Certas Palavras

Línguas, livros e outras viagens

Categoria: Língua Portuguesa (Página 1 de 22)

«Fazer a barba» é erro de português?

Anda uma pessoa descansada por aí quando sente o telemóvel a avisar: tem um novo comentário no blogue.

Antes de mais, gostava de agradecer aos meus leitores: recebo por aqui excelentes comentários, que às vezes valem mais do que o próprio artigo. Basta pensar nos comentários à aventura das línguas da Eurovisão

Os comentários críticos são também, quase sempre, muito agradáveis e simpáticos. E foi sem acrimónia que um leitor, há pouco, tentou convencer-me de que «fazer a barba» é mesmo erro de português, apesar do que por aqui escrevi já vai para dois anos.

Ainda dialoguei um pouco com o leitor e, por fim, aceitámos que as nossas visões da língua são irremediavelmente diferentes.

Para o tal leitor, um verbo só pode ter o significado mais óbvio ou aquele que parece mais lógico. Se ao cortarmos a barba não estamos a construir nada, então não podemos usar tal expressão.

Para mim, pelo contrário, os significados das palavras são um pouco mais malandros e dão umas piruetas engraçadas. Não há nada que possamos fazer quanto a isso — e ainda bem.


A minha questão, agora, é esta: qual é o percurso mental que leva algumas pessoas a considerar erro algumas expressões e não outras, onde também podíamos martelar uma qualquer falha lógica?

Julgo que será algo assim:

  1. Imbuído da ideia falsa de que uma palavra só pode ter um significado ou de que os sentidos menos literais de cada expressão estão sempre errados, um falante desprevenido descobre um erro na língua portuguesa. Por exemplo, «fazer a barba». Ah, pois! Nós não fazemos a barba! É erro! É erro! Ah, malandros dos portugueses, que andam há tanto tempo a usar uma expressão tão errada…
  2. O falante fica feliz: apanhou todos os outros em falso. Sabe um pouco mais do que o vizinho. Como um dos problemas cognitivos a que todos estamos sujeitos é a crença de que somos mais espertos do que a maioria das outras pessoas, é fácil acreditar que, se todos dizem «fazer a barba», é porque todos estão errados (eu é que não). (Diga-se que este não parece ser o caso do leitor com quem andei a dialogar, pois ele confessou-me também usar a tal expressão.)
  3. Se sairmos em defesa da dita expressão e dissermos algo como «as expressões da língua não estão erradas só porque nos apetece» —  ou «devemos ter em conta a realidade da língua que sai da boca dos falantes» —  ou «as palavras têm significados claros e legítimos que, no entanto, nem os dicionários conseguem apanhar» — ou «a língua portuguesa deve ser estudada com respeito antes de nos pormos a corrigi-la à tonta» — a pessoa que andava por aí convencida de ter apanhado o resto do mundo em falta fica um pouco desiludida. Se aceitar os argumentos, esfuma-se naquele instante o poderoso perfume a superioridade. Ou então, o que é mais provável, não cede e defende a todo o custo a sua ideia muito particular de erro. Um pouco como aquele condutor que está em contramão convencido que os outros carros é que vão todos mal…

Usar a expressão «fazer a barba» não atrapalha nenhum falante e, na verdade, só irrita quem foi infectado pelo vírus das interpretações literais ou das piadas de barbearia.

A aventura das línguas na Eurovisão

Falar do ucraniano — ou do português! — a propósito da Eurovisão ainda vá. Agora do basco, do catalão e do galego é que não lembra ao diabo. 


Quando eu era novo, pensava que ganhar a Eurovisão era importante. Não é, claro. Mas esta vitória foi como um sonho vindo das profundezas da nossa infância. Como se recebesse aos 36 a prenda que me prometeram aos 10.

Pois vou aproveitar esta loucura toda com o concurso, loucura essa que deve terminar daqui a uns dois ou três dias, para falar de — surpresa! — línguas. E línguas ibéricas, pois então — afinal, a Península Ibérica arrasou no festival: ficámos em primeiro e os nossos vizinhos em último…

O catalão e o galego na Eurovisão

Andorra na Eurovisão, em 2004. [Fonte.]

Há línguas muito antigas e com pergaminhos de fazer inveja e que não aparecem na Eurovisão. Basta andar uns quilómetros na nossa península e temos o basco, a mais isolada das línguas europeias. Que eu saiba, ninguém alguma vez cantou em basco na Eurovisão, o que é uma pena. Já não acontece o mesmo com o catalão, que foi ouvido entre 2004 e 2009 por causa de Andorra, que lá andou metida.

A primeira canção em catalão ouvida por essa Europa foi «Jugarem a estimar-nos» (não fiquem preocupados comigo: é para saber estas coisas que serve a Wikipédia).

O que quer dizer este título? O verbo «jugar» — que se lê à portuguesa, tal e qual o nosso «jogar» — quer dizer «brincar».

No caso, a forma «jugarem» (primeira pessoa do plural do futuro) lê-se com a sílaba tónica na última vogal e o «m» bem marcado. Será algo como a inexistente palavra portuguesa «jugareme». Corresponde ao nosso «brincaremos».

O verbo «estimar» quer dizer «amar». Logo, o título quer dizer algo como «vamos brincar ao amor» ou «vamos lá fingir que nos amamos, mas só durante esta noite». Os andorranos são assim, o que querem?

E o galego? Ah, foi com um sorriso na boca que vi muitos amigos galegos a afirmar que uma canção na sua língua tinha ganho o festival. Andaram a circular memes com uma frase do género: «O galego não serve para nada? Serve para ganhar a Eurovisão!»

Já o espanhol… Enfim, este ano apareceu por lá de raspão e levou cinco pontinhos muito portugueses.

As línguas da Ucrânia — e da Catalunha

Num festival organizado na Ucrânia, lá ouvimos umas palavras, aqui e ali, nessa língua. No final, até Salvador Sobral disse umas palavras em ucraniano.

Ora, já aqui falámos como aquele país, o segundo maior da Europa, tem questões linguísticas complexas. Não só neste artigo que escrevi sobre a questão linguística naquele país, como também no artigo sobre a ligação entre o nosso acordo ortográfico e a Ucrânia — e ainda o artigo de Serge Lunin sobre o bilinguismo na Ucrânia… e em Portugal!

Julgo que a situação da Ucrânia pode ajudar-nos a perceber o que aconteceria se a Catalunha ficasse independente. Diga-se que o catalão é uma língua minoritária muito mais bem protegida do que outras línguas minoritárias por esse mundo fora — e mesmo em Espanha. Está presente no ensino (de forma intensiva), é usada na literatura, na televisão e por uma percentagem muito significativa da população.

No entanto, não está, digamos assim, garantida. Ao contrário do que acontece com outras línguas não castelhanas de Espanha, o catalão tem prestígio e um apoio social de fazer inveja. Mas ainda corre perigo de o seu uso diminuir e de passar a ser uma língua residual, como é hoje, por exemplo, o irlandês na Irlanda, por mais prestígio que tenha nas instituições da ilha.

O catalão tem ainda este problema: não é reconhecido noutros países. Basta olhar à nossa volta: é difícil para muitos portugueses identificar aquela língua — ora, a língua é uma marca de identidade e a dificuldade de ser identificada pelos outros é um problema mais sério do que possa parecer à primeira vista. Pensem no que sentimos nós quando um estrangeiro nos diz «ah, a vossa língua é muito parecida com o espanhol» com um ar de uma certa indiferença. Os catalães nem sequer chegam a ouvir a frase porque os estrangeiros raramente sabem distinguir as duas línguas. E é pena.

Essa necessidade de identificação pelos falantes de outras línguas tem — quanto a mim — um grande peso no sentimento independentista de muitos povos. O independentismo pode ter razões histórias, económicas, sociais, etc. Mas não deixa de ser, lá bem no fundo, uma necessidade de reconhecimento internacional da nação com a qual nos identificamos. Muitos catalães sentem-se um povo e não como um subgrupo dentro doutro povo maior — e este sentimento transporta-se inevitavelmente para a necessidade de reconhecimento da sua língua.

E, depois, há isto: perguntem a uns quantos madrilenos se achariam bem Espanha levar uma música em catalão à Eurovisão — afinal, o catalão é a língua materna de vários milhões de espanhóis, não é verdade?

Se aceitarem o desafio, registem as respostas — talvez assim comecemos todos a perceber porque é difícil para os catalães encaixarem o seu sentimento nacional nesta Espanha tão castelhana.

E a Escócia?

Curiosamente, a Escócia, apesar de politicamente estar numa situação semelhante à catalã (é uma parte dum Estado maior com leis próprias, um grau de autonomia elevado e um sentimento de pertença nacional muito marcado), sente menos a indiferença dos outros povos.

Porquê? Talvez porque ostenta algumas das marcas de país na cabeça de todos nós: o seu nome é reconhecido no mundo inteiro, as suas tradições mais ou menos inventadas são bem visíveis (kilts e outros que tais), o Estado onde está integrada não esconde o facto de ser um Estado com uma identidade complexa (para dizer o mínimo), etc., etc.

Ah, e tem uma selecção de futebol que joga nos campeonatos que interessam. Não é coisa pouca.

É difícil ser bilingue?

Bem, mas já estamos muito longe do tema do texto. Voltemos à língua. Se a Catalunha se tornasse independente, o catalão seria a língua principal do novo Estado — disso não tenho dúvidas. Mas uma grande parte das famílias continuaria a falar espanhol em casa e na rua.

As tensões que iriam surgir — ou melhor, que iriam persistir, porque já lá estão, claramente — têm algumas parecenças com o que se passa na Ucrânia. De repente, a língua de prestígio do Estado (o espanhol em Espanha; o russo na União Soviética) passaria a ser a língua minoritária no novo Estado (o espanhol na Catalunha; o russo na Ucrânia). Em caso algum a Catalunha seria um país monolingue como é hoje Portugal — tal como a Ucrânia também não é.

Tanto num caso como no outro, os que imaginam uma sociedade monolingue em que há uma língua absolutamente predominante (como acontece, por exemplo, em Portugal) têm de se habituar a viver numa sociedade bilingue com o desconforto associado. Têm mesmo de se habituar à situação — não há muito a fazer e talvez até fosse bom aproveitar o que de bom tem o bilinguismo: todos os cidadãos podem aprender as duas línguas, o que não tem mal nenhum e permite aos ucranianos ler a boa literatura russa e aos futuros catalães independentes (se tal vier a acontecer) continuar a saber usar com mestria e talento a língua castelhana.

Já os espanhóis duma Espanha reduzida ficariam na pior situação de todas: saberiam espanhol e ponto final. Apesar de todas as tensões, saber duas línguas é sempre melhor do que saber só uma. O bilinguismo é desconfortável para o sentimento de identidade (que tende para o simplismo), mas faz bem à vida de cada pessoa bilingue em particular.

A que soa o português?

Uma vitória na Eurovisão não serve para nada — nem tinha de servir. A Eurovisão é uma maluqueira muito europeia. Com algum esforço, vislumbro uma vantagem daquela explosão de luzes e fogo de artifício: o festival andou anos a criar memórias comuns aos europeus, o que não é coisa pouca.

Quanto ao nosso vencedor, o que temos agora é uma música em português que de repente está nas rádios de vários países. Uma música que ajuda os ouvidos destreinados dessa Europa de tantos países a reconhecer bem a nossa língua.

Isto não é coisa para mudar o estado da música portuguesa — seja ele qual for. E ainda bem. Mas, como disse lá em cima, a ligação entre língua e identidade leva-nos a querer que os outros nos reconheçam. É também por isso que sabe bem a um português ver gente de tantos países a dizer: «Ora bem, ouvi esta música em português — levem lá doze pontinhos que a coisa soou-me bem.»

(Por outro lado, a vitória não deixou de ser um prazer muito tribal. Portugal ganhou e pronto. Se tivéssemos ganho com uma música em inglês, desde que a vitória fosse nossa, ninguém ficaria assim muito chateado.)


Ah, com esta mania das línguas ibéricas, acabei por não falar daquilo que pensei quando comecei a escrever: do hebraico, a língua ressuscitada — e do húngaro — e do bielorrusso — e das outras línguas que por lá ouvimos. Na verdade, foram poucas. Para um festival europeu, a coisa foi muito monolingue

Não faz mal. Isto da Eurovisão é de modas. Nos anos 70, as canções soavam todas aos ABBA. Nos anos 90, a Irlanda era o farol da Eurovisão. Depois, veio a loucura dos primeiros anos deste século, em que valia tudo, menos cantar numa língua que não fosse o inglês. Portugal chegou sempre a estas modas com algum atraso e também por isso nunca ganhou nada. Desta vez, atravessou-se à frente e apresentou uma coisa diferente da moda dos últimos anos — e ganhou. É por isso que já muitos prevêem a moda do «vamos todos cantar músicas calmas na nossa própria língua». Será esse o mote da Eurovisão em 2018 — numa cidade perto de si…

O que significa que para o ano terei muito mais para falar sobre as línguas da Eurovisão do que este ano. Cá estaremos, pois então.

«Voltar atrás» é erro de português?

Já há algum tempo que não me dedico ao meu desporto favorito: defender boas expressões portuguesas dos ataques sem piedade de quem gosta de inventar erros. E porque volto à liça neste dia? Porque ontem ouvi alguém a defender que a expressão «voltar atrás» é erro.

Há mesmo muita gente convencida de que basta arranjar uma lógica apressada para declarar esta ou aquela expressão como erro de português — mesmo que todos os falantes usem tal expressão sem pestanejar. Já ouvi quem considerasse erro a expressão «na senda de» porque «senda» quer dizer «caminho» (pois…); outros chamam estúpido a quem usa a bela construção «não há nada» — e há ainda quem corrija todos os pobres portugueses que dizem «queria um copo de água, por favor».

Ainda há uns dias atrevi-me a perguntar a uma senhora que corrigiu o meu «queria um sumo» se achava mesmo que a expressão era erro. Resposta? «Claro! “Queria” está no passado! Se quer o sumo agora, tem de usar o presente.» Calei-me. Senti-me atropelado por esta lógica impecável. O que vale é que somos todos gente civilizada — e mesmo tendo eu feito o pedido no pretérito imperfeito, o sumo apareceu em cima da mesa no presente do indicativo.

Pois, ontem, aconteceu-me esta: encontrei alguém que considera a expressão «voltar atrás» um exemplo do mau uso da língua portuguesa.

Porquê? Porque, enfim, se estamos a voltar só podemos estar a voltar atrás. Logo, «voltar atrás» é um pleonasmo.

O que dizer perante isto? Podia começar a argumentar. «Ah, olha que não: eu posso voltar atrás, mas também posso voltar para casa dos meus pais, voltar para o país onde nasci…» Mas não vale a pena. A lógica da batata não morre à força de mais batatas.

O que posso antes dizer é isto: a expressão «voltar atrás» faz parte da nossa língua — e é tão portuguesa como:

  • «não há nada»
  • «para além disso»
  • «vou ali e já venho»
  • «da boca para fora»
  • «uma amiga minha»
  • «um sorriso nos lábios»
  • «tomar um café»
  • «um barco à deriva», etc.

Onde fui buscar esta lista? Já vi estas expressões condenadas sem apelo nem agravo por este ou aquele especialista instantâneo. O que estes especialistas fazem é isto: pegam num qualquer capricho de ocasião e alçam-no à categoria de facto da língua (ou então pegam no capricho de alguém que criou uma lista espertalhona e a enviou a todos os contactos).

E isso, meus caros, serve apenas para nos irmos irritando uns aos outros e para umas quantas almas sentirem no seu íntimo quão superiores são aos pobres falantes que dizem «voltar atrás» e «queria um copo de água».

Em conclusão: «voltar atrás» não é um erro de português. Aliás, experimentem lá tirar a palavra «atrás» das seguintes frases:

  • «Agora já não volto atrás.»
  • «Ele não volta atrás com o que prometeu!»
  • «Voltar atrás no tempo é impossível.»

Estas frases sem a palavra «atrás» são uma dor na língua, não são?

Toca a caçar os erros verdadeiros (que são muitos e variados) — mas que ninguém tente eliminar expressões inocentes da nossa língua só porque acordou maldisposto um belo dia. (E, já agora, não basta gritar «redundância» para encontrar erros…)

(Como este blogue teve uma enxurrada de inscrições de há uns tempos para cá, permitam-me lembrar que discuti muitas destas questões — «O que é um erro de português?» «Como escrever melhor?» «O que são erros falsos?», etc. — no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa. Espero que gostem!)

Cem Maneiras de Melhorar a Escrita

Chegou esta semana às livrarias um livro que tive o prazer de traduzir e adaptar para português: Cem Maneiras de Melhorar a Escrita, de Gary Provost. A revisão ficou a cargo das mãos seguras de Ana Salgado.

Livros sobre escrita há muitos, como sabemos — mas este vale bem a pena. O autor apresenta-nos 100 ideias sobre como «escrever melhores cartas de amor, histórias, artigos de revista, cartas ao editor, propostas de negócio, sermões, poemas, romances, pedidos de liberdade condicional, boletins da paróquia, canções, memorandos, ensaios, trabalhos escolares, teses, grafitis, ameaças de morte, anúncios e listas de compras».

Por isso, já sabe: antes de escrever uma boa ameaça de morte, leia primeiro este livro — ou arrisca-se a não meter medo a ninguém. E, sim, as tais 100 maneiras de melhorar a escrita ajudam mesmo a desemperrar os dedos e a escrever melhor.


Os leitores deste blogue podem comprar o livro com 10% de desconto e portes de envio gratuitos — basta preencher o formulário abaixo. Boa leitura — e boa escrita!

Que cidade espanhola usa o brasão português?

Há muitos anos, fui com os meus pais e irmãos visitar uma cidade espanhola de cujo nome não me quero lembrar — por agora.

Chegámos à porta duma igreja e pusemo-nos a ler uma inscrição a explicar a história do templo. A inscrição estava, por incrível que possa parecer, em português.

Diego Delso, delso.photo, License CC-BY-SA

Um velhote que por ali andava chegou-se ao pé de nós e disse-nos, solícito, que aquele texto não se percebia — o correcto estava um pouco mais à direita. Seguimo-lo e vimos como apontava, a sorrir, para a versão castelhana do texto que começáramos a ler em português. Agradecemos e, sem que o espanhol percebesse porquê, voltámos ao texto na tal língua que não se percebe. (Pergunto-me se ele alguma vez pensou em tentar saber que língua era aquela.)

Mas as surpresas não acabaram por ali: reparei pouco depois na bandeira daquela cidade, a ondear ao lado da bandeira de Espanha e da União Europeia:

Sim, a bandeira daquela cidade espanhola é igual à bandeira de Lisboa, excepto no que toca ao brasão — ao contrário de Lisboa, a cidade espanhola usa o brasão português. As únicas diferenças parecem ser a coroa e a disposição dos castelos.

Alguns leitores já terão percebido que cidade é esta. Para os mais distraídos, aqui ficam mais duas pistas: olhando para lá do mar, talvez víssemos a ondear do outro lado a Union Jack… E, por fim, falta explicar que esta cidade de símbolos tão portugueses fica em África.

Sim, falo de Ceuta, uma das duas cidades espanholas no norte de África (a outra é Melilla).

As parecenças da bandeira e do brasão de Ceuta com os símbolos portugueses são fáceis de explicar — Ceuta foi portuguesa durante algum tempo: entre a Conquista de 1415, que todos conhecemos como tiro de partida dos Descobrimentos, e a Restauração da Independência, quando Ceuta optou por ficar espanhola, opção que Portugal não quis contrariar.

Lembrei-me desta estranha bandeira ao ler, durante as aventuras britânicas que relatei a semana passada, um pequeno livro chamado Worth Dying For: The Power and Politics of Flags, de Tim Marshall.

Sim, parece assunto árido, mas o título é muito verdadeiro: as bandeiras representam ideais ou ilusões pelos quais tanta gente mata e tanta gente morre. Vale a pena saber um pouco mais sobre estes símbolos e o livro diz-nos muito para lá da história desses pedaços de pano: conta-nos algumas das tensões e das narrativas por trás dos problemas que vemos, todos os dias, no telejornal.

A verdade é que o livro nada diz sobre Ceuta. Mas foi desculpa para me recordar dessa viagem que fiz há tantos anos e para falar da mais portuguesa das bandeiras espanholas.

Aventuras nas escolas portuguesas

Ora, tenho tido uns meses bem agitados por causa dum certo livro. Espero que não se importem que vá contando por aqui algumas dessas aventuras. A semana passada, falei-vos da volta à Galiza. Pois hoje decidi contar-vos o que aconteceu nalgumas escolas portuguesas onde fui falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

Nunca pensei gostar tanto, digo-vos. Cada escola é diferente e nunca parece que me estou a repetir porque os olhos que tenho à frente e as perguntas que me fazem raramente são as mesmas. Vou dizer o nome de todas as escolas para agradecer a quem me recebeu tão bem.

Na Escola Secundária Eça de Queirós, assustei-me ao entrar no auditório e ao perceber que teria à minha frente mais de cem alunos — e não uma turma. (Antes de acabar este texto, ainda volto a falar desta escola.)

Na Escola Amália Vaz de Carvalho, fiquei à espera da sessão sozinho numa biblioteca de sonho — quando aparece um aluno e me pergunta se pode tocar piano. Foi assim que, durante uns minutos, me vi transportado para um filme de época ao som dum piano improvável.

Fui ainda à Escola Secundária de Camões, onde um aluno confirmou que o romeno também tem uma palavra que significa «saudade», enquanto outro me perguntou sobre «a origem etimológica dos palavrões», deixando-me atrapalhado.

Também estive na Escola Secundária Marquês de Pombal, onde conversámos muito sobre uma língua falada por 200 000 portugueses e da qual poucos falam.

E na Escola Básica Matias Aires, em Mira-Sintra, onde acabámos a sessão com dois alunos a ler, por sua iniciativa, frases em tupi-guarani.

Fui ainda à Escola Básica Alfredo da Silva, em Albarraque, onde pela primeira vez enfrentei alunos de 9.º ano, que andam às voltas a tentar perceber que futuro devem escolher.

E voltei à minha Escola Secundária de Peniche, onde fiquei de boca aberta e coração apertado com os corredores donde saí no final do século passado — e onde me assustei ao reparar que nenhum daqueles alunos tinha nascido quando eu saí da escola.

Rumo à Trafaria numa manhã de Primavera

Mas hoje queria falar, em representação de todas as outras, da última escola a que fui até agora: a Escola EB 2, 3 da Trafaria, convidado pelas professoras Rosa Guimarães e Carla Valente.

Saí de manhã e lá fiz o percurso contra o trânsito, num dos primeiros dias de verdadeira Primavera deste ano.

Atravesso a ponte e enfio-me na auto-estrada da Costa, mas não vou para a praia. Tento ouvir o melhor possível o GPS do telemóvel, que está ao meu lado, no banco do pendura. Consigo dar com a escola, estaciono e reconheci logo o cheiro a mar, que me deixou com um sorriso no nariz.

Entrei na escola e reparei numa chaminé plantada no meio dos pavilhões…

Confesso: estava num daqueles dias de dor de cabeça e cansaço. Tento ir à casa de banho e a coisa não corre bem, porque não consigo abrir a porta (sou um pouco trapalhão, não sei se já vos tinha dito). Tremo: será que é hoje que uma destas sessões vai correr mal? Vou até à biblioteca com as professoras, muito simpáticas — os alunos vão chegando, a conversar e a olhar para mim como que a tentar avaliar-me.

A professora apresenta-me, os alunos batem as palmas habituais — e quando digo «bom dia» respondem-me todos com um «bom dia» tão sonoro que me deixou estupefacto. Estavam contentes — e a partir daí foi sempre a subir. Durante duas horas, esqueci-me da dor de cabeça.

O estranho caso dos alunos que lêem

Aquilo que ali conversámos fica entre nós, que lá estivemos. Bem, talvez possa contar uma coisita ou outra. Posso contar como, depois de eu dizer que por vezes é mais fácil falar com alguém que não fala a nossa língua do que com um adepto de outro clube, houve um aluno que me obrigou a dizer o meu clube, deixando metade dos alunos aos gritos de excitação e a outra metade a encolher os ombros…

Os alunos ouviram com atenção e fizeram muitas perguntas. Discutimos palavras diferentes e sotaques doutros sítios, as outras maneiras de falar a nossa língua, as histórias de Camões e outros escritores, bem como uma ou outra cena do filme da família Contreiras, que acompanha, no livro, a língua durante 20 séculos. Falámos ainda de outros livros, futebol, tradução, telemóveis (que ficaram lá fora) — e de tantas outras coisas. Imaginámos Camões a aparecer ali tele-transportado do passado e do susto que o poeta iria apanhar por se ver ali na Trafaria sem aviso. E falámos de palavrões (sem dizer um palavrão), para chegarmos à conclusão que há gente que sabe faltar ao respeito sem dizer uma asneira e, por outro lado, há conversas cheias de palavras feias que, no entanto, são mostra de grande amizade. Como já sabemos: é complicado — mas por mais complicado que seja, é importante falar da nossa língua, que nos une a todos e às vezes nos separa, mas nunca deixa de ser uma parte essencial das nossas vidas. Afinal, é difícil haver dia que passe sem que as palavras de alguém nos façam rir. E é só um exemplo…

Não devia, mas quero muito contar uma coisa que derreteu o meu coração de autor recente: as turmas que ali estavam tinham andado a ler A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, em conjunto, em aulas extraordinárias. Sim, não havia tempo nas aulas de Português, pois têm provas daqui a umas semanas. Mas as professoras tiveram a ideia e os alunos foram aparecendo nessas horas extraordinárias de leitura. Claro que fiquei feliz, mas espero que os leitores do blogue me perdoem o pecado — não é por mim, mas pelo livro e, acima de tudo, por saber que estes alunos do 9.º ano não se importam de passar horas a ler livros sem obrigação. Temos de agradecer às professoras: é delas o trabalho.

Quando terminámos, fomos comer um bolo que a escola preparou para comemorar a semana da leitura. Nesse momento, tive a certeza que ia recordar aquelas horas por muito tempo.

Se escrever não servisse para mais nada, servia pelo menos para isto: conhecer estes miúdos. Apetecia-me saber os nomes deles e agradecer um a um. E apetecia-me conversar ainda mais um pouco. No final, ofereceram-me três excelentes prendas feitas na escola:

Ofereceram-me também o jornal da escola (A Chaminé), onde descobri o que conto já a seguir…

Eça de Queirós na Taberna do Zé da Lídia

Quem já leu sabe que, n’A Incrível História, conto, lá para o final, a história de como, um certo dia, Eça de Queirós comeu um belo prato de amêijoas na Póvoa de Varzim.

É ficção, presumo, embora não possa ter a certeza que a cena não tenha acontecido mesmo. Sim: há coisas que eu pensava ter inventado e, afinal, são bem verdade. Na Escola Eça de Queirós, descobri alunos que tinham vivido uma das cenas ficcionais do livro: encenaram peças de Gil Vicente usando o português de hoje em dia, imitando o nosso grande dramaturgo, que mais não fez que usar o português dos dias dele. E, tal como no livro, nem todas as reacções foram as melhores. Também dessas tensões e conflitos se faz a história da língua.

Mas voltando à mesa do jantar: Eça pode não ter estado à frente dum prato de amêijoas na Póvoa, mas na Trafaria há um restaurante — a Taberna do Zé da Lídia — que, uma vez por mês, em colaboração com a escola, faz uma refeição temática com pratos das obras de Eça. Aqui fica um recorte do jornal da escola:

Podia agora aproveitar para discorrer largamente sobre o estado do ensino, etc. e tal — mas não vou cair nesse erro. Afinal, tive só uma meia-dúzia de sessões com alunos e, por isso, não me parece que saiba mais sobre o estado das escolas do que qualquer outra pessoa. O que sei, simplesmente, é que há alunos e professores que sabem receber muito bem e que gostam muito de ler e conversar — e até gostam de comer bem com Eça à mesa. Chega para ficar com um sorriso de felicidade na boca.

Aventuras de portugueses na Galiza

Começo pela multa que apanhei? Ou pelo homem que acha que o desenrascanço é espanhol? Talvez pelas conversas à mesa? Ou pelo velho galego que tinha Lisboa na cabeça?

A semana passada, andei uns dias a falar d’A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa em várias cidades da Galiza: Pontevedra, Lugo, Ferrol e Santiago.

Bem, não será bem «andei»: será mais propriamente «andámos»! Sim, porque fui com a minha mulher e o meu filho (que no final da semana já não estranhava nada conversas entre portugueses e galegos) — e estivemos sempre rodeados de boa gente. (Ah, não me posso esquecer que, no primeiro dia, os meus pais deram um saltinho a Pontevedra — que a Galiza é já ali.)

Foram dias muito intensos, com muita conversa e muitos quilómetros. Aprendi muito, claro está. Aprendi, por exemplo, o que são as Escolas Oficiais de Idiomas, escolas públicas onde adultos aprendem línguas estrangeiras — algo que não existe em Portugal. Foi em três dessas escolas que falei — e terminei a tour na livraria Ciranda, em Santiago de Compostela (estas as palavras com que o José Ramom Pichel apresentou o livro). As conversas duraram todas por volta de duas horas, mas passaram num instante — e continuaram à mesa. Foi um prazer.

Pergunto agora: quantos portugueses saberão que há milhares de galegos a aprender português à noite? E quantos adivinhariam que tantos galegos iriam querer falar da língua portuguesa pela noite fora?

Foi muito bom.

Que língua é esta?

Um dos temas de que falámos nas sessões foi a dificuldade que muitos portugueses sentem em distinguir o espanhol do galego. Muitos alunos, que estão a aprender português durante anos, queixam-se disto: chegam a Portugal e, falando galego ou mesmo o português aprendido nas tais Escolas Oficiais de Idiomas, recebem respostas em espanhol.

Em Ferrol, por exemplo, ouvi a incrível história do galego que foi a Portugal e esteve 10 minutos à conversa com um português — com o português a falar espanhol e o galego a falar português.

Mas, enfim, é verdade que um galego a falar galego sem tentar imitar o nosso sotaque vai encontrar uma imensa maioria de portugueses que ouve a língua e a enfia no saco do espanhol. Nós conhecemos bem os vários sotaques da nossa língua, conhecemos o português do Brasil, sabemos até ao que soa um estrangeiro a falar português — mas o galego, por mais próximo que esteja (e está!), não o conhecemos desde crianças. Não estamos habituados. A distância que sentimos tem mais a ver com essa barreira do desconhecimento do que com a distância real entre galego e português.

O sotaque é o suficiente para nos marcar a língua como espanhol, apesar de, se ouvirmos com atenção, repararmos nos artigos tão nossos («o», «a», «os», «as»), nas palavras que nos soam tão próximas, as frases que, na escrita, são percebidas como português ou, pelo menos, português escrito à espanhola.

Sim, eu que tenho esta pancada das línguas, acho que consigo distinguir bem as línguas latinas próximas. Cada um tem as suas manias, não é verdade? Mas também eu me confundo. Não sei se hei-de contar o que se passou… Afinal, portei-me mal.

Será que conto? Será que não conto?

Conto, sim.

Um guarda civil a falar galego

Ora, a certa altura, andava eu contente a conduzir e a conversar pelos verdes campos que vão de Compostela a Lugo, quando vejo um carro a atravessar-se à frente do meu e a pedir-me para fazer o favor de parar à força de sinais de luzes e um imponente «PARE!» no vidro de trás.

Fiquei imediatamente de boca aberta e mãos suadas. O guarda apareceu, simpático, e informou-me que tinha passado por uma zona de 70 km/h à louca velocidade de 90 km/h. Assenti com a cabeça, balbuciei qualquer coisa, fiquei a saber que, «por ser português», teria de pagar ali mesmo 50 euros.

O guarda afastou-se para preencher os documentos e, ao meu lado, o José Ramom Pichel vociferava contra a sorte que nos calhara, secundado pela Zélia.

Eu encolhi os ombros, mas perguntei ao José que história era aquela do «por ser português». Ele também não sabia.

Percebi depois — enquanto os dois guardas, simpáticos, me mostravam a foto do crime — que, por ser estrangeiro, tinha de pagar 50 euros de imediato. A diferença não era o valor, mas o facto de não poder sair dali sem pagar. Respirei fundo: por momentos pensei que Espanha tivesse multas só para portugueses.

Mas porque conto isto aqui? Só por isto: o José Ramom Pichel disse-me, depois, que tinha sido a primeira vez que tinha visto um guarda civil, em serviço, a falar galego. Aliás, o carro que foi multado à nossa frente era de galegos e tudo se passou em espanhol. Pois eu fui multado em galego, «por ser português».

A confissão: eu, nervoso e atrapalhado, não percebi em que língua fui multado. Até eu, louco por estas questões, troco-me todo nisto das línguas próximas se estiver ao lado dum guarda civil.

(O Simão dormia mas, quando soube que tinha sido multado, ralhou comigo.)

A aluna que não sabia o que estava a ouvir

Em Ferrol, tive uma surpresa: apareceram-me lá dois antigos professores de galego da minha faculdade, o Emilio Cambeiro e o Isaac Lourido. O Emilio, no fim, contou-me como uma aluna da FCSH, há uns anos, bateu à porta do gabinete e pediu a medo para falar com ele, mas avisando que não percebia espanhol.

Ele lá lhe explicou que podia falar em galego… E ela assustada, dizia que não, que não percebia nada disso. Ele lá lhe disse que também podia falar em português. Ela sorriu e disse que sim. E lá conversaram durante meia-hora, sem problema nenhum, até ele lhe dizer que tinha estado a falar galego. Ela, peremptória, disse que não, que aquilo era português. Ele insistiu: não! Era mesmo galego…

Também me lembrei do pai da Zélia que, há uns anos, nos disse que, na Televisão da Galiza (que ele vê com gosto), apareciam uns velhotes a falar português. Já aqui contei essa história — mas trago-a de novo para este texto só para vos dizer que, por mais diferenças que se tenham acumulado por várias razões, ainda há gente a falar galego que os portugueses reconhecem como estando a falar a sua língua. E isto é tanto mais espantoso quanto é verdade que desde sempre aprendemos que os espanhóis falam espanhol e ponto final. Nós, portugueses, povo monolingue (dizem), não vemos essas complicações. E mesmo assim o som dum velhote galego a falar ou dum professor que nos tenha dito antes que ia falar português e depois desata a falar galego confunde-nos. Sim, o galego deixa-nos zonzos, porque é tão próximo e, mesmo assim, estranho. Mas depois, claro, entranha-se, como dizia o outro.

(Esta ideia do estranhamento e do entranhamento fui buscar ao texto que Maurício Castro escreveu sobre a sessão em Ferrol.)

A fronteira e o conforto

Bem, indo para lá da língua. Todos sabemos que a fronteira tem a sua importância. A raia divide-nos e já divide há muito tempo. A nossa identidade é portuguesa e não se dilui nem se confunde com as múltiplas identidades galegas. Temos etiquetas diferentes. E há também isto: quando passamos uma fronteira, começamos de imediato a ter atenção às diferenças. A fronteira muda-nos o chip e o que vemos passa a ser espanhol no nosso cérebro. Logo, passa a ser diferente. Reparem: um português que fosse teletransportado num segundo de Santiago para Toledo (por exemplo) veria as diferenças óbvias entre a Galiza e o centro de Espanha e reconheceria que muitas dessas diferenças não existem entre a Galiza e o Minho. Mas um português que vá de carro de Santiago a Toledo nunca passa uma fronteira que saiba reconhecer — logo, não nota as diferenças. Quando passa de Valença para Tui, tem ali as placas a gritar: agora, isto é Espanha. E o nosso cérebro está bem treinado nisto das fronteiras.

Mas a verdade é que uma coisa é a identidade política ou nacional, outra é o conforto cultural que sentimos em certos locais. Como vários galegos me disseram, os galegos podem assumir a sua identidade espanhola (há excepções, claro), mas quase todos se sentem muito confortáveis em Portugal, esse país estrangeiro que está tão próximo — sentem-se bem mais confortáveis do que em certas regiões de Espanha. Esta sensação de conforto não põe em causa a identidade nacional que aprenderam desde crianças: é apenas a realidade das coisas e a realidade dos hábitos e da paisagem que sentimos à nossa volta.

Dizem-me também, claro, que esse conforto é especialmente forte quando estão no Norte. O Sul, com as suas planícies e as suas vogais desaparecidas, é um pouco mais agreste para um galego viajante.

Isto dizem-me os galegos. Já nós, portugueses, reconheçamos ou não as línguas que por lá se falam (e a mistura é tanta que é de facto difícil), também nos sentimos confortáveis na Galiza. Pronto, sei que é exagerado falar nos portugueses em geral. Atrevo-me então a dizer apenas isto: estes três portugueses que por lá andaram sentiram-se confortáveis e muito bem recebidos.

A Galiza tem isto: é tão próxima, mas não deixa de ter as suas diferenças, as suas surpresas. Os telhados negros de Ferrol, por exemplo, ou os nomes dos pratos… Estas diferenças misturadas com uma proximidade estranha provocam-nos e fazem-nos sair do que nos é habitual para depois reencontrar, a cada esquina, qualquer coisa que sentimos como nossa. Ora, sair do nosso país para saber mais sobre nós — haverá melhor definição de «viagem»? Conto dois episódios: o velho que sabia Lisboa de cor — e o famoso desenrascanço… espanhol!

O galego que sabia Lisboa de cor

Numa das manhãs desses dias, fomos os três visitar a Catedral de Santiago. Não há muito a dizer, basta encontrar fotos, não é? Bem, a certa altura um velho galego chega-se ao pé de nós e oferece um pequeno santinho ao Simão — ouvira-nos a falar português e ficou contente. Começou então a dizer, em português, que conhecia bem Lisboa. Começou então a desfiar os vários nomes dos bairros e zonas de Lisboa: «Saldanha», «Cais do Sodré», «Alfama», «Benfica»… Aí, parou e perguntou o clube ao Simão — depois continuou pelo mapa fora… Estávamos já a afastar-nos dele, para não incomodar mais a fila de turistas atrás de nós, e ainda ouvíamos da boca sorridente do velho os nomes (agora já fora de Lisboa): «Carnaxide», «Oeiras», «Cascais»…

Ele ficou felicíssimo por falar de Lisboa — e por falar com portugueses. E nós felizes ficámos, depois de passar pela surreal experiência de caminhar pela Catedral de Santiago, por baixo de imponentes órgãos e turíbulos fumegantes, a ouvir alguém a gritar: «Cruz Quebrada!», «Bobadela!», «Picheleira!».

O desenrascanço é espanhol? Ou será galego?

Nisto das diferenças e semelhanças… Durante aqueles dias, tinha o carro num estacionamento ao pé do sítio onde ficámos. Numa das noites, não consegui entrar com o bilhete de vários dias que tinha comprado. Tive de tirar o ticket habitual e fui à cabine pedir para resolver o problema (não queria ter de pagar duas vezes, já bastavam as multas).

O homem riu-se porque, pelos vistos, é habitual — testou o meu bilhete, viu que afinal estava bom. Agora, só era preciso convencer o sistema que eu tinha entrado com o bilhete certo. Ele pega num pedaço de metal, vai à cancela de entrada no estacionamento, põe o meu bilhete, vê a cancela a levantar-se, passa com o pedaço de metal no sensor — e a cancela lá baixa, convencida que eu tinha acabado de passar com o meu carro.

O homem riu-se, contente, e disse-me: «Isto é resolver problemas à espanhola!»

Eu ri-me também e lá lhe fui dizendo que também era assim que resolvíamos os problemas em Portugal. Até temos uma palavra, não é verdade? O famoso desenrascanço… Imagino que alguns leitores estão já a correr para ir buscar o mosquete que têm debaixo da cama, a pensar que até o desenrascanço os espanhóis nos querem conquistar! Bem, descansem: este é um desenrascanço muito galego

Neve em Santiago

Já aqui contei como nunca vi nevar em Portugal (e não foi por falta de tentar). Neve já vi na Serra da Estrela. Mas nevar, o verbo, só vi na Galiza e em Inglaterra.

Pois, mais uma vez o feitiço se confirmou: vi nevar em Santiago e vi nevar na auto-estrada entre Ferrol e Santiago. Foi também ali, na Galiza, que o Simão viu nevar pela primeira vez.

Mas, nesse percurso nocturno de auto-estrada debaixo duma espécie de nevão, lembrei-me daquele velho mito de que os esquimós têm não sei quantas palavras para descrever a neve — e que, supostamente, isso tem um impacto profundo na sua visão do mundo. Não é bem assim… Como McWhorter explica bem em The Language Hoax, a verdade é um pouco mais banal e ao contrário: é a visão do mundo que tem um impacto profundo na língua de cada um… Pois não é curioso que sejam os esquimós a ter tantos nomes para a neve?

Enfim, a verdade é que essa ideia de que a língua nos limita o olhar é um pouco exagerada. Nós, que certamente não temos muitos nomes para neve, conseguimos ver claramente as diferenças entre os flocos que nos caem no carro. Ou seja, não precisamos de palavras diferentes para perceber as diferentes neves. E, de facto, nessa viagem, vi neve grossa, quase granizo, outra neve mais leve, a cair levemente, como quem chamava por mim, uma neve misturada com chuva que se tornava mais branca ou mais transparente conforme o quilómetro… A natureza parecia querer brindar-me com uma demonstração em cinco minutos de todos os tipos de precipitação. Eu agradeci, mas, a certa altura, a coisa começou a aquecer, que é como quem diz, a arrefecer. Teria de parar o carro? A Zélia, o Simão e eu lá seguíamos calados, cansados e felizes, mas um pouco preocupados. Por fim, chegámos bem, a neve foi meiguinha. (Ah, sim: os esquimós, foi-se a ver, e não tinham assim tantos nomes para a neve.)

Tudo isto para vos dizer que continuo convencido que as línguas não representam «a alma dum povo»: sim, conseguimos descrever muitos conceitos que são importantes para nós usando uma só palavra, mas para lá desse facto banal, não somos assim ou assado por causa das regras da nossa língua, que devem muito mais ao acaso dos milhões de conversas ao longo dos séculos do que a qualquer alma nacional depurada em livros de gramática.

Mas — e isto é importante — a nossa língua é uma casa onde nos sentimos bem, onde conversamos, onde lemos e escrevemos, onde vivemos com todos os que falam essa mesma língua. E não há dúvida que, na Galiza, nos sentimos em casa quando falamos da nossa língua.

Imensos amigos

Íamos a chegar a Santiago numa destas noites, quando encontro alguém que conheço: o Suso. Cumprimentamo-nos pela janela do carro, alegres pelo encontro imprevisto. Quando fecho o vidro, o Simão está baralhado, pois não está habituado a que encontremos pessoas conhecidas tão longe de casa.

— É nosso amigo?

— Sim, é.

Fez um grande sorriso e disse:

— Nós temos imensos amigos!

E, sim, ali na Galiza senti-me entre amigos — e isso foi o maior prazer deste cirandar pela Galiza a falar de livros e línguas. Obrigado a todos os professores e alunos que me receberam e a todos os leitores que foram à Ciranda. E ao José Ramom e à Sabela, que nos receberam tão bem, e ao Valentim, que organizou a loucura que foi esta semana: muito, muito obrigado!

Volta à Galiza com a Língua Portuguesa

Durante a próxima semana, irei andar pela Galiza a falar sobre a língua e a apresentar os meus dois livros: Doze Segredos da Língua Portuguesa e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. Quem leu os livros, sabe que têm muito a ver com a Galiza — que é um dos segredos da língua portuguesa e cenário de alguns episódios da Incrível História.

A Galiza é também a terra de muitos amigos e óptimos leitores e é sempre um prazer passar a fronteira e continuar a falar na nossa língua.

As datas são:

  • EOI de Pontevedra, dia 20, 19:00
  • EOI de Lugo, dia 21, 20:00
  • EOI de Ferrol, dia 22, 19:00
  • Livraria Ciranda, Santiago de Compostela, dia 23, 20:00

Será uma semana de muitas palavras (e muitos quilómetros). Mal posso esperar para conversar com todos os interessados na nossa língua — e claro que também vou aproveitar para passear um pouco por essas terras galegas de que gosto tanto.

Já agora, os «culpados» por estas visitas são o Valentim Fagim, que teve a ideia e pôs tudo em marcha, a Loaira, da Livraria Ciranda (aproveitem para visitar a página desta livraria dedicada aos livros portugueses no coração de Santiago de Compostela), e ainda os professores de Português Maria J. Sola Bravo (EOI de Pontevedra), Maurício Castro (EOI de Ferrol) e Uxio Outeiro (EOI de Lugo). Muito, muito obrigado!

Porta para o exterior: um documentário galego sobre a nossa língua

Para todos aqueles que, como eu, gostam de falar sobre a língua portuguesa: vale muito a pena ver este documentário de José Ramom Pichel e Sabela Fernández — é extraordinário ver como a nossa língua pode ser uma porta para o exterior ao dispor dos galegos.

Já agora, nós, aqui a sul, também podemos responder abrindo um pouco as janelas e reparando no que dizem os nossos amigos a norte.

Porta para o exterior from axouxerestream on Vimeo.

Uma nota pessoal: sempre que me encontro com o José, já sei que vou ter uma conversa inesquecível, cada um na sua forma peculiar de falar a língua que chamamos nossa. Para lá das saborosas diferenças de sotaque e sintaxe, é muito bom encontrar alguém tão curioso e entusiasmado com algumas das minhas pancadas pessoais: as línguas, os países, Portugal, a Galiza, a sociolinguística (!) — mas também livros, informática, cidades e tantas outras coisas. Obrigado, José!

O soldado romano, a rapariga celta e outros escândalos

nature-184391_1920Vamos então viajar no tempo, à procura da origem da nossa língua. A nossa primeira paragem será nesses tempos em que ainda não havia romanos na nossa península. Já por cá tinham passado fenícios, gregos e todos os outros povos de que ouvimos falar na escola – mas romanos? Ainda não.

Nesse tempo, ali na zona noroeste da Península Ibérica, onde hoje encontramos a Galiza e o Norte de Portugal, viviam povos celtas, que falavam línguas que hoje não conseguimos reconstruir. Talvez a melhor forma de ter uma vaga ideia de como seriam esses falares seja olhar para as línguas celtas que ainda hoje existem, por exemplo na Irlanda, no País de Gales e na Escócia.

Talvez. Porque, para dizer a verdade, a única certeza que temos é que essas línguas desapareceram – não sem deixar alguns vestígios…

(Este é o primeiro capítulo do livro A Incrível História Secreta da Língua PortuguesaA primeira versão do texto foi publicada neste blogue no dia 14 de Dezembro de 2015. O livro foi publicado em Janeiro de 2017 pela Guerra e Paz, com revisão de Inês Figueiras.)

O Império Romano chega ao fim do mundo

Queria agora que imaginassem uma família celta em particular: os Kontebria – ou Contreiras.

Muitos séculos depois, alguns deles ainda vivem na mesma zona, em redor de Braga, entre Guimarães e Tui. No século antes do ano 1, esses Kontebria eram celtas, da tribo dos Galécios, em território onde o Império Romano ainda não chegara.

Ana e Rui Contreiras – perdoem-me o anacronismo dos nomes, mas é mais fácil contar a história assim – são um jovem casal, que se conheceu num mercado ao pé de Braga. Vivem em Citânia de Briteiros e são muito celtas, muito jovens e muito ruivos – como era comum entre os Galécios. Têm uma religião antiga, que os cristãos viriam a chamar pagã. Aquele casal, luminoso e um pouco malandro, prefere adorar o deus Lug, o deus do Sol, que lhes ilumina a pele enquanto se beijam, entre juras de amor na sua língua, ao pé dum riacho qualquer ali para os lados de Guimarães.

Um dia, chegam à aldeia os primeiros rumores das legiões romanas a rondar a zona. Ana está grávida do primeiro filho e, como todas as mães, fica um pouco preocupada. Ouvem-se rumores, é certo – mas será só quando, três anos depois, já têm dois filhos em casa que o brilho das armaduras imperiais surge nas ruas daquela terra. Estamos a falar do fim do mundo, dos cantos mais recônditos da Europa. O Império demorou a chegar a estes recantos – mas chegou.

A população passa por tempos duros de saques e violações: guerra é guerra, mesmo para os civilizados Romanos. Ana, Rui e os filhos escapam ao pior. Ficam escondidos uns tempos na casa duns primos, perto do que viria a ser Braga.

Quando voltam, já o Império se instalou, para não mais dali sair durante muitos séculos.

Os Romanos trazem com eles documentos escritos numa língua que os Celtas não compreendem: o latim da escrita. Ora, este é um latim que nem os soldados falam. Como sabem, o latim clássico tinha palavras como equus, enquanto o latim popular tinha palavras como caballum. Eram duas línguas próximas, mas não exactamente iguais. A verdade é que não foi o refinado latim dos escritores romanos que deu origem à nossa língua. Foi, pelo contrário, a língua dos soldados e do povo, uma língua que ninguém escrevia e muitos desprezavam.

Foi desse falar pouco sofisticado que surgiu o português – mas tenhamos calma que o caminho ainda será longo.

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A língua de casa e a língua da rua

Dois anos depois da chegada das primeiras tropas, com Ana a amamentar um terceiro filho, a população da terra já se desenrasca a comunicar com os invasores.

Os Romanos dizem umas palavras em celta só para se fazerem entender e os Galécios aprendem a falar esse latim de rua – primeiro só umas palavras, depois frases inteiras e, em breve, já conversam sem muita dificuldade.

Tudo é natural: se pensarem bem, os seres humanos comunicam com mais facilidade do que julgamos – para aprender a falar uma língua, não é preciso aulas formais e muitos anos: a melhor maneira é mesmo ter necessidade ou muita vontade. E gente com quem conversar, claro está. Vejamos, agora, o que acontecia na casa de Ana e Rui. Falam todos, entre eles, na língua de sempre, que hoje já não conhecemos: a tal língua celta sem nome.

Na rua, todos falam cada vez mais latim. Não só os soldados e os colonos, mas os próprios celtas, quando, por exemplo, compram e vendem alguma coisa. Afinal, os soldados e colonos ricos são bons clientes.

A população torna-se bilingue sem dificuldade.

*

Uma má notícia: o terceiro filho de Ana e Rui acabou por morrer, como era tão normal nesses tempos. A família junta-se toda ao pé da porta do casal. Chegam-se dois soldados romanos.

– O que é que estes querem? – pergunta o pai de Rui ao filho, que chora abraçado a Ana.

– Tem calma, pai! – O que se passa aqui? – grita Cláudio, um oficial romano que vem a liderar a ronda de três homens.

Marta, uma tia de Ana, diz-lhe: – Meu senhor, morreu um bebé, o mais lindo que já vi. O oficial romano resmunga qualquer coisa, mas sente um aperto no coração, a pensar no seu filho, que ficara na sua terra, uma aldeia perto de Roma. Como estaria ele?

– Os meus sentimentos, minha senhora. Peço apenas que não perturbem tanto a rua.

– Assim faremos. Esta conversa foi em duas línguas: os celtas falaram na sua língua entre todos, a bichanar contra esses invasores, com a hostilidade espicaçada pela tristeza do que acontecera, e Marta falou num latim esforçado ao oficial romano. Choravam em celta, explicavam-se em latim.

A tudo isto assistiam Artur e Inês, os irmãos do bebé que morreu.

Como conquistar uma celta

Estas duas crianças já aprendem as duas línguas, como acontece em qualquer família de emigrantes de hoje em dia – e, tal e qual como nas famílias de emigrantes, a língua dos pais é a menos importante socialmente: é a língua que falam em casa e não usam para mais nada.

Sim, é verdade: nesses primeiros anos depois da invasão, os celtas do Noroeste da Península são como emigrantes na sua própria terra.

Artur e Inês, a viver agora no seio maternal do Império, sabem que o latim é a língua do futuro. Ainda compreendem a língua dos pais e usam-na para falar com eles. No entanto, com os filhos que hão de nascer, já só falarão no latim popular que usam no dia-a-dia.

Ou seja, os netos de Ana e Rui serão já latinos sem tirar nem pôr.

Agora, reparem: tal como acontece quando aprendemos uma língua estrangeira, falamo-la com o sotaque da nossa língua materna. Também Ana e Rui começaram a falar latim com o sotaque próprio da sua língua celta. Foi com esse sotaque que os filhos, Artur e Inês, aprenderam latim. Ou seja, o latim foi aprendido pelas populações ibéricas, mas não sem que as línguas anteriores influenciassem a forma de falar e de aprender esse mesmo latim. Afinal, não havia escolas para todos nem professores de bom latim: havia o dia-a-dia e a língua aprendida na rua.

Artur e Inês falam, então, um latim com sotaque, mas este latim com sotaque é a língua nativa deles. Em breve, o que era uma língua estrangeira, trazida pelos soldados, passou a ser a língua nativa da população da região.

O latim popular com sotaque celta falado na Galécia, há quase 2000 anos, é a semente da nossa língua.

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*

Deixem-me agora contar uma história curiosa, que se passou com Inês Contreiras, a filha de Ana e Rui.

Durante a adolescência, sem a memória das invasões, Inês e o irmão tornaram-se muito amigos de alguns soldados e colonos romanos.

Esta proximidade não era bem-vista pelas gentes da terra – mas os jovens já não queriam saber: tinham vivido desde sempre com os Romanos e estes não lhes metiam medo.

Também os romanos já tinham perdido algum do desprezo pela população nativa, que não parece assim tão primitiva a estes colonos que mal se lembram de Roma – afinal, agora, os celtas até já falam latim.

Com mais ou menos preconceitos, viviam naturalmente uns com os outros.

Um dos amigos romanos de Inês chamava-se Pedro. Era um soldado que tinha sido destacado para a zona ainda com os seus quinze anos. Agora, já achava que aquela região era a sua terra. Uma região de cavalos selvagens a correr por entre as árvores das florestas, à beira dum mar revolto que entrava pela terra adentro nas belas rias galegas. Sim, esta era a sua terra sem tirar nem pôr – até porque estava apaixonado por Inês.

Pedro não sabia como se aproximar daquela mulher linda, de olhos azuis, e sempre um pouco distante, como todas as celtas. Sabia que não se podia precipitar. Nem os seus amigos romanos gostavam daquela situação, nem a família dela iria aceitar tudo aquilo sem pestanejar. Qualquer passo em falso e perderia todas as hipóteses.

Nas suas longas conversas ao fim do dia, o soldado brincava com o sotaque de Inês. Inês fingia-se irritada, mas não se importava. Era muito bom ter aquela atenção do romano. Falavam sempre em latim, claro, embora Inês ainda falasse em celta com os seus pais – o celta era a língua da casa, da família, dos mais próximos.

Pois, um dia, Pedro chega-se ao pé de Inês e diz-lhe:

Bore da! [1]

Ou seja, «bom dia» na língua celta. Tinha uma pronúncia um pouco difícil, mas bem perceptível.

Inês fica parada, de boca aberta. Pedro sorri e começa a conversar nessa língua desprezada pelos Romanos. Diz-lhe que esteve a aprender durante muito tempo, com uns amigos da terra, para poder saber como falar na língua em que ela sonhava.

Ela continua de boca aberta e ele fala cada vez mais depressa. Está nervoso. Não sabe se fez bem.

No fim, ela manda-o calar-se, dá-lhe um beijo e quando terminam diz-lhe:

Rwy’n dy garu di!

Casaram-se algum tempo depois, segundo a religião celta, mas respeitando também os ritos romanos.

O sotaque da Galécia nas ruas de Roma

Anos depois, Pedro levou Inês, numa viagem de meses, a visitar Roma. Depois de abraçar a mãe, que não o via há muito tempo, ouviu a senhora, ainda a olhar de lado para a estranha mulher que vinha com o filho, a dizer:

– Mas que sotaque é esse, meu filho? Ficou admiradíssimo por saber que, orgulhoso soldado do Império, já falava com sotaque galécio.

Inês riu-se muito, nesse dia – e aproveitou para dizer que estava grávida.

O primeiro filho nasceu em casa dos pais dele e a viagem de regresso foi adiada alguns meses, para que o bebé crescesse um pouco.

Voltaram, então, à Galécia. Os filhos de ambos já só aprenderam latim, embora ainda ouvissem os pais a falar celta em certas noites – para dizer a verdade, ainda aprenderam umas quantas palavras da boca dos avós – e, entre os amigos, ainda circulavam velhos palavrões, que os pais não sabiam que os filhos também conheciam.

Os primos, filhos de Artur, que se casara com uma celta como ele, também já só falavam latim. Houve famílias em que tudo isto demorou mais tempo, mas poucas gerações depois já a língua celta estava quase esquecida.

Muitos anciãos criticavam os jovens por desistirem tão facilmente da velha língua dos deuses celtas – os jovens encolhiam os ombros e brincavam em latim.

Houve ali, se virem bem, uma espécie de traição linguística. Mas todos os povos, mais tarde ou mais cedo, passam por isso. As línguas são vítimas de traição, mas não nos esqueçamos que as línguas não existem por si, fora das pessoas que as falam – e a essas pessoas, às vezes, interessa mudar de língua. Foi assim com os Celtas – e foi assim com muitos outros povos ao longo dos milénios.

Apesar dessa «traição», a língua celta do povo da Galécia não ficou totalmente esquecida. Há quem diga que foi essa língua que levou a que, em galego e em português, as palavras que, em latim, começavam por «pl», «cl» e «fl» se tenham transformado em palavras começadas por «ch». Exemplos? A «pluvia» latina deu a nossa «chuva». O verbo «clamare» deu o nosso «chamar». A «flama» latina veio a desembocar na nossa «chama».

É difícil saber quais, mas a verdade é que esses falares celtas já perdidos deixaram alguns traços e, ainda hoje, quando falamos o nosso português, bem latino e bem moderno, ouvimos ecos já muito sumidos do que diziam os celtas nesse dealbar do primeiro milénio.

Quem diria a esses jovens, a falar latim com o estranho sotaque da Galécia, sob o olhar reprovador dos velhos celtas, que a sua nova língua ainda viria a ecoar noutros continentes, mas com uns travos da língua dos seus avós?

O nascimento da nossa língua

GallaeciaSerá então que foi assim que nasceu a nossa língua? Tudo depende da forma como queremos dividir a história das línguas. Estes celtas falavam línguas anteriores, os romanos falavam latim – ninguém se lembrou um dia de inventar uma língua de raiz.

Mas julgo ser natural olhar para este encontro do latim com as florestas da Galécia como a origem distante da língua que falamos. Foi aí que o latim popular – a matéria-prima de que é feito, em grande parte, o português – deu de caras com o primeiro molde que lhe veio a esculpir as feições: as línguas dos povos que já por cá andavam.

Essa matéria-prima ainda há-de passar por muitos outros moldes e será ainda salpicada de muitas outras matérias até chegar à forma que tem hoje – forma essa que continua a mudar, pois nunca chegamos ao ponto onde podemos dizer que uma língua está acabada. Continua sempre a mudar, sempre a surpreender-nos.

Ora, mas a verdade é que, nesses primeiros séculos, por entre as rias e as florestas do Noroeste da Península, já falávamos um latim diferente, ao jeito da Galécia.

A nossa língua dava os primeiros passos.

[1] Sei que não é o ideal, mas usei o galês como substituto da língua celta desta gente ibérica de há muitos séculos. Digamos que foi o celta que tinha mais à mão.

Cenas dos próximos capítulos

A história secreta da língua mal começou: nos capítulos seguintes, veremos como um dos descendentes dos Contreiras vai levar uma mensagem de D. Afonso Henriques até um amigo perdido em Al-Uxbuna; um dos netos conhecerá D. Dinis, outro será inimigo de Gil Vicente — e ainda veremos Camões à bulha por Lisboa, um brasileiro a viver o Grande Terramoto, Eça à conversa na Póvoa… E, por fim, chegaremos a estes tempos de blogues e mensagens electrónicas, em que ainda falamos essa língua que deu os primeiros passos nessas conversas entre soldados e celtas, no início do primeiro milénio.

Tudo isto está no livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa, à venda nas livrarias (ou aqui).

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