Certas Palavras

Blogue de Marco Neves

Categoria: Língua Portuguesa (Página 1 de 24)

«Já agora» é erro de português?

Não, não é. É uma expressão portuguesa daquelas boas e saborosas (digo eu). E mesmo que não fosse saborosa, continuava a ser uma expressão portuguesa que não merece ser riscada dos nossos textos só porque há quem não compreenda o seu sentido.

Vem este desabafo a propósito de ter encontrado numa página qualquer (recuso-me a fazer ligação) mais uma daquelas cansativas listas de erros comuns, esta com uns 30 ou mais «erros». Alguns eram erros ortográficos (nada a dizer, embora para evitar os ditos o corrector ortográfico seja mais útil do que listas avulsas); outros, eram variações de pronúncia que se afastam da norma (é sempre bom saber); mas muitos deles eram, pura e simplesmente, expressões que só são erro na cabeça de quem quer mesmo muito encontrar erros onde eles não existem.

Lá pelo meio, vinha o nosso «já agora». A justificação para declarar a expressão um terrível pecado linguístico? «Já» e «agora» querem dizer a mesma coisa — e, logo, a expressão é redundante.

Pois bem: «já» e «agora» querem, de facto, dizer a mesma coisa. Quer isto dizer que «já agora» é uma redundância? Não, mas antes de avançar, convém recordar este facto da língua: a redundância faz parte da gramática! Todas as línguas têm redundâncias espalhadas pelo corpo. Basta pensar que, na expressão «todas as línguas», temos o feminino marcado três (!) vezes. A lógica estrita do «abaixo a redundância», aplicada sem freio, levar-nos-ia a estropiar o português. Uma língua sem redundâncias seria não só muito pouco humana (nós somos seres muito redundantes, temos muita coisa em duplicado), como útil apenas para falantes com audição perfeita, sossego absoluto e tempo de sobra para andar a repetir frases (ou melhor, nem isso seria possível pois uma frase repetida seria… redundante).

Bem, dito isto, convém apontar para algo que me parece claro: a expressão «já agora» não é redundante. Não sei como o compilador da tal lista não reparou, mas a expressão não quer dizer nem «já» nem «agora». Quer dizer algo como «ora bem, como estamos aqui os dois, podemos aproveitar para…». As subtilezas serão outras dependendo dos falantes e do contexto; agora, o que ninguém faz é usar «já agora» como sinónimo de «já» e «agora». Seria algo como «Vamos lá agora ou amanhã?» Resposta: «Já agora!» Não é assim que usamos a expressão…

«Já agora» é uma expressão fixa, criada da maneira como todas as expressões deste tipo são criadas (um pouco ao calhar da sorte), uma daquelas expressões que abundam em todas as línguas, incluindo a nossa bela língua portuguesa, e que só ganham o sentido que lhes damos quando as palavras aparecem assim, em conjunto — sentido esse que é diferente da soma das partes. Por outras palavras, «já agora» é uma expressão idiomática e não há expressão idiomática que sobreviva às análises literalistas que estão na base de tantas destas listas de erros. O que estas listas fazem, muitas vezes, é tentar corrigir a língua, transformando-a noutra coisa qualquer, talvez mais simples, mas certamente mais pobre.

Enfim, quando o leitor sentir a tentação de fazer uma lista de erros, fica a ideia: tenha o cuidado de não incluir expressões idiomáticas. Sim, eu sei que a lista fica muito mais difícil de compor, mas é a vida…

O galego e o português são a mesma língua?

Esta é uma pergunta muito curiosa, porque raramente se faz em Portugal. Podemos viver, neste país, uma vida inteira descansados e felizes (tanto quanto o pequeno rectângulo nos permite) sem que nos entre pelos ouvidos um eco que seja desta batalha linguística.

E, no entanto, ali acima do Minho, há uma discussão acérrima sobre a nossa própria língua!

Então, mas o que se passa? Para um português, a questão da divisão das línguas é bastante clara: nós falamos português. Os espanhóis falam espanhol. Os franceses falam francês. Podemos acenar com a miríade de confusões que desmancham a limpeza do nosso mapa linguístico. Não importa: a questão é fácil, pelo menos no que toca à nossa língua: português é português. Qual é a dúvida?

Então e o galego? Dirão muitos: «Chama-se galego, não se chama? Então não é português. Ainda por cima soa a espanhol…»

O problema é que, no caso de línguas muito próximas, os nomes que lhes damos não são um bom critério para avaliar a diversidade ou a unidade das ditas. Vejamos dois casos…

Rumamos a Valência

Comecemos pela situação linguística na Comunidade Valenciana.

Em Valência, para lá do espanhol, há outra língua oficial, denominada no Estatuto de Autonomia como «valenciano».

Ora, a grande discussão lá por terras de Valência é esta: será o valenciano um outro nome para o catalão? Ou será uma língua própria? Note-se que os valencianos — aqueles que falam a língua — não mudam de maneira de falar de acordo com aquilo que pensam sobre a questão. Por outro lado, a compreensão mútua entre valencianos e catalães está assegurada.

Então, que consequências tem esta discussão? Tem algumas. Por exemplo, os defensores duma língua valenciana separada não aceitam que se apresentem aos alunos livros da literatura catalã nas aulas de valenciano; afinal, é uma língua separada. Já os valencianos que defendem o valenciano como outro nome para o catalão acham muito bem que se estudem obras catalãs nas salas de aula de Valência. Depois, temos a norma: os que defendem a separação entre as línguas defendem uma ortografia e um léxico que se afastam propositadamente da ortografia oficial catalã e do léxico usado na Catalunha.

Já os catalães, diga-se, consideram o valenciano como outra forma da sua própria língua e, nas escolas, as obras valencianas são dadas nas aulas de literatura catalã. Basta pensar em Tirant lo Blanc, uma das obras mais famosas da literatura nesta língua, escrita pelo valenciano Joanot Martorell.

Quem estiver interessado em saber mais sobre as tensões que se escondem por trás do nome que se dá a uma língua, comece por ler o livro Quem fala a minha língua? (Através, 2013), uma colecção de ensaios de vários autores sobre este assunto.

Não é difícil criar uma língua

Olhando para a nossa língua, antes de nos abalançarmos para a discussão que está no título deste pequeno texto, rumemos ao Brasil.

Teria sido possível, no momento da independência, criar uma língua nova. Bastava integrar na norma algumas formas populares do português brasileiro (falo do vocabulário e estruturas gramaticais), estabelecer uma nova ortografia e criar o nome de «língua brasileira». Pronto: estava feito. 

Note-se: num mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado uma língua brasileira, ninguém teria mudado a maneira de falar no momento da decisão. Os brasileiros continuariam a mesma língua, mas dar-lhe-iam outro nome. Claro que aquilo que falavam seria facilmente distinguível do português de Portugal, mas isso também acontece na nossa versão do mundo, em que o nome da língua é o mesmo. Independentemente do nome da língua, portugueses e brasileiros foram falando, escrevendo e desenvolvendo a língua à distância de um oceano e com influências diversas.

Este afastamento não é suficiente para que deixemos de nos compreender — e também não seria no mundo alternativo em que o Brasil tivesse criado a tal língua brasileira. O nome que se dá à língua e a criação de uma norma autónoma não cortam, de imediato, a possibilidade de comunicar. Nem de imediato, nem durante muito tempo… Mas criam, claro está, uma barreira mental e política que alimenta o distanciamento linguístico.

Em relação ao Brasil, temos a distância e a indiferença, mas a língua é ainda vista como comum por grande parte de portugueses e brasileiros (quando pensam nisso) e as duas normas ainda estão muito próximas. Assim, há leitura de alguns livros brasileiros nas escolas portuguesas, ouvimos os brasileiros na televisão sem precisar de legendas, não traduzimos livros de literatura brasileira (embora, em certo tipo de livros, se note algum tipo de adaptação) e conversamos bem uns com os outros, para lá das picardias típicas de povos próximos e de algum medo do Brasil que uns quantos portugueses apresentam como sintoma de alguma insegurança (digo eu). A língua continua a divergir, mas continuamos a aproveitar as proximidades — o que se faz de forma muito mais saudável quando não há imposições de unidades artificiais.

Portanto: o nome da língua pode sublinhar diferenças ou manter uma unidade decidida para lá do uso real da língua. Com diferenças comparáveis às diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil (provavelmente, as diferenças até serão menores), alguns valencianos pretendem criar uma língua separada. Mas claro que a questão não é estritamente política: é política e é também emocional…

E enquanto discutimos os nomes e as divisões, as línguas, na boca dos falantes, vão mudando ao seu ritmo próprio.

Como muda uma língua?

As línguas avançam pelo tempo de forma espantosa: conversamos com os nossos filhos e eles criam a complexa maquinaria mental necessária para produzir, continua e maravilhosamente, a mesma língua dos pais, com todo o intrincado e caótico sistema de hábitos e regras mais ou menos lógicas a que chamamos «português».

Na escola, tomamos consciência de algumas dessas regras, aprendemos a ler e a escrever — o que é outra maquinaria um pouco mais artificial, mas também mais difícil de aprender — e aprendemos a organizar o discurso, a seguir algumas regras de etiqueta linguísticas e, quando a coisa corre bem, a debater uns com os outros com civismo e proveito — tudo importantíssimo, mas bem menos espantoso que a aprendizagem inicial da língua toda. Pelo caminho, também aprendemos a aproximar a nossa máquina linguística daquilo que é mais normal na sociedade em que vivemos — aproximamo-nos da norma, pois então.

A máquina que temos na cabeça nunca é igual à dos nossos pais: afinal, nós ouvimos a língua dos pais, dos amigos, dos familiares, dos professores, das pessoas na televisão, das pessoas na rua… É desse magma linguístico que extraímos a informação para criar a nossa máquina linguística. E funciona! A maneira como o cérebro humano consegue este feito ainda não está compreendida por completo, mas lá que é espantosa, sem dúvida que é.

A interacção entre o que aprendemos dos pais e aquilo que ouvimos na escola, os textos a que somos expostos, a nossa própria vida… — tudo isto leva a que a língua esteja sempre a mudar. Vemos isto na pronúncia, no vocabulário, nas conotações e nas definições das palavras. Há um livro sobre os mecanismos que estão por trás da mudança linguística que recomenda aos interessados: Words on the Move, de John McWhorter. Embora o livro seja sobre o inglês, aquilo que aprendemos vale para todas as línguas: todas mudam, excepto as línguas mortas. 

A língua muda, pois então — mas muda devagar. As crianças aprendem a recriar a máquina linguística dos pais de maneira bastante mais correcta do que imaginamos — o que se passa é que é muito mais fácil notar as pequenas diferenças, que irritam muita gente, do que sublinhar a incrível continuidade da língua ao longo dos séculos.

O galego e o português

E chegamos ao galego — isto porque o galego é uma prova de que a língua muda, mas muito devagar. Quando Portugal se tornou independente, já se falava em toda a Galiza de então algo que reconheceríamos como a nossa língua. No momento da independência, criou-se uma barreira política entre Portugal e aquilo que restou da Galiza. É claro que esta barreira era muito mais porosa do que pensamos hoje em dia — afinal, não houve guardas civis a vigiar a fronteira durante séculos e séculos —, mas ninguém desmente que os portugueses começaram a viver como comunidade separada dos territórios vizinhos.

Pois bem: apesar desta barreira com mais de 800 anos, aconteceu uma coisa espantosa. Se, no século XIX, ouvíssemos os galegos a falar, aquilo que sairia da boca deles ainda era algo muito parecido com o português sem que ninguém tivesse criado escolas, dicionários ou gramáticas para manter a proximidade da língua dum lado e doutro da fronteira. A língua que os contemporâneos de Afonso Henriques falava mudou, mas mudou tão lentamente que, muitos séculos depois, as populações dum lado e doutro daquela que é uma das fronteiras mais antigas da Europa ainda conversavam sem esforço.

Peço que o leitor repare naquilo que acabei de dizer: uma das fronteiras mais antigas da Europa divide populações que, após 800 anos de separação, ainda conseguem conversar sem grande esforço.

Quem não conhece, na prática, esta proximidade, tem uma boa forma de começar a explorá-la: olhe para os verbos galegos e portugueses, como fez Fernando Venâncio no artigo «Um bom ‘mergulho’ no idioma: Verbos exclusivos de galego e português».

Ora, foi também no século XIX que surgiram os movimentos de reivindicação literária das línguas de Espanha, faladas na rua, mas esquecidas na escrita, num movimento que tem paralelo nos muitos movimentos de cariz nacionalista desse século. (Para evitar confusões, convém dizer que o nacionalismo oitocentista não é uma mania dos bascos, catalães e galegos — inclui também os nacionalismos com Estado, como o espanhol, o italiano, o alemão, o português… Foi nesse século que muitos dos mitos nacionais foram criados e foi só então que a Nação, assim com letra grande, começou a suplantar o soberano como sustentação do Estado.)

Na Galiza, o movimento teve como nome Rexurdimento e teve como figura maior Rosalía de Castro. A história é longa e não cabe aqui, mas note-se: os galegos, no século XIX — e estamos a falar de praticamente todos os galegos — sabiam falar galego e este galego era mesmo muito parecido com o português falado do outro lado da fronteira, embora houvesse pouco reconhecimento mútuo dessa proximidade.

Os galegos sabiam falar galego, mas não sabiam escrever a língua. Aqueles que sabiam escrever, escreviam em castelhano. Quando começaram a surgir as obras em galego — a língua dos avós, que há séculos não era escrita a norte da fronteira —, os galegos usaram uma ortografia com forte influência castelhana.

Pois, ao longo do século XX, aconteceram algumas coisas curiosas: o galego continuou a ser falado, mas o castelhano foi ganhando força (os motivos são muitos: basta pensar na escolaridade da população, na televisão em espanhol…). Já em Portugal, a língua começou a uniformizar-se. Criámos uma ortografia nacional em 1911 (sim, só então tivemos uma ortografia estável), as escolas e os meios de comunicação social espalharam o português-padrão por todo o país e a língua começou a mudar de forma rápida entre as gerações tomando como norma um português baseado no que se fala em Lisboa, bastante longe da fronteira com a Galiza. Ainda hoje conseguimos ver como a língua é diferente entre os avós e netos minhotos: os avós estão mais próximos dum português com uma sonoridade que os galegos reconhecem como próxima da sua, enquanto os netos têm a língua a deslizar em direcção a um lisboeta com sabor nortenho.

Na Galiza, depois do final do franquismo, o galego tornou-se oficial. Foi então que surgiu a opção: ou bem que o galego oficial usava a ortografia com características espanholas («ñ», «ll», «z») ou assumia a proximidade com a língua a sul do Minho e escolhia uma ortografia com «nh», «lh», «ç», etc.

Esta última ortografia chama-se «reintegracionista», pois tenta reintegrar o galego no espaço dos povos de língua galega ou portuguesa. Esta ortografia próxima é quase indistinguível do português escrito, não fosse e uma ou outra opção que reflecte as diferenças fonéticas entre galego e português (por exemplo, «associaçom» em vez de «associação»).

Note-se que os textos reintegracionistas, para lá da ortografia, também costumam escolher um vocabulário mais próximo do português. (Já agora, fica aqui anotado que muitas palavras perfeitamente correntes e formais em galego são palavras portuguesas, mas do registo popular. É assim que temos um Sindicato Labrego Galego—Comissões Labregas que nunca falha: deixa sempre os portugueses a rir.)

Nesta luta entre ortografias (que decorreu durante os anos 80), ganharam os defensores da ortografia com «ñ» e o galego ensinado na escola é o galego com uma ortografia bastante diferente da ortografia portuguesa. Temos «A Coruña» em vez de «A Corunha», «camiño» em vez de «caminho», etc. No entanto, o reintegracionismo manteve-se como alternativa usada por muitos galegos. Para quem não conhece, pode encontrar textos em galego reintegracionista no Portal Galego da Língua.

Esta descrição não transmite, claro está, nem a complexidade da questão (cada uma das opções inclui várias tendências) nem a força das emoções que esta guerra levanta na Galiza. Não será inútil recordar que a discussão faz-se num contexto em que a língua se vê a perder falantes a cada dia que passa.

Simplificando bastante, podemos encontrar duas atitudes perante a língua, alinhadas com a divisão que descrevi acima:

  • Muitos galegos defendem o galego enquanto língua autónoma, não querendo confundi-la com o português. A separação política é velha de muitos séculos e a língua seguiu caminhos diferentes dos dois lados. Mesmo assim, alguns destes galegos não deixam de ter perfeita noção da proximidade entre o português e o galego e aproveitam essa proximidade para ler em português e conversar com portugueses.
  • Os reintegracionistas defendem que uma ligação mais estreita ao português tem fundamentos históricos e permite combater o verdadeiro perigo para o galego: a sua substituição pelo espanhol, que não só lhe tira espaço de uso social como vai também desfigurando a língua, na pronúncia e no vocabulário, até torná-la numa mistura de galego e espanhol.

Tudo isto é ignorado cá por Portugal, tirando um ou outro caso. Como disse noutro artigo, nós olhamos para os galegos como os brasileiros olham para nós: sabemos que existem, têm alguma importância na nossa história, mas podem ser ignorados sem perigo.

Mas são a mesma língua ou não?

Antes de tentar responder, podemos olhar para aquilo que é factual. Primeiro: esta pergunta só se faz naqueles casos em que as línguas estão tão próximas que podem funcionar como língua única (se houver vontade).

Segundo: existem galegos, hoje em dia, que olham para o português e o galego e optam por vê-los como a mesma língua. Vêem televisão portuguesa, lêem livros portugueses, etc. Aqui fica uma sugestão de um livro que mostra esta perspectiva: O galego é uma oportunidade, de José Ramom Pichel e Valentim Fagim, um livro que tenta mostrar aos galegos como a sua língua lhes abre os horizontes para um espaço de 200 milhões de falantes. 

Terceiro: se consideramos o português e o galego como línguas separadas, serão certamente das línguas mais próximas que encontraremos em todo o mundo.

Ainda uma curiosidade: há milhares de galegos que se inscrevem para aprender português nas escolas de idiomas da Galiza. Porquê? Tentei responder neste artigo. Note-se que este interesse pela língua portuguesa vai muito para lá das divisões entre as duas normas da língua galega.

E nós, em Portugal? Podíamos considerar o galego como outra variedade da nossa língua, com outro sotaque, algum vocabulário diferente e outro nome? Podíamos, mas não vai acontecer: não há nem conhecimento suficiente entre os portugueses nem interesse da nossa parte. Para nós, os galegos são espanhóis e isso, para a nossa consciência histórica, é algo que nos impede de imaginar qualquer tipo de comunidade, mesmo que meramente linguística. 

Da minha parte, não tenho qualquer interesse em alimentar uma relação de cariz político entre Portugal e a Galiza — e também não quero andar a dar conselhos sobre a ortografia e o vocabulário que os galegos devem usar. Andar a propalar a unidade do galego e do português em Portugal quando, a esse propósito, nem os galegos se entendem parece-me não só inútil como contraproducente.

Mas o belo da questão, do lado português, é que não temos de nos meter na discussão galega nem proclamar a tal unidade: cada um de nós pode aproveitar-se impunemente da proximidade entre o galego e o português. Sem grande dificuldade, podemos aceder a outra literatura e conversar, sem mudar a maneira de falar, com milhões de vizinhos — ficamos mais próximos de boa gente, boa literatura, boa conversa e boas oportunidades.

Pessoalmente, ando a aproveitar esta proximidade. Tenho lido em galego, tenho conversado muito com galegos, tenho até viajado pela Galiza. Todo este texto serve como convite para que mais portugueses aproveitem esta ponte linguística.

O primeiro artigo deste blogue foi sobre Manuel Rivas, um escritor galego, e foi esse escritor que escreveu as primeiras palavras que li em galego, num livro chamado Ela, maldita alma, que um dia comprei num supermercado de Vigo só porque sim:

«Aquela primavera chegara axiña e en demasía. 

Á hora do café, pola fiestra que daba á horta, Chemín mirou a festa de páxaros na vella maceira florida.»

Note-se que esta é a ortografia do galego mais distante da nossa. As opções vocabulares soam-nos estranhas — mas deliciosas. Não precisei de aulas para ler o livro, apesar das saborosas diferenças, tal como não precisei de aulas para ler o livro Outra idea de Galicia, de Miguel-Anxo Murado. Foi a minha leitura de há umas semanas e recomendo-a vivamente. É um livro interessantíssimo para quem gosta de boa escrita, queira ou não saber mais sobre a Galiza.

Para terminar, uma confissão: não consigo aprender galego. Ou seja, por mais que leia galego e converse com galegos, as palavras que me saem são sempre as minhas… E chegam! Talvez esta confissão seja a minha resposta — pessoalíssima — à pergunta do título.

Delícias da língua: «a pulga atrás da orelha»

O que faz a pobre pulga ali atrás da nossa orelha? Faz comichão, pois então.

Nem sempre percebemos bem o que nos põe ali o bicharoco. Por vezes, é uma entoação falsa, um olhar que não bate certo, qualquer coisa que no enredo dos dias não cose com as outras linhas.

Pense lá o leitor na pequenita pulga: ali, sem saber falar, aflita e aos saltos, a avisar com picadelas o excelentíssimo humano que a transporta que alguma coisa não está bem. E o pobre nem sempre liga e às vezes até coça e manda a pobre pulga às malvas.

Diga-se que, por vezes, a pulga está errada: pica, mas não devia. Outras vezes, é um bom aviso para ficarmos alerta para outros animais mais pesados que se atravessam à nossa frente.

Eu, por mim, tenho um fraquinho pelos animais da nossa língua — e a pulga, tão atenta e espertalhona, é um deles. Não é para todos conseguir um lugar na língua de todos; um lugar-comum, é certo, mas um lugar — e bem simpático.

Apetece-me até imaginar uma história com esta pulga — mas fica para outro dia… Talvez o leitor fique com a dita atrás da orelha, mas não porque desconfia: apenas porque quer saber que história será essa. É uma daquelas boas pulgas que se escondem nas nossas cabeças.

Três truques da língua portuguesa

Já escrevi sobre a maneira como as imagens nos enganam. E as palavras? As palavras, às vezes, enganam muito mais. Aqui ficam três truques para chamar a atenção dos outros usando a nossa língua — para o bem e para o mal.

1. Fazer listas de mão no ar

Vamos começar pelo mais simples: há pequenos truques de escrita e certas inclinações quase invisíveis que nos ajudam a chamar a atenção quando discursamos ou escrevemos.

Por exemplo, fazer uma lista (como este texto) ajuda a chegar aos leitores. Por essa razão, é tão habitual vermos listas nas partilhas do Facebook…

O truque não é recente. Basta pensar num político qualquer, de voz retumbante, que põe os dedos no ar e começa a enumerar todas as razões por que temos de ter mão nisto! Os olhos ficam suspensos nos dedos do orador e os ouvidos querem saber qual é a próxima razão — ou, no caso deste texto, em que temos apenas um cronista a falar da língua, o que queremos saber é qual será o próximo truque…

2. Usar palavras sedutoras

Em certas situações, usar palavras pouco claras ou vagas pode ser a melhor forma de conseguir a simpatia de quem nos ouve, para lá de qualquer razão.

Por exemplo, há discursos que se baseiam no regresso ao natural para vender charlatanices.

Outros assumem como valor a pureza — escondendo intuitos um pouco mais cruéis do que essa pequena palavra faz crer.

Há ainda aqueles que apostam no «isto é assim e mais nada!» — palavras cheias de certeza e, por dentro, cheias de nada ou, quase sempre, de muita preguiça de pensar.

O vocabulário sedutor é variado: temos desde as palavras simples e directas que escondem mais do que mostram (há políticos que dizem «somos fortes!» para esconder fraquezas) até às palavras obscuras que são atiradas à nossa cara como areia, sem que, muitas vezes, nós, que estamos a ouvir, tenhamos a coragem de dizer «não estou a perceber».

Na verdade, muito deste vocabulário manipulador engana até quem o usa — e é tão difícil resistir à sedução de certas palavras, é tão difícil resistir à bebedeira de certos discursos…

Então se as palavras foram assumidas com bom ritmo, com confiança, com um sorriso e um corpo seguro — pouco podemos fazer para lhes resistir. (Mas podemos tentar.)

3. Falar da nossa tribo

O mais potente truque do discurso humano é mesmo o tribalismo.

Quando discursamos ou escrevemos um texto (que, no fundo, é uma forma de discursar), a melhor maneira de prender os corações de quem temos à frente é apelar ao clube, à tribo, à nação…

Pois imaginem um presidente dum clube, numa assembleia geral, a apontar, emocionado, para os valores do clube, para a história daquelas cores — e, claro, a lembrar também as malfeitorias dos outros clubes no domingo passado. E estamos a falar de desporto, de gente unida por um emblema pouco mais que aleatório. Imagine-se a força do mesmo tipo de discurso quando falamos da nação, da religião ou de outro dos muitos grupos em que nos dividimos sem sossego.

O ser humano é tribal por natureza. Ficamos com o coração aos saltos quando alguém apela à nossa tribo e divide claramente quem são os nossos e quem são os outros.

E, reparem, isto não acontece apenas nos discursos mais nacionalistas ou clubistas. Até eu, neste pequeno texto, fui subtilmente tribalista: enfiei no título a língua portuguesa. Ora, estes truques são próprios do discurso humano de todas as línguas, não só da nossa. No entanto, sei que todos nós, quando ouvimos falar da nossa língua e quando vemos o nome da nossa tribo no título — ah, ligamos muito mais. Foi um pequeno truque para chamar a atenção para estes truques…

Como se revela este tribalismo? De muitas maneiras. Desculpamos qualquer erro dos nossos; empolamos até ao enjoo qualquer erro ou frase mais ambígua do outro lado; não dialogamos — entramos em batalha cerrada em que tudo vale, até as distracções de português do outro lado…

E queremos ser os mais puros dos puros, não toleramos desvios, descaímos para os extremos e recusamos qualquer análise ou moderação. Quando entramos na lógica tribal, o que conta é a guerra e a língua é apenas um instrumento nessa guerra — ou forma de detectar traidores, de perceber quem não está aqui para ser o mais puro dos puros.

Diga-se que é mais fácil escrever bem — de forma interessante e entusiasmante — se estivermos imersos nessa lógica tribal. É mais fácil escrever ou falar para os nossos do que dizer «se calhar, temos razão, mas há aqui um pormenor em que podemos, talvez, estar enganados». Imaginem um discurso desse tipo durante uma campanha eleitoral: seria o fim do artista, que é como quem diz do candidato…

A língua portuguesa, nas mãos de quem sabe dividir o mundo sem tempo para dúvidas, é perigosíssima. E, sim, é verdade: este tribalismo aparece em todas as culturas e em todas as línguas. Mas convém perceber que não estamos imunes a este vírus, a estas seduções, a estes perigos que se escondem no rufar de tambores dum discurso empolado.

(Este artigo foi publicado no Sapo 24 a 13 de Agosto de 2017.)

Ensinar Português na República Popular da China (por Cristina Bluemel)

A certa altura, comecei a ver surgir nas estatísticas do blogue algumas visitas de locais tão distantes como a China. Qual seria o interesse desses leitores por este blogue sobre a nossa língua? Vim a saber através dum comentário que algumas dessas visitas chinesas eram duma professora de Português na China: Cristina Bluemel. Atrevi-me a pedir-lhe um pequeno texto sobre como é ensinar Português por aquelas paragens. Aqui está o resultado.


Na República Popular da China as crianças normalmente ficam aos cuidados da mãe ou dos avós até aos três anos de idade. A partir dessa idade terá início o longo ciclo nas escolas, onde passam o dia inteiro. Todas as atividades, programas, funcionamento, normas, regulamentos académicos são estritamente ditados pelo governo e o seu cumprimento é controlado, em cada instituição de ensino, por representantes do Partido único, entre presidentes, diretores, professores, funcionários e também alunos. As avaliações fazem parte de um processo de seleção que se estende até à entrada no ensino superior, fazendo também parte do ensino a formação militar quer nas escolas quer nos quartéis.

No que concerne ao método de ensino, ele é essencialmente baseado na memorização de conteúdos e estruturas: o aluno deve ouvir e depois memorizar, através da leitura e repetição, todos os conteúdos que posteriormente deverão ser reproduzidos na respetiva avaliação; e existem métodos e técnicas para tal, tal como encontrar palavras e expressões-chave nas questões das provas que levam a descobrir qual a resposta certa.

Quanto ao ensino superior, está estruturado em três níveis, havendo instituições de ensino superior públicas e privadas, todas elas pagas: as universidades de primeiro nível, de referência nacional, as universidades de segundo nível, em número bastante mais elevado, e as faculdades vocacionais, ou de ensino profissionalizante; estas faculdades oferecem bacharelatos de três anos, enquanto as licenciaturas são de quatro anos.

Existem limites máximos de idade, para os alunos nacionais, de acesso ao ensino superior, mestrado e mesmo doutoramento, e os professores estrangeiros não são considerados professores, mas monitores (instrutores). Embora as duas denominações sejam traduzidas uniformemente para «teacher» e seja afirmado que significam a mesma coisa, para evitar constrangimentos, na verdade na língua chinesa é estabelecida essa distinção.

Comecei a lecionar Português aqui, numa faculdade de línguas estrangeiras, exatamente há dois anos — e logo à chegada a minha grande surpresa foi encontrar um curso de Português com cerca de 500 alunos distribuídos pelos 3 anos do curso: porque é que tantos jovens chineses escolheriam estudar português? A resposta chegou rapidamente: nesta região estão localizadas grandes empresas e indústrias que mantêm relações comerciais e operam nos países lusófonos de África e também Brasil.

No entanto (ainda não averiguei o porquê), o número de alunos que opta por português tem diminuído progressivamente, ao contrário do número de alunos que escolhe francês, que tem aumentado bastante e faz essa opção por motivos idênticos: o comércio e negócios com países francófonos, especialmente aqueles também localizados em África.

As unidades curriculares de gramática, leitura, escrita e fonética (pronúncia) são lecionadas por professores chineses, em chinês, sendo entregues aos professores estrangeiros as UC de compreensão oral (audição) e conversação (lecionadas separadamente) — e também aulas de vocabulário e diálogos relativos a negócios, comércio, turismo e redação de documentos.

Os métodos utilizados para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras são essencialmente baseados em meios e materiais de repetição e memorização de palavras e estruturas de frases que depois são adaptadas a cada circunstância e, no caso do português, é também transmitida a ideia de que a língua portuguesa é muito semelhante à língua inglesa, razão pela qual o inglês é usado frequentemente como língua terceira («de passagem») entre o chinês e o português. É muito comum, por exemplo, mesmo que fazendo isto apenas mentalmente, primeiro ser efetuada a tradução do chinês para o inglês, e depois do inglês para o português, com todos os inconvenientes que isso acarreta, tal como nos casos em que é usada a palavra “festival” ao invés de “festa”, e em vez de “feriado” a palavra “férias”, entre várias outras situações erróneas.

Geralmente as aulas são compostas por dois períodos de quarenta e cinco minutos cada, separados por um intervalo de dez minutos, e as turmas são constituídas por mais de quarenta alunos, exceto quando não há alunos suficientes para tal. Quanto aos materiais e recursos a serem utilizados em sala, existem vários tipos de restrições, não se podendo recorrer a livros ou filmes estrangeiros, porque teriam de passar previamente pelos órgãos de censura, e sendo apenas permitida a exibição de vídeos com uma duração máxima de cinco minutos, ficando todo o material exibido gravado nos computadores das salas de aula.

Mas, do meu ponto de vista, o maior desafio para que os alunos consigam atingir um bom nível no estudo e recurso ao português é conseguir levá-los a processar a informação e conhecimentos transmitidos, ao invés de apenas registar de memória — e fazê-los perceber que o chinês não é a língua mais difícil do Mundo e que todas as outras são fáceis, bastando por isso recorrer aos tradutores automáticos para fazer uma boa tradução.

«Tirar as impressões digitais» é erro de português?

1. «Fazer piscinas» sabe bem

Há uns dias, estive numa piscina com a minha mulher. Estava mais quieto do que o habitual, a tentar adaptar-me às lentes de contacto (depois do episódio que já contei por aqui).

A Zélia vira-se então para mim e diz: «Costumas gostar de fazer umas piscinas…»

Sorri e pus-me a nadar. Sim, é verdade: é bom fazer piscinas. Fico bem-disposto.

Enquanto nadava, comecei a pensar. A expressão «fazer piscinas» é curiosa. Naquele contexto, é uma forma familiar de dizer «nadar todo o comprimento duma piscina». Noutro contexto, quererá dizer «construir uma piscina». A nossa cabeça dificilmente se atrapalha: pega numa palavra e estica-a para apanhar uma série de significados e de nuances, usando para isso tudo o que encontra à volta.

O verbo «fazer» quer dizer tantas coisas! Desde «cortar» (em «fazer a barba») até ao tal «nadar» (em «fazer piscinas»). É um belo monstro semântico — e uso «monstro» no bom sentido. Isto é mau? Claro que não! Só alguns obcecados por uma língua simplificada e quadrada não gostam da maleabilidade do português — e de todas as outras línguas.

2. É favor não arrancar as pontas dos dedos!

Chegamos então ao verbo «tirar» é às impressões digitais… Já me aconteceu ouvir pessoas muito preocupadas com a expressão «tirar as impressões digitais». Na cabeça dessas pessoas, um funcionário que diga ao incauto cidadão «agora tenho de lhe tirar as impressões digitais» está a incorrer num gravíssimo erro de português. O certo seria sempre «colher (ou recolher) impressões digitais».

Porquê este medo arbitrário do verbo «tirar» com sentido de «recolher»? Não sei bem. Talvez porque a estas pessoas lhes faça impressão o facto de haver verbos que mudam de sentido conforme o contexto. Talvez porque inventem uma ambiguidade fantasma, imaginando um cenário em que tirar «impressões digitais» quisesse dizer «retirar as pontas dos dedos a alguém». Estará o tal funcionário do registo civil, quando diz ao cidadão «vou-lhe tirar as impressões digitais», a informar que o passo seguinte é cortar-lhe a pele das pontas dos dedos? Um filme de terror, não haja dúvida!

3. Tirar fotografias e outros medos

Um terror, na verdade, é esta visão da língua, que lá vai fazendo o seu caminho, estragando a relação dos portugueses com o português.

Enquanto os engenheiros informáticos andam, com esforço, a tentar elevar os computadores ao nível de inteligência dos nossos cérebros (e ainda estão tão longe…), estes «defensores da língua» (aspas bem sublinhadas!) parecem querer baixar a inteligência humana ao nível dum robot, que só percebe as palavras se estas tiverem um significado fixo, imutável e único.

Estes simplificadores compulsivos parecem ainda estar sempre a tremer de medo das ambiguidades absurdas. Como se eu, ao dizer a um amigo «vou-te tirar uma fotografia», arriscasse ver o meu amigo a fugir, pensando certamente que lhe quero roubar a fotografia que ele tem na carteira…

As palavras mudam de significado conforme a pessoa, a hora do dia, a época, o contexto… Sempre assim foi e sempre assim será — porque somos seres muito pouco mecânicos e usamos as palavras de forma orgânica, mudando-lhes o significado a cada uso e cosendo esse mesmo significado às outras palavras, aos nossos gestos, ao piscar dos nossos olhos. E fazemos isto a várias vozes, o que só não espanta quem estiver muito distraído…

Três prazeres da língua portuguesa

Há uns meses, escrevi este texto para o jornal da Escola Eça de Queirós, nos Olivais, a pedido do professor Fernando Pinto. Hoje, lembrei-me de vir aqui deixá-lo para que os leitores deste blogue também o possam ler.


Nunca fui aluno da Escola Eça de Queirós. Mas não deixa de ser uma das minhas escolas. Porquê? Explico já.

Primeiro, anda por lá o meu sobrinho mais velho, o Dinis. Depois, é bem provável que o meu filho Simão lá vá parar um dia. E, por fim, nunca me vou esquecer do dia em que conversei com os alunos da escola, interessadíssimos e bem atentos, ali à minha frente. Sim, nunca vou esquecer, porque, se é verdade que já tinha falado sobre os dois livros que escrevi em livrarias e bibliotecas, esta foi a primeira escola a que fui. E se há palavra que descreve o que senti, só pode ser esta: prazer!

Pois que melhor tema para escrever para o jornal desta escola do que os prazeres da língua? São muitos, eu sei. Por isso, tive de escolher três:

1. Conversar

Com as palavras, todos os dias fazemos alguém rir. Ou, pelo menos, serão raros os dias em que cada um de nós não se ri ou não faz rir nas conversas que temos. É um dos grandes prazeres: entre amigos, amores, família, a língua serve para viver. Conversamos, sussurramos, contamos histórias, interrompemo-nos, discutimos, fazemos as pazes, apimentamos tudo com os gestos das nossas mãos, a acompanhar a torrente de sons que sai da boca. E não é um prazer? Sim, é: embora seja um prazer que sentimos tantas vezes e em tantos sítios, que nem reparamos nele, tal como não reparamos no triste que seria uma vida sem conversas, sem riso, sem palavras.

2. Ler

Há poucos dias, encontrei um homem de ar curioso, sério e compenetrado, a ler no metro. Mal reparei no senhor, até ao momento em que percebo que está a ler um livro minúsculo. Tão pequeno que eu não conseguia, a dois metros de distância, perceber o título. Pois o certo é que tão diminuto objecto, com as palavras que lá estavam escritas, conseguiu fazer o homem franzir as sobrancelhas, suspirar fundo, chorar e rir às gargalhadas — tudo bem visível na sua cara e tudo no espaço de três estações. Nunca me vou esquecer dessa curta viagem em que vi, ao vivo, a força da literatura na cara dum homem no meio de gente distraída. Naquela carruagem, era ele quem vivia mais intensamente. É essa a força das palavras e um dos prazeres das línguas humanas.

3. Regressar à língua-mãe

Falar outras línguas é mais do que importante: é imprescindível nos dias que correm. Poucos são aqueles que vivem uma vida inteira sem balbuciar palavras em línguas estrangeiras — e ainda bem que é assim, digo-vos. No entanto, sinto um prazer especial quando ando umas horas ou uns dias a falar em inglês ou em espanhol e, depois, volto ao nosso querido português. É como chegar a casa depois duma viagem: a viagem sabe bem, mas o regresso… Ah, o regresso… Os sons, a entoações, as exactas palavras que vêm da nossa infância. A nossa língua materna é isso mesmo: materna — e nossa. É a nossa boa língua portuguesa.

As línguas gestuais têm sotaques?

Uma ideia errada sobre a linguagem humana que se ouve por aí é esta: as línguas gestuais não são mesmo línguas, mas antes uma linguagem incompleta, uma espécie de «português dito com as mãos» ou algo assim.

Na verdade, são línguas como as outras, tirando o facto óbvio de que usam os gestos das mãos em vez dos gestos da boca. Já falámos disto neste blogue — por exemplo neste artigo: «A língua gestual portuguesa é uma língua a sério?»

Sim, são línguas com gramática, sotaques, poesia, palavrões, tradutores, regras inconscientes que não vêm nos livros, mas estão nas mãos dos falantes… Tudo!

Neste pequeno vídeo, uma professora de linguística explica como a ASL (a língua gestual dos EUA) tem sotaques. E, claro, o mesmo se passa com a língua gestual portuguesa, a outra língua que a nossa constituição manda o Estado proteger.

Porque é tão difícil comunicar à distância?

Hoje apetece-me começar uma nova secção neste blogue. O título será apenas e só «Comunicação». No fundo, é um dos grandes temas aqui da casa. Mesmo quando falo da língua — que é o grande tema destas paragens — há muitos casos em que estou a falar da nossa capacidade de comunicar (ou da falta dela, claro).

Ora, já todos sentimos como é difícil comunicar: no Facebook, por correio electrónico… Quantas vezes não sentimos dificuldade em nos fazermos entender, em evitar mal-entendidos, em fugir dos conflitos? Andamos sempre aos tropeções.

Na verdade, nós somos muito bons a comunicar uns com os outros: basta pensar nas vezes que conversamos entre gente amiga, em tudo o que dizemos só com as mãos, na forma como um simples sorriso ou entoação transmite emoções e informação que frases inteiras num livro não conseguem expressar nem à força de muito talento.

A grande dificuldade está na comunicação à distância, quando não estamos presentes, com o nosso corpo, a nossa cara, as nossas mãos, até mesmo o nosso cheiro humano.

Temos, para começar, a escrita. A escrita é um acrescento muito recente à nossa capacidade de comunicação. Ainda não passaram assim tantos milhares de anos desde que alguém inventou essa forma de registar o que dizemos na pedra, na madeira, em argila…

Antes disso tínhamos vivido milhares e milhares de anos a conversar em pequenos grupos tribais — e é nisso que somos bons: nas conversas de almofada, na conversa entre amigos, nos risos e piscadelas de olho, nas conversas entre caçadores atrás duma presa (ou seja, a tentar resolver problemas no momento).

Ora, na escrita não temos o corpo das outras pessoas; não temos a possibilidade de avaliar se quem nos ouve está a perceber ou não; falta-nos a nossa própria cara a pintar as palavras com a emoção certa. Torna-se tudo mais difícil.

Depois, mesmo quando usamos a nossa própria voz podemos ter dificuldades se o fizermos à distância. É mais difícil falar ao telefone do que ao vivo (na minha humilde opinião, é ainda mais difícil do que por escrito, pois continuamos a não estar presentes e ainda temos o problema de nos faltar a possibilidade de pensar e rever).

E comunicar nas redes sociais? Um sarilho, se virmos bem. E na rádio e televisão? Também não é fácil.

A vantagem de comunicar por escrito, por telefone ou por outro destes meios mais difíceis é esta: reduzimos a distância, aumentamos as nossas oportunidades de chegar aos outros, falamos mais vezes com amigos (e menos amigos), tornamo-nos parte de grupos maiores do que as tribos ancestrais.

As vantagens são muitas, mas os perigos também não são poucos. É disso que falarei nesta secção — o que não deixa de ser uma continuação do que tenho feito neste blogue nos últimos anos. (Ah, sim, há ainda aquele pormenor da identidade, o outro grande tema do blogue. Mas, talvez, esse tema não esteja assim tão distante destes assuntos.)

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«Estivéramos» é erro de português?

Há umas semanas, tive uma espécie de duelo virtual com um senhor que dizia ter encontrado a prova irrefutável da decadência da língua: um amigo dele tivera o desplante de usar a estranhíssima expressão «estivéramos lá oito professores».

O contexto é este: estavam eles (o tal senhor e o amigo) a conversar sobre uma escola que tinha fechado. Ora, a escola fechou e, antes disso, afirmou o amigo, «estivéramos lá oito professores a trabalhar».

É isto um erro de português?

Não me parece. O pretérito mais-que-perfeito é adequado naquela situação, embora nos soe já um pouco estranho por estarmos pouco habituados à forma verbal. Ao vivo e a cores é já muito raro usarmos tal relíquia da nossa gramática. E é pena. Mas pior ainda é encontrar sinais de decadência no uso dum tempo verbal tão bem feito e simpático.

Num comentário por baixo do tal post de Facebook, disse isto mesmo: talvez aquela palavra não fosse um erro. O senhor não gostou. Não só me descascou forte e feio, como ainda insultou quem teve o desplante de dizer que talvez eu até tivesse alguma razão.

Por fim — e isto é curioso — ainda nos deu a todos a lista de todos os jornais em que já tinha escrito, como se isso tivesse alguma coisa que ver com a correcção ou incorrecção daquela palavrinha. Continuou a enumerar as línguas em que sabia escrever e terminou dizendo, para quem o quis ouvir, que nunca ninguém lhe dissera que escrevia mal! Estivéssemos mas é calados que ele é que sabia. A coisa não ficou por aí. Recebi ainda uma mensagem privada do mesmo senhor a dizer que eu não tinha nada de o pôr em causa e não sei que mais.

Eu respirei fundo, já arrependido por ter comentado um texto de tal personagem. Disse-lhe então, com calma, que apenas afirmara, sem mal algum, que «estivéramos» existe e que me parecia correcto naquela situação. Não concordei com a opinião dele, segundo a qual, o pretérito mais-que-perfeito não podia ser usado naquele contexto. Podia dar-se o caso de eu estar errado e a forma verbal não ser adequada no diálogo em questão. Mas, seja como for, o meu comentário certamente não valia a tempestade com que o senhor me azucrinara o juízo (perdão antecipado pelo mais-que-perfeito que acabei de usar).

Enfim, nada mais há a concluir do estranho episódio do que isto: a arrogância existe no mundo e, no que toca à língua, parece que há gente com poucos travões nessa arrogância.

Mas trago aqui este episódio para referir outra coisa. Na discussão que entretanto começou por ali, uma das «regras» que me apresentaram para provar que eu estava errado era esta: o pretérito mais-que-perfeito só deve ser usado numa frase onde outro verbo esteja no pretérito perfeito.

Este é um exemplo de «regra à pressão»: uma regra inventada naquele momento para justificar uma ideia sobre a língua — e que serve de substituto à observação atenta dessa mesma língua tal como existe na boca dos falantes.

«O pretérito mais-que-perfeito exige sempre o pretérito perfeito na mesma frase.» Soa bem, parece uma regra, mas não é assim que a língua funciona. Nós podemos usar o pretérito mais-que-perfeito mesmo quando não temos o pretérito perfeito na mesmíssima frase. Basta estarmos a pensar num evento passado que ocorreu antes doutro evento passado que esteja na nossa ideia naquele momento. «Trouxeste o livro lá de casa? Não, a minha mãe já o dera ao meu primo…» A segunda frase não tem pretérito perfeito nenhum e o pretérito mais-que-perfeito fica ali muito bem. Claro que no dia-a-dia substituímos pela forma composta — «a minha mãe já o tinha dado ao meu primo» — mas a lógica é a mesma.

As regras do português encontram-se quando observamos a língua com atenção, o que implica não saltar logo para a conclusão que os falantes estão errados quando alguma coisa não nos soa bem. As regras de português não se encontram pensando em lógicas repentinas, só porque nos apetece e só porque dá jeito para provar que os outros são burros e nós é que falamos bem. O respeito pelos falantes é essencial quando nos propomos dizer alguma coisa sobre o assunto.

Sim, os falantes enganam-se. Sim, os falantes usam vários registos e formas que não são adequadas a todas as situações. (E, sim, os falantes por vezes não sabem escrever, mas isso é outra questão.) Mas, apesar dos erros, é na boca dos falantes que encontramos as regras da língua. Não é nas nossas invenções apressadas.

Tudo para dizer que inventar regras à pressão para justificar os nossos preconceitos é precisamente o que não devemos fazer nisto da língua. Tal como também não devemos chegar a conclusões definitivas sobre o estado da língua com base numa qualquer conversa — o tempo verbal até podia estar errado sem que daí pudéssemos dizer fosse o que fosse sobre o estado da língua em comparação com outras épocas. Ou será que houve alguma década dessas que já lá vão em que ninguém se enganava num tempo verbal enquanto conversava com um amigo?

Mas — admito: o português já não é como era. Usamos muito menos o pretérito mais-que-perfeito do que antigamente. Mas quando o usamos, por amor da santa, deixem-no lá sossegado.

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