBC.

O livro é bem melhor do que a capa discreta parece anunciar. Vemos a história do mundo à nossa frente e passamos páginas ansiosos por saber que delícias se escondem nos capítulos seguintes.

Confesso: aprendi muito mais a ler o livro do que a ver as peças no museu, no meio de multidões impacientes e o cansaço dos passeios londrinos.

Quer isso dizer que não vale a pena visitar o museu? Pelo contrário. O livro tem este defeito: ficamos desejosos de voltar a Londres e olhar para estes 100 objectos com outros olhos. Por outras palavras, é livro para ficar bem mais caro do que parece…

(Agora só falta descobrir um bom livro para ficar a conhecer Berlim em Lisboa. Alguma sugestão?)

O dia em que olhámos para as estrelas no Sul de França

Não serão as melhores conversas aquelas que fluem ao acaso, enquanto vamos passeando pelas ruas duma cidade (por exemplo), ao sabor daquilo que vamos vendo? Há quem já tenha feito bons filmes só com uma conversa assim mesmo — em Viena, lembram-se?

Pois até este passeio em que escrevo no blogue e depois converso, quando posso, com os simpáticos leitores que aqui vêm parar também pode ser um pouco assim: não falamos ao sabor das ruas, mas seguimos ao sabor da lotaria secreta das pequenas descargas eléctricas no meu cérebro. Isto tudo só para dizer isto: por alguma razão que não imagino, lembrei-me há poucos minutos de, há muitos anos, andar perdido nos campos do Sul de França, à noite, a olhar para as estrelas com um grupo de amigos.

Pois, nessa noite (isto foi aí por volta de 1997, acho eu), lembro-me de ouvir uma amiga minha a dizer, lá nos meandros duma deliciosa conversa, que a ciência destruiu a magia das estrelas. Diga-se que não estávamos os dois sozinhos, não vá algum leitor ver aqui mais um folhetim daqueles que já me deu para inventar por aqui…

Não achava na altura (e não acho agora) que a ciência tenha feito tal patifaria às estrelas. Mas, naquele momento, ali com um grupo de amigos a viajar, não estava para grandes debates. Estávamos deitados no campo, a ouvir os grilos enquanto conversávamos — e, ali no escuro da noite longe das cidades, as estrelas pareciam-me tão intrigantes como desde sempre, com ou sem ciência. Um pouco como a Lua: será que o luar mudou quando o primeiro homem pôs o pé no nosso satélite de estimação?

Mas também isto é verdade: nós próprios, aos 17 anos, éramos mais intrigantes do que as estrelas.

Enfim, nessa noite não pensei nisso, mas hoje lembro-me de que a tal magia das estrelas descobri-a eu, precisamente, num livro de ciência (Cosmos) — nele, Carl Sagan imaginava um rapaz duma tribo pré-histórica a olhar para cima e a pensar sobre o que seriam aquelas luzes. Seriam fogueiras de tribos celestiais? Seriam orifícios num lençol negro que tapava um fogo antigo? Estou a citar de cor, pois não tenho o livro aqui comigo e já passaram mais de duas décadas desde que o li. Mas quero imaginar que o tal rapaz tinha precisamente 17 anos.

A realidade, sabemos agora, é ainda mais surpreendente do que podia imaginar esse rapaz há milhares de anos: as estrelas são esferas de fogo muito maiores do que o mundo, a brilhar a milhões de quilómetros de distância — e há muito tempo. Sim, muitas das estrelas que vemos lá em cima já nem sequer existem, mas como a luz demora milhões de anos a cá chegar, estamos a olhar para o passado distante quando elevamos a cabeça para o céu nocturno.

Não é espantoso?

Mas também é espantoso pensar que, tal como esse rapaz inventado por Sagan, continuamos intrigados a olhar para o céu e uns para os outros. Não somos assim tão mais sábios do que esses humanos que lascavam pedras e pintavam as paredes das cavernas: continuamos espantados com o simples facto de estarmos aqui. E, tal como há centenas de milhares de anos, todos descobrimos rapidamente que, saibamos ou não do que são feitas as estrelas, é bom ter 17 anos e estar ao ar livre, entre amigos, a olhar para o céu e a conversar sem rumo.

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