Certas Palavras

Livros, línguas e outras viagens

Categoria: Línguas do Mundo (Página 1 de 12)

Qual é a pátria dos bons escritores?

Hoje é dia de entregar a mítica declaração de IRS.

Reparo na cara de susto do leitor mais desprevenido. Vem a um blogue de línguas e livros e aparece-lhe o IRS à frente. O horror!

Antes de fugir a sete pés, deixe-me lá explicar porque trago os impostos à liça. Quero falar dum certo livro e a melhor maneira que encontrei foi falar de impostos.

Sim, a literatura e o IRS parecem viver em universos paralelos — mas, por vezes, lá se encontram à esquina…

Ler no hospital

Há muitos, muitos anos, num desses dias em que os jacarandás também andavam por aí a rebentar na beleza desvairada desta cidade, tive de esperar pacientemente numa bicha do Hospital Santa Maria.

Lembro-me bem desse dia porque andava aflito com o pólen — a Primavera é apetitosa, mas muito perigosa — e ainda porque tinha na mão um daqueles objectos que ajudam a recordar os sítios por onde passamos: um livro.

Estava a ler o segundo volume das memórias de Anthony Burgess: You’ve Had Your Time. Como fui parar a este livro? Não faço ideia. Nunca tinha lido o primeiro volume e, do autor, só conhecia o inevitável Clockwork Orange, que uma amiga tinha recomendado enquanto estávamos a jogar bowling — digo isto só para provar que o mundo é muito pouco arrumado e até o bowling se mistura com o prazer dos livros.

Enfim, lá andava eu no hospital de Santa Maria, à espera. E muito esperei eu nesse dia — o que foi óptimo, pois assim tive tempo para ler. Ah, o livro é demasiado bom para caber num apertado artigo de blogue.

Fiquei a saber que Anthony Burgess foi diagnosticado com uma doença fatal ali por volta de 1960 e ficou com um ano para viver — viver e escrever. Precisava de deixar algum dinheiro para Lynne, a futura viúva. O autor fez da necessidade força, desatou as mãos e escreveu livros como se não houvesse amanhã. E, de facto, não havia amanhã — diziam-lhe os médicos.

O que fazer com esta vida?

O mundo é imprevisível — e a verdade é que Burgess não morreu em 1961, mas sim em 1993, o que foi óptimo para ele e muito bom para nós, seus leitores. Só não foi assim tão extraordinário para Lynne, pois o homem, com uma nova vida entre mãos, esqueceu a mulher e arranjou uma amante italiana — Liana — com quem viveu durante muitos e (diz-me o autor) bons anos.

Pois a verdade é que o sucesso foi-lhe madrasto: os inspectores dos impostos começaram a cheirar a nova fortuna e caíram-lhe em cima. À época, as taxas de impostos britânicas para os rendimentos mais elevados eram assim coisa para chegar aos 90%.

Bedford Dormobile. Numa carrinha deste tipo se escreveram algumas das melhores obras da literatura europeia.

O que fez Anthony Burgess? Fugiu. Sim, tornou-se um exilado fiscal, um nómada, a viver numa Bedford Dormobile pela Europa fora, com a sua nova mulher italiana, a bater furiosamente na máquina de escrever instalada na carrinha, cigarro na boca, lá à frente a estrada sem fim deste continente louco à sua espreita.

Não é isto delicioso? O autor ainda viveu uns tempos em Malta, onde teve de aturar a alfândega, que nessa época de bons costumes cortava as páginas menos próprias dos livros que Burgess encomendava. Sim: os livros chegavam-lhe retalhados, sem sexo nem nada.

Leiam o livro que vale a pena. Temos o mundo nas nossas mãos, desde Malta, Mónaco, Rússia, Austrália, as memórias de como escreveu as grandes obras e ainda confissões sobre a adaptação de Clockwork Orange para cinema.

Ainda estou para ler o primeiro volume — mas dá-me a sensação que vou acabar por reler este antes de me aventurar nos primórdios dessa vida de espantar. E, como livro puxa livro, acabei por ler mais uns quantos romances dele, o que só me fez bem.

Fazer o que se quer com a língua

Anthony Burgess foi escritor, mas não só: também foi tradutor, crítico e compositor (mais de 250 obras musicais!). Além disso, era um apaixonado pela linguística e esse interesse bem marcado pelas línguas ajudou-o a lidar com o seu material de trabalho. (Falei dessa sua faceta linguística há muito tempo, num dos primeiros artigos deste blogue.)

Burgess não só gostava muito de línguas — também criava línguas! Ou melhor, criou um novo inglês, aquele registo adolescente cheio de interferências russas que marcava a sociedade distópica de Clockwork Orange. A linguagem, nas suas misturas, mostra o que somos e como somos — e estas misturas são bem mais interessantes do que o manejo traquejado dum registo puro, fora do mundo.

Aqui fica o início desse romance:

‘What’s it going to be then, eh?’
There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, Dim being really dim, and we sat in the Korova Milkbar making up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry.

Anthony Burgess recusou-se a criar um glossário para ajudar o leitor: aprendemos este novo inglês à medida que lemos o livro. E o certo é que aprendemos! Deste início, ficamos logo a saber como se diz «amigo» entre a juventude dessa época imaginária. «Droog», pois então. Já agora, em russo, o que temos é друг, ou seja,«drug».

Anthony Burgess imaginou o cenário linguístico dum mundo em que a União Soviética era a grande potência. O russo seria a língua da moda, a língua onde os jovens iriam buscar as suas palavras próprias, talvez para horror dos pais. Para lá desse realismo linguístico, essa língua alterada também permitiu ao autor criar novas palavras e obriga o leitor a aprendê-las — e, o que não será o menos importante, ajudou a elevar esteticamente a violência descrita no romance.

Mas para lá de todas as razões e análises, Anthony Burgess brinca com a língua — e brinca com prazer, como se estivesse a dirigir uma orquestra enquanto compõe uma sinfonia naquele preciso momento, a sorrir.


Antes de avançar, deixo ao leitor — como exemplo da imaginação verbal de Burgess nestas memórias — a descrição da Sagrada Família de Barcelona que aparece lá pelo meio:

Gaudí had worked on the structure like a novelist, letting new ideas effloresce as he built. The towers of the Sagrada Familia were more than an unfinished novel; they were a meal — foraminated like waffles, crunchy, with pinnacles of crisp sugar. […] I was desperate to be done with the film scrip and at work on a Gaudiesque novel.

A imaginação do artista junta o que nunca ninguém juntou. Gaudí faz isso e Burgess também. E a vida, a vida: sem querer, por motivos fiscais, enfia um escritor numa carrinha por essa Europa fora e quem ganha somos nós.

Como explodir com as fronteiras das línguas

Hoje escrevo sobre misturas e a passagem por Barcelona trouxe-me à memória outro escritor: Juan Marsé.

No seu romance El amante bilingüe, Marsé imagina um burguês bem catalão que descobre, de repente, que a sua mulher — também catalã dos sete costados e funcionária do departamento linguístico da Generalitat — tem um fraquinho por andaluzes de bigode e cheiro de castanholas.

O marido começa então a transformar-se nesse andaluz dos sonhos da mulher, telefonando-lhe para o trabalho sem dizer quem é.

Numa sátira aos purismos linguísticos da sua cidade, o autor imagina a linguagem desse catalão de identidade desfeita. O protagonista tem de falar em espanhol andaluz quando telefona para a mulher.

Com o andar do romance, começa a esquecer-se de quem é e as duas línguas vão-se fundindo. O livro acaba assim:

Pué mirizté, en pimé ugá me’n fotu e menda yaluego de to y de toos i així finson vostè vulgui poque nozotro lo mataore catalane volem toro catalane, digo, que menda s’integra en la Gran Encisera hata onde le dejan y hago con mi jeta lo que buenamente puedo, ora con la barretina ora con la montera, o zea que a mí me guta el mestizaje, zeñó, la barreja y el combinao, en fin, s’acabat l’explicació i el bròquil, echusté una moneíta, joé, no sigui tan garrapo ni tan roñica, una pezetita, cony, azí me guta, rumbozo, vaya uzté con Dió i passiu-ho bé, senyor…

Esta é uma mistura explosiva, um espanhol andaluz eivado de catalão ou um catalão eivado de andaluzismos — ou qualquer outra coisa que não consigo definir. Não interessa. O livro é cruel e muito divertido. E, pronto, confesso, pode irritar muita gente, mas «me guta el mestizaje».

A pátria dos bons escritores

Juan Marsé, há uns anos, numa entrevista em Portugal, disse esta frase magnífica: «Creio que a pátria de um escritor não é sequer a língua, é a linguagem.» (Visão, 10 de Maio de 2012).

É normal que isto seja dito por um escritor que se sente puxado pelos braços por duas línguas em tensão contínua. Mas a verdade é que esta frase é adequada a todos os escritores, em todas as épocas e lugares. Um escritor usa a língua em que cresceu — mas raramente está limitado a um registo, a um lugar, a uma língua nacional. A literatura — e em especial o romance, esse género que engole a humanidade inteira — faz-se do confronto de várias linguagens, de várias línguas.

Se alguém imagina que um bom escritor é o paladino da língua pura e certinha, vai perder quase tudo o que vale a pena na literatura. Os grandes escritores têm sempre de trair essa primeira pátria. Sim, lêem muito na sua língua (mas não só), inscrevem-se numa tradição literária (mas também gostam de lhe dar com os pés) — e depois misturam, transgridem, brincam, abusam.

Repito: um bom escritor não é animal duma só língua. Habita a linguagem humana, tal como a encontra nas ruas que percorre — e lembremo-nos que, muito pouco pura, a linguagem humana é um bicho selvagem feito de gestos obscenos, carinhosos, aflitivos — um bicho que faz um esforço para se comportar nos salões da sociedade, mas que está sempre à coca para, à primeira oportunidade, fugir para a sua inconfessável vida das ruas. É dessas vidas todas — à mesa da sociedade, pés entrelaçados debaixo da mesa, e ainda na rua, ao beijo, ao soco e em corrida — que se faz a literatura.

Sim, a literatura, em boas mãos, faz-se de tudo: de línguas à mistura, catedrais que parecem refeições, gente fugida aos impostos em carrinhas perdidas pelas estradas da Europa. E tudo isto é delicioso e tudo isto está à distância dum bom livro.

A aventura das línguas na Eurovisão

Falar do ucraniano — ou do português! — a propósito da Eurovisão ainda vá. Agora do basco, do catalão e do galego é que não lembra ao diabo. 


Quando eu era novo, pensava que ganhar a Eurovisão era importante. Não é, claro. Mas esta vitória foi como um sonho vindo das profundezas da nossa infância. Como se recebesse aos 36 a prenda que me prometeram aos 10.

Pois vou aproveitar esta loucura toda com o concurso, loucura essa que deve terminar daqui a uns dois ou três dias, para falar de — surpresa! — línguas. E línguas ibéricas, pois então — afinal, a Península Ibérica arrasou no festival: ficámos em primeiro e os nossos vizinhos em último…

O catalão e o galego na Eurovisão

Andorra na Eurovisão, em 2004. [Fonte.]

Há línguas muito antigas e com pergaminhos de fazer inveja e que não aparecem na Eurovisão. Basta andar uns quilómetros na nossa península e temos o basco, a mais isolada das línguas europeias. Que eu saiba, ninguém alguma vez cantou em basco na Eurovisão, o que é uma pena. Já não acontece o mesmo com o catalão, que foi ouvido entre 2004 e 2009 por causa de Andorra, que lá andou metida.

A primeira canção em catalão ouvida por essa Europa foi «Jugarem a estimar-nos» (não fiquem preocupados comigo: é para saber estas coisas que serve a Wikipédia).

O que quer dizer este título? O verbo «jugar» — que se lê à portuguesa, tal e qual o nosso «jogar» — quer dizer «brincar».

No caso, a forma «jugarem» (primeira pessoa do plural do futuro) lê-se com a sílaba tónica na última vogal e o «m» bem marcado. Será algo como a inexistente palavra portuguesa «jugareme». Corresponde ao nosso «brincaremos».

O verbo «estimar» quer dizer «amar». Logo, o título quer dizer algo como «vamos brincar ao amor» ou «vamos lá fingir que nos amamos, mas só durante esta noite». Os andorranos são assim, o que querem?

E o galego? Ah, foi com um sorriso na boca que vi muitos amigos galegos a afirmar que uma canção na sua língua tinha ganho o festival. Andaram a circular memes com uma frase do género: «O galego não serve para nada? Serve para ganhar a Eurovisão!»

Já o espanhol… Enfim, este ano apareceu por lá de raspão e levou cinco pontinhos muito portugueses.

As línguas da Ucrânia — e da Catalunha

Num festival organizado na Ucrânia, lá ouvimos umas palavras, aqui e ali, nessa língua. No final, até Salvador Sobral disse umas palavras em ucraniano.

Ora, já aqui falámos como aquele país, o segundo maior da Europa, tem questões linguísticas complexas. Não só neste artigo que escrevi sobre a questão linguística naquele país, como também no artigo sobre a ligação entre o nosso acordo ortográfico e a Ucrânia — e ainda o artigo de Serge Lunin sobre o bilinguismo na Ucrânia… e em Portugal!

Julgo que a situação da Ucrânia pode ajudar-nos a perceber o que aconteceria se a Catalunha ficasse independente. Diga-se que o catalão é uma língua minoritária muito mais bem protegida do que outras línguas minoritárias por esse mundo fora — e mesmo em Espanha. Está presente no ensino (de forma intensiva), é usada na literatura, na televisão e por uma percentagem muito significativa da população.

No entanto, não está, digamos assim, garantida. Ao contrário do que acontece com outras línguas não castelhanas de Espanha, o catalão tem prestígio e um apoio social de fazer inveja. Mas ainda corre perigo de o seu uso diminuir e de passar a ser uma língua residual, como é hoje, por exemplo, o irlandês na Irlanda, por mais prestígio que tenha nas instituições da ilha.

O catalão tem ainda este problema: não é reconhecido noutros países. Basta olhar à nossa volta: é difícil para muitos portugueses identificar aquela língua — ora, a língua é uma marca de identidade e a dificuldade de ser identificada pelos outros é um problema mais sério do que possa parecer à primeira vista. Pensem no que sentimos nós quando um estrangeiro nos diz «ah, a vossa língua é muito parecida com o espanhol» com um ar de uma certa indiferença. Os catalães nem sequer chegam a ouvir a frase porque os estrangeiros raramente sabem distinguir as duas línguas. E é pena.

Essa necessidade de identificação pelos falantes de outras línguas tem — quanto a mim — um grande peso no sentimento independentista de muitos povos. O independentismo pode ter razões histórias, económicas, sociais, etc. Mas não deixa de ser, lá bem no fundo, uma necessidade de reconhecimento internacional da nação com a qual nos identificamos. Muitos catalães sentem-se um povo e não como um subgrupo dentro doutro povo maior — e este sentimento transporta-se inevitavelmente para a necessidade de reconhecimento da sua língua.

E, depois, há isto: perguntem a uns quantos madrilenos se achariam bem Espanha levar uma música em catalão à Eurovisão — afinal, o catalão é a língua materna de vários milhões de espanhóis, não é verdade?

Se aceitarem o desafio, registem as respostas — talvez assim comecemos todos a perceber porque é difícil para os catalães encaixarem o seu sentimento nacional nesta Espanha tão castelhana.

E a Escócia?

Curiosamente, a Escócia, apesar de politicamente estar numa situação semelhante à catalã (é uma parte dum Estado maior com leis próprias, um grau de autonomia elevado e um sentimento de pertença nacional muito marcado), sente menos a indiferença dos outros povos.

Porquê? Talvez porque ostenta algumas das marcas de país na cabeça de todos nós: o seu nome é reconhecido no mundo inteiro, as suas tradições mais ou menos inventadas são bem visíveis (kilts e outros que tais), o Estado onde está integrada não esconde o facto de ser um Estado com uma identidade complexa (para dizer o mínimo), etc., etc.

Ah, e tem uma selecção de futebol que joga nos campeonatos que interessam. Não é coisa pouca.

É difícil ser bilingue?

Bem, mas já estamos muito longe do tema do texto. Voltemos à língua. Se a Catalunha se tornasse independente, o catalão seria a língua principal do novo Estado — disso não tenho dúvidas. Mas uma grande parte das famílias continuaria a falar espanhol em casa e na rua.

As tensões que iriam surgir — ou melhor, que iriam persistir, porque já lá estão, claramente — têm algumas parecenças com o que se passa na Ucrânia. De repente, a língua de prestígio do Estado (o espanhol em Espanha; o russo na União Soviética) passaria a ser a língua minoritária no novo Estado (o espanhol na Catalunha; o russo na Ucrânia). Em caso algum a Catalunha seria um país monolingue como é hoje Portugal — tal como a Ucrânia também não é.

Tanto num caso como no outro, os que imaginam uma sociedade monolingue em que há uma língua absolutamente predominante (como acontece, por exemplo, em Portugal) têm de se habituar a viver numa sociedade bilingue com o desconforto associado. Têm mesmo de se habituar à situação — não há muito a fazer e talvez até fosse bom aproveitar o que de bom tem o bilinguismo: todos os cidadãos podem aprender as duas línguas, o que não tem mal nenhum e permite aos ucranianos ler a boa literatura russa e aos futuros catalães independentes (se tal vier a acontecer) continuar a saber usar com mestria e talento a língua castelhana.

Já os espanhóis duma Espanha reduzida ficariam na pior situação de todas: saberiam espanhol e ponto final. Apesar de todas as tensões, saber duas línguas é sempre melhor do que saber só uma. O bilinguismo é desconfortável para o sentimento de identidade (que tende para o simplismo), mas faz bem à vida de cada pessoa bilingue em particular.

A que soa o português?

Uma vitória na Eurovisão não serve para nada — nem tinha de servir. A Eurovisão é uma maluqueira muito europeia. Com algum esforço, vislumbro uma vantagem daquela explosão de luzes e fogo de artifício: o festival andou anos a criar memórias comuns aos europeus, o que não é coisa pouca.

Quanto ao nosso vencedor, o que temos agora é uma música em português que de repente está nas rádios de vários países. Uma música que ajuda os ouvidos destreinados dessa Europa de tantos países a reconhecer bem a nossa língua.

Isto não é coisa para mudar o estado da música portuguesa — seja ele qual for. E ainda bem. Mas, como disse lá em cima, a ligação entre língua e identidade leva-nos a querer que os outros nos reconheçam. É também por isso que sabe bem a um português ver gente de tantos países a dizer: «Ora bem, ouvi esta música em português — levem lá doze pontinhos que a coisa soou-me bem.»

(Por outro lado, a vitória não deixou de ser um prazer muito tribal. Portugal ganhou e pronto. Se tivéssemos ganho com uma música em inglês, desde que a vitória fosse nossa, ninguém ficaria assim muito chateado.)


Ah, com esta mania das línguas ibéricas, acabei por não falar daquilo que pensei quando comecei a escrever: do hebraico, a língua ressuscitada — e do húngaro — e do bielorrusso — e das outras línguas que por lá ouvimos. Na verdade, foram poucas. Para um festival europeu, a coisa foi muito monolingue

Não faz mal. Isto da Eurovisão é de modas. Nos anos 70, as canções soavam todas aos ABBA. Nos anos 90, a Irlanda era o farol da Eurovisão. Depois, veio a loucura dos primeiros anos deste século, em que valia tudo, menos cantar numa língua que não fosse o inglês. Portugal chegou sempre a estas modas com algum atraso e também por isso nunca ganhou nada. Desta vez, atravessou-se à frente e apresentou uma coisa diferente da moda dos últimos anos — e ganhou. É por isso que já muitos prevêem a moda do «vamos todos cantar músicas calmas na nossa própria língua». Será esse o mote da Eurovisão em 2018 — numa cidade perto de si…

O que significa que para o ano terei muito mais para falar sobre as línguas da Eurovisão do que este ano. Cá estaremos, pois então.

O inglês vai desaparecer na União Europeia?

Depois do Brexit, apareceram uns zunzuns sobre o fim do domínio do inglês enquanto lingua franca na União Europeia. A revista The Economist desta semana traz um pequeno artigo sobre as razões por que esse fim é muito pouco provável, apesar da recente piada de Juncker.

Na verdade, a força do inglês, na Europa, é uma espécie de bola de neve gigantesca e o Brexit, nesta questão linguística, não será mais do que uma pequena pedra no caminho. Afinal, como refere a revista (o negrito é meu):

Among students at lower secondary level outside Britain, 97% are learning English. Only 34% are studying French and 23% German. In primary school 79% of students are already learning English, against just 4% for French. Some countries, such as Denmark, begin English in the very first year.

Nos corredores da Europa, o inglês continuará a ouvir-se — e mais ainda nas ruas da Europa, sempre que dois europeus de países diferentes se encontram. Mais: continuará a ser uma das línguas de trabalho e nem sequer vai deixar de ser oficial, pois ainda sobram dois países que têm o inglês como língua oficial (Irlanda e Malta).

Para quem fica um pouco aborrecido com este estado de coisas: lembre-se que, sem a União Europeia e a sua insistência em criar legislação em 24 línguas e em promover o ensino das várias línguas, o domínio do inglês talvez fosse ainda mais avassalador. Por outro lado, a verdade é que o inglês que é usado nos corredores da União Europeia e entre europeus de outras nacionalidades não é bem o inglês britânico. É uma língua simplificada — alguns dizem trucidada —, uma espécie de ferramenta em que pegamos para nos irmos entendendo todos. Essa língua não irá substituir todas as outras línguas nos próximos tempos, mas também não vai desaparecer. Como já aqui escrevi há muito tempo, quanto tentei explicar a razão por que muitos galegos insistem em aprender galego:

As pessoas querem comunicar, claro. Aprendem o que for preciso para isso. Mas não aceitam que lhes digam que a língua em que cresceram não serve para nada. Querem viver na sua língua e, depois, aprender também as línguas que lhes sejam úteis a cada momento da vida.

O nosso inglês muito pouco britânico, mal ou bem, vai continuar a ser útil por muito tempo. A bola de neve não vai cair do precipício.

A língua portuguesa e eu (por Serge Lunin)

Este blogue já me trouxe algumas surpresas muito agradáveis. Uma delas foi esta: descobri Serge Lunin, tradutor e historiador ucraniano que se interessa muito pela língua portuguesa — e, no seu país, tem de viver algumas das questões que abordo por aqui de forma muito próxima e intensa. Desafiei-o a escrever um texto sobre o seu interesse pelo português e sobre como é viver num país com duas línguas. Aqui está o resultado, traduzido, a pedido de Serge Lunin, por Ivan Mestre. É um texto que fala dos sons do português aos ouvidos dum falante de russo, do bilinguismo por que Portugal já passou, da forma como as línguas podem estar ligadas a profundos conflitos nacionais… O texto original está no final, bem como uma pequena autobiografia do autor. [MN]


A língua portuguesa e eu

Serge Lunin
Traduzido por Ivan Mestre.

O português entrou na minha vida por um mero acaso, após comprar um manual de português de 1963 para autodidatas a um alfarrabista. Na altura, o português europeu não era ensinado na União Soviética, e ainda faltava um ano para o golpe de Estado no Brasil. Por isso, ao referir a palavra “escada”, o autor ensinava a pronúncia “izcada”, e só numa nota mencionava que em Portugal se pronunciava como “escada”.

Após a Revolução dos Cravos a situação passou a ser a oposta. Obtive outro manual com a versão europeia, mas comprei ambos os livros já na Ucrânia independente, quando estudava na universidade e recebia uma bolsa de 5 dólares por mês. Na altura não podia permitir-me o luxo de ter Internet ou de viajar para a Europa. Na televisão passavam telenovelas brasileiras traduzidas, já sobre Portugal não sabia quase nada.

Sabia que precisava de fazer alguns esforços. Em Kharkov há uma grande biblioteca científica e lá encontrei um curso audiovisual de português de Antonio Fornazaro, composto por quatro cassetes e um manual. Pela primeira vez ouvi como falavam os portugueses: a sua forma de falar era surpreendentemente agradável. O português do Brasil agrada-me menos.

Em geral, as nossas línguas soam de forma muito semelhante, tal como muitas vezes afirmam as pessoas que não sabem nem russo nem português.

Desde então passaram muitos anos. Há muito que vejo as notícias da RTP ou TVI pela Internet. No ano passado ganhei o concurso de tradução amador “Por Outras Palavras” da Universidade de Lisboa, e finalmente falei com portugueses pessoalmente. Visitei Portugal, aluguei um apartamento em Lisboa e passeei nos seus arredores. Em Portugal está-se muito bem, e se pudesse, ficava muito mais que 9 dias.

O português também me foi útil quando decidi aprender francês, visto que ambas as línguas têm muito em comum. Agora estou a pensar no espanhol, embora já há muito tempo que consigo entender frases simples sem as traduzir (obviamente que nem todas).

Há um ano e meio chegou-me informação sobre uma página da história portuguesa, que por aqui ninguém conhece. Acontece que, em tempos, Portugal foi governado por reis espanhóis e nessa altura as pessoas instruídas falavam nas duas línguas (para além do latim). Comecei a pesquisar a questão ao ler a história da língua portuguesa em russo e ao consultar materiais na Internet em inglês. Mas só em português, espanhol e francês é que existem trabalhos detalhados sobre este tópico. Ainda bem que não me limitei ao inglês!

Na Internet encontrei artigos de Ana Isabel Buescu [http://www.fcsh.unl.pt/faculdade/docentes/aib] e outros especialistas (tive a sorte de poder falar com ela e com mais outros dois pessoalmente em Lisboa). De seguida li a tradução portuguesa do trabalho de Pilar Vázquez Cuesta, que é o único que explora esse tema. O livro foi-me enviado de Portugal por um amigo meu.

Eis o que descobri:  o rei João IV publicou um livro em espanhol depois de ter subido ao trono e quando liderava a guerra de restauração da independência. O poeta Jerónimo Baía elogiava o seu filho, Afonso VI, pelas vitórias sobre os espanhóis… em espanhol. Nas peças de Gil Vicente e Pedro Salgado, uma das personagens falava em português, enquanto a outra respondia em espanhol…

Porque me interessei tanto por isto? Estas situações de bilinguismo são normais na Ucrânia. Falo em russo, mas posso mudar para o ucraniano quando é mais apropriado, visto que as duas línguas são tão semelhantes entre si como o português e o espanhol. Frequentemente na televisão ou em apresentações de livros as pessoas conversam nas duas línguas simultaneamente. Alguns dos escritores de expressão ucraniana mostram as personagens que falam russo de forma negativa, tal como o dramaturgo Simão Machado fazia.

Não duvido que alguns portugueses se possam rir de mim, dizendo que só noto tal semelhança porque vivo na Ucrânia. Para Portugal tudo isto são águas passadas, mas aqui está em jogo o bem-estar de muitos milhões. A guerra no Leste da Ucrânia já se prolonga há três anos. A minha cidade não foi muito afectada. Apenas uma vez ouvi disparos, e de outra vez houve a explosão de uma granada, mas as cidades mais a sul não têm tido tal sorte.

Em ambos os exércitos fala-se o russo frequentemente. A diferença reside no facto de que, no exército ucraniano, todos entendem ucraniano e muitos falam nesta língua. Entre os que vieram da Rússia para combater na nossa terra ninguém entende o ucraniano e alguns odeiam-no.

O conflito entre as duas línguas dura há 25 anos, desde a independência da Ucrânia. Agora tornou-se mais exacerbado, porque os que justificam a invasão por parte da Rússia com a defesa das pessoas de expressão russa (eu, por exemplo, sou uma delas) dão uma boa desculpa para os que odeiam a língua russa proporem leis que tornam a minha vida ainda mais difícil.

Todos os dias no Facebook e noutros sítios centenas de pessoas discutem acesamente o conflito linguístico. Infelizmente, na Ucrânia desconhecem a experiência dos outros países, em que existem problemas semelhantes. As emoções acabam por afastar qualquer desejo de estudar a história de outros países e procurar analogias.

É daí que surge a minha vontade de fazer alguma coisa para abrir os olhos das pessoas. Decidi fazer uma coletânea de autores da Península Ibérica sobre a situação linguística em Portugal nos séculos XV – XVIII, e já escrevi um artigo sobre o tema para o site Historians, onde publico artigos sobre a história da Ucrânia.

Eu próprio consigo traduzir do português para o russo e para o ucraniano. Do espanhol e do francês terei que procurar tradutores. As editoras ucranianas já demonstraram interesse no tema, mas se ninguém lhes der um subsídio, infelizmente, nada feito. Publicar livros não é nada fácil na Ucrânia.


Serge Lunin

«Vivo na cidade ucraniana de Kharkov (Carcóvia), onde nasci. Sou historiador e tradutor. Entre outros livros traduzi de inglês para russo The Gates of Europe: A History of Ukraine de Serhii Plokhy, professor de Harvard, que gostaria de recomendar a todos. Traduzi do ucraniano Vale Frio, memórias de um rebelde camponês (nacionalista) que guerreara contra os comunistas no ano 1920. Para tal, tive de restaurar o texto original que fora adulterado por várias pessoas. Compus também um comentário abrangente. No ano passado, publiquei um artigo sobre a primeira tradução ucraniana de Clarice Lispector. Comparando trechos do texto original da Hora da Estrela, de uma das traduções inglesas e da tradução russa (não muito boa), mostrei que o livro fora na verdade traduzido de russo. Como podem ver, gosto da história, das línguas estrangeiras e de chatear os outros.»


Португальский язык и я

Сергей Лунин

Португальский вошёл в мою жизнь случайно — я купил за полдоллара у букиниста самоучитель 1963 года. Европейский португальский в Советском Союзе тогда не преподавали, а до переворота в Бразилии оставался ещё год. Поэтому автор учил произношению «искада» и только в примечании упоминал, что в Португалии говорят «ишкада».

После Революции гвоздик всё стало ровно наоборот — у меня есть и другой советский учебник, рассчитанный на европейский вариант. Но купил эти книги я уже в независимой Украине, когда учился в университете и получал стипендию 5 долларов в месяц. Тогда я не мог позволить себе ни Интернет, ни поездки в Европу. По телевидению показывали бразильские сериалы в переводе, о Португалии же я не знал почти ничего.

Надо было приложить лишь немного усилий. В Харькове есть крупная научная библиотека и там нашёлся курс Антонию Форназару: четыре кассеты и учебник. Я впервые услышал, как говорят португальцы — их речь оказалась на удивление приятной на слух. Бразильский португальский мне нравится меньше.

Вообще, наши языки звучат очень похоже, как время от времени проговариваются люди, что не знают ни русского, ни португальского.

С тех пор прошло много лет. Я давно уже смотрю по Интернету новости RTP или TVI. В прошлом году победил в любительском конкурсе переводов Лиссабонского университета «Иными словами / Por outras palavras» и впервые поговорил с португальцами лично. В этом году впервые побывал в Португалии, снял квартиру в Лиссабоне, повидал и окрестности столицы. В Португалии очень хорошо, и если бы я мог, то оставался бы там не 9 дней, а намного дольше.

Пригодился мне португальский и когда я решил учить французский — нашлось много похожего. Теперь подумываю об испанском, хотя простые фразы по-испански давно уже могу понять и без перевода (конечно же, не все).

Полтора года назад мне попались сведения о странице португальской истории, которая здесь никому не известна. Оказалось, когда-то королями Португалии были испанские короли, а образованные люди писали на обоих языках (и ещё латыни). Я стал изучать этот вопрос: прочёл историю португальского языка на русском, посмотрел кое-что в сети по-английски. Но по-настоящему серьёзные труды есть только по-португальски, по-испански и по-французски. Как хорошо, что я не ограничился только английским языком!

В Интернете нашлись статьи Аны Изабел Буэшку и других учёных (с ней и ещё двумя мне повезло поговорить лично в Лиссабоне). Затем я прочёл в португальском переводе труд Пилар Васкес Куэсты — единственную книгу на эту тему. Мне прислал её друг из Португалии.

И вот что я узнал: Жуан IV издал фолиант по-испански, уже когда был королём и вёл войну за восстановление независимости. Поэт Жерониму Баия восхвалял его сына, Альфонса VI, за победы над испанцами — тоже по-испански. В пьесах Жила Висенте и Педру Салгаду один персонаж произносил реплику по-португальски, другой отвечал по-испански…

Почему это так меня увлекло? Такие ситуации — обычное дело в Украине. Я говорю по-русски, но могу перейти на украинский, когда это уместнее, ведь языки отличаются друг от друга так же, как испанский от португальского. Часто на телевидении или на презентации книги люди ведут беседу на обоих языках одновременно. Кое-кто из украиноязычных писателей делает отрицательных персонажей русскоязычными — подобно тому, как поступал драматург Симан Машаду.

Не сомневаюсь, что некоторые португальцы посмеются надо мной и скажут, что такое сходство я замечаю только потому, что живу в Украине. Для Португалии всё это — древняя история, но здесь на кону стоит благополучие многих миллионов. Уже три года на Востоке Украины идёт война. Мой город она затронула чуть-чуть — один раз я слышал выстрелы, один раз — взрыв гранаты. Городам южнее так не повезло.

В обеих армиях часто говорят по-русски. Отличие в том, что в рядах украинской армии все понимают украинский и многие говорят на нём. Среди тех, кто явился на нашу землю из России, украинский никто не понимает и кое-кто его ненавидит.

Конфликт между двумя языками длится все 25 лет независимости Украины. Теперь он обострился — ведь те, кто оправдывает вторжение из России защитой русскоязычных, вроде меня, дают хороший предлог ненавистникам русского языка предложить законы, которые сделают мою жизнь труднее.

Каждый день на Фейсбуке и в других местах сотни людей горячо спорят о языковом конфликте. К сожалению, опыт других стран, где есть подобные проблемы, в Украине почти не знают. Впрочем, эмоции отбивают желание разбираться в истории других стран и отыскивать аналогии.

Вот откуда желание сделать хоть что-нибудь, чтоб у людей открылись глаза. Я решил сделать сборник статей авторов с Пиренейского полуострова о языковой ситуации в Португалии в XV–XVIII веках. И написал уже блог на эту тему для сайта Historians, где публикую статьи по истории Украины.

С португальского и на русский, и на украинский я могу перевести сам, для испанского и французского найду переводчиков. Украинские издательства проявили интерес к моей идее, но если никто не даст им гранта, сборника, увы, не будет. Издавать книги в Украине — дело нелегкое.

Fontes das imagens: http://allcastle.info/ e http://mykharkov.info/.

O golo do Éder em muitas línguas

Este vídeo tinha de estar neste blogue… Haverá forma mais agradável de ouvir os sons das várias línguas do mundo do que ouvi-los com o nome do Éder pelo meio? Não me parece. E, já agora, neste vídeo vemos como todos falamos de maneira diferente, mas todos gritamos quando é golo:

(Encontrei o vídeo no mural de Facebook de Fernando Venâncio, que foi buscá-lo ao mural de José Lucas Cardoso.)

A EMEL nos caminhos da língua portuguesa 

Ontem andei num rodopio para conseguir ficar despachado e ir falar um pouco sobre a língua portuguesa. A entrevista era às 19. Ora, fiz contas e fui para o carro quando faltava menos de uma hora, para ir pôr a Zélia a casa e então ir para os estúdios. Era tempo de sobra — não fosse dar-se o caso de o carro estar horrivelmente engalanado com fitas amarelas e um autocolante ameaçador no vidro. Ora, eu tinha pago o estacionamento — mas naquele momento percebi que o senhor da EMEL fez bem em bloquear o carro. Porquê? Vejam bem o retorcido da situação: o meu carro está na oficina (por causa dum javali que encontrou o meu pára-choque há uns tempos). Estava a usar um carro emprestado. Estacionei e paguei o parquímetro usando a aplicação da EMEL para telefones. Só que… na verdade esqueci-me que na aplicação a matrícula registada é a do carro que está na oficina. Resultado? Bloqueio. Ora, isto é muito giro mas as entrevistas em directo não esperam — e lá ficou a minha mulher à espera da irmã para ter alguém com carta para receber os senhores e desbloquear o veículo. O que vale é que o funcionário da EMEL foi simpático (contaram-me elas) e até aconselhou a mandar uma explicação para que a EMEL devolvesse o dinheiro da multa. Afinal eu paguei o estacionamento… Porque conto tudo isto? Confesso: é só para poder dizer que, apesar de tudo, cheguei a tempo e horas e lá estive um bom bocado numa conversa bem animada na Prova Oral da Antena 3 para falarmos de dois livros sobre a língua. (Se quiserem, também podem recordar uma outra conversa, em que também falámos dos segredos da língua, já lá vão alguns meses.)

Como irritar alguém que está a ler?

(1) Perguntar «Qual é a história?». Isto é especialmente irritante quando estamos a ler um livro de ciência («A história d’O Gene Egoísta? Hum, havia um gene. Era um bocado egoísta.»). Mas mesmo no caso dum romance, perguntar «qual é a história» é mostrar que não percebemos assim tão bem o que é um romance. Talvez esteja a ser mau — mas, quando estou a ler, sossegado, e de repente tenho de resumir um livro inteiro, fico um pouco irritado, a olhar para o livro e a olhar para a pessoa que me fez tal pergunta. Estraga-me um bocado a leitura, confesso-vos. Pensem n’Os Maias. «Hum, há um rapaz que encontra uma mulher e depois descobre que…» Isto não são Os Maias! É uma má telenovela! Querem mesmo mostrar interesse no livro que alguém está a ler? Peçam, num intervalo da leitura, para pegar no livro. Folheiem, olhem para a capa, reparem nas badanas. Se o leitor quiser falar do livro, garanto-vos que vai aproveitar esse momento para conversar. Mas a verdade é que, muitas vezes, quem lê não quer falar do livro: quer ler, ponto final.

Como convencer alguém de que somos humanos?

O meu irmão Diogo andou a bater-me na cabeça para ler este livrinho: The Most Human Human, de Brian Christian. Porque tinha muito a ver comigo, falava de literatura e tradução e computação (sim, é possível juntar esses temas num só livro) e por outros motivos que já nem me lembro. Ainda resisti uns bons três minutos, mas lá fiz a encomenda. Recebi o pacote e abri com um sorriso parvo na cara, cheirando o livro como viciado que sou. E comecei a ler. O primeiro capítulo está a deixar-me em parafuso: o autor descreve como participou num Teste de Turing, em que seres humanos e computadores tentam convencer pessoas de que são humanos, conversando com elas à distância. Ora, Brian Christian participou como um dos humanos que tenta convencer outros seres humanos da sua própria humanidade — e se pensarem bem, é fascinante pensar no que deve dizer uma pessoa que está a competir com um computador para provar que é humano. Dizemos o quê? «Olha que eu sou de carne e osso!» O computador também sabe dizer isso: afinal, se um computador quiser mesmo passar por humano, mentir é essencial — e muito humano. Mas, enfim, isto já sou eu a delirar — porque ainda não li o livro e já tenho a mente a mil. O meu irmão tinha razão.

Os portugueses já não sabem português?

Este colunista do i teve um Natal infeliz: acreditava que todos deviam pronunciar as palavras como ele (e saber falar de vinhos), mas encontrou um taxista que diz «ròtunda», ouviu um amigo distraído a dizer «vinho muito incorporado», teve mais uns azares desses — e vai daí concluiu que chegámos ao «pico da miséria linguística». Não se fica por aí: conclui, tremendo, que o português, para muitos portugueses, «é já uma língua estrangeira»! Chiça. Ele que escolha um taxista menos dado a pronúncias populares e arranje amigos que percebam de vinho — mas não diga estas enormidades sobre a língua. Reparem: todos estes erros e diferenças de pronúncia existem, é verdade. O problema é essa santa ingenuidade de achar que antigamente não era assim. Ora, desengane-se o colunista: nunca houve um tempo em que os portugueses pronunciassem as palavras da mesma maneira, em que ninguém dissesse palavras mal ouvidas — ou em que aquelas pessoas que escrevem mau português no Facebook fossem portentos da ortografia. Mas, vá, o texto nem acaba mal. O colunista faz um apelo para melhorarmos todos o português — e eu digo que sim e arregaço as mangas, pois há muito a fazer para escrever melhor e falar melhor. Mas acrescento, se me permitem, um outro apelo: também há muito a fazer para pensar melhor sobre a nossa amada língua — sem catastrofismos fáceis e sem criticar a maneira de falar do taxista que nos abriu a porta do carro na passagem de ano.

O homem mais feio da literatura portuguesa

Não é a única razão para ler O Que Fazem Mulheres: também temos um capítulo solto para ser enfiado onde quisermos (salvo seja) e cinco páginas que não são para ler — e lá estão bem fechadas, à espera que algum leitor mais curioso se dê ao trabalho de as destapar. Depois, temos choro e ranho e bacamartes, num romance cómico que brinca sem pudor com os livros que se levam demasiado a sério. Mas, sim, ao acabar de ler o livrinho, o que fica a zoar aos ouvidos é mesmo o génio de Camilo quando descreve, em duas páginas cruéis, um homem de estatura «essencialmente pançuda», pálpebras «túmidas e pilosas como a casca da fava», «bochechas gordurentas», «beiços bicolores», «refegos relaxados», dentes com «uma crusta de cárie» e dois cepos como pernas — estas são apenas algumas das entradas nesse catálogo estupendo da feiura do homem. Rimo-nos e depois paramos de rir, com medo que nos apareça tal figura à nossa frente. E João José Dias nem merecia tal sorte, mas ninguém escolhe o corpo com que nasce. Vá, vão lá conhecer o homem mais feio da literatura nacional. Agradeçam ao Camilo.

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