Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

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Viagem ao Aquário: peixes camuflados e bactérias assassinas

Como é que os peixes aprendem a camuflar-se?

Sei que já temos o Oceanário, mas por vezes é bom voltar ao velhinho Aquário Vasco da Gama. Aqueles corredores de madeira e toscos ecrãs a tresandar a anos 70 lembram-me a infância e as viagens de estudo. E lá estivemos, com o meu filho e os meus sobrinhos, a olhar para peixes de todos os tipos e feitios.

A certa altura, maravilhámo-nos com a maneira como alguns peixes se camuflavam.

Aqui está um peixe armado em rocha (procurem bem, está ali no centro da imagem, no meio das duas pedras, na sombra, virado para o canto inferior direito):

E, depois, abrimos a boca perante uma raia armada em fundo do mar (diga-se que as fotos foram tiradas sem flash, para não incomodar ninguém):

É um espanto, não é? E perante isto, podemos perguntar: mas como é que estes peixes conseguem? Como é que se armam em espertos e se disfarçam? Será de propósito? Pensaram nisso? Alguém andou a afiná-los?

O mecanismo da evolução

Ora, pensar na camuflagem ajuda-nos a perceber o mecanismo da evolução por selecção natural. Não há nada consciente no mecanismo, mas o resultado parece planeado. É um truque magnífico da Natureza, embora a Natureza, diga-se, não pense nisto como um truque. Aliás, a Natureza pensa pouco: age muito mais.

A evolução por selecção natural ocorre em dois passos: todos os seres são ligeiramente diferentes uns dos outros, mesmo dentro de cada espécie. Estas diferenças vêm, por exemplo, das pequenas mutações genéticas, inevitáveis e muito úteis, que ocorrem no momento da reprodução.

Ora, alguns seres acabam — devido a estas mutações — por ficar mais bem preparados para enfrentar o mundo em redor e, assim, reproduzem-se mais e espalham a tal mutação por cada vez mais descendentes.

É um processo natural e lógico. Se, por via duma mutação, uma raia começar a parecer-se mais com o fundo do mar onde vive, vai conseguir fugir um pouco melhor aos predadores — e, assim, sobrevive mais tempo, reproduz-se mais, passa esse gene melhorado aos descendentes, que também conseguem reproduzir-se melhor, num efeito multiplicador que é a grande razão por que a vida tende a invadir todos os recantos da terra.

Mais tarde, se nova mutação levar a que uma das descendentes da tal raia ainda se pareça mais com o fundo do mar — melhor! Por outro lado, se a mutação for em sentido contrário, será mais provável que a pobre raia com o seu gene alterado acabe no estômago do predador em vez de passar a mutação à próxima geração.

Isto tem mais a ver connosco do que muitos gostam de admitir: todo o nosso corpo foi criado assim, devagar, ao longo de milhões e milhões de anos. Aliás, muitas das nossas tendências psicológicas saíram deste processo de escultura genética. Sim, eu sei, temos a cultura, o acaso, as opções individuais — mas tudo isto acontece em cima desse material humano criado ao longo de milhões e milhões de anos de evolução.

Algumas pessoas ficam incomodadas com esta descoberta. Por algum motivo, gostavam que o ser humano tivesse sido criado de uma só vez. Noutros casos, o incómodo está nessa ideia de que existe uma natureza humana, de que temos tendências inscritas em nós — ora, isso é o que acontece com todos os animais, por que razão havíamos de ser diferentes nesse facto tão básico de todos os seres vivos do nosso planeta?

Aliás, estou em crer que aquilo que nos une na nossa humanidade comum é precisamente aquilo que também nos une aos outros seres deste planeta. Todos nascemos, temos necessidades e emoções — e depois nós, seres sociais e muito inteligentes, também temos ideias, amores, desejos formulados em língua de gente. E, sim, conseguimos juntar a isto a consciência de aqui estarmos, a necessidade de criar qualquer coisa para lá do dia-a-dia, a curiosidade de saber um pouco mais sobre o que nos rodeia, o que nos empurra para a arte, a filosofia, a ciência…

Muitos de nós também temos esta mania de tentar melhorar, o que nem sempre dá bons resultados, mas é um bom instinto. Há ainda quem fique impaciente: perante a nossa terrível imperfeição, desespera, como se tivéssemos caído do paraíso imaginado. E, no entanto, nunca fomos anjos, mas antes animais conscientes e que desejam, em certos momentos, ser mais do que isso. O problema é que somos também inteligentes, muito inteligentes — o que é óptimo, mas aliado ao nosso tribalismo ancestral, tem resultados terríveis.

Desse processo que deu origem à nossa querida espécie, há muito que não sabemos. Mas sabemos pelo menos isto: somos herdeiros dessa carga antiga, modelada durante tanto tempo por esse mecanismo que explica a camuflagem dos peixes.

O perigo das bactérias mutantes

Gosto de saber estas coisas porque sou curioso (não somos todos?). Mas também vale a pena saber isto por outras razões. Afinal, esconder a natureza humana pode dar mau resultado — e não perceber a evolução até faz mal à saúde.

As bactérias, por exemplo — o nosso uso dos antibióticos por tudo e por nada é muito perigoso. Porquê? Porque as bactérias mudam de geração como nós mudamos de cuecas. Aliás, a coisa até é mais rápida: se tomarmos em consideração um humano que mude de cuecas com menos frequência do que o razoável, antes que tal senhor experimente boxers novos, já as bactérias conheceram as suas trisnetas.

Ora, neste cenário, ao usarmos os antibióticos de forma descuidada, estamos a dar oportunidades aos bichos para, através das tais mutações que ocorrem sempre (e de forma aleatória), acertarem numa qualquer alteração genética que torne a bactéria imune àquele antibiótico. Ora, a partir dessa avozinha rija, temos filhas, netas, trisnetas, milhões de descendentes aos saltinhos… Todas imunes! Lá ficamos com uma estirpe que não morre com aquele medicamento em particular. Pum: quem morre somos nós quando a netinha da senhora bactéria entra no corpo de um ser humano.

Reparem que isto acontece por causa de mutações aleatórias: mas quantos mais antibióticos desnecessários tomarmos, mais probabilidade temos de levar com a tal neta maluca da senhora bactéria. E, de facto, infelizmente, as bactérias super-resistentes têm aparecido por esse mundo fora. A sorte que tivemos com a invenção dos antibióticos (os milhões de vidas que foram salvas!) pode estar a ser desperdiçada, agora, por não nos sabermos controlar.

O que fazer? Bem: não tomar antibióticos a não ser quando for necessário. Os médicos sabem disto. Nós também. Mas, mesmo assim, é tão comum tomá-los por dá cá aquela palha. Enfim, a culpa é da natureza humana, que saiu do forno implacável da evolução por selecção natural, que não sabia o que eram antibióticos nem quais as características certas para viver em sociedades complexas no início do século XXI. Mas podíamos ser um pouco mais espertos e contrariar a nossa preguiça tão humana…

Bem, estamos muito longe do Aquário Vasco da Gama. Esta viagem foi mais longa do que o previsto. Mas não faz mal. Gosto de viajar sem plano.

O dia em que conheci um russo com um buraco no pescoço

Há uns tempos, comecei a contar por aqui uma certa viagem que fiz a Nova Iorque. Nessa altura, revelei o que aconteceu no voo — e também já dei uns lamirés sobre o que se passou dentro do quarto do hotel na 42nd Street. Pois hoje conto como fui dar com um russo que tinha um buraco no pescoço ali numa rua de Brooklyn.

Antes disso, tenho de explicar que aquele foi um dia de muitos sustos — talvez até me atrevesse a chamá-los de presságios, não fosse dar-se o caso de… Bem, já vos digo o caso que se deu.

Primeiro presságio: o ataque de que fomos vítimas…

1. O ataque no Central Park

Tudo começou num passeio que demos no inevitável Central Park. Não sei se o leitor concorda, mas aquele parque urbano parece uma espécie de ferida verde num corpo feito de pedra. Os prédios que o rodeiam são exagerados, quase feios — embora o conjunto seja de tirar a respiração.

Pois lá fomos nós armados em antropólogos de fim-de-semana. Por ali estavam as personagens de muitos dos filmes que vemos, na dieta de cinema norte-americano que é apanágio de muito português. As empregadas a tomar conta dos filhos das senhoras, os joggers de fios a sair das orelhas, os Mr. Bigs de telefone na cara e confiança no passo e os cinquentões à Woody Allen a discutir em gabardines nervosas.

Era Setembro e estava sol. O sossego era bom. Passeámos pelos lagos, pelos caminhos, por aquela natureza que, de tão pensada que foi, tinha o seu quê de selvagem. Ao mesmo tempo, aquela era uma paisagem há muito conquistada pelos filmes, pelos livros e pelas fotografias que nos inundam a mente e nos tornam a todos um pouco nova-iorquinos (muito pouco, admito).

Adiante. Lá estávamos nós a passar ao pé dum lago quando, de repente, a Zélia dá um grito de dor e leva as mãos à cabeça.

Tinha sido barbaramente atacada.

Por um esquilo.

E o gajo estava lá em cima da árvore com outra bolota na mão. Atirou-nos, malvado, mas já não nos acertou.

A Zélia estava estupefacta: uma bolota aleija e não é pouco. Ainda fui atrás do esquilo para lhe ensinar o que era bom tirando-lhe uma fotografia às trombas, mas não consegui. Fotografei um dos irmãos, que estas vinganças podem servir-se à família sem que daí venha mal ao mundo.

O que aconteceu a seguir? Nada. Continuámos. Dali a umas duas horas, quando anoitecesse, tínhamos um encontro marcado na Union Square.

Fomos gastá-las para uma livraria de cujo nome já não me lembro e que vendia, no meio dos livros, roupa. Não me lembro do nome, mas lembro-me dos livros que comprei, claro está, embora agora não me apeteça revelar quais foram.

2. Um susto em Union Square

Nessa noite, tínhamos um encontro marcado com o Filipe, amigo do meu irmão Diogo, que vivia por aqueles tempos em Nova Iorque, a estagiar como técnico de som.

Do caminho da livraria até à praça, em que entrámos no violento metro daquela cidade, lembro-me de pouca coisa: lembro-me bem melhor das páginas que me pus a ler e do livro que tinha na mão — diga-se que tinha sido comprado numa banca de livros usados à porta da tal livraria/loja de roupa.

O sol já baixara. A Union Square era um rodopio de casais aos beijos e grupos de estudantes a conversar. Lá ficámos à espera. Foi agradável estar ali um pouco entre nova-iorquinos, a sentir a outra cidade com um encontro marcado, a imaginar as vidas inteiras que por ali passam e as rotinas e sobressaltos que ali tinham a sua paragem.

De repente, chega-se um rapaz ao pé de mim e diz-me:

— Deixas-me ver o teu telemóvel?

3. «Passa para cá o dólar»

Não, não foi um assalto. Ele queria apenas saber o modelo de telemóvel. Pediu-me então, simpaticamente, para ir à loja online do telemóvel e procurar um jogo em concreto.

Procurei o jogo e mostrei o resultado. E ele, feliz:

— Este jogo fui eu que o fiz! Queres comprar?

Não era por ter ali o programador ao lado, mas o jogo parecia-me realmente engraçado. Custava 1 dólar. Tentei comprar, mas não deu, porque a minha loja online era portuguesa e não me deixava comprar o jogo ali nos Estados Unidos (não me lembro bem porquê).

O certo é que prometi comprá-lo logo que chegasse a Portugal. E ele acreditou. E eu comprei — ainda passei umas boas horas a jogar àquele jogo, entre as traduções e as saudades das viagens, num prazer que certamente vale muito mais do que o mísero dólar que paguei.

Já aqui escrevi algumas vezes — e não sou o único a dizê-lo — que os livros são uma espécie de caixinhas de recordações: abrimos as páginas dum livro e lembramo-nos bem dos sítios onde o lemos, onde o comprámos, onde o folheámos distraidamente.

Pois, naquele caso, um jogo de telemóvel foi uma dessas caixinhas de recordações em miniatura: quando me punha a jogar nas semanas seguintes, lembrava-me sempre daquele rapaz que criara um jogo e o andava a vender pelas ruas de Nova Iorque.

Voltemos à Union Square, que se faz tarde e já é de noite: conversámos um pouco com o rapaz — até que vimos o Filipe a surgir pelo meio da multidão, com o sorriso que já conhecia da minha terra.

4. Um caçador de sons em Nova Iorque

Começou-nos logo a contar como eram os dias de Nova Iorque. E, ao contrário do que acontece noutros casos, pusemo-nos a ir mesmo aos sítios da sua vida nova-iorquina.

Começámos pelo laboratório de som onde ele trabalhava. Ficava na Broadway, num prédio onde nenhum turista se atrevia a entrar.

Nada tenho contra fazer turismo: sempre gostei de viajar e não tenho assim tantas certezas sobre a fronteira entre turista e viajante. Sei que existe, mas não sei onde fica. Às vezes, parece-me que a atravesso várias vezes numa só viagem.

Mas também sei que é precisamente naquele momento em que entramos num sítio qualquer que não vem nos guias que uma viagem ganha outro tom, outro sabor: pois é então que até um mísero elevador num velho prédio da Broadway nos parece delicioso e parte duma cidade que agora também é um pouco nossa.

Bem, deixemo-nos de delírios. Lá em cima, no laboratório, eram televisões aos montes, microfones pendurados como estalactites ou perdidos no chão como estalagmites, gravadores e televisores e outros quantos materiais de imagem e som.

O Filipe ainda nos mostrou o seu equipamento de caçador de sons: as almofadas nos ouvidos e o microfone pendurado na sua cana muito particular. Não era aquilo que usava todos os dias. O que tinha na mão chegava. Confessou-nos então que andava por Nova Iorque de aparelho em riste, a caçar aquilo em que poucos reparam: a porta do metro que se fecha, uma conversa passageira numa língua desconhecida, a travagem dum taxi, um insulto dum mafioso, os sons dentro dum café na Village, o sino duma igreja entalada entre dois arranha-céus, o primeiro beijo de dois adolescentes, uma bolota atirada por um esquilo…

Apetecia-me ficar com essas outras fotografias de que ninguém se lembra. Os sons. Os cheiros. Aquilo que desaparece logo que levantamos voo, deixando-nos com fotografias mal tiradas duma cidade a duas dimensões. Pois que as cidades têm todas tantos lados e tanta coisa e até o passar as mãos nas paredes sabe bem e apetece — e é tão difícil guardar… Lá está, só a fraca memória e os deliciosos livros…

Pensámos então em ir jantar. Queixámo-nos dos preços naquela ilha — e o Filipe propôs-nos que fôssemos com ele até Brooklyn, onde iríamos ao supermercado, baratíssimo. Depois, ele tinha lá uma mesa em casa…

— Mas aviso: lá em casa vive um russo com um buraco no pescoço.

5. Os estranhos feiticeiros de Brooklyn

Pois lá fomos, de metro, até Brooklyn. Pelo caminho, íamos conversando sobre aquelas temas a que os viajantes se agarram: pensamos ver um padrão qualquer nos países por onde andamos e, de repente, contamos uns aos outros todos os casos que confirmam esse padrão, com o entusiasmo de quem descobriu uma verdade qualquer sobre o mundo — ou pelo menos sobre uma rua qualquer de Nova Iorque. Este método não me parece ser muito científico, mas é o que temos quando andamos a conversar em ruas longe de casa. E, para dizer a verdade, às vezes as conclusões são pouco mais absurdas que as conclusões a que chegamos sobre a nossa própria terra.

Naquele dia, falámos da estranha simpatia dos nova-iorquinos, que foi uma surpresa para nós, habituados a ouvir falar duma cidade de gente antipática. E o Filipe confirmava: logo no primeiro dia, tinha pedido informações a uma senhora que o ajudou até à exaustão. Depois de o largar, ainda gritou mais uma indicação da janela aberta do carro, por entre os táxis de Nova Iorque. E o Filipe, parado no passeio, olhava de boca aberta para aquela nova-iorquina de simpatia a toda a prova.

Da minha parte, contei como tinha passado à frente — sem querer — numa fila num café e o homem que tinha assim sido relegado para o lugar logo atrás de mim olhou-me não com indignação, mas com surpresa: parecia ser a primeira vez que tal lhe tinha acontecido. Pedi desculpa quando reparei e lá fui para o lugar que me competia, sem problemas e sem estalo. (Foi sorte, eu sei.)

A Zélia contava o estranho caso dos sapatos na mão: pois vimos não sei quantos nativos da zona a correr pelos passeios de sapatos bonitinhos na mão e ténis confortáveis nos pés. Chegámos à conclusão que aquela gente anda tanto quilómetro de manhã que precisa de calçado adequado à corrida — logo no escritório calçam os sapatos mais consentâneos com a importância da tarefa que têm entre mãos.

A casa do Filipe ainda era longe e, quando saímos do metro, andámos pelas ruas a tentar absorver aquela outra cidade dentro de Nova Iorque. Manhattan aparecia-nos como uma loucura de luzes por entre as casas, contra um céu muito escuro. A ilha, vista dali, deixa-nos muito pequeninos. Já as ruas de Brooklyn são duma normalidade que nos deixa desorientados.

Pois foi então que a normalidade se esvaiu num segundo. Apareceram-nos homens com chapéus negros altíssimos, capas brancas e ar de — como direi — feiticeiros. Andavam a percorrer as ruas e a entrar em várias casas, onde as famílias os recebiam felizes.

O Filipe explicou-nos então que aqueles eram judeus ortodoxos que faziam visitas às casas dos correligionários nas sextas-feiras à noite para conversar e conviver.

Continuámos a percorrer as ruas e, entre aqueles homens de chapéus estranhos, víamos talhos turcos, mercearias polacas, restaurantes bálticos e, entre as casas, a embriaguez das luzes de Manhattan como cenário.

Passou um metro por cima de nós e tive vontade de pegar no gravador dele para guardar para sempre aquelas cores, aqueles cheiros e aqueles sons duma noite banal de Nova Iorque.

6. Uma família siberiana

Aproximamo-nos do momento em que conhecemos o tal russo de buraco no pescoço. Mas antes disso fomos a um supermercado normal, barato (e que sabor tem essa palavra depois duns dias de Manhattan), onde comprámos qualquer coisa para jantar.

Pois bem: deixe-nos agora o leitor a escolher pizzas e outras iguarias nos corredores pouco originais do supermercado. Quero agora contar que, nesse dia ou no dia anterior, visitámos o Museu de História Natural — aquele mesmo onde o Ben Stiller andou a tomar ácidos há uns anos.

Pois bem, a certa altura tive aquilo que algumas pessoas chamam de «epifania» e eu chamo de «momento de cansaço».

Estávamos perante uns bonecos dentro dum vidro, daqueles que parecem muito reais, tão reais que o Ben Stiller ainda hoje jura tê-los visto a falar nessas tais noites no museu.

Olhei para aquela cena: uma tenda no meio da Sibéria, uma família — uma mãe, um pai, um filho — protegidos da neve e a comer qualquer coisa. A cena representaria a vida naquelas paragens longínquas há uns bons milhares de anos.

E, tal como, se repetimos uma palavra muitas vezes, ouvimos o som pelo que ele é e não pelo que significa — ao olhar com muita atenção para aqueles bonecos, abstraindo-me de estar em Nova Iorque, num museu, vi como aqueles seres humanos viveram mesmo à neve, em florestas e espetes longínquas — e como aquelas vidas, para eles, eram tão completas como as nossas vidas de gente citadina, que viaja. No fundo, tive ali consciência de como aquelas vidas eram tão humanas como as nossas, com histórias, sarcasmos, discussões, amores e filhos e comida e tantos medos. De alguma maneira, aquela família era ainda mais real do que eu, turista a olhar para bonecos para lá dum vidro.

As epifanias são assim: impossíveis de explicar, ainda por cima a mais de cinco anos de distância. Porque me lembrei agora daquela família? Não sei. Talvez por causa da tal conversa do russo com buraco no pescoço. Provavelmente, o homem tinha tanto a ver com aquela família siberiana como eu. Mas não deixei de pensar como, agora, andamos pelo mundo misturados e nessa altura, em que uma família se abrigava em tendas, uma viagem de alguns quilómetros era uma aventura que seria suficiente para dar origem a lendas e sagas que duravam séculos.

Voltemos pois a Brooklyn, onde já estamos a sair do supermercado de sacos na mão.

— Mas que história é essa do buraco no pescoço?

Ele riu-se:

— Não faço ideia. Ele vive lá em casa e tem um buraco no pescoço. Não liguem. Em princípio, ele não vos faz mal.

Ficámos calados, a olhar. Seriam aquelas as últimas imagens que veria antes de ser barbaramente assassinado por um ex-agente do KGB?

Há sítios piores para morrer. Se tivesse de ser, que fosse rápido — e sem buracos no pescoço.

7. Por fim, o russo e o seu pescoço

Entrámos na casa. Pusemos os sacos na mesa. Olhámos pela janela e lá andavam os feiticeiros de chapéus na cabeça. O Filipe continuava a contar as suas aventuras à procura dos sons de Nova Iorque.

Entrou então na cozinha um homem com cara de mau, como se quisesse confirmar a nossa imagem estereotipada dum agente secreto. (Fico um pouco corado de vergonha: por que razão um russo em Nova Iorque me leva a pensar em agentes secretos?)

O Filipe disse «olá», o homem cumprimentou-o — e não nos disse nada, como se não existíssemos. Subtilmente, eu e a Zélia aproximamo-nos um do outro.

Tentámos ver-lhe o pescoço mas ele franziu os olhos e não virou a cabeça. Olhou para nós. Nós olhamos para ele. Caiu naquela cozinha o silêncio que todos conhecemos daquelas situações em que tentamos ver o pescoço de outra pessoa e ela não deixa.

Vira, não vira, o certo é que o russo encolheu os ombros e virou-se para sair.

E foi então, com um salto, que vimos o tal buraco no pescoço. Ou melhor, vimos qualquer coisa estranha ali entre o cabelo e o colarinho da camisa. Teria levado um tiro? Teria sido preso na Sibéria? Teria tropeçado num degrau à saída do supermercado? Teria um problema de pele?

Sobrevivemos — e eu pensei nas vidas e mistérios que se escondem numa rua banal de Nova Iorque ou de qualquer cidade. Ou até numa tenda na Sibéria ou por trás dum colarinho dum russo nova-iorquino.

O Filipe riu-se da nossa cara de susto e voltámos à conversa de portugueses perdidos numa cidade estrangeira — como seria o nosso aspecto aos olhos daquele russo? Como soaria a nossa língua aos ouvidos dele? Ou o que diriam de nós aqueles homens vestidos de negro que percorriam as ruas de Brooklyn? Ou os nova-iorquinos que, por um momento, saíssem do adormecimento de tantos milhões de turistas e olhassem para nós com olhos de ver? Somos todos um pouco estranhos — mas não deixamos de ser todos mais parecidos do que parece, se virmos bem: desde famílias siberianas numa tenda, passando por judeus ortodoxos, até portugueses a fazer compras num supermercado de Brooklyn. Se a roda do mundo assim quiser, podemos ser vizinhos de qualquer humano deste mundo. Diremos então «olá», a imaginar o que se esconde por trás daqueles olhos e das cicatrizes que todos temos.

Por hoje, fico por aqui. Como disse no início, foi um dia de muitos sustos, de muitos presságios. Mas não aconteceu nada — e aconteceu tudo. Falei-vos de caçadores de sons, vendedores de rua de jogos virtuais, russos com buracos no corpo, feitiços de sexta-feira à noite, portugueses a deambular por Brooklyn. Demos uma boa espreitadela na estranheza que se esconde por trás de todas as esquinas do mundo.

Até à próxima viagem!

Um pescoço bem cortado

Devereux tremeu ao ouvir os passos do meirinho e do carrasco.

Enquanto era transportado para a morte, gritava:

– Eu sei onde está o tesouro!

Mas desistiu. Em breve, a sua cabeça rolaria pela terra molhada do pátio da Torre de Londres.

Limitou-se a pedir ao carrasco que fosse rápido – e decidiu informá-lo:

– Já fui amante da rainha, sabia?

O carrasco olhou para aquele homem e sentiu um calafrio. Era a primeira vez que executava alguém.

O primeiro golpe acertou no cabelo, sem beliscar a pele ao pobre conde. Devereux atirou, como se estivesse a falar com um criado nos seus tempos de riqueza:

– Ó homem, mas é assim tão difícil acertar no pescoço? Vá, despache-se que a minha vida não é isto.

Mas de repente calou-se. A lâmina do carrasco brilhava e em breve acertar-lhe-ia no pescoço. Seria rápido? Iria sentir dor? E depois? O que se seguiria?

A segunda estocada já acertou no pescoço – e a terceira separou a cabeça do amante da rainha. Naquele momento, o olhar do homem apagou-se para sempre – e para sempre se perderam as suas memórias de rainhas nuas, salteadoras esplendorosas, guerras e feitos de admirar, tesouros escondidos pelo mundo e muita vontade de aventura. Tudo acabou naquele momento – mas foram décadas duma vida bem preenchida.

Conto tudo isto porque tenho muito a agradecer a este nobre inglês. Aquele pirata inglês, enquanto esperava pela morte, contara as histórias do Tesouro de Saturno ao seu companheiro de cela. Se não o tivesse feito, eu nunca teria ouvido aquelas histórias da boca do meu avô.

O carrasco pegou pelos cabelos na cabeça de Robert Devereux, mostrou-a à assistência e gritou «God Save the Queen».

(Capítulo 25 de A Baleia Que Engoliu Um Espanhol)

Agruras dum comprador de livros

Gosto de livrarias. Aliás: gosto muito de livrarias. Mas confesso este pecado: de vez em quando, lá mando vir um ou dois ou três livros lá de longe. E a livraria cujo nome não vale a pena pronunciar manda-me os livros e eles chegam aqui.

Com o tempo, tal como há prazer em passar os dedos pelas lombadas dos livros que nunca hei-de comprar numa boa livraria, aprendemos que também há prazer em receber esses pacotes castanhos com livros dentro. Como se fosse Natal quando um leitor quiser.

Bem, o certo é que a tal livraria inglesa de nome brasileiro, quando manda uma encomenda, deixa-nos bisbilhotar por onde andam a passear os nossos livros. Vamos lá à página e vemos a viagem quase em directo. E eu quero ver. E vou ver. E lá vou esperando, a afagar as mãos, pelos meus livrinhos.

Ora, esta semana, encomendei uns livros na página espanhola da tal livraria. A minha lógica foi esta: Espanha está mais perto, os livros chegam mais rápido. E sempre vou treinando para o Brexit.

Fiz a encomenda e, minutos depois, fui espreitar onde estavam os meus livros. Pois, logo me apareceu a primeira paragem da viagem dos livros: França.

França? Então, mas não era Espanha?… Enfim, tudo bem, eles é que sabem.

A terra donde saíram os livros chama-se Gidy. Hum, cheira a terra com muita flor e um rio. Muito bem, comece a viagem dos meus livrinhos. Vá, venham por aí abaixo até mim, até Lisboa…

Pois os livros em vez de virem para sul, vão para norte e chegam, horas depois, a St Jean de la Ruelle. O que é isto? O que se passa? Quem anda a passear com o meu livro pela França? Portugal é para baixo, ó ignaro condutor de camiões transportadores de bens preciosos.

Pois, em poucas horas, os livros passam de St Jean de la Ruelle para Chilly Mazarin, ainda mais a norte. Não só estou a ver os livros a afastarem-se em direcção ao Mar do Norte, como ainda por cima estou a ficar com fome de estrada.

Porra: eu é que queria estar em Chilly Mazarin ou lá o que é! É verdade: gostava ainda mais de estar em Nice ou na Córsega, mas não se pode ter tudo. Aliás, nem sequer se pode ter Chilly Mazarin, quanto mais.

Fui dormir. Na manhã seguinte, acordo, ponho os óculos, pego no telemóvel, vejo onde estão os livros ainda estremunhado.

Os livros estão em Benavente! Viva! Lisboa à vista!

Só que aparece “Benavente, ES”. ES? Espanha? Mas o que é isto? Fomos invadidos?

Percebo então que há um Benavente perto de Zamora. Raios. Eu queria os meus livros agora. Prometo nunca mais fazer isto e, a partir de agora, comprar todos os meus livrinhos em livrarias. Isto de adiar a satisfação é importante para a vida, mas muito aborrecido.

E, ainda por cima, o raio dos livros ficam em Benavente um dia inteiro! O que raio há em Zamora para ver? Nada! Venham lá embora, se faz favor.

E, ao fim da tarde, eles saem lá de cima e vêm por aí abaixo. E eu contente, já a sentir a vibração daquelas páginas.

Por fim, ao som de Wagner, vejo o camião a dobrar a esquina. Sorrio. O camião passa por mim sem parar. Fico triste em câmara lenta. Até que os meus livros travam. O homem enganara-se. Marcha-atrás. Estacionamento perfeito. E lá aparece o senhor de chapéu na cabeça e caneta na mão, com o meu embrulho castanho.

Assino aquilo, digo um obrigado a correr e destruo com prazer o cartão. Aliviado, passo os dedos pelos livros vadios. Fecho os olhos e penso: a felicidade, às vezes, está no cheiro dum livro novo.

Somos bichos muito estranhos.

Agora, desculpem, mas vou ali ler e já volto.

Qual é a pátria dos bons escritores?

Hoje é dia de entregar a mítica declaração de IRS.

Reparo na cara de susto do leitor mais desprevenido. Vem a um blogue de línguas e livros e aparece-lhe o IRS à frente. O horror!

Antes de fugir a sete pés, deixe-me lá explicar porque trago os impostos à liça. Quero falar dum certo livro e a melhor maneira que encontrei foi falar de impostos.

Sim, a literatura e o IRS parecem viver em universos paralelos — mas, por vezes, lá se encontram à esquina…

Ler no hospital

Há muitos, muitos anos, num desses dias em que os jacarandás também andavam por aí a rebentar na beleza desvairada desta cidade, tive de esperar pacientemente numa bicha do Hospital Santa Maria.

Lembro-me bem desse dia porque andava aflito com o pólen — a Primavera é apetitosa, mas muito perigosa — e ainda porque tinha na mão um daqueles objectos que ajudam a recordar os sítios por onde passamos: um livro.

Estava a ler o segundo volume das memórias de Anthony Burgess: You’ve Had Your Time. Como fui parar a este livro? Não faço ideia. Nunca tinha lido o primeiro volume e, do autor, só conhecia o inevitável Clockwork Orange, que uma amiga tinha recomendado enquanto estávamos a jogar bowling — digo isto só para provar que o mundo é muito pouco arrumado e até o bowling se mistura com o prazer dos livros.

Enfim, lá andava eu no hospital de Santa Maria, à espera. E muito esperei eu nesse dia — o que foi óptimo, pois assim tive tempo para ler. Ah, o livro é demasiado bom para caber num apertado artigo de blogue.

Fiquei a saber que Anthony Burgess foi diagnosticado com uma doença fatal ali por volta de 1960 e ficou com um ano para viver — viver e escrever. Precisava de deixar algum dinheiro para Lynne, a futura viúva. O autor fez da necessidade força, desatou as mãos e escreveu livros como se não houvesse amanhã. E, de facto, não havia amanhã — diziam-lhe os médicos.

O que fazer com esta vida?

O mundo é imprevisível — e a verdade é que Burgess não morreu em 1961, mas sim em 1993, o que foi óptimo para ele e muito bom para nós, seus leitores. Só não foi assim tão extraordinário para Lynne, pois o homem, com uma nova vida entre mãos, esqueceu a mulher e arranjou uma amante italiana — Liana — com quem viveu durante muitos e (diz-me o autor) bons anos.

Pois a verdade é que o sucesso foi-lhe madrasto: os inspectores dos impostos começaram a cheirar a nova fortuna e caíram-lhe em cima. À época, as taxas de impostos britânicas para os rendimentos mais elevados eram assim coisa para chegar aos 90%.

Bedford Dormobile. Numa carrinha deste tipo se escreveram algumas das melhores obras da literatura europeia.

O que fez Anthony Burgess? Fugiu. Sim, tornou-se um exilado fiscal, um nómada, a viver numa Bedford Dormobile pela Europa fora, com a sua nova mulher italiana, a bater furiosamente na máquina de escrever instalada na carrinha, cigarro na boca, lá à frente a estrada sem fim deste continente louco à sua espreita.

Não é isto delicioso? O autor ainda viveu uns tempos em Malta, onde teve de aturar a alfândega, que nessa época de bons costumes cortava as páginas menos próprias dos livros que Burgess encomendava. Sim: os livros chegavam-lhe retalhados, sem sexo nem nada.

Leiam o livro que vale a pena. Temos o mundo nas nossas mãos, desde Malta, Mónaco, Rússia, Austrália, as memórias de como escreveu as grandes obras e ainda confissões sobre a adaptação de Clockwork Orange para cinema.

Ainda estou para ler o primeiro volume — mas dá-me a sensação que vou acabar por reler este antes de me aventurar nos primórdios dessa vida de espantar. E, como livro puxa livro, acabei por ler mais uns quantos romances dele, o que só me fez bem.

Fazer o que se quer com a língua

Anthony Burgess foi escritor, mas não só: também foi tradutor, crítico e compositor (mais de 250 obras musicais!). Além disso, era um apaixonado pela linguística e esse interesse bem marcado pelas línguas ajudou-o a lidar com o seu material de trabalho. (Falei dessa sua faceta linguística há muito tempo, num dos primeiros artigos deste blogue.)

Burgess não só gostava muito de línguas — também criava línguas! Ou melhor, criou um novo inglês, aquele registo adolescente cheio de interferências russas que marcava a sociedade distópica de Clockwork Orange. A linguagem, nas suas misturas, mostra o que somos e como somos — e estas misturas são bem mais interessantes do que o manejo traquejado dum registo puro, fora do mundo.

Aqui fica o início desse romance:

‘What’s it going to be then, eh?’
There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry.

Anthony Burgess recusou-se a criar um glossário para ajudar o leitor: aprendemos este novo inglês à medida que lemos o livro. E o certo é que aprendemos! Deste início, ficamos logo a saber como se diz «amigo» entre a juventude dessa época imaginária. «Droog», pois então. Já agora, em russo, o que temos é друг, ou seja,«drug».

Anthony Burgess imaginou o cenário linguístico dum mundo em que a União Soviética era a grande potência. O russo seria a língua da moda, a língua onde os jovens iriam buscar as suas palavras próprias, talvez para horror dos pais. Para lá desse realismo linguístico, essa língua alterada também permitiu ao autor criar novas palavras e obriga o leitor a aprendê-las — e, o que não será o menos importante, ajudou a elevar esteticamente a violência descrita no romance.

Mas para lá de todas as razões e análises, Anthony Burgess brinca com a língua — e brinca com prazer, como se estivesse a dirigir uma orquestra enquanto compõe uma sinfonia naquele preciso momento, a sorrir.


Antes de avançar, deixo ao leitor — como exemplo da imaginação verbal de Burgess nestas memórias — a descrição da Sagrada Família de Barcelona que aparece lá pelo meio:

Gaudí had worked on the structure like a novelist, letting new ideas effloresce as he built. The towers of the Sagrada Familia were more than an unfinished novel; they were a meal — foraminated like waffles, crunchy, with pinnacles of crisp sugar. […] I was desperate to be done with the film scrip and at work on a Gaudiesque novel.

A imaginação do artista junta o que nunca ninguém juntou. Gaudí faz isso e Burgess também. E a vida, a vida: sem querer, por motivos fiscais, enfia um escritor numa carrinha por essa Europa fora e quem ganha somos nós.

Como explodir com as fronteiras das línguas

Hoje escrevo sobre misturas e a passagem por Barcelona trouxe-me à memória outro escritor: Juan Marsé.

No seu romance El amante bilingüe, Marsé imagina um burguês bem catalão que descobre, de repente, que a sua mulher — também catalã dos sete costados e funcionária do departamento linguístico da Generalitat — tem um fraquinho por andaluzes de bigode e cheiro de castanholas.

O marido começa então a transformar-se nesse andaluz dos sonhos da mulher, telefonando-lhe para o trabalho sem dizer quem é.

Numa sátira aos purismos linguísticos da sua cidade, o autor imagina a linguagem desse catalão de identidade desfeita. O protagonista tem de falar em espanhol andaluz quando telefona para a mulher.

Com o andar do romance, começa a esquecer-se de quem é e as duas línguas vão-se fundindo. O livro acaba assim:

Pué mirizté, en pimé ugá me’n fotu e menda yaluego de to y de toos i així finson vostè vulgui poque nozotro lo mataore catalane volem toro catalane, digo, que menda s’integra en la Gran Encisera hata onde le dejan y hago con mi jeta lo que buenamente puedo, ora con la barretina ora con la montera, o zea que a mí me guta el mestizaje, zeñó, la barreja y el combinao, en fin, s’acabat l’explicació i el bròquil, echusté una moneíta, joé, no sigui tan garrapo ni tan roñica, una pezetita, cony, azí me guta, rumbozo, vaya uzté con Dió i passiu-ho bé, senyor…

Esta é uma mistura explosiva, um espanhol andaluz eivado de catalão ou um catalão eivado de andaluzismos — ou qualquer outra coisa que não consigo definir. Não interessa. O livro é cruel e muito divertido. E, pronto, confesso, pode irritar muita gente, mas «me guta el mestizaje».

A pátria dos bons escritores

Juan Marsé, há uns anos, numa entrevista em Portugal, disse esta frase magnífica: «Creio que a pátria de um escritor não é sequer a língua, é a linguagem.» (Visão, 10 de Maio de 2012).

É normal que isto seja dito por um escritor que se sente puxado pelos braços por duas línguas em tensão contínua. Mas a verdade é que esta frase é adequada a todos os escritores, em todas as épocas e lugares. Um escritor usa a língua em que cresceu — mas raramente está limitado a um registo, a um lugar, a uma língua nacional. A literatura — e em especial o romance, esse género que engole a humanidade inteira — faz-se do confronto de várias linguagens, de várias línguas.

Se alguém imagina que um bom escritor é o paladino da língua pura e certinha, vai perder quase tudo o que vale a pena na literatura. Os grandes escritores têm sempre de trair essa primeira pátria. Sim, lêem muito na sua língua (mas não só), inscrevem-se numa tradição literária (mas também gostam de lhe dar com os pés) — e depois misturam, transgridem, brincam, abusam.

Repito: um bom escritor não é animal duma só língua. Habita a linguagem humana, tal como a encontra nas ruas que percorre — e lembremo-nos que, muito pouco pura, a linguagem humana é um bicho selvagem feito de gestos obscenos, carinhosos, aflitivos — um bicho que faz um esforço para se comportar nos salões da sociedade, mas que está sempre à coca para, à primeira oportunidade, fugir para a sua inconfessável vida das ruas. É dessas vidas todas — à mesa da sociedade, pés entrelaçados debaixo da mesa, e ainda na rua, ao beijo, ao soco e em corrida — que se faz a literatura.

Sim, a literatura, em boas mãos, faz-se de tudo: de línguas à mistura, catedrais que parecem refeições, gente fugida aos impostos em carrinhas perdidas pelas estradas da Europa. E tudo isto é delicioso e tudo isto está à distância dum bom livro.

«Fazer a barba» é erro de português?

Anda uma pessoa descansada por aí quando sente o telemóvel a avisar: tem um novo comentário no blogue.

Antes de mais, gostava de agradecer aos meus leitores: recebo por aqui excelentes comentários, que às vezes valem mais do que o próprio artigo. Basta pensar nos comentários à aventura das línguas da Eurovisão

Os comentários críticos são também, quase sempre, muito agradáveis e simpáticos. E foi sem acrimónia que um leitor, há pouco, tentou convencer-me de que «fazer a barba» é mesmo erro de português, apesar do que por aqui escrevi já vai para dois anos.

Ainda dialoguei um pouco com o leitor e, por fim, aceitámos que as nossas visões da língua são irremediavelmente diferentes.

Para o tal leitor, um verbo só pode ter o significado mais óbvio ou aquele que parece mais lógico. Se ao cortarmos a barba não estamos a construir nada, então não podemos usar tal expressão.

Para mim, pelo contrário, os significados das palavras são um pouco mais malandros e dão umas piruetas engraçadas. Não há nada que possamos fazer quanto a isso — e ainda bem.

A minha questão, agora, é esta: qual é o percurso mental que leva algumas pessoas a considerar erro algumas expressões e não outras, onde também podíamos martelar uma qualquer falha lógica?

Julgo que será algo assim:

  1. Imbuído da ideia falsa de que uma palavra só pode ter um significado ou de que os sentidos menos literais de cada expressão estão sempre errados, um falante desprevenido descobre um erro na língua portuguesa. Por exemplo, «fazer a barba». Ah, pois! Nós não fazemos a barba! É erro! É erro! Ah, malandros dos portugueses, que andam há tanto tempo a usar uma expressão tão errada…
  2. O falante fica feliz: apanhou todos os outros em falso. Sabe um pouco mais do que o vizinho. Como um dos problemas cognitivos a que todos estamos sujeitos é a crença de que somos mais espertos do que a maioria das outras pessoas, é fácil acreditar que, se todos dizem «fazer a barba», é porque todos estão errados (eu é que não). (Diga-se que este não parece ser o caso do leitor com quem andei a dialogar, pois ele confessou-me também usar a tal expressão.)
  3. Se sairmos em defesa da dita expressão e dissermos algo como «as expressões da língua não estão erradas só porque nos apetece» —  ou «devemos ter em conta a realidade da língua que sai da boca dos falantes» —  ou «as palavras têm significados claros e legítimos que, no entanto, nem os dicionários conseguem apanhar» — ou «a língua portuguesa deve ser estudada com respeito antes de nos pormos a corrigi-la à tonta» — a pessoa que andava por aí convencida de ter apanhado o resto do mundo em falta fica um pouco desiludida. Se aceitar os argumentos, esfuma-se naquele instante o poderoso perfume a superioridade. Ou então, o que é mais provável, não cede e defende a todo o custo a sua ideia muito particular de erro. Um pouco como aquele condutor que está em contramão convencido que os outros carros é que vão todos mal…

Usar a expressão «fazer a barba» não atrapalha nenhum falante e, na verdade, só irrita quem foi infectado pelo vírus das interpretações literais ou das piadas de barbearia.

A aventura das línguas na Eurovisão

Falar do ucraniano — ou do português! — a propósito da Eurovisão ainda vá. Agora do basco, do catalão e do galego é que não lembra ao diabo. 


Quando eu era novo, pensava que ganhar a Eurovisão era importante. Não é, claro. Mas esta vitória foi como um sonho vindo das profundezas da nossa infância. Como se recebesse aos 36 a prenda que me prometeram aos 10.

Pois vou aproveitar esta loucura toda com o concurso, loucura essa que deve terminar daqui a uns dois ou três dias, para falar de — surpresa! — línguas. E línguas ibéricas, pois então — afinal, a Península Ibérica arrasou no festival: ficámos em primeiro e os nossos vizinhos em último…

O catalão e o galego na Eurovisão

Andorra na Eurovisão, em 2004. [Fonte.]

Há línguas muito antigas e com pergaminhos de fazer inveja e que não aparecem na Eurovisão. Basta andar uns quilómetros na nossa península e temos o basco, a mais isolada das línguas europeias. Que eu saiba, ninguém alguma vez cantou em basco na Eurovisão, o que é uma pena. Já não acontece o mesmo com o catalão, que foi ouvido entre 2004 e 2009 por causa de Andorra, que lá andou metida.

A primeira canção em catalão ouvida por essa Europa foi «Jugarem a estimar-nos» (não fiquem preocupados comigo: é para saber estas coisas que serve a Wikipédia).

O que quer dizer este título? O verbo «jugar» — que se lê à portuguesa, tal e qual o nosso «jogar» — quer dizer «brincar».

No caso, a forma «jugarem» (primeira pessoa do plural do futuro) lê-se com a sílaba tónica na última vogal e o «m» bem marcado. Será algo como a inexistente palavra portuguesa «jugareme». Corresponde ao nosso «brincaremos».

O verbo «estimar» quer dizer «amar». Logo, o título quer dizer algo como «vamos brincar ao amor» ou «vamos lá fingir que nos amamos, mas só durante esta noite». Os andorranos são assim, o que querem?

E o galego? Ah, foi com um sorriso na boca que vi muitos amigos galegos a afirmar que uma canção na sua língua tinha ganho o festival. Andaram a circular memes com uma frase do género: «O galego não serve para nada? Serve para ganhar a Eurovisão!»

Já o espanhol… Enfim, este ano apareceu por lá de raspão e levou cinco pontinhos muito portugueses.

As línguas da Ucrânia — e da Catalunha

Num festival organizado na Ucrânia, lá ouvimos umas palavras, aqui e ali, nessa língua. No final, até Salvador Sobral disse umas palavras em ucraniano.

Ora, já aqui falámos como aquele país, o segundo maior da Europa, tem questões linguísticas complexas. Não só neste artigo que escrevi sobre a questão linguística naquele país, como também no artigo sobre a ligação entre o nosso acordo ortográfico e a Ucrânia — e ainda o artigo de Serge Lunin sobre o bilinguismo na Ucrânia… e em Portugal!

Julgo que a situação da Ucrânia pode ajudar-nos a perceber o que aconteceria se a Catalunha ficasse independente. Diga-se que o catalão é uma língua minoritária muito mais bem protegida do que outras línguas minoritárias por esse mundo fora — e mesmo em Espanha. Está presente no ensino (de forma intensiva), é usada na literatura, na televisão e por uma percentagem muito significativa da população.

No entanto, não está, digamos assim, garantida. Ao contrário do que acontece com outras línguas não castelhanas de Espanha, o catalão tem prestígio e um apoio social de fazer inveja. Mas ainda corre perigo de o seu uso diminuir e de passar a ser uma língua residual, como é hoje, por exemplo, o irlandês na Irlanda, por mais prestígio que tenha nas instituições da ilha.

O catalão tem ainda este problema: não é reconhecido noutros países. Basta olhar à nossa volta: é difícil para muitos portugueses identificar aquela língua — ora, a língua é uma marca de identidade e a dificuldade de ser identificada pelos outros é um problema mais sério do que possa parecer à primeira vista. Pensem no que sentimos nós quando um estrangeiro nos diz «ah, a vossa língua é muito parecida com o espanhol» com um ar de uma certa indiferença. Os catalães nem sequer chegam a ouvir a frase porque os estrangeiros raramente sabem distinguir as duas línguas. E é pena.

Essa necessidade de identificação pelos falantes de outras línguas tem — quanto a mim — um grande peso no sentimento independentista de muitos povos. O independentismo pode ter razões histórias, económicas, sociais, etc. Mas não deixa de ser, lá bem no fundo, uma necessidade de reconhecimento internacional da nação com a qual nos identificamos. Muitos catalães sentem-se um povo e não como um subgrupo dentro doutro povo maior — e este sentimento transporta-se inevitavelmente para a necessidade de reconhecimento da sua língua.

E, depois, há isto: perguntem a uns quantos madrilenos se achariam bem Espanha levar uma música em catalão à Eurovisão — afinal, o catalão é a língua materna de vários milhões de espanhóis, não é verdade?

Se aceitarem o desafio, registem as respostas — talvez assim comecemos todos a perceber porque é difícil para os catalães encaixarem o seu sentimento nacional nesta Espanha tão castelhana.

E a Escócia?

Curiosamente, a Escócia, apesar de politicamente estar numa situação semelhante à catalã (é uma parte dum Estado maior com leis próprias, um grau de autonomia elevado e um sentimento de pertença nacional muito marcado), sente menos a indiferença dos outros povos.

Porquê? Talvez porque ostenta algumas das marcas de país na cabeça de todos nós: o seu nome é reconhecido no mundo inteiro, as suas tradições mais ou menos inventadas são bem visíveis (kilts e outros que tais), o Estado onde está integrada não esconde o facto de ser um Estado com uma identidade complexa (para dizer o mínimo), etc., etc.

Ah, e tem uma selecção de futebol que joga nos campeonatos que interessam. Não é coisa pouca.

É difícil ser bilingue?

Bem, mas já estamos muito longe do tema do texto. Voltemos à língua. Se a Catalunha se tornasse independente, o catalão seria a língua principal do novo Estado — disso não tenho dúvidas. Mas uma grande parte das famílias continuaria a falar espanhol em casa e na rua.

As tensões que iriam surgir — ou melhor, que iriam persistir, porque já lá estão, claramente — têm algumas parecenças com o que se passa na Ucrânia. De repente, a língua de prestígio do Estado (o espanhol em Espanha; o russo na União Soviética) passaria a ser a língua minoritária no novo Estado (o espanhol na Catalunha; o russo na Ucrânia). Em caso algum a Catalunha seria um país monolingue como é hoje Portugal — tal como a Ucrânia também não é.

Tanto num caso como no outro, os que imaginam uma sociedade monolingue em que há uma língua absolutamente predominante (como acontece, por exemplo, em Portugal) têm de se habituar a viver numa sociedade bilingue com o desconforto associado. Têm mesmo de se habituar à situação — não há muito a fazer e talvez até fosse bom aproveitar o que de bom tem o bilinguismo: todos os cidadãos podem aprender as duas línguas, o que não tem mal nenhum e permite aos ucranianos ler a boa literatura russa e aos futuros catalães independentes (se tal vier a acontecer) continuar a saber usar com mestria e talento a língua castelhana.

Já os espanhóis duma Espanha reduzida ficariam na pior situação de todas: saberiam espanhol e ponto final. Apesar de todas as tensões, saber duas línguas é sempre melhor do que saber só uma. O bilinguismo é desconfortável para o sentimento de identidade (que tende para o simplismo), mas faz bem à vida de cada pessoa bilingue em particular.

A que soa o português?

Uma vitória na Eurovisão não serve para nada — nem tinha de servir. A Eurovisão é uma maluqueira muito europeia. Com algum esforço, vislumbro uma vantagem daquela explosão de luzes e fogo de artifício: o festival andou anos a criar memórias comuns aos europeus, o que não é coisa pouca.

Quanto ao nosso vencedor, o que temos agora é uma música em português que de repente está nas rádios de vários países. Uma música que ajuda os ouvidos destreinados dessa Europa de tantos países a reconhecer bem a nossa língua.

Isto não é coisa para mudar o estado da música portuguesa — seja ele qual for. E ainda bem. Mas, como disse lá em cima, a ligação entre língua e identidade leva-nos a querer que os outros nos reconheçam. É também por isso que sabe bem a um português ver gente de tantos países a dizer: «Ora bem, ouvi esta música em português — levem lá doze pontinhos que a coisa soou-me bem.»

(Por outro lado, a vitória não deixou de ser um prazer muito tribal. Portugal ganhou e pronto. Se tivéssemos ganho com uma música em inglês, desde que a vitória fosse nossa, ninguém ficaria assim muito chateado.)


Ah, com esta mania das línguas ibéricas, acabei por não falar daquilo que pensei quando comecei a escrever: do hebraico, a língua ressuscitada — e do húngaro — e do bielorrusso — e das outras línguas que por lá ouvimos. Na verdade, foram poucas. Para um festival europeu, a coisa foi muito monolingue

Não faz mal. Isto da Eurovisão é de modas. Nos anos 70, as canções soavam todas aos ABBA. Nos anos 90, a Irlanda era o farol da Eurovisão. Depois, veio a loucura dos primeiros anos deste século, em que valia tudo, menos cantar numa língua que não fosse o inglês. Portugal chegou sempre a estas modas com algum atraso e também por isso nunca ganhou nada. Desta vez, atravessou-se à frente e apresentou uma coisa diferente da moda dos últimos anos — e ganhou. É por isso que já muitos prevêem a moda do «vamos todos cantar músicas calmas na nossa própria língua». Será esse o mote da Eurovisão em 2018 — numa cidade perto de si…

O que significa que para o ano terei muito mais para falar sobre as línguas da Eurovisão do que este ano. Cá estaremos, pois então.

Aventuras de portugueses na Galiza

Começo pela multa que apanhei? Ou pelo homem que acha que o desenrascanço é espanhol? Talvez pelas conversas à mesa? Ou pelo velho galego que tinha Lisboa na cabeça?

A semana passada, andei uns dias a falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa em várias cidades da Galiza: Pontevedra, Lugo, Ferrol e Santiago.

Bem, não será bem «andei»: será mais propriamente «andámos»! Sim, porque fui com a minha mulher e o meu filho (que no final da semana já não estranhava nada conversas entre portugueses e galegos) — e estivemos sempre rodeados de boa gente. (Ah, não me posso esquecer que, no primeiro dia, os meus pais deram um saltinho a Pontevedra — que a Galiza é já ali.)

Foram dias muito intensos, com muita conversa e muitos quilómetros. Aprendi muito, claro está. Aprendi, por exemplo, o que são as Escolas Oficiais de Idiomas, escolas públicas onde adultos aprendem línguas estrangeiras — algo que não existe em Portugal. Foi em três dessas escolas que falei — e terminei a tour na livraria Ciranda, em Santiago de Compostela (estas as palavras com que o José Ramom Pichel apresentou o livro). As conversas duraram todas por volta de duas horas, mas passaram num instante — e continuaram à mesa. Foi um prazer.

Pergunto agora: quantos portugueses saberão que há milhares de galegos a aprender português à noite? E quantos adivinhariam que tantos galegos iriam querer falar da língua portuguesa pela noite fora?

Foi muito bom.

Que língua é esta?

Um dos temas de que falámos nas sessões foi a dificuldade que muitos portugueses sentem em distinguir o espanhol do galego. Muitos alunos, que estão a aprender português durante anos, queixam-se disto: chegam a Portugal e, falando galego ou mesmo o português aprendido nas tais Escolas Oficiais de Idiomas, recebem respostas em espanhol.

Em Ferrol, por exemplo, ouvi a incrível história do galego que foi a Portugal e esteve 10 minutos à conversa com um português — com o português a falar espanhol e o galego a falar português.

Mas, enfim, é verdade que um galego a falar galego sem tentar imitar o nosso sotaque vai encontrar uma imensa maioria de portugueses que ouve a língua e a enfia no saco do espanhol. Nós conhecemos bem os vários sotaques da nossa língua, conhecemos o português do Brasil, sabemos até ao que soa um estrangeiro a falar português — mas o galego, por mais próximo que esteja (e está!), não o conhecemos desde crianças. Não estamos habituados. A distância que sentimos tem mais a ver com essa barreira do desconhecimento do que com a distância real entre galego e português.

O sotaque é o suficiente para nos marcar a língua como espanhol, apesar de, se ouvirmos com atenção, repararmos nos artigos tão nossos («o», «a», «os», «as»), nas palavras que nos soam tão próximas, as frases que, na escrita, são percebidas como português ou, pelo menos, português escrito à espanhola.

Sim, eu que tenho esta pancada das línguas, acho que consigo distinguir bem as línguas latinas próximas. Cada um tem as suas manias, não é verdade? Mas também eu me confundo. Não sei se hei-de contar o que se passou… Afinal, portei-me mal.

Será que conto? Será que não conto?

Conto, sim.

Um guarda civil a falar galego

Ora, a certa altura, andava eu contente a conduzir e a conversar pelos verdes campos que vão de Compostela a Lugo, quando vejo um carro a atravessar-se à frente do meu e a pedir-me para fazer o favor de parar à força de sinais de luzes e um imponente «PARE!» no vidro de trás.

Fiquei imediatamente de boca aberta e mãos suadas. O guarda apareceu, simpático, e informou-me que tinha passado por uma zona de 70 km/h à louca velocidade de 90 km/h. Assenti com a cabeça, balbuciei qualquer coisa, fiquei a saber que, «por ser português», teria de pagar ali mesmo 50 euros.

O guarda afastou-se para preencher os documentos e, ao meu lado, o José Ramom Pichel vociferava contra a sorte que nos calhara, secundado pela Zélia.

Eu encolhi os ombros, mas perguntei ao José que história era aquela do «por ser português». Ele também não sabia.

Percebi depois — enquanto os dois guardas, simpáticos, me mostravam a foto do crime — que, por ser estrangeiro, tinha de pagar 50 euros de imediato. A diferença não era o valor, mas o facto de não poder sair dali sem pagar. Respirei fundo: por momentos pensei que Espanha tivesse multas só para portugueses.

Mas porque conto isto aqui? Só por isto: o José Ramom Pichel disse-me, depois, que tinha sido a primeira vez que tinha visto um guarda civil, em serviço, a falar galego. Aliás, o carro que foi multado à nossa frente era de galegos e tudo se passou em espanhol. Pois eu fui multado em galego, «por ser português».

A confissão: eu, nervoso e atrapalhado, não percebi em que língua fui multado. Até eu, louco por estas questões, troco-me todo nisto das línguas próximas se estiver ao lado dum guarda civil.

(O Simão dormia mas, quando soube que tinha sido multado, ralhou comigo.)

A aluna que não sabia o que estava a ouvir

Em Ferrol, tive uma surpresa: apareceram-me lá dois antigos professores de galego da minha faculdade, o Emilio Cambeiro e o Isaac Lourido. O Emilio, no fim, contou-me como uma aluna da FCSH, há uns anos, bateu à porta do gabinete e pediu a medo para falar com ele, mas avisando que não percebia espanhol.

Ele lá lhe explicou que podia falar em galego… E ela assustada, dizia que não, que não percebia nada disso. Ele lá lhe disse que também podia falar em português. Ela sorriu e disse que sim. E lá conversaram durante meia-hora, sem problema nenhum, até ele lhe dizer que tinha estado a falar galego. Ela, peremptória, disse que não, que aquilo era português. Ele insistiu: não! Era mesmo galego…

Também me lembrei do pai da Zélia que, há uns anos, nos disse que, na Televisão da Galiza (que ele vê com gosto), apareciam uns velhotes a falar português. Já aqui contei essa história — mas trago-a de novo para este texto só para vos dizer que, por mais diferenças que se tenham acumulado por várias razões, ainda há gente a falar galego que os portugueses reconhecem como estando a falar a sua língua. E isto é tanto mais espantoso quanto é verdade que desde sempre aprendemos que os espanhóis falam espanhol e ponto final. Nós, portugueses, povo monolingue (dizem), não vemos essas complicações. E mesmo assim o som dum velhote galego a falar ou dum professor que nos tenha dito antes que ia falar português e depois desata a falar galego confunde-nos. Sim, o galego deixa-nos zonzos, porque é tão próximo e, mesmo assim, estranho. Mas depois, claro, entranha-se, como dizia o outro.

(Esta ideia do estranhamento e do entranhamento fui buscar ao texto que Maurício Castro escreveu sobre a sessão em Ferrol.)

A fronteira e o conforto

Bem, indo para lá da língua. Todos sabemos que a fronteira tem a sua importância. A raia divide-nos e já divide há muito tempo. A nossa identidade é portuguesa e não se dilui nem se confunde com as múltiplas identidades galegas. Temos etiquetas diferentes. E há também isto: quando passamos uma fronteira, começamos de imediato a ter atenção às diferenças. A fronteira muda-nos o chip e o que vemos passa a ser espanhol no nosso cérebro. Logo, passa a ser diferente. Reparem: um português que fosse teletransportado num segundo de Santiago para Toledo (por exemplo) veria as diferenças óbvias entre a Galiza e o centro de Espanha e reconheceria que muitas dessas diferenças não existem entre a Galiza e o Minho. Mas um português que vá de carro de Santiago a Toledo nunca passa uma fronteira que saiba reconhecer — logo, não nota as diferenças. Quando passa de Valença para Tui, tem ali as placas a gritar: agora, isto é Espanha. E o nosso cérebro está bem treinado nisto das fronteiras.

Mas a verdade é que uma coisa é a identidade política ou nacional, outra é o conforto cultural que sentimos em certos locais. Como vários galegos me disseram, os galegos podem assumir a sua identidade espanhola (há excepções, claro), mas quase todos se sentem muito confortáveis em Portugal, esse país estrangeiro que está tão próximo — sentem-se bem mais confortáveis do que em certas regiões de Espanha. Esta sensação de conforto não põe em causa a identidade nacional que aprenderam desde crianças: é apenas a realidade das coisas e a realidade dos hábitos e da paisagem que sentimos à nossa volta.

Dizem-me também, claro, que esse conforto é especialmente forte quando estão no Norte. O Sul, com as suas planícies e as suas vogais desaparecidas, é um pouco mais agreste para um galego viajante.

Isto dizem-me os galegos. Já nós, portugueses, reconheçamos ou não as línguas que por lá se falam (e a mistura é tanta que é de facto difícil), também nos sentimos confortáveis na Galiza. Pronto, sei que é exagerado falar nos portugueses em geral. Atrevo-me então a dizer apenas isto: estes três portugueses que por lá andaram sentiram-se confortáveis e muito bem recebidos.

A Galiza tem isto: é tão próxima, mas não deixa de ter as suas diferenças, as suas surpresas. Os telhados negros de Ferrol, por exemplo, ou os nomes dos pratos… Estas diferenças misturadas com uma proximidade estranha provocam-nos e fazem-nos sair do que nos é habitual para depois reencontrar, a cada esquina, qualquer coisa que sentimos como nossa. Ora, sair do nosso país para saber mais sobre nós — haverá melhor definição de «viagem»? Conto dois episódios: o velho que sabia Lisboa de cor — e o famoso desenrascanço… espanhol!

O galego que sabia Lisboa de cor

Numa das manhãs desses dias, fomos os três visitar a Catedral de Santiago. Não há muito a dizer, basta encontrar fotos, não é? Bem, a certa altura um velho galego chega-se ao pé de nós e oferece um pequeno santinho ao Simão — ouvira-nos a falar português e ficou contente. Começou então a dizer, em português, que conhecia bem Lisboa. Começou então a desfiar os vários nomes dos bairros e zonas de Lisboa: «Saldanha», «Cais do Sodré», «Alfama», «Benfica»… Aí, parou e perguntou o clube ao Simão — depois continuou pelo mapa fora… Estávamos já a afastar-nos dele, para não incomodar mais a fila de turistas atrás de nós, e ainda ouvíamos da boca sorridente do velho os nomes (agora já fora de Lisboa): «Carnaxide», «Oeiras», «Cascais»…

Ele ficou felicíssimo por falar de Lisboa — e por falar com portugueses. E nós felizes ficámos, depois de passar pela surreal experiência de caminhar pela Catedral de Santiago, por baixo de imponentes órgãos e turíbulos fumegantes, a ouvir alguém a gritar: «Cruz Quebrada!», «Bobadela!», «Picheleira!».

O desenrascanço é espanhol? Ou será galego?

Nisto das diferenças e semelhanças… Durante aqueles dias, tinha o carro num estacionamento ao pé do sítio onde ficámos. Numa das noites, não consegui entrar com o bilhete de vários dias que tinha comprado. Tive de tirar o ticket habitual e fui à cabine pedir para resolver o problema (não queria ter de pagar duas vezes, já bastavam as multas).

O homem riu-se porque, pelos vistos, é habitual — testou o meu bilhete, viu que afinal estava bom. Agora, só era preciso convencer o sistema que eu tinha entrado com o bilhete certo. Ele pega num pedaço de metal, vai à cancela de entrada no estacionamento, põe o meu bilhete, vê a cancela a levantar-se, passa com o pedaço de metal no sensor — e a cancela lá baixa, convencida que eu tinha acabado de passar com o meu carro.

O homem riu-se, contente, e disse-me: «Isto é resolver problemas à espanhola!»

Eu ri-me também e lá lhe fui dizendo que também era assim que resolvíamos os problemas em Portugal. Até temos uma palavra, não é verdade? O famoso desenrascanço… Imagino que alguns leitores estão já a correr para ir buscar o mosquete que têm debaixo da cama, a pensar que até o desenrascanço os espanhóis nos querem conquistar! Bem, descansem: este é um desenrascanço muito galego

Neve em Santiago

Já aqui contei como nunca vi nevar em Portugal (e não foi por falta de tentar). Neve já vi na Serra da Estrela. Mas nevar, o verbo, só vi na Galiza e em Inglaterra.

Pois, mais uma vez o feitiço se confirmou: vi nevar em Santiago e vi nevar na auto-estrada entre Ferrol e Santiago. Foi também ali, na Galiza, que o Simão viu nevar pela primeira vez.

Mas, nesse percurso nocturno de auto-estrada debaixo duma espécie de nevão, lembrei-me daquele velho mito de que os esquimós têm não sei quantas palavras para descrever a neve — e que, supostamente, isso tem um impacto profundo na sua visão do mundo. Não é bem assim… Como McWhorter explica bem em The Language Hoax, a verdade é um pouco mais banal e ao contrário: é a visão do mundo que tem um impacto profundo na língua de cada um… Pois não é curioso que sejam os esquimós a ter tantos nomes para a neve?

Enfim, a verdade é que essa ideia de que a língua nos limita o olhar é um pouco exagerada. Nós, que certamente não temos muitos nomes para neve, conseguimos ver claramente as diferenças entre os flocos que nos caem no carro. Ou seja, não precisamos de palavras diferentes para perceber as diferentes neves. E, de facto, nessa viagem, vi neve grossa, quase granizo, outra neve mais leve, a cair levemente, como quem chamava por mim, uma neve misturada com chuva que se tornava mais branca ou mais transparente conforme o quilómetro… A natureza parecia querer brindar-me com uma demonstração em cinco minutos de todos os tipos de precipitação. Eu agradeci, mas, a certa altura, a coisa começou a aquecer, que é como quem diz, a arrefecer. Teria de parar o carro? A Zélia, o Simão e eu lá seguíamos calados, cansados e felizes, mas um pouco preocupados. Por fim, chegámos bem, a neve foi meiguinha. (Ah, sim: os esquimós, foi-se a ver, e não tinham assim tantos nomes para a neve.)

Tudo isto para vos dizer que continuo convencido que as línguas não representam «a alma dum povo»: sim, conseguimos descrever muitos conceitos que são importantes para nós usando uma só palavra, mas para lá desse facto banal, não somos assim ou assado por causa das regras da nossa língua, que devem muito mais ao acaso dos milhões de conversas ao longo dos séculos do que a qualquer alma nacional depurada em livros de gramática.

Mas — e isto é importante — a nossa língua é uma casa onde nos sentimos bem, onde conversamos, onde lemos e escrevemos, onde vivemos com todos os que falam essa mesma língua. E não há dúvida que, na Galiza, nos sentimos em casa quando falamos da nossa língua.

Imensos amigos

Íamos a chegar a Santiago numa destas noites, quando encontro alguém que conheço: o Suso. Cumprimentamo-nos pela janela do carro, alegres pelo encontro imprevisto. Quando fecho o vidro, o Simão está baralhado, pois não está habituado a que encontremos pessoas conhecidas tão longe de casa.

— É nosso amigo?

— Sim, é.

Fez um grande sorriso e disse:

— Nós temos imensos amigos!

E, sim, ali na Galiza senti-me entre amigos — e isso foi o maior prazer deste cirandar pela Galiza a falar de livros e línguas. Obrigado a todos os professores e alunos que me receberam e a todos os leitores que foram à Ciranda. E ao José Ramom e à Sabela, que nos receberam tão bem, e ao Valentim, que organizou a loucura que foi esta semana: muito, muito obrigado!

O soldado romano, a rapariga celta e outros escândalos

Vamos então viajar no tempo, à procura da origem da nossa língua. A nossa primeira paragem será nesses tempos em que ainda não havia romanos na nossa península. Já por cá tinham passado fenícios, gregos e todos os outros povos de que ouvimos falar na escola – mas romanos? Ainda não.

Nesse tempo, ali na zona noroeste da Península Ibérica, onde hoje encontramos a Galiza e o Norte de Portugal, viviam povos celtas, que falavam línguas que hoje não conseguimos reconstruir. Talvez a melhor forma de ter uma vaga ideia de como seriam esses falares seja olhar para as línguas celtas que ainda hoje existem, por exemplo na Irlanda, no País de Gales e na Escócia.

Talvez. Porque, para dizer a verdade, a única certeza que temos é que essas línguas desapareceram – não sem deixar alguns vestígios…

(Este é o primeiro capítulo do livro A Incrível História Secreta da Língua PortuguesaA primeira versão do texto foi publicada neste blogue no dia 14 de Dezembro de 2015. O livro foi publicado em Janeiro de 2017 pela Guerra e Paz, com revisão de Inês Figueiras.)

O Império Romano chega ao fim do mundo

Queria agora que imaginassem uma família celta em particular: os Kontebria – ou Contreiras.

Muitos séculos depois, alguns deles ainda vivem na mesma zona, em redor de Braga, entre Guimarães e Tui. No século antes do ano 1, esses Kontebria eram celtas, da tribo dos Galécios, em território onde o Império Romano ainda não chegara.

Ana e Rui Contreiras – perdoem-me o anacronismo dos nomes, mas é mais fácil contar a história assim – são um jovem casal, que se conheceu num mercado ao pé de Braga. Vivem em Citânia de Briteiros e são muito celtas, muito jovens e muito ruivos – como era comum entre os Galécios. Têm uma religião antiga, que os cristãos viriam a chamar pagã. Aquele casal, luminoso e um pouco malandro, prefere adorar o deus Lug, o deus do Sol, que lhes ilumina a pele enquanto se beijam, entre juras de amor na sua língua, ao pé dum riacho qualquer ali para os lados de Guimarães.

Um dia, chegam à aldeia os primeiros rumores das legiões romanas a rondar a zona. Ana está grávida do primeiro filho e, como todas as mães, fica um pouco preocupada. Ouvem-se rumores, é certo – mas será só quando, três anos depois, já têm dois filhos em casa que o brilho das armaduras imperiais surge nas ruas daquela terra. Estamos a falar do fim do mundo, dos cantos mais recônditos da Europa. O Império demorou a chegar a estes recantos – mas chegou.

A população passa por tempos duros de saques e violações: guerra é guerra, mesmo para os civilizados Romanos. Ana, Rui e os filhos escapam ao pior. Ficam escondidos uns tempos na casa duns primos, perto do que viria a ser Braga.

Quando voltam, já o Império se instalou, para não mais dali sair durante muitos séculos.

Os Romanos trazem com eles documentos escritos numa língua que os Celtas não compreendem: o latim da escrita. Ora, este é um latim que nem os soldados falam. Como sabem, o latim clássico tinha palavras como equus, enquanto o latim popular tinha palavras como caballum. Eram duas línguas próximas, mas não exactamente iguais. A verdade é que não foi o refinado latim dos escritores romanos que deu origem à nossa língua. Foi, pelo contrário, a língua dos soldados e do povo, uma língua que ninguém escrevia e muitos desprezavam.

Foi desse falar pouco sofisticado que surgiu o português – mas tenhamos calma que o caminho ainda será longo.

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A língua de casa e a língua da rua

Dois anos depois da chegada das primeiras tropas, com Ana a amamentar um terceiro filho, a população da terra já se desenrasca a comunicar com os invasores.

Os Romanos dizem umas palavras em celta só para se fazerem entender e os Galécios aprendem a falar esse latim de rua – primeiro só umas palavras, depois frases inteiras e, em breve, já conversam sem muita dificuldade.

Tudo é natural: se pensarem bem, os seres humanos comunicam com mais facilidade do que julgamos – para aprender a falar uma língua, não é preciso aulas formais e muitos anos: a melhor maneira é mesmo ter necessidade ou muita vontade. E gente com quem conversar, claro está. Vejamos, agora, o que acontecia na casa de Ana e Rui. Falam todos, entre eles, na língua de sempre, que hoje já não conhecemos: a tal língua celta sem nome.

Na rua, todos falam cada vez mais latim. Não só os soldados e os colonos, mas os próprios celtas, quando, por exemplo, compram e vendem alguma coisa. Afinal, os soldados e colonos ricos são bons clientes.

A população torna-se bilingue sem dificuldade.

*

Uma má notícia: o terceiro filho de Ana e Rui acabou por morrer, como era tão normal nesses tempos. A família junta-se toda ao pé da porta do casal. Chegam-se dois soldados romanos.

– O que é que estes querem? – pergunta o pai de Rui ao filho, que chora abraçado a Ana.

– Tem calma, pai! – O que se passa aqui? – grita Cláudio, um oficial romano que vem a liderar a ronda de três homens.

Marta, uma tia de Ana, diz-lhe: – Meu senhor, morreu um bebé, o mais lindo que já vi. O oficial romano resmunga qualquer coisa, mas sente um aperto no coração, a pensar no seu filho, que ficara na sua terra, uma aldeia perto de Roma. Como estaria ele?

– Os meus sentimentos, minha senhora. Peço apenas que não perturbem tanto a rua.

– Assim faremos. Esta conversa foi em duas línguas: os celtas falaram na sua língua entre todos, a bichanar contra esses invasores, com a hostilidade espicaçada pela tristeza do que acontecera, e Marta falou num latim esforçado ao oficial romano. Choravam em celta, explicavam-se em latim.

A tudo isto assistiam Artur e Inês, os irmãos do bebé que morreu.

Como conquistar uma celta

Estas duas crianças já aprendem as duas línguas, como acontece em qualquer família de emigrantes de hoje em dia – e, tal e qual como nas famílias de emigrantes, a língua dos pais é a menos importante socialmente: é a língua que falam em casa e não usam para mais nada.

Sim, é verdade: nesses primeiros anos depois da invasão, os celtas do Noroeste da Península são como emigrantes na sua própria terra.

Artur e Inês, a viver agora no seio maternal do Império, sabem que o latim é a língua do futuro. Ainda compreendem a língua dos pais e usam-na para falar com eles. No entanto, com os filhos que hão de nascer, já só falarão no latim popular que usam no dia-a-dia.

Ou seja, os netos de Ana e Rui serão já latinos sem tirar nem pôr.

Agora, reparem: tal como acontece quando aprendemos uma língua estrangeira, falamo-la com o sotaque da nossa língua materna. Também Ana e Rui começaram a falar latim com o sotaque próprio da sua língua celta. Foi com esse sotaque que os filhos, Artur e Inês, aprenderam latim. Ou seja, o latim foi aprendido pelas populações ibéricas, mas não sem que as línguas anteriores influenciassem a forma de falar e de aprender esse mesmo latim. Afinal, não havia escolas para todos nem professores de bom latim: havia o dia-a-dia e a língua aprendida na rua.

Artur e Inês falam, então, um latim com sotaque, mas este latim com sotaque é a língua nativa deles. Em breve, o que era uma língua estrangeira, trazida pelos soldados, passou a ser a língua nativa da população da região.

O latim popular com sotaque celta falado na Galécia, há quase 2000 anos, é a semente da nossa língua.

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*

Deixem-me agora contar uma história curiosa, que se passou com Inês Contreiras, a filha de Ana e Rui.

Durante a adolescência, sem a memória das invasões, Inês e o irmão tornaram-se muito amigos de alguns soldados e colonos romanos.

Esta proximidade não era bem-vista pelas gentes da terra – mas os jovens já não queriam saber: tinham vivido desde sempre com os Romanos e estes não lhes metiam medo.

Também os romanos já tinham perdido algum do desprezo pela população nativa, que não parece assim tão primitiva a estes colonos que mal se lembram de Roma – afinal, agora, os celtas até já falam latim.

Com mais ou menos preconceitos, viviam naturalmente uns com os outros.

Um dos amigos romanos de Inês chamava-se Pedro. Era um soldado que tinha sido destacado para a zona ainda com os seus quinze anos. Agora, já achava que aquela região era a sua terra. Uma região de cavalos selvagens a correr por entre as árvores das florestas, à beira dum mar revolto que entrava pela terra adentro nas belas rias galegas. Sim, esta era a sua terra sem tirar nem pôr – até porque estava apaixonado por Inês.

Pedro não sabia como se aproximar daquela mulher linda, de olhos azuis, e sempre um pouco distante, como todas as celtas. Sabia que não se podia precipitar. Nem os seus amigos romanos gostavam daquela situação, nem a família dela iria aceitar tudo aquilo sem pestanejar. Qualquer passo em falso e perderia todas as hipóteses.

Nas suas longas conversas ao fim do dia, o soldado brincava com o sotaque de Inês. Inês fingia-se irritada, mas não se importava. Era muito bom ter aquela atenção do romano. Falavam sempre em latim, claro, embora Inês ainda falasse em celta com os seus pais – o celta era a língua da casa, da família, dos mais próximos.

Pois, um dia, Pedro chega-se ao pé de Inês e diz-lhe:

Bore da! [1]

Ou seja, «bom dia» na língua celta. Tinha uma pronúncia um pouco difícil, mas bem perceptível.

Inês fica parada, de boca aberta. Pedro sorri e começa a conversar nessa língua desprezada pelos Romanos. Diz-lhe que esteve a aprender durante muito tempo, com uns amigos da terra, para poder saber como falar na língua em que ela sonhava.

Ela continua de boca aberta e ele fala cada vez mais depressa. Está nervoso. Não sabe se fez bem.

No fim, ela manda-o calar-se, dá-lhe um beijo e quando terminam diz-lhe:

Rwy’n dy garu di!

Casaram-se algum tempo depois, segundo a religião celta, mas respeitando também os ritos romanos.

O sotaque da Galécia nas ruas de Roma

Anos depois, Pedro levou Inês, numa viagem de meses, a visitar Roma. Depois de abraçar a mãe, que não o via há muito tempo, ouviu a senhora, ainda a olhar de lado para a estranha mulher que vinha com o filho, a dizer:

– Mas que sotaque é esse, meu filho? Ficou admiradíssimo por saber que, orgulhoso soldado do Império, já falava com sotaque galécio.

Inês riu-se muito, nesse dia – e aproveitou para dizer que estava grávida.

O primeiro filho nasceu em casa dos pais dele e a viagem de regresso foi adiada alguns meses, para que o bebé crescesse um pouco.

Voltaram, então, à Galécia. Os filhos de ambos já só aprenderam latim, embora ainda ouvissem os pais a falar celta em certas noites – para dizer a verdade, ainda aprenderam umas quantas palavras da boca dos avós – e, entre os amigos, ainda circulavam velhos palavrões, que os pais não sabiam que os filhos também conheciam.

Os primos, filhos de Artur, que se casara com uma celta como ele, também já só falavam latim. Houve famílias em que tudo isto demorou mais tempo, mas poucas gerações depois já a língua celta estava quase esquecida.

Muitos anciãos criticavam os jovens por desistirem tão facilmente da velha língua dos deuses celtas – os jovens encolhiam os ombros e brincavam em latim.

Houve ali, se virem bem, uma espécie de traição linguística. Mas todos os povos, mais tarde ou mais cedo, passam por isso. As línguas são vítimas de traição, mas não nos esqueçamos que as línguas não existem por si, fora das pessoas que as falam – e a essas pessoas, às vezes, interessa mudar de língua. Foi assim com os Celtas – e foi assim com muitos outros povos ao longo dos milénios.

Apesar dessa «traição», a língua celta do povo da Galécia não ficou totalmente esquecida. Há quem diga que foi essa língua que levou a que, em galego e em português, as palavras que, em latim, começavam por «pl», «cl» e «fl» se tenham transformado em palavras começadas por «ch». Exemplos? A «pluvia» latina deu a nossa «chuva». O verbo «clamare» deu o nosso «chamar». A «flama» latina veio a desembocar na nossa «chama».

É difícil saber quais, mas a verdade é que esses falares celtas já perdidos deixaram alguns traços e, ainda hoje, quando falamos o nosso português, bem latino e bem moderno, ouvimos ecos já muito sumidos do que diziam os celtas nesse dealbar do primeiro milénio.

Quem diria a esses jovens, a falar latim com o estranho sotaque da Galécia, sob o olhar reprovador dos velhos celtas, que a sua nova língua ainda viria a ecoar noutros continentes, mas com uns travos da língua dos seus avós?

O nascimento da nossa língua

GallaeciaSerá então que foi assim que nasceu a nossa língua? Tudo depende da forma como queremos dividir a história das línguas. Estes celtas falavam línguas anteriores, os romanos falavam latim – ninguém se lembrou um dia de inventar uma língua de raiz.

Mas julgo ser natural olhar para este encontro do latim com as florestas da Galécia como a origem distante da língua que falamos. Foi aí que o latim popular – a matéria-prima de que é feito, em grande parte, o português – deu de caras com o primeiro molde que lhe veio a esculpir as feições: as línguas dos povos que já por cá andavam.

Essa matéria-prima ainda há-de passar por muitos outros moldes e será ainda salpicada de muitas outras matérias até chegar à forma que tem hoje – forma essa que continua a mudar, pois nunca chegamos ao ponto onde podemos dizer que uma língua está acabada. Continua sempre a mudar, sempre a surpreender-nos.

Ora, mas a verdade é que, nesses primeiros séculos, por entre as rias e as florestas do Noroeste da Península, já falávamos um latim diferente, ao jeito da Galécia.

A nossa língua dava os primeiros passos.

[1] Sei que não é o ideal, mas usei o galês como substituto da língua celta desta gente ibérica de há muitos séculos. Digamos que foi o celta que tinha mais à mão.

Cenas dos próximos capítulos

A história secreta da língua mal começou: nos capítulos seguintes, veremos como um dos descendentes dos Contreiras vai levar uma mensagem de D. Afonso Henriques até um amigo perdido em Al-Uxbuna; um dos netos conhecerá D. Dinis, outro será inimigo de Gil Vicente — e ainda veremos Camões à bulha por Lisboa, um brasileiro a viver o Grande Terramoto, Eça à conversa na Póvoa… E, por fim, chegaremos a estes tempos de blogues e mensagens electrónicas, em que ainda falamos essa língua que deu os primeiros passos nessas conversas entre soldados e celtas, no início do primeiro milénio.

Tudo isto está no livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz, 2017), à venda nas livrarias. Se desejar, pode preencher o formulário abaixo para encomendar o livro directamente à editora:

O dia em que olhámos para as estrelas no Sul de França

Não serão as melhores conversas aquelas que fluem ao acaso, enquanto vamos passeando pelas ruas duma cidade (por exemplo), ao sabor daquilo que vamos vendo? Há quem já tenha feito bons filmes só com uma conversa assim mesmo — em Viena, lembram-se?

Pois até este passeio em que escrevo no blogue e depois converso, quando posso, com os simpáticos leitores que aqui vêm parar também pode ser um pouco assim: não falamos ao sabor das ruas, mas seguimos ao sabor da lotaria secreta das pequenas descargas eléctricas no meu cérebro. Isto tudo só para dizer isto: por alguma razão que não imagino, lembrei-me há poucos minutos de, há muitos anos, andar perdido nos campos do Sul de França, à noite, a olhar para as estrelas com um grupo de amigos.

Pois, nessa noite (isto foi aí por volta de 1997, acho eu), lembro-me de ouvir uma amiga minha a dizer, lá nos meandros duma deliciosa conversa, que a ciência destruiu a magia das estrelas. Diga-se que não estávamos os dois sozinhos, não vá algum leitor ver aqui mais um folhetim daqueles que já me deu para inventar por aqui…

Não achava na altura (e não acho agora) que a ciência tenha feito tal patifaria às estrelas. Mas, naquele momento, ali com um grupo de amigos a viajar, não estava para grandes debates. Estávamos deitados no campo, a ouvir os grilos enquanto conversávamos — e, ali no escuro da noite longe das cidades, as estrelas pareciam-me tão intrigantes como desde sempre, com ou sem ciência. Um pouco como a Lua: será que o luar mudou quando o primeiro homem pôs o pé no nosso satélite de estimação?

Mas também isto é verdade: nós próprios, aos 17 anos, éramos mais intrigantes do que as estrelas.

Enfim, nessa noite não pensei nisso, mas hoje lembro-me de que a tal magia das estrelas descobri-a eu, precisamente, num livro de ciência (Cosmos) — nele, Carl Sagan imaginava um rapaz duma tribo pré-histórica a olhar para cima e a pensar sobre o que seriam aquelas luzes. Seriam fogueiras de tribos celestiais? Seriam orifícios num lençol negro que tapava um fogo antigo? Estou a citar de cor, pois não tenho o livro aqui comigo e já passaram mais de duas décadas desde que o li. Mas quero imaginar que o tal rapaz tinha precisamente 17 anos.

A realidade, sabemos agora, é ainda mais surpreendente do que podia imaginar esse rapaz há milhares de anos: as estrelas são esferas de fogo muito maiores do que o mundo, a brilhar a milhões de quilómetros de distância — e há muito tempo. Sim, muitas das estrelas que vemos lá em cima já nem sequer existem, mas como a luz demora milhões de anos a cá chegar, estamos a olhar para o passado distante quando elevamos a cabeça para o céu nocturno.

Não é espantoso?

Mas também é espantoso pensar que, tal como esse rapaz inventado por Sagan, continuamos intrigados a olhar para o céu e uns para os outros. Não somos assim tão mais sábios do que esses humanos que lascavam pedras e pintavam as paredes das cavernas: continuamos espantados com o simples facto de estarmos aqui. E, tal como há centenas de milhares de anos, todos descobrimos rapidamente que, saibamos ou não do que são feitas as estrelas, é bom ter 17 anos e estar ao ar livre, entre amigos, a olhar para o céu e a conversar sem rumo.

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