Certas Palavras

Blogue de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens

Categoria: Livro de Histórias

O dia em que roubei um livro na minha própria livraria

Uma livraria arejada e moderna é uma coisa linda de se ver — e então uma livraria assim, luminosa, naquela rua a cheirar a café e a gente bonita, era o meu sonho de há tantos anos que não resisti a comprar aquela promessa de felicidade com uns dinheiros que recebera duma tia sem nome.

E foi uma promessa cumprida. Durante uns dias, remodelei aquilo tudo com a ajuda da Sónia, que no dia em que ali entrei como dono me deu o primeiro beijo da nossa vida. Foi ela que escolheu o sofá onde os clientes se recostavam por baixo da estante dos livros ingleses, a ler contentes no cheiro bom da melhor livraria de Lisboa — sem desconfiar do que ali se passava, naquele mesmo sofá, quando as portas se fechavam e nos atirávamos para outra felicidade difícil de encontrar nas páginas dum livro.

Ela gostava dessa sensação de estar a namorar com o dono duma livraria, de poder ficar lá dentro depois da hora de fecho, as luzes ligadas à nossa maneira, sentados no sofá a ler, saciados entre livros caídos. À noite, aquele paraíso era só nosso.

Depois de jantar, ela ia para casa e eu ficava por lá, a tratar das encomendas e das facturas, com as preocupações habituais de quem compra e vende e tem contas para pagar, mas com o sorriso nos olhos de quem tinha o sofá e, na pele, o sabor da boca duma mulher bonita.

Um dia, chegou a primeira carta do banco. Escondi tudo da Sónia, que por mais umas semanas continuou a peregrinar ao nosso santuário, onde nos beijávamos por baixo dos livros ingleses. E depois veio a segunda carta, os telefonemas, o cartão Multibanco rejeitado nas lojas, as estantes que começaram a ficar vazias, os clientes a rarear, o gerente do banco a tratar-me por você depois de meses de tu-cá-tu-lá.

Procurei nos livros que lá tinha, mas não encontrei em nenhuma página essa sensação ácida e pesada, como o sabor da boca ao acordar de ressaca, essa sensação de fraqueza, de desistência, de estar sentado no sofá entre facturas vencidas e extractos negativos — não há livro que descreva como é ter medo do correio, como é estremecer à vista do símbolo das finanças, não há livro que contenha o peso das cartas que trazem lá dentro vozes de funcionários carrancudos com ameaças de processos, multas e pregos nas costas. E, sim, não há livro que mostre como é passar noites a sonhar com números azedos no ecrã do Multibanco e como, de manhã, acordamos de novo para ir trabalhar e, no fim do mês, recebemos como ordenado mais uns quantos euros negativos estampados nos papéis do banco.

A Sónia descobriu, claro, e prometeu ficar e ajudar-me, mas nunca mais nos sentámos no sofá — e, semanas depois, entrava descontraída pela porta, sem se lembrar de mim nem de tudo o que ali fizera. A livraria já pertencia a outro.

Esperei, à esquina. Deixei-a sair, pouco depois. Sem vergonha, entrei eu mesmo na livraria, que estava igual, mas com outro nome e, por trás da registadora, outro homem ainda entusiasmado. Olhei-o como se o tivesse encontrado na cama com a Sónia e ele sorriu apenas e perguntou-me se estava à procura de algum livro em particular. Eu parto-te os dentes, pensei eu, e respondi que não, estava só a ver.

Sentei-me no sofá, passando a mão nos vincos que só eu sabia como eram indecentes.

Olhei para o rapaz, distraído a olhar para a registadora. Peguei num livro de mansinho — e levei-o comigo.

Sim: roubei um livro à minha própria livraria. Eu, que sempre odiei os gajos de óculos que não dizem palavrões, mas roubam livros, como se rebentar com as contas dum honesto dono de livraria fosse obrigação moral do bom intelectual; eu, que sempre fui atrás deles e lhes tirei o livro da mão e enfrentei o desprezo dos olhos daqueles que achavam indecente e próprio de brutos a minha vontade de não ser roubado — pois eu roubei um livro e senti uma felicidade absurda, como se aquilo resolvesse tudo, como se a livraria fosse minha outra vez, como se mais logo, ao fim da tarde, lá estivesse eu atrás do balcão, à espera da hora de fechar, a olhar para a Sónia e a sorrir, enquanto ela mordia o lábio e fingia folhear um livro, a desejar que o último cliente nos desamparasse a loja e por fim pudéssemos saltar para cima do sofá, sob o olhar discreto das estantes.

Um carro apitou, olhei em volta e percebi que estava sozinho com um livro na mão.

Miriam e os caçadores de raparigas

Era uma vez uma mulher nua a correr por uma floresta em chamas. Era uma vez um romano transviado que tinha medo de cogumelos. Era uma vez um homem a afogar-se numa praia do Mar do Norte. Era uma vez uma viagem que só terminou muito tempo depois, numa ilha que um dia viria a ser portuguesa.

E era uma vez três amigos e duas crianças num cinema de Lisboa.

A Ana veio a Portugal para as férias de Verão e, nuns dias que ela passou em Lisboa, aproveitámos para irmos ao cinema com os nossos filhos para que eles pudessem brincar e nós pudéssemos conversar e estar um pouco juntos, mesmo quando a vida do dia-a-dia se faz à distância de muitos países.

Falámos então, com pressa (o filme estava a começar), do livro que escrevi há uns meses e que a Ana tinha acabado de ler.

— O que eu gostava mesmo era de saber a história de Miriam… Como é que ela foi ali parar?

Sorri e ia responder — mas o filme começou, com o habitual estrondo de sons que nos deixou iluminados pelo ecrã, onde já se viam os primeiros desenhos animados em grande alvoroço.

O que a Ana não sabia — e eu não lhe pude dizer — é que já andava há uns tempos para contar algumas das histórias que ficaram fora da Baleia. Mas foi por causa dessa conversa que decidi começar pela história de Miriam — embora, para ser sincero, tenha alguma dificuldade em contá-la. O livro, já se sabe, é um rodopio de histórias que, embora com o seu quê de macabro, foram pensadas para toda a família — ora, a história de Miriam tem algumas passagens menos próprias para crianças.

Bem, mas vamos a isto. Como é que Miriam acabou como escrava em Mileto, donde foi salva por Lúcio Arvénio Rústico, que a trouxe até ao nosso país antes de ser o nosso país?

O pai de Miriam  —  revelo agora —  chamava-se Hrathgor e era chefe duma pequena tribo que deambulava por entre florestas, brumas e pântanos do Norte da Europa.

É até lá que temos de viajar. Ajude-me, então, o leitor: faça a viagem com a sua imaginação e aterre, de mansinho, nessas terras governadas por tribos germânicas perdidas entre florestas.

Em Roma, governa o primeiro imperador. Mas estamos fora do Império, mesmo à beira do Mar do Norte, por onde ainda deambulam velhos deuses nórdicos. Esta aventura que agora conto veio a ser a origem de histórias contadas pelas gerações fora  —  e há quem diga que as ouviu da boca dum viquingue nessa mesma ilha portuguesa onde Miriam aportou no fim da história que começa agora.


Um estranho nome de rapariga

Já revelei ao leitor o nome do pai de Miriam. Se por acaso confundir Hrathgor com Hrothgar, que é nome com pergaminhos e bem conhecido, não se preocupe: é um erro comum. À época, poucos se preocupavam com estas manias modernas de registar os nomes por escrito e acertar a ortografia dos mesmos. Nomes e histórias eram coisas que passavam de boca em boca e mais Hrothgar, menos Hrathgor  —  não vinha mal ao mundo.

Mas, diga-se, o pai de Miriam era Hrathgor e tinha o exacto aspecto do seu nome: um homem grande, vestido de peles de caça, com uma áspera língua nórdica na boca —  e tudo o que o leitor quiser associar a tão sonoro nome.

Já o nome da mãe de Miriam era  — dizem-me  — Yrsa.

A menina nasceu nove meses depois da chegada de Hrathgor de uma longa viagem que fez aos confins da Europa, donde trouxe umas estranhas pedras  —  e um gosto peculiar no que toca aos nomes das crianças. É que — convenhamos — «Miriam» não é nome que se dê a uma filha dum bom rei germânico. Mas Hrathgor não vacilou: por razões que hoje terão de ficar por explicar, deu esse nome à menina, por cima das reclamações de Yrsa e dos comentários da tribo.


Uma fogueira na floresta

Miriam nasceu ruiva e feliz e cresceu sem medo durante raros anos de abundância nessas paragens nortenhas.

Uma das suas primeiras recordações era de uma das noites em que assistiu ao seu tio Loki a contar histórias. Miriam ouvia, cabelos ruivos à luz da fogueira, e ficava embevecida enquanto Loki levantava os braços, contava histórias de gigantes e dragões  e intrigas entre deuses, heróis e gigantes. As sombras dos seus braços misturavam-se com o reflexo das chamas nas árvores e Miriam chegava-se mais ao seu pai — e assim ficavam pai e filha a beber as histórias de Loki, o matreiro contador de histórias.

Hrathgor nunca tinha sentido amor como aquele. Aliás, dizia-se pelas tendas daquela tribo, à noite, quando os casais conversavam em voz baixa, que os dois filhos mais velhos  —  Wiglaf e Weohstan  —  não andavam felizes com a atenção que o rei dava à criança mais nova.

O certo é que a menina cresceu feliz, sem notar essas conversas sussurradas. Aos quinze anos, era já a melhor e mais activa conselheira do seu pai. O rei treinava-a para batalhas e para negócios  —  e, no seu íntimo, andava já a magicar uma maneira de a tornar sua herdeira.

Miriam tentava participar em tudo  —  e Hrathgor só não a levou para uma batalha porque não queria aquela menina perto de espadas e cavaleiros. Pois a filha chorou por aventuras. Não queria ficar sempre para trás, ela que já quase governava a tribo, para horror dos seus irmãos, que não aceitavam uma mulher a mandar.

Hrathgor levou-a, então, de viagem até uma ilha onde viviam romanos. Foi a primeira vez que a miúda viu um romano — e ficou admirada com as togas e o ar alheado dos civilizados cidadãos. Mas decidiu ali mesmo que gostava mais das peles de animal que o pai vestia, dos javalis assados e servidos com leite, da floresta que ela conhecia como ninguém, dos acampamentos da sua tribo, das histórias de Loki contadas à noite, das praias frias do Mar do Norte — e dos morangos.


Um bando de romanos transviados

A aventura que agora vou contar começou numa outra noite de histórias à volta da fogueira, muitos anos depois. Miriam tinha já 19 anos e deixava os rapazes da tribo um pouco nervosos quando passava por eles.

Por esses dias, vagueava pelas florestas da zona um soldado romano cujo nome fazia tremer até o mais forte dos reis germanos.

Laio — era assim o seu nome — fora expulso de Roma por ter sido responsável por uma execução pública de escravos que deixou horrorizadas até as consciências habituadas a lutas de gladiadores e mortes em catadupa. Pelo menos, era isso que se contava.

Expulso de Roma, o antigo soldado não se fez rogado e assumiu como sua essa imagem de maldade sem limites. Juntou-se a uns quantos romanos descontentes, germanos irritados e berberes desviados e criou um bando de salteadores. Diz a lenda que a primeira batalha desse bando foi com uns soldados romanos apanhados desprevenidos numa estrada da Gália. Laio ganhou e os soldados dividiram-se entre aqueles que se juntaram àquela legião dos infernos e aqueles que foram cozinhados  —  sim, cozinhados  —  numa noite de festa e muita farra.

Depois dessa vitória de má memória, o bando passou a cumprir, numa vertigem de paródia, todo o ritual militar das legiões romanas  —  mas usava como símbolo uma águia de pernas para o ar e os homens afadigavam-se por deixar de lado qualquer traço de honra ou compaixão.

Aquela gente não defendia nada: os homens de Laio perseguiam alguns viajantes desprevenidos, roubavam acampamentos dispersos, comiam o que calhava — e eram ricos, imensamente ricos, com tesouros escondidos em várias grutas das florestas desse território sem fronteira e que podiam usar para comprar o que quisessem em Roma ou noutra das cidades do Império. Isto, claro, se pudessem entrar no Império.

Eram ricos. Tinham uma vida cheia. Com o tempo, sem família para quem voltar, com as florestas vazias de gente que não os temesse, o que estes homens mais queriam era outra coisa. Tesouros, tinham-nos de sobra. O corpo de uma mulher é que não.

Quando se atreviam a destruir mais uma aldeia, já não iam à procura de ouro ou peles  —  ou carne de javalis  —  mas sim de jovens apetitosas que pudessem saciar uma outra fome bem mais profunda.

Um dia, Laio ouviu dizer que a filha do chefe da tribo de bárbaros daquela zona era linda. Aproximou-se dos seus homens e picou-os, com histórias de mulheres e com pequenos insultos bem preparados para os deixar em ponto de bala.

Um dos seus companheiros avisou então, muito sério, que não deviam meter-se com aquele rei  —  e muito menos com a tal miúda.

Laio riu-se. E lá foram até à aldeia.

Eram quatro  —  sim, do bando que chegou a ter mais de cinquenta homens sobravam agora quatro. Mas as razões dessa diminuição são uma história que terá de ficar para outro dia. É que ainda tenho muito para contar sobre o dia em que Miriam foi raptada. O leitor só tem de saber isto: eles eram, de facto, quatro — mas as tribos da zona estavam convencidas que eram para cima de cinquenta.


Os caçadores de Miriam

Os quatro brutos pisam a neve que caiu durante todo o dia num silêncio desconcertante de corpos gigantescos em bicos de pé. Aproximam-se, devagar, da aldeia de Hrathgor. Nos rostos tensos, relampejam já vestígios das chamas da fogueira com que a tribo se aquece nesta noite fria. Laio sente o coração a bater: aqueles bárbaros não fazem ideia daquilo que os espera.

A certa altura, começam a ouvir a voz de Loki. A história que o velho conta fala de gigantes e de um tesouro escondido há muito tempo numa terra longínqua. As crianças e os adultos da tribo, sem imaginar quem está à espreita, não desprendem os olhos do contador matreiro.

Laio observa a tribo, como um tigre: são algumas dezenas de homens. Quatro gladiadores, por mais furiosos que sejam, não conseguem invadir aquela pequena aldeia. Não faz mal. Laio é matreiro e não há-de sair dali sem a rapariga ruiva que já consegue ver ao lado do chefe daqueles brutos. Lambe os lábios na antecipação do predador a olhar para a presa.

Com sinais de mãos afinados ao longo de anos de aventuras, Laio dá a estratégia aos companheiros. Os quatro sorriem, preparados.

À volta da fogueira, Miriam também sorri: Loki conta uma passagem antiga, que ela já ouvira muitas vezes, mas que só agora compreende na verdade. As histórias que ela ouve são sempre as mesmas e nunca são as mesmas — e, depois do que lhe aconteceu duas semanas antes (e que eu não irei contar), é como se ouvisse todas as histórias pela primeira vez.

É então que, em redor da aldeia, ouvem ruídos de passos. Vêm de todos os lados. Os homens levantam-se de imediato e reluzem espadas e facas vindas não se percebe bem de onde. Algumas mulheres correm com as crianças para as tendas. Loki fica calado, a olhar para a fogueira. Hrathgor olha para o irmão com olhos severos e o contador lá se convence a ir buscar a sua arma.

A julgar pelos sons que ouvem, a tribo julgo estar cercada por várias dezenas de pessoas. Miriam olha em redor. Pega também numa espada.


O mensageiro de Laio

Por entre as árvores, surge então um homem grande, sujo e feio, com ar gozão. Os dois filhos de Hrathgor aproximam-se dele com espadas alçadas, mas o pai, com um gesto, indica-lhes que devem ouvir o que o mensageiro tem para dizer.

O homem aclara a voz e põe-se a cuspir com dificuldade a língua da tribo:

—  Meus caríssimos brutos. Venho em nome de Laio, o Esplendoroso.

Hrathgor treme um pouco. Sabe bem a fama do bicho, desse romano vaidoso que obriga todos aqueles que subjugava a gritar «Avé Laio»  —  e de joelhos! E também já ouviu da boca dum outro chefe as histórias do que ele fazia às mulheres das tribos.

O enviado de Laio explica então, alargando os braços, num sorriso triunfal:

— Aqui em redor estão dezenas e dezenas de soldados romanos. Todos às ordens de Laio! Vamos destruir esta aldeia e matar-vos um a um.

Cala-se por segundos, as labaredas reflectidas na pele e nos metais que veste. A tribo, calada, bebe as suas palavras, como minutos antes bebera as palavras das histórias de Loki.

E, sim, todos acreditam naquela mentira. Porque os quatro romanos manhosos, na verdade, sabem correr em redor do acampamento, com passos multiplicados com as mãos a bater nas árvores e nos metais da farda. É um dos truques de Laio: com poucos homens, sabe criar a ilusão duma legião inteira.

O mensageiro de Laio continua então:

— Há uma solução… Basta que entreguem ali a cria do rei, essa ruiva ali sentada — e aponta para Miriam, que aperta a espada com mais força — e nada acontecerá. Levaremos a miúda e a tribo continuará a vida como se nada fosse.

Os homens e as mulheres da tribo, em terror, olham para o seu rei, que se aproxima do romano.

Rodeia-o como a uma presa — uma presa orgulhosa, é certo — e cospe-lhe na cara.

Diz-lhe então, com voz calma:

— Se são assim tantos, do que estão à espera? Sejam menos cobardes e apareçam. — Grita bem alto, para a floresta: — Apareçam, cabrões! Venham cá! A minha filha é que não entrego e morreremos todos, se preciso for. Mas viva é que não a levam!

O romano sai dali com o desprezo a pingar dos lábios. Laio sorri, por trás duma árvore. Com gestos, pede aos colegas para esperarem um pouco. A coisa resolve-se. Esteve a olhar com atenção para as caras dos filhos do rei…

Hrathgor sabe o que vem aí. Puxa a filha pela mão e leva-a para a tenda principal. Lá dentro, abraça-se a ela e diz-lhe palavras ao ouvido que não posso revelar.

Como disse, Hrathgor julgava saber o que vai acontecer — mas enganou-se. Esperava a morte; talvez o fogo; talvez a espada afiada dum romano transviado. O que ele não esperava era ver os dois filhos a entrar na tenda e a prenderem-no eles mesmos, pegando na irmã à força, para a levar dali para fora. A cara de Miriam era de surpresa — percebeu que seria entregue pelos irmãos como sacrifício àqueles romanos sujos armados em deuses.


A história não fica por aqui, claro — mas isto faz-se tarde e tenho de ir jantar. O fim do relato — que é o início duma outra história que chega aos nossos dias — está no livro A Baleia Que Engoliu Um EspanholMas entre este início que hoje vos contei e o fim que está no livro houve muitas peripécias. Miriam não acabará a viagem sem matar umas quantas pessoas — e ainda nem chegámos à mulher nua a correr pela floresta que prometi no início. Fica essa história para a semana que vem. Se quiser, pode receber os próximos episódios…

Um pescoço bem cortado

Devereux tremeu ao ouvir os passos do meirinho e do carrasco.

Enquanto era transportado para a morte, gritava:

– Eu sei onde está o tesouro!

Mas desistiu. Em breve, a sua cabeça rolaria pela terra molhada do pátio da Torre de Londres.

Limitou-se a pedir ao carrasco que fosse rápido – e decidiu informá-lo:

– Já fui amante da rainha, sabia?

O carrasco olhou para aquele homem e sentiu um calafrio. Era a primeira vez que executava alguém.

O primeiro golpe acertou no cabelo, sem beliscar a pele ao pobre conde. Devereux atirou, como se estivesse a falar com um criado nos seus tempos de riqueza:

– Ó homem, mas é assim tão difícil acertar no pescoço? Vá, despache-se que a minha vida não é isto.

Mas de repente calou-se. A lâmina do carrasco brilhava e em breve acertar-lhe-ia no pescoço. Seria rápido? Iria sentir dor? E depois? O que se seguiria?

A segunda estocada já acertou no pescoço – e a terceira separou a cabeça do amante da rainha. Naquele momento, o olhar do homem apagou-se para sempre – e para sempre se perderam as suas memórias de rainhas nuas, salteadoras esplendorosas, guerras e feitos de admirar, tesouros escondidos pelo mundo e muita vontade de aventura. Tudo acabou naquele momento – mas foram décadas duma vida bem preenchida.

Conto tudo isto porque tenho muito a agradecer a este nobre inglês. Aquele pirata inglês, enquanto esperava pela morte, contara as histórias do Tesouro de Saturno ao seu companheiro de cela. Se não o tivesse feito, eu nunca teria ouvido aquelas histórias da boca do meu avô.

O carrasco pegou pelos cabelos na cabeça de Robert Devereux, mostrou-a à assistência e gritou «God Save the Queen».

(Capítulo 25 de A Baleia Que Engoliu Um Espanhol)

Uma vírgula de Saramago na nossa cama

(A fonte da foto é este site.)

Já que estou em blogue alheio, convém dizer que me chamo Rita. E fui com o meu novo namorado passar um fim-de-semana de Natal para outras paragens que não a consoada e prendas e putos e outros cansaços.

Sim, sou assim, o que querem? Os meus pais não se importam e eu muito menos. Já o Daniel, coitado, teve de suar muito para justificar aos pais a ausência na mesa de Natal, mas também sei que não ia perder a oportunidade de passar três dias comigo numa casa perdida lá no meio da Serra da Estrela. Uma cama, uma banheira no quarto e muita neve a impedir-nos de sair de lá. Namoramos há menos de três meses: não há quem resista.

Ora, chegámos, estacionámos, percorremos os poucos metros do carro à casa com as malas na mão, a neve a atrapalhar-nos os movimentos, o cansaço da viagem de cinco horas no corpo. Abrimos a porta, ficámos de boca aberta: era o que queríamos, só que melhor ainda. Nem despimos o casaco e já estávamos embrulhados na cama a rir e depois o que se sabe. Uma bela consoada antecipada — ainda eram seis da tarde.

Bem, pouco depois, a lareira acesa, a neve a cair lá fora, dois copos de champanhe na mão, os lençóis espalhados e nós nus a conversar, começou a dar-nos uma moleza natalícia e ele pôs-se a ler o Facebook. Decidi levantar-me para ir buscar qualquer coisa para ler.

— Raios, esqueci-me do livro…

— Qual livro?

— O livro que estou a ler: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Como é Natal…

Ele não se riu e tive aí o primeiro pressentimento de que alguma coisa podia correr mal. O que ele fez foi puxar-me para ele e dizer, bem-disposto, que nunca lera o Saramago e também não era agora que ia começar — porquê? Porque se recusava a ler escritores que não usam bem a pontuação.

Eu travei de imediato, a meio caminho do colo dele.

— Explica lá isso melhor…

Não me digas, pensei eu para comigo, que este mânfio é daqueles que acha que o Saramago não usava pontuação.

— Então, é o que todos sabemos: o Saramago não usava vírgulas. E elas estão lá para ser usadas! Nunca gostei dessa ideia de os escritores mandarem às malvas as regras do português…

Fiquei em choque e comecei a vestir-me de imediato. Fui dizendo enquanto abotoava a camisa:

— Tu achas mesmo que o Saramago não usava vírgulas?

Ele riu-se:

— Claro! Toda a gente sabe! Ele é conhecido por isso mesmo! Mas estás a vestir-te porquê?

— Não, não é conhecido por isso mesmo. É conhecido por ter sido um dos melhores escritores do século passado. Vou repetir devagarinho… — disse eu enquanto vestia as calças. — O Saramago não usava vírgulas?

— Claro que não!

— Mas tu já abriste algum livro dele?

— Sim, na escola, o Memorial do Convento ou lá o que era… Não havia lá vírgulas, pelo menos na minha edição.

— Olha, posso dizer-te que já li os livros todos dele e sempre encontrei muitas vírgulas e muitos pontos…

— Não inventes! Queres agora convencer-me que o Saramago usava vírgulas? É que toda a gente sabe…

— Lá estás tu e o «toda a gente». Então tu abriste o Memorial durante dois minutos na Secundária e achas que eu, que estou neste momento a ler um livro do homem, não reparei que ele não usa vírgulas? É isso?

— Pois não sei, se calhar não viste bem. É que toda a gente sabe que ele não usa vírgulas!

— Toda a gente sabe o car****!

Ele ficou embatucado. Tentou aproximar-se, amaciar-me com palavras com muitas reticências, mas eu não estava para aí virada. Comecei à procura da chave do carro.

— Aonde vais, amor?

— Vou a casa buscar o livro para te mostrar as vírgulas do Saramago.

— A tua casa? Em Évora?

— Sim, claro, é onde está o livro.

— E eu?

— Podes ficar à espera, se quiseres. Diverte-te muito, tens aí a banheira, a cama, a lareira…

— Vais estragar o Natal por causa duma vírgula?

— Sim — e abri a porta onde se via muita neve e muito frio.

— Ouve, tudo bem, se tu dizes que há vírgulas nos livros de Saramago, eu acredito!

Olhei para ele e olhei para a neve. Apetecia-me muito dar-lhe uma lição. Mas também me apetecia muito estar à lareira. Suspirei, virei-me para ele, e disse:

— Muito bem, mas então faz o seguinte: compra aí um livro de Saramago para o iPhone para eu te espetar a vírgula na cara, pode ser?

— Ficas cá se eu fizer isso?

— Sim.

O rapaz correu para o telemóvel e desatou à procura. Encontrou e descarregou, enquanto murmurava «só me faltava passar o Natal a comprar livros de Saramago». Eu fiz-lhe olhos maus, peguei no telemóvel, abri na primeira página e enfiei-lhe o ecrã nos olhos:

— Estás a ver as vírgulas ou não?

— Sim, estou. Mas se calhar é desta edição. Puseram as vírgulas depois.

— Mau, queres que eu vá mesmo a Évora e ficas a chuchar no dedo?

— Não, não… Mas deixa lá ver outro.

Descarregou O Ano da Morte de Ricardo Reis, folheou o ecrã e a certa altura encontrou uma coisa que lhe deixou um sorriso na cara:

— Estás a ver: que história é esta de maiúscula a seguir a uma vírgula?

— Ora, meu caro, isso são questões de estilo. É só uma pequena adaptação das convenções ortográficas para sublinhar a oralidade do relato…

— Estilo? Estilo? É por estas e por outras que odeio o Saramago…

— Odeias o Saramago? Mas porquê? Por causa das maiúsculas a seguir às vírgulas?

— Não: por não respeitar as regras do português, por exemplo.

Eu abri muito os olhos:

— Ora, pedir para os escritores seguirem estas convenções do diálogo é o mesmo que obrigar o Picasso a ir à Câmara Municipal perguntar quais são os tipos de tinta autorizados para os seus quadros…

— Mau! Mas então achas que as regras da língua são como as regras camarárias?

— E tu achas mesmo que isso são as regras de português que realmente importam? Saramago sabia muito bem as regras da língua e podia dar-lhes a volta exactamente porque as conhecia de trás para a frente.

— Conversa da treta. Irrita-me essa mania dos escritores de fazerem o que querem com a língua!

— Pois, isso é verdade: os escritores fazem o que querem com a língua. Pelo menos os bons.

Calámo-nos então e fizemos, o resto da noite, o que quisemos.

[Histórias]

Quem quer casar com um homem tão pesado?

Meu amor, agora que estamos a pensar em casar tenho de te revelar o mais pesado dos meus segredos. Está ali guardado na cave dos meus pais.

Não vai ser fácil. Mas tens de saber isto se queres mesmo casar comigo.

Vem, dá-me a mão, desce as escadas. Prepara-te. Vou acender a luz.

Aqui está.

Quando tivermos uma casa vamos ter de enfiar lá estes 2562 livros (em breve 2565, pois amanhã vou às compras). São muitos? São. Mas não faças essa cara, isto é assim mesmo, cada pessoa tem o seu passado, o seu peso, os seus caixotes. Há homens com bagagem, eu tenho uma biblioteca. Sim, estas pilhas de livros espalhadas pelo chão são uma biblioteca. Há aqui uma organização invisível, que segue alguns caminhos que nem a ti posso confessar.

Sim, é este o meu segredo. Querias o quê? Um cadáver escondido na cave? Máquinas de tortura? Andas a ler demasiados livros. Tenho aqui uns quantos romances sobre pessoas que lêem livros a mais — lêem-nos mal ou lêem os livros errados. Ah pois é, fica a saber que isto dos livros não é só comprar e ler. Alguns compram-se e não se lêem. Alguns lêem-se pela metade ou a começar pelo fim. Outros compram-se, lêem-se e queimam-se com prazer. (Olha, tens aqui Los mares del Sur. Lê e não queimes.)

Já que estamos numa de revelações, tens de saber que esta biblioteca que aqui tens cresce sem parar. E se me sair a sorte grande ou me tornar rico, esquece as férias nas Caraíbas, esquece o Mercedes, esquece isso tudo: vou mas é gastar o dinheiro em mais livros e numa casa que dê para os livros.

Tens de perceber o que está aqui: olha-me este livro todo riscado, uma edição de bolso da Penguin do Pride and Prejudice. Li isto no quarto ano da faculdade, no apartamento de Benfica onde nunca foste e, em certas tardes, sozinho a andar pelas ruas de Lisboa, a tentar perceber o mundo e as mulheres através da Jane Austen. Sim, eu sei, é ridículo. É uma verdade universalmente reconhecida que um gajo de óculos a ler Jane Austen no meio da rua não percebe grande coisa nem da vida nem das raparigas. Adiante.

Aqui este The Alexandria Quartet li-o há uns cinco anos, em Madrid, ainda namorava com a Carolina. Sim, a Carolina. Já sei que não gostas dela, mas o que queres?, aquela viagem foi importante e aqui está, na biblioteca que te há-de acompanhar para o resto da vida, na saúde e na doença, na sala de estar e nos carros das mudanças.

Nessa viagem, a Carolina e eu ficámos num hotel na Gran Vía, com uma piscina lá em cima donde se via a cidade inteira. Lembro-me de estar a ler e ela a nadar à minha frente, enquanto eu vagueava por uma Alexandria de delírio.

A certa altura, a Carolina veio deitar-se ao sol e lembro-me dos exactos movimentos dela, bem mais perto do que o aconselhável para deixar um rapaz a ler sossegado, e lembro-me que do biquíni saltou uma gota de água que salpicou a página 137 do Quartet, que ficou para sempre com o papel enrugado no sítio onde a gota caiu. Nunca mais me esqueci e para mim o melhor do livro é essa ruga — e olha que eu gosto muito do livro.

Não faças essa cara. Se vamos casar, não posso ter segredos, não é verdade? Tens de te casar comigo inteiro, até com as rugas das gotas da água das outras mulheres que já passaram por estes livros.

Aqui esta edição dos Dubliners, comprei-a em Cambridge, quando fui lá contigo e começámos a namorar. Ainda hoje folheio o livro e lembro-me de passearmos encasacados nos relvados nas traseiras dos colégios e sonharmos com outras vidas ao sol frio do Inverno inglês. Lembro-me de anoitecer e começar a nevar e do conforto que foi entrar na livraria, de escolher este livro, olhar para ti e sentarmo-nos os dois num dos sofás do café no terceiro andar, onde demos o primeiro beijo a sério. Também te lembras? Eu sei que sim.

Pronto, aqui tens: o peso todo dos meus livros. Sou eu que encontras aqui. Todas as vezes que mudarmos de casa, lá terão de ir estes calhamaços todos. E como arrumar isto na sala? Sim, na sala. Ou achas que vamos ter dinheiro para uma casa com escritório? Nem penses que os livros vão para a arrecadação. Ou queres que passe mais tempo lá em baixo do que contigo na nossa casa? E o pó, já imaginaste? Vamos passar horas a limpar as estantes! E daqui a muitos anos, se por cá ficares e eu não for mais do que pó, terás de os vender — ou talvez fiquem para os filhos que aí vêm, que bem podem herdar este estranho bichinho dos livros. Enfim: aqui me tens. Decide lá. Tens tempo. Mas entretanto dá-me um beijo — cuidado é para não derrubares essa pilha de livros aí atrás de ti. Obrigado.

[Histórias]

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