Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Categoria: Crónicas (Página 1 de 17)

O dia em que olhámos para as estrelas no Sul de França

Não serão as melhores conversas aquelas que fluem ao acaso, enquanto vamos passeando pelas ruas duma cidade (por exemplo), ao sabor daquilo que vamos vendo? Há quem já tenha feito bons filmes só com uma conversa assim mesmo — em Viena, lembram-se?

Pois até este passeio em que escrevo no blogue e depois converso, quando posso, com os simpáticos leitores que aqui vêm parar também pode ser um pouco assim: não falamos ao sabor das ruas, mas seguimos ao sabor da lotaria secreta das pequenas descargas eléctricas no meu cérebro. Isto tudo só para dizer isto: por alguma razão que não imagino, lembrei-me há poucos minutos de, há muitos anos, andar perdido nos campos do Sul de França, à noite, a olhar para as estrelas com um grupo de amigos.

Pois, nessa noite (isto foi aí por volta de 1997, acho eu), lembro-me de ouvir uma amiga minha a dizer, lá nos meandros duma deliciosa conversa, que a ciência destruiu a magia das estrelas. Diga-se que não estávamos os dois sozinhos, não vá algum leitor ver aqui mais um folhetim daqueles que já me deu para inventar por aqui…

Não achava na altura (e não acho agora) que a ciência tenha feito tal patifaria às estrelas. Mas, naquele momento, ali com um grupo de amigos a viajar, não estava para grandes debates. Estávamos deitados no campo, a ouvir os grilos enquanto conversávamos — e, ali no escuro da noite longe das cidades, as estrelas pareciam-me tão intrigantes como desde sempre, com ou sem ciência. Um pouco como a Lua: será que o luar mudou quando o primeiro homem pôs o pé no nosso satélite de estimação?

Mas também isto é verdade: nós próprios, aos 17 anos, éramos mais intrigantes do que as estrelas.

Enfim, nessa noite não pensei nisso, mas hoje lembro-me de que a tal magia das estrelas descobri-a eu, precisamente, num livro de ciência (Cosmos) — nele, Carl Sagan imaginava um rapaz duma tribo pré-histórica a olhar para cima e a pensar sobre o que seriam aquelas luzes. Seriam fogueiras de tribos celestiais? Seriam orifícios num lençol negro que tapava um fogo antigo? Estou a citar de cor, pois não tenho o livro aqui comigo e já passaram mais de duas décadas desde que o li. Mas quero imaginar que o tal rapaz tinha precisamente 17 anos.

A realidade, sabemos agora, é ainda mais surpreendente do que podia imaginar esse rapaz há milhares de anos: as estrelas são esferas de fogo muito maiores do que o mundo, a brilhar a milhões de quilómetros de distância — e há muito tempo. Sim, muitas das estrelas que vemos lá em cima já nem sequer existem, mas como a luz demora milhões de anos a cá chegar, estamos a olhar para o passado distante quando elevamos a cabeça para o céu nocturno.

Não é espantoso?

Mas também é espantoso pensar que, tal como esse rapaz inventado por Sagan, continuamos intrigados a olhar para o céu e uns para os outros. Não somos assim tão mais sábios do que esses humanos que lascavam pedras e pintavam as paredes das cavernas: continuamos espantados com o simples facto de estarmos aqui. E, tal como há centenas de milhares de anos, todos descobrimos rapidamente que, saibamos ou não do que são feitas as estrelas, é bom ter 17 anos e estar ao ar livre, entre amigos, a olhar para o céu e a conversar sem rumo.

Um sorriso e um pátio andaluz

Fiquem com este outro quadro de Julio Romero de Torres, o pintor que me calhou na rifa no último artigo. Não é um quadro para marcar a vida de ninguém, mas por algum motivo gosto muito da cara simpática da velhota com a menina a dormir ao colo (o quadro chama-se Mal de amores). A senhora já sabe o que a casa gasta nesta coisa de amores: sabe que a mulher de ar sombrio (será a filha?) fazia bem em encolher os ombros e ir para o pátio andaluz que apetece tanto, lá atrás…

Um quadro copiado milhões de vezes

Caí no vício outra vez. Apeteceu-me pôr a girar aquela roda da fortuna de que vos falei e fui parar, desta vez, a um artigo sobre um quadro espanhol. (Tive sorte, foi o que foi.)

O quadro é este (La Fuensanta):

É de Julio Romero de Torres e foi pintado em 1929. Foi apresentado na Exposição Iberoamericana de Sevilha de 1929 (é o que diz o artigo da Wikipédia) e, depois, desapareceu até 2007.

Bem, não desapareceu completamente: aliás, é provável que muitos espanhóis o conheçam — porque andou nos bolsos deles durante muitos anos, numa nota de 100 pesetas:

Mas como apareceu nas notas, se o quadro se perdeu? Bem, foi usada uma fotografia do quadro. E, a partir da foto, o quadro foi reproduzido 981.200.000 de vezes, nas tais notas de 100 pesetas.

Pois bem, mas este exercício de falar dum assunto ao calhas não pode limitar-se a repetir o que a Wikipédia diz. Para isso já bastam muitos trabalhos que por aí rodam. Pois, deixem-me lá dizer-vos isto: tal como os espanhóis conhecerão este quadro por causa das pesetas, também nós ainda nos lembramos do aspecto de algumas personagens muito nossas por causa da imagem que tínhamos nos bolsos. Pois, se eu disser Gago Coutinho, não se lembram logo deste Gago Coutinho?

E o Bocage? Não é esta a cara que vos aparece na mente?

O dinheiro é sujo, mas às vezes põe-nos arte nos bolsos — ou pelo menos a cara de algumas pessoas importantes. Tenho alguma pena que as notas de euro sejam tão anódinas. E não é que a Europa não tenha pintores em barda — e escritores, compositores e tudo o mais (até piratas, vejam lá). Não tem é poucos. Só que se pomos um quadro austríaco, logo tínhamos Malta a reclamar que também quer lá alguém, não é verdade? Problemas desta moeda complicada — mas também se fossem só esses, estávamos bem! E, sim, também é verdade que a arquitectura é um arte das maiores — mas aquelas janelas e pontes não lembram nada, porque são quase abstractas. E é pena.

Paixão e montanhas-russas

By 663highland (Own work) [GFDL, CC-BY-SA-3.0 or CC BY 2.5], via Wikimedia Commons


Ah, pois. O que me calhou na rifa naquele sorteio que vos descrevi no último artigo foi isto: uma montanha-russa em Tóquio que se chama «Big O».

Bem, o desafio era escrever um artigo sobre o tema escolhido pelos deuses escondidos no ventre da Wikipédia. Ora, o que posso eu dizer sobre esta montanha-russa?

Para começar, digo que não me apetece assim muito andar nesta coisa. Isto porque tenho um problema que é o seguinte: tenho medo. (Mas se alguém me oferecer uma viagem a Tóquio só para experimentar, não digo que não.)

O que mais posso dizer?… Neste momento, estou a suar as estopinhas para ver se me safo desta.

Bem, posso muito bem perguntar ao meu caro leitor: por que carga de água tanta gente gosta de andar nestes monstros? Porquê passar uns minutos a ser torturado?

A resposta não é assim muito difícil: estas construções delirantes são seguras (dizem), mas convencem o nosso corpo (e a nossa mente) que estamos em perigo, deixando-nos com o coração aos saltos e a adrenalina a bombar nas veias. Racionalmente, sabemos que não há grande perigo. Mas o corpo não sabe e ficamos mesmo aos saltos como se estivéssemos a viver uma grande aventura.

É uma maneira de nos enganarmos a nós próprios — e esse engano é delicioso. No fundo, as montanhas-russas e outras invenções do género deixam-nos eufóricos à força. Deixam-nos aos gritos e com a cara afogueada. Deixam-nos (e isto é muito importante) como se estivéssemos apaixonados.

E às vezes deixam-nos mesmo apaixonados. Se a dois potenciais pombinhos ainda na fase do vai-não-vai lhes der para entrar numa montanha-russa e passar pelos altos e baixos da coisa, é bem provável que saiam de lá bem mais chegados um ao outro do que entraram. Sim: pode até dar-se o caso de ser naquele momento, entre os gritos e os risos e o coração aos saltos e as mãos que de repente se entrelaçam sem querer — pode dar-se o caso, dizia eu, de ser naquele momento que o cupido acerta no coração dos dois.

No fundo, estas emoções fortes à força de muito carril retorcido são mesmo um poderoso feitiço. Ficamos zonzos, mais vivos do que nunca, com o coração a sair pela boca, nos lábios um sorriso imenso — e, à saída, os passos fazem-se uns centímetros mais chegados um ao outro, os olhares um pouco mais demorados e até as piadas secas começam a deixar-nos na boca um riso mais sincero.

Ou seja, se alguém andar por aí sem saber o que fazer para despertar a paixão no coração da bela amada ou do belo amado, não precisa de inventar ou mandar vir uma qualquer poção do amor. Precisa ainda menos de ir à bruxa. Do que precisa mesmo é de comprar um bilhete para uma bela volta a dois numa montanha-russa. E nem precisa de ir a Tóquio! (Se bem que uma viagem dessas não é de deitar fora.)


E pronto, foi assim que o raio do botão da Wikipédia transformou este blogue, por uns minutos, numa espécie de consultório sentimental. Mas descanse o leitor já aflito: amanhã voltamos à programação habitual.

Uma alhada das antigas (e o mundo num botão)

Já sei, já sei: devia estar a escrever a continuação daquela história do tesouro que escondemos dos espanhóis. E estou! Mas demora, porque tudo aquilo dá muitas voltas e aqueles pobres namorados nem sabem bem onde estão metidos.

Mas lá chegaremos. Agora tenho de cumprir uma promessa que fiz a mim mesmo. Uma espécie de desafio parvo que inventei e que tenho de cumprir sob pena de não me conseguir olhar ao espelho.

Então, deixem-me lá contar-vos como me meti nesta alhada.

Estava eu numa daquelas sessões que nos calha a todos em que temos de ir às compras e vemo-nos na aborrecida situação de esperar que a nossa mulher experimente roupa de vários tamanhos e feitios. Não me estou a queixar! Também tenho de comprar roupa e a Zélia espera e ajuda-me quando é preciso. Faz parte da vida…

Mas, enfim, ali enfiado no meio de prateleiras de roupa, pensei passar aqueles minutos usando a mais poderosa ferramenta para matar tempo: a Internet no telemóvel.

Sim, até podia ter lido um livro, mas eram poucos minutos e estava com a cabeça muito nas nuvens. Também podia ter ido ao Facebook. Mas está muito visto.

Vai daí, fiz uma coisa daquelas mesmo estranhas: fui à Wikipédia e carreguei no botão «Random». Para ler um artigo ao calhas.

Pois é: não sei se sabem, mas a Wikipédia dá-nos a possibilidade de escolher um artigo ao calhas entre os milhões e milhões de artigos criados por pessoas de todo o mundo. É fascinante ver toda a estonteante variedade do mundo naquele mundo reduzido duma enciclopédia criada pelos seus próprios leitores.

Descobri nessa loja de roupa que o botão é viciante. Vá: experimentem. Carreguei várias vezes e fui desde flores que só existem no Brasil até edifícios históricos dos E.U.A., passando por campeonatos de ténis dos anos 70, conceitos de linguística, a lista de todos os senadores canadianos que começam pela letra Y (a sério!), álbuns de cantores pimba australianos e um grande e aterrador et caetera.

Ah, e jogos de computador que só os japoneses conhecem. E ruas duma aldeia da Áustria. E estátuas em São Petersburgo. E posições sexuais que não lembram ao diabo (ou melhor, ao diabo lembram, mas a mais ninguém).

É mesmo viciante. Admito: talvez seja um vício muito restrito e pouco interessante. Mas não conseguia parar de carregar no botão para saber até onde me levaria neste mundo louco. Lembrou-me, assim muito vagamente, aquela série da minha adolescência, Quantum Leap, em que a personagem nunca sabia onde iria cair no episódio seguinte.

Bem, aos saltos pelo mundo virtual, a verdade é que continuava no mesmo sítio. A Zélia sai do provador, o feitiço desfaz-se, eu sorrio — e lá saímos os dois dali para fora (os dois, sim: o Simão estava a passar o serão em casa dos primos que isto de ir às compras com o filho é uma categoria de pesadelo que não vem na Wikipédia).

Foi então que me lembrei deste desafio: pensei para comigo — tenho de ser capaz de escrever um artigo sobre o assunto que me calhar nesta roleta russa maluca.

Ou seja: carrego no botão e tenho de escrever qualquer coisa sobre o tema que de lá sair. Seja ele qual for: o primeiro presidente da Câmara de Frenchville, Maine? Sai artigo! A posição sexual preferida de Hitler? Vamos a isso! A lista de deputados do Uganda? Com certeza!

Sorri. Era isso mesmo. Estava decidido. Ia mesmo desafiar-me a mim próprio. O blogue nunca mais seria o mesmo!

Mas, já com o polegar em cima do botão, hesito. Porra: e se me sai uma coisa intragável? Ou para maiores de 18? Ou tão desinteressante que nem o Garrett conseguiria escrever alguma coisa de jeito?

Mas um desafio é isso mesmo: um desafio. Tenho de me aguentar à bronca…

Estou a andar ao lado da Zélia quando carrego no botão e o mundo começa a rodar à minha volta. Sinto-me transportado milhares e milhares de quilómetros.

O que me calhou nesta rifa do mundo inteiro? Bem, conto-vos no tal artigo, que será o próximo.

Podia ser pior, mas não deixa de ser uma grande alhada. Veremos como me safo desta.

O que é que o comboio tem?

O meu sobrinho Dinis perguntou-me no outro dia:

— Tio, também és revisor?

Não sei o que terá ele ouvido para me fazer tal pergunta, mas respondi:

— Sim, sou.

Ele pôs um sorriso tremendo e exclamou:

— Que fixe! Quer dizer que trabalhas nos comboios!

Eu ri-me enquanto a Zélia explicava que tipo de revisor eu era — e, ao mesmo tempo, lembrei-me dos tempos de faculdade, quando me entretinha a dizer a quem quisesse ouvir que, não pudesse eu ser aquilo para que estava a estudar, gostava mesmo muito de ser maquinista (já pica não é coisa que agrade por aí além).

O que será que os comboios têm que nos deixam a imaginação a delirar? Os aviões são interessantes, mas à distância — na prática, são o mais desconfortável dos meios de transporte. Dá jeito chegar depressa, claro, e não deixa de ser barato atravessar milhares de quilómetros por poucos euros, mas não nos deixa a sonhar com a viagem — só com o destino. Já o automóvel é um pouco mais interessante: vemos a paisagem, podemos parar debaixo duma árvore no Sul de França, conhecemos regiões e cidades sem plano, se quisermos.

Mas o comboio… O comboio é material de aventuras, filmes e romances. É material de memórias de juventude. Deixa-nos o coração a bater mais depressa. Será aquele ambiente da estação, o comboio quase a partir e nós a dizermos adeus? Será as noites a atravessar longas paisagens de países exóticos? Será o simples facto de ser o meio de transporte por excelência nas décadas em que o cinema teve a sua explosão popular? Não sei: mas lá que me apetece entrar num comboio e seguir por essa Europa fora — lá isso apetece…

O que é que o comboio tem?

Os deliciosos erros dos nossos filhos

Já todos sabemos como é: há coisas que os nossos filhos fazem que nos deixam derretidos e que, para as outras pessoas, não são nada de especial. «O meu filho aprendeu a contar até três!» — e lá se põe o pai com um sorriso de orelha a orelha. Já o amigo encolhe os ombros, porque isso de contar até três, enfim, não é assim uma façanha de correr a contar a toda a gente.

Bem, sendo pai, fico mais comovido com o ingénuo entusiasmo daquele pai do que com o encolher dos ombros do amigo. Sim, eu sei que raramente as crianças fazem coisas que as outras não façam também. Só que isso não torna o crescer menos espantoso.

E, por isso, confesso: fico com um sorriso no canto dos olhos quando o Simão faz qualquer coisa de novo. Por estes dias (em que ele tem quatro anos e pouco), são as frases cada vez mais completas, as palavras novas que não sei donde aparecem (pregando-nos um ou outro susto…), a atenção a tudo o que passa por ele e as perguntas curiosas sobre tudo e nada — sem esquecer aquilo que ele já sabe e eu nunca conseguirei fazer bem, como por exemplo (ai, vergonha) dançar.

E não é que até fico comovido com os erros? Acho um portento de invenção fonética a maneira como ele diz essa palavra onde quase todas as crianças tropeçam: «frigorífico». Diz qualquer coisa como «fuísco» e é uma delícia ver esse simpático fuísco, ao longo do tempo, a transformar-se num pesado frigorífico (ainda não chegou lá — está a meio caminho).

E tal como quando nos dizem que o nariz dele é meu e os olhos da mãe, parece que nos erros também há qualquer coisa nossa… Ontem apanhei-o a dizer: «isto é um poguema». E eu disse: «um problema?» e ele disse que sim — e por dentro fiquei a rir-me, lembrado da minha mãe a contar-me como eu não conseguia dizer «problema» até bem mais tarde do que a minha vergonha permite confessar. O que dizia eu? «Poguema», claro está.

Guterres ou o mistério dos leitores aos magotes

Uma das personagens deste blogue

Uma pessoa prepara com entusiasmo e alguma paciência um texto em que António Guterres surge como personagem (bem real) — e lá aparecem, a custo, uns quantos gostos no Facebook. O texto é lido por umas dezenas de leitores. Uma pessoa sorri.

Pois um dia, ao chegar a casa, uma pessoa escreve três parágrafos em trinta segundos irritados — e desatam a chover gostos e partilhas e tudo o mais como se o mundo acabasse já hoje (é só dia 20, malta!). Os três míseros parágrafos são lidos por milhares de leitores.

Tudo porque me pus a falar do sotaque do mesmo António Guterres.

Vá lá uma pessoa perceber isto.

O Facebook espalha a ignorância?

A ignorância é falta de conhecimento. Ora, alguém já acordou a saber alguma coisa, ligou o Facebook e, puf, lá se foi o que sabia? Não me parece: no máximo, o que o Facebook faz é espalhar ideias erradas — mas onde espalha as ideias erradas, também pode espalhar ideias certas (ou menos erradas).

No fundo, estamos no mundo do debate de ideias. É complicado? É difícil? É perigoso. Sim, sim, sim. Mas já havia ideias diferentes antes do terrível mundo das redes sociais. O que temos agora é mais rapidez.

Então e os disparates? A boçalidade? O mau português? Já lá estava! Só que não se via tanto. Andávamos mais distantes dos outros mundos. Estávamos ainda mais enterrados nas bolhas em que vivemos. Nem sempre tínhamos de lidar com gente que não se importa de insultar os outros por dá cá aquela palha.

(Sim, andei a ler este texto de José Pacheco Pereira e fiquei pasmado com a facilidade com que se partilhou o texto pelas tais redes sociais — pareceu-me um desfilar de ideias-feitas sobre as redes sociais, como se estas criassem gente ignorante onde antes havia gente bem informada. Mas admito que possa ter sido uma leitura apressada. Não tive tempo: tinha o Facebook à minha espera.)

Volto atrás e repito: o Facebook não nos encerra em bolhas. Deixa à vista as bolhas onde já estávamos, porque nos aproxima de opiniões, comentários e linguagem a que não estávamos habituados.

Pense lá quem acha que o mundo flipou com o Facebook: encontre uma só pessoa que dantes era culta e informada e, agora, depois de passar pelas tais redes sociais, ficou ignorante e bruta. Encontro muito mais exemplos do contrário: gente que encontra novas perspectivas, novas ideias, novos textos e livros e arte ao andar pelas redes. Sim: nós encontramos coisas boas no Facebook e derivados. Há lá muita coisa má? Sim: mas o mundo sempre foi assim. Aprender a encontrar o que é bom faz parte do crescimento.

Mas, pronto, admito: agora temos de crescer mais depressa e, pelo caminho, há muitos tropeções, muita zanga, muito espanto pela ignorância do mundo. Mas ela, meus amigos, sempre lá esteve.

(Deixo aqui esta resolução de início de ano: vou tentar combater menos moinhos de vento, como diz e muito bem o Paulo, leitor regular deste blogue. Vou tentar espantar-me menos com a ignorância que sempre lá esteve e passar a falar mais de coisas boas. Veremos se me aguento muito tempo.)

A felicidade nos pés do Éder (e na cama numa manhã de domingo)

Esqueçam as previsões: tanto quanto sei, 2017 pode correr de tantas formas que nem vale a pena andar por aí a sofrer. Há-de morrer gente famosa, vão acontecer mais coisas do que imagina a mente humana e o mundo, quanto sei, até pode acabar. Bem, pelo menos que dure mais um dia para não estragar a festa de mais logo à noite.

E 2016? Há duas narrativas: correu mal ao mundo, mas correu bem a cada um de nós (é o que mais oico por aí). Não me vou pôr a fazer esse tipo de avaliações. Não sei se o ano me correu bem: houve coisas muito boas e coisas muito más e, no meio, o assim-assim em que passamos os dias.

Quanto ao mundo… Bem, se olharmos para os títulos das notícias o mundo já devia ter acabado. Mas só os ingénuos acham que o estado do mundo se vê nas notícias. Os títulos dos jornais dizem pouco sobre o estado do mundo e muito sobre o estado das nossas excitações. O mundo está mal? Com certeza que está. Pior do que em 2015? Tenho dúvidas.

Bem, deixemos isso. Pensemos antes nos momentos de felicidade, que é coisa mais concreta e definida. Há muita coisa que nos traz felicidade: as horas com um livro na mão, uma canção ouvida ao adormecer, um bom filme. E a felicidade complicada e difícil que as outras pessoas nos trazem. Lembro-me de ter lido numa tarde de Agosto, enquanto o meu filho brincava com os primos e eu estava deitado com a Zélia num relvado no Parque da Serafina e encontrei um parágrafo do livro Soldados de Salamina, de Javier Cercas, que não posso citar por não o ter comigo, mas em que Miralles recordava os amigos mortos na II Guerra dizendo que nunca saberão a felicidade que é ter o filho de três anos a chegar ao quarto de manhã e dormir mais um pouco ao pé dos pais. Naquela tarde de sol, enquanto o meu filho brincava ali, aquele livro triste deu-me uma felicidade imensa. E pronto, depois há a felicidade dos beijos e do calor do corpo e da alegria matreira daquilo que se faz e não se diz. Misturo muito as coisas? A nossa vida é uma grande salganhada.

(Lembrei-me agora: de certeza que a citação dos Soldados de Salamina está por aí. Fui ao Google e lá está este arremedo quase lamechas num livro muito pouco sentimental e muito bom:

«Desde que terminó la guerra no ha pasado un solo día sin que piense en ellos. Eran tan jóvenes… Murieron todos. Todos muertos. Muertos. Muertos. Todos. Ninguno probó las cosas buenas de la vida: ninguno tuvo una mujer para él solo, ninguno conoció la maravilla de tener un hijo y de que su hijo, con tres o cuatro años, se metiera en su cama, entre su mujer y él, un domingo por la mañana, en una habitación con mucho sol…»)

A felicidade nos livros, na música, nas pessoas… — e nos pés do Éder. Sim, tudo isto foi desculpa para chegar àquele momento de felicidade inesperada, aleatória, inútil e saborosa que 2016 nos deu: o golo do Éder e, mais ainda, o apito final do árbitro nessa final.

Sim, aquele golo e aquela história que ali encaixava, o país que esperou 12 anos para ganhar aquilo que uns gregos lhe roubaram, foram um momento de felicidade para milhões. Muitos reclamam que não é felicidade como deve ser, que futebol é só futebol, que… mas o que querem? Lembro-me desse momento em que o árbitro apitou para o fim do jogo e eu e a Zélia saltávamos como crianças, com o Simão a perguntar o que foi o que foi e não vou ser capaz de deixar 2016 sem um sorriso. Houve felicidades maiores neste ano de memória incerta? Claro que sim. Mas daquelas que se partilham e que nos mandam para a rua gritar, esta foi a maior.

O Éder e a felicidade em bruto… Não é a maior felicidade do mundo, mas é uma felicidade despida, sem mas nem meio mas. Sim, não fizemos nada para a merecer, desaparece num instante, mas foi capaz de, ali durante dez minutos, pôr adversários aos saltos juntos, casais desavindos aos beijos, um pedreiro e um ministro a rir felizes e juntos, os portugueses quase todos aos saltos porque um homem feliz marcou um golo ao calhas — e tudo isso ainda nos deixa um sorriso nos lábios quando nos lembramos. Tem lógica? Não. Mas é tão bom!

Bem, desejo-vos muitos pontapés do Éder para 2017. (E se o mundo acabar, paciência.)

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