Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Categoria: Dicionário de Prazeres

Cinco prazeres da cidade do Porto

Uma amiga minha pediu-me algumas sugestões sobre o Porto. Porquê eu, que não sou de lá? Porque por vezes tenho de lá passar uns dias. Chega para me armar em guia? Claro que não. Mas também não gosto de dizer que não aos amigos e, assim, tentei escrevinhar cinco prazeres da cidade, assim de repente — mesmo sabendo que, em viagem, o melhor plano é ir sem grandes planos.

Confesso: já há uns tempos que lá não vou. Serve assim este exercício também para matar um pouco das saudades que já tenho da cidade.

Ora bem, dito isto, aqui ficam cinco prazeres da cidade do Porto. Há muitos outros, claro está…

  1. Andar pela cidade. Ir à Rua de Santa Catarina, passar pelos Aliados, perdermo-nos pela cidade. Uma cidade como o Porto é para se descobrir à sorte, que é quase sempre a melhor maneira de viajar.
  2. A livraria Lello. Já começa a soar muito a cliché, eu sei, mas não é por muitos dizerem o mesmo que se torna mentira: é uma livraria linda. E até tem livros, vejam lá!
  3. Passear na Foz. O mar mais escuro e intenso do que outras cidades mais a sul. Muito, muito bom. A pé ou de bicicleta — ou até, não havendo alternativa, de carro. E então estar parado uns bons minutos a ver os navios, lá ao fundo.
  4. Fazer um cruzeiro no Douro. Turista que é turista tem de fazer este cruzeiro, não? Não faz mal, faz parte e ninguém se arrepende, que eu saiba.
  5. Passear na Ribeira. É preciso ter cuidado com as armadilhas de turistas. Mas tem de ser — e, depois, claro também isto tem de ser: ir até Gaia e olhar para o Porto ao anoitecer.

Tudo isto é giro, mas uma cidade descobre-se a sério doutra maneira: ter coisas para fazer, ir às compras, trabalhar — estar na cidade não para ver a cidade para viver na cidade. É assim que se descobrem os verdadeiros prazeres do Porto e de qualquer cidade. Sei disso tudo: mas esta foi só uma tentativa desesperada de encontrar sugestões para um fim-de-semana — dois dias que servem para pouco, é verdade, mas é o que temos.

Ajudem-me, leitores do Porto, por favor! O que sugerem para quem vai à cidade durante dois míseros dias?

Cinco prazeres das manhãs de domingo

Ora aqui estou eu, bem acordado às sete da manhã dum domingo. Imaginem-me com uma chávena de café a fumegar à minha frente, a teclar furiosamente, empenhado neste ofício da escrita.

É mentira, claro. Neste momento — são exactamente sete da manhã — estou a dormir. Chama-se a isto programar o blogue. Sim, é possível. (Aliás, confesso uma coisa: tenho um artigo agendado para as três da manhã do dia 3 de Março de 2033. Ah, será o meu melhor texto, garanto-vos já.)

Bem, enquanto não chega esse ano, fiquem com estes cinco prazeres das manhãs de domingo. É o meu elogio a estas horas deliciosas.

1. Abrir os olhos e pensar: hoje não é segunda-feira.

O sábado, é sabido, é bem melhor do que o domingo. O sábado sabe bem — o domingo é pasmacento. Pois as manhãs de domingo, no fundo, são a continuação do sábado: a tarde ainda vem longe, o peso da segunda-feira ainda é só um ponto no horizonte. É como aquele prazer secreto de acordar às 5 da manhã dum dia de semana e pensar: ainda posso dormir mais um pouco. Claro que fechamos os olhos e o despertador dispara logo a seguir. Mas acho que percebem onde quero chegar.

2. Ser acordado pelos filhos.

Não é dia de escola. E, assim, os filhos acordam-nos a nós, saltando para a cama. No meu caso, já sabem, não são «filhos», mas «filho». Seja como for, é bom, não é? Risos, conversas novas — e depois o prazer de abrir as cortinas e deixar o sol entrar. (Está a chover? Tudo bem, melhor ainda.)

3. Olhar para a rua e ver poucos carros.

Passam carros, mas não é a mesma coisa. Até se ouvem pássaros nas rotundas. Tanto assim é que a Suécia, quando passou a conduzir pela direita em 1967, escolheu precisamente a manhã dum domingo para a troca. (E pronto, ficaram com o pedaço de informação inútil da semana.)

4. Olhar para o Facebook e ver poucas irritações.

Sim, não são só as estradas: o Facebook, aos domingos de manhã, está vazio. Anda tudo a dormir, a ler em papel ou a conversar a sério. Até dá para passear por lá sem dar a cada momento com discussões furiosas e indignações tramadas. Isto porque, como sabemos, os portugueses só voltam ao Facebook em força e em fúria no domingo à noite.

5. Não ter nada para fazer.

Estas são horas sem horários. Há quem trabalhe, é certo, mas a maioria das pessoas não tem nada para fazer nestas manhãs. Nem sequer temos cafés marcados ou as intermináveis festas de aniversário que aborrecem os sábados dos pais das crianças pequenas. Não: nas manhãs de domingo, o habitual é termos horas cheias de nada. E o nada é muito bom: dá para ler, ver televisão, conversar ou mesmo ficar de olhos abertos a olhar para a rua a ver os poucos carros a passar. São horas tão vazias que alguns até vêm parar a este texto inútil — inútil, espero eu, como uma manhã de domingo.

Muitas manhãs de domingo assim na vida — é o que vos desejo!

Doze deliciosas palavras deste Natal

Fiquem então com estas doze palavras muito natalícias. Deixei de fora muitas outras, claro está. Mas estas, poucas que são, já me sabem muito bem…

  1. Neve. Por cá, é raro termos neve a cair para lá da janela, mas o que querem? Seja dos filmes, dos livros ou da imaginação, achamos sempre que a neve quadra bem com o Natal. Não sei o que sentirão os brasileiros, com o seu Natal de Verão, mas por cá o frio natalício sabe bem.
  2. Lareira. Sim, o frio sabe bem, mas o calor da lareira, o cheiro da lenha, o crepitar do fogo… Ui, haverá coisa melhor? Digamos que o frio sabe bem lá fora. Em casa, o que queremos é calor: da lenha e das pessoas à nossa volta.
  3. Mesa. Melhor do que olhar para a lareira? Só estar sentado à mesa, com a comida em cima da mesa, entre decorações de Natal, a árvore a piscar lá atrás, o presépio iluminado, e a janela onde vemos a neve a cair (pronto, lá estou eu a imaginar coisas).
  4. Prendas. No fim do jantar, as prendas. O rasgar do papel com que embrulhámos cuidadosamente brinquedos, roupa, envelopes, postais, meias e…
  5. Livros. A melhor prenda de todas, sem a mínima dúvida. Pelo menos para mim. Nunca me canso. Quem se cansam são as estantes, que lá em casa já andam abauladas do peso dos livros estacionados em segunda fila. Paciência. Foi para isso que foram feitas.
  6. Brinquedos. Brinquedos há muitos e para os miúdos, nesta noite, tudo serve e tudo é uma alegria, pois mais simples que sejam. Depois, adormecer é que está quieto, com tanto brinquedo novo ali ao lado. E há choro e depois sono descansado e, de manhã, tudo aos gritos a brincar.
  7. Filmes. Os de sempre e os mais recentes. As xaropadas de Natal. O rapaz que tortura ladrões. O inglês apaixonado pela portuguesa que não sabe inglês. A inglesa a trocar de casa com a americana que se apaixona pelo irmão da inglesa. O Mr. Bean armado em agente secreto a tentar ter graça. E nós sentados a ver, no dia depois das prendas, com a enxaqueca de Natal, mas confortáveis e felizes, no dia em que está tudo fechado e podemos ficar a ver televisão ou, o que é ainda melhor, a conversar…
  8. Conversas. Mais sérias ou sem rumo, opiniões para todos os gostos, à luz da lareira e ao som das canções sempre iguais, sempre deliciosas. E, por vezes, à distância, os telefonemas rápidos, as mensagens de Facebook, uma conversa rápida por Skype a destruir distâncias. Ou um abraço a alguém que já não víamos há muito tempo.
  9. Histórias. Desligada a televisão, é hora de ler as histórias dos livros que oferecemos aos filhos. Ou aconchegarmo-nos num sofá e ler um livro que nos ofereceram ou que escolhemos nós mesmos. Ou então ouvir os avós e os pais a contar as histórias de sempre, de viva voz, ali ao pé de nós, e os netos a ouvir, de olhos brilhantes.
  10. Estrada. Para muitos casais, o Natal implica percorrer o país, à procura das várias terras da família. Assim, há anos que, na manhã de 25 de Dezembro, lá vou de casa da minha família para a casa da família da Zélia (ou ao contrário, dependendo do ano). É já uma das nossas tradições.
  11. Crianças. Sim, tudo o que vimos acima só faz sentido porque o Natal é especialmente importante para os mais novos. A nossa tarefa é preservar o mais possível o Natal deles, para que venham a lembrar-se dessas noites mágicas daqui a muitos anos. Pois para nós, que já deixámos a infância há uns tempos, o Natal tem quase sempre qualquer coisa de saudade…
  12. Saudade. Nesta altura, rimos e abraçamo-nos, mas também choramos mais do que o habitual. Porque há pessoas que já não estão e felicidades que não voltam. Também faz parte do Natal e, em certos momentos, com o brilho da lareira nos copos à nossa frente e o calor na pele, sentimo-nos bem a recordar essas pessoas que passaram outros Natais ao nosso lado. E abraçamos uma vez mais os que estão ao nosso lado, certos de que não será para sempre, mas é o melhor que temos neste mundo.

Cinco prazeres de ter um livro na mão

books-985954_1280Há o prazer da leitura, claro. E da literatura, que é outra coisa. Pois hoje trago-vos cinco exemplos de prazer físico que os livros nos dão.

  1. Pegar nos livros. Sentir prazer só ao passar os dedos pelas páginas ainda fechadas. Sentir a lombada na mão. Pegar no livro e perceber o seu peso particular.
  2. Folheá-los. Passar pelas páginas… Lembrar-me do lugar exacto onde estava quando li aquele parágrafo. Recordar as emoções daquela história em particular.
  3. Cheirá-los. Era um maluquinho, eu. Conta-me a minha mãe que me punha a cheirar os livros, passando o nariz pela dobra… Menti-vos ainda agora: eu não era um maluquinho — eu sou um maluquinho.
  4. Encontrar vestígios do que éramos. Olhar para a data e local que deixámos na primeira página e sorrir um pouco. Descobrir as nossas anotações. Olhar para o que deixamos no meio das páginas. Encontrar um recibo dum restaurante onde não vamos há anos. Reler um antigo postal de Natal escrito pelos nossos amigos.
  5. Tirá-los das estantes, encostá-los uns aos outros, desarrumar e voltar a arrumar. Criar pilhas, desfazê-las e pegar num outro livro, ao calhar da sorte.

Os livros que lemos e guardamos são uma espécie de pedrinhas que vamos deixando na floresta, ajudando-nos a voltar atrás no tempo e perceber como éramos e como somos agora. E são, quase todos, objectos bonitos e apetitosos.

E ainda nem falei do maior prazer de todos: lê-los, por fim.

Dez prazeres dos dias de chuva

book-691407_1280A chuva irrita — principalmente quando temos de pôr o filho no carro à chuva e não temos braços que cheguem para tudo. Ou quando estamos no trânsito e passamos duas horas a ouvir as mesmas músicas nas mesmas rádios. Ou quando estamos desprevenidos e ficamos molhados que nem um pinto. Mas também há certos prazeres muito próprios dos dias de chuva. Aqui ficam dez. Deixo os mais secretos para o fim.

  1. Fazer um piquenique à lareira. Imaginem uma manta, frutos secos, bom vinho, o fogo a crepitar, a conversa e os risos, aquela sensação agradável de conforto e paz. E, lá fora, a chuva bate levemente no vidro da janela.
  2. Brincar em família. Sim, estar em casa, com brinquedos à volta, a imaginar universos alternativos ou então mascarados de piratas e outras fantasias. Ou apenas sentados a contar histórias ou a ler um livro em voz alta…
  3. Olhar para a cidade à chuva. À janela ou protegido da chuva, na rua. Ver os carros a passar, o risco dos pneus na água, as pessoas com os chapéus de chuva, a clareza das ruas sem o brilho do sol. Ou então, estar a conduzir e ver as luzes dos carros a dissolverem-se nas gotas até passar o limpa-pára-brisas.
  4. Sentir o cheiro da terra molhada. Sim, é quase um lugar-comum. Mas é também um dos grandes prazeres da vida. Tal como também o é ter a sorte de ouvir a chuva a bater no telhado duma casa no campo.
  5. Ler. No sofá, ou na cama. Com a chuva ao fundo, claro. O mundo está frio e não apetece sair, mas num livro encontramos os mundos todos de que precisamos.
  6. Trabalhar em sossego. Em frente ao computador com uma caneca de chá ou café à frente, a fumegar, o calor da casa a envolver-nos e a sensação de que até nos apetece trabalhar um pouco, pois o sol não chama e a chuva é um inventivo.
  7. Ver um filme. Com uma manta a tapar as pernas. Encostados um ao outro. Ou com o filho no meio. E uma história que nos prenda, de preferência. Ou então pegar numa série e, num qualquer sábado à tarde de Outono, ver tudo, do primeiro ao último episódio.
  8. Namorar à chuva. Agarrados debaixo do chapéu. Ou, se não tivermos chapéu, correr à procura de abrigo, enquanto nos rimos os dois… E depois, a arfar do esforço, bochechas rosadas do calor da corrida, a adrenalina no sangue, a pele salpicada, o sorriso nos olhos e um beijo. Mas isso já sou eu a imaginar enredos.
  9. Estar na cama e a chuva lá fora. Claro: alguns diriam que é o grande prazer. Ficar abraçados no quente dos lençóis. Em silêncio ou nem por isso.
  10. E, por fim, adormecer. Agarrados, ao som sereno da chuva a bater nos vidros da janela.

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