Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

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Os deliciosos erros dos nossos filhos

Já todos sabemos como é: há coisas que os nossos filhos fazem que nos deixam derretidos e que, para as outras pessoas, não são nada de especial. «O meu filho aprendeu a contar até três!» — e lá se põe o pai com um sorriso de orelha a orelha. Já o amigo encolhe os ombros, porque isso de contar até três, enfim, não é assim uma façanha de correr a contar a toda a gente.

Bem, sendo pai, fico mais comovido com o ingénuo entusiasmo daquele pai do que com o encolher dos ombros do amigo. Sim, eu sei que raramente as crianças fazem coisas que as outras não façam também. Só que isso não torna o crescer menos espantoso.

E, por isso, confesso: fico com um sorriso no canto dos olhos quando o Simão faz qualquer coisa de novo. Por estes dias (em que ele tem quatro anos e pouco), são as frases cada vez mais completas, as palavras novas que não sei donde aparecem (pregando-nos um ou outro susto…), a atenção a tudo o que passa por ele e as perguntas curiosas sobre tudo e nada — sem esquecer aquilo que ele já sabe e eu nunca conseguirei fazer bem, como por exemplo (ai, vergonha) dançar.

E não é que até fico comovido com os erros? Acho um portento de invenção fonética a maneira como ele diz essa palavra onde quase todas as crianças tropeçam: «frigorífico». Diz qualquer coisa como «fuísco» e é uma delícia ver esse simpático fuísco, ao longo do tempo, a transformar-se num pesado frigorífico (ainda não chegou lá — está a meio caminho).

E tal como quando nos dizem que o nariz dele é meu e os olhos da mãe, parece que nos erros também há qualquer coisa nossa… Ontem apanhei-o a dizer: «isto é um poguema». E eu disse: «um problema?» e ele disse que sim — e por dentro fiquei a rir-me, lembrado da minha mãe a contar-me como eu não conseguia dizer «problema» até bem mais tarde do que a minha vergonha permite confessar. O que dizia eu? «Poguema», claro está.

Guterres ou o mistério dos leitores aos magotes

Uma das personagens deste blogue

Uma pessoa prepara com entusiasmo e alguma paciência um texto em que António Guterres surge como personagem (bem real) — e lá aparecem, a custo, uns quantos gostos no Facebook. O texto é lido por umas dezenas de leitores. Uma pessoa sorri.

Pois um dia, ao chegar a casa, uma pessoa escreve três parágrafos em trinta segundos irritados — e desatam a chover gostos e partilhas e tudo o mais como se o mundo acabasse já hoje (é só dia 20, malta!). Os três míseros parágrafos são lidos por milhares de leitores.

Tudo porque me pus a falar do sotaque do mesmo António Guterres.

Vá lá uma pessoa perceber isto.

A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa

Para começar o ano, um novo livro. Desta vez, conto a história da nossa língua como se fosse um romance.

Acompanhe uma celta e um romano aos beijos, um amigo de Afonso Henriques à procura de mou­ras encantadas, Gil Vicente a perseguir um homem perigoso pelas ruas de Lisboa, uma coleccionadora de livros a fugir numa carroça para Amesterdão, Camões ao murro por causa duma dama da corte e muitas outras aventuras de que é feita esta história da língua portuguesa, recheada de deliciosas sur­presas e um toque de humor…

O livro estará nas livrarias no dia 18 de Janeiro, mas até dia 16 a editora Guerra e Paz tem uma campanha de pré-lançamento, com 30% de desconto.

O Facebook espalha a ignorância?

A ignorância é falta de conhecimento. Ora, alguém já acordou a saber alguma coisa, ligou o Facebook e, puf, lá se foi o que sabia? Não me parece: no máximo, o que o Facebook faz é espalhar ideias erradas — mas onde espalha as ideias erradas, também pode espalhar ideias certas (ou menos erradas).

No fundo, estamos no mundo do debate de ideias. É complicado? É difícil? É perigoso. Sim, sim, sim. Mas já havia ideias diferentes antes do terrível mundo das redes sociais. O que temos agora é mais rapidez.

Então e os disparates? A boçalidade? O mau português? Já lá estava! Só que não se via tanto. Andávamos mais distantes dos outros mundos. Estávamos ainda mais enterrados nas bolhas em que vivemos. Nem sempre tínhamos de lidar com gente que não se importa de insultar os outros por dá cá aquela palha.

(Sim, andei a ler este texto de José Pacheco Pereira e fiquei pasmado com a facilidade com que se partilhou o texto pelas tais redes sociais — pareceu-me um desfilar de ideias-feitas sobre as redes sociais, como se estas criassem gente ignorante onde antes havia gente bem informada. Mas admito que possa ter sido uma leitura apressada. Não tive tempo: tinha o Facebook à minha espera.)

Volto atrás e repito: o Facebook não nos encerra em bolhas. Deixa à vista as bolhas onde já estávamos, porque nos aproxima de opiniões, comentários e linguagem a que não estávamos habituados.

Pense lá quem acha que o mundo flipou com o Facebook: encontre uma só pessoa que dantes era culta e informada e, agora, depois de passar pelas tais redes sociais, ficou ignorante e bruta. Encontro muito mais exemplos do contrário: gente que encontra novas perspectivas, novas ideias, novos textos e livros e arte ao andar pelas redes. Sim: nós encontramos coisas boas no Facebook e derivados. Há lá muita coisa má? Sim: mas o mundo sempre foi assim. Aprender a encontrar o que é bom faz parte do crescimento.

Mas, pronto, admito: agora temos de crescer mais depressa e, pelo caminho, há muitos tropeções, muita zanga, muito espanto pela ignorância do mundo. Mas ela, meus amigos, sempre lá esteve.

(Deixo aqui esta resolução de início de ano: vou tentar combater menos moinhos de vento, como diz e muito bem o Paulo, leitor regular deste blogue. Vou tentar espantar-me menos com a ignorância que sempre lá esteve e passar a falar mais de coisas boas. Veremos se me aguento muito tempo.)

O sotaque de Guterres

Leio incrédulo algumas críticas ao inglês de Guterres por parte de portugueses muito ciosos da pureza da língua inglesa. Parece que, para algumas pessoas, falar bem inglês é imitar na perfeição um certo sotaque britânico — sotaque esse que, diga-se, muitos ingleses não se dão ao trabalho de imitar…

Deixem-se lá de provincianismos: Guterres fala bem inglês, mas não é inglês — e não vai começar a imitar o inglês posh só para dar festinhas às ideias malucas dos conterrâneos que confundem falar bem com imitar bem.

Fora de Portugal, não deve ter havido uma única pessoa a queixar-se do inglês do homem. Esta é uma mania muito nossa: já alguma vez ouviram algum inglês queixar-se que este ou aquele político fala francês com sotaque pouco parisiense?

A felicidade nos pés do Éder (e na cama numa manhã de domingo)

Esqueçam as previsões: tanto quanto sei, 2017 pode correr de tantas formas que nem vale a pena andar por aí a sofrer. Há-de morrer gente famosa, vão acontecer mais coisas do que imagina a mente humana e o mundo, quanto sei, até pode acabar. Bem, pelo menos que dure mais um dia para não estragar a festa de mais logo à noite.

E 2016? Há duas narrativas: correu mal ao mundo, mas correu bem a cada um de nós (é o que mais oico por aí). Não me vou pôr a fazer esse tipo de avaliações. Não sei se o ano me correu bem: houve coisas muito boas e coisas muito más e, no meio, o assim-assim em que passamos os dias.

Quanto ao mundo… Bem, se olharmos para os títulos das notícias o mundo já devia ter acabado. Mas só os ingénuos acham que o estado do mundo se vê nas notícias. Os títulos dos jornais dizem pouco sobre o estado do mundo e muito sobre o estado das nossas excitações. O mundo está mal? Com certeza que está. Pior do que em 2015? Tenho dúvidas.

Bem, deixemos isso. Pensemos antes nos momentos de felicidade, que é coisa mais concreta e definida. Há muita coisa que nos traz felicidade: as horas com um livro na mão, uma canção ouvida ao adormecer, um bom filme. E a felicidade complicada e difícil que as outras pessoas nos trazem. Lembro-me de ter lido numa tarde de Agosto, enquanto o meu filho brincava com os primos e eu estava deitado com a Zélia num relvado no Parque da Serafina e encontrei um parágrafo do livro Soldados de Salamina, de Javier Cercas, que não posso citar por não o ter comigo, mas em que Miralles recordava os amigos mortos na II Guerra dizendo que nunca saberão a felicidade que é ter o filho de três anos a chegar ao quarto de manhã e dormir mais um pouco ao pé dos pais. Naquela tarde de sol, enquanto o meu filho brincava ali, aquele livro triste deu-me uma felicidade imensa. E pronto, depois há a felicidade dos beijos e do calor do corpo e da alegria matreira daquilo que se faz e não se diz. Misturo muito as coisas? A nossa vida é uma grande salganhada.

(Lembrei-me agora: de certeza que a citação dos Soldados de Salamina está por aí. Fui ao Google e lá está este arremedo quase lamechas num livro muito pouco sentimental e muito bom:

«Desde que terminó la guerra no ha pasado un solo día sin que piense en ellos. Eran tan jóvenes… Murieron todos. Todos muertos. Muertos. Muertos. Todos. Ninguno probó las cosas buenas de la vida: ninguno tuvo una mujer para él solo, ninguno conoció la maravilla de tener un hijo y de que su hijo, con tres o cuatro años, se metiera en su cama, entre su mujer y él, un domingo por la mañana, en una habitación con mucho sol…»)

A felicidade nos livros, na música, nas pessoas… — e nos pés do Éder. Sim, tudo isto foi desculpa para chegar àquele momento de felicidade inesperada, aleatória, inútil e saborosa que 2016 nos deu: o golo do Éder e, mais ainda, o apito final do árbitro nessa final.

Sim, aquele golo e aquela história que ali encaixava, o país que esperou 12 anos para ganhar aquilo que uns gregos lhe roubaram, foram um momento de felicidade para milhões. Muitos reclamam que não é felicidade como deve ser, que futebol é só futebol, que… mas o que querem? Lembro-me desse momento em que o árbitro apitou para o fim do jogo e eu e a Zélia saltávamos como crianças, com o Simão a perguntar o que foi o que foi e não vou ser capaz de deixar 2016 sem um sorriso. Houve felicidades maiores neste ano de memória incerta? Claro que sim. Mas daquelas que se partilham e que nos mandam para a rua gritar, esta foi a maior.

O Éder e a felicidade em bruto… Não é a maior felicidade do mundo, mas é uma felicidade despida, sem mas nem meio mas. Sim, não fizemos nada para a merecer, desaparece num instante, mas foi capaz de, ali durante dez minutos, pôr adversários aos saltos juntos, casais desavindos aos beijos, um pedreiro e um ministro a rir felizes e juntos, os portugueses quase todos aos saltos porque um homem feliz marcou um golo ao calhas — e tudo isso ainda nos deixa um sorriso nos lábios quando nos lembramos. Tem lógica? Não. Mas é tão bom!

Bem, desejo-vos muitos pontapés do Éder para 2017. (E se o mundo acabar, paciência.)

O meu filho disse um palavrão — e agora?

(Deixem-me deixar aqui um aviso para ninguém apanhar um susto: este artigo contém um palavrão.)

Sempre a querer saber o que o rapaz anda a aprender, perguntei ao Simão se lá na escola já tinha ouvido palavras feias. E ele disse que sim: chichi, cocó, pilinha, pipi, totó. Ora, cá estão eles todos, vários palavrões em semente: os fluidos corporais, os órgãos sexuais, os insultos. Mas do chichi ao totó, não vi ali nada para atrapalhar os pais em público. Suspirei fundo, aliviado.

Pois bem, pior foi ontem quando ele disse:

— Pai, queres ouvir uma palavra feia?

— Diz lá — e fiquei à espera dum totó, dum pipi, dum chichi.

Vai ele e diz, inocente, «puta».

Eu de olhos arregalados fiz-lhe esta pergunta inteligentíssima: «hã?»

Lá me compus e informei com cara séria que a palavra é muito feia e não se pode dizer. E ele, a sorrir sem mal, pergunta simplesmente: «qual palavra?»

Já estava noutra.

E pronto, pensei. Tinha de acontecer, mais tarde ou mais cedo, e podia ser pior. Mas lembrei-me então de como os palavrões são engraçados. Temos de fazer cara feia e ralhar. Mas todos sabemos que ninguém deixa de mandar um bom palavrão mais tarde ou mais cedo — e que, aliás, até aliviam! (Já por aqui falámos disso, lembram-se?)

Ou seja, nenhum de nós acredita que os palavrões fazem mal, mas ralhamos com os filhos quando eles se descaem com um — os palavrões dizem-se, mas não se podem dizer. Não se podem dizer, mas dizem-se…

Uma vírgula de Saramago na nossa cama

(A fonte da foto é este site.)

Já que estou em blogue alheio, convém dizer que me chamo Rita. E fui com o meu novo namorado passar um fim-de-semana de Natal para outras paragens que não a consoada e prendas e putos e outros cansaços.

Sim, sou assim, o que querem? Os meus pais não se importam e eu muito menos. Já o Daniel, coitado, teve de suar muito para justificar aos pais a ausência na mesa de Natal, mas também sei que não ia perder a oportunidade de passar três dias comigo numa casa perdida lá no meio da Serra da Estrela. Uma cama, uma banheira no quarto e muita neve a impedir-nos de sair de lá. Namoramos há menos de três meses: não há quem resista.

Ora, chegámos, estacionámos, percorremos os poucos metros do carro à casa com as malas na mão, a neve a atrapalhar-nos os movimentos, o cansaço da viagem de cinco horas no corpo. Abrimos a porta, ficámos de boca aberta: era o que queríamos, só que melhor ainda. Nem despimos o casaco e já estávamos embrulhados na cama a rir e depois o que se sabe. Uma bela consoada antecipada — ainda eram seis da tarde.

Bem, pouco depois, a lareira acesa, a neve a cair lá fora, dois copos de champanhe na mão, os lençóis espalhados e nós nus a conversar, começou a dar-nos uma moleza natalícia e ele pôs-se a ler o Facebook. Decidi levantar-me para ir buscar qualquer coisa para ler.

— Raios, esqueci-me do livro…

— Qual livro?

— O livro que estou a ler: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como é Natal…

Ele não se riu e tive aí o primeiro pressentimento de que alguma coisa podia correr mal. O que ele fez foi puxar-me para ele e dizer, bem-disposto, que nunca lera o Saramago e também não era agora que ia começar — porquê? Porque se recusava a ler escritores que não usam bem a pontuação.

Eu travei de imediato, a meio caminho do colo dele.

— Explica lá isso melhor…

Não me digas, pensei eu para comigo, que este mânfio é daqueles que acha que o Saramago não usava pontuação.

— Então, é o que todos sabemos: o Saramago não usava vírgulas. E elas estão lá para ser usadas! Nunca gostei dessa ideia de os escritores mandarem às malvas as regras do português…

Fiquei em choque e comecei a vestir-me de imediato. Fui dizendo enquanto abotoava a camisa:

— Tu achas mesmo que o Saramago não usava vírgulas?

Ele riu-se:

— Claro! Toda a gente sabe! Ele é conhecido por isso mesmo! Mas estás a vestir-te porquê?

— Não, não é conhecido por isso mesmo. É conhecido por ter sido um dos melhores escritores do século passado. Vou repetir devagarinho… — disse eu enquanto vestia as calças. — O Saramago não usava vírgulas?

— Claro que não!

— Mas tu já abriste algum livro dele?

— Sim, na escola, o Memorial do Convento ou lá o que era… Não havia lá vírgulas, pelo menos na minha edição.

— Olha, posso dizer-te que já li os livros todos dele e sempre encontrei muitas vírgulas e muitos pontos…

— Não inventes! Queres agora convencer-me que o Saramago usava vírgulas? É que toda a gente sabe…

— Lá estás tu e o «toda a gente». Então tu abriste o Memorial durante dois minutos na Secundária e achas que eu, que estou neste momento a ler um livro do homem, não reparei que ele não usa vírgulas? É isso?

— Pois não sei, se calhar não viste bem. É que toda a gente sabe que ele não usa vírgulas!

— Toda a gente sabe o car****!

Ele ficou embatucado. Tentou aproximar-se, amaciar-me com palavras com muitas reticências, mas eu não estava para aí virada. Comecei à procura da chave do carro.

— Aonde vais, amor?

— Vou a casa buscar o livro para te mostrar as vírgulas do Saramago.

— A tua casa? Em Évora?

— Sim, claro, é onde está o livro.

— E eu?

— Podes ficar à espera, se quiseres. Diverte-te muito, tens aí a banheira, a cama, a lareira…

— Vais estragar o Natal por causa duma vírgula?

— Sim — e abri a porta onde se via muita neve e muito frio.

— Ouve, tudo bem, se tu dizes que há vírgulas nos livros de Saramago, eu acredito!

Olhei para ele e olhei para a neve. Apetecia-me muito dar-lhe uma lição. Mas também me apetecia muito estar à lareira. Suspirei, virei-me para ele, e disse:

— Muito bem, mas então faz o seguinte: compra aí um livro de Saramago para o iPhone para eu te espetar a vírgula na cara, pode ser?

— Ficas cá se eu fizer isso?

— Sim.

O rapaz correu para o telemóvel e desatou à procura. Encontrou e descarregou, enquanto murmurava «só me faltava passar o Natal a comprar livros de Saramago». Eu fiz-lhe olhos maus, peguei no telemóvel, abri na primeira página e enfiei-lhe o ecrã nos olhos:

— Estás a ver as vírgulas ou não?

— Sim, estou. Mas se calhar é desta edição. Puseram as vírgulas depois.

— Mau, queres que eu vá mesmo a Évora e ficas a chuchar no dedo?

— Não, não… Mas deixa lá ver outro.

Descarregou O Ano da Morte de Ricardo Reis, folheou o ecrã e a certa altura encontrou uma coisa que lhe deixou um sorriso na cara:

— Estás a ver: que história é esta de maiúscula a seguir a uma vírgula?

— Ora, meu caro, isso são questões de estilo. É só uma pequena adaptação das convenções ortográficas para sublinhar a oralidade do relato…

— Estilo? Estilo? É por estas e por outras que odeio o Saramago…

— Odeias o Saramago? Mas porquê? Por causa das maiúsculas a seguir às vírgulas?

— Não: por não respeitar as regras do português, por exemplo.

Eu abri muito os olhos:

— Ora, pedir para os escritores seguirem estas convenções do diálogo é o mesmo que obrigar o Picasso a ir à Câmara Municipal perguntar quais são os tipos de tinta autorizados para os seus quadros…

— Mau! Mas então achas que as regras da língua são como as regras camarárias?

— E tu achas mesmo que isso são as regras de português que realmente importam? Saramago sabia muito bem as regras da língua e podia dar-lhes a volta exactamente porque as conhecia de trás para a frente.

— Conversa da treta. Irrita-me essa mania dos escritores de fazerem o que querem com a língua!

— Pois, isso é verdade: os escritores fazem o que querem com a língua. Pelo menos os bons.

Calámo-nos então e fizemos, o resto da noite, o que quisemos.

[Histórias]

Cinco expressões deliciosas da língua portuguesa

O meu irmão Diogo já me avisou que eu uso demasiado a palavra «delicioso». Quando ele me disse isso, não acreditei. Mas, depois, fiz uma procura no blogue e saíram-me três páginas de artigos onde uso a palavra. Raios.

Bem, hoje lembrei-me novamente da palavra «delicioso» ao ouvir uma alemã a falar português.

Deixem-me lá contar: hoje estive na conferência  «30 anos de Português na UE», no Museu do Oriente, organizada pelas instituições europeias.

Pois, a certa altura uma funcionária alemã (cujo nome não consegui registar a tempo [um leitor informou-me, nos comentários abaixo, que se chama Ulrike Hub]) decidiu contar as suas aventuras na língua portuguesa, o que muito divertiu o público. Acabou por dizer várias expressões portuguesas que acha engraçadíssimas — e que nós quase nem notamos.

Aqui ficam cinco dessas expressões, que rabisquei furioso enquanto as ouvia (muitas passaram-me):

  1. «Pequenos nadas». Sim, à funcionária alemã esta expressão faz-lhe cócegas divertidas. Pensem bem como nem notamos que os «nadas» não podem ser nem pequenos nem grandes — são nadas. E a vida, claro, é feita desses pequenos nadas… Uma expressão ilógica? Ah, sim, mas deliciosa. No fundo, é um dos pequenos nadas de que se faz o irresistível charme da língua portuguesa.
  2.  «Barriga das pernas». Claro que a nós não parece, mas é de facto uma expressão curiosa. Imagino que um alemão, quando encontra esta expressão pela primeira vez, pense num umbigo no meio das pernas. Ou mesmo numa pequena criança a nascer na barriga da perna dum qualquer deus grego (que tinham tendência para essas maluqueiras).
  3. «Céu da boca». É tão normal, mas tão normal que não percebemos quão malandra pode ser esta expressão portuguesa: pois quem não encontrou já o céu num bom beijo? E andamos nós com esta poesia toda nos lábios sem lhe dar valor. Sim, quem fala português tem um céu dentro da boca. Uma alemã arregala os olhos, claro está. E aproveita os segredos desta língua, pois então.
  4. «Beijinhos grandes». A alemã arrancou gargalhadas de todos os que lá estavam ao perguntar se haverá coisa mais estrambólica do que beijinhos grandes… E, de facto, ou bem que os beijos são -inhos ou bem que são grandes. Mas que importa? São beijinhos, chiça. E grandes, ainda por cima. Quem não quiser que vire a cara.
  5. «Fuz». Disse-nos a alemã que se nós temos «faz», «fez», «fiz», «foz» — só temos de nos esforçar um pouco para ter um «fuz». E tem muita razão, sim senhora. Quem de entre nós se atreverá a dar um significado ao nosso «fuz»?

É no que dá pôr-me a ouvir a nossa língua pela mente duma alemã. Tudo se torna menos familiar, menos habitual e por fim — como acontece quando repetimos uma palavra comum muitas vezes — estranho e delicioso. Por momentos, ouvimos essa palavra como se fosse a primeira vez.

Será também aí que reside um dos grandes prazeres de aprender línguas: a estranheza da língua dos outros é sempre imensa — e há momentos em que até a nossa língua nos aparece como uma estranha invenção que não é de ninguém em particular, mas de todos nós — até duma alemã que a aprende em adulto — e que vamos desfiando pelos séculos, pela boca e pela escrita.

E, já agora, feliz Dia Europeu das Línguas!

26 de Setembro de 2016

As dez línguas de Portugal

É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»

Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.

A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.

Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

Ah, a beleza do mundo visto à bruta…

A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»

Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

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Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

grammarOlhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente. A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense. Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar). O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

UMA VERSÃO REVISTA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NO LIVRO
DOZE SEGREDOS DA LÍNGUA PORTUGUESA.

LIVRO

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