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Categoria: Língua Portuguesa (Página 1 de 23)

A língua dos tetravós (por Fernando Venâncio)

Segure-se bem. Vamos falar de coisas que mexem cá fundo com um indivíduo. Sobretudo se for português… Bom, está firme? Aqui vai então.

Ao longo dos cem anos do século XVI, o português absorveu 246 (duzentos e quarenta e seis) adjectivos de fabrico castelhano. Esses, os que identifiquei até hoje. Terão sido mais.

Repare-se: falamos só de adjectivos, deixando de fora os verbos e os substantivos também adquiridos do castelhano, e que não foram poucos. Deixaram-se de fora, igualmente, os abundantes adjectivos que o castelhano havia tomado do latim, e que nesse século XVI fizemos nossos também, depois de os havermos lido e relido em textos castelhanos.

Lido… ou ouvido. No século de Quinhentos, eram numerosas as peças de teatro espanholas que percorriam as nossas cidades, numerosos os pregadores espanhóis que ecoavam nas nossas igrejas, numerosos os cânticos e cantigas em espanhol que enchiam capelas e ruas.

Foi isso: sem a maioria dos falantes se aperceber, o português ia-se modernizando em castelhano. Pode parecer-nos hoje incrível, mas cerca de 95% do vocabulário ‘culto’ documentado em português nos séculos XVI e XVII foi por nós absorvido do idioma vizinho.

Agiram eles bem, os nossos tetravós? Sim e não. A língua de Castela gozava, ao tempo, de enorme difusão na Europa, e toda a convergência com ela fornecia ao português virtualidades inegáveis. Para mais, o castelhano era, nessa época, um idioma particularmente desenvolvido, maleável, coerente. Numa palavra, ‘moderno’. Mas o preço pago foi alto. Tanta riqueza ali ao virar da esquina dispensou o português de investir a fundo em si próprio, explorando ao máximo o léxico autóctone para as novas necessidades da expressão.

Dentre esses 246 adjectivos castelhanos que, só nesse século de Quinhentos, o Português fez seus, destaquemos alguns, por ordem de entrada: maciço, comedido, malogrado, moreno, varonil, desditoso, bonito, mulato, airoso, desgrenhado, pontiagudo, boçal, lastimoso, matreiro, bisonho, nublado, incansável, pressuroso, bravio, atilado, teimoso, apaziguado, comilão, madrugador, caudaloso, trapaceiro, desabrido, pujante, cabisbaixo, boquiaberto, sangrento, descarado.  

Os casos de pontiagudo, cabisbaixo e boquiaberto são particularmente curiosos. São três formações únicas, três achados irrepetíveis, que, uma vez cunhados, só já podem ser copiados.

E assim foi, efectivamente. Em 1504, certa obra castelhana sobre agricultura, fala dum archote “bien pontiagudo”. Em português, o termo vai aparecer numa crónica de 1535, onde são referidas “pedras ponteagudas”, será dicionarizado como pontiagudo, em 1562, por Jerónimo Cardoso, e voltará a ser testemunhado no ano de 1600, num livro do jesuíta João de Lucena. Dos autores portugueses, sabemos que tiveram trato assíduo com o castelhano.

Eis, de facto, as três principais circunstâncias que denunciam um castelhanismo: 1. a palavra já circula largamente em Castela, 2. a forma deriva doutras formações castelhanas, ou é complexa, e 3. surge entre nós em ambiente castelhanizante.

Passemos ao caso de cabisbaixo. A primeira ocorrência de cabizbajo conhece-se de 1513, numa carta do religioso Antonio de Guevara. Demorará a entrar no português, onde cabisbaixo é documentado em 1589, numa obra de Amador Arrais. Quanto a boquiabierto, ele surge na Segunda Celestina, de 1522, e a espera foi semelhante: boquiaberto aparace em 1594.

Outros três adjectivos merecem comentário. São eles bonito, varonil e bisonho.

Podemos perguntar-nos: como se exprimia até 1500 um português que achasse certa coisa, ou alguém,  ‘agradável à vista’? Pois escolhia entre formoso (ou fermoso) e belo. Mas agora o castelhano inventara bonito, e ele acabou por tornar-se, também entre nós, o mais corrente. A história de varonil vai mais atrás. O galego e o português medievais tinham a forma baroíl, provavelmente uma adaptação patrimonial do castelhano varonil ou baronil. Esse baroíl vai conservar-se até pelo menos 1600, mas Gil Vicente, numa peça de 1521, tinha-o reconduzido a baronil, que depois se fixou em varonil. Já bisoño, documentado desde 1517, foi importado de Itália por militares espanhóis. Designava um soldado inexperiente, que repetia às chefias Io bisogno (“Eu necessito”) isto ou aquilo. Em espanhol, e depois em português, significava indivíduo ‘principiante, caloiro’, mas passou, no nosso idioma, a sinónimo de ‘tímido, assustadiço’.

Uma nota à margem. Com tão volumosas importações, o português acabou por conservar formas que o espanhol, mais tarde, deixou arcaizar, e finalmente abandonou. Entre elas estão: afrontoso, ajaezado, assisado, cediço, caridoso, desgostoso, figadal, galhofeiro, lastimável, sequioso.

Todas estas realidades são-nos praticamente desconhecidas. As nossas Histórias da Língua evitam estes temas incómodos. A imagem dum Português tão dependente da língua de Castela desagrada-nos, revolta-nos, obriga-nos a esquecer essa página do nosso percurso. Preferimos um idioma à imagem que fazemos de nós mesmos: altivo, independente, dominador. E esse idioma existe, realmente. O problema é que, ao recalcarmos aquele tão relevante lado da nossa história linguística, privamo-nos de descobrir o seu contrário: o que o Português tem de próprio, de exclusivo, de irredutivelmente seu.

Mértola, 25 de Junho de 2017

Fernando Venâncio (Mértola, 1944). Licenciou-se em Linguística Geral na Universidade de Amesterdão, onde também se doutorou. Foi docente de Língua e Cultura Portuguesa em várias universidades holandesas. É investigador sénior em História do Léxico Português. É ainda tradutor e escritor, com longa presença na imprensa escrita portuguesa.

«Slash solou» é erro de português? E «míster», no futebol?

Confesso já aqui: não estou habituado a ler o verbo «solar» com o significado de «fazer um solo». Mas a verdade é que, lendo este título do Público, percebo o que tal palavra significa: «Axl cantou, Slash solou, os Guns N’Roses voltaram a sério».

Pois, claro, um leitor mais alarmado com as malucas das palavras que saltam categorias foi-se queixar para o Facebook (onde haveria de ser?): não, não! A palavra não existe! Só podemos dizer «executar um solo»! Porquê? Porque é uma palavra brasileira, porque não se usa no Conservatório de Lisboa, porque isto e porque aquilo.

Ora, não sei se é palavra brasileira. Como informaram alguns comentadores em resposta à tal queixa publicada no Observatório da Asneira, a palavra já se usa há muito tempo na imprensa musical — e, enfim, segue as regras do português no que toca à sua formação.

Teresa Coutinho, com infinita paciência, chegou a colar uma fotografia do Dicionário Morais com a palavra lá escarrapachada. Sim, é usada (também) no Brasil — o que não é de espantar. Talvez tenha sido inventada no Brasil e em Portugal de forma independente. Afinal, na nossa língua, se temos um substantivo e queremos transformá-lo em verbo, o que fazemos é integrá-lo na primeira conjugação. «Solo» > «solar». «Telefone» > «telefonar», etc.

Se, por outro lado, os portugueses se lembraram desta palavra por a ouvirem da boca dum brasileiro há umas quantas décadas — enfim, não vem mal ao mundo. Tanto quanto sei, até pode ter sido ao contrário. (Diga-se que isto não permite tudo: há muitos verbos que seriam possíveis, mas que não se usam. Ninguém diz «microfonar» para «falar ao microfone». Porquê? Mistérios insondáveis da língua — ou melhor, resultado inevitável da imprevisibilidade dos sistemas complexos.)

Portanto, muitos usam «solar» como verbo em contexto musical. Depois, temos o jornalista do Público que o faz num artigo que parece isento de erros graves. Logo, devíamos dar o benefício da dúvida: se eu não conheço a palavra, se calhar é porque eu não conheço a palavra — afinal, quando nascemos, não conhecemos nenhuma palavra. Como se diz por aí, estamos sempre a aprender. Só não aprende quem acha que uma palavra desconhecida é sempre erro…

Mas nada disto convenceu o queixoso. Afinal, se já temos «executar um solo», não podemos aceitar esse verbo estranho: «solar». Até porque, como acrescentou outro alarmista, o verbo solar já quer dizer «pôr solas em sapatos». Logo, o jornalista devia ter evitado a palavra para não criar confusões.

Exacto, há mesmo pessoas que, perante a notícia acima, ficam com medo que alguém acredite que Slash foi arranjar sapatos para cima do palco.

Já sei: há maluqueiras para todos os gostos no Facebook. Nem vale a pena perder tempo com estas ideias tontas. Mas este episódio em particular ajuda a perceber dois princípios fundamentais do discurso simplista sobre a língua:

  • Princípio n.º 1: «Vivo rodeado de estúpidos. Eu não sou estúpido. Se alguém diz uma palavra que eu não conheço, tendo em conta que eu não sou estúpido, mas os outros tendem a sê-lo, a palavra só pode estar errada.»
  • Princípio n.º 2: «Ouvi a palavra Y que quer dizer X. Ora, eu já conhecia outra palavra com o mesmo significado. Logo, a palavra Y só pode estar errada. Além disso, se a palavra Y tem um significado, nunca pode ter outro. A cada palavra, um só significado, se faz favor, que eu não tenho tempo para estas confusões.»

Estes dois princípios norteiam muitas das acusações desabridas e simplistas sobre o português dos outros. Mas, para dizer a verdade, o debate sobre o Slash que solou até foi muito cortês. Todos nós nos enganamos e todos nós podemos tentar corrigir os erros dos outros com respeito e sensatez.

O problema é que os dois princípios acima são salpicados, o mais das vezes, pelo chamado «descontrolo verbal». Se vejo um erro de português — falso ou verdadeiro —, posso dizer o que me apetecer porque estou defender a Santa Madre Língua. Só assim se explica que, numa outra posta de Facebook sobre o uso da palavra «míster» para designar informalmente um treinador, alguém tenha dito que aqueles que tal dizem «são uns cretinos ignorantes!!!». Ah, o peso daqueles três pontos de exclamação. O cretino ignorante até fica calado, não vá dar-se o caso de o justiceiro lhe atirar com um quarto — quiçá um quinto! — ponto de exclamação.

Repare o leitor, já agora: quem usa «míster» são jogadores e miúdos que praticam desporto. É um hábito linguístico com várias décadas. Talvez tenha vindo do inglês, talvez não. É uma palavra do registo informal, uma gíria desportiva — tão inócua que nem vale a pena pensarmos muito no caso. Ah, mas não, um miúdo a dar chutos na bola para ver se o mister fica contente é um «cretino ignorante».

Na verdade, este descontrolo verbal tão típico de muitas conversas de Facebook transmite uma imagem de pensamento descuidado e prejudica o falante — é um gravíssimo erro de português, este sim muito verdadeiro.

Convite: uma festa galega no centro de Lisboa

Jardim do Torel (Foto: CM Lisboa)

Volto à Galiza, mas sem sair de Lisboa. Esta sexta-feira, pelas 19h30, irei participar na Festa das Letras Galegas com uma apresentação do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. A festa não fica por aí: há um recital, um concerto e uma foliada.

O programa oficial é este:

+ Apresentação do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

+ Foliada com o grupo de gaitas de foles ANAQUINHOS DA TERRA.

+ Recital poético-performance com as galegas DUAS GAMBERRAS E UM MICRO.

+ Concerto do cantautor punk galego O LEO DE MATAMÁ.

Haverá queimada e tapas (petiscos) no Álvaro Cunqueiro (bar do Centro Galego).

Deixo o convite, não só por causa da festa, mas também pelo edifício do Centro Galego — que vale a pena conhecer — e do Jardim do Torel, mesmo ali ao lado.



Por curiosidade, deixo-vos a descrição do livro em galego tal como publicada pelo Centro Galego na sua página (a ortografia é a oficial, ou seja, a que mais se distancia do português):

Presentación do Libro de Marco Neves «A incrível história secreta da língua portuguesa». Acompañe unha celta e un romano aos bicos, un amigo de Afonso Henriques procurando mouras encantadas, Gil Vicente a perseguir un home perigoso polas rúas de Lisboa, unha coleccionista de libros fuxindo nun carro para Amsterdam, Camões ao puñazo por causa dunha dama da corte e moitas outras aventuras de que é feita esta historia da lingua portuguesa, chea de deliciosas sorpresas e un toque de humor…

«Fazer a barba» é erro de português?

Anda uma pessoa descansada por aí quando sente o telemóvel a avisar: tem um novo comentário no blogue.

Antes de mais, gostava de agradecer aos meus leitores: recebo por aqui excelentes comentários, que às vezes valem mais do que o próprio artigo. Basta pensar nos comentários à aventura das línguas da Eurovisão

Os comentários críticos são também, quase sempre, muito agradáveis e simpáticos. E foi sem acrimónia que um leitor, há pouco, tentou convencer-me de que «fazer a barba» é mesmo erro de português, apesar do que por aqui escrevi já vai para dois anos.

Ainda dialoguei um pouco com o leitor e, por fim, aceitámos que as nossas visões da língua são irremediavelmente diferentes.

Para o tal leitor, um verbo só pode ter o significado mais óbvio ou aquele que parece mais lógico. Se ao cortarmos a barba não estamos a construir nada, então não podemos usar tal expressão.

Para mim, pelo contrário, os significados das palavras são um pouco mais malandros e dão umas piruetas engraçadas. Não há nada que possamos fazer quanto a isso — e ainda bem.


A minha questão, agora, é esta: qual é o percurso mental que leva algumas pessoas a considerar erro algumas expressões e não outras, onde também podíamos martelar uma qualquer falha lógica?

Julgo que será algo assim:

  1. Imbuído da ideia falsa de que uma palavra só pode ter um significado ou de que os sentidos menos literais de cada expressão estão sempre errados, um falante desprevenido descobre um erro na língua portuguesa. Por exemplo, «fazer a barba». Ah, pois! Nós não fazemos a barba! É erro! É erro! Ah, malandros dos portugueses, que andam há tanto tempo a usar uma expressão tão errada…
  2. O falante fica feliz: apanhou todos os outros em falso. Sabe um pouco mais do que o vizinho. Como um dos problemas cognitivos a que todos estamos sujeitos é a crença de que somos mais espertos do que a maioria das outras pessoas, é fácil acreditar que, se todos dizem «fazer a barba», é porque todos estão errados (eu é que não). (Diga-se que este não parece ser o caso do leitor com quem andei a dialogar, pois ele confessou-me também usar a tal expressão.)
  3. Se sairmos em defesa da dita expressão e dissermos algo como «as expressões da língua não estão erradas só porque nos apetece» —  ou «devemos ter em conta a realidade da língua que sai da boca dos falantes» —  ou «as palavras têm significados claros e legítimos que, no entanto, nem os dicionários conseguem apanhar» — ou «a língua portuguesa deve ser estudada com respeito antes de nos pormos a corrigi-la à tonta» — a pessoa que andava por aí convencida de ter apanhado o resto do mundo em falta fica um pouco desiludida. Se aceitar os argumentos, esfuma-se naquele instante o poderoso perfume a superioridade. Ou então, o que é mais provável, não cede e defende a todo o custo a sua ideia muito particular de erro. Um pouco como aquele condutor que está em contramão convencido que os outros carros é que vão todos mal…

Usar a expressão «fazer a barba» não atrapalha nenhum falante e, na verdade, só irrita quem foi infectado pelo vírus das interpretações literais ou das piadas de barbearia.

A aventura das línguas na Eurovisão

Falar do ucraniano — ou do português! — a propósito da Eurovisão ainda vá. Agora do basco, do catalão e do galego é que não lembra ao diabo. 


Quando eu era novo, pensava que ganhar a Eurovisão era importante. Não é, claro. Mas esta vitória foi como um sonho vindo das profundezas da nossa infância. Como se recebesse aos 36 a prenda que me prometeram aos 10.

Pois vou aproveitar esta loucura toda com o concurso, loucura essa que deve terminar daqui a uns dois ou três dias, para falar de — surpresa! — línguas. E línguas ibéricas, pois então — afinal, a Península Ibérica arrasou no festival: ficámos em primeiro e os nossos vizinhos em último…

O catalão e o galego na Eurovisão

Andorra na Eurovisão, em 2004. [Fonte.]

Há línguas muito antigas e com pergaminhos de fazer inveja e que não aparecem na Eurovisão. Basta andar uns quilómetros na nossa península e temos o basco, a mais isolada das línguas europeias. Que eu saiba, ninguém alguma vez cantou em basco na Eurovisão, o que é uma pena. Já não acontece o mesmo com o catalão, que foi ouvido entre 2004 e 2009 por causa de Andorra, que lá andou metida.

A primeira canção em catalão ouvida por essa Europa foi «Jugarem a estimar-nos» (não fiquem preocupados comigo: é para saber estas coisas que serve a Wikipédia).

O que quer dizer este título? O verbo «jugar» — que se lê à portuguesa, tal e qual o nosso «jogar» — quer dizer «brincar».

No caso, a forma «jugarem» (primeira pessoa do plural do futuro) lê-se com a sílaba tónica na última vogal e o «m» bem marcado. Será algo como a inexistente palavra portuguesa «jugareme». Corresponde ao nosso «brincaremos».

O verbo «estimar» quer dizer «amar». Logo, o título quer dizer algo como «vamos brincar ao amor» ou «vamos lá fingir que nos amamos, mas só durante esta noite». Os andorranos são assim, o que querem?

E o galego? Ah, foi com um sorriso na boca que vi muitos amigos galegos a afirmar que uma canção na sua língua tinha ganho o festival. Andaram a circular memes com uma frase do género: «O galego não serve para nada? Serve para ganhar a Eurovisão!»

Já o espanhol… Enfim, este ano apareceu por lá de raspão e levou cinco pontinhos muito portugueses.

As línguas da Ucrânia — e da Catalunha

Num festival organizado na Ucrânia, lá ouvimos umas palavras, aqui e ali, nessa língua. No final, até Salvador Sobral disse umas palavras em ucraniano.

Ora, já aqui falámos como aquele país, o segundo maior da Europa, tem questões linguísticas complexas. Não só neste artigo que escrevi sobre a questão linguística naquele país, como também no artigo sobre a ligação entre o nosso acordo ortográfico e a Ucrânia — e ainda o artigo de Serge Lunin sobre o bilinguismo na Ucrânia… e em Portugal!

Julgo que a situação da Ucrânia pode ajudar-nos a perceber o que aconteceria se a Catalunha ficasse independente. Diga-se que o catalão é uma língua minoritária muito mais bem protegida do que outras línguas minoritárias por esse mundo fora — e mesmo em Espanha. Está presente no ensino (de forma intensiva), é usada na literatura, na televisão e por uma percentagem muito significativa da população.

No entanto, não está, digamos assim, garantida. Ao contrário do que acontece com outras línguas não castelhanas de Espanha, o catalão tem prestígio e um apoio social de fazer inveja. Mas ainda corre perigo de o seu uso diminuir e de passar a ser uma língua residual, como é hoje, por exemplo, o irlandês na Irlanda, por mais prestígio que tenha nas instituições da ilha.

O catalão tem ainda este problema: não é reconhecido noutros países. Basta olhar à nossa volta: é difícil para muitos portugueses identificar aquela língua — ora, a língua é uma marca de identidade e a dificuldade de ser identificada pelos outros é um problema mais sério do que possa parecer à primeira vista. Pensem no que sentimos nós quando um estrangeiro nos diz «ah, a vossa língua é muito parecida com o espanhol» com um ar de uma certa indiferença. Os catalães nem sequer chegam a ouvir a frase porque os estrangeiros raramente sabem distinguir as duas línguas. E é pena.

Essa necessidade de identificação pelos falantes de outras línguas tem — quanto a mim — um grande peso no sentimento independentista de muitos povos. O independentismo pode ter razões histórias, económicas, sociais, etc. Mas não deixa de ser, lá bem no fundo, uma necessidade de reconhecimento internacional da nação com a qual nos identificamos. Muitos catalães sentem-se um povo e não como um subgrupo dentro doutro povo maior — e este sentimento transporta-se inevitavelmente para a necessidade de reconhecimento da sua língua.

E, depois, há isto: perguntem a uns quantos madrilenos se achariam bem Espanha levar uma música em catalão à Eurovisão — afinal, o catalão é a língua materna de vários milhões de espanhóis, não é verdade?

Se aceitarem o desafio, registem as respostas — talvez assim comecemos todos a perceber porque é difícil para os catalães encaixarem o seu sentimento nacional nesta Espanha tão castelhana.

E a Escócia?

Curiosamente, a Escócia, apesar de politicamente estar numa situação semelhante à catalã (é uma parte dum Estado maior com leis próprias, um grau de autonomia elevado e um sentimento de pertença nacional muito marcado), sente menos a indiferença dos outros povos.

Porquê? Talvez porque ostenta algumas das marcas de país na cabeça de todos nós: o seu nome é reconhecido no mundo inteiro, as suas tradições mais ou menos inventadas são bem visíveis (kilts e outros que tais), o Estado onde está integrada não esconde o facto de ser um Estado com uma identidade complexa (para dizer o mínimo), etc., etc.

Ah, e tem uma selecção de futebol que joga nos campeonatos que interessam. Não é coisa pouca.

É difícil ser bilingue?

Bem, mas já estamos muito longe do tema do texto. Voltemos à língua. Se a Catalunha se tornasse independente, o catalão seria a língua principal do novo Estado — disso não tenho dúvidas. Mas uma grande parte das famílias continuaria a falar espanhol em casa e na rua.

As tensões que iriam surgir — ou melhor, que iriam persistir, porque já lá estão, claramente — têm algumas parecenças com o que se passa na Ucrânia. De repente, a língua de prestígio do Estado (o espanhol em Espanha; o russo na União Soviética) passaria a ser a língua minoritária no novo Estado (o espanhol na Catalunha; o russo na Ucrânia). Em caso algum a Catalunha seria um país monolingue como é hoje Portugal — tal como a Ucrânia também não é.

Tanto num caso como no outro, os que imaginam uma sociedade monolingue em que há uma língua absolutamente predominante (como acontece, por exemplo, em Portugal) têm de se habituar a viver numa sociedade bilingue com o desconforto associado. Têm mesmo de se habituar à situação — não há muito a fazer e talvez até fosse bom aproveitar o que de bom tem o bilinguismo: todos os cidadãos podem aprender as duas línguas, o que não tem mal nenhum e permite aos ucranianos ler a boa literatura russa e aos futuros catalães independentes (se tal vier a acontecer) continuar a saber usar com mestria e talento a língua castelhana.

Já os espanhóis duma Espanha reduzida ficariam na pior situação de todas: saberiam espanhol e ponto final. Apesar de todas as tensões, saber duas línguas é sempre melhor do que saber só uma. O bilinguismo é desconfortável para o sentimento de identidade (que tende para o simplismo), mas faz bem à vida de cada pessoa bilingue em particular.

A que soa o português?

Uma vitória na Eurovisão não serve para nada — nem tinha de servir. A Eurovisão é uma maluqueira muito europeia. Com algum esforço, vislumbro uma vantagem daquela explosão de luzes e fogo de artifício: o festival andou anos a criar memórias comuns aos europeus, o que não é coisa pouca.

Quanto ao nosso vencedor, o que temos agora é uma música em português que de repente está nas rádios de vários países. Uma música que ajuda os ouvidos destreinados dessa Europa de tantos países a reconhecer bem a nossa língua.

Isto não é coisa para mudar o estado da música portuguesa — seja ele qual for. E ainda bem. Mas, como disse lá em cima, a ligação entre língua e identidade leva-nos a querer que os outros nos reconheçam. É também por isso que sabe bem a um português ver gente de tantos países a dizer: «Ora bem, ouvi esta música em português — levem lá doze pontinhos que a coisa soou-me bem.»

(Por outro lado, a vitória não deixou de ser um prazer muito tribal. Portugal ganhou e pronto. Se tivéssemos ganho com uma música em inglês, desde que a vitória fosse nossa, ninguém ficaria assim muito chateado.)


Ah, com esta mania das línguas ibéricas, acabei por não falar daquilo que pensei quando comecei a escrever: do hebraico, a língua ressuscitada — e do húngaro — e do bielorrusso — e das outras línguas que por lá ouvimos. Na verdade, foram poucas. Para um festival europeu, a coisa foi muito monolingue

Não faz mal. Isto da Eurovisão é de modas. Nos anos 70, as canções soavam todas aos ABBA. Nos anos 90, a Irlanda era o farol da Eurovisão. Depois, veio a loucura dos primeiros anos deste século, em que valia tudo, menos cantar numa língua que não fosse o inglês. Portugal chegou sempre a estas modas com algum atraso e também por isso nunca ganhou nada. Desta vez, atravessou-se à frente e apresentou uma coisa diferente da moda dos últimos anos — e ganhou. É por isso que já muitos prevêem a moda do «vamos todos cantar músicas calmas na nossa própria língua». Será esse o mote da Eurovisão em 2018 — numa cidade perto de si…

O que significa que para o ano terei muito mais para falar sobre as línguas da Eurovisão do que este ano. Cá estaremos, pois então.

«Voltar atrás» é erro de português?

Já há algum tempo que não me dedico ao meu desporto favorito: defender boas expressões portuguesas dos ataques sem piedade de quem gosta de inventar erros. E porque volto à liça neste dia? Porque ontem ouvi alguém a defender que a expressão «voltar atrás» é erro.

Há mesmo muita gente convencida de que basta arranjar uma lógica apressada para declarar esta ou aquela expressão como erro de português — mesmo que todos os falantes usem tal expressão sem pestanejar. Já ouvi quem considerasse erro a expressão «na senda de» porque «senda» quer dizer «caminho» (pois…); outros chamam estúpido a quem usa a bela construção «não há nada» — e há ainda quem corrija todos os pobres portugueses que dizem «queria um copo de água, por favor».

Ainda há uns dias atrevi-me a perguntar a uma senhora que corrigiu o meu «queria um sumo» se achava mesmo que a expressão era erro. Resposta? «Claro! “Queria” está no passado! Se quer o sumo agora, tem de usar o presente.» Calei-me. Senti-me atropelado por esta lógica impecável. O que vale é que somos todos gente civilizada — e mesmo tendo eu feito o pedido no pretérito imperfeito, o sumo apareceu em cima da mesa no presente do indicativo.

Pois, ontem, aconteceu-me esta: encontrei alguém que considera a expressão «voltar atrás» um exemplo do mau uso da língua portuguesa.

Porquê? Porque, enfim, se estamos a voltar só podemos estar a voltar atrás. Logo, «voltar atrás» é um pleonasmo.

O que dizer perante isto? Podia começar a argumentar. «Ah, olha que não: eu posso voltar atrás, mas também posso voltar para casa dos meus pais, voltar para o país onde nasci…» Mas não vale a pena. A lógica da batata não morre à força de mais batatas.

O que posso antes dizer é isto: a expressão «voltar atrás» faz parte da nossa língua — e é tão portuguesa como:

  • «não há nada»
  • «para além disso»
  • «vou ali e já venho»
  • «da boca para fora»
  • «uma amiga minha»
  • «um sorriso nos lábios»
  • «tomar um café»
  • «um barco à deriva», etc.

Onde fui buscar esta lista? Já vi estas expressões condenadas sem apelo nem agravo por este ou aquele especialista instantâneo. O que estes especialistas fazem é isto: pegam num qualquer capricho de ocasião e alçam-no à categoria de facto da língua (ou então pegam no capricho de alguém que criou uma lista espertalhona e a enviou a todos os contactos).

E isso, meus caros, serve apenas para nos irmos irritando uns aos outros e para umas quantas almas sentirem no seu íntimo quão superiores são aos pobres falantes que dizem «voltar atrás» e «queria um copo de água».

Em conclusão: «voltar atrás» não é um erro de português. Aliás, experimentem lá tirar a palavra «atrás» das seguintes frases:

  • «Agora já não volto atrás.»
  • «Ele não volta atrás com o que prometeu!»
  • «Voltar atrás no tempo é impossível.»

Estas frases sem a palavra «atrás» são uma dor na língua, não são?

Toca a caçar os erros verdadeiros (que são muitos e variados) — mas que ninguém tente eliminar expressões inocentes da nossa língua só porque acordou maldisposto um belo dia. (E, já agora, não basta gritar «redundância» para encontrar erros…)

(Como este blogue teve uma enxurrada de inscrições de há uns tempos para cá, permitam-me lembrar que discuti muitas destas questões — «O que é um erro de português?» «Como escrever melhor?» «O que são erros falsos?», etc. — no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa. Espero que gostem!)

Cem Maneiras de Melhorar a Escrita

Chegou esta semana às livrarias um livro que tive o prazer de traduzir e adaptar para português: Cem Maneiras de Melhorar a Escrita, de Gary Provost. A revisão ficou a cargo das mãos seguras de Ana Salgado.

Livros sobre escrita há muitos, como sabemos — mas este vale bem a pena. O autor apresenta-nos 100 ideias sobre como «escrever melhores cartas de amor, histórias, artigos de revista, cartas ao editor, propostas de negócio, sermões, poemas, romances, pedidos de liberdade condicional, boletins da paróquia, canções, memorandos, ensaios, trabalhos escolares, teses, grafitis, ameaças de morte, anúncios e listas de compras».

Por isso, já sabe: antes de escrever uma boa ameaça de morte, leia primeiro este livro — ou arrisca-se a não meter medo a ninguém. E, sim, as tais 100 maneiras de melhorar a escrita ajudam mesmo a desemperrar os dedos e a escrever melhor.


Os leitores deste blogue podem comprar o livro com 10% de desconto e portes de envio gratuitos — basta preencher o formulário abaixo. Boa leitura — e boa escrita!

Que cidade espanhola usa o brasão português?

Há muitos anos, fui com os meus pais e irmãos visitar uma cidade espanhola de cujo nome não me quero lembrar — por agora.

Chegámos à porta duma igreja e pusemo-nos a ler uma inscrição a explicar a história do templo. A inscrição estava, por incrível que possa parecer, em português.

Diego Delso, delso.photo, License CC-BY-SA

Um velhote que por ali andava chegou-se ao pé de nós e disse-nos, solícito, que aquele texto não se percebia — o correcto estava um pouco mais à direita. Seguimo-lo e vimos como apontava, a sorrir, para a versão castelhana do texto que começáramos a ler em português. Agradecemos e, sem que o espanhol percebesse porquê, voltámos ao texto na tal língua que não se percebe. (Pergunto-me se ele alguma vez pensou em tentar saber que língua era aquela.)

Mas as surpresas não acabaram por ali: reparei pouco depois na bandeira daquela cidade, a ondear ao lado da bandeira de Espanha e da União Europeia:

Sim, a bandeira daquela cidade espanhola é igual à bandeira de Lisboa, excepto no que toca ao brasão — ao contrário de Lisboa, a cidade espanhola usa o brasão português. As únicas diferenças parecem ser a coroa e a disposição dos castelos.

Alguns leitores já terão percebido que cidade é esta. Para os mais distraídos, aqui ficam mais duas pistas: olhando para lá do mar, talvez víssemos a ondear do outro lado a Union Jack… E, por fim, falta explicar que esta cidade de símbolos tão portugueses fica em África.

Sim, falo de Ceuta, uma das duas cidades espanholas no norte de África (a outra é Melilla).

As parecenças da bandeira e do brasão de Ceuta com os símbolos portugueses são fáceis de explicar — Ceuta foi portuguesa durante algum tempo: entre a Conquista de 1415, que todos conhecemos como tiro de partida dos Descobrimentos, e a Restauração da Independência, quando Ceuta optou por ficar espanhola, opção que Portugal não quis contrariar.

Lembrei-me desta estranha bandeira ao ler, durante as aventuras britânicas que relatei a semana passada, um pequeno livro chamado Worth Dying For: The Power and Politics of Flags, de Tim Marshall.

Sim, parece assunto árido, mas o título é muito verdadeiro: as bandeiras representam ideais ou ilusões pelos quais tanta gente mata e tanta gente morre. Vale a pena saber um pouco mais sobre estes símbolos e o livro diz-nos muito para lá da história desses pedaços de pano: conta-nos algumas das tensões e das narrativas por trás dos problemas que vemos, todos os dias, no telejornal.

A verdade é que o livro nada diz sobre Ceuta. Mas foi desculpa para me recordar dessa viagem que fiz há tantos anos e para falar da mais portuguesa das bandeiras espanholas.

Aventuras nas escolas portuguesas

Ora, tenho tido uns meses bem agitados por causa dum certo livro. Espero que não se importem que vá contando por aqui algumas dessas aventuras. A semana passada, falei-vos da volta à Galiza. Pois hoje decidi contar-vos o que aconteceu nalgumas escolas portuguesas onde fui falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

Nunca pensei gostar tanto, digo-vos. Cada escola é diferente e nunca parece que me estou a repetir porque os olhos que tenho à frente e as perguntas que me fazem raramente são as mesmas. Vou dizer o nome de todas as escolas para agradecer a quem me recebeu tão bem.

Na Escola Secundária Eça de Queirós, assustei-me ao entrar no auditório e ao perceber que teria à minha frente mais de cem alunos — e não uma turma. (Antes de acabar este texto, ainda volto a falar desta escola.)

Na Escola Amália Vaz de Carvalho, fiquei à espera da sessão sozinho numa biblioteca de sonho — quando aparece um aluno e me pergunta se pode tocar piano. Foi assim que, durante uns minutos, me vi transportado para um filme de época ao som dum piano improvável.

Fui ainda à Escola Secundária de Camões, onde um aluno confirmou que o romeno também tem uma palavra que significa «saudade», enquanto outro me perguntou sobre «a origem etimológica dos palavrões», deixando-me atrapalhado.

Também estive na Escola Secundária Marquês de Pombal, onde conversámos muito sobre uma língua falada por 200 000 portugueses e da qual poucos falam.

E na Escola Básica Matias Aires, em Mira-Sintra, onde acabámos a sessão com dois alunos a ler, por sua iniciativa, frases em tupi-guarani.

Fui ainda à Escola Básica Alfredo da Silva, em Albarraque, onde pela primeira vez enfrentei alunos de 9.º ano, que andam às voltas a tentar perceber que futuro devem escolher.

E voltei à minha Escola Secundária de Peniche, onde fiquei de boca aberta e coração apertado com os corredores donde saí no final do século passado — e onde me assustei ao reparar que nenhum daqueles alunos tinha nascido quando eu saí da escola.

Rumo à Trafaria numa manhã de Primavera

Mas hoje queria falar, em representação de todas as outras, da última escola a que fui até agora: a Escola EB 2, 3 da Trafaria, convidado pelas professoras Rosa Guimarães e Carla Valente.

Saí de manhã e lá fiz o percurso contra o trânsito, num dos primeiros dias de verdadeira Primavera deste ano.

Atravesso a ponte e enfio-me na auto-estrada da Costa, mas não vou para a praia. Tento ouvir o melhor possível o GPS do telemóvel, que está ao meu lado, no banco do pendura. Consigo dar com a escola, estaciono e reconheci logo o cheiro a mar, que me deixou com um sorriso no nariz.

Entrei na escola e reparei numa chaminé plantada no meio dos pavilhões…

Confesso: estava num daqueles dias de dor de cabeça e cansaço. Tento ir à casa de banho e a coisa não corre bem, porque não consigo abrir a porta (sou um pouco trapalhão, não sei se já vos tinha dito). Tremo: será que é hoje que uma destas sessões vai correr mal? Vou até à biblioteca com as professoras, muito simpáticas — os alunos vão chegando, a conversar e a olhar para mim como que a tentar avaliar-me.

A professora apresenta-me, os alunos batem as palmas habituais — e quando digo «bom dia» respondem-me todos com um «bom dia» tão sonoro que me deixou estupefacto. Estavam contentes — e a partir daí foi sempre a subir. Durante duas horas, esqueci-me da dor de cabeça.

O estranho caso dos alunos que lêem

Aquilo que ali conversámos fica entre nós, que lá estivemos. Bem, talvez possa contar uma coisita ou outra. Posso contar como, depois de eu dizer que por vezes é mais fácil falar com alguém que não fala a nossa língua do que com um adepto de outro clube, houve um aluno que me obrigou a dizer o meu clube, deixando metade dos alunos aos gritos de excitação e a outra metade a encolher os ombros…

Os alunos ouviram com atenção e fizeram muitas perguntas. Discutimos palavras diferentes e sotaques doutros sítios, as outras maneiras de falar a nossa língua, as histórias de Camões e outros escritores, bem como uma ou outra cena do filme da família Contreiras, que acompanha, no livro, a língua durante 20 séculos. Falámos ainda de outros livros, futebol, tradução, telemóveis (que ficaram lá fora) — e de tantas outras coisas. Imaginámos Camões a aparecer ali tele-transportado do passado e do susto que o poeta iria apanhar por se ver ali na Trafaria sem aviso. E falámos de palavrões (sem dizer um palavrão), para chegarmos à conclusão que há gente que sabe faltar ao respeito sem dizer uma asneira e, por outro lado, há conversas cheias de palavras feias que, no entanto, são mostra de grande amizade. Como já sabemos: é complicado — mas por mais complicado que seja, é importante falar da nossa língua, que nos une a todos e às vezes nos separa, mas nunca deixa de ser uma parte essencial das nossas vidas. Afinal, é difícil haver dia que passe sem que as palavras de alguém nos façam rir. E é só um exemplo…

Não devia, mas quero muito contar uma coisa que derreteu o meu coração de autor recente: as turmas que ali estavam tinham andado a ler A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, em conjunto, em aulas extraordinárias. Sim, não havia tempo nas aulas de Português, pois têm provas daqui a umas semanas. Mas as professoras tiveram a ideia e os alunos foram aparecendo nessas horas extraordinárias de leitura. Claro que fiquei feliz, mas espero que os leitores do blogue me perdoem o pecado — não é por mim, mas pelo livro e, acima de tudo, por saber que estes alunos do 9.º ano não se importam de passar horas a ler livros sem obrigação. Temos de agradecer às professoras: é delas o trabalho.

Quando terminámos, fomos comer um bolo que a escola preparou para comemorar a semana da leitura. Nesse momento, tive a certeza que ia recordar aquelas horas por muito tempo.

Se escrever não servisse para mais nada, servia pelo menos para isto: conhecer estes miúdos. Apetecia-me saber os nomes deles e agradecer um a um. E apetecia-me conversar ainda mais um pouco. No final, ofereceram-me três excelentes prendas feitas na escola:

Ofereceram-me também o jornal da escola (A Chaminé), onde descobri o que conto já a seguir…

Eça de Queirós na Taberna do Zé da Lídia

Quem já leu sabe que, n’A Incrível História, conto, lá para o final, a história de como, um certo dia, Eça de Queirós comeu um belo prato de amêijoas na Póvoa de Varzim.

É ficção, presumo, embora não possa ter a certeza que a cena não tenha acontecido mesmo. Sim: há coisas que eu pensava ter inventado e, afinal, são bem verdade. Na Escola Eça de Queirós, descobri alunos que tinham vivido uma das cenas ficcionais do livro: encenaram peças de Gil Vicente usando o português de hoje em dia, imitando o nosso grande dramaturgo, que mais não fez que usar o português dos dias dele. E, tal como no livro, nem todas as reacções foram as melhores. Também dessas tensões e conflitos se faz a história da língua.

Mas voltando à mesa do jantar: Eça pode não ter estado à frente dum prato de amêijoas na Póvoa, mas na Trafaria há um restaurante — a Taberna do Zé da Lídia — que, uma vez por mês, em colaboração com a escola, faz uma refeição temática com pratos das obras de Eça. Aqui fica um recorte do jornal da escola:

Podia agora aproveitar para discorrer largamente sobre o estado do ensino, etc. e tal — mas não vou cair nesse erro. Afinal, tive só uma meia-dúzia de sessões com alunos e, por isso, não me parece que saiba mais sobre o estado das escolas do que qualquer outra pessoa. O que sei, simplesmente, é que há alunos e professores que sabem receber muito bem e que gostam muito de ler e conversar — e até gostam de comer bem com Eça à mesa. Chega para ficar com um sorriso de felicidade na boca.

Aventuras de portugueses na Galiza

Começo pela multa que apanhei? Ou pelo homem que acha que o desenrascanço é espanhol? Talvez pelas conversas à mesa? Ou pelo velho galego que tinha Lisboa na cabeça?

A semana passada, andei uns dias a falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa em várias cidades da Galiza: Pontevedra, Lugo, Ferrol e Santiago.

Bem, não será bem «andei»: será mais propriamente «andámos»! Sim, porque fui com a minha mulher e o meu filho (que no final da semana já não estranhava nada conversas entre portugueses e galegos) — e estivemos sempre rodeados de boa gente. (Ah, não me posso esquecer que, no primeiro dia, os meus pais deram um saltinho a Pontevedra — que a Galiza é já ali.)

Foram dias muito intensos, com muita conversa e muitos quilómetros. Aprendi muito, claro está. Aprendi, por exemplo, o que são as Escolas Oficiais de Idiomas, escolas públicas onde adultos aprendem línguas estrangeiras — algo que não existe em Portugal. Foi em três dessas escolas que falei — e terminei a tour na livraria Ciranda, em Santiago de Compostela (estas as palavras com que o José Ramom Pichel apresentou o livro). As conversas duraram todas por volta de duas horas, mas passaram num instante — e continuaram à mesa. Foi um prazer.

Pergunto agora: quantos portugueses saberão que há milhares de galegos a aprender português à noite? E quantos adivinhariam que tantos galegos iriam querer falar da língua portuguesa pela noite fora?

Foi muito bom.

Que língua é esta?

Um dos temas de que falámos nas sessões foi a dificuldade que muitos portugueses sentem em distinguir o espanhol do galego. Muitos alunos, que estão a aprender português durante anos, queixam-se disto: chegam a Portugal e, falando galego ou mesmo o português aprendido nas tais Escolas Oficiais de Idiomas, recebem respostas em espanhol.

Em Ferrol, por exemplo, ouvi a incrível história do galego que foi a Portugal e esteve 10 minutos à conversa com um português — com o português a falar espanhol e o galego a falar português.

Mas, enfim, é verdade que um galego a falar galego sem tentar imitar o nosso sotaque vai encontrar uma imensa maioria de portugueses que ouve a língua e a enfia no saco do espanhol. Nós conhecemos bem os vários sotaques da nossa língua, conhecemos o português do Brasil, sabemos até ao que soa um estrangeiro a falar português — mas o galego, por mais próximo que esteja (e está!), não o conhecemos desde crianças. Não estamos habituados. A distância que sentimos tem mais a ver com essa barreira do desconhecimento do que com a distância real entre galego e português.

O sotaque é o suficiente para nos marcar a língua como espanhol, apesar de, se ouvirmos com atenção, repararmos nos artigos tão nossos («o», «a», «os», «as»), nas palavras que nos soam tão próximas, as frases que, na escrita, são percebidas como português ou, pelo menos, português escrito à espanhola.

Sim, eu que tenho esta pancada das línguas, acho que consigo distinguir bem as línguas latinas próximas. Cada um tem as suas manias, não é verdade? Mas também eu me confundo. Não sei se hei-de contar o que se passou… Afinal, portei-me mal.

Será que conto? Será que não conto?

Conto, sim.

Um guarda civil a falar galego

Ora, a certa altura, andava eu contente a conduzir e a conversar pelos verdes campos que vão de Compostela a Lugo, quando vejo um carro a atravessar-se à frente do meu e a pedir-me para fazer o favor de parar à força de sinais de luzes e um imponente «PARE!» no vidro de trás.

Fiquei imediatamente de boca aberta e mãos suadas. O guarda apareceu, simpático, e informou-me que tinha passado por uma zona de 70 km/h à louca velocidade de 90 km/h. Assenti com a cabeça, balbuciei qualquer coisa, fiquei a saber que, «por ser português», teria de pagar ali mesmo 50 euros.

O guarda afastou-se para preencher os documentos e, ao meu lado, o José Ramom Pichel vociferava contra a sorte que nos calhara, secundado pela Zélia.

Eu encolhi os ombros, mas perguntei ao José que história era aquela do «por ser português». Ele também não sabia.

Percebi depois — enquanto os dois guardas, simpáticos, me mostravam a foto do crime — que, por ser estrangeiro, tinha de pagar 50 euros de imediato. A diferença não era o valor, mas o facto de não poder sair dali sem pagar. Respirei fundo: por momentos pensei que Espanha tivesse multas só para portugueses.

Mas porque conto isto aqui? Só por isto: o José Ramom Pichel disse-me, depois, que tinha sido a primeira vez que tinha visto um guarda civil, em serviço, a falar galego. Aliás, o carro que foi multado à nossa frente era de galegos e tudo se passou em espanhol. Pois eu fui multado em galego, «por ser português».

A confissão: eu, nervoso e atrapalhado, não percebi em que língua fui multado. Até eu, louco por estas questões, troco-me todo nisto das línguas próximas se estiver ao lado dum guarda civil.

(O Simão dormia mas, quando soube que tinha sido multado, ralhou comigo.)

A aluna que não sabia o que estava a ouvir

Em Ferrol, tive uma surpresa: apareceram-me lá dois antigos professores de galego da minha faculdade, o Emilio Cambeiro e o Isaac Lourido. O Emilio, no fim, contou-me como uma aluna da FCSH, há uns anos, bateu à porta do gabinete e pediu a medo para falar com ele, mas avisando que não percebia espanhol.

Ele lá lhe explicou que podia falar em galego… E ela assustada, dizia que não, que não percebia nada disso. Ele lá lhe disse que também podia falar em português. Ela sorriu e disse que sim. E lá conversaram durante meia-hora, sem problema nenhum, até ele lhe dizer que tinha estado a falar galego. Ela, peremptória, disse que não, que aquilo era português. Ele insistiu: não! Era mesmo galego…

Também me lembrei do pai da Zélia que, há uns anos, nos disse que, na Televisão da Galiza (que ele vê com gosto), apareciam uns velhotes a falar português. Já aqui contei essa história — mas trago-a de novo para este texto só para vos dizer que, por mais diferenças que se tenham acumulado por várias razões, ainda há gente a falar galego que os portugueses reconhecem como estando a falar a sua língua. E isto é tanto mais espantoso quanto é verdade que desde sempre aprendemos que os espanhóis falam espanhol e ponto final. Nós, portugueses, povo monolingue (dizem), não vemos essas complicações. E mesmo assim o som dum velhote galego a falar ou dum professor que nos tenha dito antes que ia falar português e depois desata a falar galego confunde-nos. Sim, o galego deixa-nos zonzos, porque é tão próximo e, mesmo assim, estranho. Mas depois, claro, entranha-se, como dizia o outro.

(Esta ideia do estranhamento e do entranhamento fui buscar ao texto que Maurício Castro escreveu sobre a sessão em Ferrol.)

A fronteira e o conforto

Bem, indo para lá da língua. Todos sabemos que a fronteira tem a sua importância. A raia divide-nos e já divide há muito tempo. A nossa identidade é portuguesa e não se dilui nem se confunde com as múltiplas identidades galegas. Temos etiquetas diferentes. E há também isto: quando passamos uma fronteira, começamos de imediato a ter atenção às diferenças. A fronteira muda-nos o chip e o que vemos passa a ser espanhol no nosso cérebro. Logo, passa a ser diferente. Reparem: um português que fosse teletransportado num segundo de Santiago para Toledo (por exemplo) veria as diferenças óbvias entre a Galiza e o centro de Espanha e reconheceria que muitas dessas diferenças não existem entre a Galiza e o Minho. Mas um português que vá de carro de Santiago a Toledo nunca passa uma fronteira que saiba reconhecer — logo, não nota as diferenças. Quando passa de Valença para Tui, tem ali as placas a gritar: agora, isto é Espanha. E o nosso cérebro está bem treinado nisto das fronteiras.

Mas a verdade é que uma coisa é a identidade política ou nacional, outra é o conforto cultural que sentimos em certos locais. Como vários galegos me disseram, os galegos podem assumir a sua identidade espanhola (há excepções, claro), mas quase todos se sentem muito confortáveis em Portugal, esse país estrangeiro que está tão próximo — sentem-se bem mais confortáveis do que em certas regiões de Espanha. Esta sensação de conforto não põe em causa a identidade nacional que aprenderam desde crianças: é apenas a realidade das coisas e a realidade dos hábitos e da paisagem que sentimos à nossa volta.

Dizem-me também, claro, que esse conforto é especialmente forte quando estão no Norte. O Sul, com as suas planícies e as suas vogais desaparecidas, é um pouco mais agreste para um galego viajante.

Isto dizem-me os galegos. Já nós, portugueses, reconheçamos ou não as línguas que por lá se falam (e a mistura é tanta que é de facto difícil), também nos sentimos confortáveis na Galiza. Pronto, sei que é exagerado falar nos portugueses em geral. Atrevo-me então a dizer apenas isto: estes três portugueses que por lá andaram sentiram-se confortáveis e muito bem recebidos.

A Galiza tem isto: é tão próxima, mas não deixa de ter as suas diferenças, as suas surpresas. Os telhados negros de Ferrol, por exemplo, ou os nomes dos pratos… Estas diferenças misturadas com uma proximidade estranha provocam-nos e fazem-nos sair do que nos é habitual para depois reencontrar, a cada esquina, qualquer coisa que sentimos como nossa. Ora, sair do nosso país para saber mais sobre nós — haverá melhor definição de «viagem»? Conto dois episódios: o velho que sabia Lisboa de cor — e o famoso desenrascanço… espanhol!

O galego que sabia Lisboa de cor

Numa das manhãs desses dias, fomos os três visitar a Catedral de Santiago. Não há muito a dizer, basta encontrar fotos, não é? Bem, a certa altura um velho galego chega-se ao pé de nós e oferece um pequeno santinho ao Simão — ouvira-nos a falar português e ficou contente. Começou então a dizer, em português, que conhecia bem Lisboa. Começou então a desfiar os vários nomes dos bairros e zonas de Lisboa: «Saldanha», «Cais do Sodré», «Alfama», «Benfica»… Aí, parou e perguntou o clube ao Simão — depois continuou pelo mapa fora… Estávamos já a afastar-nos dele, para não incomodar mais a fila de turistas atrás de nós, e ainda ouvíamos da boca sorridente do velho os nomes (agora já fora de Lisboa): «Carnaxide», «Oeiras», «Cascais»…

Ele ficou felicíssimo por falar de Lisboa — e por falar com portugueses. E nós felizes ficámos, depois de passar pela surreal experiência de caminhar pela Catedral de Santiago, por baixo de imponentes órgãos e turíbulos fumegantes, a ouvir alguém a gritar: «Cruz Quebrada!», «Bobadela!», «Picheleira!».

O desenrascanço é espanhol? Ou será galego?

Nisto das diferenças e semelhanças… Durante aqueles dias, tinha o carro num estacionamento ao pé do sítio onde ficámos. Numa das noites, não consegui entrar com o bilhete de vários dias que tinha comprado. Tive de tirar o ticket habitual e fui à cabine pedir para resolver o problema (não queria ter de pagar duas vezes, já bastavam as multas).

O homem riu-se porque, pelos vistos, é habitual — testou o meu bilhete, viu que afinal estava bom. Agora, só era preciso convencer o sistema que eu tinha entrado com o bilhete certo. Ele pega num pedaço de metal, vai à cancela de entrada no estacionamento, põe o meu bilhete, vê a cancela a levantar-se, passa com o pedaço de metal no sensor — e a cancela lá baixa, convencida que eu tinha acabado de passar com o meu carro.

O homem riu-se, contente, e disse-me: «Isto é resolver problemas à espanhola!»

Eu ri-me também e lá lhe fui dizendo que também era assim que resolvíamos os problemas em Portugal. Até temos uma palavra, não é verdade? O famoso desenrascanço… Imagino que alguns leitores estão já a correr para ir buscar o mosquete que têm debaixo da cama, a pensar que até o desenrascanço os espanhóis nos querem conquistar! Bem, descansem: este é um desenrascanço muito galego

Neve em Santiago

Já aqui contei como nunca vi nevar em Portugal (e não foi por falta de tentar). Neve já vi na Serra da Estrela. Mas nevar, o verbo, só vi na Galiza e em Inglaterra.

Pois, mais uma vez o feitiço se confirmou: vi nevar em Santiago e vi nevar na auto-estrada entre Ferrol e Santiago. Foi também ali, na Galiza, que o Simão viu nevar pela primeira vez.

Mas, nesse percurso nocturno de auto-estrada debaixo duma espécie de nevão, lembrei-me daquele velho mito de que os esquimós têm não sei quantas palavras para descrever a neve — e que, supostamente, isso tem um impacto profundo na sua visão do mundo. Não é bem assim… Como McWhorter explica bem em The Language Hoax, a verdade é um pouco mais banal e ao contrário: é a visão do mundo que tem um impacto profundo na língua de cada um… Pois não é curioso que sejam os esquimós a ter tantos nomes para a neve?

Enfim, a verdade é que essa ideia de que a língua nos limita o olhar é um pouco exagerada. Nós, que certamente não temos muitos nomes para neve, conseguimos ver claramente as diferenças entre os flocos que nos caem no carro. Ou seja, não precisamos de palavras diferentes para perceber as diferentes neves. E, de facto, nessa viagem, vi neve grossa, quase granizo, outra neve mais leve, a cair levemente, como quem chamava por mim, uma neve misturada com chuva que se tornava mais branca ou mais transparente conforme o quilómetro… A natureza parecia querer brindar-me com uma demonstração em cinco minutos de todos os tipos de precipitação. Eu agradeci, mas, a certa altura, a coisa começou a aquecer, que é como quem diz, a arrefecer. Teria de parar o carro? A Zélia, o Simão e eu lá seguíamos calados, cansados e felizes, mas um pouco preocupados. Por fim, chegámos bem, a neve foi meiguinha. (Ah, sim: os esquimós, foi-se a ver, e não tinham assim tantos nomes para a neve.)

Tudo isto para vos dizer que continuo convencido que as línguas não representam «a alma dum povo»: sim, conseguimos descrever muitos conceitos que são importantes para nós usando uma só palavra, mas para lá desse facto banal, não somos assim ou assado por causa das regras da nossa língua, que devem muito mais ao acaso dos milhões de conversas ao longo dos séculos do que a qualquer alma nacional depurada em livros de gramática.

Mas — e isto é importante — a nossa língua é uma casa onde nos sentimos bem, onde conversamos, onde lemos e escrevemos, onde vivemos com todos os que falam essa mesma língua. E não há dúvida que, na Galiza, nos sentimos em casa quando falamos da nossa língua.

Imensos amigos

Íamos a chegar a Santiago numa destas noites, quando encontro alguém que conheço: o Suso. Cumprimentamo-nos pela janela do carro, alegres pelo encontro imprevisto. Quando fecho o vidro, o Simão está baralhado, pois não está habituado a que encontremos pessoas conhecidas tão longe de casa.

— É nosso amigo?

— Sim, é.

Fez um grande sorriso e disse:

— Nós temos imensos amigos!

E, sim, ali na Galiza senti-me entre amigos — e isso foi o maior prazer deste cirandar pela Galiza a falar de livros e línguas. Obrigado a todos os professores e alunos que me receberam e a todos os leitores que foram à Ciranda. E ao José Ramom e à Sabela, que nos receberam tão bem, e ao Valentim, que organizou a loucura que foi esta semana: muito, muito obrigado!

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