Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Categoria: Língua Portuguesa (Página 1 de 24)

Ensinar Português na República Popular da China (por Cristina Bluemel)

A certa altura, comecei a ver surgir nas estatísticas do blogue algumas visitas de locais tão distantes como a China. Qual seria o interesse desses leitores por este blogue sobre a nossa língua? Vim a saber através dum comentário que algumas dessas visitas chinesas eram duma professora de Português na China: Cristina Bluemel. Atrevi-me a pedir-lhe um pequeno texto sobre como é ensinar Português por aquelas paragens. Aqui está o resultado.


Na República Popular da China as crianças normalmente ficam aos cuidados da mãe ou dos avós até aos três anos de idade. A partir dessa idade terá início o longo ciclo nas escolas, onde passam o dia inteiro. Todas as atividades, programas, funcionamento, normas, regulamentos académicos são estritamente ditados pelo governo e o seu cumprimento é controlado, em cada instituição de ensino, por representantes do Partido único, entre presidentes, diretores, professores, funcionários e também alunos. As avaliações fazem parte de um processo de seleção que se estende até à entrada no ensino superior, fazendo também parte do ensino a formação militar quer nas escolas quer nos quartéis.

No que concerne ao método de ensino, ele é essencialmente baseado na memorização de conteúdos e estruturas: o aluno deve ouvir e depois memorizar, através da leitura e repetição, todos os conteúdos que posteriormente deverão ser reproduzidos na respetiva avaliação; e existem métodos e técnicas para tal, tal como encontrar palavras e expressões-chave nas questões das provas que levam a descobrir qual a resposta certa.

Quanto ao ensino superior, está estruturado em três níveis, havendo instituições de ensino superior públicas e privadas, todas elas pagas: as universidades de primeiro nível, de referência nacional, as universidades de segundo nível, em número bastante mais elevado, e as faculdades vocacionais, ou de ensino profissionalizante; estas faculdades oferecem bacharelatos de três anos, enquanto as licenciaturas são de quatro anos.

Existem limites máximos de idade, para os alunos nacionais, de acesso ao ensino superior, mestrado e mesmo doutoramento, e os professores estrangeiros não são considerados professores, mas monitores (instrutores). Embora as duas denominações sejam traduzidas uniformemente para «teacher» e seja afirmado que significam a mesma coisa, para evitar constrangimentos, na verdade na língua chinesa é estabelecida essa distinção.

Comecei a lecionar Português aqui, numa faculdade de línguas estrangeiras, exatamente há dois anos — e logo à chegada a minha grande surpresa foi encontrar um curso de Português com cerca de 500 alunos distribuídos pelos 3 anos do curso: porque é que tantos jovens chineses escolheriam estudar português? A resposta chegou rapidamente: nesta região estão localizadas grandes empresas e indústrias que mantêm relações comerciais e operam nos países lusófonos de África e também Brasil.

No entanto (ainda não averiguei o porquê), o número de alunos que opta por português tem diminuído progressivamente, ao contrário do número de alunos que escolhe francês, que tem aumentado bastante e faz essa opção por motivos idênticos: o comércio e negócios com países francófonos, especialmente aqueles também localizados em África.

As unidades curriculares de gramática, leitura, escrita e fonética (pronúncia) são lecionadas por professores chineses, em chinês, sendo entregues aos professores estrangeiros as UC de compreensão oral (audição) e conversação (lecionadas separadamente) — e também aulas de vocabulário e diálogos relativos a negócios, comércio, turismo e redação de documentos.

Os métodos utilizados para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras são essencialmente baseados em meios e materiais de repetição e memorização de palavras e estruturas de frases que depois são adaptadas a cada circunstância e, no caso do português, é também transmitida a ideia de que a língua portuguesa é muito semelhante à língua inglesa, razão pela qual o inglês é usado frequentemente como língua terceira («de passagem») entre o chinês e o português. É muito comum, por exemplo, mesmo que fazendo isto apenas mentalmente, primeiro ser efetuada a tradução do chinês para o inglês, e depois do inglês para o português, com todos os inconvenientes que isso acarreta, tal como nos casos em que é usada a palavra “festival” ao invés de “festa”, e em vez de “feriado” a palavra “férias”, entre várias outras situações erróneas.

Geralmente as aulas são compostas por dois períodos de quarenta e cinco minutos cada, separados por um intervalo de dez minutos, e as turmas são constituídas por mais de quarenta alunos, exceto quando não há alunos suficientes para tal. Quanto aos materiais e recursos a serem utilizados em sala existem, vários tipos de restrições, não se podendo recorrer a livros ou filmes estrangeiros, porque teriam de passar previamente pelos órgãos de censura, e sendo apenas permitida a exibição de vídeos com uma duração máxima de cinco minutos, ficando todo o material exibido gravado nos computadores das salas de aula.

Mas, do meu ponto de vista, o maior desafio para que os alunos consigam atingir um bom nível no estudo e recurso ao português é conseguir levá-los a processar a informação e conhecimentos transmitidos, ao invés de apenas registar de memória — e fazê-los perceber que o chinês não é a língua mais difícil do Mundo e que todas as outras são fáceis, bastando por isso recorrer aos tradutores automáticos para fazer uma boa tradução.

«Tirar as impressões digitais» é erro de português?

1. «Fazer piscinas» sabe bem

Há uns dias, estive numa piscina com a minha mulher. Estava mais quieto do que o habitual, a tentar adaptar-me às lentes de contacto (depois do episódio que já contei por aqui).

A Zélia vira-se então para mim e diz: «Costumas gostar de fazer umas piscinas…»

Sorri e pus-me a nadar. Sim, é verdade: é bom fazer piscinas. Fico bem-disposto.

Enquanto nadava, comecei a pensar. A expressão «fazer piscinas» é curiosa. Naquele contexto, é uma forma familiar de dizer «nadar todo o comprimento duma piscina». Noutro contexto, quererá dizer «construir uma piscina». A nossa cabeça dificilmente se atrapalha: pega numa palavra e estica-a para apanhar uma série de significados e de nuances, usando para isso tudo o que encontra à volta.

O verbo «fazer» quer dizer tantas coisas! Desde «cortar» (em «fazer a barba») até ao tal «nadar» (em «fazer piscinas»). É um belo monstro semântico — e uso «monstro» no bom sentido. Isto é mau? Claro que não! Só alguns obcecados por uma língua simplificada e quadrada não gostam da maleabilidade do português — e de todas as outras línguas.

2. É favor não arrancar as pontas dos dedos!

Chegamos então ao verbo «tirar» é às impressões digitais… Já me aconteceu ouvir pessoas muito preocupadas com a expressão «tirar as impressões digitais». Na cabeça dessas pessoas, um funcionário que diga ao incauto cidadão «agora tenho de lhe tirar as impressões digitais» está a incorrer num gravíssimo erro de português. O certo seria sempre «colher (ou recolher) impressões digitais».

Porquê este medo arbitrário do verbo «tirar» com sentido de «recolher»? Não sei bem. Talvez porque a estas pessoas lhes faça impressão o facto de haver verbos que mudam de sentido conforme o contexto. Talvez porque inventem uma ambiguidade fantasma, imaginando um cenário em que tirar «impressões digitais» quisesse dizer «retirar as pontas dos dedos a alguém». Estará o tal funcionário do registo civil, quando diz ao cidadão «vou-lhe tirar as impressões digitais», a informar que o passo seguinte é cortar-lhe a pele das pontas dos dedos? Um filme de terror, não haja dúvida!

3. Tirar fotografias e outros medos

Um terror, na verdade, é esta visão da língua, que lá vai fazendo o seu caminho, estragando a relação dos portugueses com o português.

Enquanto os engenheiros informáticos andam, com esforço, a tentar elevar os computadores ao nível de inteligência dos nossos cérebros (e ainda estão tão longe…), estes «defensores da língua» (aspas bem sublinhadas!) parecem querer baixar a inteligência humana ao nível dum robot, que só percebe as palavras se estas tiverem um significado fixo, imutável e único.

Estes simplificadores compulsivos parecem ainda estar sempre a tremer de medo das ambiguidades absurdas. Como se eu, ao dizer a um amigo «vou-te tirar uma fotografia», arriscasse ver o meu amigo a fugir, pensando certamente que lhe quero roubar a fotografia que ele tem na carteira…

As palavras mudam de significado conforme a pessoa, a hora do dia, a época, o contexto… Sempre assim foi e sempre assim será — porque somos seres muito pouco mecânicos e usamos as palavras de forma orgânica, mudando-lhes o significado a cada uso e cosendo esse mesmo significado às outras palavras, aos nossos gestos, ao piscar dos nossos olhos. E fazemos isto a várias vozes, o que só não espanta quem estiver muito distraído…

Três prazeres da língua portuguesa

Há uns meses, escrevi este texto para o jornal da Escola Eça de Queirós, nos Olivais, a pedido do professor Fernando Pinto. Hoje, lembrei-me de vir aqui deixá-lo para que os leitores deste blogue também o possam ler.


Nunca fui aluno da Escola Eça de Queirós. Mas não deixa de ser uma das minhas escolas. Porquê? Explico já.

Primeiro, anda por lá o meu sobrinho mais velho, o Dinis. Depois, é bem provável que o meu filho Simão lá vá parar um dia. E, por fim, nunca me vou esquecer do dia em que conversei com os alunos da escola, interessadíssimos e bem atentos, ali à minha frente. Sim, nunca vou esquecer, porque, se é verdade que já tinha falado sobre os dois livros que escrevi em livrarias e bibliotecas, esta foi a primeira escola a que fui. E se há palavra que descreve o que senti, só pode ser esta: prazer!

Pois que melhor tema para escrever para o jornal desta escola do que os prazeres da língua? São muitos, eu sei. Por isso, tive de escolher três:

1. Conversar

Com as palavras, todos os dias fazemos alguém rir. Ou, pelo menos, serão raros os dias em que cada um de nós não se ri ou não faz rir nas conversas que temos. É um dos grandes prazeres: entre amigos, amores, família, a língua serve para viver. Conversamos, sussurramos, contamos histórias, interrompemo-nos, discutimos, fazemos as pazes, apimentamos tudo com os gestos das nossas mãos, a acompanhar a torrente de sons que sai da boca. E não é um prazer? Sim, é: embora seja um prazer que sentimos tantas vezes e em tantos sítios, que nem reparamos nele, tal como não reparamos no triste que seria uma vida sem conversas, sem riso, sem palavras.

2. Ler

Há poucos dias, encontrei um homem de ar curioso, sério e compenetrado, a ler no metro. Mal reparei no senhor, até ao momento em que percebo que está a ler um livro minúsculo. Tão pequeno que eu não conseguia, a dois metros de distância, perceber o título. Pois o certo é que tão diminuto objecto, com as palavras que lá estavam escritas, conseguiu fazer o homem franzir as sobrancelhas, suspirar fundo, chorar e rir às gargalhadas — tudo bem visível na sua cara e tudo no espaço de três estações. Nunca me vou esquecer dessa curta viagem em que vi, ao vivo, a força da literatura na cara dum homem no meio de gente distraída. Naquela carruagem, era ele quem vivia mais intensamente. É essa a força das palavras e um dos prazeres das línguas humanas.

3. Regressar à língua-mãe

Falar outras línguas é mais do que importante: é imprescindível nos dias que correm. Poucos são aqueles que vivem uma vida inteira sem balbuciar palavras em línguas estrangeiras — e ainda bem que é assim, digo-vos. No entanto, sinto um prazer especial quando ando umas horas ou uns dias a falar em inglês ou em espanhol e, depois, volto ao nosso querido português. É como chegar a casa depois duma viagem: a viagem sabe bem, mas o regresso… Ah, o regresso… Os sons, a entoações, as exactas palavras que vêm da nossa infância. A nossa língua materna é isso mesmo: materna — e nossa. É a nossa boa língua portuguesa.

As línguas gestuais têm sotaques?

Uma ideia errada sobre a linguagem humana que se ouve por aí é esta: as línguas gestuais não são mesmo línguas, mas antes uma linguagem incompleta, uma espécie de «português dito com as mãos» ou algo assim.

Na verdade, são línguas como as outras, tirando o facto óbvio de que usam os gestos das mãos em vez dos gestos da boca. Já falámos disto neste blogue — por exemplo neste artigo: «A língua gestual portuguesa é uma língua a sério?»

Sim, são línguas com gramática, sotaques, poesia, palavrões, tradutores, regras inconscientes que não vêm nos livros, mas estão nas mãos dos falantes… Tudo!

Neste pequeno vídeo, uma professora de linguística explica como a ASL (a língua gestual dos EUA) tem sotaques. E, claro, o mesmo se passa com a língua gestual portuguesa, a outra língua que a nossa constituição manda o Estado proteger.

Porque é tão difícil comunicar à distância?

Hoje apetece-me começar uma nova secção neste blogue. O título será apenas e só «Comunicação». No fundo, é um dos grandes temas aqui da casa. Mesmo quando falo da língua — que é o grande tema destas paragens — há muitos casos em que estou a falar da nossa capacidade de comunicar (ou da falta dela, claro).

Ora, já todos sentimos como é difícil comunicar: no Facebook, por correio electrónico… Quantas vezes não sentimos dificuldade em nos fazermos entender, em evitar mal-entendidos, em fugir dos conflitos? Andamos sempre aos tropeções.

Na verdade, nós somos muito bons a comunicar uns com os outros: basta pensar nas vezes que conversamos entre gente amiga, em tudo o que dizemos só com as mãos, na forma como um simples sorriso ou entoação transmite emoções e informação que frases inteiras num livro não conseguem expressar nem à força de muito talento.

A grande dificuldade está na comunicação à distância, quando não estamos presentes, com o nosso corpo, a nossa cara, as nossas mãos, até mesmo o nosso cheiro humano.

Temos, para começar, a escrita. A escrita é um acrescento muito recente à nossa capacidade de comunicação. Ainda não passaram assim tantos milhares de anos desde que alguém inventou essa forma de registar o que dizemos na pedra, na madeira, em argila…

Antes disso tínhamos vivido milhares e milhares de anos a conversar em pequenos grupos tribais — e é nisso que somos bons: nas conversas de almofada, na conversa entre amigos, nos risos e piscadelas de olho, nas conversas entre caçadores atrás duma presa (ou seja, a tentar resolver problemas no momento).

Ora, na escrita não temos o corpo das outras pessoas; não temos a possibilidade de avaliar se quem nos ouve está a perceber ou não; falta-nos a nossa própria cara a pintar as palavras com a emoção certa. Torna-se tudo mais difícil.

Depois, mesmo quando usamos a nossa própria voz podemos ter dificuldades se o fizermos à distância. É mais difícil falar ao telefone do que ao vivo (na minha humilde opinião, é ainda mais difícil do que por escrito, pois continuamos a não estar presentes e ainda temos o problema de nos faltar a possibilidade de pensar e rever).

E comunicar nas redes sociais? Um sarilho, se virmos bem. E na rádio e televisão? Também não é fácil.

A vantagem de comunicar por escrito, por telefone ou por outro destes meios mais difíceis é esta: reduzimos a distância, aumentamos as nossas oportunidades de chegar aos outros, falamos mais vezes com amigos (e menos amigos), tornamo-nos parte de grupos maiores do que as tribos ancestrais.

As vantagens são muitas, mas os perigos também não são poucos. É disso que falarei nesta secção — o que não deixa de ser uma continuação do que tenho feito neste blogue nos últimos anos. (Ah, sim, há ainda aquele pormenor da identidade, o outro grande tema do blogue. Mas, talvez, esse tema não esteja assim tão distante destes assuntos.)

Se quiser receber os artigos por e-mail, não se esqueça de se inscrever:

«Estivéramos» é erro de português?

Há umas semanas, tive uma espécie de duelo virtual com um senhor que dizia ter encontrado a prova irrefutável da decadência da língua: um amigo dele tivera o desplante de usar a estranhíssima expressão «estivéramos lá oito professores».

O contexto é este: estavam eles (o tal senhor e o amigo) a conversar sobre uma escola que tinha fechado. Ora, a escola fechou e, antes disso, afirmou o amigo, «estivéramos lá oito professores a trabalhar».

É isto um erro de português?

Não me parece. O pretérito mais-que-perfeito é adequado naquela situação, embora nos soe já um pouco estranho por estarmos pouco habituados à forma verbal. Ao vivo e a cores é já muito raro usarmos tal relíquia da nossa gramática. E é pena. Mas pior ainda é encontrar sinais de decadência no uso dum tempo verbal tão bem feito e simpático.

Num comentário por baixo do tal post de Facebook, disse isto mesmo: talvez aquela palavra não fosse um erro. O senhor não gostou. Não só me descascou forte e feio, como ainda insultou quem teve o desplante de dizer que talvez eu até tivesse alguma razão.

Por fim — e isto é curioso — ainda nos deu a todos a lista de todos os jornais em que já tinha escrito, como se isso tivesse alguma coisa que ver com a correcção ou incorrecção daquela palavrinha. Continuou a enumerar as línguas em que sabia escrever e terminou dizendo, para quem o quis ouvir, que nunca ninguém lhe dissera que escrevia mal! Estivéssemos mas é calados que ele é que sabia. A coisa não ficou por aí. Recebi ainda uma mensagem privada do mesmo senhor a dizer que eu não tinha nada de o pôr em causa e não sei que mais.

Eu respirei fundo, já arrependido por ter comentado um texto de tal personagem. Disse-lhe então, com calma, que apenas afirmara, sem mal algum, que «estivéramos» existe e que me parecia correcto naquela situação. Não concordei com a opinião dele, segundo a qual, o pretérito mais-que-perfeito não podia ser usado naquele contexto. Podia dar-se o caso de eu estar errado e a forma verbal não ser adequada no diálogo em questão. Mas, seja como for, o meu comentário certamente não valia a tempestade com que o senhor me azucrinara o juízo (perdão antecipado pelo mais-que-perfeito que acabei de usar).

Enfim, nada mais há a concluir do estranho episódio do que isto: a arrogância existe no mundo e, no que toca à língua, parece que há gente com poucos travões nessa arrogância.

Mas trago aqui este episódio para referir outra coisa. Na discussão que entretanto começou por ali, uma das «regras» que me apresentaram para provar que eu estava errado era esta: o pretérito mais-que-perfeito só deve ser usado numa frase onde outro verbo esteja no pretérito perfeito.

Este é um exemplo de «regra à pressão»: uma regra inventada naquele momento para justificar uma ideia sobre a língua — e que serve de substituto à observação atenta dessa mesma língua tal como existe na boca dos falantes.

«O pretérito mais-que-perfeito exige sempre o pretérito perfeito na mesma frase.» Soa bem, parece uma regra, mas não é assim que a língua funciona. Nós podemos usar o pretérito mais-que-perfeito mesmo quando não temos o pretérito perfeito na mesmíssima frase. Basta estarmos a pensar num evento passado que ocorreu antes doutro evento passado que esteja na nossa ideia naquele momento. «Trouxeste o livro lá de casa? Não, a minha mãe já o dera ao meu primo…» A segunda frase não tem pretérito perfeito nenhum e o pretérito mais-que-perfeito fica ali muito bem. Claro que no dia-a-dia substituímos pela forma composta — «a minha mãe já o tinha dado ao meu primo» — mas a lógica é a mesma.

As regras do português encontram-se quando observamos a língua com atenção, o que implica não saltar logo para a conclusão que os falantes estão errados quando alguma coisa não nos soa bem. As regras de português não se encontram pensando em lógicas repentinas, só porque nos apetece e só porque dá jeito para provar que os outros são burros e nós é que falamos bem. O respeito pelos falantes é essencial quando nos propomos dizer alguma coisa sobre o assunto.

Sim, os falantes enganam-se. Sim, os falantes usam vários registos e formas que não são adequadas a todas as situações. (E, sim, os falantes por vezes não sabem escrever, mas isso é outra questão.) Mas, apesar dos erros, é na boca dos falantes que encontramos as regras da língua. Não é nas nossas invenções apressadas.

Tudo para dizer que inventar regras à pressão para justificar os nossos preconceitos é precisamente o que não devemos fazer nisto da língua. Tal como também não devemos chegar a conclusões definitivas sobre o estado da língua com base numa qualquer conversa — o tempo verbal até podia estar errado sem que daí pudéssemos dizer fosse o que fosse sobre o estado da língua em comparação com outras épocas. Ou será que houve alguma década dessas que já lá vão em que ninguém se enganava num tempo verbal enquanto conversava com um amigo?

Mas — admito: o português já não é como era. Usamos muito menos o pretérito mais-que-perfeito do que antigamente. Mas quando o usamos, por amor da santa, deixem-no lá sossegado.

A língua dos tetravós (por Fernando Venâncio)

Segure-se bem. Vamos falar de coisas que mexem cá fundo com um indivíduo. Sobretudo se for português… Bom, está firme? Aqui vai então.

Ao longo dos cem anos do século XVI, o português absorveu 246 (duzentos e quarenta e seis) adjectivos de fabrico castelhano. Esses, os que identifiquei até hoje. Terão sido mais.

Repare-se: falamos só de adjectivos, deixando de fora os verbos e os substantivos também adquiridos do castelhano, e que não foram poucos. Deixaram-se de fora, igualmente, os abundantes adjectivos que o castelhano havia tomado do latim, e que nesse século XVI fizemos nossos também, depois de os havermos lido e relido em textos castelhanos.

Lido… ou ouvido. No século de Quinhentos, eram numerosas as peças de teatro espanholas que percorriam as nossas cidades, numerosos os pregadores espanhóis que ecoavam nas nossas igrejas, numerosos os cânticos e cantigas em espanhol que enchiam capelas e ruas.

Foi isso: sem a maioria dos falantes se aperceber, o português ia-se modernizando em castelhano. Pode parecer-nos hoje incrível, mas cerca de 95% do vocabulário ‘culto’ documentado em português nos séculos XVI e XVII foi por nós absorvido do idioma vizinho.

Agiram eles bem, os nossos tetravós? Sim e não. A língua de Castela gozava, ao tempo, de enorme difusão na Europa, e toda a convergência com ela fornecia ao português virtualidades inegáveis. Para mais, o castelhano era, nessa época, um idioma particularmente desenvolvido, maleável, coerente. Numa palavra, ‘moderno’. Mas o preço pago foi alto. Tanta riqueza ali ao virar da esquina dispensou o português de investir a fundo em si próprio, explorando ao máximo o léxico autóctone para as novas necessidades da expressão.

Dentre esses 246 adjectivos castelhanos que, só nesse século de Quinhentos, o Português fez seus, destaquemos alguns, por ordem de entrada: maciço, comedido, malogrado, moreno, varonil, desditoso, bonito, mulato, airoso, desgrenhado, pontiagudo, boçal, lastimoso, matreiro, bisonho, nublado, incansável, pressuroso, bravio, atilado, teimoso, apaziguado, comilão, madrugador, caudaloso, trapaceiro, desabrido, pujante, cabisbaixo, boquiaberto, sangrento, descarado.  

Os casos de pontiagudo, cabisbaixo e boquiaberto são particularmente curiosos. São três formações únicas, três achados irrepetíveis, que, uma vez cunhados, só já podem ser copiados.

E assim foi, efectivamente. Em 1504, certa obra castelhana sobre agricultura, fala dum archote “bien pontiagudo”. Em português, o termo vai aparecer numa crónica de 1535, onde são referidas “pedras ponteagudas”, será dicionarizado como pontiagudo, em 1562, por Jerónimo Cardoso, e voltará a ser testemunhado no ano de 1600, num livro do jesuíta João de Lucena. Dos autores portugueses, sabemos que tiveram trato assíduo com o castelhano.

Eis, de facto, as três principais circunstâncias que denunciam um castelhanismo: 1. a palavra já circula largamente em Castela, 2. a forma deriva doutras formações castelhanas, ou é complexa, e 3. surge entre nós em ambiente castelhanizante.

Passemos ao caso de cabisbaixo. A primeira ocorrência de cabizbajo conhece-se de 1513, numa carta do religioso Antonio de Guevara. Demorará a entrar no português, onde cabisbaixo é documentado em 1589, numa obra de Amador Arrais. Quanto a boquiabierto, ele surge na Segunda Celestina, de 1522, e a espera foi semelhante: boquiaberto aparace em 1594.

Outros três adjectivos merecem comentário. São eles bonito, varonil e bisonho.

Podemos perguntar-nos: como se exprimia até 1500 um português que achasse certa coisa, ou alguém,  ‘agradável à vista’? Pois escolhia entre formoso (ou fermoso) e belo. Mas agora o castelhano inventara bonito, e ele acabou por tornar-se, também entre nós, o mais corrente. A história de varonil vai mais atrás. O galego e o português medievais tinham a forma baroíl, provavelmente uma adaptação patrimonial do castelhano varonil ou baronil. Esse baroíl vai conservar-se até pelo menos 1600, mas Gil Vicente, numa peça de 1521, tinha-o reconduzido a baronil, que depois se fixou em varonil. Já bisoño, documentado desde 1517, foi importado de Itália por militares espanhóis. Designava um soldado inexperiente, que repetia às chefias Io bisogno (“Eu necessito”) isto ou aquilo. Em espanhol, e depois em português, significava indivíduo ‘principiante, caloiro’, mas passou, no nosso idioma, a sinónimo de ‘tímido, assustadiço’.

Uma nota à margem. Com tão volumosas importações, o português acabou por conservar formas que o espanhol, mais tarde, deixou arcaizar, e finalmente abandonou. Entre elas estão: afrontoso, ajaezado, assisado, cediço, caridoso, desgostoso, figadal, galhofeiro, lastimável, sequioso.

Todas estas realidades são-nos praticamente desconhecidas. As nossas Histórias da Língua evitam estes temas incómodos. A imagem dum Português tão dependente da língua de Castela desagrada-nos, revolta-nos, obriga-nos a esquecer essa página do nosso percurso. Preferimos um idioma à imagem que fazemos de nós mesmos: altivo, independente, dominador. E esse idioma existe, realmente. O problema é que, ao recalcarmos aquele tão relevante lado da nossa história linguística, privamo-nos de descobrir o seu contrário: o que o Português tem de próprio, de exclusivo, de irredutivelmente seu.

Mértola, 25 de Junho de 2017

Fernando Venâncio (Mértola, 1944). Licenciou-se em Linguística Geral na Universidade de Amesterdão, onde também se doutorou. Foi docente de Língua e Cultura Portuguesa em várias universidades holandesas. É investigador sénior em História do Léxico Português. É ainda tradutor e escritor, com longa presença na imprensa escrita portuguesa.

«Slash solou» é erro de português? E «míster», no futebol?

Confesso já aqui: não estou habituado a ler o verbo «solar» com o significado de «fazer um solo». Mas a verdade é que, lendo este título do Público, percebo o que tal palavra significa: «Axl cantou, Slash solou, os Guns N’Roses voltaram a sério».

Pois, claro, um leitor mais alarmado com as malucas das palavras que saltam categorias foi-se queixar para o Facebook (onde haveria de ser?): não, não! A palavra não existe! Só podemos dizer «executar um solo»! Porquê? Porque é uma palavra brasileira, porque não se usa no Conservatório de Lisboa, porque isto e porque aquilo.

Ora, não sei se é palavra brasileira. Como informaram alguns comentadores em resposta à tal queixa publicada no Observatório da Asneira, a palavra já se usa há muito tempo na imprensa musical — e, enfim, segue as regras do português no que toca à sua formação.

Teresa Coutinho, com infinita paciência, chegou a colar uma fotografia do Dicionário Morais com a palavra lá escarrapachada. Sim, é usada (também) no Brasil — o que não é de espantar. Talvez tenha sido inventada no Brasil e em Portugal de forma independente. Afinal, na nossa língua, se temos um substantivo e queremos transformá-lo em verbo, o que fazemos é integrá-lo na primeira conjugação. «Solo» > «solar». «Telefone» > «telefonar», etc.

Se, por outro lado, os portugueses se lembraram desta palavra por a ouvirem da boca dum brasileiro há umas quantas décadas — enfim, não vem mal ao mundo. Tanto quanto sei, até pode ter sido ao contrário. (Diga-se que isto não permite tudo: há muitos verbos que seriam possíveis, mas que não se usam. Ninguém diz «microfonar» para «falar ao microfone». Porquê? Mistérios insondáveis da língua — ou melhor, resultado inevitável da imprevisibilidade dos sistemas complexos.)

Portanto, muitos usam «solar» como verbo em contexto musical. Depois, temos o jornalista do Público que o faz num artigo que parece isento de erros graves. Logo, devíamos dar o benefício da dúvida: se eu não conheço a palavra, se calhar é porque eu não conheço a palavra — afinal, quando nascemos, não conhecemos nenhuma palavra. Como se diz por aí, estamos sempre a aprender. Só não aprende quem acha que uma palavra desconhecida é sempre erro…

Mas nada disto convenceu o queixoso. Afinal, se já temos «executar um solo», não podemos aceitar esse verbo estranho: «solar». Até porque, como acrescentou outro alarmista, o verbo solar já quer dizer «pôr solas em sapatos». Logo, o jornalista devia ter evitado a palavra para não criar confusões.

Exacto, há mesmo pessoas que, perante a notícia acima, ficam com medo que alguém acredite que Slash foi arranjar sapatos para cima do palco.

Já sei: há maluqueiras para todos os gostos no Facebook. Nem vale a pena perder tempo com estas ideias tontas. Mas este episódio em particular ajuda a perceber dois princípios fundamentais do discurso simplista sobre a língua:

  • Princípio n.º 1: «Vivo rodeado de estúpidos. Eu não sou estúpido. Se alguém diz uma palavra que eu não conheço, tendo em conta que eu não sou estúpido, mas os outros tendem a sê-lo, a palavra só pode estar errada.»
  • Princípio n.º 2: «Ouvi a palavra Y que quer dizer X. Ora, eu já conhecia outra palavra com o mesmo significado. Logo, a palavra Y só pode estar errada. Além disso, se a palavra Y tem um significado, nunca pode ter outro. A cada palavra, um só significado, se faz favor, que eu não tenho tempo para estas confusões.»

Estes dois princípios norteiam muitas das acusações desabridas e simplistas sobre o português dos outros. Mas, para dizer a verdade, o debate sobre o Slash que solou até foi muito cortês. Todos nós nos enganamos e todos nós podemos tentar corrigir os erros dos outros com respeito e sensatez.

O problema é que os dois princípios acima são salpicados, o mais das vezes, pelo chamado «descontrolo verbal». Se vejo um erro de português — falso ou verdadeiro —, posso dizer o que me apetecer porque estou defender a Santa Madre Língua. Só assim se explica que, numa outra posta de Facebook sobre o uso da palavra «míster» para designar informalmente um treinador, alguém tenha dito que aqueles que tal dizem «são uns cretinos ignorantes!!!». Ah, o peso daqueles três pontos de exclamação. O cretino ignorante até fica calado, não vá dar-se o caso de o justiceiro lhe atirar com um quarto — quiçá um quinto! — ponto de exclamação.

Repare o leitor, já agora: quem usa «míster» são jogadores e miúdos que praticam desporto. É um hábito linguístico com várias décadas. Talvez tenha vindo do inglês, talvez não. É uma palavra do registo informal, uma gíria desportiva — tão inócua que nem vale a pena pensarmos muito no caso. Ah, mas não, um miúdo a dar chutos na bola para ver se o mister fica contente é um «cretino ignorante».

Na verdade, este descontrolo verbal tão típico de muitas conversas de Facebook transmite uma imagem de pensamento descuidado e prejudica o falante — é um gravíssimo erro de português, este sim muito verdadeiro.

Convite: uma festa galega no centro de Lisboa

Jardim do Torel (Foto: CM Lisboa)

Volto à Galiza, mas sem sair de Lisboa. Esta sexta-feira, pelas 19h30, irei participar na Festa das Letras Galegas com uma apresentação do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. A festa não fica por aí: há um recital, um concerto e uma foliada.

O programa oficial é este:

+ Apresentação do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

+ Foliada com o grupo de gaitas de foles ANAQUINHOS DA TERRA.

+ Recital poético-performance com as galegas DUAS GAMBERRAS E UM MICRO.

+ Concerto do cantautor punk galego O LEO DE MATAMÁ.

Haverá queimada e tapas (petiscos) no Álvaro Cunqueiro (bar do Centro Galego).

Deixo o convite, não só por causa da festa, mas também pelo edifício do Centro Galego — que vale a pena conhecer — e do Jardim do Torel, mesmo ali ao lado.



Por curiosidade, deixo-vos a descrição do livro em galego tal como publicada pelo Centro Galego na sua página (a ortografia é a oficial, ou seja, a que mais se distancia do português):

Presentación do Libro de Marco Neves «A incrível história secreta da língua portuguesa». Acompañe unha celta e un romano aos bicos, un amigo de Afonso Henriques procurando mouras encantadas, Gil Vicente a perseguir un home perigoso polas rúas de Lisboa, unha coleccionista de libros fuxindo nun carro para Amsterdam, Camões ao puñazo por causa dunha dama da corte e moitas outras aventuras de que é feita esta historia da lingua portuguesa, chea de deliciosas sorpresas e un toque de humor…

«Fazer a barba» é erro de português?

Anda uma pessoa descansada por aí quando sente o telemóvel a avisar: tem um novo comentário no blogue.

Antes de mais, gostava de agradecer aos meus leitores: recebo por aqui excelentes comentários, que às vezes valem mais do que o próprio artigo. Basta pensar nos comentários à aventura das línguas da Eurovisão

Os comentários críticos são também, quase sempre, muito agradáveis e simpáticos. E foi sem acrimónia que um leitor, há pouco, tentou convencer-me de que «fazer a barba» é mesmo erro de português, apesar do que por aqui escrevi já vai para dois anos.

Ainda dialoguei um pouco com o leitor e, por fim, aceitámos que as nossas visões da língua são irremediavelmente diferentes.

Para o tal leitor, um verbo só pode ter o significado mais óbvio ou aquele que parece mais lógico. Se ao cortarmos a barba não estamos a construir nada, então não podemos usar tal expressão.

Para mim, pelo contrário, os significados das palavras são um pouco mais malandros e dão umas piruetas engraçadas. Não há nada que possamos fazer quanto a isso — e ainda bem.

A minha questão, agora, é esta: qual é o percurso mental que leva algumas pessoas a considerar erro algumas expressões e não outras, onde também podíamos martelar uma qualquer falha lógica?

Julgo que será algo assim:

  1. Imbuído da ideia falsa de que uma palavra só pode ter um significado ou de que os sentidos menos literais de cada expressão estão sempre errados, um falante desprevenido descobre um erro na língua portuguesa. Por exemplo, «fazer a barba». Ah, pois! Nós não fazemos a barba! É erro! É erro! Ah, malandros dos portugueses, que andam há tanto tempo a usar uma expressão tão errada…
  2. O falante fica feliz: apanhou todos os outros em falso. Sabe um pouco mais do que o vizinho. Como um dos problemas cognitivos a que todos estamos sujeitos é a crença de que somos mais espertos do que a maioria das outras pessoas, é fácil acreditar que, se todos dizem «fazer a barba», é porque todos estão errados (eu é que não). (Diga-se que este não parece ser o caso do leitor com quem andei a dialogar, pois ele confessou-me também usar a tal expressão.)
  3. Se sairmos em defesa da dita expressão e dissermos algo como «as expressões da língua não estão erradas só porque nos apetece» —  ou «devemos ter em conta a realidade da língua que sai da boca dos falantes» —  ou «as palavras têm significados claros e legítimos que, no entanto, nem os dicionários conseguem apanhar» — ou «a língua portuguesa deve ser estudada com respeito antes de nos pormos a corrigi-la à tonta» — a pessoa que andava por aí convencida de ter apanhado o resto do mundo em falta fica um pouco desiludida. Se aceitar os argumentos, esfuma-se naquele instante o poderoso perfume a superioridade. Ou então, o que é mais provável, não cede e defende a todo o custo a sua ideia muito particular de erro. Um pouco como aquele condutor que está em contramão convencido que os outros carros é que vão todos mal…

Usar a expressão «fazer a barba» não atrapalha nenhum falante e, na verdade, só irrita quem foi infectado pelo vírus das interpretações literais ou das piadas de barbearia.

Página 1 de 24

Powered by WordPress & Autor do grafismo: Anders Norén

Ao continuar a usar este website, autoriza a utilização de "cookies". mais informação

As definições de "cookies" neste website permitem a utilização de "cookies" para oferecer ao leitor a melhor experiência possível. Se continuar a usar este website sem alterar as definições de "cookies" ou se clicar em "Aceitar" está a autorizar o uso de "cookies".

Fechar